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Estudos Avançados
Print version ISSN 0103-4014
Estud. av. vol.12 no.32 São Paulo Jan./Apr. 1998
http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141998000100011
CRIAÇÃO / POESIA
A POESIA que apareceu na Rússia a partir do início deste século marcou certamente um dos momentos fortes de nossa cultura.
Tive a satisfação de trabalhar com Augusto e Haroldo de Campos no trabalho de aproximação que resultou nas duas antologias que publicamos (1), além de outros trabalhos. Depois, vi essa tarefa retomada por poetas mais jovens e, por ocasião do centenário do nascimento de Maiakóvski, a Revista USP (2) publicou traduções de seus poemas por Luiz Sampaio Zacchi, Nelson Ascher e Trajano Vieira.
Nos últimos anos tenho traduzido com Nelson Ascher (escritor e poeta), que se encarregou da elaboração poética em português.
Seguem-se uns poucos exemplos, que deverão fazer parte de um livro.
Boris Schnaiderman
Notas
1 Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, Poemas de Maiakóvski, São Paulo, Perspectiva, 1982; os mesmos, Poesia russa moderna Nova antologia, São Paulo, Brasiliense, 1985.
2 Revista USP, nº 19, set./out./nov. 1993, p. 188-203.
| Velimir Khlébnikov "Basta-me..." Basta-me um mínimo: 1912, 1922 Recusa Agrada-me bem mais Janeiro-abril de 1922 |
VIELIMIR KHLÉBNIKOV é poeta das grandes explosões verbais, o descobridor de possibilidades completamente desconhecidas da língua. Mas, ao mesmo tempo, ele tem momentos de sutileza como o do primeiro destes poemas. Já o segundo, com sua declaração firme, dispensa qualquer comentário.
| Óssip Mandelstam "Vivemos sem sentir..." Vivemos sem sentir a Rússia embaixo, Mas onde houver meia conversa sempre Seus grossos dedos são vermes obesos; Sorri largos bigodes de barata; Rodeiam-no cascudos mandachuvas; Um assobia, um rosna, um outro mia, E prega-lhes decretos-ferraduras Degusta execuções como quem prova 1934 |
Este poema parece ter sido a causa principal da prisão de ÓSSIP MANDELSTAM em 1934, o início de um calvário, que incluiria residência forçada em Vorôniej durante três anos, em condições de miséria, cerca de um ano em liberdade, mas sem poder residir em Moscou, nova prisão e permanência num campo de trabalho na Sibéria, onde morreu.
Depois de elaborado o poema, ele foi lido a alguns amigos o suficiente para causar a perdição de seu autor.
| "Crânios humanos somem..." Crânios humanos somem pilha a pilha, Vorôniej "Roubar-me os mares..." Roubar-me os mares, ares, vôo, tolhendo Vorôniej, maio de 1935 |
Estes dois poemas fazem parte de os Cadernos de Vorôniej, que foram escritos durante a residência forçada de ÓSSIP MANDELSTAM naquele cidade e constituem parte importante de sua obra.
| Bóris Pasternak "A fama é reles..." Ter fama é reles; a escalada Criar é se entregar de todo, Cumpre viver, mas sem disfarce, Deixa as lacunas no destino, Some no anonimato e esconde Outros, que irão por tua rota, Não rendas nunca, por motivo 1956 "Quero Chegar ..." Quero chegar em tudo ao cerne, Ao bojo dos dias de outrora, Sempre agarrando toda a série E escreveria, ah, se o lograsse, Seus crimes, fugas e caçadas, Deduziria a essência inata Dispondo cantos em canteiros, E verteria, em verso, aromas Assim Chopin verteu portento O jogo e o suplício do afã de 1956 |
Estes poemas de BORIS PASTERNAK pertencem à última fase, quando ele pretendia chegar à dicção mais direta e singela.
| Marina Tzvietáieva Madrugada sobre os trilhos Antes que o dia adentre De estacas de relento, A névoa paira infinda, De pássaros relento... E sob o olhar-minúcia, Vou espraiá-la além! (Com tantos quantos somem E onde as distâncias entre Antes que o dia aponte Nem falsa, nem mesquinha: 12 de outubro de 1922 |
MARINA TZVIETÁIEVA partiu para o estrangeiro em maio de 1922.
| Poema 8 para as terras tchecas Oh lágrimas nos olhos! Oh monte que apavora, Nego-me a ser. Detida nego-me a uivar demente. Que ouvidos fiquem surdos 15 de março 11 de maio de 1939 |
Após a invasão da Tcheco-Eslováquia, onde havia residido antes de mudar-se para a França, MARINA TZVIETÁIEVA escreveu uma série de poemas arrebatados. Existe tradução brasileira de outro do mesmo ciclo, efetuada por Augusto de Campos e incluída em Poesia russa moderna Nova antologia.
A referência ao ingresso que ela devolve ao Criador é uma alusão direta à passagem de Os irmão Karamazov, em que Ivã diz ao irmão: "Não é Deus que não aceito, Aliocha, eu apenas lhe devolvo respeitosamente o meu bilhete de ingresso"( Livro V Cap. IV "A revolta").
| Vladímir Maiakóvski Despedida Eis o carro. Troquei o último franco. Que horas parte o trem para Marselha? Paris corre ao meu lado enquanto arranco, com toda a graça incrível que revela. Acode, adeus viscoso, aos olhos vis, inunda o coração de pieguice! Viria aqui viver-morrer, Paris, se um tal lugar Moscou não existisse. 1925
Boris Slútzki "Os judeus..." Os judeus não plantam trigo Os judeus são maus soldados Ouço-o desde a infância e logo Eu, que nada comerciei, Fui poupado pela bala |
Este é um dos poemas de BORIS SLÚTZKI publicados na Rússia depois de iniciada a glasnost, bem diferente daqueles que apareceram nos anos anteriores. Evidentemente, ele os foi guardando na gaveta e, assim, apareceu um poeta explosivo, revoltado, em lugar do escritor bem enquadrado nas normas oficiais.
| Aleksander Tvardovski "Tudo reduz-se ..." Tudo reduz-se a um único preceito, Jamais, por nada, confiaria a posse Respondo pelo que é meu, e somente 1958 |
ALEKSANDER TVÁRDOVSKI que se consagrou sobretudo com o longo poema narrativo Vassíli Tiórkin, sobre um soldado na guerra com os nazistas, apresentado geralmente como uma das realizações máximas do realismo socialista , dirigiu durante algum tempo, sob o governo de Khruschóv, a revista Nóvi Mir (Novo Mundo). Imprimindo-lhe uma orientação bastante liberal, conseguiu publicar ali materiais que seriam inconcebíveis na imprensa soviética alguns anos antes, inclusive estas quadras.











