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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.13 n.37 São Paulo set./dez. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141999000300016 

CRIAÇÃO / MÚSICA

 

Koellreutter fala sobre "Café"*

 

 

O compositor não existe como reflexo
ou espelho do ser humano a meu ver.

Ele tem que ser coerente não só como criador de uma linguagem musical,
ou seja, um estilo, mas tem que ser coerente também na atuação
como ser humano e isso não é só o que eu acho:
"me esforço para viver de acordo com esse princípio".

 

TIVE UM CONTATO muito breve com Mário de Andrade. Ele escreveu Café nos anos de 1933, 1939 e 1942. Há duas razões fundamentais que me motivaram a compor "Café". Em primeiro lugar, por razão ideológica — por ser uma peça de tendência "socialista". Depois, porque me apaixonei literalmente pela linguagem de Mário de Andrade, pela poética e musicalidade do poema. Sou sensível à linguagem, à Língua Portuguesa, pois para mim, a música resulta naturalmente do poema. Estou trabalhando agora no Macunaíma, do mesmo autor, e estudo-o sob este ponto de vista. Verdade é que escolhi Café para musicar quando estive morando no Japão.

Como já mencionado, sempre gostei da linguagem de Mário de Andrade. Durante minha estada no Japão, estudei Café sob esses mesmos pontos de vista. Procurei este texto devido ao conteúdo ideológico e me apaixonei mais uma vez pela linguagem do mestre. Estava a procura de um texto para uma ópera ou uma cantata. Então, encontrei Café e disse a mim mesmo que "essa é a linguagem que me motivará musical, rítmica e sonoramente".

Também considero importante meu contato com o Terceiro Mundo e, neste sentido, Café é uma coisa típica da representação dos problemas desse setor. Café é uma tragédia, como disse Mário de Andrade, uma tragédia secular humana, que poderia ocorrer também em qualquer comunidade fora do Terceiro Mundo. Por isso dei a "Café" o subtítulo de "Os estivadores".

A linguagem que escolhi para musicar Café é parcialmente modal (faz uma ligação com a personagem da mãe), tonal e ao mesmo tempo dodecafônica não-rigorosa. A partitura tem um caráter estático, próximo às partituras da Idade Média e da Renascença.

Há uma certa referência à obra de Piet Mondrian como "pano de fundo". Em geral, a arte de Piet Mondrian influenciou-me muito no sentido de simplicidade das proporções de relacionamentos, das distâncias no espaço da composição entre silêncio e som, sendo que silêncio em "Café", não é forçosamente ausência de som, mas também predominância de redundância e alguma coisa que talvez possamos chamar de monotonia.

Uso a monotonia como ênfase na linguagem do texto, pois ela tem justamente os aspectos que me motivaram a ir colocando cuidadosamente os elementos de informação, ou seja, os elementos que causam surpresa na composição.

A dodecafonia no entanto não é rigorosa; ocasionalmente são usados apenas trechos da série dodecafônica. Parto do conceito de que a composição deve ter a máxima expressão possível com a utilização do mínimo de elementos, sempre dentro de um princípio de simplicidade...

 

 

* Oratório cênico em três atos, musicado pelo autor, durante o período em que residiu no Japão, a partir do texto escrito por Mário de Andrade.

 

 

 

 

 

 

 

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