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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.15 n.42 São Paulo maio/ago. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142001000200022 

LITERATURA

 

Irmão Lélio, Irmã Lina: incesto e milagre na "Ilha" do Pinhém

 

 

Luiz Dagobert de Aguirra Roncari

 

 

O Pinhém

A FAZENDA do Pinhém é um pouco ilha e um pouco universo, ela tanto se isola, como um lugar florescente no meio de um mar ruinoso, como se basta, quase fechada, aparentemente independente de contatos, embora estes existam e a ameacem. Ela contrasta com relação ao resto dos gerais, onde tudo é bruto e pobre, tanto o lugar como os seres que sobrevivem nele: "a terra e o pasto pobrejam tanto, que o gado deixado lá às vezes nem cresce, fica de ossos moles, se entortando, no tempo-das-águas em muitos lugares tinham de descer com ele para as caatingas". Nesse meio, o Pinhém é um lugar abençoado, tudo nele, naturalmente, é fecundo e propício à vida, liberando assim o homem para outras preocupações além do trabalho, como para o prazer e o amor:

"Mas ali, no Ribeirão do Pinhém, e no São-Bento, era a felicidade de terrão e relva, em ilha farta — capões de cultura alternando com pastagens de chão fosfado, calcáreo, salitrado — quase tão rica quanto as do Urubu-quaquá e do Peixe Manso. Tanto, que às vezes seo Senclér se reanimava, no entusiasmo de que dela pudesse tirar a salvação de seus negócios; mas que, outras horas, num arregalar de tristeza, pensava achando que talvez ele mesmo não soubesse aproveitar tudo aquilo, e tinha medo de ruína próxima" (Guimarães Rosa, 1976: 133, grifo meu) (1).

Como um universo próprio de relações, ainda que vivendo ameaças externas e internas, o Pinhém permitia aos seus homens mais liberdade de escolha do que outros lugares (2). A luta pela sobrevivência não parecia tão opressiva, embora o trabalho ali também fosse árduo, e os homens não estivessem também tão sujeitos às ambições de poder e riqueza como os de fora de lá. Sendo uma propriedade privada, uma grande fazenda de criação, para os homens do lugar, o poder e a autoridade não estavam em questão, e a ascensão social e o acúmulo de riqueza só eram escolhas de alguns. Enquanto que na novela São Marcos a experiência amorosa é contemplativa, está abstraída e concentrada num lugar quase sagrado, onde os três arquétipos do amor são representados como três árvores guias, que podem salvar ou perder o homem (3); e no Grande Sertão, Riobaldo divide ou comparte a experiência amorosa com as ambições de poder, glória e ascensão social; Lélio, no Pinhém, detém-se exclusivamente na busca amorosa. É assim que ele justifica a sua presença na região, como "saudade de destino", a ida ao encontro do seu passado e do seu futuro, de quem poderia religá-lo a uma continuidade para a sua salvação. Desse modo, ele não chega ao Pinhém por acaso; ele sai da Tromba-d'Anta e se dirige para o Norte, porque o seu pai esteve por lá, depois de abandonar a sua mãe. Lélio também deixou o seu lugar e saiu à procura, não propriamente do pai, que já havia morrido, mas do seu destino, no mesmo lugar onde o pai possivelmente encontrara o seu. Empenhado nisso, nada deveria desviá-lo, nem mesmo a Sinhá-Linda, que atravessou o seu caminho e ele acompanhou, mas só até o ponto em que ela não o tirou do rumo, a ida para o Norte — aqui, uma representação carregada de simbolismo. A chegada ao Pinhém foi sentida por ele como a saída da rotina, portanto, como um lugar onde a aventura era possível, no sentido mesmo etimológico do termo — adventura — de que algo de decisivo para o curso do seu destino poderia vir ali ao seu encontro:

"Lélio se estendeu, feliz de seu bom descanso. Já se abençoava de ter vindo para o Pinhém; principalmente, se conseguia solto, dono de si e sem estorvo. Era um novo estirão de sua vida, que principiava. Antes, nos outros lugares onde morara, tudo acontecia já emendado e envelhecido, igual se as coisas saíssem umas das outras por obrigação sorrateira — os parentes, os conhecidos, até os namoros, os divertimentos, as amizades, como se o atual nunca pudesse ter uma separação certa do já passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa de fazer barra. A tanto sentia falta de uma confusão grande, que ajudasse a um não carecer de curtir a confusão pequena das coisas de todo o dia da gente, derredor. E ter tempo para ir se lembrando devagarinho das melhores horas, consumindo. Avante e volta, gostava de galopar, no campo, o galope, o galope. Assim queria já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender. A um modo, quando descobria, de repente, alguma coisa nova importante, às vezes ele prezava, no fundo de sua idéia, que estava só se recordando daquilo, já sabido há muito tempo, muito tempo sem lugar nem data, e mesmo mais completo do que agora estivesse aprendendo" (p. 137, grifo meu).

O que Lélio irá viver no Pinhém, de certo modo, equivaleria ao que Riobaldo viveu no sertão, acontecimentos com alto grau de significação, dignos de serem narrados, compondo uma experiência esclarecedora das suas pessoas, mas cujo interesse ia muito além do autoconhecimento: "Assim queria já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender" (grifo meu). A chegada de Lélio ao Pinhém foi um encontro propício e cheio de agouros, como a chegada do Sol na morada dos gaviões, cujos nomes, Lélio e Pinhém, são onomatopéias de Hélio e dos gritos dos pássaros, por isso, de certa forma, sombra e imagem sonora de coisas maiores (4). O lugar só intensificava o que já era uma disposição intrínseca do sujeito, propiciando-lhe o conhecimento de si através do amor e do amor através das suas experiências. O encontro com o outro era também a oportunidade da reminiscência platônica do esquecido e, como veremos, de algo perdido e que se perdia com o tempo da história: "A um modo, quando descobria, de repente, alguma coisa nova importante, às vezes ele prezava, no fundo de sua idéia, que estava só se recordando daquilo, já sabido há muito tempo, muito tempo sem lugar nem data, e mesmo mais completo do que agora estivesse aprendendo".

 

Seo Senclér e dona Rute

Se o sertão é um espaço aberto, as suas fronteiras são amplas e móveis, não delimitadas, onde os bandos jagunços percorrem propriedades privadas e terras devolutas, terras de ninguém, e nas suas lutas misturam-se interesses privados e políticos, como os de todos os grandes chefes de bandos, o Pinhém é uma propriedade privada e um espaço fechado, o que o torna mais favorável à concentração do que à dispersão, e cada um só tem diante de si a sua própria vida, econômica e afetiva, de modo que está sempre mais sujeito a ter que enfrentar o seu destino pessoal do que a fugir dele. Seo Senclér e dona Rute constituem a família nucleadora e o esteio do lugar, em torno da qual gravita uma série de outras famílias, formais e informais, junto com os vaqueiros solteiros e algumas mulheres agregadas. Dessa forma, a propriedade reúne em si elementos tanto da vida privada quanto da pública: é uma propriedade privada, mas que tem dentro de si também uma vida pública, a das várias famílias e dos vaqueiros e agregados que se relacionam entre si e com a família central. Como o poder e a autoridade não estão em questão, reconhece-se a soberania de Seo Senclér e a política está excluída, a única coisa que se torna de fato pública, sujeita às censuras e aprovações das opiniões, é a vida privada de cada um, inclusive a da família dos proprietários. Todos sabem da vida de todos, o que cada um mostra e esconde, mas que se fica sabendo por meio de terceiros ou de sinais indiretos que nem sempre se consegue ocultar.

Seo Senclér reina soberano no Pinhém, os seus atos são respeitados e não há contestação. Ele distribui as funções e comparte com Aristó, espécie de capataz sábio e sentencioso (condizente com o sentido do próprio nome, aristós, o melhor), a escolha e regência dos vaqueiros, sem interferirem muito nas suas vidas pessoais. Porém a soberania de seo Senclér sobre as pessoas do lugar não se limitava aos interesses econômicos, à boa ordem da fazenda e ao rendimento do trabalho. Ao contrário, parece que estes são desleixados, pois ele está enterrado em dívidas e prestes a entregar a propriedade aos novos donos como forma de pagamento. São eles o seo Amafra e o encarregado Dobrandino, os novos donos do Pinhém, cujos nomes ressoam a chegada da mafra, a gente ordinária, e do dobrão, a moeda antiga, e o fim de um tempo de pessoas ocupadas muito mais com o amor do que com a produção de mercadorias e o acúmulo de bens. O que equivalia, portanto, a um "tempo heróico" que estava se findando e o Pinhém se integraria também como uma "ilha" na corrente do tempo. Era o fim do reinado de seo Senclér, o patriarca da ilha do Pinhém, que se descuidava dos seus interesses financeiros e vivia fora dos freios de dona Rute, deixando-se levar pelos impulsos amorosos. Muitas das mulheres do lugar foram suas amantes: Tomásia, Jiní, Adélia Baiana, além de Mariinha, a mocinha, uma das filhas do Lorindão, apaixonada por ele (5). E isto, apesar dos encantos e das tentativas de controle de dona Rute, inclusive mágicas, como fica dito nesta conversa entre Lélio e Tomásia, uma das prostitutas do lugar:

"E agora, seu Senclér ainda se encontrava com ela? Ah, isso não, fazia muito tempo que não. Mas era por causa que a mulher dele tinha mandado cozinhar para ele bebida de amavías, modo dele desgostar de todas fora de sua casa... Lélio se espantava de escutar aquilo. Ainda mal pudera ver direito dona Rute, mas Delmiro, Pernambo, Canuto, todos com a admiração tinham referido como ela era: linda, macia, branca, do Céu, e uma delicada simpatia tanta — lá em cima, na Casa, dona Rute, flor-d'altura, a que podia ser por esses grandes Gerais todos o rebrilho de uma jóia ..." (p. 175).

A Casa de dona Rute e seo Senclér, sempre que referida, é grafada com o C maiúsculo, de modo a distingui-la das demais e como se fosse a própria ou a única verdadeira casa, a Casa-Grande. Não existe, portanto, aqui, muita variação com relação ao padrão da família patriarcal brasileira. O que muda, é o tom narrativo, que aprecia tudo com uma visão que mistura distância e proximidade. Distância, pela ausência de juízo e de crítica, relatando os fatos com naturalidade e isenção; por exemplo, como se fosse, ao mesmo tempo, a norma e natural que seo Senclér deixasse a sua mulher e fosse servir-se da do Ustavo, a Adélia Baiana, no São Bento. Assim é naturalizado também e cheio de alegrias o amor das prostitutas, que iniciavam, educavam e serviam os vaqueiros que as procuravam aos domingos: "no natural de um que estivesse vindo para lavar as mãos antes do almoço, ou só beber um caneco de leite ao pé da vaca". E, proximidade, pelo fato de o narrador se colocar muito próximo da visão do herói, envolvido profundamente nas relações afetivas e simpáticas das pessoas do lugar. A visão narrativa confunde-se assim, em muitos momentos, com a de Lélio, aderindo e limitando-se à ela, a qual parecia aceitar também os fatos como eles eram, um dado a que não se podia muito resistir ou julgar, cabendo a cada um apenas vivê-los. Este procedimento narrativo ligava uma ponta à outra, fazia o narrador participar do fatalismo e do conformismo da mentalidade do sertanejo e a técnica moderna e sofisticada parecia endossar o pensamento arcaico.

Todo o resto da população do Pinhém era periférica e circundava a família dos ricos proprietários: famílias oficialmente reconhecidas; casais amasiados, "amigação", como Tomé e Jiní, Aristó e Aparecida, Ustavo e Adélia Baiana, com situações mais ou menos estabelecidas, alguns vendo as filhas indo para o casamento e outros vendo-as se desgarrarem em namoros circunstanciais; vaqueiros solteiros; mulheres agregadas, como a Conceição e a Tomásia; algumas marginalizadas, como a Toloba e a Caruncha. Aí as relações variavam, das formais às mais informais, quanto mais as pessoas se aproximavam da periferia, menos mediações tinham e mais rústicas ficavam. O ponto extremo disso foi o encontro e o coito de Lélio com a Caruncha, a estúrdia, no mato, juntando o capim para travesseiro, ela muda, olhando para o pássaro no alto da árvore e, depois, o filho que ficara ali perto, juntando pedrinhas, pedindo para ele contar-lhe uma história do Homem Encantado: "Lélio nunca mais ia voltar ali". Os homens do Pinhém se dividiam, portanto, entre a família ordenada de dona Rute e seo Senclér, na Casa-Grande, uma pequena ilha, e uma massa amorfa e pastosa que a circundava, na qual se podia subir ou descer, dependendo de cada um e do momento, das motivações internas, como a ambição de riqueza de Delmiro, ou das atrações externas, como os olhos verdes enganosos da Jiní. A não ser o Delmiro (6), que tinha um projeto, mas que acabou se frustrando por causa do casamento, os demais viviam ali o seu destino, a parte recebida de cada um, podendo ser melhor ou pior, dependendo, talvez, mais do merecimento pelas vidas passadas do que das suas qualidades e atos, segundo o ponto de vista da mentalidade do lugar. Como o J'sé Jórjo, que havia endoidado, "Deus recolhera o juízo dele, no meio do sono", mas por quê? Não encontravam o motivo, a não ser talvez por alguma mancha numa vida passada. O caso dele é exemplar, pois, como amigo de Lélio, nem mesmo a razão maior para ficar louco ele tinha, que era a incapacidade de amar e fazer amizade, o que dá forma à matéria: "Mas, mesmo que a vida do J'sé Jórjo, de em antes, apagasse as formas, despodida em desgraça, uma coisa valia, e tinha sido certo: que ele fora amigo de Lélio; e ninguém esteja louco quando tem amor ou amizade por outra pessoa" (p. 230).

 

O ciclo do ano.
O tempo fora do tempo: natureza e história

Assim como o Pinhém era uma ilha de bem-aventurança no sertão, o ano em que Lélio permaneceu ali foi para ele como um tempo fora do tempo. Ele chegou "na entrada-das-águas", as chuvas que chegam com o verão, e se foi quando elas retornaram, pelo mês de novembro. Ficou um ano, durante as quatro estações, um ciclo completo do tempo da natureza se sobrepondo aos outros tempos e, com isso, podendo o homem deixar manifestarem-se mais plenamente os próprios humores, também naturais, sujeitos e sintonizados com as determinações das estações. Lélio, que havia deixado o seu lugar — a Tromba-d'Anta — fugindo de uma relação adúltera, se integra rapidamente no Pinhém. Aceita logo os homens do lugar e é aceito por eles. Chega com o seu cavalo como a pedra que faltava naquele jogo de homens, como o número 12, completando assim e pondo fim à instabilidade e à tristeza do número impar: "ainda ali os onze cavalos se ajuntavam, todos eles cabisbaixos". Todo o primeiro movimento do romance é o de integração do herói no novo habitat: a sua apresentação, o conhecimento dos novos companheiros, as provas a que é submetido, as experiências afetivas e cognitivas de que participa, e o amadurecimento adquirido com as satisfações e insatisfações que elas lhe possibilitam. Sendo as suas regências as do Sol e da solaridade, o seu percurso de certo modo está traçado: deixa-se mais conduzir do que se orienta e escolhe o seu destino a partir de um projeto e de uma vontade próprios. Passará por diferentes estágios e conhecerá diferentes amores e amizades, irradiará cada um que conhece com os seus afetos, simpatias e antipatias, assim como sofrerá as atrações de cada um, mas com nenhum conseguirá estabelecer relações que não sejam passageiras ou traçar projetos para o futuro. É todo ele coração, como o Sol, coração do universo, e que pulsa solitário sem ter com quem se fazer companheiro. Só mesmo o milagre para salvar o homem cordial.

O segundo movimento do romance é o da desintegração: a saída do gado que os novos donos vieram buscar e a perda da propriedade de seo Senclér e dona Rute, a doença do Pernambo, a morte do Ustavo, a loucura do J'sé Jórjo, a partida da Jiní e a decisão dele também de ir-se embora, levando consigo Rosalina. No entanto, o movimento é duplo. Ao mesmo tempo que o Pinhém fenece, novos casais se formam e criam novas promessas: Marçal e Biluca, Delmiro e Chica, Canuto e Manuela, Mingolo e Adélia Baiana, o casamento da Jiní com o fazendeiro rico, José Bento Ramos Juca, e até ele e a Rosalina. Recompõe-se o equilíbrio, como se um ciclo findasse e se iniciasse outro. Não sem promessas, pois a partida dos dois para o Peixe-Manso é quase apoteótica:

" — 'Buriti e Boi! Isto sempre vamos ter, no caminho; no caminho, e lá, no Peixe-Manso, Meu-Mocinho...' Aumentava a manhã, e eles apressavam os animais. Ele a ela: — 'É nada?' E ela a ele: — 'É tudo. E vamos por aí, com chuva e sol, Meu-Mocinho, como se deve...' O Formôs corria adiante, latindo sua alegria. — '...Chapada e chapada, depois você ganha o chapadão, e vê largo...' Lélio governava os horizontes. — 'Mãe Lina...' — 'Lina?!' — ela respondeu, toda ela sorria. Iam os Gerais — os campos altos. E se olharam, era como se estivessem se abraçando" (p. 245-246).

O movimento da história parece indicar a transferência da propriedade das mãos de homens de certa estirpe, familiar e patriarcal, para outros de categoria inferior, mais preocupados com os rendimentos e interesses comerciais. Durante a estada de Lélio no Pinhém, esse movimento se conjuga com o cíclico da natureza, que, graças à regência de seo Senclér, subordina o primeiro ao segundo, o que permite ao herói viver as suas fases com toda a intensidade. É um tempo em que ele pode se deixar levar tanto pelas suas próprias inclinações, solares e cordiais, como pelas determinações de cada estação, que o esquentam ou esfriam, desestabilizam ou estabilizam, dependendo das suas influências mais atuantes. Essa variação se traduz nos quatro tipos de amor que ele vive, com quatro mulheres diferentes: Sinhá-Linda (Primavera enganosa), Jiní (Verão quente), Mariinha (Outono apagado) e Rosalina (Inverno milagroso). Não serão amores apenas vividos seqüencialmente, são amores que vão se superpondo e sobrevivendo ao esquecimento. Mesmo depois de acabados, continuam sua vida como seres interiores que mudam de aspecto e de significação. Desse modo vão se integrando com os novos que surgem e participando da formação da memória e da interioridade do herói. Da primavera ao inverno, conheceremos a passagem do homem volúvel e instável ao homem maduro, que escolhe conscientemente o que quer e para onde ir, graças ao lugar, à sua natureza solar, a todos os encontros e desencontros, e às conjunções propícias que iluminaram o seu caminho.

 

Projetar e recordar:
a formação da interioridade e a questão narrativa

O romance é dividido em duas partes não muito distintas, mas cuja significação precisa ser apreciada e entendida. Uma, em que o narrador acompanha muito de perto o herói, segue os seus movimentos exteriores e interiores, limita-se ao seu campo de visão. No seu modo de narrar e nas expressões que usa, porém, dá ao leitor mais do que poderia dar o herói, se fosse ele próprio que narrasse a sua história (problema narrativo complicado, que vai ser resolvido quase à perfeição no Grande Sertão, com a diluição de todo tipo de significantes nos limites da experiência e das possibilidades de expressão do próprio herói, fato que dificulta mais a sua decifração e a torna mais passível de suposições). O narrador de "A estória de Lélio e Lina" dissemina no seu discurso elementos que sugerem outras camadas de significações, que fazem com que a narrativa ultrapasse a dimensão prosaica dos acontecimentos. Essa mesma forma narrativa permanece na segunda parte, porém com uma complexidade a mais. Ela se separa da primeira por três asteriscos, indicando um corte entre uma parte e outra perto do meio da narrativa, mas localizando o herói já no tempo do seu final, quando retornam as águas, com o fim da segunda primavera, que fecha o romance. Se a primeira parte acompanha as expectativas e projeções do herói, dominando a claridade da vida exterior de um homem que aspira ainda "já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender", a segunda parte é composta de recordações. Ela já se anuncia lembrando os homens das suas limitações, "presos debaixo do céu", e das suas condenações, junto com os animais de olhos tristes, por conhecerem as suas sortes e sentirem o sabor, "sabiam", da aflição: "Na entrada-das-águas, subir de outubro, dado o revôo das tanajuras, trovejou forte campos-gerais a fora ao redor de tudo. Presos debaixo do céu, os homens e os bois sabiam sua distrição" (p. 189, grifos meus). Esta parte torna-se ainda mais nublada, não só pelas duas estações que compreendem a sua memória — o outono e o inverno; os amores de Mariinha e Rosalina —, mas também pelas inquietações e reflexividade de um homem que amadurece. As novas experiências não são vividas isoladamente, dividem as suas existências com as rememorações das antigas, que continuam vivas. A construção da subjetividade e o amadurecimento compreenderiam uma espécie de colonização de um interior desabitado e selvagem, que precisava aprender a avaliar e pesar na sua variedade a verdadeira dimensão da experiência, para que ela se acomodasse e participasse da definição de um destino.

 

A solaridade de Lélio: natureza e cultura

Não é só o nome Lélio que lembra o de Hélio e a sua natureza solar. O herói é um ser amoroso que, guiado fundamentalmente pelo coração e calor, procura uma mulher para o casamento e assim fugir do isolamento. Cada uma que cruzava o seu caminho lhe parecia ter vindo em sua salvação. Ele se perguntava se seria essa que o ajudaria a recuperar o seu destino, como na resposta que dá, quando lhe perguntaram o que viera fazer no Chapadão: "Só saudade de destino". E depois, ao interrogarem-no se era solteiro, diz: "Nhor sim, solto, solto". Inovando no modo de entendimento do termo solteiro, sobrepondo à acepção etmológica de solitariu, isolado, uma outra mais próxima da fonética e mais condizente com os seus sentimentos e regência, de alguém solto, que não estava preso a ninguém e a nada. Assim, parecia só depender de um encontro e de uma conjugação a realização do seu destino, como pensara com relação à Chica: "casamento é destino". A esse encontro ele tanto vai à deriva como tem um rumo: desde que se decidira a vir para o Norte, seguia em parte também um caminho previamente traçado. Mas não é ele que o constrói, cabia a ele apenas ir em frente, deixar-se levar até o encontro, como se alguém o esperasse em algum lugar. A escolha não parece ser dele, antes, a sua função era a da irradiação dos afetos que o prenderiam à uma companheira destinada. Na festa, apreciando a beleza e as qualidades de cada uma das três moças solteiras — Chica, Mariinha e Manuela — que estão lá, como as três graças, também procurando um amor, não encontra em si definição e critério para a escolha de uma, é capaz de amar a todas: "Mas, naquela hora, Lélio sentiu, em seu pressentimento, que, qualquer das três que ele escolhesse, com essa podia namorar leal, e mesmo para o finalmente de se casarem, quem sabe, pois seja".

É a própria Rosalina que o identifica com o Sol, que aqui se define como o astro que se deixa guiar pelas inclinações afetivas, sensualidade, falta de critérios, ausência de projeto, mas nem por isso carente de bondade e simpatia (7): "De você eu gosto demais, para saber, meu Mocinho. Você é o sol — mas só ao sol mesmo é que nuvem pode prejudicar" (p. 183, grifos meus). E, um pouco depois, explica a ele como via o desencontro entre os dois: "Agora é que você vem vindo, e eu já vou-m'bora. A gente contraverte. Direito e avesso... Ou fui eu que nasci de mais cedo, ou você nasceu tarde demais. Deus pune só por meio de pesadelo. Quem sabe foi mesmo por um castigo? ..." (p. 183).

Um desencontro que lembra o do Sol com a Lua, quando um chega a outra já vai embora, um reina de dia e a outra de noite, vivendo os dois numa perseguição infinita. E não é de outro modo que Rosalina, Rosa, Zália, Lina, aparece alegorizada na festa, como a própria Lua: "Desde o mais, o Pernambo pôs o verso para dona Rosalina, que rezado: ...Vi o coração do campo, vi o rastro do luar; vejo dona Rosalina, mas nem posso comparar... Dona Rosalina botara um vestido preto, lustroso, a gola escondia todo o pescoço, presa por debaixo do queixo, e os cabelos dela, tão arranjados, tão branquinhos, alumiavam. Ela parecia uma das pessoas mais influídas e alegradas: fazia rumor nenhum, mas como que animava o engenho da festa" (p. 205) (8).

Ela se apresentava como a própria Lua: tematizada, nos versos do Pernambo; representada, pelo rosto branco de cabelos grisalhos, presos, destacando-se do vestido preto lustroso, como a Lua num céu escuro contrastante, o que a fazia brilhar mais ainda, "alumiava"; e exercendo o seu poder de influência e possessão: "Ela parecia uma das pessoas mais influídas e alegradas". E a dança dos dois, Lélio e Lina, antecipa a apoteose do final do livro, como o encontro impossível, milagroso e triunfal, senão ritualístico, "fosse aquela dança uma arte de religião", do Sol com a Lua:

"Mas Lélio nem teve tempo para escolher dama: dona Rosalina veio sorrindo, pegou no braço dele, que era o seu Mocinho — os dois formaram a mazurca dançando. À parte Lélio não se disse a desdém, de dançar com a velhinha antes sopresava-o o afago de todo carinho tanto respeito, uma ausência de si, feito fosse uma arte de religião, aprendida por sempre, fora do crédito vem-vai das coisas — mar o mar. No uso do momento, semelhante se esquecido, não temia nem queria nem consistia nada, mas lá. Al a velhinha se asia tão delicada, senhora de serenim, em giro baile, leve espécie de criança, que sabia se sorrir e olhar, sem estorvo nenhum. — 'Meu Mocinho...' — ela disse — '...antes eu não encontrei você, não podia, meu filho, porque a gente não estava pronta de preparada...' — 'E eu, mãe?' — ele perguntou, sem primeiro se esclarecer. — 'Uma estrelinha brilha, um átimo, na barra da madrugada, antes d'o sol sair...' — assim ela respondeu" (p. 208).

 

A dança da quadrilha:
natureza e mito, informalidade e incesto

A não ser a família de seo Senclér e dona Rute, oficialmente consagrada pelo casamento e solidificada pelas propriedades, que tornavam mais difíceis e complicadas as separações, pois precisavam também ser oficializadas, as demais famílias do lugar beiravam à informalidade. As relações lembravam muito a dança da quadrilha, casais que se formavam e se desfaziam seguindo a música e o ritmo oscilante da natureza. Um baile frenético e cíclico, regido por um marcante caprichoso, mais interessado em provocar encontros proibidos e inesperados, de modo a provocar o riso de todos, do que em seguir a ordem e chegar a uma acomodação conveniente. É uma dança com as suas regras e figuras, mas também cheia de surpresas, que brinca com os destinos dos integrantes. Aos que entram nessa dança, tudo é possível, ninguém escolhe o seu par, todos têm de se submeter às ordens do marcante, e ninguém sabe nas mãos de quem vai acabar, quando lhes é dado o comando da troca.

A essas mesmas possibilidades, incluindo as incestuosas, estão sujeitos os que vivem nessa enorme franja de relações informais da sociedade do sertão. Dentre os homens e as mulheres, como os vaqueiros e as prostitutas, que perambulam de lugar em lugar, de fazenda em fazenda, como a maior parte das personagens deste romance, em que raros nasceram e têm as suas raízes plantadas no Pinhém, quem pode afirmar com segurança que nunca cruzou com uma filha, uma meia irmã, com o pai ou mesmo a mãe numa relação incestuosa? Desse modo, o incesto deve parecer aí muito mais natural do que transgressivo, estava muito mais no horizonte dos homens do sertão do que no dos homens da tragédia, seres de cidades e troncos familiares fortes (9).

Em nenhum momento se explica por que o pai de Lélio, Higino de Sás, abandonou a mãe, deixando-a com o filho, e foi viver nos Gerais, separado e sozinho ou com uma mulher qualquer, embora só tivesse razões para ficar com eles: "A mãe de Lélio se chamara neste mundo Maria Francisca, tinha sido bonita e boa, sempre trabalhadeira, sempre séria; por que, então, o pai tinha precisado de largá-la, de se sumir de casa, para vir p'ra o Urucuia, pra morar com uma mulher acontecida, qualquer, achada de viagem, em beira de cerrado?" (p.159).

Canuto, que "conhecera mais que Lélio Higino de Sás", e dizia ser seu afilhado, ao se referir a ele deixa perceber que o pai vivia uma espécie de amargura, se autopunindo. Ele diz: "Homem sucinto, meu padrinho! Botava pimenta na cachaça, mas bebia só de um gole, em jejum, antes de sair para a campeação... De cara, você tem alguma parecença com ele..." (p. 155). A qualidade comum dos dois ingredientes usados para compor a beberagem — a cachaça e a pimenta — é a de queimar, os quais, reunidos, devem intensificar as propriedades queimativas, principalmente quando se está com o estômago vazio. A função poderia ser a de produzir uma queimação de algo que incomodasse interiormente, com vistas à sua purgação e purificação, e provocar uma dor física interna, de modo a aplacar alguma outra dor ou culpa de ordem moral e psicológica. O Canuto, que reconhecia ter o Lélio, de cara, "alguma parecença" com o pai, em alguns momentos parece ter sido mais do que só afilhado dele, "Canuto conhecera mais que Lélio o pai desse, seu padrinho" (10); são várias as passagens em que se tratam como irmãos: "Malungo, você é como um irmão meu, pois escuta: acabei todo estatuto de compromisso com a Manuela, por bem". Malungo é um termo que, além de ser usado para vizinho e companheiro, que era como se tratavam os escravos que vinham no mesmo barco negreiro, também é usado para irmão de leite ou colaço. Os dois compartilham a Manuela, que por sua vez já se tinha entregue a um fiscal de banco; Canuto diz que não se casaria com mulher nenhuma, alerta o Lélio, "... eu sou com você como um irmão", e depois despeja a sua ruindade: "A Manuela era resto de dois... E era pelo descrédito disso que ele informava Lélio, mais que como amigo, como verdadeiro irmão!" (p. 213). Lélio se ofende com o que ele diz sobre a moça e, quando discutem, chegando próximos a uma briga feroz, travam o seguinte diálogo:

"— 'A babarára! Pois, então, vamos num canto do campestre, p'ra gente se matar...' — Lélio declarou, com todos os dentes da frieza. Canuto fez uma surpresa maior: — 'Malungo...' — 'É peta! Você deixa de partes... Você resume... Você não me remexe...' — 'Mas, me dá a razão. Eu sou afilhado de seu pai...' — 'Minha raiva tem um pai só!'"

Depois, com os ânimos mais serenados, tendo o Lélio declarado que se Canuto não quisesse se casar com ela ele se casaria, eles se repactuam: "— Você Canuto, corre e resolve! O que você me contou, é segredos de morte — assunto que a gente, nós dois, já esquecemos... Agora — até um de nós se casar com ela — eu tomei a Manuela na lei de ser a minha irmã. Você sabe..." "— Pois, você mesmo é que nem um meu irmão..." (p. 220-221).

Quando as relações são esgarçadas, não estão amarradas numa estrutura familiar bem definida, a irmandade ou o parentesco parecem ser mais eletivos, como quando Lélio diz ter esse sentimento pela Jiní, ao vê-la no mais baixo, como uma cobra: "Podia ser minha irmã..."; mas, ainda assim, por que essa insistência e reiteração na alusão de uma certa irmandade entre Canuto e Lélio, de uma mesma filiação? Num certo momento, a própria Rosalina aventa a possibilidade de que tenha tido um filho natural, o que ajudava a explicar o forte ciúme, que chega perto da fúria, de Alípio, seu filho reconhecido, com relação ao Lélio: "Direito ele não tem, de me proibir de te ver, meu Mocinho... Imagina só o que ele me disse: que já estão falando por aí que você de certo também é filho meu, filho-natural... E acha que isso faz ele passar vergonha..." (p. 192).

Essa possibilidade é descartada, quando sabemos que Lélio vem de um lugar distante e tinha mãe conhecida, Maria Francisca. Porém, não podemos rejeitar a de que Rosalina tenha tido filhos naturais, pois ela não a nega e confessa ter tido um passado bem movimentado no plano amoroso, não se sabe bem se de simples namoradeira ou de cortesã, mas flauteou tanto com senhores graúdos, majores e doutores de família, como com simples vaqueiros, tendo sido conhecida por vários apelidos ou nomes-de-guerra:

"Você devia de ter me conhecido era há uns quarenta anos, dançar quadrilha comigo... Então, você havia de me chamar Zália: como o Major João Pedro, o Doutor Guilhermes, o Nhô Eustáquio pai de seo Senclér, o André Faleiros pai de meu filho Alípio, o Anselmão, o João Toá, o Bóque... Rosalina. Você acha bonito, o nome? Já fui mesmo rosa. Não pude ser mais tempo. Ninguém pode... Estou na desflor. Mas estas mãos já foram muito beijadas. De seda... Depois, fui vendo que o tempo mudava, não estive querendo ser como a coruja — de tardinha, não se vôa..." (p. 183, o primeiro grifo é meu)

Quer dizer, não fez como a coruja de Minerva, deixou cedo aquela vida do corpo para se iniciar na do intelecto. Numa outra ocasião, Rosalina confessa que teve duas irmãs: uma, que foi para o convento e morreu quase santa; e, outra, que "moçou, dizem que não houve rapariga que fosse mais dos homens". Depois, diz que ficou no meio, entre uma e outra, e que sempre teve inveja das duas. Conta a seguir, como história exemplar e um dos novos caminhos abertos por Cristo, a vida de Maria Madalena, que reunia em si as duas figuras, a da prostituta e a da santa:

"Atrasmente, meu Mocinho: ao que Nosso Senhor, enquanto esteve cá em baixo, fez uma Santa. Vigia que essa não foi uma puras-virgens, moça de família, nem uma marteira senhora de casa, farta virtude. Ah, ai, aí não: a que soube se fazer, a que Ele reconheceu, foi uma que tinha sido dos bons gostos Maria Madalena..." (p. 216).

Pelo seu passado, portanto, não estava fora das possibilidades o fato de que Rosalina pudesse ter tido algum filho natural. E, se não poderia ter sido o Lélio, por que não o Canuto? Não temos nenhum indício disso, a não ser indiretos, como a reação que ela teve, de autoridade materna, quando Lélio lhe contou como o Canuto vinha se comportando mal com relação à Manuela. Ela respondeu: "Bem que esse Canuto enquadrava para uma boa sova". Um dia, Lélio refletindo sobre a sua própria relação com Rosalina, a interpreta da seguinte maneira: "Assim dona Rosalina tinha gostado dele, como mãe gosta de um filho: orvalho de resflor, valia que não se mede nem se pede — se recebe". Ele insiste, em vários momentos, em chamá-la de mãe, como no diálogo já citado que travam enquanto dançam:

"'Meu Mocinho... — ela disse —...antes eu não encontrei você, não podia, meu filho, porque a gente não estava pronta de preparada...' — 'E eu, mãe?' — ele perguntou, sem primeiro se esclarecer. 'Uma estrelinha brilha, um átimo, na barra da madrugada, antes d'o sol sair...' — assim ela respondeu" (p. 208, grifos meus).

A mesma forma de tratamento ele lhe dá, quando deixam juntos o Pinhém:

"— Mãe, vamos juntos. Se não, eu sei, eu tenho a sorte tristonha". Repete ainda um pouco abaixo: "— Mãe, vamos". E volta a chamá-la assim no final: "'...Mãe Lina...' — 'Lina?!' — ela respondeu, toda ela sorria. Iam os Gerais — os campos altos. E se olharam, era como se estivessem se abraçando".

Essa forma de tratamento poderia ser apenas decorrente de sentimentos eletivos, gerados com o encontro, frutos da atração e simpatia criada entre os dois, uma relação de amor filial e maternal. Porém, num momento em que Lélio reflete sobre a fúria que despertava no Alípio e a proibição que este lhe impusera de que não passasse "a soleira da porta" de Rosalina, havendo mesmo a possibilidade de uma tocaia de seus capangas armados, ele imagina o que os outros não iriam achar e falar se houvesse um escândalo qualquer:

"— 'Um vaqueiro Lélio, rapaz, que brigou de morte com um sitiante daqui de perto, por causa de uma que era a mãe de um e que podia ser a avó de outro...' Mais por mais, que um queira, não queira, a vida de verdade era sempre esquisita e fora de regra" (p. 193).

Rosalina, como "mãe de um", o era de fato, do Alípio, e a "avó de outro", do Lélio, também o poderia ser, por causa da sua idade, porém só no sentido figurado. Mas não haveria também uma outra possibilidade, a de ser de fato a sua avó? Se ela era mãe de um e poderia ser avó de outro, podemos aceitar que ela tivesse idade bastante para ter sido a mãe do Higino, pai de Lélio, e ele o filho natural de que Alípio suspeitava. Se o próprio Lélio, quando a viu pela primeira vez, se enganara com ela e a achara uma mocinha, não seria absurdo pensar que há anos atrás, quando seu pai tinha a sua idade, ele não pudesse ter tido o mesmo engano, vivido a mesma atração, e, antes ainda dela levantar vôo como a coruja de Minerva, realizado esse amor, podendo até ter gerado um filho com ela, como o Canuto? (11). Portanto, não é nenhum absurdo pensar que a amargura do Higino viesse desse crime edipiano, de ter sido filho e marido da mãe, e a alegria de Lélio viesse desse poder de viver o amor perfeito e integral: do amigo, do amante, do filho e do neto. É assim que ele se realiza: ao mesmo tempo amante da velha-moça, que reunia em si, como a filosofia, a sabedoria da experiência e a jovialidade amorosa; filho, como Canuto seu meio-irmão, filhos do mesmo pai; e neto, como filho do filho de Rosalina. Seria uma verdade apenas possível e sugerida, mas, como a própria Rosalina diz, a vida de verdade não "era sempre esquisita e fora de regra", principalmente entre os nômades do sertão?

De um modo ou de outro, Rosalina, a Lina, com a sua representação lunar, de mãe, geratriz, amante, mulher inteira e fecundante, sábia, teria a sua raiz arquetípica na terceira árvore de "São Marcos", a grande suinã. Ela aparece como uma figura que agrega, circundada por seres amorosos, como as formigas e as abelhas, integrativa do masculino, amor sexual, e feminino, o amor humano, mas mais do que tudo, capaz de transcender, sabendo distinguir o falso do verdadeiro amor, como ela observa, repetindo uns versos do Pernambo: "Mas dona Rosalina vagarosamente vigiava-o, feito quem espera uma doença declinar; e governava mais que ele. — 'Aos nuncas...' — ela disse ao seu Mocinho. — 'Uma coisa é buriti, e outra é buritirana...'" (p. 238, grifo meu).

 

A mancha da origem

A novela que abre Corpo de Baile passa-se no Mutum, um lugar distante, e num núcleo familiar isolado e integrado, apesar das ameaças de relações adúlteras, devido à presença do Tio Terêz, irmão do pai. O tio cumpre o papel inscrito no seu nome, Pótnia therôn, Ártemis, "senhora dos animais" (12), aqui representada como força capaz de trazer a desordem e a selvageria à estabilidade familiar, e não é de outro modo que o tio aparece na história, como um caçador acompanhado de sua matilha:

"Agora voltava, mas ouviam a voz do tio Terêz entrando, vorôço dos cachorros. (...) Tio Terêz trazia um coelho morto ensangüentado, de cabeça para baixo. A cachorrada pulava, embolatidos, tio Terêz bateu na bôca do Caráter, que ganiu, saíam correndo embora aqueles todos quatro: Caráter, Catita, Soprado e Floresto. Seu-Nome ficava em pé quase, para lamber o sangue da cara do coelho (p. 15) (13 e 14).

Ele é combatido ferozmente pela Vovó Izidra, na verdade uma tia-avó, irmã da avó materna; ela mandava-o embora do Mutum, antes que o Pai soubesse que era traído por ele, "questão de brigas e mortes, desmanchando com as famílias", e xingava-o de "'Caim' que matou Abel". Traição que poderia já vir se efetivando há tempos, se observarmos como apenas três dos irmãos se pareciam com o pai, "Pai é que é ruivo", enquanto os outros dois com a mãe, pela descrição que nos é dada: "Drelina era bonita: tinha cabelos compridos, louros. O Dito e Tomèzinho eram ruivados. Só Miguilim e a Chica é que tinham cabelo preto, igual ao da mãe. O Dito se parecia muito com o pai, Miguilim era o retrato da mãe. Mas havia ainda um irmão, o mais velho de todos, Liovaldo, que não morava no Mutum. Ninguém se lembrava mais de que ele fosse de que feições" (p. 9-10).

No final da novela, Miguilim, olhando tio Terêz, que ficava com a sua mãe e ocupava o lugar do pai, agora com os óculos emprestados pelo doutor que vai levá-lo para a cidade, diz a ele: "Tio Terêz, o senhor parece com Pai..." Uma frase um tanto ambígua, que abre a possibilidade a mais de uma interpretação, inclusive a de que Miguilim poderia muito bem reconhecê-lo como o seu possível pai. Na história, a Vovó Izidra tem o papel de Hera, protetora do lar e da ordem, de onde deve vir o seu nome, de zygía, "a que une" (15). Ela e o Pai cumprem essa função de guardiães da "ordem patriarcal" vivida pela camada de médios e pequenos fazendeiros, que não tinham posses bastante para se constituir como verdadeiras famílias patriarcais. A análise da situação econômica e fundiária do pai, proprietário endividado que participa do trabalho braçal da terra, assim como a análise das pessoas que comparecem ao velório do Dito, nos permitem ter o perfil desse meio familiar, de pessoas sem propriedades, títulos e sobrenomes importantes.

Uma noite em que os dois ficam fora do Mutum, o Pai e a Vovó Izidra, por razões diferentes, ela é assim descrita pelo narrador, cuja voz acompanha muito de perto as oscilações da visão e dos sentimentos de Miguilim: "Então, aquela noite, sem Pai nem Vovó Izidra, foi o dia mais bonito de todos. Tinha lua-cheia, e de noitinha Mãe disse que todos iam executar um passeio, até onde se quisesse, se entendesse". Livres dos limites familiares e sob as influências contagiantes da Lua, fazem uma verdadeira procissão ritualística de adoração e culto aos seus bons influxos. Num certo momento, São Jorge é lembrado, assim como a sua vitória sobre o dragão da maldade: "— É luão. E lá nela tem o cavaleiro esbarrado..." A uma certa altura também, foi possível ouvir o que Luisaltino — outro namorado da mãe, morto pelo Pai, que depois se suicida — dizia à mãe: "que judiação do mal era por causa que os pais casavam as filhas muito meninas, nem deixavam que elas escolhessem os noivos" (p. 69-70). Era uma espécie de justificativa do comportamento livre da mãe. Desse modo, o que era a regra do fortalecimento e da continuidade da ordem patriarcal, usar o casamento dos filhos e das filhas para se promover as alianças familiares, aqui, nas famílias periféricas, tornava-se numa fonte de insatisfações e desgraças. Não se pode dizer, entretanto, que fosse também de tragédias, pois as mortes não levavam ao impasse, mas à nova reacomodação. No caso de "Campo Geral", elas limpavam o terreno do erro da regra patriarcal, para que Nhanina e Tio Terêz pudessem se reunir e legalizar a relação.

Além de Tio Terêz, a família vivia outras ameaças de desordem — como as da Mãitina, do Majéla/Patorí, das tempestades e dos trovões, dos animais selvagens e da Anta — que precisavam ser controladas, aplacadas e combatidas. No entanto, uma delas era mais difícil de aplacar e trazia um remorso fundo: "No começo de tudo tinha um erro", que é a mancha da herança familiar materna, que aventava inclusive a possibilidade do incesto, a ameaça maior de desagregação da família. Ela é assim referida, quando nos é dito, durante uma cena de rezas para conter a ira da tempestade e dos trovões, procurando juntamente o apaziguamento dos remorsos:

"Mãe de Mãe tinha sido Vó Benvinda. Vó Benvinda, antes de morrer, toda a vida ela rezava, dia e noite, caprichava muito com Deus, só queria era rezar e comer, e ralhava mole com os meninos. Um vaqueiro contou ao Dito, de segredo, Vó Benvinda quando moça tinha sido mulher-atôa. Mulher-atôa é que os homens vão em casa dela e ela quando morre vai para o inferno. O que Vovó Izidra estava falando —...'Só pôr sua casa porta a fora'... — A nossa casa? E que o demônio diligenciava de entrar em mulher, virava cadela de satanás..." (p. 22).

 

 

A menção a esse fato abre duas possibilidades de interpretação, não-excludentes, e que podem se conjugar: uma, a de que a mãe herdava as inclinações da mãe, Vó Benvinda, mesmo que não as seguisse na íntegra, pelo menos o fazia quanto à insatisfação que demonstrava da sua vida no Mutum e no relaxamento dos freios civilizatórios do casamento, podendo vir a se tornar também "cadela de satanás", kíon, mulher que tem mais de um homem; e outra, a de que a mãe, Nhanina, poderia ser filha também do pai do marido, pelo que tinha sido sua mãe, Benvinda, e nesse caso era casada com um meio irmão. O nome de Benvinda bem poderia guardar a mesma ironia das Benignas, da tragédia, As Eumenides, eufemismo para designar as Erínias, as Fúrias, e significá-la como a que trazia a ruína e a desagregação. O germe disso parece já estar plantado. Miguilim, num momento em que se sentia muito constrangido, pensando que estava condenado a morrer, se lembra das suas conversas com Patorí, de como este descrevia as formas sexuais dos animais e dos homens, as mesmas, segundo ele ensinava, e que "de tão feio tudo era bonito". Essa perda da distinção entre humanos e animais coincide com o aparecimento de um porco e a reação afirmativa e incestuosa de Miguilim, associando-o imediatamente aos homens, pelo modo narrativo, em resposta a uma antiga afirmação de Patorí, de que iria se casar com a Drelina:

"Um porco magro, passante, demorou na porta da tulha, esmastigando, de amarelar, um bagaço de cana. Grunhava. Devia de ser bom, namoração. Ele Miguilim era quem ia se casar com Drelina — mas irmão não podia se casar com irmã? Daí, não agüentava: tinha vergonha" (p. 43).

Quando chega no dia derradeiro, decisivo para saber se vai morrer ou não, Miguilim recusa-se a sair da cama e chega perto do delírio, tomado de um "excesso", segundo a Drelina, que vem consolá-lo, e ele lhe diz: "— 'Drelina, quando eu crescer você casa comigo?' — 'Caso, Miguilim, demais'. — 'E a Chica casa com o Dito, pode?' — 'Pode, decerto que pode' — 'Mas eu vou morrer, Drelina. Vou morrer hoje daqui a pouco...' Quem sabe, quem sabe, melhor ficasse sozinho — sozinho longe deles parecia estar mais perto de todos de uma vez, pensando neles, no fim se lembrando, de tudo, tinha tanta saudade de todos" (p. 45).

Os dois casais que Miguilim arranjava, tomado pelo "excesso", eram os dele com a Drelina e do Dito com a Chica, compostos cada um por um indivíduo louro ou ruivo e outro de cabelos negros, um semelhado com o pai e outro com a mãe, sendo que os segundos membros dos dois casais poderiam ser fruto da traição dela com o tio Terêz. O que seria um incesto mais temperado, se já não pudessem ser eles mesmos já filhos de relações incestuosas, mas era esse arranjo do Miguilim que o tornava mais possível e viável. A reflexão final, de que talvez fosse melhor ficar sozinho, para que todos continuassem juntos, pelo menos no seu pensamento, partir do Mutum, daquele ninho de afetos, de amor e ódios, é a premonição que tem Miguilim, produzida pela sua intuição profunda, pois, enxergando mal, via longe, e é o que de fato se realizará. As duas possibilidades, a da traição da mãe e a das relações incestuosas dos avós, e que, se conjugadas, só acentuavam o fato, instauravam entre todos a possibilidade da desordem e da ambigüidade, como a da própria Vovó Izidra, que na verdade era tia-avó. Elas desestabilizavam completamente as relações de parentesco, o que era de fato cada um e a relação de um com o outro: o pai tornava-se tio, o tio pai, o irmão primo, o filho sobrinho, a esposa irmã, e assim por diante, complicando e bagunçando enormemente a relação de um com o outro, e podendo a mistura promíscua vir a se acentuar e se prolongar pelo futuro, com a tendência endogâmica do Mutum. Fosse de uma forma ou de outra, o pecado era grande e era preciso apelar, principalmente, quando vinham as tempestades com a trovoeira:

"Agora não faltava nenhum, acerto de reunidos, de joelhos, diante do oratório. Até a mãe. Vovó Izidra acendia a vela benta, queimava ramos bentos, agora ali dentro era mais forte. Santa Bárbara e São Jerônimo salvavam de qualquer perigo de desordem, o Magníficat era que se rezava! (p. 19) (16).

O que não evita que o final da novela seja de mortes, desagregação e dispersão do Mutum, o amanhecer e o coração familiar do livro, mas a única saída possível. Cada um dos sobreviventes fará a sua trajetória e ainda aparecerá aqui e ali pelo resto do seu corpo. A dança da dispersão irá até a última história, "Buriti", noturna e erótica por excelência, quando então Miguilim chegará a um novo centro de atração e enraizamento, e fundará uma nova família, embora num velho ninho patriarcal. E não se pode dizer que essa nova família fosse livre e expurgada das suas velhas heranças, embora estas já não tivessem tantas razões históricas de sobrevivência. O patriarcalismo vivido no Mutum, embora fosse fonte de laços afetivos profundos e cordiais, era igualmente gerador de deformações desagregadoras, e um não se realizaria sem o outro, como o ovo novo chocado no ninho velho. Como quebrar o círculo de ferro?

 

Sinhá-Linda

Lélio vive o primeiro amor e também o primeiro engano antes ainda do Pinhém, e chega aí graças a ele. De certo modo, a mocinha do Paracatú cruza o seu caminho, desvia-o dele, mas Lélio não muda o seu rumo para o Norte. Esse encontro foi como uma visão e uma ilusão: ele viu só o que quis ver e se deixou encantar pelas suas projeções, ficando cego à verdade das coisas, como só o amor é capaz de nos deixar. Desde que viu pela primeira vez a mocinha do Paracatú, foi tomado de amor e só viu nela encantos; inclusive, o que para os outros era defeito, a seus olhos se metamorfoseava em graça e beleza. As primeiras descrições da mocinha nos são dadas pela visão do outro, do narrador e dos demais vaqueiros que acompanham a comitiva. Como não estão apaixonados como Lélio, as suas versões devem ser mais confiáveis, não estão nubladas pelos enganos do amor:

"Ela era toda pequenina, brancaflor, desajeitadinha, garbosinha, escorregosa de se ver. Quase parecia uma menina. Mas Lélio a escutara um dia responder: 'Olhem, que eu já tenho um quarto de século...' E se transformava, muito séria, de repente, o ar de zangada sem motivos, os olhos paravam duros, apagados, que perto os de uma cobra. Ela não baixava o queixo. Mas, depois, outras vezes, aqueles olhos relumeiavam de si, mudando, mudando, no possível dum brilho solto, que amadurecia, fazendo a gente imaginar em anjos e nas coisas que os anjos só é que estão vendo". "Os outros — o Assis Tropeiro, o Lino Goduino — nem a achavam tão bonita. — 'Só espevitada e malcriadinha, gostando de se sobressair...' — tanto eles diziam. — 'E é até que é uma cachucha nanica, sem o ceitil de graça...' — o arrieiro Euclides falou, pelo desdém das uvas, em tom de todo desprezo. Assaz que Lélio se regozijou de ouvir esse parecer, por mais muito. A beleza dela pudesse ficar para ele só, por nada e suspendida, que mesmo assim o vencia pelos olhos. Porque, desde o momento, nessas ocasiões, ele ouviu de si e se afirmou que, sobre bonita, por algum destino de encanto ela para ele havia de ser sempre linda no mundo, um confim, uma saudade sem razão" (p. 138).

Na visão do outro, a mocinha do Paracatú não tem nenhuma grande qualidade ética ou estética. Numa primeira aparência tem alguma semelhança com a Rosalina, pois, sendo já uma mulher, "já tenho um quarto de século", como Lélio a ouviu dizer, jactando-se, parece ainda uma menina ou mocinha. Porém a semelhança termina aí, pois, ao invés de reunir a jovialidade à sabedoria adquirida pela experiência, como fazia Rosalina, perpetuava o espírito juvenil, sem demonstrar nenhum amadurecimento. Parecia uma daquelas típicas filhas-de-família, das famílias brasileiras abastadas, que, desobrigadas de qualquer compromisso e responsabilidade, se mantêm como eternas adolescentes. É assim que a vêem os outros vaqueiros: arrogante, "zangada sem motivos"; soberba, "Ela não baixava o queixo"; orgulhosa, "garbosinha, escorregosa de se ver"; e como a serpente, pelos seus olhos que "paravam duros, apagados, que perto os de uma cobra". Mais adiante, Lélio dirá que ela tinha os cabelos "acobreados". E não é de outro modo que ela se enuncia, como voluntariosa, cheia de gostos e caprichos, insinuante, escorregadia, que se mostra e se esconde, com grande força de atração, mas também de crueldade. O que atrai Lélio são as diferenças, em tudo ela é distinta e o contrário dele: ela é uma moça de família, rica, urbana, viajada, capaz de comparar o céu do sertão com o da Itália, cheia de tratos e de costumes modernos:

"Ah, nos dias, bem pouquinho dela pudera ter, ou não ter, pois era moça fina de luxo e rica, viajando com sua família cidadoa; gente tão acima de sua igualha (...) A Moça, com o pai, o senhor Gabino, a mãe, dona Luiza, um irmão doutor e outros dois rapazes, que eram do Rio de Janeiro. Lélio estava ali para a ver, agarrar de ver, às penas que pudesse, sempre, sempre. Vê-la, e a ouvir, bastava. Primeiro dia, da ponta-de-trilhos vieram até o Lajeado. — 'Será que já é o sertão?' — ela queria saber. O Sertão, igual ao Gerais, dobra sempre mais para diante, territórios. — 'Mas já é o Sertão, sim!' — ela queria e exclamava: — 'Tanto sol, tanta luz! Este céu é o da Itália...' Ela montava vestida de homem, como um menino. Às vezes dizia engraçadas palavras, se divertia a rodo, com os rapazes" (p. 138-140).

Ela reunia em si tudo aquilo que Lélio não era — "Ela era elegante sem querer, parece que nem sabia que era" — e não tinha: riqueza, poder, relações, segurança, vontade forte, falsa naturalidade, caprichos. Mas não podemos afirmar que ele não ambicionasse também possuir os mesmos atributos e bens. Além de ela ser dona de uma capacidade de ferir, que demonstra, pelo menos, por duas vezes. Uma primeira, quando ele se sacrifica para lhe conseguir o doce de buriti, e vem com a tigela cara, "bonita, pintada com avoejos verdes e roxas flores", e ela, depois de prová-lo, volta-se para os amigos e diz: "que era um doce grosseiro, ruim". E uma segunda vez, quando Lélio vai deixar a companhia deles, embora, no fundo, ele esperasse que ela lhe pedisse para continuar. Ela pergunta-lhe por que não os acompanhava até o fim, ele diz que nem tudo podia ser como a gente queria, deixando uma reticência no final da frase, como um espaço aberto para que ela notasse e lhe pedisse para ficar; mas ela simplesmente se afasta, gracejando com um dos rapazes, e ele ainda ouve: "...Mesmo porque, ora essa!..." Não era à-toa que Lélio se deixava encantar — "imaginar em anjos e nas coisas que os anjos só é que estão vendo" — por alguém que, graças à solidez das bases familiares, se mostrava tão livre e solta dos laços afetivos, justamente o que o prendia tanto, e sem as carências de que ele era portador. O desprendimento e a segurança que ela demonstrava, iludiam-no tanto, que ele era capaz de ver as coisas invertidas, como quando a observa lavando os pés. Antes, ele já havia revelado, com uma certa sutileza, como essa inversão se processava na sua imaginação. Ele nota que ela tinha os cabelos quase acobreados, cortados curtos, e "os pezinhos um pouquinho grandes". Na imaginação de quem está possuído por Amor, os pés, sejam de que tamanho forem, parecerão sempre "pezinhos" e "um pouquinho", cujos diminutivos suavizavam a sua grandeza. E é por esses "um pouquinho grandes" que ele se encanta, quando a vê lavando-os:

"...ele pôde ver seus pezinhos, que ela lavava, à beira da água corrente. Demorou agudo os olhos, no susto de um roubado momento, e era como se os tivesse beijado: nunca antes soubera que pudesse haver uns pezinhos assim, bonitos, alvos e rosados, aquela visão jamais esqueceria" (p. 139-141, grifos meus).

O importante de observar é que esse encantamento e essa atração pelo brilho exterior da riqueza e dos modos não são atribuídos simplesmente a traços psicológico e de caráter do herói. Lélio é de fato afetivo, cordial, deixa-se guiar pelo coração, ama ou odeia, tem simpatias e antipatias, é levado por elas, vive mais as suas projeções do que tem projetos. Quando se encanta pela Sinhá-Linda, ao invés de se apresentar a ela como era, imagina-se muito diferente e superior, como alguém capaz de provocar-lhe a mesma atração desproporcional que ela lhe provocava:

"E viu a Moça. Naquele momento, o que ele sentiu foi quase diferente de sua vida toda. A modo precisasse de repente de se ser no pino de bonito, de forçoso, de rico, grande demais em vantagens, mais do que um homem, da ponta do bico da bota até o tope do chapéu. Tinha vexame de tudo o que era e do que não era" (p. 139).

Esse, porém, não era um traço de caráter, individualizante, exclusivo de Lélio. O autor-narrador, ao simbolizar esse processo vivido por ele, usa uma referência que foi um dos fatos mais ilustrativos das motivações que guiaram o processo de colonização e de formação do país: a busca ilusória de um tesouro perdido, como o Eldorado, que justificaria todos os sacrifícios, mas resolveria de vez todos os problemas, e, o mais importante, evitaria o trabalho penoso, constante, disciplinado e prolongado da rotina. É assim que Sinhá-Linda surge no horizonte de expectativas de Lélio, não como uma igual, uma possível parceira com quem traçar um projeto e um destino, mas como o achado de um tesouro, a itaberaba, a montanha de esmeraldas, e é isso que tanto o atrai e prende:

"Os olhos dela rebrilhavam, reproduzindo folha de faca nova. O olhar, o riso, semelhavam a itaberaba das encostas pontilhadas de malacacheta, ao comprido do sol. Como podia se guardar tanto poder uma criaturinha tão mindinha de corpo?" (p. 140-141, grifo meu).

A "itaberaba das encostas pontilhadas de malacacheta", era a montanha enganosa de mica, sendo "malacacheta" o nome vulgar usado para o que só de longe e à primeira vista parecia pedra preciosa, e que os colonos vindos para cá tanto procuraram, como a montanha de esmeraldas, diamantes e safiras:

"De qualquer modo a explicação fornecida por Teodoro Sampaio, de que o nome 'serra resplandecente' a que se referira Gandavo, corresponde ao tupi Itaberaba e, no aumentativo, Itaberabaoçu, que sem dificuldade se corromperia em Taberaboçu e, finalmente, Sabarabuçu, tem sido geralmente acatada entre os historiadores e pode vir em abono dessa hipótese" (17 e 18).

Embora esse encontro tenha sido rápido, de poucos dias, o processo de idealização e sublimação de Lélio foi intenso. A moça penetrou fundo nele, ganhou vida própria e ocupou o seu imaginário. Durante todo o tempo que ele passou no Pinhém, volta e meia ela ressurgia no seu pensamento, em diferentes situações, como se tivesse sido um grande amor vivido e perdido, porém não esquecido. Ela se enraíza no seu íntimo e, como uma planta que ele cultiva, inclusive no sentido religioso, de lhe prestar culto, ela continua a sua história, cresce e se desenvolve:

"Um vivido. O resto era o que-há-de-vir. Lélio não se entristecia, sabia que nunca mais havia de encontrá-la, mas tudo de começo tinha sido mesmo sem nenhuma esperança pequena, ele não era louco, o fogo é que corre com os pés para cima. Mas também não atinava com maneira de verdade para esquecer, por mais difícil do que matar uma palmeira ouricuri — que até cortada e caída no chão enraíza: guarda sua água no profundo. Pensar nela dava a sobre-coragem, um gole de poder de futuro. Mesmo agora, descido no comum da vida, querendo outras mulheres, carinhos fortes; mas, depois, um instante, primeiro de dormir, pensava nela, ao acautelado, ao leve. Pensava nela, assim só como se estivesse rezando" (p. 142).

Apenas num momento ele parece acordar para a verdade do que ela era e foi realmente para ele. Porém, não passou de um breve instante de lucidez, pois, quando ela volta a ser lembrada, é com o seu antigo significado, apesar de todos os desenganos que os outros lhe trazem, principalmente Rosalina:

"Agora, vendo que os outros trabalhavam numa ou outra coisa, ele se levantava, ia aproveitar para consertar o loro de seu arreio. Delmiro emprestava fio e agulha, uma sovela. Pôs o pensamento na Mocinha de Paracatú, e viu que não queria. Tinha horas ele pegava a achar que não soubera se comportar, em toda a viagem, só se dera ao desfrute; e a Moça, durante todo o tempo, ou não sabia que ele era gente deste mundo, ou o debicava com os rapazes da cidade — ah, se lembrava bem — ela se ria dele. Era maldosa. E, um pensava a fito, beleza usual ela possuía? — 'Uma bezerrinha dos Gerais desmamada antes do mês...' — o Lino Goduino dizia. Pois não era? E arrebitava um narizinho, às vezes amanhecia com sombras nas miúdas faces. Mas, então, como podia existir nela tão bem aquela artice maior, principal, estúrdia?! Então, era como se fossem duas, todas duas de verdade, as duas numa só, no mesmo tempo. E aquela encantada astúcia mudável, que nem fazia conta dele, Lélio, e que maltratava e animava: como a gente vê ainda, um espaço de momento, um lugar lindo, quando o escuro da noite já o consumiu; ou quando já se pode reconhecer adivinhada a divisa da várzea, por varo, no ralo dum fim de chuva. E a lembrança dela queimava, às vezes, em alma, uma tatarana lagarteasse. O único jeito de tolerar a lembrança dela era esse: de a ficar adorando, de mais longe, como se fosse uma santa" (p. 160).

Foi o único momento que ele teve de lucidez do que ela realmente era: uma menina de família bem-criada, "bezerrinha dos Gerais desmamada antes do mês", hábil nas artes da sedução, "artice maior", de mostrar e ocultar, animar e negar, capaz de plantar no outro uma presença incômoda e obsessiva, como um alienígena incubado na sua vida íntima: "a lembrança dela queimava, às vezes, em alma, uma tatarana lagarteasse". O modo que ele encontrava de acomodá-la, ao invés de negá-la e procurar esquecê-la, o que talvez o levasse a sofrer mais ainda a sua ausência, era o da idealização e passar a adorá-la "como se fosse uma santa". O que permite, em alguns momentos, aproximar Lélio do cavaleiro medieval e do quixotismo, e esse seu primeiro amor ao da poesia trovadoresca, "de ficar adorando, de mais longe".

Esse primeiro engano amoroso finca-se no modelo da segunda árvore arquetípica da novela São Marcos, a perfumosa "colher-de-vaqueiros, faraônica". Ele é representado como o amor feminino, requintado e carregado de mediações, cultivado como uma arte para a sedução dos sentidos enganosos, por isso, um amor puramente humano. O seu ideal é o de nunca efetivar-se, pois, quanto mais dura, mais difícil e impossível fica, mais cresce e aumenta o desejo; assim, é não se realizando que ele melhor se realiza nos seus propósitos, que é o da fruição dos próprios artifícios, o "Puro Egito", mais do que do amor em si. Se ele se distancia do amor animal, sexual, ele perde também a possibilidade de geração e fecundação, torna-se um amor estéril. Por outro lado, ele não transcende, não encontra um sentido mais alto do que o de ficar sempre como algo inatingível, que não pode se realizar sem negar a si mesmo. E é assim que a Rosalina o interpreta para Lélio, como um amor fantasmático, doentio, caprichoso e estéril:

"— 'Modo outro, meu Mocinho, eu vejo isso é um madrastio que você arranjou para si, nessa Mocinha de fantasma...' Lélio não respondeu. E ela foi dizendo: — 'Do que estou sabendo, por trás de você, pode ser que essa moça nem seja boa, nem saúde verdadeira de mulher ela não demonstra ter. Escuta: mulher que não é fêmea nos fogos do corpo, essa é que não floresce de alma nos olhos, e é seca no coração... Tira isso. Te esconde do à-vez da tetéia coitadinha, que ela nunca vai saber o que a vida é. Pede a você mesmo para ir se esquecendo dela aos poucos, meu Mocinho...'" (p. 194).

 

Os olhos verdes da mercadoria

Jiní, a mulata colorida e com um acento oxítono irregular no nome, dando a ele uma pronúncia francesa (esse acento foi mantido até a segunda edição do livro, a de 1960), é uma força sensual, corporal, visceral e sangüínea, chegando a uma determinação quase que puramente animal. É nessa ordem que ela vai se revelando, mas a última forma que adquire, na qual encontra a sua realização mais plena, na sua descida a um plano cada vez mais baixo, inferior ainda ao do animal, o do mundo das coisas, é a forma da mercadoria ("dona e mandona", senhorial, sem outra vontade de ser do que a de se deixar ser e reinar enquanto mercadoria). Lélio é como uma membrana afetiva aberta e exposta, sem filtros protetores, por isso, tudo o fere e marca de imediato, logo no primeiro contato, à primeira vista, e assim são os seus amores. As suas relações são simpáticas, diretas e desmedidas, nesse sentido, ele é ingênuo e desprovido de tudo aquilo que entendemos por mediações: valores consolidados, projetos próprios e caráter formado e definido. O seu encontro com a Jiní foi assim, direto e imediato; ele percebe-a inteiramente na sua "beleza sensível", o que constitui também a maior e única qualidade da moça, tornando-se assim num encontro entre pulsão afetiva e natureza. Neste caso, não se trata de uma visão enganosa só de Lélio, como ocorreu com a Sinhá-Linda, pois, o que ele vê e sente, é o mesmo que os outros vêem e sentem, portanto, ao viver esse amor, ele participa de um engano ou páthos comum, coletivo e não individual. Ele sabe dela primeiro pelo que lhe contam, no caso, o vaqueiro Delmiro, porém, depois, ele só virá a confirmar essa mesma visão: "O Tomé. Ora vive com uma mulata escura, mas recortada fino de cara, e corpo bem feito, acinturado, que é uma beleza sensível, mesmo: é a Jiní, que se chama..." (p. 144, grifo meu).

Antes ainda de conhecê-la, fica sabendo dela um pouco mais, pelo Canuto, que a descreve como uma mulata "escura de pele", de quem a Drelina, irmã de Tomé, não gosta, por ela não dar "certeza de ser honesta", e resume o seu passado, quando foi possuída, vendida, comprada e melhorada como uma mercadoria:

"Mas, mais em antes, dono da Jiní tinha sido — imagine — o seo Senclér, que a comprara de um garroteiro corpulento, um barbado. Esse das barbas, amásio da Jiní, viajava com ela, demorava nos lugares, mandava que ela fosse com outros, para arrancar dinheiro, ele mesmo fingia não estar vendo sabendo. Seo Senclér aí propôs compra definitiva, fechou o negócio por bons contos-de-réis. Mandou até a Jiní em cidade, viagem tão longe, para tratar dos dentes" (p. 153).

Essa curta biografia mostra como ela virá a ser o que sempre foi, uma "beleza sensível" que adquiria um valor monetário, e assim, de sujeito, Jiní se transformava num objeto de valor de uso, "mulata escura", "fino de cara", "corpo bem feito", "acinturado" etc., que adquiria um valor de troca nas mãos do "garroteiro corpulento", e voltava a se transformar num valor de uso com Seo Senclér, que ele procurava melhorar, mandando-a à cidade, "longe, para tratar dos dentes". Desse modo, passando de mãos em mãos, ela conhecia todas as metamorfoses no percurso da circulação da mercadoria. Porém, a mercadoria não é uma coisa neutra, ela tem um poder em si autônomo e ameaçador, o que a transforma num fetiche, e os que se encantam por ela estão sujeitos a serem destruídos, na medida em que a relação que ela determina é a entre objetos e não sujeitos: ou ela se dá pela troca simples entre objetos (ou corpos, para o uso nas suas funções específicas) ou pela mediação do dinheiro, o equivalente geral; com isso ela nega ou subordina, aviltando-os, a razão e o espírito. A sua vitória está na redução das relações humanas à sua materialidade, corpo por corpo, como na relação que Jiní estabelece com Lélio, a da troca simples, ou dinheiro por corpo, impedindo que a consciência e a subjetividade tenham espaço no intercâmbio entre os seres. Isso se torna mais grave quando se trata de relações amorosas, aquelas que podem abrir um caminho ao homem para a sua superação. Quando Lélio vê Jiní pela primeira vez, estava acompanhado do Tomé, o irmãozinho do Miguilim, porém agora já crescido e amasiado com ela. Ao contrário do que observamos com a Sinhá-Linda, ele a vê como ela havia sido vista pelos outros, nada muda, a sua visão nem melhora nem piora o que lhe haviam dito sobre ela, tudo se confirma aos seus olhos, o que significa que o seu envolvimento se dá pelas mesmas razões e na mesma intensidade dos demais, inclusive o Tomé, que agora vivia com ela. Tudo o que Lélio percebe nela é dado pela visão, como se fosse uma festa para os olhos: um corpo colorido, composto de cores, linhas e formas que realçavam principalmente as partes da sexualidade, tornando-as mais atraentes, e num movimento de dança:

"E era a casinha dele [Tomé], aparecendo logo depois das bananeiras, Lélio não pôde rejeitar. A Jiní já estava na porta. A gente a ia vendo, e levava um choque. Era nova, muito firme, uma mulata cor de violeta. A boca vivia um riso mordido, aqueles dentes que de branco aumentavam. Aí os olhos, enormes, verdes, verdes que manchavam a gente de verde, que pediam o orvalho. Lélio tirara o chapéu, e nada se disse a não ser o saudar de boas-tardes. Nem o Tomé não desapeava; só encomendou a ela qualquer coisa, Lélio não teve assento de entender o que. Ela entrava para ir buscar: desavançou num movimento, parecia que ia dansar em roda-a-roda. No lugar durava ainda aquela visão: o desliz do corpo, os seios pontudos, a cinturinha entrada estreita, os proibidos — as pernas..." (p. 156) (19).

Foi o que bastou para que ela se incubasse nele com o seu poder de fetiche, "sorrateiro de si", quer dizer, independente da sua vontade, e passasse a habitar quente e sem calma cada gota do seu sangue. Agora, nas horas do descanso, quando se deitava, esperando o sono, era ela que acordava dentro dele e povoava mais do que os seus pensamentos, o seu próprio corpo, latejando internamente junto com o seu sangue:

"A demoração, sozinho, cabeça atoa, antes de dormir, era o que de melhor, podia mais que a canseira. (...) E então viu que guardara, sorrateiro de si, um assunto, para uns pensamentos, para passear por ele agora: a Jiní. Ah, certo não era correto, não devia-de. A Jiní, seus olhos sumo verde-verde, que cresciam e tudo tapavam, como separados, maiores do que pessoa. Não devia. Mas podia menos pensar, um instantinho só, se concedia. Revia-a. O figuro da mulatinha cor de violeta mandava em todas as partes onde batia seu sangue, aumentava o volume de seu corpo. Chega. Esconjurou-a, brando, coçou um ouvido e a barriga; e devia de ter logo dormido" (p. 164).

Ela planta-se nele e Lélio a segue como uma determinação. Ele acredita-se ainda como um sujeito capaz de escolha e controle da vontade, embora, ao mesmo tempo, voluntariamente, vai se submetendo àqueles impulsos sobre os quais já não tinha controle: "Mas, o que ele não contou e não contava, era aonde ia, à doida, o lance de seu desejo. O que estava se passando, no encoberto de todos". O que fica dela nele, latejando na alma e no sangue, são as lembranças dos seus aspectos físicos, rosto e corpo, mas, principalmente, os olhos verdes, sempre ressaltados como uma metonímia da atração física/sensível irracional, avassaladora da vontade e da liberdade do sujeito, que vai se negando, inclusive enquanto ser dotado de razão, capaz de pensamento. Aqui, sutilmente, o autor usa o verbo aviar para falar dos olhos, "os olhos aviando verdes", que pode ter tanto a acepção de se preparar a receita de um fármaco, químico ou mágico, como a de venda de uma mercadoria (20):

"Afora o retrato da Jiní, com aquela beleza solta, aquela pessoa forte, e tanta coisa que podia vir com ela, e que ele queria adivinhar — nenhum pensamento cabia em sua cabeça. (...) A Jiní, tão desconhecida, inventada, estranha cor de violeta, os olhos aviando verdes, o corpo enxuto, o avanço dos seios, os finos tornozelos, as pernas de bom cavalo" (p. 195, grifos meus).

O maior obstáculo que se interpunha entre eles era o de ordem moral, a consideração que Lélio tinha por Tomézinho: "Em hora nenhuma, por baixo daquela alegria de festa, deixou de ter conta no Tomé, de se dizer que, por coisa bêbeda alguma deste mundo, não havia de desrespeitar o que era de outro, de um tão bom moço e companheiro" (p. 195, grifo meu). Lélio acreditava-se senhor de si, com pleno controle das paixões, seguindo os preceitos aristotélicos, de que a alma comandava o corpo e a parte racional da alma, a da razão, continha a parte irracional, a das paixões e dos sentimentos, com "freio e rédea", mais fáceis de se embriagarem com os atrativos das cores e formas enganosas. Lélio sentia-se tão seguro disso, que facilitava, alimentava aquele amor e se satisfazia quando reconhecia também a atração que exercia sobre ela: "Mas, valendo por isso, maior ainda era seu prazer em ter certeza de que era gostado da Jiní, e de que ele mesmo sabia ser capaz de se vigiar, em freio e rédea, limpo de não consentir em qualquer traição" (p. 195, grifo meu).

O primeiro encontro com a Jiní ocorre quando Tomé viaja, quer dizer, é afastado enquanto obstáculo físico, porém não se ausenta das preocupações de Lélio, que o carrega consigo internamente, como interdito de ordem moral. Lélio costumava passar sempre diante da casinha deles, seguindo o seu desejo, e se auto-enganava, dizendo para si que aquilo era um desafio benéfico, que a melhor forma de se enfrentar o perigo não era fugindo dele, mas testando-se, procurando-o e olhando-o de frente. Percebe agora, porém, que o perigo era maior e promete evitá-lo: "Por lá não encosto, não devo justo. Dou volta". Mas não é o que acontece, faz tudo o que prometera não fazer, passa diante da casa da Jiní, "demoroso", e se "soubesse cantar, cantava", para chamar a sua atenção. O que o desenvolvimento dos fatos demonstra, é o pouco ou quase nenhum poder dos valores morais contra o do fetiche, e a iniciativa do encontro é tanto dele como dela; ausente o obstáculo físico, a interdição moral não o evita. Ele se realiza à noite, no campo, a céu aberto, num lugar ermo, debaixo de um angelim rosa, numa grande laje deitada, e sem palavras, como dois corpos de dois animais:

"Foi. No lusco, a Jiní estava de branco, sentada na beira da laje; ficou em pé feito fogo. Nem ele pôde abrir nem ouvir palavra nenhuma, ela se abraçou, se abraçou com ele, era um corpo quente, cobrejante, e uma boca cheirosa, beiços quase mexiam mole molhados, que beijando. Ali mesmo, se conheceram em carne, souberam-se. E dali foram para a casa, apertados sempre, esbarrando a cada passo para o chupo de um beijo, e se pegando com as mãos, retremiam, respiravam com barulho, não conversavam". (...) "Mal e nem conversavam, raras poucas vezes, as palavras curtas, na dura daqueles dias, quando cumpriam de se encontrar, dentro de casa, todas as noites sem uma só. Foram dias sem cabeça, Lélio se sendo em sonho no acordado, fevrém de febre" (p. 196-197, todos os grifos são meus).

Procurei grifar no texto os termos usados para descrever o encontro como sendo, não entre duas pessoas conscientes do que faziam, mas entre dois possessos, como corpos embrutecidos, "conheceram-se em carne", que se saborearam, "souberam-se", atraídos pelo calor e cheiro, "feito fogo", "corpo quente", "boca cheirosa", satisfazendo-se como animais, "cobrejante", "beiços", "chupo"; porém, o mais enfatizado na descrição do encontro, foi a ausência de discurso entre eles; não trocaram nenhuma palavra, não havia o diálogo como mediação da relação, seja para se confessarem um ao outro e, com isso, facilitarem e aprofundarem a relação, seja para realçarem eroticamente uma atração até então só física e sexual: "palavra nenhuma", "não conversavam", "Mal e nem conversavam", a narrativa faz questão de reiterar. O que parecia apenas indício, aqui se confirma, como esse amor é representado e julgado a partir do vínculo que estabelece Aristóteles entre o discurso e a ética, tendo em vista definir o que é do humano:

"Como costumamos dizer, a natureza nada faz sem um propósito, e o homem é o único entre os animais que tem o dom da fala. Na verdade, a simples voz pode indicar a dor e o prazer, e outros animais a possuem (sua natureza foi desenvolvida somente até o ponto de ter sensações do que é doloroso ou agradável e externá-las entre si), mas a fala tem a finalidade de indicar o conveniente e o nocivo, e portanto também o justo e o injusto; a característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade" (21).

Suprimem o obstáculo moral, suprimindo o diálogo, não podem conversar para não vir à tona com as palavras os valores, a consciência e o julgamento do que fazem, do justo e do injusto, do bem e do mal. Deixam os próprios corpos falarem, cedem a eles o domínio sobre as almas e submetem a razão à paixão incontrolável. Com isso abdicam do que haveria de humano na relação, para descerem até a condição animal: "Logo, quando destituído de qualidades morais o homem é o mais impiedoso e selvagem dos animais, e o pior em relação ao sexo e à gula" (22). Viveram dias de inteira inconsciência, "Foram dias sem cabeça", fora da realidade comum dos homens, "se sendo em sonho no acordado", possuídos por uma sezão que fazia tremer o corpo, "fevrém de febre", em outros termos, febre de vulva (23). É a que tinham sido reduzidos.

A continuidade da relação entre os dois foi a de uma queda constante, no sentido da degradação moral, da perda dos parâmetros, a quê, Lélio ainda resistia, mas a quê, Jiní se deixava levar como um peso solto em águas profundas, depois que foi abandonada pelo Tomé: "A Jiní era a beleza e a frenesia", a manía para os gregos, sendo a frenética a bacante tomada pelo deus: "Quem se entrega a este deus arrisca-se a perder a sua identidade social e a 'ser louco'. Isto é ao mesmo tempo divino e terapêutico" (grifo meu) (24). Para as mênades, a entrega a Dioniso estabelecia tanto uma relação divina quanto animal, alta e baixa, a perda da consciência significando a posse pelo deus e a regressão à primeira natureza, a animal, em ambos os casos uma ultrapassagem do humano. Porém, a possessão da Jiní adquiria um sentido único, só baixo e animal, e não curativo, apenas doentio. É assim que ela é representada: desvairada, quase como uma cobra rastejante ou um bicho urrando, mostrando as presas e se enrolando nas suas pernas. Isto ocorreu num dia em que Lélio a procurou e ela estava com outro, que foge, e ele a surpreende, "suja de outro homem". "Cã cachorra!", foi o que disse e a reação que teve, a princípio, foi violenta; mas, depois, tenta sair dali e olha para a luz das estrelas, e vê, como o céu estrelado de Kant, "Lá fora, luz de estrelas, era um alívio":

"Mas à vã já a Jiní vinha atrás, atirada, quase de corrida; jogara uma roupa qualquer mal por cima de si; esbarrou, em tonta; os olhos calcavam. — 'Vem! Vem!' — tudo pedia, quase gritado. Se abraçou com as pernas dele. — 'Vem... Você vem...' Levantou o rosto, os olhos primaram, e os dentes, ela se ria. Ria brava, com uma certeza, uma fé em que ele ia ficar; e mesmo ajoelhada, travada de retê-lo, ela se enroscava, coisa que coisa. Aos olhos, os olhos, que cravava mira, e à palpa, com o avento forte, de um bicho. Era preciso um enrijo de si, um alevanto, um se vencer, para não começar a achar que aquela mulher moça, como nua, a cintura adelga, que ela não passava de um animalzinho do campo, sem obrigação de dono, que um podia aceitar assim avulso, mal a vez — desmerecer de honra não havia. Suxa, sussurrava. Aí, arre, prostrada, de repente, variava, agarrou um punhado do chão, dando a ele: — 'Péga terra, joga em mim!...' — foi o que ela disse. Então chorou choro; mais não podia" (p. 231).

Para Lélio, esse episódio é o início da sua libertação, desprende-se dela e se afasta; porém, para a Jiní, não era ainda o fundo do poço. Ela, que havia sido transformada por outros numa mercadoria, agora, adquiria autonomia e assumia-se como tal, voltando a prostituir-se abertamente e por vontade própria: "Porque a Jiní agora estava recebendo homens, geral, e estava desencaminhando os casados. (...) —'E lá o sal se paga...' — a Conceição disse — 'A mulatinha exige dinheiro valedío. Mas mesmo assim os homens estão lá, como periquitos na paineira!'" (p. 235).

A prostituição da Jiní, por dinheiro, é justamente o oposto da das tias, Tomázia e Conceição, que se prostituíam como iniciadoras no amor: "menino também carece de aprender, pois não carece?"; assim cumpriam quase uma função higiênica ou nutritiva no lugar: "...um que estivesse vindo para lavar as mãos antes do almoço, ou só beber um caneco de leite ao pé da vaca"; e se elevavam como educadoras nas artes cortesãs: "se consentiam à farta, por prazer de artes", e não por dinheiro (25). Foi na casa delas que Lélio ouviu as canções de Pernanbo, que falavam do Buriti como metáfora do Amor: "...Buriti virou um homem, me pegou e me fez mal. Agora, casa comigo, Buriti, Buritizal!...". Só o Amor era capaz de inverter o processo natural das coisas e tornar celeste o terreno, como o buriti, que vai crescendo e elevando-se, de modo a trocar as raízes terrestres por outras celestes: "...Buriti, rei da vereda, de crescer envelheceu: quer seu chão nas altas nuvens, e a água azul que tem no céu...". Não era só um movimento de ascese, mas o estabelecimento de um vínculo entre as duas esferas, de modo que uma fosse espelho da outra, refletindo mutuamente as suas belezas. E assim pôde aprender o que mais tarde a Rosalina volta a lhe lembrar, que "uma coisa é buriti, mas outra é buritirana", quer dizer, que é preciso distinguir o amor verdadeiro do falso-amor, buritirana.

Foi neste segundo caminho, no do falso-amor, enquanto mercadoria, que a Jiní veio a se realizar plenamente, casando-se com um fazendeiro rico. Todos os sinais que aparecem no texto a seguir são os de quem só se realizava mediante a posse de bens e de poder, mais do que no amor. A cena, à primeira vista, parece nos dizer que, afinal, houve uma regeneração e salvação para a Jiní, com o seu casamento oficializado e consagrado. Porém, ela não faz mais do que continuar e aprofundar o seu destino, triunfar como mercadoria, trocando-se por bens e poder:

"...José Bento Ramos Juca, fazendeiro no Estrezado, homem de posses, se apaixonara. — 'Só se casar, assente, se quiser, em escrivão e igreja...' — ela tinha respondido. 'Ai-me, cangueiro, aí ele quis'. Veio buscá-la, com os papéis de banho já correndo, veio com cavalo com a sela poltrona, com arreiame niquelado, com camaradas de escolta e mucama de pajear, e três burros cargueiros, para a tralha que a Jiní tivesse e levasse. — 'O fumo bom, por si se vende!' — ela blasonou, conforme se ouviu. Diziam que ela estava impossível, só ares de rainha real, e cuspiu no rumo da Casa do Pinhém: — 'Oxente, meu boi desgostou deste capim... Vão ver como eu hei de saber ser senhora-dona, mãe-de-família! Cambada de galos capões!' Bem foi, foi-se" (p. 236-237).

Fora do Pinhém, da casa patriarcal já arruinada, "cuspiu no rumo da Casa do Pinhém", ela segue para o mundo burguês da rotina, do trabalho e dos dias, o "Estrezado" (o estressado, se lermos o z com a pronúncia castelhana, o mundo prosaico dos condenados ao cansaço para ganharem os dias com o suor do trabalho), onde ela poderá reinar soberana, na sua forma autônoma e plenamente realizada: a mercadoria bem-vendida, reinando sobre todos, no seu ponto final de circulação, como fetiche, quando a riqueza metamorfoseia-se em poder. Assim é que ela foi lembrada pela última vez no romance: "Da Jiní sim, se ouvia: que agora era dona e mandona, no Estrezado, para favor dela tudo se completava" (grifos meus). Enquanto a Mariinha, que havia amado verdadeiramente o seo Senclér, acima de todas as conveniências, ficou como uma sombra opaca de outono, sem ter verdade nem na morte: "E, Mariinha, tão ao lado, ali, era como se de brinquedo tivesse morrido" (p. 241).

Temos aqui um desenvolvimento da primeira árvore arquetípica, "o Venusberg", da novela São Marcos. O amor só sexual, fálico, masculino, representado como o poder de ferir e penetrar, como a espada que se enterrava na bainha (vagina), símbolo do poder de amor e morte, das colunas, dos mastros e das torres imensas que os imperadores mandavam erigir e das palmeiras imperiais que os patriarcas plantavam diante da Casa-Grande e dos seus túmulos (26). De início, um amor só animal, que nada nos diferenciava dos bichos, mas que o tempo dos homens o metamorfoseou e hipostasiou numa forma que se tornou soberana, reinante, capaz de avassalar qualquer outra vontade, como se fosse a natureza das coisas sobrepujando a animal e humana. Invertia-se o que parecia natural a Aristóteles, ao falar do homem-livre e do escravo: "estes exemplos evidenciam que para o corpo é natural e conveniente ser governado pela alma, e para a parte emocional ser governada pela inteligência" (27). Nesta situação era o corpo-coisa que comandava o espírito e os impulsos irracionais o pensamento. À rendição, como fez a Jiní, a uma natureza visceral que ganhava autonomia e se tornava soberana, impondo o domínio das coisas sobre o homem, esmagando inclusive as artes do humano, como as do amor das tias, Lélio escolhe a fuga triunfal com Rosalina. Saída pelo milagre do encontro dos impossíveis, do Sol com a Lua, ou outro engano?

Os aspectos simbólicos deste romance encenam uma dança cósmica que se articula com uma base de um realismo profundo; esses dois planos interiorizam as (im)possibilidades de uma sociedade histórica, patriarcal e estratificada, no seu triste trânsito (tropical!) para o mundo burguês. O que dá a impressão, a quem escreve sobre ele, de que está interpretando a história do Brasil, do homem cordial, e do seu destino incerto e duvidoso.

 

Notas

1 As citações do romance foram tiradas de Guimarães Rosa, No Urubuquaquá, no Pinhém, 5. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1976; cotejadas com Corpo de Baile, 2 v., Rio de Janeiro, José Olympio, 1956 e Corpo de Baile, 1 v., 2. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1960.

2 Na concepção geral do livro, "A estória de Lélio e Lina" representa o último degrau da escalada do Sol no dia, a estação onde ele atinge a plenitude. Tanto na primeira quanto na segunda edição de Corpo de Baile ela é a terceira das sete novelas. Depois do Mutum, também um lugar fechado e distante — porém primordial, núcleo de origem e não estação de transição, pois ele contém em si uma família, todos ali estão integrados a ela —, o Pinhém é um lugar de passagem, que reagrega os que se dispersaram com a saída na manhã do Mutum. Depois do Pinhém, veremos a desagregação e o início do entardecer, até as noites angustiosas e eróticas de "Buriti", que, sob a égide de Dioniso, o Buriti Grande, fecham o livro com um recomeço, a vinda de Miguel/Miguilim e a formação de uma nova família, aparentemente não mais patriarcal.

3 A passagem a que me refiro é esta: "Agora vamos retroceder, para as três clareiras, com suas respectivas árvores tutelares; porque, em cada aberta do mato, há uma dona destacada, e creio mesmo que é por falta de sua licença que os outros paus ali não ousam medrar. / Primeiro, o 'Venusberg' — onde impera a perpendicularidade excessiva de um jequitibá-vermelho, empenujado de líquens e roliço de fuste, que vai liso até vinte metros de altitude, para então reunir, em raqueta melhor que em guarda-chuva, os seus quadrangulares ramos. Tudo aqui manda pecar e peca — desde a cigana-do-mato e a mucama, cipós libidinosos, de flores poliandras, até os cogumelos cinzentos, de aspirações mui terrenas, e a erótica catuaba, cujas folhas, por mais amarrotadas que sejam, sempre voltam, bruscas, a se retesar. Vou indo, vou indo, porque tenho pressa, mas hei de mandar levantar aqui uma estatueta e um altar a Pan. / Um claro mais vasto, presidido pelo monumento perfumoso da colher-de-vaqueiro, faraônica, que mantém à distância cinco cambarás ruivos, magros escravos, obcônicos, e outro cambará, maior, que também vem afinando de cima para baixo. Puro Egito. Passo adiante. / Agora, sim! Chegamos ao sancto-dos-sanctos das Três-Águas. A suinã, grossa, com poucos espinhos, marca o meio da clareira. Muito mel, muita bojuí, jati, urussú, e toda raça de abelhas e vespas, esvoaçando; e formigas, muitas formigas marinhando tronco acima. A sombra é farta. E há os ramos, que trepam por outros ramos. E as flôres, rubras, em cachos extremos — vermelhíssimas, ofuscantes, queimando os olhos escaldantes, de vermelhas, cor de guelras de traíra, de sangue de ave, de boca e bâton". Sagarana, 14. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1971, p. 242-243.

4 "No Egito, o gavião era a ave do deus Hórus; portanto, um emblema solar. Como a águia, simbolizava os poderes do Sol. Também os gregos e romanos viram no gavião a imagem do Sol". Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, p. 464.

5 Esse traço da vida senhorial e patriarcal, de aproveitar-se da sua situação para a aventura amorosa com as mulheres das populações submetidas ou não-européias, exóticas, acentuava-se ainda mais nas situações coloniais. Ela dava também prestígio e uma aura "romântica" àqueles que acrescentavam esse tipo de conquista às dos domínios territoriais. Ilustrativo disso é a simpatia e a naturalidade com que Gilberto Freyre vê as aventuras, quase feitos heróicos, "honrosa", do Almirante Gago Coutinho nas suas incursões pela África e Oriente, onde ele conjetura também sobre o que poderia ter se passado entre Rondon e as índias brasileiras, embora pareça lamentar-se de que não tenha ocorrido nada semelhante: "E surpreendemos no meio dos seus livros novos, dos seus mapas antigos, das suas gravuras de navios à vela, dos seus retratos de mulheres bonitas, o Almirante Gago Coutinho. / (...) Mas é possível que apenas tenha a nossa intrusão quebrado no velho marinheiro alguma doce recordação de amor, fácil de ser retomada; e despertada nele por um daqueles retratos de mulheres bonitas. / Digo isto porque o sábio não se mostra zangado nem mesmo espantado com a presença dos intrusos; e a propósito dos retratos de mulher conta-nos o que lhe sucedeu certa vez, no Japão. História honrosa para Portugal e para Gago Coutinho mas que eu não cometeria a indiscrição de publicar aqui. Ele que a conte nas suas memórias que devem ser mais saborosas que as do também velho e glorioso Rondon: um Rondon demasiadamente positivista para ter tido aventuras volutuosas nas selvas tropicais. Além do que, as selvas do Brasil mais agrestes parecem ser, por natureza, mais austeras que as ilhas do Oriente ou do Pacífico". Aventura e Rotina, Rio de Janeiro, José Olympio, 1953, p. 89-90.

6 Que parece simbolizar aqui o próprio Delmiro Gouveia, um homem que destoava, pelos seus projetos industriais e interesses mercantis, do cenário patriarcal nordestino.

7 Antonio Candido, analisando O Cortiço, mostra como são feitas e se radicam na nossa tradição literária essas aproximações entre sensualidade, solaridade e o traço "brasileiro", do qual não escapa também Lélio: "O símbolo supremo é todavia o Sol, que percorre o livro como manifestação da natureza tropical e princípio masculino de fertilidade. Sol e calor são concebidos como chama que queima, derrete a disciplina, fomenta a inquietação e a turbulência, fecunda como sexo. Por isso, neste livro a natureza do Brasil é interpretada de um ângulo curiosamente colonialista (para usar anacronicamente a linguagem de agora) como algo incompatível com as virtudes da civilização". O discurso e a cidade, São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1993, p. 142.

8 Essa forma de representação da Rosalina-Lua parece ser uma adaptação da alegoria que Apuleio faz da Lua cheia, n'O asno de ouro, e que surge a Lúcio como a imagem de uma mulher, numa "visão radiosa": "Primeiro, sua rica e longa cabeleira, ligeiramente ondulada e largamente espalhada sobre a nuca divina, flutuava com um mole abandono. Uma coroa, irregularmente trançada com várias flores, cingia-lhe o cimo da cabeça. No meio, acima da fronte, um disco em forma de espelho, ou antes, imitando a lua, lançava um alvo clarão. (...) Porém, o que acima de tudo maravilhava os meus olhos era um manto de um negro intenso, resplandecente, de brilho sombrio. Fazendo toda a volta do corpo, passava sob o braço direito para tornar a subir até o ombro esquerdo, de onde a extremidade livre caía para a frente, formando um nó, pendendo em pregas até a barra, e terminando por uma ordem de franjas que flutuavam com graça". O asno de ouro, trad. de Ruth Guimarães, São Paulo, Cultrix, 1963, p. 210.

9 No Grande sertão: veredas, a certa altura, Riobaldo, numa digressão aparentemente de pouca importância, enuncia um aspecto da vida do sertão que nos parece fundamental para se entender a "desordem" das relações familiares desse meio, e, por sua vez, também uma das razões da própria indefinição de gênero da literatura de Guimarães, como um fato de caráter histórico-social que inviabiliza a tragédia no plano da forma literária. É o fato de os vaqueiros e jagunços estarem em constante trânsito, o que tornaria corriqueiras e não mais extraordinárias as possibilidades de relações incestuosas: "Por mim, o que pensei, foi: que eu não tive pai; quer dizer isso, pois nem eu nunca soube autorizado o nome dele. Não me envergonho, por ser de escuro nascimento. Órfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões. Homem viaja, arrancha, passa: muda de lugar e de mulher, algum filho é o perdurado. Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: — 'Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d'angola, como todo o mundo faz?' '— Quero criar nada não...' — me deu resposta: - 'Eu gosto muito de mudar...'". 3. ed., p. 41.

10 Era um uso comum os pais apadrinharem os filhos naturais. Não era Riobaldo afilhado do seu suposto pai, Selorico Mendes?

11 Podemos supor que, no tempo do romance, Lélio estivesse na faixa dos 20 anos, "meu mocinho", e Rosalina na dos 50 ou 60, mas que ele a tivesse tomado pela metade, 25 a 30 anos. O seu pai, que, se estivesse vivo estaria na faixa dos 40, quando o abandonou pequeno estaria na faixa dos 20 e Rosalina na dos 40, mas parecesse estar na dos 20.

12 Cf. Walter Burkert, Religião grega na época Clássica e Arcaica, p. 295; Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet, Mito e tragédia na Grécia Antiga, v. II, 1ª ed., p. 35.

13 As citações da novela foram tiradas de Guimarães Rosa, Manuelzão e Miguilim, 3. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1964, p. 15, e cotejadas com Corpo de Baile, 2 v., Rio de Janeiro, José Olympio, 1956.

14 "O espaço artemisiano se desdobra nas zonas fronteiriças: montanhas que limitam e separam os Estados, lugares afastados das cidades, onde os grandes santuários da deusa são freqüentemente disputados por povos vizinhos e inimigos, locais enfim onde, nas densas florestas, assim como nas cristas áridas, a deusa conduz sua matilha ao massacre dos animais selvagens, que são sua propriedade e que, afinal, ela protege. (...) Mais do que um espaço de completa selvageria, que representa, em relação às terras cultivadas das cidades, uma alteridade radical, o mundo de Ártemis é o dos confins, das zonas limítrofes em que o Outro se manifesta no contato mantido com ele, selvagem e civilizado lado a lado, para se oporem, é certo, mas para se interpenetrarem igualmente". Jean-Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet, op. cit., p. 35-36.

15 Cf. Walter Burkert, op. cit., p. 266. Tanto no caso do Tio Terêz como no da Vovó Izidra (e outros), Guimarães Rosa usa denominações muito particulares das entidades divinas gregas, assim como alguns dos seus atributos, para compor as suas personagens. Isto tem conseqüências, na medida em que acentuam as funções que cumprem na história, mas às custas da redução das suas profundidade psicológica. Essas personagens tornam-se peças bem ajustadas de um tabuleiro onde se confrontam forças opostas de ordem e desordem, barbárie e civilização, mas perdem em densidade enquanto indivíduos livres e verdadeiros caracteres. O florescimento desses indivíduos, no sentido moderno do termo, entretanto, era impossibilitado pela própria formação social estratificada e patriarcal, que Guimarães Rosa sabe representar com enorme mestria; o que ele faz, é aproveitar-se dos seus aspectos arcaicos, para usar na sua figuração, naquilo que lhes correspondiam, traços míticos e de mentalidade de outras sociedades da Antigüidade, principalmente da grega e da romana.

16 Essa passagem é quase que transcrita de Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, onde está assim: "Quando trovejava forte, brancos e escravos reuniam-se na capela ou no quarto do santuário para cantar o bendito, rezar o magnificat, a oração de São Brás, de São Jerônimo, de Santa Bárbara. Acendiam-se velas, queimavam-se ramos bentos; recitava-se o credo-em-cruz". 9. ed., 2. t., Rio de Janeiro, José Olympio, 1958, p. 603.

17 Sérgio Buarque de Holanda, Visão do paraíso, 1959, p. 46.

18 O verbete Itaberaba, do Dicionário da terra e da gente do Brasil, de Bernardino José de Souza, documenta como era assim designada, ainda neste século, a montanha enganosa que tanto se buscava e o efeito encantatório que produzia no homem colonial brasileiro: "vocabulo tupí, composto de itáberaba — pedra que resplandece, pedra reluzente, cristal (Theodoro Sampaio), com que nos tempos heróicos das bandeiras os sertanistas designavam as minas fabulosas e rebrilhantes, cuja miragem os arrastava às ermas paragens da sertania virgem. O consagrado escritor baiano Xavier Marques empregou-o no seguinte passo: 'Foi de fato El-Dorado o que por alli andaram buscando em afoita entradas, nem sempre vans, os emissarios dos primeiros governadores da colonia, os transviados do segredo de Roberio Dias, e com muito mais audacia e exito os bandeirantes paulistas do seculo XVII, cujas rancharias, quando não atinavam com as fulgurantes itaberabas, matrizes do ouro, do diamante, das esmeraldas e saphiras, descobriam, como descobriram, a equivalente fartura das fazendas de gado' ('Rio e Valle do S. Francisco', 'Kosmos'. Anno II. n. 7. Julho 1905). 'Para o animo exaltado e ambicioso desses soldados-colonos, a sombria montanha talvez fosse a defesa criada pela natureza, o dificilimo passo conduzindo ao paiz encantado dos dorados, das minas de ouro, prata e das itaberabas, de cristaes e esmeraldas — lendas que embalaram durante seculos a tumultuosa imaginação dos aventureiros deste canto do Novo Mundo' (Paulo Prado — 'Paulística'. p.. 4)". 4. ed., São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1939, p. 216.

19 "L'objet de la vue c'est le visible. Ou le visible est, em premier lieu, la couleur (...) Le visible, en effet, est couleur, et la couleur, c'est ce qui est à la surface du visible par soi: et quand je dis 'par soi', j'entends non pas ce qui est visible par son essence, mais ce qui est visible parce qu'il contient en lui-même la cause de sa visibilité. Toute couleur a en elle le pouvoir de mettre en mouvement le diaphane en acte, et ce pouvoir constitue sa nature. C'est pourquoi la couleur n'est pas visible sans le secours de la lumière, et c'est seulement dans la lumière que la couleur de tout objet est perçue. Aussi est-ce de la lumière qu'il faut d'abord expliquer la nature". Aristóteles, De l'Ame, trad. e notas de J. Tricot, Paris, J.Vrin, 1982, p. 105-106.

20 O uso da imagem dos "olhos verdes" como fonte de engano, atrás dos quais se esconde um pântano onde o sujeito pode se perder, por isso precisam ser decifrados para se resistir a sua atração, liga-se a um uso comum do sertão, que é mencionado diferentemente pelo menos duas vezes na obra de Guimarães. Uma, na própria novela, quando Rosalina, explorando o seu sentido simbólico, adverte Lélio, referindo-se à cor verde: "Como ramo que tropeiro bota em cima de atoleiro, para indicar, aos que vêem, que o lugar ali afunda..." (p. 199). E no Grande sertão, quando o bando de Riobaldo, fugindo dos soldados, mudam os sinais de alerta dos tremedais (pântanos, mas que têm também o sentido de degradação moral): "Arre, os tremedais; já viu algum? O chão deles consiste duro enxuto, normal que engana; quem não sabe o resto, vem, pisa, vai avançando, tropa com cavalos, cavalama. Seja sem espera, quando já estão meio no meio, aquilo sucrepa: pega a se abalar, ronca, treme escapulindo, feito gêma de ovo na frigideira. Ei! Porque debaixo da crôsta sêca, rebole ocultado um semi-fundo, de brejão engulidor... (...) Mas fomos lá, às pressas espalhamos de lugar os ramos verdes de árvores, que êles tinham botado para a certa informação" (Grande sertão: veredas, 3. ed., p. 66).

21 Aristóteles, Política, trad. Mário da Gama Kury, 3. ed., Brasília, Editora UnB, 1997, 1253a, p. 15. Tem-se notado muito a presença platônica e plotiniana na obra de Guimarães Rosa, entre outras razões, porque ele mesmo chama a atenção para elas. A de Aristóteles, porém, é menos visível e também menos analisada, embora em alguns aspectos determinantes ela seja mais importante.

22 Aristóteles, op. cit., 1253a, p. 16.

23 Fevra, fêvera, 5. chul. Vulva de mulher. Laudelino Freire, Dicionário da língua portuguesa, Rio de Janeiro, A Noite, 1941-1942. Acepção qu explica e justifica a apócope de febrento para fevrém e que escapou a Nilce Sant'Anna Martins, no seu excelente Léxico de Guimarães Rosa, São Paulo, Edusp-Fapesp, 2001, p. 227.

24 Walter Burkert, op. cit., p. 318.

25 Conceição e Tomázia formavam um par de opostos que se integravam e se complementavam. Conceição era em tudo clara, apesar de ser negra "retinta", franca, direta e objetiva, praticando um amor alegre, quase "carinho de mãe que achega o filho, com perdão de comparar". A Tomázia era de uma aparência construída, maquiada, sendo tudo nela artifícioso: o rosto, o andar, os gestos, a fala: "Clara era, e mesmo não feia, nela nem se notava quase o pirotinho de papo no pescoço. Veio até cá, acender o cachimbo, e fazia os esforços, no caminhado empinava um apuro, para seu andar causar bonito. Tinha até pó-de-arroz e pintura de vermelhos, na boca, na cara. Em parte ela falava difícil, repicando o acerto de cada palavra, e em parte a gente via que estava imitando a Conceição..." Contrárias no tipo de amor que praticavam, uma espontânea e a outra cultivada, "damejo de soberania", harmonizavam-se nos trabalhos da iniciação amorosa, alegre e útil, mas conscientes de que este não deveria substituir o verdadeiro amor.

26 "As palmeiras imperiais se tornaram, na ecologia patriarcal do Brasil, a marca ou o anúncio de habitação ou casa nobre, com pretensões a eterna ou imortal; e também a marca dos cemitérios ilustres ou dos túmulos monumentais". Gilberto Freyre, Sobrados e mucambos, 1. v., Rio de Janeiro, José Olympio, 1951, p. 44.

27 Aristóteles, op. cit., 1254ª..

 

 

Luiz Dagobert de Aguirra Roncari é professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo e autor de Literatura brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos, São Paulo, Edusp, 1995.
Este estudo, embora seja independente, continua também um outro, sobre a novela "São Marcos", do Sagarana, que trata do mesmo tema: a teoria do amor de Guimarães Rosa, e que está sendo publicado pela Remate de Males, revista do Departamento de Teoria Literária, do IEL, da Unicamp, num número dedicado a Gilberto Freyre. Os dois estudos, por sua vez, fazem parte de um dos capítulos de um livro sobre Guimarães Rosa que o autor está concluindo.

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