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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014
On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.17 no.49 São Paulo Sept./Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000300021 

HISTÓRIA CULTURAL

 

As diversas vidas de Zé Bebelo*

 

 

Marco Antônio Tavares Coelho

 

 

A FORÇA E A SINGULARIDADE dos episódios, dos acontecimentos e da trajetória da vida social na região do São Francisco refletem-se diretamente na literatura. Esta se impõe entre nós por várias razões, entre as quais o contraste que estabelece com o cotidiano tão "normal" dos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. Pois o que se origina ou o que tem seu lastro no mundo sanfranciscano apresenta situações inusitadas e fascinantes. Isto porque nesse campo da cultura aparecem elementos mágicos que emergem com força em conseqüência de hábitos, costumes, crendices e do imaginário da região do São Francisco.

Não por acaso, Guimarães Rosa começa advertindo: "Sertão, é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo" (GS, p. 121). Ou "sertão é onde manda quem é forte com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinho de metal..." (GS, p. 17)

Então, nos relatos do acontecido na região do Velho Chico, difícil é separar o que foi real do que brotou da imaginação. E vice-e-versa. Por isso ali tem vigência uma lei: muitos imbróglios não podem ser deslindados e explicados.

A prova disto está no Grande Sertão: Veredas. Depois de quase cinco décadas de seu lançamento, quando vão se acumulando as reedições da obra-prima, inúmeras são as análises que vêm a lume para tentar elucidar questões lançadas pelo romancista.

As controvérsias são incontáveis, mas algumas opiniões vão ganhando consenso entre os especialistas. Uma delas é a de que Guimarães Rosa retirou personagens, fatos, comportamentos, entrechoques e toda a riqueza da sua narrativa daquele manancial que ele recolheu em suas minuciosas pesquisas no noroeste e no norte de Minas, no coração do Velho Chico. Claro, corrompeu palavras, deu a elas mais sabor, aqui ou acolá. Provocou uma revolução na sintaxe, para incorporar a fala oral sanfranciscana. Mas sabia os limites de sua recriação, daí sua veracidade e legitimidade.

A quase totalidade dos personagens do romance já foi identificada. Assim explica Levínio Castilho, que procedeu a um cuidadoso exame dessa questão: "várias estórias contadas por antigos moradores identificaram coronéis e jagunços assemelhados aos personagens Riobaldo, Hermógenes, Ricardão, Titão Passos, Joaozinho Bem-bem, heróis dos sertões de Corinto, Paracatu, Sussuarão, Itacambira e Januária, magnificamente fotografadas por Rosa"1.

Tal indicação é confirmada pela análise do ensaísta Alan Viggiano ao nos asseverar que "Guimarães Rosa não inventou sequer um nome, em toda a toponímia utilizada na saga de Riobaldo Tatarana. Esta convicção emergiu da elevada percentagem – constatada na pesquisa – de nomes de rios, lagos, córregos, veredas, vilas, povoados, cidades, que têm existência real no Norte de Minas, Sudeste de Goiás e Sudoeste da Bahia e foram utilizados por Rosa na fantástica aventura vivida por Riobaldo e seus cabras naquele pedaço de chão"2.

O fascínio em torno desse livro vem mobilizando pessoas abalizadas no mundo das letras, a fim de serem esclarecidos fatos narrados no Grande Sertão, desde que muitos e muitos leitores anseiam por mais dados sobre os personagens do livro e a respeito de fatos descortinados pelo romancista.

E aqui entra uma questão que pode desatar um caudaloso inquérito sobre um personagem central do romance, porque sua "fotografia" foi só revelada pelas metades: a identificação de Zé Bebelo e o resgate da incrível e intrigante história da pessoa real que foi "apresentada" sob o nome de Zé Bebelo.

Assim, estamos diante de um "caso" extremamente curioso: nas entrelinhas da novela magistral há outra "novela" (ou uma novela que nada tem de ficção, pois trata-se de um conjunto de dados verdadeiramente acontecidos), mas que Guimarães Rosa nos ficou devendo, sabe Deus por quê?

Vamos ao imbróglio. Mas, por capítulos.

Em primeiro lugar, Zé Bebelo, junto com Riobaldo Tartarana e Diadorim, formam a tríade que está no âmago, no centro do romance de Guimarães Rosa. Alguns traços básicos, sintetizados por Alan Viggiano, definem Zé Bebelo. "É um misto de cangaceiro e aspirante político que, financiado pelo governo, resolvera 'pôr ordem naqueles sertões'"3. Ele fora abandonado por Riobaldo, que, depois, incorporado aos jagunços contrários, lhe dará combate. Nas primeiras refregas, os homens de Zé Bebelo, ajudados pelos soldados do governo, vão vencendo e jogando os cangaceiros para o norte.

A seguir, os cangaceiros derrotam o bando de Zé Bebelo. Riobaldo arma então um estratagema para salvar seu líder da morte, gritando que Joca Ramiro recomendara pegá-lo vivo. Zé Bebelo é capturado e julgado, mas é absolvido pelos cangaceiros liderados por Joca Ramiro.

Em sendo assim, Zé Bebelo é forçado a se afastar do cangaço, embora depois retorne, com o intuito de vingar a morte de seu amigo Joca Ramiro. Seguem-se vários combates, sendo os jagunços fustigados duplamente pelos soldados e pelo bando de Hermógenes – os inimigos mortais, pois assassinaram Joca Ramiro, o pai de Diadorim. Aí tem lugar a grande jogada de Zé Bebelo: ele manda escrever cartas às autoridades. Recados que seriam levados por mensageiros noturnos, escapando entre inimigos, com grandes riscos, mas informando sobre a localização dos cangaceiros.

Revela-se, pois, o liame entre Zé Bebelo e os soldados, o que acabou sendo útil aos companheiros de Riobaldo. Este assume a chefia do bando, Zé Bebelo desiste da fama de jagunço e some no mundo. Ao final, fere-se o combate decisivo contra os comparsas de Hermógenes, alcançando-se o que motivava a luta – matar os que assassinaram Joca Ramiro. Mas, oh céus!, chega-se à tragédia total. Diadorim é morto em combate.

 

No mundo real, quem foi Rotílio?

Segundo capítulo. Quem era o personagem que no livro ganhou o nome de Zé Bebelo?

De acordo com uma pesquisa feita por Levínio Castilho e endossada por Saul Martins, antropólogo, especialista em folclore e professor da UFMG, "Zé Bebelo é a encarnação de Rotílio Manduca"4. Afirmação cabal e conclusiva, emanada de duas pessoas de Januária, amadurecidas por anos de estudos das coisas do São Francisco. De saída, convém dizer que o nome de Rotílio Manduca aparece no Grande Sertão, nas páginas 341, 346 e 368**. Na segunda referência, o romancista de Cordisburgo praticamente descreve a figura de Rotílio, como se pode constatar ao se examinar as duas fotografias de Rotílio, publicadas por Saul Martins no livro Antônio Dó5.

 

 

Cabe então a suspeita de que Guimarães Rosa queria deixar alguns indícios que permitiriam, aos mais curiosos, descobrir a identidade de Zé Bebelo. Lê-se no Grande Sertão:

Aquele – sequinho, espigadinho, vestido cidadão, com mãozinhas pequenas, pezinhos – e do ar sempre assustado constantemente. Dele sozinho, o que se diz: umas duzentas mortes! Conheceu, o senhor? No barranco do São Francisco – o coronel Rotílio Manduca – em sua Fazenda Baluarte! (GS, p. 346).

 

 

Agora, os fatos.

Rotílio de Souza Manduca nasceu em 1885, em Remanso, na Bahia, cidade hoje submersa pelas águas da represa de Sobradinho. Lá estudou e certamente concluiu o segundo grau, tornando-se um autodidata a partir de então. Seguindo as informações do professor Saul Martins, ele era filho do casal José Bertoldo Manduca e Inácia de Loiola Manduca.

A fama e a valentia de Rotílio começa quando ele era ainda um garoto. "Conta-se que seu genitor, um barqueiro, se juntara a uma concubina, com quem passou a morar, na sua barca de frete, assim desprezando a esposa, faltando mesmo com a responsabilidade de sustento da família"6. Um certo dia, ante a difícil situação financeira em que se encontrava, com seus irmãos passando fome, Rotílio pega a carabina do pai e mata o vigia da barca, ferindo seu genitor, levando este a reassumir seu compromisso com a família.

A trajetória assombrada de Rotílio segue por caminhos espantosos. É um dos mais valentes jagunços de que se teve notícia; hábil no uso do punhal, da faca e do trabuco. Tinha como objetivo limpar o sertão dos jagunços usando suas próprias artimanhas. Aparece como um líder, sendo mobilizado para a luta contra a Coluna Prestes e para apaziguar o sertão, a serviço do então presidente da República, Artur Bernardes. Uma fotografia atesta sua condição de oficial comissionado da Polícia Militar de Minas Gerais.

Virgílio de Mello Franco, um dos principais líderes do movimento que derrubou a República Velha, em seu livro Outubro de 1930, informa que a conspiração revolucionária no sertão da Bahia era articulada "por intermédio dos chefes Rotílio Manduca e João Duque"7.

A fama de Rotílio como "justiceiro" correu pelo São Francisco, e lhe eram atribuídas cerca de duzentas mortes. Por isso, sua lenda mantém-se "viva até hoje no Vale do São Francisco, nos sertões do Abaeté, Januária, Itacambira, Coração de Jesus e Pirapora"8.

Mas Rotílio tinha outra "vida". Despia seu gibão de couro de sertanejo e envergava ternos de linho da alta sociedade carioca, a fim de circular livremente no Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Sobre essa "identidade" de Rotílio Manduca, Alberto Deodato deixou um relato surpreendente. Antes de inserir esse longo mas indispensável registro, é necessário, porém, apresentar o perfil desse depoente.

Alberto Deodato Maia Barreto nasceu em Sergipe, imigrou para Belo Horizonte, na década de 1920, para formar-se em Direito e projetar-se como jornalista, escritor e político. Conseguiu plenamente tudo isso. Na capital mineira, brilhava no fórum como advogado. Considerado um autêntico liberal, foi eleito vereador em Belo Horizonte, antes do golpe de Estado de 1937. Foi meu professor na famosa Faculdade de Direito de Minas Gerais. Quando sobreveio a redemocratização do país, conseguiu um mandato de deputado federal pela UDN, tornando-se um de seus líderes nacionais.

Eis o que o professor Alberto Deodato escreveu a respeito de sua convivência, no Rio de Janeiro, com Rotílio Manduca:

Em 1919, uma tarde, eu estava na Folha, de Medeiros de Albuquerque, de que era redator. Procurou-me um senhor moreno fechado. Apresentou-se-me.

– Sou o coronel Rocha, de Brasília, amigo de Rotílio. Ele soube de sua formatura e me pediu lhe entregasse esse presente...

Era o anel de grau. Um lindo anel, que sempre usei. Três meses quem me entra pelo quarto a dentro? O Rotílio de carne e osso. Moreno queimado. De óculos pretos. Bem vestido. Magro e ágil. Eu morava, agora, na rua da Lapa, 56. Um quarto de fundo, com duas camas: a minha e a do Ciro Vieira da Cunha. Enfiou a mala no meu quarto. Vinha passar uns dias comigo.

– Mas eu não tenho cama ...

– Armo a rede ...

E arranjou-se numa rede atravessada. Não podia ficar em hotel. Não por falta de dinheiro. Mas porque vinha de um tiroteio no São Francisco. Viajou léguas e léguas de batina e óculos pretos, a cavalo. Trazia enorme apetrecho de disfarce: batina, barba, bigode, o diabo.

De noite para o dia desapareceu, levando tudo que era seu Um ano depois volta. Vai para um bom hotel. Livre da perseguição. Vai me visitar. [...] Foi aí que conheceu Manoel Bandeira, Ciro e Ribeiro Couto. O fraco desse sertanejo era a admiração pelos intelectuais. De uma feita, passo pela Brahma. E quem vejo – Rotílio Manduca, almoçando com Medeiros e Albuquerque, a quem eu havia apresentado na véspera. Com mais de um mês no Rio de Janeiro, Rotílio ficou amigo do Ministro Ataulpho de Paiva. Não sei como [...]9

 

 

O estudante Alberto Deodato conheceu Rotílio em Pirapora, passagem obrigatória para quem transitava pelo São Francisco, do Nordeste para Minas Gerais. Os dois tornaram-se amigos. No Rio de Janeiro, Rotílio freqüentava rodas políticas e intelectuais, lia os clássicos e fazia versos. Mas seu hábitat era o sertão do São Francisco. Jamais poderia romper o cordão umbilical que o prendia à realidade sertaneja. Ali nasceu e ali encontraria seu fim.

Morreu na cidade da Barra, num camarote do vapor "Wenceslau Braz", da Cia. Navegação Mineira do São Francisco, no dia 3 de maio de 1930, navio comandado por Pedro Manduca, seu irmão. A família deste espalhou-se pela região sanfranciscana, inclusive por Paracatu.

Rotílio foi esfaqueado quando dormia numa rede, balançada pelas águas do Velho Chico. O rio que o embalou em sua infância, que abriu os caminhos para sua ascensão, como líder de jagunços e de justiceiros; o rio que o aproximou dos poderosos e da intelectualidade; o mesmo rio, enfim, que embalaria a rede que seria a sua mortalha.

Assim morreu Rotílio Manduca.

Até que renasceu para a eternidade no corpo de Zé Bebelo, no Grande Sertão: Veredas. Seu epitáfio pode ser encontrado na literatura de cordel:

Rotílio, cabra valente
Mais danado e inteligente
Que o São Francisco já viu;
Mais ligeiro que a piranha,
Foi o cabra de mais manha
Que mulher de homem pariu.

Autoria anônima (apud Saul Martins)

 

Notas

1 Levínio Castilho, "Pesquisa sobre Grande Sertão: Veredas. Quem é Zé Bebelo", texto datilografado, Belo Horizonte, s/d.
2 Alan Viggiano, "Itinerário de Riobaldo Tatarana", Brasília, INL/Comunicação/Mec, 1974, p. 21.
3 Idem, p. 50.
4 Levínio Castilho, op. cit., p. 7.
5 Saul Martins, Antônio Dó, 3ª ed., Belho Horizonte, SESC/MG, 1997.
6 Idem, p. 80.
7 Levínio Castilho, op. cit., p. 11.
8 Idem, p. 10.
9 Alberto Deodato, "Roteiro da Lapa ... e outros roteiros", Belo Horizonte, Itatiaia, 1960, pp. 24-25.

 

 

Marco Antônio Tavares Coelho, jornalista, é editor-executivo da revista Estudos Avançados. É autor de Herança de um sonho: Memórias de um comunista (Record) e Rio das Velhas: Memória e desafios (Paz e Terra).
Texto recebido e aceito para publicação em 25 de setembro de 2003.
* Notas preliminares para um livro, em elaboração pelo autor, sobre o São Francisco.
** As citações de Grande Sertão: Veredas foram baseadas na 12ª, José Olympio Editora, 1978.

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