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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.17 no.49 São Paulo Sept./Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000300023 

Y

INTERNACIONAL

 

Rússia: o que vivenciou e o que tem pela frente?

 

 

Tatiana Zaslavskaia

 

 


RESUMO

O ARTIGO constitui a versão escrita de uma apresentação feita pela autora, em 2003, em mesa-redonda organizada no âmbito do Simpósio realizado anualmente pela Escola Superior de Moscou de Estudos Econômicos e Sociais, sob o grande tema Para onde vai a Rússia? Trata-se de uma polêmica com o cientista político Vladimir Mau, atualmente reitor da referida Escola, a propósito dos resultados da transformação sistêmica que teve lugar na Rússia, a partir do início dos anos de 1990, sugerindo, a partir dos mesmos, um caminho para delineamento de um futuro distinto para o país.


ABSTRACT

THE ARTICLE is a written version of the exposition done by the autor in 2003, in a Round Table organized within the symposium Whiter Russia?, that takes place annually under the auspices of the Moscow School of Social and Economic Studies. In the article she disputes with Vladimir Mau, a political scientist, now Rector of the referred School, about the results of the Russian systemic transformation of the 90's and suggests, on the basis of these results, a different path for the future development of the country.


 

 

O OBJETIVO deste artigo consiste em responder às questões essenciais que foram indicadas no programa do Simpósio Para onde vai a Rússia? A fim de fundamentar mais precisamente o objeto das discussões e ativá-las, formularei sucintamente minhas reflexões sobre os resultados de quinze anos de transformações da sociedade russa.

A primeira questão diz respeito à natureza social, ou à tipologia desse processo. Na literatura científica e nas apresentações feitas neste Simpósio, surgiram distintos pontos de vista sobre essa questão. De acordo com um deles, ocorreu na Rússia uma Grande revolução liberal-democrática1, conduzida contra o regime burocrático-autoritário soviético, que refreava a modernização da sociedade2. O segundo ponto de vista (contrário em sua substância) sustenta que as reformas realizadas neste período continuaram e levaram a um fim lógico o golpe anti-socialista, levado a cabo por Stalin ainda no final dos anos de 19203.

De acordo, porém, com um ponto de vista mais difundido, que eu compartilho, nos anos de 1980-1990 amadureceu uma revolução democrática, dirigida contra o poder autoritário da nomenklatura partidária. Mas as forças do protesto social não se revelaram suficientemente maduras para tomar em suas mãos o poder e realizar reformas construtivas no interesse da maioria da população. O ânimo revolucionário caiu rapidamente e no poder permaneceu praticamente essa mesma nomenklatura, que o utiliza em seus próprios interesses.

Assumir um desses pontos de vista depende da avaliação que se faça, tanto da situação contemporânea, como do provável futuro da Rússia. É importante compreender se realmente, mesmo não sabendo, vivenciamos uma revolução social e, se "sim", então quando e qual? Quais foram as forças sociais que se confrontaram em guerra irreconciliável? Quem ganhou e quem perdeu essa guerra? Que forças político-sociais chegaram ao poder e no interesse de quem utilizaram esse poder?

Na opinião de V. A. Mau, os acontecimentos que tiveram lugar na Rússia na primeira metade dos anos de 1990, foram marcados por uma série de particularidades, que são características às revoluções. São elas: 1) natureza sistêmica, profundidade e radicalização das mudanças das instituições básicas; 2) condicionamento das transformações primordialmente pelas contradições internas de uma dada sociedade; 3) fraqueza do poder político e ausência de acordo social a respeito de problemas, objetivos e valores centrais; 4) incapacidade da elite no poder de consolidar a sociedade para a realização "pacífica" de transformações sistêmicas, brusco fortalecimento da espontaneidade dos processos sociais4.

Penso, entretanto, que esta argumentação não é suficientemente convincente. Não há dúvida de que as reformas realizadas nesse período tocaram em importantes características societais, o que permite considerá-las revolucionárias. Mas isso não as iguala a revolução. Contra esse tratamento dos acontecimentos russos de começo dos anos de 1990 colocam-se as seguintes considerações: 1) O sujeito das revoluções sociais são as forças sociais de massa, que tomam consciência da não conciliação de seus interesses vitais com os interesses das classes dirigentes; na Rússia, entretanto, os movimentos de massa não tiveram desenvolvimento e, quando do início das reformas, reduziram-se de vez. O ator principal das transformações foi o poder superior5. E três quartos da composição pessoal da nova elite, que esteve à testa das transformações, foram formados pela nomenklatura anterior. 2) Como observa corretamente I. M. Kliamkin, na maioria das outras revoluções sociais, "em sua fase radical foram resolvidos os problemas da maioria, mas entre nós essa questão não se resolveu de modo algum e não está resolvida até agora"6. 3) A realização da revolução social (com mais razão uma Grande) dificilmente deixaria de ser conscientizada pela sociedade que a realizou.

Parece-me que o caminho da Rússia nos anos de 1990 passou não pela revolução, mas por reformas de choque, que provocaram toda uma cadeia de continuadas crises políticas e econômico-sociais (começando com a liberalização dos preços e terminando com a segunda guerra tchetchena). Nos marcos desta evolução por crises é possível distinguir três etapas substancialmente distintas.

Os anos de 1991-1993 foram marcados pela reforma radical dos institutos políticos e econômicos básicos. O resultado principal das reformas foi a abertura do caminho para a redistribuição da propriedade e do poder. As elites dirigentes concentraram-se na realização das novas possibilidades, praticamente desistindo das reformas seguintes. À massa foi proposto seguir o princípio "a salvação dos afogados é problema dos próprios afogados". Os seus representantes, seguindo o exemplo das elites, passaram a desenvolver distintas formas de atividades legais e subterrâneas, tendo em vista a sobrevivência e, se possível, a melhoria das condições de existência. Sob influência dessa atividade espontânea das massas, surgiram e se desenvolveram gradualmente novos mecanismos sociais de transformação dos diferentes aspectos da vida social, independentes do poder. No lugar dos modos tradicionais de comportamento começaram a manifestar-se novas práticas sociais, correspondentes às condições das instituições modificadas, modificando-as, por sua vez. Desta forma, o processo de transformações sociais não se encerrou, sendo a etapa das reformas orientadas do alto, sucedida pela etapa da transformação espontânea da sociedade. Essa etapa conduziu ao desmoronamento final do sistema institucional anterior, ao crescimento gigantesco das contradições sociais, à queda e à informalização da economia e, finalmente, ao default de 1998.

No começo de 1999, os processos de distribuição e redistribuição da propriedade estavam basicamente terminados. Os indicadores econômicos, tendo "tocado o fundo do poço", começaram lentamente a crescer e o desenvolvimento da sociedade passou a seguir uma trajetória mais estável. Nessas condições, a elite dirigente considerou possível retomar as reformas, destinadas a completar as transformações democrático-liberais.

Nessa terceira etapa estamos atualmente. À primeira vista, ela se assemelha à primeira; mas na realidade, elas são distintas. Em 1991-1993, o velho sistema institucional já estava destruído e um novo ainda não tinha conseguido surgir. Por isso o poder teve possibilidade de estabelecer as regras do jogo de acordo com sua concepção, editar novas leis "a partir do zero". Agora, entretanto, a situação alterou-se substancialmente. Enquanto a elite dirigente proveu-se da propriedade privada, no país estabeleceu-se uma nova estrutura institucional, de caráter predominantemente informal, mas não menos rígido. Os elementos dos novos institutos, estando compactamente ajustados uns aos outros, formam mecanismos sociais integrados, apoiados e protegidos por forças sociais poderosas – em primeiro lugar pela burocracia corrupta e pela criminalidade detentora de status legal.

Se se pode caracterizar as reformas gaidarianas7 como um ataque dos guardas vermelhos ao socialismo, a atividade dos reformadores atuais lembra mais um assalto à fortaleza, guardada pelas forças e grupos a ela contrários. As reformas movem-se muito devagar e, o mais importante é que até mesmo as leis já aprovadas defrontam-se com resistências de baixo e muito freqüentemente não são implementadas. Como conseqüência, as mudanças do sistema social constituem resultado de dois elementos paralelos: reformismo objetivado do alto e transformação espontânea de baixo. Com isso, a direção real desse processo define-se não tanto pelas diretrizes do poder e a atividade da sociedade civil, como pelos interesses e relações de força dos diferentes grupos de influência.

 

O presente e o futuro: o que vem à frente?

A fim de que a avaliação dos resultados das reformas realizadas seja completa e objetiva, é necessário, segundo penso, proceder a uma análise da dinâmica, em primeiro lugar da eficácia dos institutos básicos, em segundo lugar, da qualidade da estrutura social e, em terceiro lugar, do potencial humano do país. E comparar as características da sociedade contemporânea indicadas não somente com sua situação de partida, mas também com os objetivos declarados das reformas. Como o formato das apresentações no Simpósio não permite um exame desenvolvido da questão, limitar-me-ei a uma avaliação de princípio sobre o caminho percorrido pela Rússia.

Não é preciso demonstrar que o sistema formal-legal das instituições claramente liberalizou-se e democratizou-se; sobre isso muito se falou nas reuniões do Simpósio. Entretanto, esse sistema permanece ainda muito imperfeito. Ele é incompleto e contém muitas normas contraditórias, ineficazes e ilegais8. E o mais importante é que parte significativa das novas leis e normas não é reforçada nem por um sistema de coerção, capaz de garantir a sua aplicação, nem por normas culturais informais, que regulam o comportamento dos atores sociais. Como resultado, as normas liberal-democráticas assumem um caráter nominal, enquanto na sociedade, de fato, atuam regras do jogo baseadas não na lei, mas na força do dinheiro, do poder e da violência.

No início da Perestroika, M. Gorbachev colocou como tarefa a criação de um estado de direito, encarando-a como condição do ingresso do país na comunidade internacional. De fato, porém, nos anos passados, a Rússia, nesse sentido, degradou-se. Em vez da modernização do sistema legal, que permitiria uma melhor realização do potencial humano do país e o desenvolvimento vitorioso de suas relações internacionais, as regras do jogo vigentes caíram num estágio mais primitivo, assumindo, em muito, um caráter de barbárie. A anomia cultural, juntamente com a paralisia do judiciário, conduziram a uma expansão jamais vista da criminalidade, inúmeras formas da qual adquiriram estabilidade e se transformaram em prática cotidiana. Os investidores estrangeiros não desejam investir seu dinheiro no desenvolvimento de um país que não é capaz de assegurar garantias legais à sua atividade. E parte significativa dos russos acabaram excluídos da economia e, na realidade, passaram a ser vistos pelo poder, como fardo não necessário.

As transformações institucionais acarretaram movimentos importantes na estrutura social9. Nesse sentido, a divisão social e cultural característica da Rússia e da URSS entre a classe dominante e o restante da sociedade não se reduziu, mas aprofundou-se ainda mais. Agora o pólo mais alto de nossa sociedade é representado por 5-7% das famílias que concentram em suas mãos mais de metade da riqueza nacional, enquanto o mais baixo é representado por 30-35% de pobres, totalmente distanciados da propriedade. Entre eles estão amplamente representados os "novos pobres"10 – pessoas saudáveis, qualificadas e ocupadas, mas cujo baixo pagamento pelo seu trabalho não é suficiente para a manutenção mínima de suas famílias.

Inúmeras pesquisas sociológicas demonstram que o processo de adaptação dos russos às novas condições institucionais nos últimos anos tornou-se mais rápido. De acordo com dados do VCIOM – Centro Russo de Pesquisas da Opinião Pública, em 2002 adaptaram-se à economia de mercado basicamente 85% dos respondentes (contra 66% em 1999). Conseqüentemente, reduziu-se a proporção das pessoas que consideram sua situação ruim, sentem profunda insatisfação com a sua vida, tensão, medo e tristeza. Em 1999, elas constituíam aproximadamente 60%, e em 2002, cerca de 40%.

Entretanto, pesquisas mais aprofundadas demonstram que em mais de metade dos casos, a adaptação dos russos baseia-se na mobilidade social decrescente; tem caráter compulsório e não voluntário; conduz ao estreitamento da liberdade individual. As pessoas simplesmente se acostumam com condições piores e gradualmente a elas se submetem. E já não é pequeno o grupo de cidadãos que não puderam adaptar-se e encontram-se em uma situação extremamente difícil. Esse grupo até, de acordo com as pesquisas, é constituído por cerca de 15% ou mais de vinte milhões de pessoas e a eles deve-se agregar, como mínimo, sete milhões de representantes do fosso social (alcoólatras, drogados, sem-teto, ex-presidiários e outros ), não incluídos nas amostras das pesquisas.

Em conclusão, hoje temos uma sociedade dividida socialmente, com um estrato médio sub desenvolvido e parte principal dos cidadãos desprovidos, e em considerável medida lumpenizados. O topo não numeroso dessa sociedade está separado de sua maioria por uma enorme distância social. Em comparação com o período soviético, a oposição entre a elite e a massa de trabalhadores aumentou muito e adquiriu um caráter ostensivo de classe. Em um pólo da sociedade concentram-se os recursos de trabalho da sociedade, no outro, o capital produtivo e financeiro.

Os referidos movimentos institucionais e sociais ocasionaram uma influência extremamente negativa sobre a riqueza principal e penhor da força da Rússia – o seu potencial humano. O número de habitantes, o estado de sua saúde, o seu equilíbrio no gênero e na idade, o seu nível de educação, os objetivos e valores subjetivos, enraizados em sua cultura comportamental, definem de maneira decisiva o futuro próximo e longínquo da Rússia.

Pretendia-se que a Perestroika e as reformas liberais-democráticas permitissem não só utilizar mais eficazmente o potencial humano do país, como também assegurar a sua reprodução ampliada. Na realidade, o resultado obtido foi o contrário. A mortalidade da população aumentou muito e os nascimentos diminuíram em quase o dobro, o que provocou uma redução da população na maioria das regiões, compensada só parcialmente e cada vez mais debilmente pelo influxo de russos dos países da CEI – Comunidade dos Países Independentes. O desmoronamento dos serviços gratuitos de saúde, diante do fraco desenvolvimento dos serviços médicos privados e da inacessibilidade deles para a maioria dos russos, constituiu um fator importante para a queda dos padrões de saúde e da prematura mortalidade da população. Segundo testemunho dos médicos, mais de metade da população adulta do país precisa de ajuda psicológica e psiquiátrica. Entrementes, os dispêndios com a saúde constituem na Rússia somente 3% do PIB, sabendo-se que nos USA eles são iguais a 14% e na Europa, a 8-10%. Não deixa de ser importante também o fato de a Rússia estar próxima de alcançar o recorde em freqüência de suicídios.

Na esfera da educação, que propicia a reprodução e o crescimento do potencial humano do país, observa-se uma acentuada polarização. De um lado, fortalece-se a educação de elite, propiciando aos russos prestigiosas universidades nacionais e estrangeiras. De outro lado, o nível da educação escolar obrigatória, pela primeira vez na prática do Estado foi reduzido de onze para nove anos, enquanto mais de 10% das crianças em idade escolar não freqüentam a escola. Como conseqüência, às casernas chegam recrutas que não sabem ler e escrever, o que não ocorria há dezenas de anos. Cerca de dois milhões de crianças órfãs e abandonadas vivem sem família nos sótãos e porões, dedicando-se basicamente ao roubo. Tornando-se adultos, eles nunca poderão tornar-se plenos e corretos cidadãos. A ciência vive pesada crise. Exatamente quando o país se defronta com os desafios do pós-industrialismo, o seu potencial cultural e científico-tecnológico continua a reduzir-se. Se essa tendência continuar, a Rússia, em futuro não distante, se transformará em país puramente periférico, com atrasada economia primária, não desempenhando influência política relevante nas questões da comunidade mundial.

Para romper essa tendência, alcançar crescimento do potencial humano e harmonização da estrutura social, só existe um meio – realizar novo ciclo de reformas institucionais, orientadas socialmente. O sistema de instituições e práticas sociais criado não corresponde nem aos interesses vitais da sociedade, nem aos interesses geopolíticos do país e por isso precisa ser radicalmente reformado. Mas ele satisfaz plenamente os interesses egoístas dos grupos em cujas mãos se concentram tanto as regras de gerenciamento da sociedade como os recursos de seu desenvolvimento.

A elite dominante não tem pressa para mudar sua política social, voltar o rosto em direção ao povo. E o povo trabalhador, por ora, ainda não está pronto para falar com a elite em nível de igualdade e defender de forma auto-suficiente os seus interesses. Por isso, pode-se esperar que, ao longo de algum tempo ainda, as tendências acima referidas mantenham sua força. A divisão entre o poder e a sociedade deve aprofundar-se mais, a elite, enriquecer-se por conta da continuada apropriação da renda resultante da exploração dos recursos naturais, e o povo trabalhador, empobrecer e perder posição social. Mas isso não pode prolongar-se infinitamente. E qual será, exatamente, a saída dessa "estúpida infinidade" – pacífica e civilizada ou explosiva, parece-me que é cedo para falar.

 

Notas

1 Os grifos são da autora, da mesma forma que os demais que surgirem em diante no texto (N. da T.).
2 Conforme artigo de V. Mau nos anais do Simpósio.
3 Ver V. P. Danilov, "Padenie sovetskovo obshestva: colaps, institutsionalnyi krisis ili termidorianskii perevorot? (Queda da sociedade soviética: kolapso, crise institucional ou golpe termidoriano?)", em Kuda idiot Rossiia? Moscou, MVSSEN, Intertsenter, 1999, pp. 11-28.
4 Ekonomika perekhodnovo perioda. Vedenie (Economia do período de transição. Introdução). Moscou, IPPP, 1999, pp. 1-13.
5 Na opinião de L. F. Shevtsova, na Rússia a questão refere-se a um revolucionarismo (revolutsionost) limitado sistemicamente, o qual não conduziu à mudança da essência do poder: este até agora permanece nos limites do paradigma tradicional russo de monosubjetividade (monosubieknost)... continua mantendo-se uma grandeza que se auto-reproduz".
6 I. M. Kliamkin, Vystuplenie na konferentsii "Deciat let posle Avgusta. Predpocylki, itogui i perspektivy rossiiskoi transformatsii". (Apresentação na Conferência Dez anos após agosto. Pressupostos, conclusões e perspectivas da transformação russa). Moscou, Fundação Liberalnaia Missia (Missão Liberal), 2002.
7 As primeiras reformas, dos anos de 1991-1993, foram conduzidas por Egor Gaidar, então 1º Ministro do governo Ieltsin (N. da T.).
8 Na teoria liberal do direito, são consideradas ilegais as leis e normas que não correspondem à concepção de justiça das massas. Sobre isso, mais detalhadamente, consultar T. I. Zaslavskaia e M. A. Shabanova, K probleme institutsionalisatsii nepravovykh sotsialnykh praktik v Rossii:sfera truda (Sobre o problema da institucionalização das práticas sociais não legais na Rússia: esfera do trabalho). Mir Rossii (Mundo da Rússia), 2002, n. 2, pp. 6-8.
9 Mais detalhadamente ver em: Z. T. Golenkova, Ocnovnye tendentsii transformatsii sotsialnykh neravenstv (Principais tendências de transformação das desigualdades sociais). In: Rossia: Transformiriusheisia Obshestvo (Rússia: Sociedade em Transformação). Moscou, Kanon-Press Ts., 2001, pp.90-103; Coletivo de autores sob a direção de T. Maleva. Srednii klass v Rossii : kolitchestvenye e katchestvenye otsenki (A classe média na Rússia: avaliações quantitativas e qualitativas). Moscou, TEIS, 2000. T. I. Zaslavskaia, Sotsialnaia struktura sovremenovo rossiiskovo obshestva//Sotsietalnaia transformatsia rossiiskovo obshestva. Deiatelnostno-strukturnaia kontseptsia (Estrutura social da sociedade russa contemporânea//Transformação social da sociedade russa. Concepção operativo-estrutural). Moscou, Delo, 2002, pp. 370-400.
10 A autora aqui faz contraponto com os chamados "novos ricos" resultantes da transformação social (N. T.).

 

 

Texto recebido e aceito para publicação em 5 de setembro de 2003

 

 

Tatiana Zaslavskaia é socióloga, membro da Academia Russa de Ciências e diretora do Escola Superior de Ciências Econômicas e Sociais de Moscou e do Intertsenter.
Tradução por Lenina Pomeranz. O original em russo – Chto perejito Rossiei i chto u neió vperedi ? – encontra-se à disposição do leitor no IEA-USP para eventual consulta.

 

Os resultados da transformação sistêmica na Rússia e suas interpretações

 

 

Lenina Pomeranz

 

 

COMO ressalta Tatiana Zaslavskaia em seu artigo, existem várias interpretações sobre os resultados da transformação sistêmica por que passou a Rússia desde o início dos anos de 1990, inclusive a dela, trazida para conhecimento dos leitores de ESTUDOS AVANÇADOS. Não se trata propriamente de um artigo, mas de uma apresentação feita durante o simpósio anual patrocinado pelo Intertsenter e pela Escola Superior de Ciências Sociais e Econômicas de Moscou, sobre o grande tema Para onde vai a Rússia? (Kuda idiot Rossiia?) e temáticas específicas a cada ano por ele abrigadas. Daí o caráter polêmico que assume, quando discute uma dessas interpretações, defendida pelo cientista político V. Mau, muito vinculado à equipe econômica que conduziu por longos anos, ainda que intermitentemente, as reformas econômicas e institucionais que tiveram curso na Rússia a partir do início dos anos de 1990 e que atualmente ocupa a posição de reitor da referida Escola.

Os anais do Simpósio de 2003 ainda não estavam publicados em meados do ano, de maneira que o texto relativo à apresentação de V. Mau não estava disponível, quando o texto de Zaslavskaia nos foi por ela entregue. As posições desse cientista político são, porém, conhecidas por meio de seus vários escritos, inclusive de um texto não publicado, enviado preliminarmente para um seminário a ser realizado em São Paulo do qual participaria, e ao qual nos foi dado acesso1. Nele, V. Mau expõe a sua tese, sumarizada por Zaslavskaia, sobre a natureza revolucionária da transformação sistêmica russa, atribuindo-a à combinação peculiar de quatro desafios, associados a quatro diferentes processos de transformação: a) o desafio da transição da sociedade industrial para a pós-industrial, que teve como resultado o surgimento do núcleo de uma estrutura pós-industrial, identificado com o avanço das indústrias de telecomunicações e eletrônica, e com a diversificação da produção dos ramos químico e metalúrgico e o grande crescimento de instituições de ensino superior; b) o desafio da transformação pós-comunista, que ele considera uma experiência histórica única, da passagem de uma economia estatal para uma economia de mercado; c) o desafio da crise macroeconômica; e d) a realização de uma completa revolução social, nas condições de um Estado fraco, com quase todas as suas instituições praticamente destruídas. A peculiaridade dessa combinação na Rússia estaria na sua realização ao mesmo tempo, no mesmo país. Mas V. Mau não se limita a identificar os elementos que compõem a sua ótica sobre a transformação sistêmica, avançando em considerações sobre os seus resultados, que considera vitoriosos, embora não totalmente. Diferentemente de Zaslavskaia, cuja ótica de análise apóia-se no novo sistema social resultante do processo de transformação, particularmente das formas pelas quais se fez a redistribuição da propriedade e do poder, V. Mau usa como objeto de análise a estabilização macroeconômica, a estabilização política paralela e a transformação pós-comunista, expressa pela eliminação das características fundamentais do sistema anterior, entre as quais a propriedade estatal. Essa diferença de óticas de análise não é, porém, como pode parecer, uma questão de metodologia; ela expressa, em realidade, diferentes posições em relação à interpretação do que é a Rússia hoje e às perspectivas de seu desenvolvimento.

Para V. Mau não se trata de uma mudança de rota, mas de ajustamentos estruturais que permitam enfrentar o que considera o problema dominante da Rússia na atualidade: o enfrentamento da crise do sistema industrial e o estabelecimento das bases socioeconômicas da sociedade pós-industrial. Para Zaslavaskaia, como se verá no artigo, é indispensável realizar novo ciclo de reformas institucionais, orientadas socialmente; portanto, o problema dominante é o problema social, perpassado que é pela concentrada distribuição de renda e pelas conseqüências negativas das transformações sobre o potencial humano do país, expressas nos seus indicadores demográficos e na deterioração dos indicadores de educação e de saúde da população.

O debate sobre os resultados das transformações sistêmicas é dominante atualmente, porque é consensual a necessidade de definir uma estratégia para o desenvolvimento do país, envolvendo inclusive a indicação de seus agentes intervenientes. E essa definição passa por uma interpretação do que é hoje o país, depois dos quinze anos de transformação sistêmica. Não por acaso, o simpósio anual do Intertsenter não se realiza mais sob o grande tema de Para onde vai a Rússia?, abrigando-se agora o debate da inteligentsia de todo o país dele participante sob o tema Onde chegou a Rússia?.

Com a publicação do artigo de T. Zaslavaskaia, começamos a acompanhar o debate.

 

Nota

1 Economic and Political Results for 2001 and Prospects for Strenghtening Economic Growth. Mimeo., abr.-maio 2002.

 

 

Lenina Pomeranz é professora associada da Faculdade de Economia e Administração da USP, e pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP. Autora da tese de livre-docência Transformações sistêmicas e privatização na Rússia, USP, 1995.

 

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