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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.20 n.57 São Paulo maio/ago. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142006000200022 

MEMÓRIA

 

Criação — Lasar Segall

 

 

(…) Conferiu dignidade e valor a seres oprimidos e desajustados. Plantou com sabedoria plástica o problema do homem frente a uma natureza hostil e a uma sociedade que o entrega à solidão absoluta. Creio que nas origens israelitas do pintor se encontra a chave do seu drama espiritual transposto em arte: drama que logicamente deveria explodir nessas grandiosas telas que se chamam Guerra, Progrom, Campo de concentração, Navio de emigrantes, quadro que de certa maneira corresponde na nossa pintura atual ao Navio negreiro de Castro Alves. A segalliana implica um largo conteúdo social: mas a força plástica e humana não se deixou vencer pelo fator politico e social — mesmo porque o pintor não obedece a palavras de ordem partidária. A arte de Segall atesta o confronto entre o indivíduo e a coletividade. O indivíduo-artista resolve o conflito de forças ao interpretar a realidade social, transpondo-a para um superior plano estético e filosófico em que os seres esmagados pelo enorme rolo compressor recebem sua justificação. Na nossa época, época eminentemente polêmica, a exacerbação das paixões políticas produz um distúrbio no eixo de equilíbrio do artista; poucos são os que realizam a interpretação dos valores plásticos, humanos e sociais. A perigosa vizinhança da charge, do cartaz de propaganda e da ilustração, agravada ainda pela sobrecarga de intenções polêmicas, numa atmosfera de constante exaltação, produz um desajustamento entre a sensibilidade e a inteligência; e com isto sofre a obra de arte nas suas exigências mais fundas. Poucos pintores atuais terão levantado um monumento de tão sólida estrutura social como o autor do Navio de emigrantes. Mas poucos também terão conseguido um resultado tão harmônico, em que a violência do libelo é balançada pela justeza das proporções.

 

 

Murilo Mendes, Antologia Lasar Segall,
Rio de Janeiro: Funarte, 1982. p.59.

 

 

 

 

(…) A tragédia do Navio de emigrantes encontraria aqui um desfecho novo, numa espécie de terra da promissão, cuja descoberta parece inteiramente inesperada, na época das guerras imperalistas. Essa solução foi propiciada a Segall pela sua vinda definitiva para o Brasil.

 

Antônio Bento, Antologia Lasar Segall.
Rio de Janeiro: Funarte, 1982. p.76.

 

 

 

 

 

 

 

 

(…) Segall, no entanto, sob muitos aspectos, nos trouxe mais do que uma pintura dita brasileira. Deu-nos um testemunho profundo de toda uma época do drama contemporâneo. Mais do que isto ainda: sua obra foi um solo original e tocante, com a rouca e quente sonoridade de uma frauta rústica, dentro da cacofonia universal. Ele tinha predileção pelos tons em menor, e por isso, mesmo quando abordava os grande temas épicos — Navio de emigrantes, Progrom — acabava transformando-os num lamento.

 

Mário Pedrosa, Antologia Lasar Segall.
Rio de Janeiro: Funarte, 1982. p. 68.

 

 

 

 

 

 

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