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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.20 n.58 São Paulo set./dez. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142006000300002 

DOSSIÊ GUIMARÃES ROSA

 

"Viajar pelo sertão roseano é antes de tudo uma descoberta!"

 

 

Marily da Cunha Bezerra; Dieter Heidemann

 

 

HOJE, DEPOIS de vinte anos de andanças pelo sertão de Minas, no rastro das estórias de Guimarães Rosa, é essa a frase que abre o primeiro folheto de divulgação desse sertão, pelo Circuito Guimarães Rosa.

As descobertas são do lado de dentro ou de fora, do avesso ou do direito, de cima ou de baixo, de ontem ou de amanhã? Para quem tenha olhos para ver e ouvidos para ouvir, a geografia e a ficção se misturam e envolvem o viajante.

Para a viajante que fez a primeira viagem por Minas, num ônibus do curso colegial, acompanhada da primeira edição de Corpo de baile, reconhecendo a paisagem externa e vivenciando a interna no Mutum, com Miguilim, Dito, Mãe, tio Terez, parecia uma viagem sem volta. Ou com infinitas voltas.

Muito tempo depois, outra viagem à Minas em busca do cenário onde se dá o primeiro encontro de Riobaldo e Diadorim: o pequeno rio De-janeiro que encontra o São Francisco no município de Três Marias.

Será que um filme contando a estória daquele encontro iniciático precisaria ser rodado no cenário descrito por Guimarães Rosa? Afinal, a simbologia do batismo e do fluir das águas estaria em qualquer rio. Mas ver com os próprios olhos e tocar com as mãos foi encontrar o rio, os rios, Manuelzão, Dona Didi, Andrequicé, o ar e as estrelas do sertão, com os Gerais correndo em volta. "O virar, vazio por si, dos lugares."

Roteiro escrito, filme rodado em 1993, as delícias e os perigos da re-criação: o curta-metragem "rio de-janeiro, minas".

1995: Calina Guimarães, essa cordisburguense que saiu cedo para o mundo como estudante e depois médica, e aposentada volta, renova o Museu, cria os Contadores de Estórias Miguilim, e desperta a terra de Guimarães Rosa, com Brasinha, Dôra, Andréa, Solange, Ronaldo, Ernestina.

1995: leitores de Guimarães Rosa reunidos na sala de Regina Sader, no Departamento de Geografia, partem em excursão para o sertão e recebem o recado de Morro da Garça: Fátima, Zé Maria, Dona Zoé, Pretinha, as pessoas e a paisagem.

Aquele lugar nos esperava?...

Lá estava o Morro da Garça, solitário, sob o olhar de uma população de três mil pessoas que nunca tinham lido Guimarães Rosa e nem sabiam que seu morrão era famoso. Mas o morrão é deles, os viu nascer e acompanha a vida daquele lugar desde sempre, assim:

No tempo em que tudo era falante e em que as terras brasileiras eram imensas sesmarias, havia o mar e havia o sertão. À beira do mar, a cana-de-açúcar começou a pintar de verde claro o verde escuro da mata virgem – o ciclo da cana.
No sertão, as terras – minadouros de ouro e diamante – permaneciam tranqüilas sob o céu de vivo azul.
Até que foram invadidas por sonhadores de esmeraldas, ouro e diamante. E uma história manchada de amarelo-ouro e de vermelho-sangue se inicia – o ciclo do ouro.
Em terras sertanejas, benzidas por Deus na Criação do mundo, inicia-se a "civilização do boi": as terras tornam-se pastagem e currais – fazendas de gado – que iriam abastecer de carne e leite as minas de ouro.
Uma dessas terras, bem no centro desse sertão: a Fazenda da Garça.
Por que da Garça? Porque ali as garças faziam seus ninhos (e ainda fazem) e se alimentavam na beira do rio Bicudo, e nos pastos, dos bichinhos nas costas dos bois.
A Fazenda da Garça situava-se numa planície imensa, ao pé de um morro que, solitário, era referência aos viajantes, e que se avistava dali. Por isso o nome Morro da Garça, morro que se avista da Fazenda da Garça, esse mesmo morro que Guimarães Rosa revelou como personagem: "solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide", no conto O Recado do Morro.
E a Fazenda da Garça foi se tornando o Arraial do Morro da Garça, Paróquia, e Vila, lá pelos mil e setecentos e poucos quando se ergueu a igrejinha de Nossa Senhora das Maravilhas, com seu cruzeiro de aroeira brava.
Assim, "no devagar depressa dos tempos", foram surgindo no sertão as estórias do Boi, dos vaqueiros, da coragem na lida diária, do aboio, do canto dos carros-de-boi desbravando o sertão, abrindo estradas, os urros dos marruás nos campos, os Romanços do Boi.
E hoje, município, Morro da Garça, situado no centro de Minas Gerais, com três mil habitantes dos quais 60% de jovens, é um lugar que não quer mais calar as estórias das pessoas que, com suor, lágrimas, cantos e danças, marcaram essas terras sertanejas benzidas por Deus na Criação do mundo. (Texto narrado aos visitantes pelos Contadores de Estórias de Morro da Garça).

Chegar por meio da literatura, buscando um morro que é personagem de um conto, de uma estória inventada, ou nascer ali: visões diferentes, fortes, emocionantes, que geram amizades, projetos e brincadeiras.

E o morro que nos encanta, que vemos da janela da nossa casa sertaneja é o mesmo que vêem os vizinhos morrogarcenses?

Sabemos que não, que a paisagem é dentro de nós, enquadrada por nosso olhar particular, por nossa memória individual, por mais coletiva que possa ser.

Quando foi criado em Morro da Garça a Casa da Cultura do Sertão, com Fátima e Zé Maria, Adilson, Zé Padeiro, Caetana, Zé Augusto, e outros interlocutores, principalmente os arquitetos do projeto (Luis Antonio, Flavia, Pedro e Cássio), propúnhamos uma valorização do lugar e uma abertura desse lugar para o mundo. Partimos da nossa certeza de lá haver um anseio de arte e poesia, uma vontade de contar sua história e suas estórias, de ser percebido, de sair da "margem do mundo".

 

 

Mas na verdade estamos à margem, Guimarães Rosa está à margem, o sertão é a terceira margem, a margem inventada, criada pelo anseio de um mundo à imagem dos homens, belo e limpo.

Por isso, num mundo que a modernidade transformou em uma grande sucata de plástico (que saudade dos depósitos de ferro velho!), a Arte é a vereda, o pequeno caminho marginal que nos permite respirar, nos sentir criativos, dentro do que é nosso que é o mundo criado por Deus.

E nessa margem vamos juntando mais gente que quer respirar e sonhar, de dentro e de fora. Poderia dizer que "no devagar depressa dos tempos", alguma coisa o leitor deste artigo vai encontrar, por meio do Circuito Guimarães Rosa que condensa hoje, tudo o que foi realizado nos últimos dez anos. Podemos ler no folheto do Circuito:

O Circuito Guimarães Rosa (CGR) oferece roteiros que levam os viajantes aos lugares reais onde se passam as estórias de João Guimarães Rosa e que definem o "sertão roseano". O "sertão roseano", além de ser uma experiência literária, é uma viagem ao coração do Brasil, muito distante do turismo convencional.
É preciso espírito aventureiro para desbravar estradas de chão, fazer caminhadas pelo cerrado, hospedar-se em pensões simples e viver alguns dias a vida da roça para descobrir os lugares presentes na ficção de Guimarães Rosa, como por exemplo, o "porto" do rio de-janeiro, o pequeno rio onde se dá o encontro de Riobaldo e Diadorim no romance Grande sertão: veredas; ou a estação de Cordisburgo onde Sorôco leva sua Mãe e sua Filha para embarcar no trem que as levará ao hospício de Barbacena; ou as fazendas do conto O Recado do Morro, e ainda encontrar o "Liro-liro", as flores alvas que enquadram a janela de Otacilia... e tantos outros cenários e paisagens da vida e da obra de Guimarães Rosa.
Para conduzir os viajantes a esse mundo da ficção, o CGR conta com guias especiais que conhecem a geografía roseana e que levam os viajantes às belezas da flora e da fauna, do Cerrado que ainda existe no sertão, e tudo isso ouvindo os Contadores de Estórias do CGR narrando as estórias de Guimarães Rosa, nos próprios cenários onde elas se passam.
O Circuito Guimarães Rosa é dirigido aos interessados por literatura, aos que já conhecem ou querem conhecer a obra de Guimarães Rosa e àqueles que querem viver a simplicidade, a sabedoria e a arte do povo sertanejo.
Os viajantes do CGR encontram nos 13 municípios, além dos cenários da obra, em vias de sinalização, festas religiosas com suas capelas enfeitadas, procissão, violeiros, Café Sertanejo, barraquinha e forró e a deliciosa culinária sertaneja.
E sempre encontrarão uma Lojinha com o artesanato local e artesanato "roseano".

Dos treze, alguns municípios se destacam exatamente pelo que a obra de Guimarães Rosa tem provocado:

Cordisburgo, terra natal de Guimarães Rosa, os Contadores de Estórias Miguilim, a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, a Semana Roseana, as Caminhadas eco-literárias;

Morro da Garça – município-sede do Circuito Guimarães Rosa, os promotores da Cultura – Fátima e Zé Maria na Prefeitura, a Casa da Cultura do Sertão, os Encontros de Arte e Cultura; a rádio comunitária Ciranda FM;

 

 

Andrequicé/Tres Marias, a Tenda dos Gerais, Milce, Zé Antonio, Barbara, Maria (filha de Manuelzão), Memorial Manuelzão, Semana Manuelzão.

Curvelo, município-mãe de todo esse sertão, "capital da minha literatura", como o qualificou Guimarães Rosa, onde há vinte anos o trabalho de Tião Rocha abre portas da arte e da cultura para meninos e meninas que hoje criam arte e artesanato, como esculturas em ferro, representando o cavalo Siruiz e o menino Guirigó de Grande sertão: veredas ou o Touro Calundú e a onça "esperta" de Sagarana.

O que acontece nesses lugares que atrai cada vez mais pessoas de fora? Certamente são forasteiros que têm o sertão dentro de si, que são sertanejos como Guimarães Rosa definiu para o entrevistador Günter Lorenz. É gente que tem saudade do que nunca viveu e uma sede de um mundo primordial não corrompido, onde ainda há o que fazer.

Assim, Anne Vidal, uma artista plástica francesa moradora em São Paulo, veio a Morro da Garça com o marido brasileiro e os filhos pequenos, para "relembrar" a população da riqueza da Cal como reboco e como pintura de casas. Jean, ceramista, veio com Mauricio construir um forno para queima de cerâmica. Selma Maria, arte-educadora paulista, encontrou com os velhos e com as crianças do sertão roseano os brinquedos e as brincadeiras de hoje e da obra de Guimarães Rosa. A exposição Meninos Quietos no Sesc Pinheiros retratou essa aventura que ainda teve o desdobramento do show Meninos Quietos com o cantor e compositor Jean Garfunkel, Rodrigo, Edson e os Miguilins Dayana e Fábio, mineiros e paulistas que se conheceram numa das travessias pelo sertão.

Sylvia e Joana, psicólogas, formaram uma equipe com as educadoras da Creche Casulo de Morro da Garça para recordar a história do nascimento dessa Creche, do que resultou um belo livro único, artesanal, para consulta.

E o som do Quarteto Estúrdio, nascido à sombra de um buriti, com os músicos e compositores Wagner, Fernando, Pedro e Elida, percorre os lugares das estórias de Guimarães Rosa.

Luis Antonio, arquiteto de Campinas, veio conhecer o engenho e a arte do carro-de-boi com o mestre Manuel Alexandre, o último carreteiro de Morro da Garça, levando a seus alunos da FAU/USP o registro desse extraordinário conhecimento e dessa sabedoria ancestral.

O bailarino José Maria Carvalho, mineiro, com escola de dança em São Paulo, num passeio a Morro da Garça e a Três Marias, encontrou a vereda de volta ao sertão, criou o grupo Corpo de baile, dançadores de estórias, e envolveu o Grande sertão na dança Butoh, nos palcos de Minas e do mundo.

Bordadeiras do grupo Teia de Aranha de São Paulo vieram conhecer os pontos das mulheres-bordadeiras de Cordisburgo, de Morro da Garça e de Andrequicé, trocar idéias e estimular a narração de suas estórias através do bordado.

Dôra Guimarães e Elisa Almeida, do grupo Tudo Era Uma Vez de Belo Horizonte, orientadoras dos Contadores de Estórias Miguilim de Cordisburgo, têm criado grupos de contadores em outros municípios, através do Projeto Contadores de Estórias nos Caminhos do Sertão, da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, com o patrocínio da Cemig.

O conto "O recado do morro", que já foi peça teatral encenada por um grupo de atores amadores de Morro da Garça e de Cordisburgo, virou Caminhada em Cordisburgo e em Morro da Garça, com surpresas nos caminhos que passam por vilas, sobem o morrão, parando à beira de riachos e currais para ouvir os sete recados e a canção de Laudelim.

A barquejada pelo Rio São Francisco em Três Marias, que em sua primeiríssima edição (1985) contou com seu Norberto, pescador, seu filho Reginaldo, e duas apaixonadas por Guimarães Rosa, indo em busca do porto do rio De-janeiro, agora parte em frota de doze barcos, com cinqüenta pessoas que se emocionam ouvindo a narração do primeiro encontro de Riobaldo e Diadorim.

Hoje, quem assiste ao "desfile cívico" de 7 de Setembro na cidade de Morro da Garça tem a bela surpresa de ver as crianças da creche, das quatro escolas municipais e uma estadual desfilarem na Praça S. Sebastião, apresentando, cada escola, o enredo de uma obra de Guimarães Rosa!

Entre inúmeras atividades concebidas no âmbito da Casa da Cultura do Sertão, queremos ainda lembrar as viagens exploratórias para reconhecer na geografia do cotidiano contemporâneo sertanejo a geografia da obra do escritor.

 

 

Viajar em 2005 (pelo projeto "Guimarães Rosa: lugares", patrocinado pela Petrobras) com um grupo de jovens estudantes, professores e leitores roseanos de Morro da Garça, Andrequicé, Cordisburgo, Araçaí, Curvelo e Corinto foi, antes de tudo, um exercício de ampliação da capacidade de percepção das paisagens roseanas. Serviu para reconhecer, ao mesmo tempo, o sertão-mundo, o sertão dentro de nós e o sertão da topografia real mineira, cujos cerrados e veredas sofrem violentamente as conseqüências das monoculturas de soja e de eucalipto.

Foram três expedições: uma pelos caminhos da boiada de 1952 e duas nos rastros dos viajantes de "O recado do morro" pelas sete fazendas entre Cordisburgo e os Gerais do Rio Formoso, afluente na margem esquerda do Rio São Francisco.

 

 

Pouco a pouco, todos os participantes acompanharam os sentimentos que Guimarães Rosa expressou em vários momentos. O amor da geografia vem pelos caminhos da poesia e da imensa emoção poética que brota da paisagem sertaneja e das suas belezas: dos cerrados e dos cerradões, das veredas e dos riachos, dos campos e dos chapadões, das campinas e dos "alegres", dos morros e dos horizontes, dos saberes dos homens e das mulheres do sertão e do seu modo de vida. E, seguindo o conselho de Guimarães Rosa, os expedicionários sertanejos sempre procuravam complementar o "embevecimento do puro contemplativo" com a "luz reveladora dos conhecimentos geográficos".

As pessoas desses municípios, crianças e adolescentes e idosos, estão sempre agradecendo nossa participação, mas não sabemos quem ganha mais...

Indicações

Recomendamos o curta-metragem "rio de-janeiro, minas" com a direção de Marily da Cunha Bezerra e uma visita ao site http://guimaraesrosalugares.com.br, que ilustra atividades da Casa da Cultura do Sertão em Morro da Garça.

Lembramos também a Revista da Sociedade Brasileira de Geografia, Tomo LIII, de 1946, que reproduz o discurso de posse do escritor na sessão do dia 20 de dezembro de 1945. "A Gruta de Maquiné e seus arredores", na Revista Brasileira de Geografia, abril-junho e julho-setembro de 1941, traz, de autoria de Afonso de Guaíra Heberle, uma minuciosa descrição da "maravilha das maravilhas", a gruta de Maquiné em Cordisburgo. A esse texto e ao seu autor amigo, Guimarães Rosa faz referências no seu discurso de posse na Sociedade Brasileira de Geografia que republicamos, a seguir. Sem dúvida, o texto também serviu ao escritor como fonte e inspiração para o conto o "O recado do morro".

 

 

Texto recebido em 29.8.2006 e aceito 11.9.2006.

 

 

Marily da Cunha Bezerra, cineasta, é presidente da Associação dos Amigos da Casa da Cultura do Sertão, Morro da Garça.
Dieter Heidemann é professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. @ – heideman@usp.br

 

 

Guimarães Rosa e a Geografia

O RECONHECIMENTO de Guimarães Rosa, de ser um "velho admirador" e "velho amoroso" da geografia, foi publicamente assumido pelo escritor, ao tomar posse, no dia 20 de dezembro de 1945, no cargo de sócio titular da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Em seu pronunciamento, publicado originalmente na Revista da Sociedade Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro (Tomo LIII, 1946, p.96-7), afirmou que sua paixão pela geografia "veio pelos caminhos da poesia" e descreveu sua emoção pela beleza das terras brasileiras. Mantida a versão ortográfica original, segue o pronunciamento na íntegra:

 

 

"GRANDE É, Agora, a minha satisfação, grande a distinção que me conferis, neste momento. Honra e alegria, indizíveis; porque, à falta de outros títulos, com dois dêles me reconheço, ao ser empossado no cargo de sócio titular desta agremiação: como velho admirador da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, e como velho amoroso da Geografia. Admirador desvalioso e amoroso ignorante, certo; mas rico de entusiasmo e de sinceridade. E é assim que vos agradeço. Aos que propuzeram o meu nome, aos que aprovaram a proposta, aos que ora me recebem.

Devo explicar-me. De inicio, o amor da Geografia me veiu pelos caminhos da poesia – da imensa emoção poética que sobe da nossa terra e das suas belezas: dos campos, das matas, dos rios, das montanhas; capões e chapadões, alturas e planuras, ipuêiras e capoeiras, caátingas e restingas, montes e horizontes; do grande corpo, eterno, do Brasil. Tinha que procurar a Geografia, pois. Porque, «para mais amar e servir o Brasil, mistér se faz melhor conhecê-lo»; já que, mesmo para o embevecimento do puro contemplativo, pouco a pouco se impõe a necessidade de uma disciplina científica.

Desarmado da luz reveladora dos conhecimentos geográficos, e provido tão só da sua capacidade receptiva para a beleza, o artista vê a natureza aprisionada no campo punctiforme do momento presente. Falta-lhe saber da grande vida, evolvente, do conjunto. Escapa-lhe a majestosa magia dos movimentos milenários: o alargamento progressivo dos vales, e a suavização dos relêvos; o rejuvenescimento dos rios, que se aprofundam; na quadra das cheias, o enganoso fluir dos falsos-braços, que são abandonados meândros; a rapina voraz e fatal dos rios que capturam outros rios, de outras bacias; o minucioso registro dos ciclos de erosão, gravado nas escarpas; as estradas dos ventos, pelos vales, se esgueirando nas gargantas das serranias; os pseudópodos da caàtinga, invadindo, pouco a pouco, os «campos gerais», onde se destrói o arenito e onde vão morrendo, silentes, os buritís; e tudo o mais, enfim, que representa, numa câmera lentíssima, o estremunhar da paisagem, pelos séculos.

Ainda agora, faz menos de uma semana, acabo de regressar de uma excursão de férias, extenuante mais proveitosa, realizada apenas para matar saudades da minha região natal e para rever velhos poemas naturais da minha terra mineira.

Quanta beleza! Ávido, fiz, num dia, seis léguas a cavalo, para ir contemplar o rio epônimo – o soberbo Paraopeba – amarelo, selvagem, possante. O «cerrado», sob as boas chuvas, tinha muitos ornatos: a enfolhada capa-rosa, que proíbe o capim de medrar-lhe em tôrno; o pau bate-caixa, verde-aquarela, musical aos ventos; o pao santo, coberto de flores de leite e mel; as lobeiras, juntando grandes frutas verdes com flôres rôxas; a bôlsa-de-pastor, brancacenta, que explica muitos casos de «assombrações» noturnas; e os barbatimãos, estendendo fieiras de azinhavradas moedinhas. Os campos se ondulavam, extensos. Sôbre os tabuleiros, gaviões grasniam. A Lagoa Dourada, orgulho do Município, era um longíquo espêlho. A Lagoa Branca, já hirsuta de juncos, guarda ainda o segredo do seu barro, que, no dizer da gente da terra, produz, na pele humana, intensa e persistente comichão. Buritís, hieráticos, costeiam, por quilômetros, o Brejão do Funil, imenso, onde voam os cócos e se congregam, às dezenas as garças. E, enfim, do «Alto Grande», mirante sem prêço, a vista se alongava, longíssima, léguas, até o azulado das montanhas, por baixadas verdes, onde pedaços do rio se mostravam, brilhantes, aqui e ali, como segmentos de uma enorme cobra-do-mato.

 

 

Dois dias depois, estava eu visitando, em Cordisburgo – meu torrão inesquecível – a maravilha das maravilhas, que é a Gruta do Maquiné. E, aqui, confesso, muita coisa se revelou a mim, pela primeira vez. Certo, eu já pensava conhecer, desde a infância, os feéricos encantos da Gruta e as suas deslumbrantes redondezas: môrros, bacias, lagoas, sumidouros, monstruosos paredões de calcáreo, com o raizame lao-côontico das gameleiras priscas, e o róseo florir das cactáceas agarrantes. Mas, era que, desta vez, eu trazia comigo um instrumento precioso – bússola, guia, roteiro, óculo de ampliação: o trabalho que devemos à minuciosa operosidade, ao sentimento poético, à capacidade científica e ao talento artístico do meu saudoso amigo Afonso de Guaira Heberle: o reconhecimento topográfico «A Gruta de Maquiné e os seus Arredores». Deu-se a valorização da estesia paisagística, graças às lições da ciência e da erudição. Prestígio da Geografia!

Mas, meus senhores, estou começando mal, por um abuso, e devo sustar esta longa explicação. Do que disse, de modo tão imperfeito, podereis avaliar o que sinto, perfeitamente.

Rogo-vos apenas crer na sinceridade da minha emoção e no fervor dos meus propósitos, ao ser recebido, como sócio titular desta douta e abnegada Sociedade, que, em labor silencioso e diuturno, há tantos anos vem servindo o Brasil."

 

João Guimarães Rosa

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