SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.21 issue60Imagem de FabianoLuiz Gama: um abolicionista leitor de Renan author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.21 no.60 São Paulo May/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142007000200020 

TEXTOS

 

"Os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse" e suas biografias vicárias: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos na escrita de perfis1

 

 

Gabriela Kvacek Betella

 

 


RESUMO

Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos traçaram retratos de pessoas com as quais conviveram ao longo de suas vidas por meio de perfis concisos, seja na forma de elegias seja mesmo de necrológios. Embora esses textos sejam imprescindíveis para fundamentar o estilo de cada um dos escritores mineiros, eles também carregam a síntese de cada experiência pessoal, que é fundamental para a análise da crônica, gênero que o quarteto praticou e no qual podem ser enquadrados os perfis examinados neste ensaio.

Palavras-chave: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Crônica brasileira.


ABSTRACT

Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino and Paulo Mendes Campos wrote portraits of people with whom they were intimate along their lives by means of short profiles, either in the form of elegies or even of necrologies. Although these texts are necessary in order to set up the style of each one of these writers from Minas Gerais, they also carry the synthesis of each personal experience, which is fundamental for the analysis of the chronicle, a literary genre that the quartet of writers practiced and within which the profiles examined in this essay can be classified.

Keywords: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Brazilian chronicle.


 

 

Falar dos outros

FERNANDO Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos tiveram uma relação intensa, a ponto de serem citados, freqüentemente, como uma espécie de quarteto literário. Muita familiaridade os uniu, e o convívio ativo com pessoas do meio literário, jornalístico e político propiciou-lhes amizades espontaneamente comuns. É possível falar num universo de influências compartilhado naturalmente pelos escritores e, dessa maneira, multiplicar por quatro alguns elos de admiração ou de amizade. Curiosamente, todos escreveram sobre pessoas que conheceram durante a vida, produzindo textos sobre uma parte considerável da intelligentsia brasileira dos anos de 1940 aos de 1980, pelo menos. Além disso, reelaboraram gêneros literários, pois os escritos são híbridos de crônicas, evocações, necrológios e ensaios.

No caso dos quatro mineiros, debruçar-se sobre tais "biografias indiretas" ou, nas palavras de Otto Lara Resende, sobre a "notícia mais objetiva" daquilo que os autores viveram pode ser uma proposta original para o início de um estudo sobre a atividade do quarteto no âmbito da crônica. Um dos aspectos mais interessantes é a escolha de uma matéria diferente das memórias em sua forma tradicional, e diversa até mesmo dos livros autobiográficos de Fernando Sabino,2 único dos quatro com significativa produção nesse sentido.

Se, por um lado, analisar as biografias escritas pelos quatro mineiros é revelar suas próprias vidas, por outro, resgatar o que foi vivenciado por meio dessas biografias vicárias é como tratar a trajetória existencial de cada um deles com base nas impressões que deixaram sobre as pessoas com as quais tiveram contato em diferentes fases da vida e das quais quiseram "guardar memória". A partir daí, é conseqüência normal extrair-se um conteúdo humanizador, visto que o exame do modo de composição dos perfis nos força a mergulhar no período e nas vidas em comum, recorrendo a outros gêneros (memórias, cartas, assim como as obras dos biografados) para alcançar o enfoque pretendido pelos mineiros, ao explorar e tornar públicas as definições de caráter que julgaram mais importantes. Nesse sentido, os perfis complementam o nosso entendimento sobre figuras públicas responsáveis pela datação de um período histórico (admirável, nesse sentido, é o perfil de Juscelino Kubitschek, traçado por Otto Lara Resende) e nos ajudam a compreender a obra de um escritor (os perfis de Carlos Drummond de Andrade, de João Guimarães Rosa, também de Otto são ótimos exemplos).

A tarefa destaca, portanto, a relação entre o texto e a experiência, assegurando a importância do conteúdo histórico singular e da referência à facticidade durante a análise. Essas intenções advêm de escopos teóricos maiores, como os que contrapõem "verdade" e "história" para a elucidação de um "conceito". Refiro-me ao pensamento de Adorno (2003, p.26), exposto em "O ensaio co-mo forma":

Assim como é difícil pensar o meramente factual sem o conceito, porque pensá-lo significa sempre já concebê-lo, tampouco é possível pensar o mais puro dos conceitos sem alguma referência à facticidade. Mesmo as criações da fantasia, supostamente liberadas do espaço e do tempo, remetem à existência individual, ainda que por derivação. É por isso que o ensaio não se deixa intimidar pelo depravado pensamento profundo, que contrapõe verdade e história como opostos irreconciliáveis. Se a verdade tem, de fato, um núcleo temporal, então o conteúdo histórico torna-se, em sua plenitude, um momento integral dessa verdade; o a posteriori torna-se concretamente um a priori, e não apenas genericamente, como Fichte e seus seguidores o exigiam.

Um ponto bastante elucidativo distingue a experiência individual na contribuição histórica, seguindo a passagem anterior:

A relação com a experiência – e o ensaio confere à experiência tanta substância quanto a teoria tradicional às meras categorias – é uma relação com toda a história; a experiência meramente individual, que a consciência toma como ponto de partida por sua proximidade, é ela mesma já mediada pela experiência mais abrangente da humanidade histórica; é um mero auto-engano da sociedade e da ideologia individualistas conceber a experiência da humanidade histórica como sendo mediada, enquanto o imediato, por sua vez, seria a experiência própria a cada um. O ensaio desafia, por isso, a noção de que o historicamente produzido deve ser menosprezado como objeto da teoria [...] Um procedimento do espírito que honra como cânone a separação entre o temporal e o intemporal perde toda a sua autoridade. (ibidem)

Assim, o espírito do ensaio torna-se a forma específica da crítica dialética que renuncia à delimitação do objeto – no nosso caso, um gênero literário – e às categorias puramente conceituais e desprovidas de conteúdo histórico. Todavia, o cuidado conceitual subsiste com a precisão temporal no exame das crônicas, das evocações e dos artigos dos autores enfocados, em especial quando se trata de um material tão vasto cuja produção é inerente à sua época. Outra preocupação é a absorção de praticamente toda a relevância da experiência individual e coletiva pela forma da escrita, mediante a utilização de um "subgênero" e outro, conforme a necessidade, ou, ainda, pela criação de estratégias narrativas como a de representar uma realidade por si mesma. Em outras palavras, como se a instância literária já reproduzisse a verdade do fato ou da circunstância.

Falar de amigos ou de personalidades, no caso desses escritores mineiros, consistiu numa atividade cuidadosa, cujos resultados foram evocações publicadas em jornais e reunidas em livros, como Gente I e Gente de Fernando Sabino (1975 e 1984);3 O príncipe e o sabiá de Otto Lara Resende (1994); alguns textos de A burrice do demônio de Hélio Pellegrino (1988)4 e, mais recente, Murais de Vinicius e outros perfis de Paulo Mendes Campos (2000).5 Conforme assinalado, essas "biografias em miniatura" trazem caráter autobiográfico, procedimento cuja afinidade com o da crônica é notória, pois o dado subjetivo aparece, como se fosse algo incontrolável por parte do narrador. Contudo, assim como a crônica tem característica autoral importante, esse "subgênero" biográfico que mencionamos assume uma nuança diferenciada para cada autor. A exemplo do que diz Otto Lara Resende (1975, p.5-7) prefaciando Gente, de Fernando Sabino – cujos textos teriam obedecido a uma "planta prévia" quando publicados originalmente em jornal, até constituírem uma contribuição para decodificar e até complementar O encontro marcado6 –, há nas concisas biografias a mensagem de uma geração e também uma mensagem pessoal, pois, a pretexto de falar dos outros, os quatro mineiros falam muito de si mesmos, com diversas estratégias. É como se, ao falar de "sua gente", os autores estivessem dando voz a ela para que sobre eles falasse. Um exemplo é uma evocação de Murilo Mendes, escrita por Otto Lara Resende (1994, p.183):

Uma vez, tendo saído da redação do Globo para um trabalho de rua, encontrei Murilo [Mendes] perto do Ministério da Educação, ali naquele belo edifício com que Gustavo Capanema agrediu a burrice brasileira. Murilo e eu sabíamos de nascença a arte de perder tempo. Sentamo-nos num café da esquina de Araújo Porto Alegre e, para variar, queixei-me da canga a que amarro o meu cotidiano. Altíssimo, com um perfil sublime, pálido de tantos superlativos, Murilo desferiu-me no coração uma sentença inesquecível: "Conserve da vida apenas o essencial". No dia seguinte, fui ler Manuel Bandeira e dei com a definição do que era a doutrina de Ismael Nery, ou seja, "o homem deve sempre procurar eliminar os supérfluos que prejudicam sempre a essência a conhecer: a essência do homem e das coisas só pode ser atingida mediante abstração do espaço e do tempo, pois a localização do momento contraria uma das condições da vida, que é o movimento". A esta filosofia Ismael chamava essencialismo.

Se Otto possui a capacidade dos jornalistas de seu tempo de sintetizar uma análise num comentário, Paulo Mendes Campos expõe com delicadeza a vivência com amigos escritores, recorrendo freqüentemente ao lirismo, aos enredos cujos protagonistas enternecem o leitor com as suas atitudes inesperadamente amáveis, arrebatadoras. Fernando Sabino, por sua vez, expressa uma incontestável verve autobiográfica, falando de si mesmo, abertamente, em quase todos os perfis escritos, enquanto Hélio Pellegrino escreve perfis analíticos, deixando pouco espaço para a sua aparição entre os dados que apresenta e teoriza. Quando assim faz, sua história de vida cruza com a do biografado, para privilegiar esta última, como acontece na evocação de Amilcar de Castro, em que percebemos o realce de enunciados pelos travessões, como a expressar, na escrita, a habilidade da "eloqüência operística" que caracterizava Hélio nas suas falas:

Conheço Amilcar de Castro desde sempre. Ele é para mim, bem de raiz, compadre – e companheiro. Nossa aventura humana se cruzou – e se teceu em comum – nos anos tumultuados e inquietos da mocidade. Vejo-o vigoroso e retaco, subindo as ladeiras de Belo Horizonte. Conversávamos, madrugada adentro, indo e vindo, procurando e perguntando, achando – e perdendo. Por detrás de uma aparente dispersão boêmia, Amilcar construía o seu caminho, na arte, na filosofia – e na vida. Eis, a meu ver, a marca que o assinala: ele buscou sempre a verdade, num esforço de clarificação existencial que transcende a especialização, artística ou de outra espécie. (Pellegrino, 1988, p.157)

O "homem-comício", conforme se referia a ele Francisco Iglésias, era sempre um orador exaltado, investindo com fôlego contra o poder constituído em geral. A apaixonada indignação de Hélio em importantes manifestações durante episódios amargos na época da ditadura nos anos 1970 se contém um pouco para seu texto aparecer com as devidas ênfases – e alcançar o leitor nos seus propósitos.

 

O grande mundo de Otto Lara Resende

O príncipe e o sabiá é o resultado do projeto do próprio Otto Lara Resende, de reunir textos sobre pessoas com quem teve contato durante a vida. Com a ajuda da família do escritor, com base em comentários e anotações dele sobre a inclusão de um ou outro perfil, e depois de uma pesquisa nos documentos do arquivo pessoal do escritor no Instituto Moreira Salles, Ana Miranda organizou o volume. Os perfis seguem uma ordem cronológica e têm como abertura um texto dos anos 1940, sobre os encontros de Otto com Mário de Andrade e a importância do autor paulista na vida literária dos mineiros vintanistas.

Um levantamento preliminar é capaz de encontrar nos textos escritos por Otto Lara Resende comentários sobre obras literárias e ensaísticas, provocando nossa curiosidade sobre elas. Entre muitos outras, estão lá o Guia de Ouro Preto de Manuel Bandeira, Bonjour, tristesse de Françoise Sagan, Fear of flying de Erica Jong, a conferência de Oswald de Andrade em Belo Horizonte nos anos 1940 "O caminho percorrido" (publicada em Ponta de lança), as memórias de Pedro Nava e Un uomo finito de Giovani Papini. Nos perfis de Carlos Drummond de Andrade e de Guimarães Rosa, publicados com uma distância de quatorze anos, temos significativos relatos do processo criador ou, pelo menos, a apresentação de elementos importantes nesse processo. Revela-se a dimensão crítica que os textos de Otto assumem, em pouco diferente da instância crítica assumida por Paulo Mendes Campos, se lembrarmos do período em que colaborou na Manchete, na seção "As obras-primas que poucos leram", nos anos 1970.

Os necrológios têm presença marcante nos perfis escritos por Otto. É necessário lembrar que esse tipo de texto possui uma intenção de elogio a um falecido recente, mas transforma-se em evocação mais completa, com verdadeira devoção aos biografados. Assim acontece em "Prudente de Moraes, Neto: estre-la temporariamente apagada" (de 1977), "Samuel Wainer" (de 1980), "Tarso de Castro: uma voz, um testemunho" (de 1991). Em todos, Otto Lara Resende (1994) reitera e esclarece:

Gênero aborrecido, o do necrológio; e cada vez mais freqüente. A morte é penetra, não espera ser convidada; infiltra-se e comparece, pontual, ao espetáculo da vida. Virá como um ladrão. No berço, deita-se a morte. A morte, e morte na cruz, está na manjedoura. (p.138)
Gênero aborrecido, o necrológio. A tentação do lugar-comum. Sim, somos uns sentimentalões. De Londres, Cláudio Abramo pode escrever que "a morte no Brasil significa canonização: o elogio fúnebre brota mecanicamente do sobrevivente com a abundância vocabular que marcara a ausência de observação". Quando recentemente morreu Vinicius de Moraes, Paulo Francis, com o seu jeito provocador, que espanca a própria fratura da sensibilidade, manifestou enjôo diante do melado cordial com que choramos à brasileira os nossos mortos queridos. Simpatizo com o que dizem Abramo e Francis; mas, ainda que pudico, pertenço ao clã dos chorões. (p.186)
Gênero aborrecido, o necrológio. Impõe-se o tom convencional. Baixamos os olhos, a voz, com a cara de circunstância. Apanhado de surpresa, por mais esperada que seja a morte, o coração no entanto permanece mudo. De espanto, de perplexidade, no tumulto de sentimentos e reminiscências, que é preciso afastar para continuar vivendo. (p.281)

Hoje em dia, necrológio define apenas a seção do jornal na qual são publicadas as notícias de óbitos. No entanto, por volta do século XVIII, intitulavam-se necrológios (do grego nekrós, morto, e lógos, discurso, artigo) as obras destinadas a resumir as biografias, quase sempre em tons elogiosos, dos grandes homens que, recentemente falecidos, eram merecedores de elogios. Os necrológios já apareciam no século VI, como livros redigidos em latim, nos quais se inscreviam os nomes dos defuntos, bispos, dignatários do capítulo, abades, monges e benfeitores leigos, dos quais se fazia memória durante o ofício, em igrejas e mosteiros. No século XVII, alguns dos mais envolventes elogios fúnebres (ou orações fúnebres, ou ainda sermões fúnebres) foram compostos por Jacques-Bénigne Bossuet.

No Brasil eram publicados, a partir do século XIX, pequenos "opúsculos" de características necrológicas, além das notícias nos grandes jornais – entre os mais antigos, no Jornal do Commércio, ou os Almanacks Laemmert, publicados a partir de 1844. Costumava-se publicar os opúsculos no mesmo ano ou no ano seguinte ao falecimento, para divulgar maiores detalhes sobre o saudoso amigo ou familiar. Na maioria das vezes, eram elogios emocionados e extensos. O elogio não-fúnebre sempre foi praticado, embora não tenha uma história tão peculiar quanto a do necrológio.

Com os quatro escritores mineiros, os elogios ganharam preciosas interseções da crônica e da autobiografia. Vale ressaltar que são especialmente devotados os seguintes necrológios escritos por Otto: "Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt – Brasil: anti-Pasárgada", "Costa Rego: da mortalidade dos jornais", "Rosário Fusco: poeira sonâmbula", "Roger Caillois: o descobridor descoberto", "Juscelino Kubitschek: um antecipador" e "Jango Goulart: pedra para digerir". Neste último, de 1976, uma confissão explícita:

Tantos anos passados, confesso que por mim não queria a queda de Jango; queria a certeza de eleições em 1965; queria a sonhada, a difícil continuidade, para que não fôssemos governados pela cartilha de Júpiter, a partir de raios fulminantes, que, por mera coincidência, podem até atingir alvos merecedores da ira dos deuses.
O regime democrático não é, porém, um regime de deuses. É antes regime humano, feito de longa paciência; é um processo, que cumpre não interromper com rompantes e brusquidão, o que quer dizer tampouco com arbítrio. (Resende, 1994, p.87)

Insólitas e engraçadas passagens povoam os perfis, destacando o bom humor dos biografados, o que encobriria o estupor da voz que narra, não fosse sua manifestação sensível e, quase sempre, requintada. A presença da geração mais velha que Otto, Fernando, Hélio e Paulo nos textos marca a reverência, a preservação dos valores de uma memória que inclui boa parte da história da imprensa mineira e carioca, além de muitos representantes da vida literária brasileira. São relatadas entrevistas com políticos, juristas e homens públicos. Ao lado de comentários de menor porte, temos a oportunidade de ter um contato diferenciado com Jânio Quadros, Getúlio Vargas, João Goulart, Sobral Pinto, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Luís Carlos Prestes, Artur da Costa e Silva, Henrique Batista Teixeira Lott. Trata-se de uma freqüência muito ampla de orientações políticas, conforme se pode observar pelos nomes citados. Uma outra impressão recai sobre a capacidade de Otto transitar pelos terrenos vários, aproveitando para enfatizar qualidades e também se mostrar em desacordo com algumas posições, sem driblar assuntos espinhosos, sem evitar os constrangimentos que alguns nomes suscitam, à altura do tempo em que escreve alguns perfis, ainda que isso custe ao texto o preço de um tom rebuscado e justificatório, como acontece no perfil de Getúlio Vargas, publicado pela primeira vez em 8 de junho de 1976.

A mencionada entrevista com Getúlio aconteceu em 1946, no apartamento no Morro da Viúva, onde Getúlio se hospedou de volta ao Rio de Janeiro após o exílio em São Borja, no final de 1945, quando fora assinado o atestado de óbito do Estado Novo. Passados trinta anos, Otto rememora o acontecimento, tentando reordenar as razões da passagem do ditador pelo poder e, sobretudo, reavaliar sua herança para a sociedade brasileira. Ousadamente, reconhece a importância histórica de Getúlio e admite que homens e governos são falíveis, sob o império da lei, não do arbítrio, para festejo da convivência democrática. Otto refaz o perfil de Getúlio Vargas ao mesmo tempo que reorganiza as suas próprias lembranças e as atitudes de "reporterzinho metido a sebo", impondo o olhar do Otto maduro sobre as ansiedades do jovem. Com isso, o texto não só apresenta as marcas da composição posterior aos acontecimentos, como também seduz o leitor com a reflexão sobre o comportamento do autor e sobre os fatos, explicitamente, como comentários. Na escrita que rememora, nem sempre há reiteração de opiniões ou atitudes do próprio Otto, o que perfaz, grosso modo, uma revisão de propósitos e mergulho numa autocensura ou numa justificativa, para as quais o texto se adapta.

O perfil de Getúlio Vargas escrito por Otto pode ser tomado como parâmetro importante nas considerações sobre os perfis mostrarem-se como autênticas memórias dispersas pelas evocações, motivadas por diversos fatores, entre os quais predomina a intenção do texto-necrológio. No caso do perfil de Getúlio, a estratégia da composição resulta numa peça sem nenhuma inclinação ideológica, ou seja, autenticamente conciliadora de contrários, à maneira da poesia drummondiana – conforme o próprio Otto definira no perfil de Carlos Drummond de Andrade –, e bem ao modo mineiro de se fazer política no Brasil durante muito tempo, consagrado como conciliação de contrários, explicitação de contradições. Esse método se repete em outras evocações de políticos feitas por Otto, absorvendo um princípio da matéria para a forma do texto. É especialmente suspeito, nesse sentido, o destaque das "doçuras" suportáveis ou não, como a simplicidade do apartamento na Praça Roosevelt em que Jânio Quadros teria recebido os repórteres para uma entrevista, em 1961, ou a obstinação de Sobral Pinto pelas cartas.

 

Poeta e tanto

Paulo Mendes Campos teceu uma "elegia em retalhos" para Vinicius de Moraes. São quinze textos sobre o amigo, que podem ser analisados junto a mais uma dúzia de evocações. Di Cavalcanti, Carlos Drummond de Andrade, Ari Barroso, Antônio Maria, Sérgio Porto, Lamartine Babo, Djanira, Prudente de Moraes, Antônio Houaiss, Fernando Sabino, Jayme Ovalle (que mereceu dois perfis) e Rubem Braga são contemplados. A rigor, não são os únicos perfis escritos por Paulo, embora constituam uma boa amostragem.

Os perfis de Vinicius são fragmentados, poéticos, mundanos, divertidos, criativos. As formas assumidas pelos textos passam pela entrevista, pela lista de preferências, pelo diálogo entre personagens fictícias, pela descrição de espaços, pela crítica literária, pela reunião de frases célebres. "Receita de saudade de Vinicius" é um dos textos mais tocantes, especialmente pela simplicidade da forma e sua capacidade de acumular significados num resultado bastante próximo da poesia, ainda que a fórmula seja conhecida e até repisada:

É preciso que seja uma saudade inesperada: um Vinicius que nunca aparece quando promete e às vezes pode aparecer sem prometer.
É preciso ter escocês ao alcance da mão, uma esperança de mundo mais justo.
Amigos, amigos, amigos, talvez quando for sábado de feijoada. Que circulem também pela sala, além de mulheres, as sombras de Mário de Andrade, Zé Lins do Rego, Jayme Ovalle, Carmen, Candinho Portinari, Ari Barroso, tantos... E o pai Clodoaldo. E a mãe Lydia.
[...]
É preciso Lua. E que se recorte (sic) na vidraça os galhos duma jabuticabeira. (Campos, 2000, p.13)

Assim como em outras crônicas de Paulo, a presença do fragmento nesses trabalhos é marcante. Tanta criatividade aliada à simplicidade está a serviço da narrativa de vários momentos famosos ou da enumeração de características marcantes do poeta Vinicius. Nem sempre os fatos são desconhecidos, tamanho o culto aos acontecimentos pitorescos que cercaram a vida do poeta – e do Rio de Janeiro. A presença nos textos de pessoas que conviveram com Vinicius multiplica o alcance dos perfis, pois ora histórias paralelas são contadas ora a participação de alguém num episódio o enriquece. O texto "Pelada na praia" é exemplo de tudo isso. De início, em apenas três curtos parágrafos, temos as distinções humanas e espaciais, além da localização no tempo, com os fumos políticos que circundavam o ar, além da caracterização de uma personagem daquele cenário, por meio de uma chegada triunfal:

Copacabana era a ampla laguna dos poetas, dos pintores e das prostitutas, três pês que parecem andar juntos há muito tempo. O Alcazar do Posto 4 era bar, era lar, chope, arte, oceano, sociedade e principalmente amor eterno/casual. A guerra se liquidava, o Estado Novo não podia assimilar a glória dos pracinhas, o sorriso era fácil e todos exalavam odores revolucionários, dos mais perfumados aos mais radicais.
Augusto Frederico Schmidt, que habitava o 10º. Andar do edifício do Alcazar,7 com janelas abertas para os ventos atlânticos, uma noite desceu de enorme automóvel, cravo na lapela, charuto entre os dedos, e proferiu com dramaticidade: "Caiu como um fruto podre!". Getúlio Vargas fora deposto.
A partir daí, Copacabana, começando a perder espaço e charme, foi adquirindo uma feição anônima de formigueiro tumultuado. (ibidem, p.15)

A narrativa do acontecimento central – o jogo de futebol, com a escalação pitoresca do time – funciona como autêntica caracterização do público da fronteira entre os bairros mais famosos da cidade, esbanjando bom humor e argúcia:

O grande cisma se deu em 1945. Foi em dezembro desse ano que Copacabana e Ipanema se desentenderam. A batalha foi marcada para as dez horas da manhã, nas areias neutras do Leblon, mas começou com uma hora de atraso. Mais uma vez o poeta Schmidt desceu de enorme automóvel, dessa feita metido num calção preto, trazendo nas mãos uma bola branca e virgem. Marcaram-se os gols com camisas coloridas. O time de Ipanema contava com Aníbal Machado (tão calvo e simpático quanto a bola), Lauro Escorel (que trazia para o nosso meio o timbre paulista), Vinicius de Moraes (que já gostava de uísque), Carlos Echenique (que já gostava de dar um jeito nos problemas dos amigos), Carlos Thiré (tão calvo quanto Aníbal) e um médico também calvo e de óculos, que entrou de contrabando e foi o melhor da partida. Do time de Copacabana faziam parte o dono da bola, Di Cavalcanti, Rubem Braga, Fernando Sabino (campeão de natação, mas perna-de-pau em futebol), Orígenes Lessa, Newton Freitas, Moacir Werneck de Castro, o escultor Zé Pedrosa e eu.
[...]
Pouco a registrar: Vinicius (também conhecido por Menisco de Moraes) saiu capengando, para a companhia das damas, aos dois minutos de jogo. Braga deu uma traulitada no médico, deixando-nos meio encabulados; para Di, esfuziante goleiro, qualquer bola que passasse era alta, acima do inexistente travessão.
No final, Copacabana venceu por três a um; mas foi uma vitória pirrônica: enamorados da graça mais viçosa de Ipanema, escritores e pintores começavam a desquitar-se da ampla laguna. (p.15-6)

A poesia pontua todos os perfis escritos por Paulo, com maior ou menor intensidade. O belo "Em Paris" potencializa esse efeito, ao contar peripécias de Vinicius na capital francesa com o próprio Paulo, destacando o desprendimento do primeiro, em especial pelo sumiço do seu carro – "Nem que fosse um Rolls-Royce último modelo eu largaria agora o meu uisquinho" (p.26).

Nos perfis de outras pessoas o fragmento se alonga, chega a transformar-se em narrativa, mas o mundano e a anedota permanecem na concepção textual de Paulo. Cada texto é uma composição bem-feita de "tiradas" sobre os biografados, cada uma "resume" um episódio ou uma lenda envolvendo um ou mais personagens. O perfil de Ari Barroso mostra essas características e, ao mesmo tempo, marca cronologicamente a vida do compositor. Nesse texto, Paulo conseguiu recompor a biografia do músico com todas as histórias envolventes que a circundam. Destacando cada passagem sucintamente, o perfil atravessa a vida do compositor e inclui passagens em que Paulo esteve presente. Graças à particularidade de alguns comentários, o autor demonstra que é possível traçar uma pequena biografia reunindo fatos bastante conhecidos (no caso de Ari Barroso, o episódio da composição da Aquarela do Brasil, numa noite de temporal em 1939, o reconhecimento do compositor nos Estados Unidos, as brigas pelos direitos autorais, a morte durante o carnaval de 1964), evocando a beleza dos encontros – "Se vivesse até hoje, seríamos vizinhos de sítio e morreríamos juntos" (p.79) – e mantendo as características de uma evocação escrita com pequenas doses de autobiografia.

O perfil de Drummond, por sua vez, mantém a estrutura de "passagens", característica de Paulo e espécie de reflexo incontido do poeta: os perfis de Sérgio Porto e de Djanira são bastante comoventes. O primeiro destaca, com o talento peculiar de Paulo para a síntese de informações, fatos da vida do escritor que assumiu o nome de Stanislaw Ponte Preta, incluindo a gênese do humorista, e do seu grupo. A certa altura, Paulo oferece-nos duas pequenas biografias muito interessantes, inseridas no perfil do amigo, traçadas com a mesma dedicação que o texto tem para com o criador das personagens, com uma pitada de criatividade. Trata-se dos quase lendários Tia Zulmira e primo Altamirando:

Tia Zulmira é uma dessas criaturas que acontecem: saiu de Vila Isabel, onde nasceu, por não achar nada bonito o monumento a Noel Rosa. Passou anos e anos em Paris, dividindo quase o seu tempo entre o Follies Bergère, onde era vedete, e a Sorbonne, onde era um crânio. Casou-se várias vezes, deslumbrou a Europa, foi correspondente do Times na Jamaica, colaborou com Madame Curie, brigou nos áureos tempos com Darwin, por causa de um macaco, ensinou dança a Nijinski, relatividade a Einstein, psicanálise a Freud, automobilismo ao argentino Fangio, tourear a Dominguín, cinema a Chaplin, e deu algumas dicas para o doutor Salk. Vivia, já velha mas sempre sapiente, num casarão da Boca do Mato, fazendo pastéis que um sobrinho vendia na estação do Méier. Não tinha papas na língua e, entre muitas outras coisas, detestava mulher gorda em garupa de lambreta.
Primo Altamirando também ficou logo famoso em todo Brasil. O nefando nasceu num ano tão diferente que nele o São Cristóvão foi campeão carioca (1926). Ainda de fraldas praticou todas as maldades que as crianças costumam fazer dos 10 aos 15 anos, como, por exemplo, botar o canarinho belga no liquidificador. Foi expulso da escola primária ao ser apanhado falando muito mal de São Francisco de Assis. Pioneiro de plantação de maconha no Rio. Vivendo do dinheiro de algumas velhotas, inimigo de todos os códigos, considerava-se um homem realizado. E, ao saber de pesquisas no campo da fecundação em laboratório, dizia: "Por mais eficaz que seja o método novo de fazer criança, a turma jamais abandonará o antigo". (p.90-1)

A forma escolhida para escrever o perfil de Djanira utiliza frases da pintora como pontuações no texto. A cada um dos fragmentos atribuídos a ela, em itálico, corresponde uma história ou comentário, num texto cheio de referências, com aspecto de esquema prévio. Há momentos tocantes, até pictóricos, reveladores da admiração do autor pela artista e pela mulher, trazendo aos leitores o que talvez pouco se conheça da biografia dela, incluindo o modo como começou a pintar e seu desprendimento para com a tragédia material:

Passei por muitas dificuldades, mas a gente sempre encontra alguém que nos ajuda.
Nunca houve quem se referisse a lamúrias de Djanira; a não ser breves reflexões sobre o mau-caratismo de pessoas que prejudicaram, não a ela, a terceiros.
[...]
As duas pessoas que mais gostaram de mim foram a minha avó materna e Lídia Matoso, minha mãe de criação.
Isso já se passa em Porto União, Santa Catarina, onde a rica menina pobre vai, interna, para a escola, aos dois anos de idade. Território contestado (que Brasil Gérson historiou num panfleto), Porto União alcançaria a menina Djanira pela violência dos tiroteios. Viu passar a Coluna Prestes. Soneto: um de seus parentes adotivos era revolucionário e se escondera no sótão do cinema; cantando e brincando, como as crianças sabem representar nas horas adultas, Djanira subiu as escadas do sótão com uma boneca; dentro das entranhas da boneca havia comida para o homem acuado; lá embaixo os soldados do governo ouviam, inocentemente, suas musiquinhas.
Eu pegava qualquer serviço.
São Paulo, Avenida São João, quarto de moça pobre. Pobre corretora: vende mercadorias humildes. Pobre quebra-galho: limpa máquinas ou o que aparecer.
No fim do dia caía na cama, estourada; nem dava para pensar em comer qualquer coisa.
A gente sempre encontra alguém para dar a mão: a vizinha de quarto, portuguesa, levava à cama o mingau à menina, que decerto consumia mais calorias que as disponíveis no mercado a tantos mil-réis a dúzia de ovos. Foi a boa portuguesa que a induziu a consultar o médico.
[...]
Achei que podia pintar um Cristo melhor do que aquele!
Avaré! Orfandade! Porto União! Avenida São João! O resultado foi positivo: tuberculose pulmonar. Idade: 23 anos. Caso: perdido. Sanatório: Rui Dória, cidade paulista de São José dos Campos.
O tango argentino (V. Poeta Manuel Bandeira) esteve por um fio, mas o pneumotórax ("faca de dois gumes") afiou do lado certo.
Foi aí, no Gólgota cercado de lancetas, que Djanira viu o Cristo. Um Cristo feio. Uma gravura pendurada na parede. Possivelmente um crucificado de maneira subsubacadêmica. A moça doente deu de achar que podia desenhar um Cristo mais Cristo, e pegou do lápis. Não por distração: era a primeira concentração; era a doce coroa de espinhos que lhe assentava; era o começo da via-sacra de uma alma que marchava triunfalmente para o calvário; e só quem marchar direito terá o privilégio de ser crucificado.
[...]
Sempre tive amigos carinhosos. O crítico Rubem Navarra foi outro fabuloso. Portinari mostrava meus quadros. Segall um dia disse para mim: "Você não pode passar necessidade; se precisar de qualquer coisa, fale comigo, dinheiro ou material de pintura."
É um desfilar de amigos desde o princípio: Henrique Pongetti, Murilo Mendes, Mário Pedrosa, Gabriela Mistral, Roberto Alvim Correia, Maria Martins, Jayme Ovalle, Lélio Landucci, José Valadares, José Gómez Sicri, Ruffini, Jean Cassou, Jane Watson Crane...
Quiseram me arranjar um emprego público. Não aceitei. Não ia ficar levando um papelzinho duma mesa pra outra. Acabaria sendo má funcionária e má pintora.
[...]
Minha pintura não é ingênua, eu é que sou.
[...]
Finda a guerra, passou dois anos nos Estados Unidos. Conhece Chagall, Miró, Léger, recebe elogios ilustres (inclusive uma crônica da sra. Roosevelt), e principalmente pela primeira vez experimenta em plenitude uma vida de artista.
[...]
Não lamento meus quadros que pegaram fogo.
Foram mais de trinta quadros: o caminhão vinha de volta da Bahia com todos os trabalhos de uma fase e pegou fogo.
Quando contei para o Rodrigo [Melo Franco de Andrade], lá no Patrimônio Histórico, o coitado chegou a chorar. O Drummond ficou também muito triste. E eu disse: "Não chore, gente, que eu estou viva."
Eu sempre fui doente, mas sempre fui um espírito são.
(p.97-103)

Paulo contou histórias sobre as pessoas nessas evocações sem sobrepor os fatos de sua própria vida, embora marcasse a sua presença no circuito dos biografados. Contou-nos casos e anedotas. Aparentemente displicentes, os textos evocativos de Paulo Mendes Campos mergulham numa existência arrebatadora, além de demonstrarem uma reverência particular ao período e ao espaço que abrigou a maior concentração já vista de inteligência pulsante em arte, em humanidade, em boemia. O escritor se apazigua com seu meio, mas também expressa um antagonismo social por meio de seus textos, especialmente quando lamenta a perda no tempo de algumas situações, lugares e pessoas. No fundo, é a expressão lírica que soa mais alto nessas ocasiões, como se o poeta-cronista se entregasse ao texto, sem os usos de linguagem próprios da poesia, porém dedicando-se ao caráter quase involuntário da expressão. O texto cujas intenções parecem objetivas – basta mencionar a síntese de uma biografia, por exemplo – é composto com a mais intensa subjetividade.

 

A lealdade da busca

A coletânea Gente (publicada originalmente em duas partes, Gente I e Gente II, em 1975) agrupa crônicas de Fernando Sabino sobre personalidades de destaque nas letras, nas artes, na música e nos esportes, seguindo basicamente três direções: a do sentido mais autêntico dos perfis ou evocações, a autobiografia ou memória e a ficção ou recriação de uma realidade. Os textos podem ser agrupados de acordo com essas direções, e analisados como tal.

 

Entre os perfis mais autênticos ou de menor "contaminação" pela auto-biografia ou pela ficcionalização destacam-se "O escritor da rua da Glória", sobre Pedro Nava; "Apenas um homem que vive", sobre Oscar Niemeyer, e "Augusto na cadência da arte", sobre Augusto Rodrigues.8 No primeiro texto, Fernando destaca a fé e a crença de Nava no procedimento do médico, talvez maior que na medicina. Ao final do perfil, comentários que instigam o leitor já familiarizado com os temas mais presentes nos livros de Nava, como a morte, "a indesejada das gentes":

O medo da morte não existiria se a gente se compenetrasse de que acaba antes de morto. Mas nem assim escapamos da terrível advertência no final de seu famoso poema:

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto.
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.

A sua visão realista da precariedade de nossa existência neste mundo nada tem de mórbido: para um homem tão exuberantemente sensual no seu generoso amor à vida, é antes a consciência de que "para isso somos feitos", como no poema de Vinicius: a manifestação mais densamente humana da sua sensibilidade de artista. Já não falo da sua vocação para o desenho (ilustrou a cores o exemplar da primeira edição de Macunaíma, que seu amigo Mário lhe mandou e o ofereceu de volta ao autor) ou para a pintura (além de algumas telas genuinamente suas, pintou uma bela imitação de Portinari que costuma passar por original). Falo, com Carlos Drummond, na sua faculdade "meio demoníaca, meio angélica, de instaurar um mundo de palavras que reproduz o mundo feito de acontecimentos": mundo que ele soube enriquecer "com dolorida e desenganada, mas, ainda assim, generosa experiência do humano" (Sabino, 1984, p.128-9).

Notamos a precisa reunião de elementos biográficos e artísticos de Nava, relacionados diretamente à opinião de Sabino sobre o amigo. Estamos diante de uma espécie de biografia afetiva que, se, por um lado, é capaz de direcionar os dados, por outro, também nos fornece informações preciosas. No perfil de Niemeyer, Sabino apresenta ecos do modo de Otto escrever suas evocações. Há momentos tocantes, compostos com a intenção de oferecer ao leitor o lado mais humano do artista, além de abrir o texto em várias passagens para as palavras do próprio biografado, tateando um discurso indireto livre:

Ei-lo caminhando a meu lado na Avenida Atlântica, em direção a um restaurante da praia onde costuma almoçar. Não o via há algum tempo. Continua surpreendentemente jovem para a sua idade. Ninguém identificaria neste homem de camisa-esporte e tão simples de aparência, gestos tranqüilos e fala mansa, o gênio criador de Brasília, o artista cujas fantásticas concepções arquitetônicas se recortam hoje contra o céu de cidades espalhadas pelos cinco continentes. Poderia passar por um mestre-de-obras, ou dono de uma pequena casa de comércio nas vizinhanças, a caminho do almoço. No entanto há uma aura qualquer de grandeza que dele se irradia, como de todo artista verdadeiro, a partir da espontaneidade com que ignora a sua importância. Para ele, a própria arte não tem importância, se o ato de criação artística não for também um ato de amor à paz, à humanidade, ao ser humano. Neste sentido, prefere Gorki a Checov e Malraux a Sartre, na medida em que manifestaram maior confiança no destino do homem, através de sua maneira de pensar e de agir. Malraux soube pôr sempre sua vida e sua arte a serviço de uma causa, ao passo que o pessimismo permanente de Sartre o levou a afirmar que "toda existência é um fracasso".
[...]
É um criador, um artista plástico, e sua matéria de criação é a linha curva, concebida como o menor caminho entre dois pontos – descoberta que não escapou ao próprio Einstein. Não esperem dele uma solução mecânica para os pequenos problemas de ordem prática dos que preferem viver de olhos fechados entre quatro paredes. (ibidem, p.131-5)

Outro exemplo de afinidade com os textos de O príncipe e o sabiá é o perfil de Augusto Rodrigues, entremeado por reflexões do artista e também por histórias envolvendo outras personagens. Nesse perfil, observamos uma característica fundamental dos perfis de Sabino: a identidade do biografado vem explicitada somente ao final do texto. Para o leitor mais jovem, ou para os que não possuem intimidade com toda a dimensão do universo de Fernando, é tarefa estimulante descobrir a identidade da personagem homenageada, antes da revelação. Enquanto isso não acontece, ao longo do texto, lucra-se com a aquisição das mais variadas informações sobre o contexto de uma geração criativa e incansável no fazer literário e artístico. O perfil de Lúcio Rangel, "A arte de ser amigo", é uma autêntica amostra. Abre-se com o encontro entre Fernando e o amigo, e recorda outros momentos vividos juntos ou não, ressaltando a graça e a amizade distribuídas. Somente na última linha do texto sabemos de quem se trata. Mas esse suspense não é o único efeito de estilo eleito por Fernando Sabino. Freqüentemente os perfis de amigos ganham atmosferas particulares, graças a uma ou outra circunstância relatada, real ou imaginada pelo autor, como no encontro com Érico Veríssimo, em que os dois amigos saem dançando um tango pelo jardim da casa do escritor gaúcho (ibidem, p.15).

A memória pessoal invade os textos de Gente em fragmentos ou integralmente. Em outros passos, o conteúdo ficcional se insinua por meio de um episódio ou toma conta da evocação inteira. Vejamos o primeiro caso, o da memória pessoal, ou da já mencionada "verve autobiográfica" de Fernando. Nada mais bem justificado no exercício do gênero que tornou o autor famoso. Suas primeiras crônicas publicadas em livro (A cidade vazia, 1950, acrescida de Medo em Nova York, 1969) relatam a experiência vivida na cidade americana, onde Fernando morou de 1946 a 1948. De 1988 a 1998, vários livros possuem o caráter de reunião de memórias: O tabuleiro de damas (de 1988), De cabeça para baixo (de 1989), A volta por cima (de 1986), A chave do enigma (de 1997) e No fim dá certo (de 1998). Há teores diferentes, pois O tabuleiro de damas foi composto com a intenção de ser livro de memórias. No entanto, Fernando parece não segurar o entusiasmo pela participação na narrativa, tomando a palavra sem o anteparo de um narrador; melhor dizendo, sem a criação de um sujeito, personificado ou não. A forma de organização do discurso não tem, aparentemente, nenhuma estratégia para encobrir, disfarçar ou obstruir a primeira pessoa que é, no caso, real. Isso está muito claro em "Retrato do narrador quando jovem", em que Fernando traça um perfil da natação por meio de suas lembranças, convicções e do encontro com os novos tempos.

Algo semelhante acontece em "Aqui jazz o músico", em que o pretexto é falar sobre o estilo musical que fascina o escritor, a despeito de carregar no humor com o trocadilho do título. Fernando escreve sobre a importância do jazz em sua vida, e descreve situações nas quais, como maníaco exemplar, costumava "impingir aos incautos" a sua predileção, a sua sensibilidade à música. Por sua vez, a narrativa em primeira pessoa apresenta expressiva manifestação ficcional. Se a prosa de Fernando Sabino não chega a criar um sujeito que narra os acontecimentos em primeira pessoa, tamanha é a identificação – explícita, na maioria das vezes – da voz que narra com o próprio autor, também não se trata de um relato estritamente confessional o tempo todo, tamanho o ficcionismo alcançado. Essa fórmula bilateral, de "confissão ficcional", explica boa parte da obra de Fernando. Em Gente, a equação é desdobrada e as matizes alcançadas ora partem de sutis recriações da memória pessoal ora se baseiam numa situação ficcional, ou ainda sintetizam dados de uma biografia, apresentam o biografado por meio da sua própria voz e, com um procedimento que demonstra afinidade ao de Otto e Paulo, mapeiam uma época com as marcas de cada personagem.

Há dois perfis de Carlos Drummond de Andrade no livro de Sabino. O segundo, "Fala o fazendeiro do ar", dá voz ao poeta para oferecer os episódios mais significativos da vida, as mudanças, os resultados, o pensamento sobre si mesmo. A expressão sem afetações, a limpidez no discurso ao repensar a própria vida encantam o leitor. Fernando sai de cena, voltando apenas para alinhavar a fala do poeta amigo, com reduzidos comentários oportunos. Essa estratégia de dar a palavra ao biografado funciona primorosamente num dos dois perfis de Jayme Ovalle, em que Fernando oferece ao leitor as "máximas" do amigo, frases inesperadas e renovadoras, quando lidas com a distância temporal que guardamos de seu autor. Assim como se apresenta nas crônicas, o humor criado por Fernando baseado nas coincidências caracteriza algumas passagens dos perfis, enriquecendo a forma do texto graças às sutilezas da imaginação do autor.

 

A severidade da alegria

Hélio Pellegrino escreveu poucos perfis, no sentido estrito dos textos que formam as coletâneas de seus três amigos, examinadas até agora neste trabalho. Nas evocações que produziu, Hélio segue o estilo de todos os seus escritos: de modo apaixonado na maioria das vezes, um raciocínio filosófico é levantado, tratando de um tema polêmico ou de alta repercussão no momento da escrita. Falando da morte, da ditadura, da tortura e de assuntos mais agradáveis como a amizade, a lealdade e o amor ao próximo, Hélio escreveu com precisão para estabelecer reflexões, instigar discussões e concluir, levando o sentido, portanto, mais próximo ao ensaio. Assim também acontece nas poucas evocações de amigos. Os textos, em coerência com toda prosa que escreveu, têm como pano de fundo o questionamento dos valores exibidos pelas figuras biografadas, seja o humor seja o terror sua característica principal.

Alguns dos textos que pudemos examinar estão em A burrice do demônio, volume organizado por Humberto Werneck, enquanto outros textos ainda esperam edição em livro, pois foram publicados na Folha de S.Paulo e no Jornal do Brasil. Salvo os casos em que um episódio pitoresco é contado, como acontece no texto "Pranto para José Auto", no qual o risível é inserido em meio à narração do enterro do amigo, os perfis traçados por Hélio Pellegrino poucas vezes chegam à intimidade, ou seja, raramente fazem relatos de fatos pouco conhecidos do biografado, fazendo jus à discrição de quem praticava a psicanálise com devoção. Vale a pena rever essa exceção, composta por Hélio em 19 de novembro de 1986:

A gaveta era pequena para o tamanho do caixão. Se fosse pelo defunto, talvez procurasse adaptar-se, ralando o verniz da madeira na áspera superfície do cimento. Lembrei-me de um episódio inesquecível, que me fora contado por Otto Lara Resende. Era no velho tempo em que José Auto, aos sábados, fazia plantão no Jornal do Brasil da Av. Rio Branco. Otto passava sempre pelo terceiro andar para dar-lhe carona até Copacabana. Um dia, desceram ambos até a oficina e diante de uma porta de aço fechada, dessas de correr, resolveram transpô-la pela pequena passagem recortada na parte inferior. O escritor mineiro, abençoado por sua magreza, atravessou a portinhola como um gato. Ao chegar a vez de José Auto, deu-se o desastre. O grande recifense, contrariando a tradição de sua etnia nordestina, era avantajado como um urso e, além disto, sofria de gota. Ficou entalado no espaço da passagem exígua, sem paz nem guerra, apunhalado pela dor da gota e sacudido pelo frouxo convulsivo de riso que o abalava todo, acima do sofrimento, como um estandarte de liberdade que vingasse a humana condição de suas contingências humilhantes.
O enterro fez meia-volta e o morto, respeitado o seu tamanho, foi sepultado em outra gaveta. (Pellegrino, 1988, p.126-7)

Em "O anarquista Jerônimo", de março de 1987, observamos um "deslize autobiográfico" no texto em que Hélio pontua algumas descobertas infantis, da sua experiência. O impacto da imagem do imigrante italiano anarquista sobre o menino é registrado com a mesma intensidade com que se deu anos antes:

Mais uma lembrança remota, gravada em minha memória a ponta-seca: a figura do anarquista Jerônimo, imigrante ligado à colônia italiana de Belo Horizonte, homem grande e espadaúdo, embora tivesse uma cara redonda, delicada e quase infantil, onde luziam dois olhos inquietos e azuis [...]
Jerônimo era polemista aguerrido – e destemido. Sua fé anarquista o transformava num apóstolo, em torno de cuja palavra se reuniam, nas esquinas e nos cafés, grupos de pessoas interessadas em ouvi-lo, por mera recreação ou autêntico empenho político. Nunca me esquecerei de um desses pequenos comícios, ao qual aportei por acaso [...]
Jerônimo, no centro da roda, seguro e solene, falava. Antes de escutá-lo, minha atenção se fixou em seu rosto. A pele, muito fina e rubra, era irrigada por sinuosa – e caprichosa – rede de capilares intrincados. Havia – fisicamente – luz e cor no discurso do sapateiro [...]
O anarquista italiano falava contra as guerras e, particularmente, contra os fabricantes de armas. Ele dizia que a guerra – qualquer guerra – era movida pelos ricos, contra os pobres. As nações poderosas disputavam a dominação do mundo, ou melhor: os poderosos desses países, capitalistas desalmados, incendiavam o patriotismo das massas para arrastá-las à ruína. Jerônimo denunciava, com apaixonado fervor, as intenções bélicas de Hitler e Mussolini, cuja pregação iria levar o Planeta para a hecatombe [...]
Lembro-me do impacto que tais palavras me causaram. Voltei para casa absorto, de cabeça baixa, chutando pedras no chão e pensando nas guerras, na crueldade do capitalismo, nos donos das fábricas de armas que construíam sua fortuna à custa da desgraça do mundo [...] por misteriosas razões, também se ergueu do poço da memória o estandarte da grande noite estrelada que eu descobrira aos sete anos, para dizer-me – quem sabe? –, com o bálsamo do seu orvalho, que a presença da beleza sobrevive à miséria e à maldade dos homens. (ibidem, p.155-6)

A mesma tendência, embora mais elaborada, impera em "Lembrança de Mário de Andrade", relato emocionado da época e das emoções literárias de juventude vividas ao lado dos três amigos. Hélio rememora, quarenta anos depois (o texto é de outubro de 1983), provavelmente para celebrar o aniversário de Mário:

Conheci Mário de Andrade, pessoalmente, por volta de março de 1943. Fernando Sabino, que no ano anterior havia publicado seu primeiro livro, de contos, já se correspondia com ele. As cartas de Mário eram uma festa, e constituíam propriedade grupal, coletiva. Nos reuníamos na praça da Liberdade, em Belo Horizonte, para ler e discutir o texto, esmiuçando-o, revirando-o, interpretando-o em todas as direções. Com isto, Mário de Andrade tornou-se para nós, antes que o conhecêssemos, um amigo íntimo, querido – e perfeito. Ele nos abria a cabeça e nós, em contrapartida, lhe abríamos o inquieto coração de moços.
Em princípios de 1943, a Fume (Federação Universitária Mineira de Esportes), num tempo em que tabagismo e atletismo ainda não eram incompatíveis, organizou uma embaixada para disputar, em São Paulo, uma olimpíada estudantil. Fernando Sabino e eu, a pretexto de dar ao evento cobertura de imprensa, viajamos com destino a Mário de Andrade, pela Central do Brasil, com passe ferroviário gratuito, fornecido pelo romancista Guilhermino Cesar. Desembarcamos no endereço certo: rua Lopes Chaves, 546. Recebeu-nos, à porta, o próprio Mário. Abrindo os braços e o generoso sorriso, que ficou célebre, pediu-nos: "Não me contem quem é o Fernando, quem é o Hélio. Quero adivinhar." Olhou, olhou, dirigiu-se para o Fernando, abraçou-o, e disse convicto: "Você não pode deixar de ser o Fernando."
[...]
As cartas enviadas por Mário de Andrade ao grupo mineiro [...] fazem parte do monumento epistolar que ele endereçou à inteligência brasileira, durante mais de duas décadas. É espantosa a vocação para a amizade e para o diálogo, revelada pela correspondência andradina. No que me diz respeito, nenhuma indagação, por mim levantada, ficou sem resposta. Falamos de tudo, das minhas perplexidades, malinconias e entusiasmos, passando pelo acerbo conflito com a família mineira até chegarmos à inquietação literária, aos poemas, próprios e alheios, às sugestões, corrigendas, estímulos e, por fim, ao debate político e ao tema da responsabilidade do artista no "amilhoramento político e social do hommem", brasileiro e universal. (Pellegrino, 1983, p.3)

 

 

A recordação do amigo e conselheiro é precisa, especialmente no tocante à correspondência. A leitura das cartas de Mário, em especial aquelas endereçadas a Fernando Sabino, publicadas em 2003 com suas respostas, fornece os elementos necessários para comprovação das palavras de Hélio no texto citado. O escritor mineiro define um modo generoso de interação das diferentes gerações, graças à necessidade mútua de "servir ao futuro".

O estilo de Hélio se assemelha ao de Otto, Paulo e Fernando no perfil dedicado a Amilcar de Castro e no prefácio ao livro de memórias de Ruth Escobar. No primeiro, após a longa recordação dos tempos das frias madrugadas belorizontinas, filosóficas, abordando uma beleza primitiva, surgem passagens de análise plástica, responsáveis pelo título do texto, "Todas as coisas voam". Prefaciando Ruth Escobar, aflora o psicanalista, ao qual se incorpora, sutilmente, o crítico das memórias da atriz. São relatos de uma época significativa da história política brasileira os perfis de Tancredo Neves e Teotônio Vilela, precisamente da época em que o país respirou a atmosfera de esperança, centrada nas discussões e manifestações públicas a favor das eleições diretas. No perfil de Tancredo, o tom excessivamente cheio de alusões, simbolismos e carregado de emoção se justifica não somente pela data de publicação do texto, nove dias após a morte do presidente, mas pelo sentimento de liberdade e pelo direito de democracia, abafados por tanto tempo e expostos num acontecimento para serem resgatados pelo texto de Hélio. A origem de Teotônio Vilela é utilizada para desdobrar a força e o carisma do político. Assim como no texto sobre Tancredo Neves, Hélio expurga a carreira do biografado, compensando qualquer "desvio".

Cabem aqui alguns dados sobre a vida de Hélio, no tocante às suas manifestações contrárias à quebra de diversas éticas. Hélio escreveu, discutiu e analisou a relação entre a instituição psicanalítica, o poder, a tortura e os direitos humanos. De seu pensamento sobressai a diferenciação entre o corporativismo que protege algumas "castas" e os verdadeiros princípios éticos. Hélio esbanjava coloquialismo, sem perder o fio de inteligência que conduzia suas falas e seus escritos, incluindo aqueles com forte orientação política. A noção de liberdade para Hélio estava longe do abstrato e idealizado: "liberdade é ação, é coisa encarnada, inserida no real com objetivo de transformá-lo, modelando-o [...] Não há liberdade abstrata, nobre princípio apenas retórico, a ser festejado e exaltado em cerimônias patrióticas. A liberdade é centro da condição humana" (Pellegrino, 1984a, p.3).

Apaixonado pela justiça, ele carregava no último ano de sua vida um sonho obsessivo: ver reaberto o caso Riocentro. Uma semana antes de sua morte, o Superior Tribunal Militar decidiu pelo arquivamento do inquérito aberto para apurar esse atentado terrorista com que a extrema-direita, no dia 30 de abril de 1981, pretendeu semear o pânico e a morte entre as trinta mil pessoas que assistiam a um show de música promovido por organizações democráticas. O inquérito policial-militar, como se previa, não avançou um milímetro na direção da verdade. Hélio Pellegrino nunca se conformou com isso. Inconformismo é a característica de um de seus mais retumbantes perfis, escrito em 1987:

Morreu o general Golbery do Couto e Silva, há umas poucas semanas atrás. Sua importância, em vida, lhe roubou o primeiro – e solene – bloco de silêncio a que os mortos têm direito. Pode supor-se até que o criador do SNI, animal político de grande porte, tenha disposto as coisas de modo a que seu desaparecimento desencadeasse controvérsias – e conseqüências – de longo alcance. O atentado do Riocentro, por exemplo, sai da treva impune com que foi encoberto por obra e graça de uma impostura sinistra, para tornar-se, de novo, eixo de inquirições cuja acalmia definitiva só se dará com o pleno advento da verdade.
[...]
Em resumo: o general Golbery do Couto e Silva, desde 1964, foi homem da ditadura, pela ditadura – e para a ditadura. O renome que tem decorre de sua folha de serviços e do fato de que as Forças Armadas brasileiras não são pródigas em figuras intelectuais de proa. Discípulo tupiniquim de Niccolò Machiavelli, capaz de subordinar qualquer coisa aos seus interesses e desígnios políticos, dá de si retrato de corpo inteiro na carta de 4 de julho de 1981 que, a propósito do atentado terrorista do Riocentro, endereçou ao então presidente João Batista Figueiredo.
A carta, visando a uma estratégia política de longo alcance, não tem por objetivo principal denunciar a autoria do atentado terrorista do Riocentro. Ela, porém, o atribui ao sargento e ao capitão vitimados pela explosão prematura da bomba, cuja finalidade era provocar o massacre de centenas de jovens, que assistiam a um show de 1º de maio. Também afirma, como "verdade indiscutível", o fato de que "um grupo radical, minoritário apenas [...] infiltra os órgãos vulgarmente chamados DOI-CODI", para dedicar-se ao terrorismo. E, coisa gravíssima: argumenta que "órgãos mais vinculados à Presidência deverão achar-se de alguma forma envolvidos".
Golbery do Couto e Silva, membro conspícuo do governo Figueiredo, conhecia a trama tenebrosa da qual decorreram o atentado do Riocentro e mais 40 ações terroristas anteriores, a partir de 1980. Não obstante, nada fez para denunciá-las – ou condená-las –, do ponto de vista da ética cívica. Ao contrário, tais episódios foram tolerados na medida em que serviam para intimidar os políticos, estreitando a abertura. No caso do Riocentro, regozijou-se o general, com o inquérito destinado a enganar a opinião pública, coonestando um dos maiores embustes da história brasileira. (Pellegrino, 1988, p.137-40)

A dicção de Hélio, hábil com a oratória, impregna-se no seu texto, conforme se pode comprovar, no caso do artigo citado, a repetição do nome do general, a reiteração da designação de atentado terrorista para o caso do Riocentro e a argumentação feita pari passu enfatizando o lado tenebroso da ditadura disfarçada em abertura política. Coerente com seu próprio estilo, Hélio reproduz, de certo modo, o que escreveu no belo texto "A radicalidade do bom senso": "Revolucionário é raça medida – e comedida. Tal afirmativa soa, a um primeiro exame, como incurável paradoxo". Para Hélio, o revolucionário perfeito é o mais dotado de bom senso, "em virtude de sua radicalidade insone". Para explicar a posição radical, serve-se da definição da psicanálise que "deixa a aparência e parte em busca da verdade psíquica que constitui a essência do quadro sintomatológico" e, "com isto, acaba por compreendê-lo em profundidade e, em conseqüência, passa a ter a chance de resolvê-lo melhor – e mais radicalmente..." (p.141).

O bom humor de Hélio atravessava suas inflamadas manifestações contra os abusos de autoridade, por vezes invadia seus textos, verdadeira contaminação de anarquismo e lirismo, ao mesmo tempo. No entanto, sobre a alegria, escreveu:

Toda alegria longa e autêntica – é severa. O que não impede que a alegria seja leve, e tenha gosto de vinho. Constrói-se a própria alegria como quem constrói um barco: com ferramentas difíceis. No começo, há o machado do lenhador, derrubando o tronco. Depois, a abrasão do relento e do sol sobre suas fibras, curtindo-as. Em seguida, o sal do suor, o ato de entalhar, de escavar, os dentes cravados no coração da madeira – sua serragem sangrando. Um barco se constrói devagar, com fiel austeridade. (p.145)

Seu amor pela brincadeira nunca impediu que Hélio Pellegrino encarasse com exemplar seriedade as tarefas. Muito solicitado, raramente se recusava a escrever um artigo, redigir um manifesto, participar de um debate. Nos últimos anos de vida, entre inúmeros compromissos, fez parte da Comissão Teotônio Vilela, por melhores condições carcerárias, e do grupo Tortura Nunca Mais. Tinha prodigiosa capacidade de trabalho e passava mais de dez horas por dia no consultório – "puxando minha carroça", como dizia. Como militante, foi pouco típico e não raro dissentiu. Hélio dizia que pela classe trabalhadora era capaz de tudo, até de agüentar reuniões muito compridas. Não obstante, era o que acabava fazendo com muita freqüência – como atesta o psicanalista Carlos Alberto Barreto, seu companheiro de militância no Partido dos Trabalhadores (PT). Hélio foi levado ao PT pela mão do crítico e teórico de arte Mário Pedrosa, para quem escreveu um perfil completo sucinto e, à maneira dos perfis escritos por seus amigos, com alcance e síntese nas reflexões histórico-políticas:

Vejo-o na sua cadeira de balanço, em Botafogo e, depois, no apartamento da rua Visconde de Pirajá, dia após dia, durante meses, anos, lustros inteiros. A cadeira vai e vem, cadenciando o tempo, os acontecimentos se precipitam na sua vertigem, há guerra, perseguição, sofrimento, perplexidade. Mário Pedrosa, no seu lugar de comandante, procura compreender os avanços e os recuos da História, discute, discorda, concorda, convive.
[...]
Mário Pedrosa, formado na melhor escola do marxismo libertário, sempre acreditou na missão revolucionária e regeneradora da classe operária. Por isto mesmo, jamais compactuou com qualquer movimento ou tentativa de populismo, cuja finalidade política é de engodar, sem exceção, o proletariado, castrando-lhe a autonomia e a iniciativa histórica, em troca de algumas concessões feitas de cima para baixo. Acontece que, no Brasil, a lenta, dolorosa ascensão dos trabalhadores passa pelo populismo e, particularmente, pelo getulismo, sua expressão principal. (Pellegrino, 1981, p.3)

Sagacidade e alto poder de análise marcaram os escritos de Hélio, mais especialmente quando o assunto era de certa forma ligado às ideologias que abraçou. Num admirável texto, "O Vaticano e a luta de classes", Hélio foi capaz de unir as reflexões sobre o papel da Igreja e o proveito da doutrina marxista nas questões polêmicas envolvendo materialismo e espiritualidade:

Não existe, para o ser humano, espiritualidade desencarnada. Se isto fosse possível, Deus salvaria o homem por decreto, e não mandaria seu filho ao mundo para ser, entre nós, uma plena – e esplêndida – prática divina. Cristo nasceu, viveu e morreu. Ele foi o verdadeiro homem e, na ação de sê-lo, através de sua prática humana, garimpou e resgatou a luz de Deus que há no coração de todos os homens. A luz de Deus, aliás, reside não apenas no coração dos homens, mas no coração da matéria. Nesta medida o materialismo não ofende a Deus, nem o renega – necessariamente. Marx, materialista e ateu, está mais próximo da verdade de Cristo do que, por exemplo, o senhor Paulo Salim Maluf, católico praticante e confesso, mas dado a práticas perfeitamente inconfessáveis. (Pellegrino, 1984b, p.3)

Hélio escreveu, essencialmente, sobre as diferentes modalidades da ética. No admirável necrológio composto para Carlos Drummond de Andrade, após o enterro do poeta, é possível ver a atitude empenhada com a preservação da ética ao lado do mais profundo respeito à memória do amigo:

São duas horas da tarde de 18 de agosto. Escrevo sob o impacto da morte de Carlos Drummond de Andrade. Acabo de chegar do cemitério São João Batista. Muita, muita gente, compungida e cabisbaixa. O presidente interino da República, Dr. Ulysses Guimarães, acompanhado do governador do Estado e de outras figuras gradas, também compareceu, no centro de uma verdadeira operação de guerra [...] Quase fui barrado à porta da Capela Real Grandeza: um tira de maus bofes me interpelou erguendo o queixo, por minha audácia de querer participar de um velório naquele momento posto à disposição dos altos dignitários da República.
O poder seqüestra tudo. O poder ilegítimo seqüestra ainda mais. O velório de um grande poeta é patrimônio geral, pertence a pobres e ricos, eleitos e eleitores – nivelados [...]
O poder seqüestra tudo [...] O poder, nos dias presentes, é incapaz de confraternizar-se com a dor coletiva. Esse divórcio – ou essa alienação – surge por toda parte, nos gabinetes oficiais, nos guichês dos bancos, nas feiras das ruas, nos supermercados, nos planos macro e microeconômicos – no velório do poeta [...] Há um velório para as autoridades e um velório para os outros. O divórcio aí está, cortante. O governo, acuado e temeroso, foge do povo, com o qual não se entende. E essa fuga é marcada pela ação dos policiais que rechaçam com violência as pessoas, pondo-as a distância. O governo afugenta – ou isola – o povo, para sentir-se seguro. (Pellegrino, 1988, p.173-4)

O título da evocação – "A flor e a náusea" – é perfeitamente bem escolhido, pois demarca a inadequação dos sentidos, definindo a sensação durante o adeus a Drummond. Também metáfora se faz o assunto do texto, quando demonstra que "há um velório para as autoridades e um velório para os outros". À oposição e ao contraste Hélio responde com a indignação bem argumentada, sem conciliações. A propósito, Hélio pouco se utilizou desse expediente mineiro, em seus textos e, especialmente, na evocação de figuras expoentes no cenário nacional.

 

Conclusão

O contato com a personalidade dos quatro mineiros por meio do exame de seus textos sobre algumas pessoas com as quais conviveram revela várias manias e muito bom humor. No entanto, os quatro rapazes de Minas pontuavam os perfis com muita tolerância, em tons diferentes. Se isso toma forma de "conciliação de contrários" ou boa administração de incoerências, habilidade comumente associada a políticos e intelectuais mineiros, há outra possibilidade para explicar o desejo incontido de explicação, que constitui a força vital dos textos aqui examinados. Vale dizer que o propósito mais genuíno é a firmeza nas opiniões – e até radicalismo, no caso de Hélio – sem sectarismos. Os textos exercitam a visão sobre todos os lados de uma questão, na medida em que trazem, por exemplo, faces inusitadas de uma pessoa. A pluralidade caracteriza esse modo de visão de mundo, provavelmente afim com o ideal de humanidade que os quatro mineiros desenvolveram. Esse caráter plural mostra-se generoso, sem sombra de dúvida, no texto de Otto, exímio ghost writer até de si mesmo, embora a investigação dos fatos da vida dos escritores revele a intensidade desse caráter nas atitudes de Hélio.

 

Notas

1 A autora agradece à Profª. Telê Porto Ancona Lopez seus diversos comentários e sugestões feitos durante a elaboração do presente trabalho.

2 A produção autobiográfica de Sabino tem como representantes mais explícitas as crônicas de O tabuleiro de damas, cuja primeira edição é de 1988, além de vários relatos de viagem, ao longo da obra.

3 A primeira edição de Gente, publicada em 1975, incluía alguns perfis incorporados bem mais tarde no extenso Livro aberto (Sabino, 2001). Aqui, ao lado de perfis mais recentes, podem ser destacados: de 1958, "Poetas vivos", "Cartas de Mário", "Pancetti", "Helena Morley", "John dos Passos"; de 1965, "A Rainha do Brasil"; de 1973, "Chico", "Campeão"; de 1974, "Alfredo, cláusula única", "Voz de veludo e de luz", "Roberto e Erasmo Carlos", "O gravador de Itapoã", "Artista feliz", "Cantora em furta-cor", "Alegre brasileiro"; de 1983, "Sabiá da crônica"; de 1987, "Borjalo".

4 Além de textos em A burrice do demônio, quatro perfis publicados por Hélio na Folha de S.Paulo podem ser citados: "Presença de Mário" (20.12.1981), "Presença de Alceu" (25.8.1983), "Lembrança de Mário de Andrade" (21.10.1983) e "O menestrel das Alagoas" (31.1.1984).

5 Embora tenhamos em conta o esforço para a organização da edição supracitada, foi necessário ter ressalvas quando da consulta para a pesquisa, pois a seleção de textos não teve o cuidado de preservar as fontes, mesmo no que diz respeito aos livros de Paulo Mendes Campos dos anos 1950 e 1960; além disso, algumas crônicas aparecem mutiladas nessa edição de 2000. Confrontamos as crônicas, sempre que possível, com as primeiras edições.

6 O autor se refere ao livro de Fernando Sabino, O encontro marcado, publicado pela primeira vez em 1956, e cujo pano de fundo para a trama é a amizade de alguns jovens mineiros e os percalços que enfrentam durante a vida adulta, com nítida inspiração na vida real dos quatro escritores.

7 A localização do lar de Schmidt aparece em perfis escritos por Otto e por Fernando. Os dois relatam um mesmo episódio, vivido por eles e Paulo: Pablo Neruda estava no Rio em 1945, todos se reuniram com ele no Alcazar. A certa altura, Schmidt sugeriu que todos subissem ao seu apartamento, e a noite resultou na devastação da adega schmidtiana por Neruda, Otto, Paulo e Fernando – e um "tremendo pileque do mais fino vinho francês" (Sabino, 1984, p.92; Resende, 1994, p.207).

8 Há ainda, na linha de evocações provocadas e, no entanto, não contaminadas demais pela memória pessoal, alguns perfis resultantes dos episódios vividos por Fernando durante os encontros com alguns escritores (Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado), para a produção de documentários na Bem-te-vi Filmes, fundada pelo próprio Fernando, cujos frutos foram curtas-metragens sobre feiras internacionais para o Departamento Comercial do Itamaraty e os documentários sobre escritores brasileiros.

 

Referências bibliográficas

ADORNO, T. W. Notas de literatura I. Trad. Jorge Almeida. São Paulo: Duas Cidades, Editora 34, 2003.        [ Links ]

CAMPOS, P. M. Murais de Vinicius e outros perfis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.        [ Links ]

PELLEGRINO, H. Presença de Mário. Folha de S.Paulo, São Paulo, 20.12.1981, p.3.        [ Links ]

PELLEGRINO, H. Lembrança de Mário de Andrade. Folha de S.Paulo, São Paulo, 21.10.1983, p.3.        [ Links ]

_____. Capitalismo e mistificação religiosa. Folha de S.Paulo, São Paulo, 29.10.1984a, p.3.        [ Links ]

_____. O Vaticano e a luta de classes. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1º.8.1984b, p.3.        [ Links ]

_____. A burrice do demônio. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.        [ Links ]

RESENDE, O. L. O autor e sua gente. In: SABINO, F. Gente I. Rio de Janeiro: Record, 1975.        [ Links ]

_____. O príncipe e o sabiá. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.        [ Links ]

SABINO, F. Gente I. Rio de Janeiro: Record, 1975.        [ Links ]

_____. Gente. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1984.        [ Links ]

_____. Livro aberto. Páginas soltas ao longo do tempo. Rio de Janeiro: Record, 2001.        [ Links ]

 

 

Recebido em 5.4.2007 e aceito em 12.4.2007.

 

 

Gabriela Kvacek Betella é mestre e doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pós-doutorado concluído no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, cujo tema foi a obra dos quatro escritores mineiros, com apoio da Fapesp. Autora de Bons dias! O funcionamento preciso da inteligência em terra de relógios desacertados: as crônicas de Machado de Assis (Editora Revan), Os narradores de Machado de Assis (Edusp e Nankin Editorial, no prelo) e Quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse (Instituto Moreira Salles, no prelo). @ – gabrielakvacek@uol.com.br