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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.21 n.60 São Paulo maio/ago. 2007

https://doi.org/10.1590/S0103-40142007000200027 

RESENHAS

 

Um editor das Arábias

 

 

José Mindlin

 

 

 

O TÍTULO deste texto vem de uma lembrança antiga da minha mocidade, quando usávamos a expressão "das Arábias" para indicar uma coisa ou pessoa pouco comum e até mesmo extraordinária. Seria o caso de José Olympio.

Rua do Ouvidor 110, de Lucila Soares, merece ser lido, e José Olympio bem que merecia essa homenagem de sua neta. Esse parentesco, aliás, praticamente não aparece no livro, que é mais fruto de pesquisa do que de lembranças de família, com o que a autora conseguiu uma narrativa de muita objetividade, sem nenhuma pieguice.

Para mim a leitura foi uma fonte de prazer, pois ressuscitou um passado distante. De fato, conheci José Olympio nos idos de 1927 ou 1928, na Livraria Garraux, quando me iniciei no saudável costume de freqüentar livrarias, um hábito que me acompanhou em toda a minha vida.

O curioso é que minha lembrança de José Olympio naquela época era de um rapaz balconista da Casa Garraux quando, segundo a autora, ele já era gerente. Não me lembro da diferença de idade entre nós, que era de onze anos; minha recordação é de uma amizade cordial, de igual para igual.

Continuei acompanhando a vida de José Olympio quando ele deixou a Casa Garraux para abrir a sua livraria na Rua da Quitanda, em São Paulo, comprando a biblioteca de Alfredo Pujol, cujo acervo era excelente. Visitei-o várias vezes na própria casa desse colecionador, onde a biblioteca permaneceu por mais de um ano, com José Olympio cercado de catálogos e de obras de referência, procurando se familiarizar com um mundo de livros que não existia na Casa Garraux. A compra da biblioteca foi uma aventura reveladora do espírito empreendedor de José Olympio.

Minha irmã Esther e eu éramos amigos de Vera Pacheco Jordão, que José Olympio tinha encontrado na Casa Garraux em 1929, e com quem se casou em 1933. Ela era possuidora de grande cultura e conhecimento de várias línguas, o que foi de grande utilidade na Editora, na qual era responsável pelas traduções, coisa que muitos escritores da época faziam para ganhar a vida. Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Drummond, além de muitos outros, traduziram romances europeus e norte-americanos em bom português. Conheci também os irmãos de José Olympio, e dentre eles fui muito amigo de Antônio Olavo, autor da Marcoré e um grande humanista.

 

 

A história da livraria na Rua do Ouvi-dor é, na realidade, a descrição de uma época de ouro na vida intelectual do Rio de Janeiro dos anos 1930. De fato, naqueles poucos anos – de 1934 a 1936 – de aparente retorno à democracia que precederam o Estado Novo, de triste memória, muitos dos principais intelectuais brasileiros se encontravam no Rio de Janeiro e colaboravam com José Olympio, formando o círculo de boas conversas que se instalou na Livraria. Muitos desses intelectuais foram por ele editados, basta ver a lista, ainda certamente incompleta, que a autora elaborou: Sérgio Buarque, Manuel Bandeira, Drummond, Afonso Arinos, Portinari, Vinicius, Octávio Tarquínio de Sousa, Lúcia Miguel Pereira, Gastão Cruls, Chico Barbosa, Rodrigo Melo Franco de Andrade.

José Lins do Rego era presença constante na Livraria e foi, com Bangüê, um dos primeiros autores a serem editados por José Olympio. Com a edição dos autores brasileiros, a José Olympio veio ocupar um espaço editorial que a Garnier – substituída pela Briguiet – tinha deixado de priorizar.

Não vou reproduzir aqui detalhes do livro, privando os leitores de acompa-nhar, na obra de Lucila Soares, a brilhante carreira de José Olympio, primeiramente em São Paulo e depois no Rio de Janeiro, quando ele se transformou no grande editor que deixou sua marca indelével na história editorial brasileira. Gostaria apenas de chamar a atenção para as belas crônicas de Graciliano e Drummond sobre José Olympio que se encontram no final do livro. Lucila Soares merece elogios por ter trazido, com esse livro, o conhecimento de um percurso singular.

 

 

José Mindlin é autor de Destaques da biblioteca in disciplinada de Guita e José Mindlin, Uma vida entre livros: Reencontros com o tempo, ambos publicados pela Edusp. É membro da Academina Brasileira de Letras. @ – bibliotecajm@terra.com.br

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