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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.22 n.64 São Paulo dez. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142008000300023 

RESENHAS

 

Machado de Assis e sua arte cênica

 

 

Sábato Magaldi

 

 

Os interessados em teatro e, em maior abrangência, na cultura brasileira só podem regozijar-se com a admirável pesquisa feita por João Roberto Faria e sua publicação do livro Machado de Assis do teatro: textos críticos e escritos diversos, pela Editora Perspectiva, reunindo os escritos de Machado de Assis sobre a arte cênica.

Nosso maior escritor é bem conhecido como romancista, contista e poeta, mas esta coletânea amplia de forma extraordinária a produção machadiana, atenta a um gênero por ele cultivado e cuja análise abre um período importante de vida cultural do país.

João Roberto Faria lembra que Machado "já estava com 31 anos de idade quando iniciou a publicação de seus volumes de contos e romances". Era conhecido antes, porém, "como folhetinista, crítico teatral, crítico literário, comediógrafo, poeta, tradutor – de poemas, peças teatrais e romances – e até mesmo como censor do Conservatório Dramático", órgão oficial incumbido de julgar os textos que seriam levados ao palco.

Essa ampla atividade foi suficiente para conferir-lhe o título de "nosso principal crítico literário e teatral da década de 60 do século xix". Exemplo desse juízo se encontra na "carta que lhe endereçou José de Alencar, em 1868, pedindo-lhe que opinasse sobre alguns poemas e o drama Gonzaga ou A Revolução de Minas, de Castro Alves". O autor menciona a enorme colaboração machadiana em periódicos como Marmota Fluminense, A Marmota ou O Espelho, Diário do Rio de Janeiro; ou mesmo O Futuro e Imprensa Acadêmica de São Paulo, além dos dezesseis pareceres emitidos para o Conservatório Dramático, entre 1862 e 1864. Afirma ele ainda, com razão, que os escritos teatrais machadianos "não revelam apenas uma individualidade; mais que isso, iluminam um dos períodos mais ricos da história do teatro brasileiro".

Há uma observação interessante de Machado, visível até algumas décadas passadas, quando o dramaturgo brasileiro passou a desfrutar de maior espaço no repertório das nossas companhias: "não tínhamos teatro dramático, o que tínhamos era uma inundação de peças francesas, um excesso de traduções 'enervando' a nossa cena". De quem a culpa desse estado de coisas? A seu ver, "dos empresários dramáticos, que preferiam encenar traduções a animar os autores nacionais". Passaram-se muitas décadas para que se firmasse uma dramaturgia brasileira, até que a televisão se tornou mais convidativa para os nossos valores.

Outro importante conceito de Machado, evocado por João Roberto Faria: "A leitora sabe que o clássico não é o meu forte; aplaudo-lhe os traços bons, mas não o aceito como forma útil ao século. Digo forma útil, porque eu tenho a inqualificável monomania de não tomar a arte pela arte, mas a arte, como a toma Hugo, missão social, missão nacional e missão humana".

Tinha Machado a plena consciência de que o teatro não é uma "indústria" e que "o governo devia ter, sim, uma responsabilidade em relação à arte". Esse conceito foi respeitado até na odiosa ditadura e acabou por ser violentamente destruído no melancólico neoliberalismo, cuja preocupação verdadeira é apenas a de beneficiar a fortuna. Não se pode omitir, porém, uma passagem do livro, em que Machado, julgando uma peça que trazia à cena o tema da escravidão, teria mostrado "preconceito social" e agido "francamente com a sociedade intolerante de sua época", conforme o comentário de Eugênio Gomes a um parecer dado pelo escritor na condição de censor do Conservatório Dramático.

Abraçava Machado uma idéia que o neoliberalismo aboliu: "O Estado, que sustenta uma academia de pintura, arquitetura e estatuária, não achará razão plausível para eximir-se de criar uma academia dramática". Lembre-se de que foram extintos o Serviço Nacional de Teatro e a Comissão Estadual de Teatro do Governo de São Paulo, cujo apoio assegurou tantas iniciativas importantes para o palco.

Observa o autor, com razão, que "Machado não valoriza as peças pelo conteúdo, mas pela forma". Para um estilista primoroso, não poderia ser outro o conceito, mas o conteúdo não me parece nunca postergado. Escreve Machado: "Eu não creio nos intuitos moralizadores do teatro, nem penso que Tartufo matasse a hipocrisia". Ponto de vista de absoluta procedência.

 

 

Machado, segundo João Roberto Faria, "jamais aceitou os recursos do chamado baixo-cômico, que lhe pareceram sempre de mau gosto". Por isso, certamente, a ausência de Martins Pena no "balanço" que fez do teatro brasileiro de seu tempo. Sem dúvida, "um preconceito típico da época em que escreveu sobre teatro". Argumenta o autor: "Ao equívoco de deixar de lado as comédias de Pena somou-se mais um: o de considerar Gonçalves de Magalhães isoladamente como o fundador do teatro brasileiro. A historiografia posterior corrigiu essa injustiça e recolocou Martins Pena em seu devido lugar". Talvez seja esse o equívoco único atribuível a Machado de Assis.

 

 

Sábato Magaldi é crítico, historidor e professor de teatro. Deu aulas na Sorbonne (Universidade de Paris III) e na Universidade de Aix-en-Provence. Em julho de 1995, tomou posse na Academia Brasileira de Letras. É autor de vários livros, entre eles Panorama do teatro brasileiro, Iniciação ao teatro, Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenação e O texto no teatro. @ – vansteen@uol.com.br

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