SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 issue69The outcasts of the world: images of the pariahsScience and destruction author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.24 no.69 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142010000200004 

HUMANIDADES

 

Portugal na visão unamuniana da Ibéria como unidade dialética

 

 

Robert Patrick Newcomb

 

 


RESUMO

Embora as relações do intelectual espanhol Miguel de Unamuno com Portugal tenham recebido bastante atenção crítica, o enfoque dessa tem sido a afirmação do interesse, mantido por décadas, de Unamuno pela terra e pela literatura portuguesa, e a confirmação de relações de influência entre Unamuno e escritores portugueses destacados. Longe disso, neste trabalho consideraremos como Unamuno incorpora Portugal numa concepção geral da Ibéria como unidade dialética, e demonstraremos como seu uso de um vocabulário corporal, de carne y hueso, contribui para dar sentido pleno à sua visão de tal Ibéria dialética, na qual Portugal desempenha um papel integral.

Palavras-chave: Unamuno, Ibéria, Portugal, Espanha, Dialética, Carne, Ossos, Hegel.


 

 

"Yo no sé en qué consiste; pero en esta tierra portuguesa,
casi todos aquellos con quienes cruzo me parecen antiguos
conocidos: tienen caras que he visto en alguna otra parte.
"

(Miguel de Unamuno, "Braga")

JÁ SE TEM escrito muito sobre as relações de Miguel de Unamuno (Bilbao; 1864 - Salamanca; 1936) - ficcionista, filósofo, ensaísta e destacado membro da Generación de 98 espanhola - com Portugal.1 Para o crítico João Medina (2004, p.7), o catedrático da Universidade de Salamanca, que fez várias visitas ao norte de Portugal nas primeiras décadas do século XX e fez amizade com intelectuais portugueses como os poetas Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes, é "emblema mesmo da lusofilia mais acentuada de quantas podíamos inventariar [no] panorama de juízos espanhóis sobre o destino luso". José V. de Pina Martins, na sua "Apresentação" ao Epistolário português de Unamuno (Dios, 1978, p.vii), afirma que Unamuno é "um dos mais insignes lusófilos de todos os tempos", e um jovem Vitorino Nemésio, confessado "discípulo" de Unamuno, escreveu em 1929 o seguinte ao homem com que manteve uma correspondência extensa:

Dos grandes intelectuais espanhóis é Unamuno o único de quem [os portugueses] nos podemos acercar sem receio de que nos olhe de lado e por favor. Consigo é possível, sem risco da nossa individualidade de povo, trocar ansiedades sobre o futuro e pactuar uma acção redentora. (Carta de 14 Maio 1929; Dios, 1978, p.242)

Esses juízos, embora marcados por uma certa tendência hiperbólica que o escritor basco parece despertar nos seus intérpretes, nos parecem bem-fundados. Portugal realmente chegou a enfeitiçar Unamuno, inspirando uma série de reflexões paisagistas e críticas sobre o país, suas letras, e sua gente - muitas delas colecionadas no volume Por tierras de Portugal y de España (1911) -, e levando Unamuno a ler uma quantidade apreciável de livros portugueses e avançar uma série de opiniões muito favoráveis sobre seus autores.2 Unamuno sentiu uma especial atração pelos autores do século XIX português, julgando Amor de perdição de Camilo Castelo Branco "la novela de pasión amorosa más intensa y más profunda que se haya escrito en la Península", e louvando Antero de Quental ("la más trágica figura de nuestra literatura ibérica") e Oliveira Martins ("el único historiador artista de [la península]") ("La literatura portuguesa contemporánea" [1907]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.191; "Sobre una sentencia de Quental" [1912]; v.4, p.1329). Resumindo sua atração pelo país vizinho, Unamuno escreveu o seguinte: "¿Qué tendrá este Portugal - pienso - para así atraerme? ¿Qué tendrá esta tierra, por de fuera riente y blanda, por dentro atormentada y trágica? Yo no sé: pero cuanto más voy a él, más deseo volver" ("Guarda" [1908]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.241).

Se os críticos preocupados pela dimensão "lusa" da carreira e obra de Unamuno já têm documentado os contatos entre ele e seus correspondentes portugueses, além de afirmado a intensidade da sua atração por Portugal e especulado sobre a posição de Unamuno ante o sempre polêmico tópico da União Ibérica,3 surpreende-nos que os interessados no tema de Unamuno e Portugal não tenham entrado no fundo da obra unamuniana para analisar as várias conexões e disjunções temáticas entre o reitor salmantino e seus correspondentes portugueses, tanto humanos como textuais. Seria muito interessante, por exemplo, ler um estudo comparativo sobre a evolução da ideia da vida como agonia em Unamuno e Antero de Quental, havendo o açoriano influenciado profundamente os escritos metafísicos de Unamuno, nomeadamente Del sentimiento trágico de la vida (1913), ou um estudo sobre a leitura unamuniana de Oliveira Martins e a questão da historiografia artística. Estendendo esse olhar comparativo à produção literária brasileira, seria também de alto interesse uma análise comparativa dos temas de rivalidade fraternal e simbolismo bíblico nos romances Esaú e Jacó (1904), de Machado de Assis, e Abel Sánchez (1917), do próprio Unamuno.

Outro aspecto da relação Unamuno-Portugal, que, por qualquer razão, até hoje não parece ter despertado o interesse da crítica, é a questão do lugar que Portugal ocupa na concepção unamuniana da Espanha (e por extensão, da Ibéria) como unidade dialética, isto é, espaço geográfico, histórico e identitário cuja unidade superior, longe de ser ameaçada por suas várias tensões e contradições internas (linguísticas, políticas, culturais etc.), seria precisamente o produto dessas. É algo irônica essa discrepância, pela proeminência na crítica do tema de Unamuno como exegeta da Espanha.4 Visando à retificação dessa lacuna, o problema do lugar de Portugal na visão unamuniana da Ibéria como unidade dialética será o enfoque do presente trabalho, no qual olharemos para as várias imagens de carne y hueso espalhadas pela obra unamuniana, considerando-as como vocabulário metafórico pelo qual poderemos chegar a entender sua concepção da Ibéria como unidade dialética, ou seja, "categoría histórica, por lo tanto espiritual, que ha hecho, en unidad, el alma de un territorio con sus contrastes y contradicciones interiores. Porque no hay unidad viva si no encierra contraposiciones íntimas, luchas intestinas" ("Hispanidad" [1927]; Unamuno, 1966-1971, v.4, p.1081).5 É lícito esclarecer, como aparte, o uso unamuniano da palavra Espanha. Igual a Antero de Quental e Oliveira Martins nos seus escritos sobre a problemática peninsular, Unamuno dá um duplo significado a Espanha, aceitando, por um lado, a distinção entre Portugal e Espanha como Estados-nação "ibéricos", e, por outro, defendendo a extensão da categoria Espanha - ou melhor dito, a Hispania de romana memória - à península inteira, como sinônimo da Ibéria.6

Começaremos a nossa análise com uma discussão da dialética em Unamuno e da sua contribuição à sua visão do destino espanhol e ibérico. Passaremos a uma análise do entendimento unamuniano de Portugal no conjunto ibérico, uma relação que ganha ressonância metafórica por meio do vocabulário de carne y hueso utilizado pelo autor, e terminaremos com uma breve conclusão em que mencionaremos algumas implicações da integração desse vocabulário na estrutura dialética por meio da qual Unamuno entende seu país, suas relações com Portugal, e o destino peninsular. Cabe agora especificar qual parte da obra unamuniana discutiremos neste trabalho. Como é sabido, Unamuno foi autor muito prolífico. Suas Obras completas abrangem nove grossos volumes e se dividem entre textos de especulação metafísica, ficções, inúmeros poemas e reflexões paisagistas sobre praticamente cada canto da península, e muitos ensaios - um elevado número desses também dedicado ao tema espanhol ou ibérico. Referiremos neste artigo quase exclusivamente o seu ensaísmo e os seus escritos paisagistas - como as partes da sua obra em que Unamuno enfrenta diretamente a questão de Portugal e sua relação para com Espanha - sem excluir algumas referências a outros textos de especial relevância.

 

A Ibéria como unidade dialética

A escrita de Miguel de Unamuno é profundamente marcada pela dialética, termo polivalente e muito referido - até abusado - no discurso crítico e filosófico. Pode-se entender a dialética no seu sentido hegeliano como predicado no confronto de dois desejos, ideias, ou seres e na eventual superação ou sublação (Aufhebung) das suas contradições. Nesse sentido, a dialética nos apresenta, segundo Alexandre Kojève (1980, p.174, minha tradução), uma "dupla Realidade, a qual é [...] devida à igual realidade dos seus dois aspectos". Os temas prediletos de Unamuno quase sempre se apresentam na sua obra como oposições dialéticas, em aparente contradição mas manifestando uma conexão necessária: homem/mundo, fé/razão, história/tradição popular (ou intrahistoria), autor/personagem literário, e regionalismo/cosmopolitismo - além de carne/osso e Portugal/Espanha, como veremos. Unamuno se identificou abertamente como pensador dialético, explicando sua afinidade pelo método no seu primeiro volume de ensaios, En torno al casticismo (1902): "Es preferible, creo, seguir [el] método [...] de afirmación alternativa de los contradictorios; es preferible hacer resaltar la fuerza de los extremos en el alma del lector para que el medio tome en ella vida, que es resultante de lucha" ("La tradición eterna" [1895]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.784). Mais: "La dialéctica está llena de contradicciones íntimas, y por eso es fecunda. La dialéctica es el proceso de las antinomias y las antitesis. La dialéctica es lo menos dogmático que cabe, y por muy apasionada que sea, siempre, en el fondo, es escéptica. La dialéctica supone el diálogo" ("Ni lógica ni dialéctica, sino polémica" [1915]; Unamuno, 1966-1971, v.3, p.747).7 Parece-nos significativo que Unamuno tenha considerado a dialética como de particular relevância para o estudo da Espanha e da Ibéria, em virtude da sua história conflitiva, como ele esclarece em comentário sobre As duas Espanhas (1932), de Fidelino de Figueiredo, estudo que mostra, segundo o nosso pensador basco, uma "profunda comprensión de que nuestra íntima historia espiritual estriba en nuestro carácter contradictorio, o si se quiere dialéctico y dilemático, en que somos un pueblo de contradicción". Mais: "[E]sa dualidad - mejor: contrariedad - que es espíritu de lucha lo llevamos cada uno de los españoles dentro de nosotros mismos y cuanto más nos ensañamos con el adversario es que estamos peleando con el otro que llevamos por dentro, con uno de los dos" ("El soñar de la esfinge" [1933]; Unamuno, 1985, p.277-8; minha ênfase).

Quando se fala da dialética na obra de Unamuno, há que esclarecer quais são as correntes dialéticas ou mais amplamente filosóficas (platônica, hegeliana, kierkegaardiana etc.) dentro de que opera o nosso escritor. Aceitaremos de modo geral a distinção feita por Ciriaco Morón Arroyo entre dois tipos de dialética que se veem na obra unanumiana: a já citada hegeliana, que é "el movimiento mismo de la realidad", realizada pela sublação das oposições categóricas, e guiada pela razão histórica, e a kierkegaardiana, na qual as oposições ficam sem resolução, em tensão agônica. Contudo, discordamos da sua conclusão de que haja em Unamuno todo tipo de dialética "menos la hegeliana", e que "[l]as huellas del pensador alemán en [Unamuno] no [sean] muy visibles" (Sánchez-Barbudo, 1974, p.174-5, 178). Apesar das suas dúvidas para com o racionalismo do filósofo alemão, e sua forte atração pelo aparente irracionalismo do dinamarquês, há muito de Hegel no pensamento de Unamuno.8 Recordamos a afirmação de Unamuno, incluída numa carta de 1901, de que "[a]prendí alemán en Hegel, en el estupendo Hegel, que ha sido uno de los pensadores que más honda huella han dejado en mí. Hoy mismo creo que el fondo de mi pensamiento es hegeliano" (apud Sánchez-Barbudo, 1974, p.151, minha ênfase). Vemos em Unamuno, além das estruturas dialéticas que discutiremos nos próximos parágrafos, uma interpretação da autoconsciência muito parecida com a que observamos na Fenomenologia do Espírito de Hegel, em que a autoconsciência plena é produto do encontro primordial entre dois desejos e pressupõe o eventual reconhecimento mútuo. Opina Unamuno: "[N]o llega a conocerse uno a sí mismo de otra manera que llega a conocer a sus prójimos, [...] [N]o hay la magia de un espíritu que se refleja sobre sí mismo sin algo medianero" ("¡El español...conquistador!" [1915]; Unamuno, 1966-1971, v.3, p.750). Ademais, do Sentimiento trágico de la vida: " [E]l hombre ni vive solo ni es individuo aislado, sino que es miembro de sociedad [...] La razón, lo que llamamos tal, es conocimiento reflejo y reflexivo, el que distingue al hombre, es un producto social" (Unamuno, 1966-1971, v.7, p.124).9

Como argumentaremos nos seguintes parágrafos, Unamuno estende essa preferência pelas estruturas e pelo método dialético à realidade peninsular, entendendo a Espanha/Ibéria como entidade dialética e procurando superar as oposições e contradições internas à categoria para afirmar sua unidade superior. Vê-se claramente em Unamuno a tendência para afirmar a unidade ibérica como função das suas tensões e diferenças internas. Embora a fé do Unamuno jovem na reformulação do espírito nacional espanhol desde o ponto de vista das nacionalidades diminuísse com o passo dos anos e sua defesa de Castela e do castelhano como agentes privilegiados da unidade peninsular se acentuasse, o pensador basco insistia sempre na unidade superior da península, que ele encarna na ideia de um "común espíritu ibérico", uma espécie de Volksgeist peninsular, e que ele entende como produto das lutas e tensões entre as várias personalidades ibéricas regionais - incluindo a portuguesa ("La literatura portuguesa contemporánea" [1907]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.192).10 No volume En torno al casticismo (1902), no qual expõe o problema de como criar uma autêntica consciência nacional para Espanha, Unamuno opina que "toda unificación procede al compás de la diferenciación interna y al compás de la sumisión del conjunto todo a una unidad superior a él", e que "todo cuerpo se sostiene del juego de la presión externa con la tensión interna" ("La casta histórica. - Castilla" [1895]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.802-3). Ele volta ao tópico na conferência "Lo que puede aprender Castilla de los poetas catalanes" (1915), na qual, referindo-se à Primeira Guerra Mundial, diz o seguinte:

[La guerra] puede llevarnos a plantear de una manera más clara el problema de nuestra personalidad colectiva nacional, el problema de la personalidad de España. O más bien el de sus varias personalidades regionales en lucha unas con otras, en lucha por integrarse [...] Cada uno de nosotros ha sido varios, y una veces tuvo la hegemonía uno de nuestros yos y otras veces el otro. Y así en un pueblo, así en España. Que es una personalidad colectiva compleja en interna lucha. El alma común española, concebida y elaborada en controversia, en contradicción, en guerra civil, se está siempre haciendo. (Unamuno, 1966-1971, v.9, p.318, minha ênfase)

Para Unamuno, esse processo de integração espanhol e peninsular por meio do confronto dialético das personalidades regionais leva necessariamente à substituição das línguas regionais - dentro das quais figura o português, apesar de ser língua oficial de um país soberano - por um idioma genuinamente espanhol e por extensão ibérico, baseado no castelhano mas aproveitando das contribuições das demais falas peninsulares, além das variantes do castelhano e português faladas nas ex-colônias americanas.11 Como Unamuno explicou no seu controvertido "Discurso en los Juegos Florales celebrados en Bilbao el Día 26 de Agosto de 1901": "Del castellano, pronunciado y construído por distintos pueblos que habitan en ambos mundos dilatados dominios, surgirán, no distintas lenguas [...] sino el sobre-castellano, la lengua española o hispanoamericana, una y varia, flexible y rica, dilatada como sus dominios" (Unamuno, 1966-1971, v.4, p.242, minha ênfase). Esse projeto implica algo paradoxalmente o dever da parte de todo intelectual peninsular de aprender a expressar-se nas três principais línguas ibéricas: castelhano, catalão e português. Unamuno sempre advogou, apesar da sua defesa enérgica da língua de Castela, que os castelhanos lessem os outros dois idiomas - "lenguas, hermanas de la nuestra castellana" ("Diccionario diferencial Catalán-Castellano" [1916]; Unamuno, 1966-1971, v.4, p.545, minha ênfase).12

Seu argumento diz muito da sua concepção da península, dentro da qual a distinção Castela/Catalunha, e sobretudo Castela/Portugal ou Espanha/Portugal, se dotaria de uma alta potencialidade dialética. Unamuno segue o exemplo de dois destacados membros da portuguesa Geração de 70, Antero de Quental e Oliveira Martins, ao afirmar um comum espírito, consciência, ou "gênio" para a Ibéria,13 que seria enriquecido pelos esforços de peninsulares conscientes para superar as contradições internas à península, incluindo a divisão linguística entre o português e o espanhol - idiomas que, segundo o nosso basco, "en rigor y en el fondo son una misma", e cujas diferenças são mais aparentes do que substanciosas ("Español-Portugués" [1914]; Unamuno, 1966-1971, v.4, p.527).14 Unamuno lamenta, nesse sentido, a "absurda ortografía etimológica" do português como esforço equivocado de "diferenciar la lengua portuguesa de la castellana mucho más de lo que se diferencian [en la realidad]", e vê a popularidade contínua de piadas antiespanholas e antiportuguesas, as espanholadas e portuguesadas, como sintomática da alienação mútua dos dois povos ("Sobre el criollismo: a guisa de prólogo" [1903]; Unamuno, 1966-1971, v.4, p.579; "El pueblo español" [1902]; Unamuno, 1966-1971, v.3, p.716). Para efetuar (ou reafirmar) tal unidade superior de língua e personalidade ibérica, Unamuno julga que "[l]os españoles debemos leer a los portugueses en su propia lengua, y no traducidos. El esfuerzo para ello necesario es pequeñísimo y se lo debemos a nuestra común madre Iberia o Hispania" ("Prólogo a Constanza de Eugenio de Castro [1913]; Unamuno, 1966-1971, v.8, p.1016, minha ênfase). Além do mais:

Hasta en lo escrito he propugnado que no hay por qué traducir del castellano al portugués y viceversa. El esfuerzo [...] se compensa con que en el portugués [los castellanos] encontraremos rincones y recovecos de nuestro idioma que no los descubrimos directamente. Aprender portugués es un buen recurso para enriquecer nuestro castellano. ("Nueva vuelta a Portugal [IV]" [1935]; Unamuno, 1966-1971, v.4, p.1362)15

Isto é, as línguas portuguesa e castelhana devem ser contrapostas, para que no seu confronto a manifestação das suas diferenças atuais e semelhanças históricas possam levar à superação das primeiras, e a uma possível síntese - hipótese que admite Unamuno no texto "Español-Portugués" (1914): "Todo choque entre ellas acabaría - o acabará, ¿quién sabe? - en una penetración mutua; el español se aportuguesaría más o menos, el portugués se castellanizaría. Sería una obra de integración" (Unamuno, 1966-1971, v.4, p.528).

Deve já ser patente ao leitor a força estrutural em Unamuno da Ibéria entendida como unidade dialética, uma unidade na qual Portugal participaria necessariamente, precisamente em razão da sua conexão orgânica à Espanha, como seu contraponto e imagem especular. Como prova dessa dupla função dialética de Portugal para com Espanha, Unamuno confessa numa carta a Teixeira de Pascoaes que "Portugal me interesa mucho porque me interesa España" (apud García Morejón, 1971, p.363). Exploraremos a natureza do binarismo Portugal-Espanha, posicionado dentro da Ibéria dialética, na próxima seção, e proporemos que a linguagem corporal, de uso tão frequente em Unamuno, lhe serve para explicar a função de Portugal como contraponto e complemento à Espanha que ele tanto amou.

 

Portugal e Espanha, carne e osso

A semântica de carne y hueso tem um lugar privilegiado na obra de Unamuno, desde sua famosa declaração na abertura do Sentimiento trágico de la vida que o "hombre concreto, de carne y hueso, es el sujeto y el supremo objeto a la vez de toda filosofía" (Unamuno, 1966-1971, v.7, p.109). Aqui o homem de carne e osso, objeto do livro segundo seu autor, contrasta com a aparente artificialidade da humanidade abstrata, isto é, humanitas. Mas os tropoi de carne e hueso, ora combinados numa só ideia (o hombre de carne y hueso, isto é, o homem real),16 ora contrapostos de forma dialética, aparecem inúmeras vezes na obra unamuniana - e de forma quase obsessiva, como tem notado a crítica, pelo menos no caso do primeiro termo - e levam consigo um grupo de outros significados, também estruturados dialética ou binariamente, alguns com aplicação direta à questão da participação de Portugal no conjunto ibérico.17

Se a palavra carne sugere em Unamuno algo como substância, o material que dá significado pleno às coisas, como na sua advertência que "hay que mirarla [i.e. una idea] por de dentro, viva, caliente, con alma y personalidad", o hueso se refere à arquitetura básica do ser vivo, ao humano ou comunidade humana reduzido ao seu mínimo vital, algo como a imagem da "faca só lâmina" em João Cabral de Melo Neto, escritor cuja poética huesuda e forte atração pela paisagem espanhola aproximam-no ao escritor basco-salmantino (En torno al casticismo [1902]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.784). Para Unamuno, a terra castelhana serve como cenário ilustrativo para o modo de ser que acabamos de descrever. É importante notar aqui a potencialidade metafórica da paisagem em Unamuno, para o qual "el campo de una metáfora".18 Nosso escritor, que dedicou vários textos à descrição e interpretação da sua região adotiva de Castela, a descreve como "una tierra en esqueleto" e como "mar petrificado" ("Campaña agraria" [1914]; Unamuno, 1966-1971, v.7, p.557; En torno al casticismo [1902]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.809). Esse clima e terreno difícil e cadavérico geram um determinado modo de ser e um determinado tipo humano, cuja fortuna histórica foi de dar expressão à unidade espanhola.19 Unamuno descreve os castelhanos assim:

Allí dentro [de la llanura castellana] vive una casta de complexión seca, dura y sarmentosa, tostada por el sol y curtida por el frío, una casta de hombres sobrios, producto de una larga selección por las heladas de crudísimos inviernos y una serie de penurias periódicas, hechos a la inclemencia del cielo y a la pobreza de la vida. ("En torno al casticismo" [1902]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.811, minha ênfase)

É significativo o fato que as qualidades descritas por Unamuno como intrínsecas à terra e experiência castelhana também apareçam nas suas descrições da sua língua, que, como mencionado antes, deveria formar a base para uma renovada língua nacional espanhola. A seguinte descrição, extraída de um texto que leva o título sugestivo, "Sobre la dureza del idioma castellano" (1899), é reveladora da aplicação ao idioma castelhano de uma série de qualidades já ligadas por Unamuno à sua gente:

Muchas veces se ha dicho que la lengua castellana es una lengua rígida y ósea, sin matices ni cambiantes [...] una lengua que por su estructura misma propende a los vastos períodos oratorios, campanudos y resonantes, o a cierta concisión angulosa y seca; pero que resiste las caricias ondulantes, las veladuras penumbrosas, la sutil ironía [...] Todo lo que el castellano toca se cristaliza al punto; todo lo que él dice se hace dogma. Como en los vastos páramos castellanos o como en los cuadros de Ribera, no hay en él medias tintas; todo es claroscuro, todo adquiere ese relieve duro que da el sol al separar, con las sombras que les hace proyectar, a los objetos. Cada uno de éstos adquiere una individualidad decisiva y firme; no hay envolvente nimbo que los una y armonice en superior conjunto. (Unamuno, 1966-1971, v.4, p.332, minha ênfase)20

Por ter lido a passagem supracitada, deve tornar-se evidente ao leitor que, apesar das suas boas qualidades, para Unamuno o castelhano não é autossuficiente; ele carece de algo e por conseguinte tem que buscar qualidades intrínsecas a outros idiomas peninsulares, ausentes do castelhano, para completá-lo e para corrigir sua excessiva rigidez e sua suposta incapacidade para expressão matizada. É só dessa maneira que o castelhano se tornará língua verdadeiramente espanhola e ibérica, como Unamuno argumenta na conferência "Lo que puede aprender Castilla de los poetas catalanes" (1915): "Nuestra lengua es seca, monorrítmica, pobre en modulaciones. Ayúdale, además, al catalán para cierta máscula energía, su abundancia en monosílabos" (Unamuno, 1966-1971, v.9, p.322, minha ênfase). O confronto linguístico, nesse caso entre o castelhano e o catalão, permite as contraposições entre a suposta rigidez castelhana e a maior flexibilidade do catalão, entre a "pobreza" castelhana e a "abundância" catalã, além de possibilitar a postulação de uma futura síntese entre as duas línguas. Como se verá, a língua portuguesa também serve a Unamuno como contraponto dialético e recurso idiomático para o castelhano.

Para resumir o que temos exposto até agora, pode-se atribuir uma série de significados à palavra hueso como se usa em Unamuno - essência, secura, dureza, rigidez, sobriedade e severidade - e ligar esses topográfica, cultural e linguisticamente a Castela. Se continuarmos a insistir na unidade dialética das ideias-termo de carne e osso em Unamuno, e na sua preocupação por afirmar uma unidade superior para Espanha e para a Ibéria, seria lógico, então, enumerar os antônimos das ideias supracitadas - substância, umidade, suavidade, flexibilidade, expansão e brandura - ordenando-os sob o signo da palavra carne e localizando-os em outra parte da península. Não é difícil adivinhar onde encontraremos esse contraponto geográfico e conceptual a Castela: em Portugal, o suposto "país de brandos costumes".

 


Clique para ampliar

 

Vejamos, então, o lado luso e carnal da dialética ibérica construída por Unamuno, começando pela paisagem portuguesa e, por extensão, galega: em artigo de 1908, em que o nosso escritor basco-salmantino reconta sua visita à cidade de Braga, ele nos fornece uma descrição muito sugestiva da região do Minho, que conta com um contraste implícito entre esse e Castela, já qualificada de terra cadavérica:

Y allá fuí, atravesando tierras de esa mimosa provincia del Miño. Verdura por todas partes; las vides enlazadas a los chopos entre maizales; más allá suaves lomas cubiertas de pinos, y a lo lejos las colinas expirando entre niebla. Tierra de verdura y de niebla. Tierra sin huesos. (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.224, minha ênfase)

A comparação entre um Minho suave, brando e explicitamente desossado (descrição comum à visão unamuniana do norte de Portugal e estendida em outros momentos à língua portuguesa, como se verá),21 e uma Castela dura, severa e ossuda se torna explícita no texto "Junto a las rías bajas de Galicia" (1912), em que Unamuno descreve uma visita às rias baixas, na região galega imediatamente ao norte do Minho português:

La tierra toda del Miño, de un lado y otro de la ría, por España y por Portugal, se abre a los ojos como una visión de ensueño que nos ata a la tierra. La he visto entre llovizna, recibiendo resignada el jugo fecundante de las nubes, y es como mejor sentimos su significación íntima toda. Es un paisaje carnal y crepuscular a la vez [...] Los montes del horizonte languidecen entre neblinas. Por dondequiera el verdor vela al esqueleto rocoso de la tierra, que acá, en esta ósea Castilla, asoma por dondequiera sus juanetes [...] Recorbada aquella magnífica descripción de la tierra y el hombre del Miño que Oliveira Martins nos dejó en la descripción de Portugal con que su Historia de Portugal se abre. (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.383, ênfase do autor)22

É interessante notar que as qualidades atribuídas à terra portuguesa (mais à galega) também se apresentam como aplicáveis à sua gente, sua cultura e sua língua, e se estruturam quase sempre como comparações binárias (e dialéticas) com Castela - território que fica, nesse sentido, como perene ponto de referência para Unamuno. Veja-se, para dar um exemplo pouco politicamente correto, a opinião unamuniana sobre as mulheres portuguesas. Para o reitor salmantino, "[t]iene la portuguesa algo que sólo se expresa con una palabra, portuguesa también, y es meiguice, blandura [...] No es la rígida majeza de la española" ("Braga" [1908]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.227-8, ênfase do autor). Igualmente, o catolicismo português é descrito como menos rígido, austero e severo da variante praticada no outro lado da fronteira:

El Cristo español - me decía una vez Guerra Junqueiro [...] jamás se aparta de la cruz, donde está lleno de sangre; el Cristo portugués juega por los campos con los campesinos y merienda con ellos, y sólo a ciertas horas, cuando tiene que cumplir con los deberes de su cargo, se cuelga de la cruz. ("'Las sombras', de Teixeira de Pascoaes" [1908]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.197)

Quanto à língua, uma das mais diretas comparações feitas na obra unamuniana entre o português e o espanhol se baseia em uma suposta citação de Miguel de Cervantes, repetida muito por Unamuno e que, apesar de ser apócrifa (não conseguimos localizá-la em nenhum texto cervantino), tem desfrutado de um certo sucesso no discurso acadêmico ou pseudoacadêmico sobre as relações luso-hispânicas. Unamuno escreve em "'Las sombras', de Teixeira de Pascoaes" (1908), numa forma que revela a reversibilidade e a mútua dependência dialética da distinção português/espanhol, o seguinte: "Dijo Cervantes del idioma portugués que es el castellano sin huesos, y, retrucándole, cabría decir que el castellano es el portugués osificado" (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.194, minha ênfase).23 Enquanto o português é "dengoso" (sinônimo parcial de "meigo" ou "brando", e sugerindo uma certa modéstia e deferência), o castelhano é "recortado" - algo elevado e duro, e talvez assertivo ou impaciente.24 Igualmente na poesia, em que os versos castelhanos de Unamuno se contrastam (na opinião do seu autor) aos versos portugueses do seu amigo Pascoaes:

No hallaréis en sus composiciones esas estrofas densas, compactas, de espesísimo cristal, esculpidas, diamantinas, tales como se encuentran en [el poeta italiano] Carducci y como yo me he esforzado por hacer en mis propias poesías; las de Teixeira de Pascoaes se alargan y desvanecen como sombras de crepúsculo. (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.195)

Depois de tantos exemplos, consideramos suficientemente ilustrada a articulação por Unamuno, nas suas meditações paisagistas e nos seus ensaios sobre o destino peninsular, de duas grandes sequências ou cadeias conceituais, organizadas cada uma sob um elemento do binarismo carne y hueso, e localizadas em uma região determinada da Península Ibérica. Para resumir, as duas são:

Osso // Essência / Secura / Dureza / Rigidez / Sobriedade / Severidade // Castela

Carne // Substância / Umidade / Suavidade / Flexibilidade / Expansão /Brandura // Portugal

Cabe finalmente explicar, de forma mínima, como opera esse vocabulário corporal como função do entendimento unamuniano da Península Ibérica como entidade dialética, espaço cuja unidade superior depende da confrontação das suas divisões internas e da superação dessas.

 

Unidade dialética, laços corporais

Se um dos fundamentos da dialética hegeliana é que a afirmação de uma unidade superior (aqui, a Península Ibérica) funciona por meio da sublação (Aufhebung) ou superação das diferenças entre dois desejos, seres ou ideias (entendidos retroativamente como os dois lados do binarismo), pode-se concluir que os termos postos em confronto dialético devem manter entre eles uma relação de dependência e contaminação mútua, e que os dois levarão em si algum traço do seu contrário. Se aplicarmos esse princípio às sequências conceituais mapeadas na seção anterior, deve ser possível, como prova da integração do vocabulário de carne y hueso unamuniano à estrutura dialética por meio da qual o nosso autor entende o destino peninsular, encontrar momentos na obra de Unamuno em que as ideias-termos de carne e hueso e Portugal e Castela se apresentam como mutuamente dependentes ou contaminados.

Um exemplo de tal integração imagística se encontra no texto "País, paisaje y paisanaje" (1933), em que Unamuno traça uma imagem da península como mão humana (composta, como se sabe, por carne e ossos), em que seus cinco grandes rios - correndo quatro dos cinco por território português - ficam no lugar de dedos:

[E]sta mano tendida al mar poniente [...] es la tierra de España. Sus cinco dedos líquidos, ¿Miño-pulgar? ¿Duero-índice? ¿Tajo-el del corazón? Guadiana y Guadalquivir [...] Y, sobre ella, sobre esa mano, la palma azul de la mano de Dios, el cielo natural. (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.705)

Para Unamano, a unidade superior ibérica, aqui sancionada por ninguém menos que Deus, se reflete tanto na sua paisaje como na sua paisanaje (paisagem humana), que se reforçam mutuamente, tal como a "carne" (aqui os rios) e os "ossos" (montanhas) da península:

En esta mano, entre sus dedos, entre las rayas de su palma, vive una humanidad; a este paisaje le llena y da sentido y sentimiento humanos un paisanaje. Sueñan aquí, sueñan la tierra en que viven y mueren, de que viven y de que mueren unos pobres hombres [...] El espíritu, el pneuma, el alma histórica no se hace sino sobre el ánima, la psique, el alma natural, geográfica y geológica si se quiere. (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.706)

É curioso notar que, em Unamuno, a conexão geográfica (e, por extensão, conceitual) de Portugal para com o resto da Ibéria se deve comumente a fatores carnais (rios) e ósseos (montanhas). Ele escreve, num dos seus últimos ensaios sobre Portugal, "Lisboa y Toledo" (1935), que Portugal "está unido al resto de la Península Ibérica por sus espinazos rocosos en parte, mas sobre todo por los grandes ríos que enlazan ambos países, atravesándolos" ("Lisboa y Toledo" [1935]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.717). Isso não quer dizer que Portugal e Castela se definam em igual proporção por seus rios "carnais" e por suas montanhas "ossudas": o tom dominante da paisagem e caráter português, para Unamuno, ainda é carnal, como é ósseo para Castela. É só que, conforme a estruturação da dialética ibérica, Portugal se liga ao seu termo contrário (Castela) pelo encontro das duas imagens, carne e osso. Além do mais, Portugal precisa do tônico proporcionado pelas qualidades opostas às da sua sequência conceptual (suavidade, flexibilidade, expansão etc.), qualidades tais como dureza, rigidez e sobriedade, que devem se entender como intrinsecamente castelhanas.

Conforme o funcionamento da dialética hegeliana, que visa ao confronto de termos, desejos ou seres contrários, levando ao reconhecimento mútuo e a uma síntese que resultará na mútua contaminação dos dois termos originais, as qualidades que se ligam no primeiro momento a Castela também devem se encontrar em Portugal, mas como notas discordantes, em oposição ao tom geral. Exemplos se encontram nas reflexões unamunianas sobre a paisagem portuguesa e sobre sua literatura: uma visita à Serra do Marão fez Unamuno "recorda[r], sobre todo, aquella austera, noble, huesuda, y solemne Castilla, que es todo menos un jardín", e os sonetos de Antero de Quental pareceram-lhe a ele "algo huesoso y duro con frecuencia: el elemento conceptual y abstracto aparece muy descarnado, no siempre bien recubierto por la fantasía" ("O Bom Jesus do Monte" [1908]; "La literatura portuguesa contemporánea" [1907]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.190, 232, minha ênfase).25 Aqui as descrições do Marão e da poesia anteriana servem para conectar Portugal à terra adotiva de Unamuno por identidade de características e para assinalar a excepcionalidade das características supracitadas num âmbito português definido maiormente pela suavidade da sua paisagem e pelo lirismo nebuloso da sua poesia.

Já que temos tentado mostrar a integração do vocabulário carnal de Unamuno na estrutura dialética por meio da qual ele entende o destino peninsular, cabe agora perguntar, e para concluir, sobre consequências da alienação e mútua desconfiança que marcaram historicamente as relações luso-hispânicas - ou traduzindo esse problema para o vocabulário unamuniano, sobre consequências de romper o binarismo Portugal/Espanha, de não afirmar uma unidade superior para a Península Ibérica, e de "remover" ou a carne ou os ossos do corpo peninsular.

Para o catedrático salmantino, as implicações são claram e esmagadoramente negativas. Em carta datada de 19 de dezembro de 1907 e dirigida ao seu amigo, o escritor catalão Juan Maragall, Unamuno fez o seguinte juízo sobre Portugal: "[E]se pobre país está perdido; está purgando, a mi juicio, su independencia. Se desprendió del hueso y ahora en carne pura, y en carne floja aunque sonrosada, empieza a marchitarse" (Unamuno & Maragall, 1951, p.78, minha ênfase). Embora o comentário se refira ao contexto imediato dos últimos anos de uma monarquia portuguesa em plena agonia, tem uma maior ressonância: um Portugal que não entre em confronto dialético com Espanha será, para Unamuno, como corpo sem ossos, condenado à morte, como as sardinhas descabeçadas e estripadas que ele descreve como os detritos da pesca de Espinho.26 De igual modo, a uma Castela ou Espanha que recuse reconhecer Portugal como irmão ibérico (e não como território inferior) será recusado acesso à carne, à substância, de um país cujos recursos linguísticos e culturais podem fornecer Espanha com o material necessário para a reforma da consciência nacional - e peninsular - sempre anelada pelo grande lusófilo espanhol.

 

Notas

1 O melhor e mais compreensivo estudo sobre o tópico ainda é Unamuno y Portugal, de Julio García Morejón (1971). O Epistolário português de Unamuno e os Escritos de Unamuno sobre Portugal (Unamuno, 1985), editados por Ángel Marcos de Dios (Dios, 1978), também são essenciais.

2 O Apêndice II do Epistolário português de Unamuno registra quase trezentos livros portugueses (de autores luso-brasileiros ou de temática lusa) na biblioteca de Unamuno (Dios, 1978, p.363-74).

3 A posição de Unamuno com respeito à União Ibérica é mais contraditória do que normalmente é admitido. Em carta de 1908, ele afirmou que "[l]a única redención de Portugal [sería] ser conquistado por España - por Castilla más bien - ser conquistada y nada de unión ibérica", criticando nove anos depois, no artigo "Portugal independiente" (1917), o desejo de "muchos trogloditas [...] de que nuestra patria se anexione por la fuerza la república portuguesa" (Unamuno, 1991, p.248, ênfase do autor; 1985, p.246). Parece-nos razoável afirmar que essas opiniões representam os extremos da posição de Unamuno, e consideramos a seguinte frase como indicativa da sua verdadeira posição - que seria a favor do diálogo cultural e de uma consciência coletiva ibérica, e favorável à fusão política só por meio do consenso geral: "La unión moral ibérica sólo puede establecerse bajo un régimen de voluntad nacional, de soberanía popular" ("Deber de España para con Portugal" [1917]; Unamuno, 1985, p.249).

4 "El tema de España, su pasado y su porvenir, su azaroso presente, es motivo que aparece con machacona insistencia en las obras de Unamuno; él inspiró buena parte de su labor de publicista" (Granjel, 1957, p.132). Unamuno chega a quase parodiar seu profundo españolismo no romance Niebla (1914), em que Unamuno (personagem) afirma que é "[e]spañol de nacimiento, de educación, de cuerpo, de espíritu, de lengua y hasta de profesión y oficio; español sobre todo y ante todo, y el españolismo es mi religión" (Unamuno, 1966-1971, v.2, p.669).

5 Essa é sua definição de hispanidad, como ele explica na primeira frase do artigo: "Digo Hispanidad [...] para atenerme al viejo concepto histórico-geográfico de Hispania, que abarca toda la Península Ibérica" (Unamuno, 1966-1971, v.4, p.1081).

6 Ver esta clarificação do artigo "¡San Pablo y abre España!" (1934): "Na Espanha? ¿En España? Y entiéndese aquí por España lo que empezó siendo: Hispania, la Península Ibérica toda ella" (Unamuno, 1966-1971, v.4, p.1357, ênfase do autor).

7 O título desse texto é algo enganador. Longe de constituir uma crítica ao método dialético, deve-se entender como comentário crítico sobre o clima intelectual da Espanha.

8 Ver Del sentimiento trágico de la vida (1913) (Unamuno, 1966-1971, v.7, p.111-2).

9 Comparar com a discussão nos parágrafos 166-196 (p.104-19) da Fenomenologia. Ver também a opinião de Unamuno que "[u]n pueblo, como un individuo, cree en sí mismo a medida que los demás creen el él" (Carta a Luis de Zulueta, 22 março 1906; Unamuno & Zulueta, 1972, p.139), e as discussões críticas de François Meyer (1962, p. 94-5) e Mario J. Valdés (1973, p.xxvii).

10 Ver também referências a "nuestra eterna patria [...] la Iberia celestial", " la eterna Iberia", " unión espiritual [ibérica]" e "unión moral ibérica" (Unamuno, 1985, p.187-8, 246, 249). Parece-nos significativo que o entendimento unamuniano de Volksgeist, conforme ilustrado em En torno del casticismo, permite - e pressupõe - a contradição interna: "Cuando se afirma que en el espíritu colectivo de un pueblo en el Volksgeist, hay algo más que la suma de los caracteres comunes a los espíritus individuales que lo integran, lo que se afirma es que viven en él de un modo o de otro los caracteres todos de todos sus componentes; se afirma la existencia de un nimbo colectivo, de una hondura del alma común, en que viven y obran todos los sentimientos, deseos y aspiraciones que no concuerdan en forma definida, que no hay pensamiento alguno individual que no repercuta en todos los demás, aun en sus contrarios, que hay una verdadera subconciencia popular" (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.867, ênfase do autor).

11 Unamuno defendeu o uso do castelhano, transformado em língua verdadeiramente espanhola pelo confronto de todas as falas peninsulares: "El ideal es que hablemos todos los hombres una sola y misma lengua, pero que la hable cada cual a su modo, y el ideal en España que sólo se hable el español, pero empleándolo cada uno a su manera ("Sobre la lengua española" [1901]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.1009).

12 "[S]i hemos de realizar la integración espiritual española, menester nos es penetrarnos no ya de las distintas lenguas, más de los distintos estilos. De las lenguas, desde luego [...] Es un deber hoy de todo español culto llegar a leer catalán y portugués sin que se los traduzcan. Y esto os lo dice uno que anhela y espera la integración de todas las hablas ibéricas en una sola" ("Lo que puede aprender Castilla de los poetas catalanes" [1915]; Unamuno, 1966-1971, v.9, p.329).

13 Ver, a respeito, as Causas da decadência dos povos peninsulares (1871), de Antero de Quental, e a História da civilização ibérica (1879), de Oliveira Martins. O segundo texto é referido várias vezes por Unamuno na sua obra publicada e epistolar.

14 Sobre a artificialidade das diferenças entre o português e o espanhol, ver este comentário sobre a ortografia: "[S]iempre he sospechado que en su empeño por diferenciar la lengua portuguesa de la castellana mucho más de lo que se diferencian, que es menos que lo que separa el castellano del catalán, siguen aferrados a su absurda ortografía etimológica para que la lengua escrita ofrezca otra fisionomía que la de la española" ("Sobre el criollismo: a guisa de prólogo" [1903]; Unamuno, 1966-1971, v.4, p.579). Mais: "Si en España se adoptara la ortografía portuguesa, los portugueses habrían de acabar adoptando la hoy nuestra" ("Acerca de la reforma de la ortografía castellana" [1896]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.928, nota 2).

15 Ver juízos parecidos em "La literatura portuguesa contemporánea" (1907), "El sarcasmo ibérico de Eça de Queirós" (1917), e "El soñar de la esfinge" (1933) (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.188; 1985, p.252, 277).

16 Esse uso de hombre de carne y hueso para significar "homem real" aparece em vários outros momentos na sua obra, como na Vida de Don Quijote e Sancho (1905) (Unamuno, 1966-1971, v.3, p.53).

17 Ver o artigo de R. L. Predmore, "Flesh and Spirit in the Works of Unamuno" e os comentários de José Ferrater Mora em "Unamuno hoy día" (Sánchez-Barbudo, 1974, p.53-4). A palavra "obsessiva" remete à abertura do artigo de Predmore (ibidem, p.587).

18 Referimo-nos ao subtítulo de "Paisaje teresiano: El campo es una metáfora", ensaio sem data incluído no volume Andanzas y visiones españolas (1922) (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.494-7). Interessa também a opinião de Julio García Morejón (1971, p.97), segundo a qual as paisagens descritas em Por tierras de Portugal y de España (1911) são uma "[t]opografía espiritual, y no física".

19 "Sería labor industriosa y útil la de desenmarañar hasta qué punto hicieron las circunstancias, el medio ambiente que hoy se dice, al espíritu castellano, y hasta qué punto éste se valió de aquélla. La obra de la reconquista, el descubrimiento del Nuevo Mundo y el haber ocupado el trono de Castilla un emperador de Alemania, determinaron la marcha ulterior de la política castellana; pero si las circunstancias hacen al espíritu, son modificadas por este mismo y recibidas en él según él es [...] Castilla, sea como fuere, se puso a la cabeza de la monarquía española, y dió tono y espíritu a toda ella" ("En torno al casticismo" [1902]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.804-5).

20 Comparar com a seguinte descrição: "Ha sido siempre, sin duda, la casta castellana una casta dogmática y enamorada de la unidad, poco capaz de sentir el matiz ni la media tinta, muy poco flexible" ("Injusticia inútil" [1899]; Unamuno, 1966-1971, v.7, p.408).

21 "Y allende el río saudoso, allende el río de lágrimas suspirantes, mansas colinas vestidas de olivos y de pinos, rebaños de colinas ondulantes, un mar de verdura. Y a lo lejos, el cabo Mondego, perdido entre la bruma" ("Coimbra" [1914]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.427-8, ênfase do autor).

22 Ver a descrição do Minho e do minhoto em Oliveira Martins (1901, p.35, ortografia atualizada): "Habita essa região pingue uma população abundante, ativa, mas sem distinção de carácter, nem elevação de espírito: consequência necessária da humidade e da fertilidade. Falta essa espécie de tonificação própria do ar seco e dos largos horizontes recortados num céu luminoso e puro".

23 A versão mais elaborada dessa frase aparece numa entrevista a Unamuno pelo escritor português Antônio Ferro em 1930: "O português - já o disse um grande escritor - é um castelhano sem ossos. Os portugueses encontram, nos castelhanos, por tanto, o que lhes falta. O castelhano, efetivamente, é todo em ossos, esquelético. Tem qualquer coisa de lagosta... O português, ao contrário, é como um polvo... Mas que a lagosta se acautele antes de lutar com o polvo" (apud García Morejón, 1971, p.367; ortografia atualizada). Para outra versão, ver "¡San Pablo y abre España!" (1934) (Unamuno, 1966-1971, v.4, p.1358). Vale um estudo a curiosa atribuição por Unamuno dessa frase a Cervantes e as implicações da sua popularização como ideia "sancionada" pela autoridade do autor do Quixote.

24 Ver o ensaio "Guarda" (1908) (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.242).

25 A primeira citação se refere ao verso do poeta Tomás Ribeiro, que descreve Portugal como jardim da Europa, à beira-mar plantado - verso referido por Unamuno para caracterizar o tom geral do país ("La pesca de Espinho" [1908]; Unamuno, 1966-1971, v.1, p.219).

26 "Parte de la pesca va a la fábrica de conservas, y allí se les ve descabezando y destripando sardinas, cuyos sanguinolentos despojos quedan en la arena para las gaviotas" (Unamuno, 1966-1971, v.1, p.222).

 

Referências

DIOS, A. M. de (Ed.). Epistolario português de Unamuno. Apr. J. V. de Pina Martins. Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, 1978.         [ Links ]

FERRATER MORA, J. Unamuno: a philosophy of history. Trans. P. Silver. Berkeley: University of California Press, 1962.         [ Links ]

GARCÍA MOREJÓN, J. Unamuno y Portugal. 2.ed. corregida y aumentada. Madrid: Gredos, 1971.         [ Links ]

GRANJEL, L. S. Retrato de Unamuno. Madrid: Guadarrama, 1957.         [ Links ]

HEGEL, G. W. F. Phenomenology of spirit. Trans. A. V. Miller. Oxford: Oxford University Press, 1977.         [ Links ]

KOJÈVE, A. Introduction to the reading of Hegel. Ed. R. Queneau, A. Bloom. Trans. J. H. Nichols, Jr. Ithaca: Cornell University Press, 1980.         [ Links ]

MEDINA, J. Ortega y Gasset no exílio português (com um excurso sobre a lusofilia de Miguel de Unamuno). Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2004.         [ Links ]

MEYER, F. La ontología de Miguel de Unamuno. Madrid: Gredos, 1962.         [ Links ]

OLIVEIRA MARTINS, J. P. de. Historia de Portugal. 6.ed. Lisboa: Parceria Antonio Maria Pereira, 1901. 2t.         [ Links ]

PREDMORE, R. L. Flesh and spirit in the works of Unamuno. PMLA, v.70, n.4, p.587-605, Sept. 1955.         [ Links ]

SÁNCHEZ-BARBUDO, A. ed. Miguel de Unamuno. Madrid: Taurus, 1974.         [ Links ]

UNAMUNO, M. de. Obras completas. Ed. Manuel García Blanco. Madrid: Escelicer, 1966-1971. 9v.         [ Links ]

______. Escritos de Unamuno sobre Portugal. Ed. A. M. de Dios. Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Cultural Português, 1985.         [ Links ]

______. Epistolario inédito I (1894-1914). Ed. L. Robles. Madrid: Espasa-Calpe, 1991.         [ Links ]

UNAMUNO, M. de; MARAGALL, J. Unamuno y Maragall. Epistolario y escritos complementarios. Barcelona: Edimar, 1951.         [ Links ]

UNAMUNO, M. de; ZULUETA, L. de. Cartas (1903/1913). Ed. C. de Zulueta. Madrid: Aguilar, 1972.         [ Links ]

VALDÉS, M. J. Introduction. In: VALDES, M. J.; VALDES, M. E. de. An Unamuno source book. Toronto: University of Toronto Press, 1973. p.xiii-xxxiv.         [ Links ]

 

 

Recebido em 10.2.2010 e aceito 1º.3.2010.

 

 

Robert Patrick Newcomb é professor assistente da University of California-Davis (EUA). Autor de vários artigos sobre temas literários luso-hispânicos e tradutor de Colônia, culto e cultura (UMass Dartmouth, 2008), de Alfredo Bosi. @ - rpnewcomb@ucdavis.edu

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License