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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.24 no.69 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142010000200015 

LITERATURA

 

O argumento Tempo Brasileiro

 

 

Eduardo Portella

 

 


RESUMO

Descrição e definição da Revista Tempo Brasileiro, bem como dos seus sucedêneos Edições Tempo Brasileiro e Colégio do Brasil. Mostra um percurso reflexivo jamais negociável, mesmo nos anos da ditadura militar. Periódico trimestral de cultura, com forte inflexão interdisciplinar, ela foi o lugar de encontro e desencontro do debate intelectual do nosso tempo. Quis ser sempre um despreconceituoso fórum de discussão dos desafios e possíveis saídas para os impasses da nossa contemporaneidade. Em 2012, completa cinquenta anos de vida; de vida acidentada, porém de vida.

Palavras-chave: Democracia, Reflexão, Repressão, Resistência, Argumento.


 

 

No início da década de 1960, predominava na cena pública brasileira uma descontrolada turbulência, que nos empurrava para opções maniqueístas. Escolhas limitadas, antes ideológicas do que verdadeiramente políticas. Degladiavam-se o que preferi chamar de etiquetas esvaziadas. De um lado, a direita obtusa e anacrônica, e de outro, a esquerda predatória e fundamentalista. Foi quando imaginei a necessidade de criar uma tribuna, emancipada, receptiva e propositiva, imune às pressões ideológicas tanto do capitalismo selvagem quanto da vulgata marxista.

Foi em uma tarde de primavera carioca, no atelier do poeta e pintor José Paulo Moreira da Fonseca, amigo muito querido, quando desenhei o que seria o primeiro esboço da nossa revista. O nome foi escolhido, de comum acordo, por José Paulo e por mim. As inquietações integravam o mesmo marco reflexivo do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária que, graças à sensibilidade e ao apoio do reitor João Alfredo da Costa Lima, teve lugar na universidade recifense, e ao qual vieram, pela única vez ao Brasil, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, entre outros nomes renomados, nacionais e internacionais. Também se inscreve nos propósitos críticos e associativos do Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, órgão criado na presidência da República, e que me tocou dirigir.

Estiveram sempre comigo, desde o amanhecer do Tempo Brasileiro, os colegas e amigos como Vamireh Chacon, Roberto Pontual, Félix de Athayde, José Roberto Teixeira Leite, o próprio José Paulo. A eles logo se juntaram, com maior ou menor assiduidade, Emmanuel Carneiro Leão, Geraldo Holanda Cavalcanti, José Guilherme Merquior, Luiz Costa Lima, Chaim Samuel Katz, Francisco Antônio Dória, Muniz Sodré, Márcio Tavares D'Amaral, Alfredo Marques Viana, Cyro Kurtz, Naume Ladosky, Estella Glatt, Carlos Henrique Escobar. A função da Revista Tempo Brasileiro, dizíamos, era pensar a realidade brasileira, "sem lenço e sem documento", e se ainda me permitir Caetano Veloso, caminhando firmemente "contra o vento", ou contra a correnteza. Deixamos claro, desde o número inaugural que, como essa realidade era dinâmica, iríamos procurar ser fiéis a essa dinamicidade. Por isso, não vacilaríamos nunca em fazer a nossa autocrítica, em promover a nossa própria revisão. Não nos desejávamos institucionalizados. Aceitávamos, portanto, toda colaboração desde que categorizada, pretendíamos o diálogo amplo, precisávamos da crítica construtiva. O que fazíamos naquela época era nada mais do que abrir um largo debate nacional. O leitor, qualquer que fosse ele - honestamente interessado na problemática do seu país: sempre -, teria aí a sua coluna. Para inclusive discordar de nós; quando fosse o caso. Estava e está aberta a nossa caixa postal.

Não nos faltou nunca a cooperação de grandes personalidades nacionais como Jorge Amado, Gilberto Freyre, Alceu Amoroso Lima, Afrânio Coutinho, Adonias Filho, Clarice Lispector, Cassiano Ricardo, Ignácio Rangel, Roberto Alvim Corrêa, Maria Yedda Linhares, José Leite Lopes, Carlos Chagas Filho, Guilherme Figueiredo, Guerreiro Ramos, Josué de Castro, Jarbas Maranhão, Wanderley Guilherme, João Cabral de Melo Neto, Carlos Guilherme Mota, José Mauro Gonçalves, Jorge Serpa Filho, Fernando Gasparian, Antônio Houaiss, Roberto Da Matta, Mário Chamie, Roberto Cardoso de Oliveira.

O ponto de partida da Tempo Brasileiro - reproduzo textualmente - é um esforço coletivo que se faz no sentido de trazer uma reflexão objetiva, isenta, consequente, sobre e para o desenvolvimento brasileiro. Não se trata de mais uma revista. Trata-se de um órgão de militância, intransigentemente comprometido com a condição humana e a causa do Brasil. Com eles, onde quer que estejam em jogo. É a tribuna do intelectual que se sabe responsável e não pretende fugir à sua responsabilidade. De quem, pelo contrário, empenha-se por ser rigorosamente fiel a essa responsabilidade. E está certo de que ela é tanto maior quanto menos desenvolvido é o seu país. É, portanto, revista deste tempo e deste espaço. Mas, como somos dinamicamente, não procuraremos o instantâneo de máquina fotográfica, apenas o Brasil 1962: seremos um percurso.

O intelectual brasileiro tem importante tarefa a cumprir na solução dos problemas nacionais. É preciso que ele saiba repudiar a pilatização. É imprescindível que ele não vacile em sujar as mãos na luta do desenvolvimento. Que se alinhe de corpo e alma nessa trincheira que é a de todos nós. Ele não encontrará jamais um fundamento ético para a criação de uma obra desligada das questões urgentes que sacodem o seu país. Um país mergulhado no subdesenvolvimento, dominado por uma ordem social geradora obstinada de injustiças. Vivemos uma condição subumana. O subdesenvolvimento fabrica o infra-homem. Impede o homem de viver plenamente a condição humana. Sendo basicamente um fenômeno econômico, promove, naturalmente, resultantes não-econômicas: sombrio repertório de consequências humanas, morais. Estamos com o nosso humanismo atingido. Referimo-nos não ao homem visto em abstrato, mas concretamente. Localizado. A vida humana se exerce através de um duplo processo, dividida entre o empenho de sobrevivência e a vontade de intensificação. O subdesenvolvimento enclausura o homem na pauta da simples e trágica subsistência. Por isto o homem do país em desenvolvimento se vê arbitrária e violentamente inscrito na categoria infra-humana. Temos que sacudir a letargia, para sair dela. Tudo que é potência transformar em ato.

Tempo Brasileiro não é apenas uma revista. É uma convocação. Convocamos os jovens e os que não envelheceram, os que não se marginalizaram na urgência do processo histórico brasileiro, a elaborarem conosco uma perspectiva ou um ponto de vista autenticamente brasileiro. Capaz de atender às nossas exigências de hoje. O Brasil somente será solucionado da perspectiva do Brasil. É esta a nossa verdadeira opção: Brasil e anti-Brasil. O problema se coloca assim. Mas esse nacionalismo, que deve ser uma frente de defesa, de combate, não pode ser um limite. Para que ele seja uma força propulsora de uma ação é necessária que seja promovida imediatamente a sua desintelectualização. Somente criaremos um estilo Brasil, um pensamento, uma ação, legítimos, se soubermos apoiar-nos em nossos condicionamentos circunstanciais verdadeiros. É este o nosso compromisso.

É a esta causa que Tempo Brasileiro se propõe servir. Ela diz respeito à nossa necessidade.

A revista logo se ampliou em editora: Edições Tempo Brasileiro. Editamos vários livros de autores representativos do Brasil e do pensamento, sobretudo, contemporâneo. Sem o menor preconceito ideológico. De Martin Heidegger a Ernst Bloch, e aos frankfurtianos Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Herbet Marcuse. Até hoje somos os principais editores brasileiros de Jürgen Habermas. Os franceses também se fizeram presentes por meio de Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Gaston Bachelard, Claude Lévi-Strauss, Abraham Moles, Michel Foucault, Maurice Godelier, Roland Barthes. Dos brasileiros, Jorge Amado, Adonias Filho, Afrânio Coutinho, Pedro Paulo Montenegro, Vamireh Chacon, Geraldo Holanda Cavalcanti, José Guilherme Merquior, Marcílio Marques Moreira, Abdias Moura, Pedro Demo, Antônio Paim, Roberto Cardoso de Oliveira, Ana Maria Martins (hoje Machado), Helena Parente Cunha, nunca nos faltaram com a colaboração. Alfredo Marques Vianna se aliou a nós, como o voluntário se junta à tropa em guerra.

Quando publicamos o livro de Herbert Marcuse, Materialismo histórico e existência, preparado e traduzido pelo professor Vamireh Chacon, da Universidade de Brasília (UnB), inauguramos o Colégio do Brasil. Com três cursos monográficos de Emmanuel Carneiro Leão, sobre o pensamento contemporâneo, introdução a Herbert Marcuse, de Vamireh Chacon, e teoria da comunicação literária, de Eduardo Portella. Poucos dias depois, Gustavo Corção escrevia um artigo no Diário de Notícias, onde nos acusava de promover a "ressurreição do Instituto Superior de Estudos Brasileiros - ISEB". Imediatamente um grupo de militares fanatizado jogou uma bomba na fachada do prédio, e destruíram parte de nossa sede. A imprensa, falada, escrita e televisionada acorreu ao local, e foi recebida pela atriz Norma Blumm, que colaborava conosco na difusão dos cursos. Eu estava muito gripado, quando fui chamado e dei uma entrevista coletiva responsabilizando Gustavo Corção como autor intelectual do crime. Anos depois, conversando com Hélio Jaguaribe, que eu conhecia como pensador político e pude conhecer então como um bem-humorado intérprete da tragicômica cena política brasileira, ele me disse: "raiva é ótima para gripe". E ele tinha razão.

Não foram fáceis os anos 1960 para as Edições Tempo Brasileiro. Encontramos tantos obstáculos no caminho, que fomos perdendo alguma coisa da nossa pureza originária.

O meu inesquecível irmão Franco Portella, que gerenciava a nossa editora, foi preso duas vezes pelos militares: uma de madrugada, em sua residência, e outra, no escritório, preso e encapuzado, por possíveis atos subversivos, que logo foram desmoralizados. Era o CCC, que deixaram as suas inscrições.

Tivemos vários livros nossos retirados das livrarias. A revista foi interrompida, e voltou em seguida já não bimensal, porém trimestral. No editorial de retorno, repetimos uma frase de frei Luís de Leon, ao regressar à cátedra de Salamanca, após as punições inquisitoriais: "Como decíamos ayer". Também reafirmamos nosso programa no editorial do n.7 da revista, acompanhado de Joaquim Cardozo, Pierre Furter, Jean-Paul Sartre, Kostas Axelos, Tristão de Athayde (pela anistia), os cúmplices de sempre e os que vinham chegando como Ana Maria Machado, Arlindo Gómez de Sousa, Raymundo de Araújo Castro. O editorial de 1965 dizia:

Como dizíamos ontem. Com uma frase assim, Frei Luís de Leon retornou certo dia à sua cátedra de Salamanca, para prosseguir o seu extraordinário labor pedagógico. Fora interditado, perseguido, encarcerado cinco anos pela Inquisição. Mas não encontrou, em nenhum instante, a necessidade do recuo, a justificativa da modificação. Voltou à sua tribuna por inteiro, inarredável, o mesmo. E iniciou o seu trabalho pronunciando aquela frase famosa. As armas da prepotência podem menos que as razões do conhecimento.

A nossa revista teve a sua caminhada perturbada pelas contingências sombrias de abril. Ao optar por uma compreensão aberta e livre dos seres e do mundo, assumimos logo um compromisso de luta que se rege por tábua de valores que nada possui de dogmática ou sectária. O exercício rigoroso da atividade crítica incomoda fatalmente as imposturas institucionalizadas. O uso amplo e categórico do discernimento crítico chegou a ser confundido com divisionismo. Nunca acreditamos numa força coletiva que decorra de fraquezas individuais. Ela será mais força e mais coletiva se for a soma de unidades fortes. Por isso nos rebelamos contra a ortodoxia, em nome do interesse nacional brasileiro. É partindo da especificidade histórica e cultural do Brasil que elaboramos nosso testemunho.

Houve uma alteração episódica no quadro político brasileiro, desde o nosso último número. Transformaram-se os personagens e se modificou a causa. Mas a máquina de destruição da razão só fez avançar na sua febre demolidora. Uma concepção belicista ou pentagonizada da convivência universal insiste em nos alistar nos pelotões da guerra fria. A nossa economia, os negócios interiores, a cultura brasileira, enfim, se vêem ocidentalmente postos à disposição da catástrofe. Estamos sujeitos a não ser antes de ser.

Por isso Tempo Brasileiro, que não se fez uma pequena fábrica de verdades intocáveis, que não se quis uma bíblia desviada ou um subcódigo, se converte agora, com a autoridade de quem não deixará de dizer hoje o que sempre disse ontem, em um núcleo de resistência. Sabemo-nos um percurso contraditório. O que desejamos é indagar e responder enfaticamente sobre o Brasil. Somos a crítica das idéias e não dos fatos. Os fatos nos interessam na medida em que sejam portadores de idéias.

Durante esse período interrompido, os livros que editamos, em dias e momentos difíceis, continuaram a nossa ação, assinalaram a nossa presença permanente. Não temos compromissos senão com a causa do homem e do empenho da construção nacional. A nossa autoridade provém precisamente dessa liberdade. Queremos trazer o nosso esforço para a superior tarefa de libertação do homem. É o que dizíamos ontem e o que reafirmamos hoje (tb).

O argumento tempo brasileiro se sustentava em um tripé a todo instante ameaçado: a revista, as Edições Tempo Brasileiro e o Colégio do Brasil. Chegou a haver uma deriva teatral com a criação do Teatro de Repertório, que montou com sucesso Os mortos sem sepultura, de Jean-Paul Sartre, em tradução de Jorge Amado, com a participação ativa de Luís Carlos Maciel, Paulo Afonso Grizoli, Tite de Lemos, José Mauro Gonçalves, Odilon Ribeiro Coutinho. A direção de Grizoli e o excelente elenco da peça obtiveram um enorme sucesso de público e de crítica, na montagem no Teatro de Arena, do Rio de Janeiro. Os temas eram: resistência, tortura, colaboracionismo, tão presentes naquele Brasil amordaçado. Por outro lado, o entusiasmo contagiante de Alfredo Marques Vianna, abriu outra frente Tempo Brasileiro, e montou a peça O berço do herói, do dramaturgo e amigo Dias Gomes, que foi interditada no dia da estreia, pela polícia do governo Carlos Lacerda. Mesmo assim, e apesar dos pesares, continuamos a nossa viagem mais ou menos turbulenta e, em 2012, se Deus quiser, e se a esquerda maluca, a direita truculenta e o centro preguiçoso não atrapalharem, estaremos completando cinquenta anos de vida, sem recorrer a aparelhos artificiais.

De Alceu Amoroso Lima, referência obrigatória, as Edições Tempo Brasileiro publicaram três livros importantes, retratos sem retoques daquele tempo fechado: Revolução, reação ou reforma? (1964), Pelo humanismo ameaçado (1965) e A experiência reacionária (1968). O primeiro lançamento foi na sede do Jornal do Brasil, em um fim de tarde nebuloso e tenso. O sorriso iluminado do Dr. Alceu se encarregava de reoxigenar a temperatura do ambiente. A sensatez de José Paulo Moreira da Fonseca nunca faltava naquelas horas insensatas.

As acusações de Gustavo Corção, paladino da direita cega, escritor previsível, ou até burocrático, gramaticalmente correto, embora destituído de qualquer originalidade, não se apoiava no mínimo fundamento. Eram somente ataques coléricos, vazios de grandeza humana. Jamais tivemos nada contra o Iseb. Reconhecíamos até a sua contribuição pontual para o entendimento do Brasil desenvolvimentista. Mas a nossa posição era outra, talvez mais acadêmica. Em qualquer hipótese imune a todo parti pris ideológico. Porque a ideologização, máscara avarenta da realidade, rapidamente se torna sinônimo de idiotização. Fomos beneficiários, isso sim, da interlocução de Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto, Paulo de Castro, Wanderley Guilherme dos Santos.

O estímulo e o apoio de Jorge Amado, Alceu Amoroso Lima, Ernesto Guerra da Cal, Gregory Rabassa, Afrânio Coutinho, Eduardo Prado Coelho, Carlos Boussoño, Rafael Gutiérrez Girardot, Juan Rulfo, Isaac Akcelrud, Bárbara Freitag, Sérgio Paulo Rouanet, César Leal, nessa jornada temerária, foram infalíveis. Jorge Amado, apresentando o número comemorativo dos vinte anos da revista (n.71), disse:

Acompanho o itinerário de Tempo Brasileiro desde seu primeiro número, lançado há vinte anos. Durante esse largo tempo a presença da revista de Eduardo Portella tem sido um fator de importância indiscutível na vida cultural brasileira. Seja no levantamento e no debate dos problemas nacionais, como também dos agudos problemas internacionais, sobretudo aqueles que afetam e afligem o terceiro mundo.

Fundada sobre o signo da democracia e do progresso essenciais à vida brasileira, e da luta pela paz, contra o colonialismo e os preconceitos de todo o tipo, Tempo Brasileiro tem lutado o bom combate, esclarecendo e orientando, transformando-se num fórum amplo e ardente de análise e estudo dos problemas do Brasil e do Mundo. Problemas de toda ordem: políticos, sociais, literários, artísticos, humanos. As páginas da revista são repositórios de idéias, de extraordinário valor.

Ao saudar Tempo Brasileiro e a equipe responsável que, sob o comando de Eduardo Portella, imprimiu tanto brilho à sua trajetória, quero dizer da minha satisfação de pertencer ao grupo que iniciou sua publicação e se manteve fiel ao conceito democrático e progressista de seu manifesto.

O número dos quarenta anos da revista, coordenado pelo professor Paulo Roberto Pereira, veio a ser um marco na avaliação crítica do nosso trajeto. Reúne textos diversos, apontando para diferentes caminhos. O compromisso ético, e só depois político, se apoiam em instrumentos críticos e hermenêuticos, abertamente interdisciplinares.

O tempo e o espaço têm sido o Brasil, e cada vez mais o mundo - diálogos e conflitos, enlaces interculturais, no encalço de um novo humanismo, nem nostálgico nem filantrópico, mas certamente militante e esperançoso, enraizado e cosmopolita.

Tempo Brasileiro chega ao seu 48º aniversário fiel ao seu compromisso inicial: trazer uma reflexão sobre e para o desenvolvimento brasileiro que, guardando a sua forma endógena, estivesse inscrito em um horizonte universal.

Vem lançando nomes nacionais e internacionais, promovendo a circulação aberta das ideias contemporâneas, procurando trabalhar com a memória e a esperança, insistindo em desincompatibilizar disciplinas habitualmente distantes.

Tempo Brasileiro 48 anos de militância - de confronto crispado com a realidade brasileira, latino-americana e contemporânea - constitui o esforço reflexivo, aberto e livre, como também a vontade de alargar o horizonte do pensar, não raro no cerne do pensamento pós-metafísico.

Tempo Brasileiro vem criando novas solidariedades em todos os cantos do mundo. E essas solidariedades, muitas vezes apoiadas em diferenças complementares, estão na base do seu trabalho reconstrutivo.

Já é um longo itinerário, mas a Revista, a Editora e o Colégio do Brasil (por ordem de entrada em cena) estão presentes para continuar o registro e o impulso do Tempo Brasileiro aberto à reflexão crítica, comprometido com o saber por vir, declaradamente plural, no encalço da cidade cosmopolita.

O número 158 da nossa revista fez o balanço de 1964. Intitulou-se "1964 visto de 2004". Recolheu colaborações qualificadas e idôneas sobre o golpe militar. Pelo elenco das colaborações já é possível identificar o vigor dos testemunhos e da caminhada Tempo Brasileiro: Vamireh Chacon, José Murilo de Carvalho, Celso Furtado, Wanderley Guilherme dos Santos, Maria Aparecida de Aquino, Carla Reis Longhi, Admar Mendes de Souza, Walter Cruz Swensson Junior, Letícia Nunes de Góes Moraes, Maria Yedda Leite Linhares, Janice Theodoro e Rafael Ruiz. Hoje a revista conta com a dedicação do poeta e ensaísta Marco Lucchesi, seu redator-chefe.

 

 

 

 

Talvez seja apenas uma teimosia, acalentada por sonhos de outrora. Mas em qualquer caso foi e é o compromisso ético jamais sujeito às trapaças morais da nossa história política.

O mais é esse gosto amargo de, como diria o poeta Manuel Bandeira, toda uma vida que podia ter sido e que não foi. Continuamos teimando que poderá ainda ser, se soubermos recuperar os prazos perdidos. Esse é o argumento Tempo Brasileiro.

 

 

Recebido em 14.6.2010 e aceito em 22.6.2010.

 

 

Eduardo Portella é autor de vários livros, professor titular emérito da UFRJ, diretor de Pesquisa do Colégio do Brasil / Ordecc. Foi ministro de Estado da Educação, Cultura e Esportes, acumulando com Ciência e Tecnologia (pasta ainda não criada). É membro das Academias Brasileira de Letras e de Educação. Pertenceu à direção-geral da Unesco e foi eleito pelos Estados-membros presidente da Conferência Geral desse organismo internacional. É diretor da Revista Tempo Brasileiro. @ - tb@tempobrasileiro.com.br

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