SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 número69O problema da autoria na teoria literária: apagamentos, retomadas e revisõesSete quartetos para Zé: memorial para um poeta ímpar índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.24 no.69 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142010000200019 

LITERATURE

 

Water, people and milieu according to Guimarães Rosa

 

 

Gerôncio Rocha

 

 

In environmental matters, the main legacy of the twentieth century was the intense and extensive pollution that has irrevocably jeopardized the landscape, water resources and the health of populations. Admittedly, there has been an extraordinary progress in cybernetics, with the shortening of distances and instant access to information. These achievements have been enabled by bipolar processes over time: war and peace; dictatorship and democracy; economic growth and social inequality; development and environmental destruction.

In the twenty-first century, judging from the first decade, the planet becomes dangerous; environmental destruction seems an inevitable apocalyptic scenario. The speed of communication increases, but the message is concentrated in monotonic, uneasy catchphrases and clichés. It is a vocabulary of few words and phrases: global warming; greenhouse effect; climate change; climate risk; sustainability; sustainable development; low carbon economy; risk society; governance; certainly.

We seem to be on a scaffold and what is on the verge of being decided is on the one hand the fate of humanity and on the other the transformation of the Earth. This separation did not exist before; processes were mediated by a certain dose of dialectics. Now it is all or nothing; it is danger and fear. There is no use in seeking culprits: predatory economic groups; maintenance of obsolete technologies; retrograde production relations; competition for water. No; we are definitely all culprits.

In these times of confusion and fear, it is advisable to resort to enlightened spirits other than climate scientists. Over the centuries, writers have always been the ones who best understand the signs of the times, the revolutions and the human soul. In this case, Guimarães Rosa's literature is an antidote to the evils of the world; it enables injecting of a dose of humanity in the relationship between people and the environment.

Water, people and milieu make up a universal chain. People, however simple they may be, have their dignity recognized –Zeguilherme the cowboy, Mainarte the cowboy; water flows through a "shabby creek" before reaching the São Francisco river; and the landscape is populated with wine palm trees, evergreen grass, little partridges and flocks of macaws that resemble "a blue or red cloth spread out, rolled, on the back of the hot wind." The world has unity and is fixable. Enough terrorism.

Next we offer readers 12 excerpts from the stories of the great writer, selected on the basis their ecologic bias. 

 

1

"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir."

"There is a certain time,
in the middle of the night, a dead hour,
when the water sleeps. All waters sleep:
in the river, in the pond,
in the dam, in the marsh, in the springs,
in the deep hollows.
And those who stay awake,
in the gorge, all night long,
will hear the waterfall. "
stopping the fall and the weeping,
because the water went to sleep. "

(From Magma / Sono das águas)

 

2

"E assim seguiam, de um ponto a um ponto, por brancas estradas calcáreas, como por uma linha vã, uma linha geodésica. Mais ou menos como a gente vive. Lugares. [...] Queriam subir e ver. O mundo disforme, de posse das nuvens, seus grandes vazios. Mas, com brevidade, desciam outra vez. Saíram a onde a estrada é reta, bom estirão. Até que, a pouco trecho, enxergavam, adiante uma pessoa caminhando."

"And so they followed from point to point, through white limestone roads, as if through a void, a geodesic line. More or less as we live. Places. [...] They wanted to go up and see. The shapeless world, in possession of the clouds, its large voids. But they soon came down again. They came out where the road is straight, a long walk. Until, soon after they saw, ahead, a person walking.")

[From Corpo de baile / O recado  do morro]

 

3

"Porque, dantes,  se solambendo por uma grota,
Um riachinho descia também a encosta,  um fluviol,
Cocegueando de pressas, para ir caindo,  bem em baixo, no Córrego das Pedras,  que acabava no Rio de Janeiro,
que mais adiante  fazia barra no São Francisco.Dava alegria, a gente  ver o regato  botar  espuma  e oferecer suas claras friagens e a gente  pensar no que era o valor daquilo. Um riachinho xexe, puro,  ensombrado, determinado, com regojeio e suazinha Algazarra  – ah, esse não se economizava: de primeira, a água,
Pra se beber."

("Because, before, rejoicing through a dark valley,
A little creek also ran down the slope, like a river,
Ticklish with haste, to fall, deep down, in the Stone
Stream, which ended in Rio de Janeiro,
Which farther ahead met the São Francisco.It was a joy, to see the creek pouring out foam and offering Its clear chills, and we think about what was the value of that. A little shabby, pure, overshadowed, determined, and happy creek, having such Fun - ah, that one spared no effort: first class, the water,
For drinking.")

 (From Corpo de baile / Uma estória de amor)

 

4

"Boiada  boa ...
[...]
as ancas balançam, e as vagas de dorsos,  das vacas e touros, batendo com as caudas,  mugindo no meio,  na massa embolada, com atritos  de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro  queixoso do gado  junqueira, de chifres imensos,  com muita  tristeza,  saudade  dos campos, querência dos pastos de lá do sertão..."

("A good herd...
[...]
hips swaying and the waves of backs, of the cows and
bulls, their tails swinging, mooing in the middle, in the tangled mass, friction of hides, horns crackling, rumbles and thumps, and the querulous scream of the cattle, huge horns, with great sadness, missing the meadows, the favorite graze in the backland ...")

(From Sagarana / O burrinho pedrês)

 

5

"Gritos: eleléia dos vaqueiros, terminando a apartação.
No eirado,  são vistos: o vaqueiro  Cicica, o vaqueiro  Tadeu, o vaqueiro Doim, o vaqueiro  Pedro  Franciano, o vaqueiro  Sãos, o vaqueiro  Noró, o vaqueiro  Abel, o vaqueiro  Mainarte. Os vaqueiros  Calixto,  José Uéua, Raymundo Pio, Zeguilherme, João Jipió, José Proeza, Zazo  [...]."

("Screams: joy of the cowboys, all the herd put aside.
On the roof, we see: Cicica the cowboy, Tadeu the cowboy, Doim the cowboy, Pedro Franciano the cowboy, Sãos the cowboy, Noró the cowboy, Able the cowboy, Mainarte the cowboy. Cowboys Calixto, José Uéua, Raymundo Pio Zeguilherme, João Jipió, José Proeza, Zazo [...].")

(From Corpo de baile / Cara de bronze)

 

6

"[...] ela me acordou, tava me cheirando. [...]  aí eu fingi que tava morto, podia  fazer nada não. [...]Muito tempo ela não fazia nada também. Depois botou mãozona em riba do meu  peito,  com muita  fineza. Pensei – agora eu tava morto: porque ela viu que meu  coração  tava ali. Mas ela só calcava de leve, com uma mão,  afofado  com a outra, de sossoca, queria me acordar. Eh, eh, eu fiquei sabendo... Onça que era onça – que ela gostava de mim,  fiquei sabendo... Abri os olhos,  encarei."

("[...] She woke me up, sniffing me. [...] Then I pretended I was dead, could do nothing. [...]Long time she didn't nothing either. The she lay her big hand on my chest, with much finesse. I thought - now I was dead: 'cause she saw my heart was there. But she only pressed Lightly, with one hand, fluffed with the other, she wanted to wake me up. Eh, eh, I learned ... It was a jaguar  - she liked me, I learned ... I opened my eyes, I stared at her.")

(From Estas estórias / Meu  tio o Iauaretê)

 

7

"Sua fúria e ira derramaram-se tão prontas, que as escamas do corpo, que nem  arroz  em casca, ramalharam e craquejaram, num  estremeção escorrido até os ocos apêndices  córneos  da cauda,  erguida  a prumo, que tocaram sinistramente. [...]
Uns homens, que trabalhavam mais abaixo, não tinham escutado o crotalar  da tétrica  fanfarra, não
podiam  saber da presença  de Boicininga, latente  na erva, junto da lata d'água.  [...]  e sendo  pois assim, seis homens e uma cobra;  e o daqueles  que tivesse sede primeiro, provavelmente teria de morrer."

("Its rage and anger spilled over so promptly, that the scales of the body, like rice in the husk, rustled andand spread, in a convulsion towards the hollow horny appendages of the tail, raised upright, fatally whistling. [...]
Some men, who worked down below, had not heard the rattling o the gruesome fanfare, they
could not be aware of the presence of Boicininga, latent in the grass, next to the water tin. [...] end it is, thus, six men and a snake; and the first of them to be thirsty would probably have to die.")

(From Estas Estórias / Bicho mau)

 

8

"– E os capins, os capins bonitos, que os boizinhos e os cavalos pastam?
– sempre verde, aristides,  luziola,  maquiné, zabelê,  cobre-choupana, dandá,  cortesia,  mimoso-de-cacho, frei-luiz,  major-zé-inácio, pernambuco, cocorobó, são-carlos,  marianinho [...]"

("- And the grasses, the beautiful grasses, where little bulls and horses graze?
- aristides,  luziola,  maquiné, zabelê,  cobre-choupana, dandá,  cortesia,  mimoso-de-cacho, frei-luiz,  major-zé-inácio, pernambuco, cocorobó, são-carlos,  marianinho [...]")

(From Corpo de baile / Cara de bronze)

 

9

"– E os bichos,  os bichinhos, os pássaros?
– seriemas gritando e correndo, ou silenciosas. Emas correndo às tortas. seriema voando. Os anús, pretos  e brancos. A alma-de-gato. A codorninha–buraqueira. os joãos-de-barro. A maria-mole.  A pomba-do-ar.
A juriti-do-peito amarelo.  a doidinha. A maria-faceira,  em beira de lagoa. O sofrê, veredas dos Gerais avante."

"- And the animals, the little animals, the birds?
- The crested cariama screaming and running, or silent. Ostrichs running wild. Crested cariama flying. The ani, black and white. The alma-de-gato bird. The litle partridge. The ovenbirds. The maria-mole bird. The pomba-do-ar bird.
The yellow-chested dove. The swallow. The maria-faceira bird, by the pond. The oriole, along the swamp plains of Minas Gerais.")

(From Corpo de baile / Cara de bronze)

 

10

"Pelas frinchas, entre festões e franças, descortino, lá em baixo,  as águas das Três-Águas. Três? Muitas mais! a lagoa grande, oval, tira do seu pólo rombo dois córregos, enquanto entremete o fino da cauda na floresta. Mas, ao redor, há o brejo,  imensa esponja onde tudo se confunde: trabéculas de canais, pontilhado de poços, e uma finlândia de lagoazinhas sem tampa."

("Through the cracks between garlands and franks, I see, down there, the waters of the Three-Waters. Three? Many more! The big, oval pond, takes from its depths two streams, while squeezing it thin tail through the forest. But around lies the marsh, a huge sponge where everything merges: trabecula of channels, dotted with wells, and an endless row of uncovered little ponds.")

(Fom Sagarana / São Marcos)

 

11

"se viam bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam  um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos  do vento  quente. Daí, se desceu  mais, e, de repente, chegamos numa  baixada toda  avistada, felizinha  de aprazível, com uma lagoa muito correta, rodeada de buritizal dos mais altos: buriti-verde que afina e esveste, belimbeleza."

"We saw such large flocks of macaws in the sky that they resembled a blue or red cloth spread out on the back of the hot wind. From there we descended again and suddenly came to a lowland, all there, happily pleasant, a fine pond surrounded by the tallest buriti palms: slender, green-clad, all dandy. "

(From Grande Sertão: Veredas)

 

12

"Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo;  [...] Mas se deu que, certo  dia, nosso  pai mandou fazer para si uma canoa.  [...]  e esquecer  não posso,  do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalçou  o chapéu  e decidiu  um adeus para  a gente. [...]  Nossa  mãe,  a gente  achou  que  ela ia esbravejar,  mas persistiu  somente alva de pálida,  mascou  o beiço  e bramou: 'Cê vai, ocê fique, você nunca  volte!'
[...] Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção  de  se permanecer naqueles  espaços  do  rio,  de  meio  a meio, sempre  dentro da canoa,  para dela não saltar, nunca  mais."

("Our father was an honorable, organized, positive ma; [...] But it happened that one day our father had made ​​for himself a canoe. [...] and I cannot forget the day that the canoe was ready.
With no joy or care, our father put on his hat and said goodbye to us. [...] Our mother, we thought she was going to rant, but remained only white and pale, chewed her lips and bellowed: "Ye go, ye stay there, you never come back!'
[...] Our father did not come back. He hadn't gone anywhere. He just came up with the idea of staying in those spaces of the river, half and half, always on the canoe, of which he never came out.")

(Primeiras estórias / A terceira  margem do rio)

 

 

Received on 2.12.2009 and accepted on 5.1.2010.

 

 

Gerôncio Rocha is a geologist, linked to the Water Resources Coordination of the Secretariat for the Environment of São Paulo. @ - Geroncio@ambiente.sp.gov.br.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons