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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.24 no.69 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142010000200027 

RESENHAS

 

Epistolografia machadiana

 

Epistolography of Machado de Assis

 

 

Marcos Antonio de Moraes

 

 

VÁ DESCULPANDO a letra, e o mal alinhado", escreve Machado de Assis (1839-1908) a Mário de Alencar (1872-1925), em 25 de março de 1907. "Este seu velho amigo é um pobre diabo cansado, que mal dá de si alguma cousa pouca, desalinhada e torta". De fato, logo no princípio dessa carta, a pena antecipa-se vacilante, obrigando o remetente a realizar a interpolação de uma palavra na frase. Nas pautas de quatro páginas, a escrita sempre regular e legível do autor de Dom Casmurro deixa entrever algum descuido: emendas, o esquecimento de pronome relativo e um "peço" desvirtuado em "preço". Em sua correspondência, Machado frequentemente detém o olhar sobre a própria escritura, escusando-se da caligrafia e de eventuais distrações, em diálogo evidente com os preceitos epistolares do século XIX. Contudo, nos anos que antecedem a morte do escritor, os "defeitos" de sua escrita nas cartas surgem fortemente associados ao abatimento físico e moral decorrente da "idade".

Potencializando a significação do texto, a materialidade dos documentos ganha relevo na edição de Empréstimo de ouro: cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar, preparada por Eduardo F. Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira. A obra estampa fac-símiles de 22 mensagens do autor carioca, circunscritas ao período de 20 de novembro de 1902 a 26 de agosto de 1908, originais que estiveram sob a guarda de Afrânio Coutinho e hoje pertencem ao patrimônio do Centro de Estudos que leva o nome do professor, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Essas cartas, exceto uma delas, integram o conjunto de 33 missivas de Machado relativas a esse diálogo epistolar, presente no "Epistolário" da Obra completa (1959) do criador de Brás Cubas, organizada por Afrânio Coutinho. O "Epistolário", como se sabe, beneficiou-se da publicação, em 1932, da Correspondência de Machado de Assis, "coligida e anotada" por Fernando Nery, obra que, em 1937, na edição da W. M. Jackson, recebeu inéditos e foi renomeada Correspondência, com posteriores reedições e mais acréscimos. Recuando-se a um possível marco zero da divulgação das cartas de Machado ao filho de José Alencar, chega-se a "Machado de Assis, páginas de saudade", ensaio de Mário, inserido em Alguns escritos (1910). Desse pungente relato memorialístico, desentranham-se excertos de missivas do escritor acerca de assuntos literários, bem como a integralidade daquela na qual agradece o amigo mais jovem pela leitura do Memorial de Aires, ainda em manuscrito. Na primorosa edição de Empréstimo de ouro, retomando-se essa documentação postal, a qualidade da reprodução das cartas, o cuidadoso trabalho de transcrição dos textos, a farta anotação de pesquisa, a vasta iconografia contextualizadora da amizade e o instigante viés de interpretação do material favorecem o aprofundamento de temas sugeridos no livro, entre os quais a compreensão da singularidade da correspondência trocada entre Machado e Mário, a caracterização da escrita epistolar machadiana e, em espectro mais amplo, a redefinição da escala de importância da epistolografia nos estudos literários e históricos.

Se, para Mário de Alencar, na mencionada narrativa testemunhal, Machado era "a discrição em pessoa", não lhe pareceu, contudo, inconveniente a divulgação de trechos da correspondência dele. Afinal, em 21 de abril de 1908, o escritor havia atendido ao apelo do crítico José Veríssimo, confrade da Academia Brasileira de Letras, deixando a ele "a autorização de recolher e a liberdade de reduzir as letras que lhe pare[cessem] merecer divulgação póstuma", considerando, entretanto, "que de tantas cartas [...] a amigos e a estranhos", "nada interessante" se pudesse apurar, "salvo as recordações pessoais que conservarem para alguns". Machado acreditava que o justo rigor no julgamento desses escritos da vida privada, assim como "o tempo decorrido e a leitura [...] da correspondência" sinalizassem a Veríssimo que seria "melhor deixá-la esquecida e calada". A contrapelo da modéstia e da atitude reservada de Machado de Assis, Veríssimo argumenta em favor das cartas do amigo, consideradas "literariamente, e ainda como documento psicológico e testemunho do [...] tempo". Pode-se, hoje, efetivamente, avaliar a relevância da epistolografia do escritor, tendo em vista, até mesmo, o empenho da Academia Brasileira de Letras em publicar, a partir de 2008, os "tomos" da Correspondência de Machado de Assis, "reunida, organizada e comentada" por Irene Moutinho e Sílvia Eleutério, sob a "coordenação e orientação" de Sérgio Paulo Rouanet.

Os diálogos epistolares mais extensos sustentados por Machado de Assis dão a conhecer autorrepresentações (personae), estratégias discursivas, ideários críticos, projetos literários e empreendimentos culturais. Mirada panorâmica sobre algumas das interlocuções mais representativas demarca pontos de interesse. Machado e José Veríssimo, nas cartas, revezam-se nos papéis de escritor e de crítico; trocam opinião sobre a produção de terceiros, iluminando perspectivas e limites da crítica literária brasileira, a caminho da almejada consolidação. Machado e Joaquim Nabuco carteadores - o homem (essencialmente) de letras e o homem (essencialmente) político - exercem, com idêntico vigor e engajamento, a política literária, em particular na esfera acadêmica; será Nabuco a flagrar "bondades largamente derramadas" nas cartas de Machado de Assis, em contraponto com a imagem daquele que ia se caracterizando pelo cultivo da "vesícula do fel", na "filosofia social" e nos romances (8 out. 1904). Machado e o jovem diplomata Magalhães de Azeredo encenam o encontro do pródigo mestre com o ambicioso discípulo, colocando em marcha a engrenagem da pedagogia machadiana, tão distante daquela outra, tensa e problematizadora, levada a cabo por Mário de Andrade na primeira metade do século XX. O moço valoriza nas mensagens recebidas o "prazer da [...] conversa, tão elevada e conceituosa, tão rica de espírito e de bondade" (22 jan. 1894); agradece os "conselhos", consciente de que "lucra intelectualmente" com as cartas recebidas (22 jun. 1896). O mestre, pela vez dele, tem "fé no [...] futuro" do discípulo (22 set. 1895) e ambiciona que seus ensinamentos ecoem na posteridade:

Espero que, uma vez entrado nos seus cincoenta anos, não se haverá esquecido de mim e de algumas palavras que me ouviu outr'ora. Aos rapazes que então começarem, se os achar com as suas qualidades, diga-lhes o que lhe disse, e espere como eu espero que a semente caia em boa terra. (3 set. 1895)

Para se fixar a especificidade da interlocução epistolar entre Machado de Assis e Mário de Alencar, começa-se por reunir as peças de um complexo puzzle: as cartas de Machado presentes em Empréstimo de ouro somam-se àquelas, complementares, no "Epistolário" do terceiro volume da Obra completa do escritor. A voz de Mário, em quarenta cartas, pode ser recuperada na Correspondência, edição de 1938. Cruzando-se as partes do diálogo (infelizmente algumas peças se perderam...), cronologicamente, de meados da década de 1890 a 29 de agosto de 1908, monta-se o atraente painel textual, onde se desenha a amizade do renomado escritor com o poeta 32 anos mais novo, órfão de outro escritor renomado, da admiração do primeiro. Machado de Assis, em carta a Magalhães de Azeredo, em 17 de novembro de 1896, deslinda o caráter do poeta de Lágrimas (1888): "é bom, é leal, é dedicado". Em 1º de agosto de 1908, ao mesmo remetente, aprecia o "amigo" Mário: "É um dos que me tem valido nestes dias de solidão e de velhice.// Quando estive doente, [...] foi dos que me acompanharam com carinhos de amigo certo. Aqui me vinha ver a este recanto do Cosme Velho, onde passei tantos anos felizes e onde recebi o grande golpe", alusão à morte da esposa Carolina, em outubro de 1904.

Os biógrafos Lúcia Miguel Pereira e R. Magalhães Júnior não hesitaram em distinguir em Machado de Assis sentimento de paternidade vincando a afeição que devotou a Mário de Alencar. Lúcia vislumbra neles "uma certa identidade de temperamentos". Refere-se, certamente, ao fundo de melancolia que subjaz nessas personalidades. Mário abisma-se em sofrimentos, fazendo soar nas cartas o timbre agudo da dor: "O espírito está abatido. Por mais que procure desviá-lo da melancolia, ela não o deixa e o tem fechado entre névoas" (26 mar. 1907). O criador de Bentinho, pela vez dele, solitário, triste e enfermiço (o mesmo "mal" que debilitou Flaubert), se vê como "doente sem médico" (8 fev. 1908). É Machado de Assis, contudo, que, mesmo tendo "mais direito a enfermidades" (11 abr. 1907), irá fazer da amizade um procedimento terapêutico, incitando Mário a descobrir na arte o ânimo de viver. Machado cuida do outro, oferecendo-se como "espelho":

o mal estar de espírito a que se refere não se corrige por vontade, nem há conselho que o remova, creio; mas, se um enfermo pode mostrar a outro o espelho do seu próprio mal conseguirá alguma coisa. Também eu tenho desses estados de alma, e cá os venço como posso [...]. Veja se exclui todo o presente, passado e futuro, e fixe um só tempo que compreende os três: [o poema] Prometeu. A arte é remédio e o melhor deles. (23 fev. 1908)

Em contrapartida, o zelo filial de Mário impõe-se a cada passo nas cartas, pedindo notícias minuciosas da saúde de Machado, recomendando-lhe medicamentos, fazendo-se presente. Morto o amigo mais velho que patrocina em 1907 a sua entrada na Academia, Mário de Alencar, nas "Páginas de saudade", tenta compreender a clave que teria definido o bem-querer mútuo: "Não alimentei o engano presunçoso de uma afinidade intelectual; [...] pareceu-me sempre que não era o atrativo literário que ele buscava na minha conversa. Eu era apenas um interlocutor pronto a escutá-lo com amizade inteligente, capaz de interromper-lhe a solidão moral, dolorosa". Machado, de todo modo, julgava que a "modéstia" de Mário "era um mal" (5 jan. 1907) e que a amizade que ele lhe oferecia aquilatava-se como "empréstimo de ouro" (25 mar. 1907).

Na correspondência trocada entre Machado de Assis e Mário de Alencar, avulta a presença do autor de O Guarani. Machado, como se sabe, em diversas oportunidades, exprimiu a admiração pelo escritor romântico. Lembre-se, antes de mais nada, dos termos do apreço na carta-aberta divulgada no Correio Mercantil, de 1o de março de 1868, na qual atende ao pedido que Alencar lhe fizera de "apresentar" Castro Alves, de passagem pela Corte, "ao público fluminense". A estima atinge o ápice simbólico ao escolher o escritor cearense, falecido em 1877, como o seu patrono na Academia. Na primeira carta da série, presumivelmente de 1895, assinada por Machado, Alencar é lembrado, quando Mário lhe comunica o planejado matrimônio: "Seu pai achou no casamento mais uma fonte de inspiração para as letras brasileiras; siga esse exemplo que é dos melhores" (Assis, 1997). Em 1898, Machado de Assis perde o posto no Ministério da Viação e Mário, encorajando-o, lembra-se dos "dissabores políticos" sofridos pelo pai; na resposta, a sobreposição pai-filho: "A sua carta é ainda uma voz de seu pai e foi bom citar-me o exemplo dele; é modelo que serve e fortifica" (Assis, 1938, 1o jan. 1898). Em dezembro de 1902, Mário agradece a resenha animadora de Machado a seus Versos, na Gazeta de Notícias, e o crítico retoma a linhagem familiar: "Tem a idade, tem os estímulos, e destes, além dos que lhe podem dar os vivos, contará sempre o do nosso grande morto" (ibidem, 11 dez. 1902). Em 1907, nova aderência Mário-José de Alencar na pena machadiana; escreve, então, ao amigo em tratamento dos "nervos" na chácara da família na Tijuca, que lhe fizera na carta um relato da paisagem rústica: "A sua descrição fez-me lembrar a que daí fez seu glorioso pai" (7 mar. 1907).

Mário de Alencar, em seu texto memorialístico, afirma ter merecido de Machado de Assis "tanta confidência das mais íntimas". Morando na mesma cidade, viam-se com frequência, nas conversas na Livraria Garnier, nas visitas que o autor de Quincas Borba lhe fazia no trabalho, no trajeto comum de volta para casa, no bonde, até o Largo do Machado. As cartas, assim, constituíam adendos, extensão escrita da amizade. Nessas, a intimidade aludida por Mário retrai-se na medida das conveniências, não apenas em concordância com discreta personalidade de escritor, mas ainda em adesão às regras capitais do próprio gênero epistolar no Brasil, no oitocentos. "Há algumas outras notícias que interessariam contadas, mas não dão para escritas", evidencia Machado em 21 de janeiro de 1908, impondo o contraste vívido entre a conversa prenhe de expansões voláteis da subjetividade e o peso da palavra fixada no papel, premida por códigos retóricos e sociais. Mário de Andrade sintetizou, com humor, essa elaboração epistolar ciosa do bom-tom, na crônica "Amadeu Amaral", de 1939, inserida em O empalhador de passarinho. Para o criador de Macunaíma, antes do

movimento modernista [...] com alguma rara exceção, os escritores brasileiros só faziam "estilo epistolar", oh primores de estilo! Mas cartas com assunto, falando mal dos outros, xingando, contando coisas, dizendo palavrões, discutindo problemas estéticos e sociais, cartas de pijama, onde as vidas se vivem, sem mandar respeitos à excelentíssima esposa do próximo nem descrever crepúsculos, sem dançar minuetos sobre eleições acadêmicas e doenças do fígado: só mesmo com o modernismo se tornaram uma forma espiritual de vida em nossa literatura.

Observa-se um princípio de normativa epistolar naquele contraponto constituído por Machado de Assis, prevendo na comunicação interpessoal de seu tempo o assunto para "ser contado" e aquele que pode "ser escrito", para além do hibridismo imanente à carta, desde seus primórdios habitando na confluência entre oralidade e escrita. O escritor, em algumas de suas cartas, delineou um ideal particular de comunicação postal. Tome-se, por exemplo, a lapidar formulação exposta a Magalhães de Azeredo, em 11 de junho de 1900: "Esta carta valeria por três no tamanho, se eu pudesse dizer tudo nela isto, purgar de vez os meus pecados de silêncio; mas não sendo assim, valha na intensidade o que perder de extensão". A expressão "intensa" vale, assim, pela "extensa", o que, em grande medida, convalida a paradigmática contenção epistolar machadiana. Na imprensa, Machado também perscrutou a escrita das cartas. Nas Páginas recolhidas, publicadas em 1899, juntou o extenso artigo "Henriqueta Renan", focalizando as missivas que o autor de Vida de Jesus recebeu da irmã, mensagens as quais, de algum modo, refletem a práxis epistolográfica de Machado, bem como um persona semelhante. Para o escritor, "as cartas desta senhora são a sua própria alma", mas "raro trata de si". Henriqueta é "melancólica" e tem "um fundo pessimista", entretanto ela "não se contenta de gemer; a queixa não parece que seja a sua voz natural. Aconselha ao irmão para que lute e que conte com ela para ajudá-lo". Na escrita contida da preceptora francesa, "nenhum floreio de retórica, nenhum arrebique de sabichona, mas um alinho natural, muita simpleza de arte, fino estilo e comoção sincera". Machado e Henriqueta afinam-se na psicologia e no trato epistolar. A pedagogia presente na correspondência da irmã de Ernest Renan, construída em escrita calculada, "velada e cautelosa", expende "uma série de sugestões e de esquivanças", para que, em evidente exercício maiêutico, o irmão fale com clareza aquilo que apenas "balbucia". De Machado, Mário de Alencar ouviu, com outras palavras, semelhante proposição didática, na carta de 18 de março de 1907: "Eu já não me sinto com vigor que possa transmitir a alguém, a não ser que a pessoa beneficiada não tenha em si mma. a disposição de me aceitar algumas velhas lembranças". A face compreensiva do mestre, diante dos jovens escritores (como Azeredo e Mário), surge também nesse artigo tão suculento, agora espelhando-se em Ernest Renan, quando cita os Souvenirs d'enfance et de jeunesse, de 1893 (o mesmo livro, aliás, que traz a "Oração sobre a acrópole", mencionada na carta remetida a Mário de Alencar, em 6 de agosto de 1908). Lê-se, na resenha de Machado, o ideal de "arte e polidez" epistolar no trato com os jovens escritores:

Na confissão dos Souvenirs é já o sábio [Renan] que fala em relação aos estreantes: "Um poeta, por exemplo, apresenta-nos os seus versos. É preciso dizer que são admiráveis; o contrário equivale a dizer-lhe que não valem nada, e fazer sangrenta injúria a um homem cuja intenção é fazer-nos uma fineza".

Na fortuna crítica da correspondência machadiana, nota-se grande oscilação valorativa de julgamentos. A bibliografia congrega pareceres que vão do sumário desprezo pelo conjunto ("modelo de discreta insignificância", no Machado de Assis, de Augusto Meyer, em 1935, e "trivial", no Machado de Assis, de Lúcia Miguel Pereira, em 1936) à possível elevação das cartas ao plano literário, como assentam agora os organizadores de Empréstimo de ouro, na introdução da obra, aproximando a escrita do personagem memorialista Aires àquela das missivas de Machado a Mário de Alencar, pelo "tom intimista" e "estilo". Nessa direção positiva, avaliam que "um parágrafo" da mensagem de 23 de fevereiro de 1908 "poderia ter saído da pena do Conselheiro, observando o crepúsculo da tarde e da vida". O próprio Mário, aliás, lançaria a ideia de uma visada estética das escritas prosaicas de Machado:

Para o Sr. tudo é pretexto para a arte, e o que não cabe nela transforma-se ao toque do seu espírito. Haveria para um curioso de bom gosto uma ocupação compensadora na pesquisa dos seus menores pareceres de funcionário público. O que não tem em si mesmo valor senão ocasional e restrito aos interessados no assunto, revestido da sua palavra estará ali como uma página literária, modelo da língua e da arte. (Assis, 1938, 27 fev. 1908)

Se, nesse primeiro emparelhamento de referências às cartas de Machado de Assis, o elemento comum de comparação é a literatura, em outros ensaios, a produção epistolar do escritor afirma-se em sua autonomia produtora de significados, sinalizando, dessa forma, a necessidade da aquisição de instrumental teórico, metodológico e crítico específico para analisá-la. Maria Helena Werneck (2000), em "'Veja como ando grego, meu amigo'. Os cuidados de si na correspondência machadiana", localiza nas cartas de Machado "inesperados traços do individualismo grego". Passando ao largo de uma abordagem biográfica, a pesquisadora vê o "corpo" do autor entranhado na escritura epistolográfica, apurando o olhar, até mesmo, à procura dos "vestígios" físicos, pois "a emenda no texto, a letra tremida, diminuta são vestígios de um progressivo engajamento na relação consigo mesmo através do olhar do outro". O estudo de Maria Cristina Cardoso Ribas (2008), realizando uma interpretação intrínseca dos textos, se propôs a "considerar os processos reiterados da escrita machadiana nas cartas - o que inclui chamar a atenção sobre si, sobre o próprio corpo, identificar as modulações diplomáticas, a função fática das mensagens, as omissões, as intertextualidades, as negativas".

A exploração temática das cartas (testemunhos da vida literária brasileira, aspectos da pedagogia epistolar machadiana, por exemplo) já deu bons resultados. Uma outra possível vereda analítica, a crítica genética, citada de passagem na introdução de Empréstimo de ouro, salvo engano, não foi ainda trilhada de modo sistemático. A crítica genética, como se sabe, deseja compreender a complexa engrenagem da criação artística em movimento, para captar, nos rastros materiais (manuscritos, marginália e depoimentos), os mecanismos mentais ligados à atividade estética. Nesse sentido, a carta, vista como reservatório de testemunhos da invenção literária, erige-se como "arquivo da criação", ou "diário da obra", como bem exemplificam as mensagens de Flaubert a Louise Colet, documentando as etapas escriturais de Madame Bovary. Muito embora Machado não tenha sido pródigo em explicitar o seu processo criativo nas cartas, uma leitura atenta desses documentos pode descortinar um valioso manancial da memória da criação (definição de projetos literários, a cronologia da criação e da publicação das obras, relatos das condições materiais da escritura, espelhamento do sistema literário brasileiro, apreensão de chaves de interpretação, a presença da colaboração de interlocutores, a recepção crítica na imprensa etc.). Mostra-se igualmente frutífero o levantamento exaustivo na correspondência machadiana de menções a obras lidas, tendo em vista uma aproximação com o acervo da biblioteca que pertenceu ao escritor, atualmente na ABL (cf. Jobim, 2001), em busca de notas de leitura, e a eventual repercussão desses textos no pensamento do autor, passível de ser apreendida em seus escritos literários e jornalísticos.

 

 

Antonio Candido, na "Nota inicial" do livro editado pela Ouro sobre Azul, encontra uma sugestiva definição para as cartas de Machado de Assis atualmente conhecidas: "epistolografia esquiva". Nessa direção, presume-se que o trabalho de construção biográfica do escritor, a partir de sua correspondência, seja uma árdua tarefa. Machado, programaticamente, susta ao meio a narração de minúcias do cotidiano, assim como o relato de estados de espírito, pois, como explica a Mário de Alencar, o "papel não comporta tédios" (23 fev. 1908). As fórmulas "esquivas", com efeito, pululam na correspondência do romancista que se esmerou nos profundos mergulhos na psique de seus personagens: "mas basta [...] de mim" (Assis, 1969, 14 jan. 1894); "mas basta de lamúrias" (ibidem, 2 jan. 1904); "não entro em pormenores que já enfadam" (Assis, 1938, a José Veríssimo, 14 jan. 1904); "as minhas [notícias] são as de costume" (ibidem, a José Veríssimo, 4 out. 1904), "isso [...] digo assim rapidamente para não aborrecê-lo" (Assis, 1969, 20 abr. 1905) etc. Mesmo em carta de amor, onde o sujeito sói ser caudaloso, Machado impõe à confidência a síntese e a elipse: "A minha história passada do coração, resume-se em dois capítulos: um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo" (Assis, 2008, 2 mar. 1869).

Empréstimo de ouro sinaliza a riqueza de perspectivas de exploração da correspondência de Machado de Assis, contribuindo para o debate sobre a peculiaridade discursiva, temática e cultural da epistolografia do escritor e, ao mesmo tempo, incidentalmente, levanta a discussão sobre a epistolografia como objeto de interesse em várias áreas do conhecimento.

 

Referências

Correspondência de Machado de Assis.

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Sobre a epistolografia de Machado de Assis

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Marcos Antonio de Moraes é professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP). @ - mamoraes@usp.br

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