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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.25 no.71 São Paulo Jan./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000100018 

LITERATURA

 

Os escritos autobiográficos de Josef Mengele1

 

 

Helmut Galle

 

 


RESUMO

O artigo analisa textos autobiográficos que Josef Mengele escreveu durante os anos em que passou escondido em vários lugares no Estado de São Paulo. O material de cerca de 500 páginas datilografadas é inédito e trata dos primeiros anos da infância, o estudo de medicina nos anos 1930, a fase em que trabalhou sob nome falso como camponês na Bavária durante os primeiros anos do pós-guerra, assim como o início da fuga da Alemanha, mas não há referências aos anos nos quais Mengele realizou seus experimentos brutais com seres humanos no campo de concentração Auschwitz. Contudo, os textos, ligeiramente ficcionalizados, transmitem uma impressão dessa pessoa vaidosa que manteve suas posições políticas sem remorsos e que, ao que parece, até quis convencer seu filho - para o qual provavelmente os textos foram escritos -, por meio de sua narrativa impregnada de ideologia. Em certos trechos, porém, surge, de forma velada e perversa, a consciência dos seus atos desumanos, apresentando o próprio perpetrador no papel da vítima.

Palavras-chave: Mengele, Autobiografia, Genocídio, Culpa.


ABSTRACT

This article analizes autobiographical texts written by Josef Mengele during the years which he spent hidden in different places in the state of São Paulo. The material of about 500 pages in typoscript remains unpublished and deals with the first childhood years, the study of medicine in the Thirties, the imediate post-war period, when he worked under false name as a peasant in Bavaria and the beginning of his escape from Germany, but there is no reference to his brutal experiments with human beings in Auschwitz. Nevertheless, the slightly fictionalized texts provide some insight to this self-opionated person who kept the political positions without any sense of guilt and apparently even tried to convince his son - for whom the texts probably were written - by his ideologically saturated narrative. In certain passages, however, appears a kind of conscience of his inhuman acts, in disguised and perverse form, representing the very perpetrator in the roll of the victim.

Keywords: Mengele, Autobiography, Genocide, Guilt.


 

 

Por que Mengele?

Josef Mengele é uma das figuras mais emblemáticas e, talvez, enigmáticas da violência do século XX, a qual praticou atuando como médico no campo de Auschwitz. Apesar de seu nome estar estreitamente ligado aos crimes mais

sádicos, era uma pessoa aparentemente cultivada, bem formada e sem visíveis anormalidades psíquicas ou sociais. O fato de ele ter deixado escritos autobiográficos proporciona uma ocasião para analisar a mentalidade de um perpetrador exemplar dos crimes realizados no abrigo de um Estado moderno e de uma sociedade que, até então, era considerada uma das mais civilizadas da Europa. Como uma pessoa inteligente e - nos conceitos da época - cultivada consegue reconciliar os atos mais cruéis e violentos com a imagem que tem de si mesmo? Partimos do fato de que Mengele escreveu seus textos em liberdade, sem necessidade de esquivar-se à Justiça e sem obrigação de considerar uma opinião pública que condenava seus atos. Diferentemente de outras justificativas posteriores de perpetradores nazistas, essa condição permite-lhe expressar com maior franqueza sua própria avaliação da sua vida e dos seus atos. E isso nos parece uma oportunidade para analisar mais facilmente os motivos que, de fato, dominam seu pensamento.

 

Resumo da vida

Nascido em 1911 e primeiro filho de uma família burguesa, católica, de fabricantes de máquinas agrárias2 no sul da Alemanha, Mengele iniciou os estudos de medicina e de antropologia em 1930, fez doutorado nas duas disciplinas. Tornou-se membro do partido nazista somente em 1937, e da SS, em 1938. Em 1941 foi para a frente russa como médico da SS e, de maio de 1943 até janeiro de 1945, atuou como um dos médicos do campo de Auschwitz, onde executou, segundo o testemunho de muitos sobreviventes, seleções para as câmaras de gás e para seus experimentos brutais, particularmente com gêmeos. Após a capitulação, Mengele conseguiu esconder-se, trabalhando num sítio na Bavária. Em 1949 fugiu na "Linha de ratos" (ratlines) para Buenos Aires, onde, em 1958, casou-se com a viúva do seu irmão usando o nome verdadeiro. Em 1959, foi informado de que a procuradoria da Alemanha estava preparando uma investigação contra ele e fugiu para o Paraguai; em 1960, dirigiu-se ao Brasil, onde viveu em vários lugares, perto de Araraquara, Serra Negra, Caieiras e, desde 1975, numa pequena casa em Diadema. Em 1979, morreu ao sofrer um derrame enquanto tomava banho em Bertioga e foi enterrado com identidade falsa no cemitério de Nossa Senhora do Rosário, em Embu (Völklein 1999, p.305 ss). Em 1985, foi exumado para verificar sua identidade que, em 1992, foi comprovada de forma definitiva mediante uma comparação do seu DNA com o do seu filho Rolf Mengele. Mengele viveu 68 anos; 32 anos de forma bastante normal, dois anos como perpetrador extremo e 34 anos fugindo da Justiça. Dessa segunda metade de sua vida, a década vivida na Argentina talvez represente a fase na qual alcançou certa "normalidade burguesa".

 

Os documentos

Entre os papéis deixados por Mengele, encontraram-se cadernos manuscritos com narrativa autobiográfica de maior extensão que, transcritos à máquina,3 preenchem cerca de 500 páginas. Esse volume pode ser organizado em quatro seções com os títulos "Autobiographisches" (De índole autobiográfica), "Studium" (Estudos), "Bauernzeit" (Época de lavrador) e "Fuga para Itália e Argentina"; só o último título parece não ser do autor desses textos que chegaram à minha mão na forma de cópia oferecida pelo jornalista e escritor Ulrich Völklein, autor de uma biografia sobre Mengele. Völklein teve a gentileza de fornecer-me a cópia desse material que foi colecionado pela Procuradoria de Wiesbaden ("Fahndungsakte Mengele") e fechado como processo após a identificação definitiva do procurado em 1992. Os textos na sua maioria são ficcionalizados, com narrador em terceira pessoa e nomes alterados, porém o conteúdo se identifica facilmente como autobiográfico. Escrito por completo no Brasil no início da década de 19604 e durante os anos 1970,5 o material cobre o nascimento e os primeiros anos de infância de Josef Mengele (1911-1914), o começo dos estudos (1930), um ano no esconderijo na Bavária (1945-1946) e a fuga para Gênova na primavera de 1949. Além dessas tentativas em narrativa autobiográfica, o processo da procuradoria contém diários, anotações e agendas que não estavam ao meu alcance, uma vez que meu objetivo foi a análise daqueles textos com "pretensões literárias".

O autor dirigiu essas tentativas de forma explícita ao seu filho Rolf, nascido em 1944, e talvez também ao sobrinho e filho adotivo Karl-Heinz. Os papéis sobre seus estudos nos anos 1930 se apresentam como "bons conselhos" para os jovens que nos anos 1960 teriam que terminar o colégio e optar por uma carreira. Mengele achava que poderia exercer alguma influência nesses jovens que estavam completamente fora do seu alcance. Rolf cresceu praticamente sem conhecer seu pai, e Karl-Heinz acompanhava a mãe durante sua estada na Argentina de 1956 até 1960, quando Mengele era padrasto do filho do seu irmão (falecido em 1949). Os textos escritos nos anos 1970 foram também, muito provavelmente, para influenciar seu filho. Durante a única visita de Rolf a São Paulo, em 1977, o pai leu a ele um pouco desses textos, porém sem obter o impacto desejado: após alguns dias, Rolf Mengele foi embora aborrecido com a atitude obstinada e incorrigível do velho.6 Essa atividade de Mengele pode ser entendida como uma tentativa de opor algo às histórias que circularam no mundo sobre "o médico de Auschwitz" e que, muitas vezes, pintaram a imagem de um demônio em figura humana. Uma vez que ele nunca ousou enfrentar um processo no qual poderia confrontrar os depoimentos de testemunhas com sua própria versão dos acontecimentos, sentiu-se privado de uma voz e temia, com razão, que até os membros da própria familia aceitassem essa imagem pública que ele achava mentirosa.7 Apesar de estar em liberdade física, não podia desfrutar dessa liberdade para expressar-se em favor da sua causa. A pessoa Mengele não podia existir para o mundo.

 

Os textos

De fato, a leitura desses textos é uma tarefa sofrida, se for lícito fazer essa observação. Por um lado, já incomoda bastante que o narrador exponha em cada página seu egoísmo impassível e sua arrogância irrefreável. Por outro, sobretudo, o leitor tem uma ideia, por meio de inúmeras fontes,8 da realidade do campo, dos experimentos desumanos e da mágoa das vítimas. Diante desse conhecimento, o silêncio absoluto do autor sobre sua atividade durante a guerra é insuportável e se agrava pela vaidade prazerosa com a qual essa pessoa se espreita sobre as contingências fúteis da sua infância e da vida posterior à guerra. Cada frase leva o leitor a questionar de onde esse homem tira a frivolidade de sentar-se numa mesa e produzir esse lixo e achar legítimo que alguém o considere digno de ser lido. Por sua vez, é essa vaidade que nos convence de que Mengele escreveu realmente à vontade e sem concessões a qualquer posição além de suas próprias.

Ao que tudo indica, é a mesma vaidade que motivou a forma dos textos, pois não se trata de um simples relato de vida - o autor comprou em uma narrativa que pretende a estrutura, o estilo, a atitude de um conto literário. Particularmente as três partes sobre nascimento e infância, a vida como lavrador e a fuga para a Itália mostram uma clara ambição de aplicar técnicas literárias: o narrador em terceira pessoa apresenta o protagonista e as outras personagens com nomes modificados (Andreas para Josef)9 e isso não é, em primeiro lugar, uma camuflagem, uma vez que todas as circunstâncias e os topônimos10 são tão transparentes que mesmo a leitura superficial revela o teor autobiográfico. A narração engloba descrições de paisagens, considerações gerais sobre o curso do mundo, sobre o tempo num certo dia, as caraterísticas das personagens e até sua fala dialetal. Dessa maneira, o dia do nascimento e o batismo do protagonista Andreas = Josef Mengele são encenados em não menos que 74 páginas.

Quando a crítica se enfrenta com textos ficcionais de teor autiobiográfico, surge, normalmente, a questão sobre em que medida o autobiográfico é relevante, porque o pacto do romance autobiográfico é um pacto ficcional (Lejeune) e não autobiográfico. No caso de Mengele, o verniz ficcional é tênue e o receptor principal - seu filho - evidentemente tinha um interesse no passado do pai, não em qualquer história inventada. No entanto, as anotações de Mengele sobre sua leitura durante a visita do filho insinuam uma discussão sobre as qualidades literárias, e não sobre o conteúdo autobiográfico. Segundo Völklein, ele anota no dia 17 de outubro de 1977:

Nublado, chuva, quente. Após o café da manhã conversas sobre minha tarefa escrevente [sic] e provas de leitura. O juízo me é muito interessante e típico para um [palavra ilegível] jovem, moderno. "Mais ação, mais acontecimentos que descrição e reflexão, mais tensão!"11

A reação do filho pode ser interpretada como um aborrecimento sobre as "elucubrações" infindáveis que interrompem a narrativa e como um desejo de escutar mais sobre o que o pai realmente fez. Mas, embora se admita que os textos não possam ser considerados autobiografia no sentido mais estrito da palavra, todos tratam de uma personagem cuja situação externa corresponde exatamente à situação de Mengele em dados momentos históricos, os sentimentos e pensamentos do protagonista são fornecidos por Mengele e as reflexões sobre essa situação foram produzidas por Mengele. A possibilidade de um narrador não confiável pode ser excluída; ao contrário, o narrador simpatiza tanto com seu protagonista que parece bastante artificial distinguir entre essas duas instâncias e o autor. Os textos trazem, portanto, um protagonista ficcional que apresenta todas as caraterísticas do autor e que pode ser entendido como paradigma de uma pessoa como o autor. Isso permite, em nossa opinião, a análise análoga à de uma verdadeira autobiografia.

A linguagem é pretensiosa, muitas vezes arcaizante, imitando o que o autor considera um estilo literário com empréstimos do romantismo e da literatura epigonal do século XIX ("'Naquela época eu também estava aflito até as profundezas do coração', pensou ele").12 Muitas vezes, a coesão da frase fica comprometida, pois o autor coloca adjetivos de "expressões feitas" que não se adaptam ao contexto atual. Assim, surge uma impressão de ambição, vaidade e artifício malsucedido. Em outros momentos, o texto assume um tom coloquial, "gemütlich", como se fosse uma narração familiar prazerosa, invocação de um ambiente pequeno-burguês provinciano que há muito tempo desvaneceu-se e cuja citação já não provoca as mesmas associações positivas no leitor atual. Os excursos que devem comprovar suas atitudes políticas estão cheios de elementos retóricos conhecidos da linguagem nazista, com seus superlativos (inegável, fatos irrefutáveis, primordial, a realidade com toda sua brutalidade), ironia ("senhores" ao referir-se a Eisenhower e Stalin), metonímias denunciadoras ("pensamento odiento do antigo testamento"), acusações grosseiras ("besteira política") e termos técnicos da linguagem nazista ("Reichsnährstand" para designar os camponeses).13

 

Redes discursivas

As partes narrativas são acompanhadas por excursos mais ou menos extensos sobre história, política, pedagogia, medicina etc. Sem aprofundar-se realmente nos assuntos, o narrador mostra seus conhecimentos da literatura (Chr. Fr. D. Schubart, J. W. Goethe, C. F. Meyer, L. Uhland, H. Thoma) e da filosofia (I. Kant, Fr. Nietzsche, O. Spengler, A. Einstein), bem como de outras áreas da cultura geral, incluindo menções a Hans Staden e Ulrich Schmidl como participantes alemães da conquista da América. Uma grande parte dessa intertextualidade refere-se a autores conservadores (O. v. Bismarck, O. Spengler, C. G. Jung, H. Sedlmayr) do cânone antissemita (Paul de Lagarde), do racismo biológico, do nacionalismo alemão e do próprio nazismo (G. Kolbenheyer). Nota-se que essas citações ou menções devem funcionar tanto como provas da erudição do autor quanto como testemunhas para a veracidade do seu texto.

Os textos apresentam muitos traços discursivos que são caraterísticos de uma atitude conservadora e antimoderna típica para o início do século XX que, após a Primeira Guerra Mundial, radicalizou-se rapidamente e alimentou a ideologia nazista. Elementos desse discurso são os estereótipos contra os franceses e italianos, o repúdio da arte e da música moderna, o desprezo da psicanálise e da sociedade industrializada. As metáforas e comparações usadas para conotar a esfera humana apontam muitas vezes para a natureza e processos biológicos, por exemplo quando o narrador compara o recém-nascido com "uma folhinha de uma árvore primordial cujas raízes chegam às profundezas do sol da terra maternal",14 ou quando fala sobre os dois irmãos que "podem crescer como árvores que sejam podadas no tempo certo quando eles se envolverem em algazarras".15 À parte o efeito desajeitado dessas comparações, nota-se que se trata de imagens tão convencionais que Elias Canetti (1983, p.190) as elegeu para os símbolos de massa das nações: "o alemão gostava de se ver dentro da floresta. É impossível expressar com menos palavras o que os separa [dos ingleses] no sentimento nacional".

O rapaz, atraído pela floresta para fora da estreiteza de sua casa, para, como acreditava, poder sonhar e ficar só, vivia lá de forma antecipada sua incorporação no exército. Na floresta já estavam dispostos os demais, que eram fiéis, verdadeiros e retos como ele mesmo queria ser em relação aos outros, porque, embora todos cresçam direito, cada um é muito diferente dos outros quanto à altura e à força. Não se deve subestimar o efeito deste romantismo precoce da floresta sobre o alemão. Em centenas de canções e de poemas ele cristalizou este romantismo e a floresta nestes textos frequentemente chama-se "floresta alemã".

Na imaginação masoquista de Mengele, na qual tanto os irmãos quanto as árvores seriam podados, pode-se ver um paralelo para a disciplina rígida à qual se submetem os soldados para que o exército seja, de fato, uma "floresta em marcha", nas palavras de Canetti (1983, p.189). Por sua vez, seu diagnóstico se refere à época antes da catástrofe (no sentido original de "virada") de 1945. Nos anos 1970, enquanto se forma o movimento ecológico na República federal, existem ainda reflexos de uma idealização romântica da natureza. Mas o vínculo orgânico que une os filhos com seus antepassados, insinuado por Mengele, tornou-se obsoleto porque é exatamente a geração do seu filho que constrói uma ruptura insuperável entre si mesmo e a geração da guerra.

Obsoleto é também o uso que o autor faz dos conceitos polares de "civilização" e "cultura" quando fecha a autobiografia da infância:

Concluindo esse excurso, poder-se-ia ainda colocar as palavras principais, capazes de dar orientação nas dimensões maiores: desenvolvimento cultural é evolução; desdobramento civilizador é expressão da autodomesticação do homem.16

Um leitor contemporâneo provavelmente nem sequer percebe o sentido dessa invectiva pomposa que desejaria afirmar o valor da cultura com o conceito biológico da evolução e, ao mesmo tempo, denunciar a civilização como uma medida normalmente aplicada a animais. Mas o par antitético "civilização" e "cultura" dominou o debate alemão durante séculos, atribuindo à própria nação uma cultura profunda, ética e criadora, enquanto os franceses e ingleses se limitaram a uma civilização superficial de cortesia e técnica. Norbert Elias (1994, p.27), que analisa a gênese dos conceitos a partir de Kant, enfatiza:

É claro que a função do conceito germânico de Kultur ganhou vida nova em 1919, e nos anos precedentes, em parte porque uma guerra foi travada contra a Alemanha em nome da civilização, e por causa da autoimagem que os alemães tiveram que redefinir na situação criada pelo tratado de paz.

Até Thomas Mann utilizou-se exaustivamente da antítese no seu ensaio conservador Betrachtungen eines Unpolitischen de 1918. Nos anos 1970, quando Mengele escreve seus textos autoapologéticos, os conceitos haviam perdido não somente sua força convincente, mas também seu valor semântico no contexto alemão do qual ele estava alienado havia trinta anos.

 

Geração incondicional e persona fria

Em seu estudo, o historiador Michael Wildt (2002) analisou a instituição do RSHA, a central do terror da SS, e as biografias das 221 figuras dominantes dessa instituição. Segundo Wildt, essa administração do genocídio foi liderada por uma geração de jovens acadêmicos da classe média, que, na sua maioria, nasceram na década de 1900 a 1910, não participaram da Primeira Guerra como soldados e se colocaram incondicionalmente a serviço do regime nazista cuja ideologia representavam fanaticamente. Considerando a derrota militar e política uma vergonha insuportável e a guerra um jogo, esses jovens se radicalizaram no ambiente das universidades e das associações antirrepublicanas onde podiam desenvolver suas ideias revanchistas e antissemitas sem nenhum limite estabelecido pela tradição humanista e burguesa. Quando o regime nazista chega ao poder, esse jovens iniciarão carreiras nas novas instituições de opressão e perseguição nas quais sua atuação, novamente, não encontrará limites, mas sim apoio total por parte dos líderes Hitler e Himmler. Muitos deles não hesitarão em trocar o escritório pelos comandos que aniquilarão ativamente a população judia na Polônia e na União Soviética. No pós-guerra, muitos deles conseguem seguir suas vidas em carreiras burguesas, adaptando-se facilmente às novas condições políticas e ao novo discurso.

A "carreira" de Josef Mengele se assemelha a esse quadro em muitos sentidos, ainda que ele não tenha escolhido intencionalmente um cargo no sistema do genocídio. Como os homens analisados por Wildt, ele provém da classe média, conduz uma carreira acadêmica (dois doutorados) e, no final dos anos 1930, registra-se voluntariamente no partido nazista (1937) e na SS (1938). Não cabe dúvida de que era um adepto fiel do nazismo e que acreditava tanto na ideologia de uma humilhada grandeza alemã como na necessidade de exterminar os judeus para erigir a hegemonia germânica na Europa. Isso é evidente tanto nos textos autobiográficos analisados como nos depoimentos das testemunhas.17 Uma das poucas vezes que os textos tematizam explicitamente os judeus é uma conversa entre "Hans/Andreas" e o camponês que o abriga nos anos do pós-guerra. As conversas desse texto são visivelmente encenadas para debruçar-se sobre as questões que exigem - no juízo de Mengele - uma "explicação": o tribunal de Nuremberg, a Segunda Guerra, os campos de concentração. Quando o camponês está insultando o capital judeu por ter causado a guerra, Hans (o protagonista sob pseudônimo ficcional) responde que

aí muito se exagera, mas algo deve ser verdade. Seria, porém, justamente essa guerra que o judaísmo internacional impôs à Alemanha que impossibilitou uma solução pacífica da questão judaica. E se esses eventos acontecessem em época de guerra, assumiriam formas bélicas, condicionados pelas situações gerais alteradas e, não finalmente, pelas reações psicológicas.18

Escritas no Brasil nos anos 1970 por um alemão expresso por seu alter ego do ano 1946, essas afirmações deixam bem claro que o autor não tem e nunca teve nenhuma dúvida ética com respeito à legitimidade do genocídio. Ainda que ele tenha entrado no partido nazista relativamente tarde, seus estudos da medicina genética e da antropologia nos anos 1930 o prepararam ideologicamente para a "tarefa" que ele cumpriu com assiduidade em Auschwitz, promovendo ao mesmo tempo o grande projeto nacional e sua carreira no Kaiser-Wilhelm-Institut, cujo chefe Otmar von Verschuer recebeu a partir de 1943 do seu ex-orientando e assistente Mengele provas e relatórios resultantes dos experimentos com seres humanos vivos.19 Como os integrantes do RSHA, Mengele pertence a uma geração que, no ambiente particular após a Primeira Guerra e durante a época nazista, libera-se de todos os escrúpulos e freios morais na aplicação de violência contra os homens classificados por eles como "nocivos". Assim como esses organizadores e executores do holocausto, Mengele, ao que tudo indica, não teve problemas de integrar essa atividade violenta numa atuação de esposo, pai e burguês "civilizado".

Outro estudo interessante para nosso contexto é o livro de Helmut Lethen (1994) sobre a mentalidade da Nova Objetividade dos anos 1920. Nessa fase, Lethen observa uma tendência geral na filosofia, literatura e teoria cultural que ele chama de "doutrinas de conduta do frio" ("Verhaltenslehren der Kälte"). Essa tendência responde à crise de 1918, causada pela implosão dos impérios com sua estrutura social ordenada, hierárquica e perceptível. Em contraste com a geração da vanguarda expressionista, os protagonistas da Nova Objetividade (entre eles B. Brecht e E. Jünger, H. Plessner e C. Schmitt)20 experimentam um novo tipo de comportamento que não se opõe aos processos da modernização. Esse caráter afirma sua alienação nos papéis sociais e sua objetivação nos mecanismos da máquina urbana e industrial.21 Agora, o sujeito burguês submete-se voluntariamente aos poderes anônimos que já não podem ser compreendidos e dominados, e aceita que seu comportamento seja regido por impulsos externos. A persona que se colocou no lugar do sujeito já abandonou a concepção do indivíduo autônomo e se sente aliviada tanto da consciência como da bagagem ética do cristianismo, do humanismo e de qualquer outra tradição moral. Isso abre espaço tanto para uma atividade econômica desenfreada quanto para as ideologias que estabelecem seus novos códigos de conduta, formulados radicalmente em razão dos objetivos, sejam eles a hegemonia mundial da nação ou o alçamento de uma sociedade igualitária. Essas ideologias e a antropologia da Nova Objetividade, segundo Lethen, respondem à dissolução da ordem hierárquica com polaridades extremas que esquematizam o mundo em amigos e inimigos como também oscilam da fantasia incontrolável do perpetrador para a criatura nua.22

O tipo social que se orienta nessas doutrinas da Nova Objetividade desenvolve uma "armadura" que o protege contra sentimentos (seus e dos outros) e age numa máscara que esconde seja a sua subjetividade, seja o nada que seria o resultado desses processos de adaptação a estruturas sistêmicas. Sua atuação não é regulada internamente pela consciência e pela culpa, mas externamente pelo castigo e pelo pudor.

É surpreendente observar como o perfil de Mengele se ajusta quase por completo à "persona fria" esboçada por Lethen. A imagem que ele quer pintar de si mesmo é outra: arraigado organicamente na sua terra e nas suas tradições, condicionado pelos genes de uma raça saudável, um indivíduo único com grande força de vontade, sempre agindo com responsabilidade, o protagonista dos textos quer ser visto como o oposto daquele homem moderno e flexível, adaptável a qualquer sistema. Essa imagem, na realidade, é um produto da ideologia arcaizante que pretende ser o remédio contra os desastres da modernidade. A realidade, porém, é que o fenótipo do protagonista não corresponde ao genótipo que ele quer representar. Os textos sobre seu tempo estudantil evidenciam que ele, bem longe de comportar-se como um filho fiel e virtuoso da sua terra, participa da vida metropolitana como todos os outros desarraigados: diverte-se nos bailes, sai em busca de mulheres e deseja que o pai lhe dê um carro de presente. Somente quando termina os estudos - isso já não sabemos dos seus textos autobiográficos, mas dos dados historiográficos - é que ele percebe as chances que o partido oferece para um médico e se converte em membro da SS, funcionando a partir desse momento sem nenhum atrito na engrenagem da máquina da morte.

Nos textos de Bauernzeit, a pessoa encontra-se em situações completamente diferentes e, de novo, coloca toda sua ambição na tentativa de funcionar perfeitamente como lavrador. Outra vez o narrador justifica esse mimetismo com a ideologia do "Blut und Boden" (Terra e sangue), na qual o camponês é a origem do povo e a base da sua força e, por isso, seria completamente adequado para o protagonista de boa raça - mesmo que seja acadêmico e burguês - provar-se nesse trabalho dos seus ancestrais. Evidentemente, ele se submete a esse trabalho físico por outras razões: as fazendas afastadas na Bavária são lugares onde as forças aliadas pouco buscaram por criminosos nazistas e, ao mesmo tempo, a agricultura alimentava as pessoas mais facilmente nesses primeiros anos do pós-guerra. O processo de Nuremberg contra médicos nazistas começou já em dezembro 1946, e sete dos 23 acusados foram condenados à pena de morte. Mengele tinha bons motivos para esconder-se.

Como sua atuação em Auschwitz estava de acordo com a conduta esperada de um médico da SS, Mengele descreve o fugitivo na fazenda bávara em constante adaptação às regras estabelecidas pelo camponês e às necessidades do trabalho. São os olhares dos outros, que estão acostumados a cortar pasto, que o forçam a cumprir da melhor maneira suas tarefas (H.1:60). Para ele, a vergonha de falhar seria pior do que as dores causadas pelo esforço inusitado. As dores que invadem o texto, por sua vez, parecem extremas, tão extremas que a falta de adequação chama a atenção do leitor. Os problemas físicos do protagonista se limitam a uma lombalgia e, no outro caso, a uma tendinite, mas a retórica aplicada para expressar o tamanho do sofrimento seria apropriada para um perigo mortal.

Mas não existe o esquivar, a fuga e nenhuma recusa porque de novo a existência crua está no jogo. Intransigentemente os sulcos se aproximam e indulgentemente Hans distribui o esterco com a forca e suprime a dor infernal na articulação da mão. [...] Hans, porém, diz a si mesmo mais uma vez: somente se pode sobreviver sendo mais duro que aquilo que a existência intransigente traz.23

Ainda que para Mengele isso passe de forma inconsciente, é inevitável pensar nas vítimas da SS que, nos campos, realmente exerceram um trabalho forçado que em cada momento era a luta pela sobrevivência. No caso de Mengele, trata-se de um trabalho que os camponeses fazem o ano todo, e a ameaça da morte é bem indireta. Não é o próprio trabalho que mata, mas, possivelmente, a alternativa: assumir a verdadeira identidade e enfrentar a Justiça. Temos aqui duas estruturas invertidas: por um lado, Mengele se vê na posição das suas vítimas e deve provar a si mesmo que ele é mais forte que elas, não sucumbindo na luta pela sobrevivência; por outro, temos a tensão entre o interno e o externo, o corpo e a aparência. Não obstante o corpo que quer desistir e quase "grita" por dores, o sujeito suprime esses impulsos e finge indiferença para os demais. Deve-se lembrar de que na situação do campo de concentração houve uma relação na qual esse sujeito devia ter - internamente - algum sentimento, uma vez que se revoltou com o seu "trabalho" cruel; no entanto, essa voz foi extinta por completo pela aparência indiferente da persona fria. O princípio seria o mesmo. A intensidade exagerada e, por isso, reveladora da retórica do sofrimento do lavrador Hans parece inversamente relacionada à empatia imperceptível do médico de Auschwitz. Como as 500 páginas do manuscrito não registram nenhum sinal de empatia, somente um imenso sofrimento do protagonista e as acusações de pessoas que causaram esse sofrimento,24 pode-se supor também que o autor não dispõe dessa função psíquica.

 

Vítima

Esse diagnóstico é oferecido quando se lê como o narrador comenta algumas vezes os sentimentos do protagonista que corta, com o pasto, também as flores:

Agora você percebe também o efeito da sua foice apontada, como elas devem morrer entre o pasto, as campânulas e margaridas, os dentes-de-leão e ranúnculos que você outrora cortou e reuniu para buquês de flores do campo. Sua respiração anda pesada e sua camisa está molhada como o pasto do "orvalho" do trabalho honesto. [...] Parece-lhe, em todas as horas pacíficas do trabalho, como se tudo fosse um teatro no qual você também tem seu papel e pode ou deve desempenhá-lo.25

Nesse trecho e em um poema26 sobre o mesmo tema, comenta-se que as flores "devem morrer" sob a sua foice; parece que, por um lado, há a intenção de enfatizar que se está destruindo vida orgânica, mas, por outro, ele se contenta de forma bastante cômoda porque, ainda que as flores morram, "suas raízes fortes" continuam vivas. Nota-se que certos temas reveladores como esse retornam obsessivamente na sua escrita e que o sujeito, ao que parece, consegue tratá-los dessa maneira: esquivando-se para não entrar seriamente na questão.27

Se ele não pode matar nem as flores, porquanto elas vivem eternamente, o próprio protagonista "morre" literalmente no seu relato. Depois de uma viagem arriscada que o foragido faz para encontrar sua esposa usando um documento falsificado, ele é censurado pelos camaradas que lhe forneceram esse papel com o nome "Hans Hohneder".28 Nessa disputa os amigos se apoderam do papel e o lançam no fogo. O protagonista fica furioso e ofende os amigos em pensamento ("esse caralho"),29 mas, externamente, mantém sua tranquilidade dizendo: "Após o Hans Hohneder desaparecer no fogão, permaneço aqui por enquanto como seu colega Andreas, se vocês concordarem".30 Depois, o narrador retoma duas vezes o assunto, referindo-se à destruição do documento metaforicamente como a destruição da pessoa: "As damas entram no quarto, não sabendo da incineração do Hans Hohneder";31 "Os três ex-estudantes de medicina de Munique teriam falado sobre seus professores ainda durante horas, se Andreas não tivesse tido de voltar na pele do queimado Hans Hohneder".32 No final, o protagonista faz uma pergunta retórica, indagando se o seu amigo agora não deveria sentir remorsos extraordinários: "Pode ele jamais alegrar-se da sua vida com tamanho crime vergonhoso na sua consciência?".33

Essa ênfase que o autor coloca numa "injustiça" que foi feita e que, para ele, se compara a uma incineração da própria pessoa, evoca quase inevitavelmente - além dos crematórios de Auschwitz - o testemunho de Margarethe Sussmann (cf. Langbein 1999, p.497). Ela estava no "Krankenblock" (a barraca das enfermas) tentando esconder seu estado de grávida, para, finalmente, ter um parto clandestino. Quando ela involuntariamente soltou um grito que chamou a atenção de Mengele, conta que ele descobriu o recém-nascido e o lançou no fogo aberto. Sendo isso um dos atos mais revoltantes que circularam a seu respeito, é mais que provável que Mengele (ainda que, talvez, não tivesse cometido esse crime)34 chegou a ter conhecimento da acusação. Consciente ou inconscientemente, ele tentou subtrair-se dessa culpa, apresentando um destino no qual ele mesmo é vítima de uma incineração do corpo vivo.

 

Culpa

Parece que Mengele, nas 500 páginas dos seus textos autobiográficos, não aborda em nenhum momento a questão da sua própria culpa. Na conversa com o filho Rolf, que aconteceu em 1977, quando esse perguntou se o pai não queria finalmente entregar-se aos seus juízes, o perpetrador deve ter respondido que para ele não existiam juízes, apenas vingadores. Na mesma conversa, Mengele jurou "pelos olhos da [sua] mãe que nenhuma pessoa havia sido morta ou magoada pessoalmente por ele".35 Nesse momento a mãe já estava morta, mas os textos revelam que ela teve uma grande importância para ele. Quando ele recebe a notícia da sua morte, em 1945, o protagonista "Hans" é mais afetado do que em qualquer outro assunto que envolve qualquer outra pessoa. Além de atribuir a responsabilidade da morte da mãe aos médicos incapazes que foram "instalados" no lugar dos nazistas pelo regime dos aliados, "Hans" comenta que possivelmente ela teria sofrido pelas acusações contra o filho.

"Então a mãe está morta", ele disse à meia voz, "ela, provavelmente, esteve muito preocupada comigo, com o Albert [o irmão] e o pai. Que eu estou vivo, ela sabia através da esposa de Alfons. Mas as pichações da propaganda odienta e as difamações no rádio talvez chegaram até ela? Naturalmente você não acreditava em tudo isso, você me conhece. Mas as pessoas olharam você mal, aqueles que não me conhecem tão bem. Mas você nunca teria prestado atenção às pessoas e a seu falatório. Esse distanciamento seu já foi interpretado como 'orgulho'".36

Novamente, a questão da culpa não é considerada na sua essência como responsabilidade de um sujeito para com os seus atos, mas como algo exterior que afeta a honra da pessoa em público. Mas, de forma muito estranha, ele continua com uma reflexão de que a mãe teria agora que responsabilizar-se pelos atos do filho:

Pois é, e você sempre ficava muito preocupada como fiel cristã católica em não negligenciar seus deveres pedagógicos segundo essa religião. Quando nós mostrávamos nossas ideias próprias, que não coincidiam com as suas, vinculadas ao dogma, você costumava dizer: "Eu vou ter que me responsabilizar de tudo isso diante do meu Senhor algum dia". E nós sossegamos você e dissemos: diante do Deus realmente grande, no qual também cremos, isso não seria nenhuma dificuldade. Agora que você está perante o seu Senhor e deve responsabilizar-se, como você sempre disse, talvez as dúvidas pudessem colocá-la em graves conflitos de consciência. Mas, justamente porque seus filhos são como você os educou, não existe nada de que você não pudesse se responsabilizar.37

Tentando entender esse raciocínio: a questão da culpa é, então, uma das que entram em jogo para a mãe por ser católica e por tê-lo educado. Isso, porém, não resulta em nenhuma culpa por parte dela, seja porque os filhos nunca se desviaram dos preceitos da educação (católica), seja porque ela os educou segundo uma moralidade nova - nazista - sem sabê-lo e sem necessitar responsabilizar-se porque esse deus católico - na opinião do filho - não existe. De todo modo, não se considera conscientemente uma culpa.

 

O autor e seu protagonista imaginário

Aparentemente, após a visita do filho e a fracassada tentativa de um entendimento, Mengele não continuou esse projeto. Entre os últimos textos que escreveu, está aquele sobre o dia do nascimento de "Andreas" (H.23). Trata-se, provavelmente, do texto mais ficcionalizado, uma vez que o autor não discorre sobre lembranças próprias e desenvolve, com carinho, um quadro amplo da sua família. O protagonista que logo depois será batizado de "Andreas", apesar de não agir como pessoa, está presente repetidamente como um bebê que dorme o "sono dos justos"38 e que grita o tempo todo. Podemos tomar essa figura como emblema dos anseios velados desse homem que, aos 65 anos, se aproxima da morte e sabe que nunca mais sairá do isolamento do seu esconderijo em Diadema.

Primeiro, ele se imagina a si mesmo como um ser recém-nascido, inconsciente, saudável e aberto para qualquer tipo de destino. Muitas memórias da velhice se aprazem nessa fantasia idealizada da sua primeira infância. Segundo, esse bebê representa o que ele nunca mais pôde ser desde que, aos 32 anos de idade, passou a atuar como médico da SS em Auschwitz: inocente e justo. Mesmo que a pessoa nunca assuma algum tipo de responsabilidade, ele sabe também que, para o público, será sempre um dos maiores delinquentes da história. Voltando à análise de Lethen, lembremo-nos de que a persona fria funciona quase exclusivamente em reação ao exterior. Se esse exterior, entre 1933 e 1945, foi uma sociedade que, antes de tudo, aclamava seus crimes, essa mesma realidade começou a desvanecer-se paulatinamente a partir do fim da guerra, tanto na dimensão objetiva como para o sujeito Mengele: nos anos 1970 ele praticamente já não tinha um grupo de pessoas que compartilhavam de suas convicções.

O terceiro elemento interessante é a gritaria do bebê. Gritar é, evidentemente, a única forma de expressão do recém-nascido. O narrador volta muitas vezes a essa característica tanto genérica (crianças que gritam, crescem bem39) quanto individual, identificando uma alimentação errada como fonte do mal-estar de "Andreas" e expondo assim novamente seu conhecimento médico e sua soberania realmente "onisciente". Ao mesmo tempo, a criança nua que grita é a representação mais perfeita da "criatura", isto é, do outro lado da medalha da persona fria: um corpo que sofre e que exprime seu sofrimento descontroladamente (Lethen, 1994, p.41). O autor assassino, que sempre aplicou todo seu esforço para controlar sua imagem externa e que produz essa escrita para adquirir controle sobre a memória que os outros tinham da vida dele, imagina-se aqui, finalmente, como aquilo que ele nunca admitiu em si mesmo e que ele quis destruir nas suas vítimas: a criatura física, nua e indefesa.

 

Notas

1 O artigo resulta de uma pesquisa realizada no Projeto Temático "Escritas da violência", apoiado pela Fapesp. Uma versão abreviada foi apresentada no último encontro desse projeto, na Unicamp, em setembro 2010.

2 A empresa Mengele Agrartechnik, fundada em 1871, propriedade da família desde 1907, teve uma receita de um milhão de marcos, continuou no pós-guerra com muito sucesso e começou a estagnar somente nos anos 1980. No Fanshop do site da empresa, é possível comprar vários produtos que levam a logomarca Mengele, desde um guarda-chuva até um canivete.

3 Lamentavelmente, as transcrições não foram realizadas com muito cuidado e apresentam muitas palavras distorcidas (kanossisches Recht: kanonisches Recht; Dodationen: Donationen; Konossaden: Kanonaden; Repartirus-: Reparations- etc.). Isso impossibilita uma análise mais detalhada do léxico, da pontuação e da ortografia, o que seria interessante até mesmo para verificar certas interferências do português (Demostration: Demonstration).

4 Essa data se deduz pela idade do seu filho e por referências no texto; por exemplo, a morte da rainha Maria de Iugoslávia em 1961.

5 No primeiro caderno do conjunto "Bauernzeit", há uma alusão sobre os convênios internacionais do governo alemão na época do chanceler Willy Brandt do início dos anos 1970 (H. 1: 11). Inserida no caderno 23, observa-se uma anotação de "Geza" (Stammer) datada no dia "17 - 06 - 76" (H.23:41).

6 Essa visita foi tema de uma entrevista que Rolf Mengele cedeu a uma revista sensacionalista alemã (Bunte) em 1985 e foi ficcionalizada num conto por Peter Schneider (Vati) em 1987.

7 Hermann Langbein (1999, p.436 ss), autor de testemunhos, antologias e de um livro importante sobre "Homens em Auschwitz", afirma que Mengele se prestou bem para projeções e falsas memórias de testemunhas, uma vez que se converteu em médico nazista modelar sobre "o qual se podia ler tantas histórias más".

8 O livro de Miklós Nyisyli (2005), escrito nos primeiros anos do pós-guerra, apresenta as atividades de Mengele como membro da SS, médico e cientista. O patólogo judeu-húngaro teve que realizar as autópsias dos gêmeos e das outras vítimas que morreram para as "pesquisas" de Mengele.

9 Ulrich Völklein considera que Mengele usou esses nomes de disfarce (zur Tarnung). Mas esse disfarce teria valor somente para o caso de alguma pessoa ingênua ter visto o nome de Josef Mengele nesses cadernos. Qualquer um que, buscando por Mengele, tivesse investigado o estrangeiro de Diadema, teria se convencido logo de que o autor dos textos devia ser o procurado. O próprio narrador se revela quando escreve que o recém-nascido deve ser batizado "Andreas" e no mesmo parágrafo fala que esse era o "nome do padrasto de Cristo" ("Namen des Nährvaters Christi"), quer dizer: Josef era tradicional na família do pai. Cf. Mengele, H.23:17.

10 O início da narrativa sobre os anos do pós-guerra menciona muitas cidades e aldeias com nomes facilmente decifráveis (Retenstein = Rosenheim, Mengharding = Mangolding, Sielhofen = Söllhuben, Lehnerhof = Lechnerhof), e sua falsa identidade daquela época aparece quase na versão original: Hans Hohneder em vez de Hans Holmeder. Cf. H.1:1s. e H.4:48.

11 17.10.1977, "während des Besuchs von Rolf Mengele notiert Mengele im Tagebuch: "Bewölkt, Regen, warm. Nach dem Frühstück Gespräche über meine schreibende Aufgabe und Leseproben. Das Urteil ist mir sehr interessant und typisch für einen jungen, modernen [Wort unleserlich]. 'Mehr Handlung', mehr Geschehen als Beschreibung und Betrachtung, mehr Spannung!" (apud Völklein, 1999, p.297).

12 "Damals war ich auch betrübt bis ins tiefste Herz hinein", denkt er. H.4:14. O exemplo não só apresenta uma conexão pouco organizada de um adjetivo menos intenso ("betrübt"), mas também um exagero metafórico que se convertera em fórmula havia mais de um século.

13 Sobre a linguagem nazista, as anotações de Victor Klemperer (1987) ainda são muito instrutivas.

14 "Auch er [Andreas] war dem Heimatboden entwachsen, der Eltern, Vorfahren und die Geschlechter und Sippen dieser Landschaft in langen Folgen geformt, ausgelesen und erzogen hatte. Auch er war schließlich ein Blättchen an dem großen uralten Baum, dessen Wurzeln tief in das Erdreich des Mutterbodens hinabreichen, ein Blättchen, das eben nur grünen konnte, weil jener Baum alle die Kräfte entwickelt hatte, die ihn die Stürme, Gefahren und Notzeiten übersehen ließen. Nur allzuoft wurden die Kräfte in jahrhundertelange Stille und Unauffälligkeit in den Wurzeln angereichert, um dann den Baum zu schönster Blüte zu entfalten, wenn seine Zeit gekommen schien. Immer wieder werden, wie schon seit undenklichen Zeiten, aus dem fast unerschöpflich scheinenden Urgrund des Bauerntums Familien aufsteigen und zu überdurchschnittlichen Leistungen heranreifen" (H.23:45).

15 "In ihr [der Welt des neuen Hauses mit Garten] konnten die Buben wachsen, wie die Bäume, die man, wenn sie (es) zu toll treiben, zur rechten Zeit stutzt" (H.24:27).

16 "Diesen Exkurs abschließend könnte man dann noch die im Großen orientierenden Hauptworte hinstellen: Kulturentwicklung ist Evolution; zivilisatorische Entfaltung ist Ausdruck der Selbstdomestizierung des Menschen" (H.24:36).

17 Hermann Langbein (1999, p.530 ss.) registra o caso de um jovem médico da SS, Hans Delamotte, que se recusou a participar das seleções e pediu para ser enviado à frente ou para o gás. "A consequência era: Delamotte devia acompanhar Dr. Mengele durante um certo período; e este devia convencê-lo da necessidade da aniquilação dos judeus. Münch se lembra dos argumentos com os quais Mengele finalmente conseguiu isso. Ele explicou que um médico em situação de emergência deve assumir a responsabilidade das seleções; também qualquer médico da tropa deve selecionar na frente porque é impossível tratar todos os casos imediatamente após uma batalha. [...] Que, por fim, todos os judeus sejam eliminados, seria um assunto decretado ("beschlossene Sache") e, portanto, a decisão sobre quem devia entrar provisoriamente no campo não seria um assunto tão grave".

18 "Hans antwortet, da würde "wohl vieles übertrieben, aber es wird auch schon einiges wahr sein. Aber gerade dieser Krieg, den das internationale Judentum Deutschland aufzwang, hat eine friedliche Lösung der Judenfrage vereitelt. Geschehen solche Auseinandersetzungen aber in Kriegszeiten, so pflegen sie auch kriegerische Formen anzunehmen, bedingt durch die veränderten allgmeinen Verhältnisse und nicht zuletzt durch die psychologischen Reaktionen" (H.2:25).

19 Parece uma ironia da história que, em 1935, o Instituto de Biologia Genética de Verschuer em Frankfurt tenha sido estabelecido no edifício do Institut für Sozialforschung, fechado pela Gestapo em 1933.

20 Entre os livros "sismográficos" analisados por Lethen, encontram-se o Handbuch für Städtebewohner, de Brecht, Der Arbeiter, de Jünger, Grenzen der Gemeinschaft, de Plessner, bem como textos de Walter Benjamin e Siegfried Kracauer.

21 "Die Künste der Neuen Sachlichkeit antworten mit einem paradoxen Zug. Sie beantworten den Schematismus einerseits durch die Praxis der Affirmation der transitorischen Wirklichkeit der industriellen Lebenswelt, die noch zu keiner angemessenen symbolischen Repräsentation gefunden hat. Sie formulieren ihre Opposition gegen die Starrheit der alten symbolischen Ordnung, indem sie sich den Kräften der sozialen Desorganisation mimetisch angleichen, vor allem wenn diese die Form des kapitalistischen Marktes annehmen" (Lethen, 1994, p.41).

22 "Die Literatur dieses Jahrzehnts läßt die Bilder des 'nackten Zeitgenossen' zwischen extremen Polen schwingen: zwischen Panzerung und Entblößung, zwischen ungehemmten Täterphantasien und Kreatürlichkeit zum Erbarmen" (ibidem).

23 "Aber es gibt kein Ausweichen und keine Flucht und keine Weigerung, denn es geht wieder um die bloße Existenz. Unerbittlich rücken die Furchen näher und schonungslos zerschüttelt Hans mit der Gabel den Mist und verbeißt den höllischen Schmerz im Handgelenk. [...] Hans aber sagt wieder einmal zu sich: man kann nur überleben, wenn man mal härter ist, als das, das dieses unerbittliche Dasein bringt " (H.1:48 ss.).

24 A reação do camponês diante da recomendação do médico de que "Hans" deve poupar-se no trabalho é "Ah é?" ("Soso"). O narrador comenta: "Agora um certo despeito surgiu em Hans contra tanta frialdade de sentimentos misantrópicos ("In Hans stieg nun doch ein gewisser Trotz auf gegen so viel menschenfeindliche Gefühlskälte") (H.1:32).

25 "Nun siehst du auch, was deine scharfe Sense anrichtet, wie sie sterben müssen, zwischen dem Gras die 'Hahnenfüße' und die 'Schafgarben', die ,'Löwenzähne' und die 'Margaritten', die 'Glockenblumen' und die 'Hirtentäschel' und was du sonst alles an Feldblumenstrauß zusammen geschnitten hast. Dein Atem geht schwer und dein Hemd ist naß wie das Gras vom 'Tau' der ehrlichen Arbeit. [...] Es kommt dir in den vielen stillen Stunden der Arbeit alles ein Theater vor, in dem du auch eine Rolle hast und mitspielen darfst oder mußt" (H.1:62).

26 "Blumen meine stillen Freunde, / Löwenzahn und Hahnenfuß. /Seh' ich euch zu früher Stunde / "Guten Morgen" euch zum Gruß. // Glitzernd noch im Silbertaue, / Glockenblum' und grüner Klee, / Unter blanker Sense Rauschen, / Ich euch sterbend fallen seh'. // Fürchtet euch nicht vor dem Tode, / Akelei und Margerit', / Blumen welken und vergehen, / Aber eu're starken Wurzeln nit (H.1:73).

27 É curioso também que o longo excurso de vinte páginas sobre a história de Günzburg, sua cidade natal, que começa na Idade de Ferro e leva até o século XX, não mencione em nenhum momento que esse lugar tinha desde a Idade Média uma forte população de judeus - daí nomes frequentes como Guinsburg - que atingia, em certas épocas, 50%. Esses judeus alemães são completamente desconsiderados. As poucas vezes que os judeus são mencionados, eles são conselheiros internacionais de políticos americanos etc.

28 Na realidade, o documento de Mengele era um certificado dos americanos de um tal Fritz Uhlmann que foi falsificado para Fritz Hollmann (cf. Völklein, 1999, p.196).

29 "der Scheißkerl".

30 "Nachdem Hans Hohneder im Ofen verschwunden ist, verbleibe ich hier als Kollege Andreas bis auf Weiteres und wenn es genehm ist."

31 "Die Damen, die von der Verbrennung des Hans Hohneder nichts ahnen, kommen ins Zimmer [...]" (H.4:48).

32 "Die drei ehemaligen Münchner Medizinstudenten hätten noch stundenlang über Professoren weiter sprechen können, wenn nicht Andreas doch wieder in die Haut des 'verbrannten' Hans Hohneder hätte schlüpfen müssen" (H.4:55).

33 "Kann er seines Lebens noch froh werden mit solcher Schandtat auf dem Gewissen?" (H.4:55).

34 O ato parece inacreditável e Langbein enfatiza que várias lembranças de testemunhas não coincidem com sua própria memória baseada na convivência diária com o médico. Por outro lado, é muito chamativo que uma série de depoimentos se refira exatamente às bestialidades executadas contra mulheres grávidas e mães com filhos recém-nascidos. (cf. Völklein, 1999, p.175-83). O filho de Mengele nasceu em 1944; sua atividade em Auschwitz, portanto, corresponde à fase em que sua própria esposa estava grávida e, assim, numa situação paralela à das vítimas.

35 Literalmente, a expressão "beim Augenlicht meiner Mutter" significa jurar "pela luz dos olhos da minha mãe" ou "pelo sentido da visão" da mãe. "Augenlicht" é uma expressão metafórica e sentimental usada em textos poéticos. O filho Rolf Mengele referiu essas palavras em uma entrevista concedida oito anos depois a uma revista alemã (Bunte). O trecho é citado duas vezes no livro de Völklein (1999, p.214 ss.): "Er [Josef Mengele] versicherte ihm [ao filho] in späteren Jahren 'beim Augenlicht meiner Mutter', daß er 'nie jemanden getötet, nie jemandem persönlich etwas zuleide getan hat'". A citação do juramento encontra-se também em Posner & Ware (1993, p.338).

36 "Also die Mutter ist tot," sagt er halblaut, "sie hat sich wohl große Sorgen um mich gemacht und um den Albert und den Vater. Daß ich leb, hat sie ja über die Frau von Alfons erfahren. Aber die Schmierereien der Haßpropaganda und die Hetzereien im Radio sind vielleicht auch bis zu ihr gedrungen? Natürlich hast Du das alles nicht geglaubt, Du kennst mich ja. Aber die Leute haben Dich dann schief angeguckt, die, die mich nicht so genau kennen. Aber um die Leute und ihr Gerede hättest du dich nie gekümmert. Diese Distanzierung hat man Dir dann auch schon als 'Stolz' ausgelegt" (H.3:19).

37 "Ja, und Du warst immer sehr besorgt, daß Du als gläubige katholische Christin Deine Erziehungspflichten nach dieser Religion nicht vernachläßígst. Wenn wir dann unsere eigenen Ansichten hatten, die mit Deinen dogmatisch gebundenen nicht übereinstimmten, pflegtest Du zu sagen: "Ich muß das alles einmal vor meinem Herrgott verantworten." Und wir beschwichtigten Dich und sagten: vor dem wirklich großen Gott, an den wir auch glaubten, würde das keine Schwierigkeiten machen. Da Du nun vor Deinem Herrgott stehst und Dich rechtfertigen mußt, wie Du immer sagtest, könnten vielleicht doch Zweifel Dich in arge Gewissensnot bringen. Aber gerade weil deine Söhne so sind, wie Du sie erzogen hast, gibt es da nichts, was Du nicht verantworten könntest" (H.3:19).

38 "Der Schlaf des Gerechten" é uma locução alemã que se refere a um sono muito profundo que somente podem experimentar as pessoas com consciência completamente limpa. "De forma mais justa dormiu Andreas, que ainda não era responsável para esse mundo e que ainda não podia vislumbrar o que a vida lhe tinha previsto de alegria e sofrimento" ("Am gerechtesten schlief Andreas, der ja noch gar nicht zuständig war für diese Welt und der auch nicht ahnen konnten [sic], was das Leben an Freud und Leid für ihn vorgesehen hatte" [H.23:19]).

39 "Schreikinder - Gedeihkinder" (H.23:52).

 

Escritos de Mengele

Cópias de "Fahndungsakte Mengele, Bestand Bunte, Staatsanwaltschaft Frankfurt". (Agradeço a Ulrich Völklein, que me facilitou os textos.)

Heft 1:1-72: "Bauernzeit I" + 2 Gedichte

Heft 2:1-31: "Bauernzeit"

Heft 3:1-28: "Bauernzeit"

Heft 4:1-56: "Bauernzeit"

Heft 5:1-77 (Flucht nach Italien und Argentinien)

Heft 21:31-85: "Studium 1"

Heft 22:2-72: "Studium 2"

Heft 23:1-74: "Autobiographisches 1"

Heft 24:1-36: "Autobiographisches 2"

 

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Recebido em 11.10.2010 e aceito em 8.11.2010.

 

 

Helmut Galle é professor do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). @ - hgalle@usp.br

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