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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.25 no.72 São Paulo maio/ago. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000200025 

RESENHAS

 

Kasato-Maru

 

 

Shozo Motoyama

 

 

Documentos? Servem para alguma coisa, além de atravancar estantes e salas? Sim, claro! Eles têm muitas utilidades e finalidades. E, diga-se de passagem, valiosas e, muitas vezes, valiosíssimas. Por exemplo, servem para preservar a memória. Mas, a preservação de memória, ela mesma, não é uma futilidade, para não dizer inutilidade? Essas sejam, talvez, algumas das indagações que podem surgir ao deparar com o livro Kasato-Maru: uma viagem pela história da imigração japonesa. Porque, com certeza, muita gente teria dúvidas nessa direção. Afinal, o nosso dia a dia é tão corrido, tão cheio de peripécias, que não temos tempo a não ser para enfrentar os desafios diuturnos colocados à nossa frente. Deixar registrado o passado quiçá não passe de bobagem, de ocupação de erudito sem nada para fazer.

Mas, será mesmo? Primeiro: não se trata "apenas" do passado - ele tem muito a ver com o presente e, mais ainda, com o futuro. Sem querer cair no lugar-comum, digamos que quem não conhece o passado repete os seus erros. Isso sem se referir à possibilidade de aprendermos, também, com os sucessos de antanho. Porém, trata-se mais do que disso. Como a história é um processo, existem emaranhadas no presente as variáveis enformadoras do futuro. Assim, para perscrutar o futuro, torna-se necessário analisar as variáveis do presente. Ora, como o próprio nome indica, para conhecer essas variáveis, temos de acompanhá-las no fluxo do tempo, ou seja, desde o passado.

O conhecimento dessas variáveis não significa que o desenho do futuro se descortine sem nenhuma névoa. Porque se assim fosse, os historiadores seriam os melhores futurólogos. Mas, ao contrário, não corre o boato de que não existe pior futurólogo do que o historiador? E, diga-se, sem rebuços, que essa segunda hipótese está mais próxima da realidade, como bem sabemos. Um dos motivos disso remete-se ao fato de o desenho obtido não ser estático, mas dinâmico, em variação dialética. Por dialética queremos dizer que as variáveis podem se chocar, se fundir, se cruzar, ou mesmo correr em paralelo etc. Por conseguinte, nada existe de determinado, nada se conhece de antemão. Todavia, as diversas tendências do futuro vislumbram-se no cenário e nos ensina as possibilidades da nossa ação.

Bom, diz o nosso leitor amigo, mesmo que essa argumentação fosse verdadeira, o livro não exagera, colocando apenas um documento, a lista de bordo do Kasato-Maru, acrescida da carta do cônsul brasileiro daquela época no Japão, Alcino Santos Silva? Não, para o seu editor:

A relevância desse documento é bastante evidente. Redigido às vésperas do embarque dos emigrantes, aponta para mudanças de última hora na composição dos passageiros, promovidas por razões não explicadas. E, ainda mais interessante, essa relação vem acompanhada de ofício do referido cônsul, dirigido ao secretário da Agricultura, com interessantes observações e advertências sobre essa primeira leva oficial de imigrantes orientais. [...] Com esta publicação, o Arquivo Público do Estado oferece ao público e aos estudiosos da imigração japonesa a oportunidade de cotejar as informações desse documento com os registros mais bem conhecidos de acolhimento desses migrantes no Brasil, cumprindo assim sua obrigação de difundir amplamente seu acervo.

Palavras de Carlos de Almeida Prado Bacellar, coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo no qual se conserva a lista.

Não é o suficiente para o leitor exigente? Sim, talvez sejam necessárias mais algumas palavras para convencê-lo. Nenhuma argumentação possui força suficiente para conseguir o beneplácito de todos os seus críticos - nem se pretende isso. Porém, quanto mais se tiver, mais força terá a defesa da tese. A nossa defende a ideia de que a preservação da memória apresenta relevância, e para rea-lizá-la, os documentos, mesmo que seja um, devem ser preservados e difundidos. Esses aspectos ficam mais bem definidos se soubermos situar a posição e significado do navio Kasato-Maru na história da imigração nipônica. Por isso, na primeira parte da obra, não por acaso, aparece o trabalho da Célia Sakurai, pesquisadora da Unicamp e uma das mais conhecidas especialistas da imigração japonesa no Brasil. Trata-se de uma síntese interessante do processo histórico vivido pelos emigrantes da terra de Crisântemos nas terras brasileiras, de 1908 a 1970.

Da exposição da Célia Sakurai ficamos sabendo que 

A vinda de navio Kasato-Maru, em 1908, marca o início do ciclo de imigratório japonês para o Brasil, que se estende até o fim da década de 1970 [...]. O número de emigrantes registrado oficialmente pelo Consulado Geral do Japão é de 251.981, no período entre 1908 e 1986. [...] Pode-se afirmar que cerca de 250 mil japoneses entraram no Brasil desde o início do século 20, formando o quarto maior contingente entre inúmeros grupos de imigrantes que chegaram ao Brasil ao longo do século.

A lista registra, portanto, o nome, o gênero e a profissão dos 781 nipônicos que inauguram o processo da vinda de cerca de um quarto de milhão de cidadãos do Sol Nascente ao solo brasileiro.

O conhecimento dos dois novos documentos já se reflete no trabalho da pesquisadora da Unicamp.

A carta do cônsul brasileiro, que acompanha a lista dos passageiros, exibe claramente a sua posição, demonstrando mais prudência do que entusiasmo. Para a avaliação efetiva, sugere que o julgamento da eficiência do trabalhador japonês só poderia ser feito depois de "uma ou duas colheitas", partindo ainda do pressuposto de que os japoneses renderiam apenas dois terços dos outros imigrantes. Havia dúvidas sobre o desempenho desses imigrantes na lida com o café. [itálico meu]

Por conseguinte, informações constantes em um dos documentos confirmam, ainda que parcialmente, porém de modo concreto, a hipótese sempre veiculada da existência de preconceitos pela elite brasileira em relação aos nativos do império onde o Sol nunca se põe.

Completando o livro, na segunda parte, aparece o artigo do professor Jeffrey Lesser, renomado especialista na pesquisa de temas como etnicidade, imigração e identidade nacional no Brasil. Ele mostra a conjuntura histórica na qual a carta e a lista foram elaboradas. Destarte, as informações contidas nos documentos aludidos ganham sentido e significado na história da imigração japonesa no Brasil. Contudo, isso não seria inverter a argumentação? Não se queria mostrar que os documentos apontariam novos desdobramentos da história da imigração? Sim. Porém, como vamos saber que os desdobramentos são novos se não conhecemos o significado deles não só no contexto da sua elaboração, como, também, no fluxo da história?

 

 

Não constitui nossa função detalhar o trabalho do professor Lesser. Entretanto, vamos trazer alguns trechos seus para ilustrar a nossa tese. A carta se situava dentro do

discurso brasileiro sobre a imigração japonesa (que) combinava, portanto, o medo social da "mongolização" e o desejo de imitar o desenvolvimento econômico e social do Japão. Antônio Coutinho Gomes Pereira, capitão do navio-escola Benjamin Constant, ficou fascinado com a sofisticação da Marinha japonesa. Mas, Alcino Santos Silva, o cônsul em Yokohama, temia que os "feios e baixos" japoneses não estivessem preparados para "adaptar-se aos costumes ocidentais".

 

 

A carta, por conseguinte, não consiste em um fenômeno isolado, mas faz parte de uma visão vigente em alguns segmentos sociais brasileiros. E, sugere, por exemplo, investigações no sentido de saber quais (ou qual) eram esses segmentos cujo conhecimento é, ainda hoje, difuso.

Ou, o que significa reconfigurar os japoneses como não-asiáticos foi um passo importante na criação de categorias "étnicas" para os imigrantes. Os diplomatas japoneses avidamente reforçavam essas opiniões, em constantes lembretes de que os seus súditos eram "brancos". Como muitos integrantes das elites brasileiras colocavam os imigrantes japoneses numa posição hierárquica igual ou superior à dos europeus, as imagens dos passageiros do Kasato-Maru eram positivas.

Essa afirmação de Jeffrey Lesser sugere que em torno da chegada do primeiro navio imigrante nipônico, geralmente tratada de maneira ligeira e superficial, escondem-se temas de relevância para a historiografia, não só da imigração, mas, de igual forma, sobre os comportamentos sociais, econômicos, políticos e culturais de ambas as nações.

Meu caro leitor está agora convencido da importância do livro Kasato-Maru: uma viagem pela história da imigração japonesa no Brasil? Não? Então, só resta você mesmo ler a obra e tirar as suas próprias conclusões.

 

 

Shozo Motoyama é professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. @ - shozomotoyama@yahoo.com.br

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