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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.25 no.73 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000300002 

IEAS: CIÊNCIA E SOCIEDADE

 

O crescimento dos Institutos de Estudos Avançados

 

 

Peter Goddard

 

 

Introdução

O número e a variedade de Institutos e Centros de Estudos Avançados aumentaram muito nos últimos anos, refletindo não só seu inegável sucesso, mas também, talvez, a nova conjuntura das Universidades ao redor do mundo. Às vezes, são descritos como parte de um terceiro estágio, pós-moderno, do desenvolvimento da Universidade, após os estágios medieval e moderno; outras vezes, são vistos como reação a uma crise internacional no sistema universitário.

Ambas essas ideias estavam presentes nos primórdios dos Institutos de Estudos Avançados. Quero aqui discutir por que esses Institutos estão sendo fundados em ritmo cada vez mais acelerado, começando com as motivações que levaram à criação do primeiro deles, o Instituto de Estudos Avançados [Institute for Advanced Study] de Princeton, New Jersey, pouco mais de 80 anos atrás; depois, quero examinar os possíveis motivos para o número crescente de tais Institutos; por fim, gostaria de discutir algumas das características que eles têm em comum e também algumas variações em seu formato.

A fim de definir o contexto, gostaria de usar como ilustração os últimos quatro séculos e meio da história da Universidade de Cambridge no que diz respeito ao número de alunos que lá se matricularam cada ano entre 1544 e 1989. Podemos ver a história do país refletida no Gráfico 1: a Primeira Guerra Mundial foi um momento crítico, pois a Universidade esvaziou-se para encher as trincheiras; a Segunda Guerra, por sua vez, foi menos dramática, pois os alunos permaneceram na Universidade, embora tenham se diplomado em cursos abreviados de dois anos; com a Peste Negra de 1665-1666, a Universidade foi evacuada (Newton descobriu as leis do movimento, a gravidade, a óptica e o cálculo integral no conforto de sua casa, em Woolsthorpe, Lincolnshire). Todavia, a característica realmente dominante é o fato de o gráfico crescer exponencialmente a partir do início do século XIX, ou seja, no começo da Revolução Industrial, dobrando cada 40 anos, mais ou menos.

 

 

 

Desde suas origens nos séculos XI e XII, até ao século XIX, os primeiros diplomas concedidos pelas Universidades foram nas artes liberais, seguidos por alguns cursos de pós-graduação para qualificação nas profissões antigas: direito, teologia e medicina. No século XIX, as disciplinas modernas se cristalizaram e os cursos especializados para bacharéis surgiram e tornaram-se dominantes.

 

Origem dos Institutos de Estudos Avançados

Os Institutos de Estudos Avançados estão mais voltados para a pesquisa do que para o ensino. São, em parte, caracterizados pela ausência de alunos de graduação e, muitas vezes, até mesmo de alunos de pós-graduação. Sempre houve instituições sem alunos. O All Souls College, em Oxford, fundado no século XV, nunca teve realmente alunos: os fellows originalmente se dedicavam a orar pelas almas de seus fundadores e benfeitores, e promoviam estudos para as profissões antigas. O Collège de France, em Paris, fundado no século XVI, não tem alunos, mas o seu lema é Docet omnia – "Ensinar tudo" –, e seus professores são obrigados a dar palestras abertas a todos que desejarem comparecer.

Ao longo dos últimos 100 anos aproximadamente, o All Souls foi se tornando mais parecido com o modelo convencional do Instituto de Estudos Avançados atual, focado na pesquisa, tendo instituído nas últimas décadas um programa de cientistas convidados de todas as partes do mundo. Essas mudanças, depois de vários séculos em que quase nada mudou, refletem e resultam da transformação da Universidade de Oxford em uma Universidade de pesquisa moderna ao longo dos últimos 150 anos.

A evolução da Universidade de pesquisa começou na Alemanha no início do século XIX. Em 1810, Wilhelm von Humboldt convenceu o rei da Prússia a fundar a Universidade de Berlim com base nas ideias liberais de Freidrich Schleiermacher sobre liberdade acadêmica e a importância de seminários, laboratórios e pesquisas. O objetivo, tal como Schleiermacher o colocou, era transformar na "segunda natureza [dos alunos] enxergar tudo da perspectiva da erudição […] e, assim, adquirir a capacidade de realizar pesquisas e fazer descobertas".

De modo geral, as faculdades e Universidades norte-americanas seguiram o modelo britânico, com forte filiação religiosa, currículos restritos e a formação de alunos como professores, padres, advogados etc. A influência da Universidade alemã moderna começou a crescer a partir de meados do século XIX, à medida que os estudos de pós-graduação foram amadurecendo nas Universidades americanas e os alunos americanos que tinham estudado na Alemanha foram voltando e se tornando professores e reitores de Universidades nos Estados Unidos. Entre eles, Charles William Eliot, que foi reitor de Harvard durante 40 anos, de 1869 a 1909, e Daniel Coit Gilman, que visitou Berlim na década de 1850 e retornou à Alemanha em 1875, já se preparando para tomar posse no ano seguinte como reitor e fundador da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, a primeira Universidade americana voltada para a pesquisa e os estudos avançados.

No início do século XX, as grandes Universidades americanas ainda não tinham assumido posição de liderança nos mundos da ciência e da erudição. Na realidade, buscavam-se soluções para as deficiências percebidas no ensino superior do país. Por exemplo, em 1918, o influente economista norueguês-americano, Thorstein Veblen, o homem que cunhou a expressão "consumo conspícuo", publicou The higher learning in America, uma crítica mordaz sobre a influência dos empresários e dos métodos corporativos na Universidade. Ele argumentou que a introdução dos princípios e métodos do mundo dos negócios – sistemas de padronização e prestação de contas e trabalhos por empreitada – em instituições envolvidas com pesquisa avançada era um passo "em direção a uma rotina perfunctória de mediocridade".

Veblen defendeu "a criação de um estabelecimento central com independência financeira onde professores e alunos de todas as nacionalidades […] possam realizar o trabalho que escolheram como convidados da comunidade acadêmica americana". E acrescentou: "Também não deve haver nada que impeça a instalação de mais de uma dessas casas de refúgio e entretenimento [houses of refuge and entertainment]", termo perspicaz para um Instituto de Estudos Avançados.

Veblen estudou na ainda incipiente Universidade Johns Hopkins e também na Universidade de Chicago, outra instituição cuja fundação foi influenciada pelas Universidades de pesquisa alemãs. Por sinal, foi outro aluno da Johns Hopkins, Abraham Flexner, que criou a primeira "casa de refúgio e entretenimento".

Flexner formou-se pela Johns Hopkins apenas dez anos após sua fundação. Graças à sua experiência como professor em Louisville, Kentucky, e a seus estudos de pós-graduação em Harvard e em Berlim, tornou-se um importante educador e crítico do ensino superior americano. Para ele, as faculdades americanas, quase todas elas fundadas originalmente seguindo o modelo britânico, com forte filiação religiosa e currículos restritos voltados à formação de professores, padres, advogados e médicos, estavam confusas quanto ao seu propósito. Em Universities: American, English, German, ele louva a ênfase na pesquisa das Universidades alemãs, critica as antigas Universidades inglesas por sua preocupação excessiva em cultivar gentlemen e é contundente com as faculdades americanas e seu foco na educação genérica, na qual os estudos de pós-graduação são desajeitadamente enxertados.

Flexner observou que, a fim de financiar a expansão,

Elas tiveram de se organizar como as empresas são organizadas, justamente o tipo de organização que é antagônica aos propósitos para os quais a universidade existe […]; foram arrastadas para a economia de mercado e obrigadas a servir a dezenas de finalidades – algumas delas, é claro, razoáveis e legítimas em si mesmas – às quais as universidades não podem servir sem abandonar os propósitos que somente elas, e nenhuma outra instituição, podem atender.

Quando Flexner estava terminando seu livro no final de 1929, ele foi procurado por Louis e Caroline Bamberger, empresários que tinham feito fortuna com lojas de departamentos e queriam conselhos sobre como estabelecer uma faculdade de medicina em sua cidade natal, Newark, New Jersey. Em poucos meses, Flexner os convencera a, ao invés, patrocinar o seu sonho de criar o primeiro Instituto de Estudos Avançados,

não uma escola pós-graduação que prepare os homens para coisas conhecidas e, em certa medida, para os métodos de pesquisa, mas sim um instituto em que todos – professores e membros – acedam ao que é conhecido e foi publicado, e, cada um a sua maneira, se dediquem a avançar as fronteiras do conhecimento.

Flexner defendia

um porto seguro onde estudiosos e cientistas [não sejam] arrastados pelas voragens do imediato; […] simples, confortável, silencioso, sem ser monástico ou remoto; […] sem temor de examinar qualquer assunto; […] sob nenhum tipo de pressão que possa forçar os estudiosos a propender a favor ou contra qualquer solução dos problemas sendo investigados; […] deve oferecer as instalações, a tranquilidade e o tempo necessários para investigações fundamentais acerca do desconhecido. Seus estudiosos devem desfrutar liberdade intelectual completa e ser absolutamente livres de responsabilidades ou obrigações administrativas.

Era uma ideia cujo momento de fruição havia chegado, mas foi preciso alguém como Flexner para levá-la do sonho à realidade. Nomeado diretor-fundador do Instituto, decidiu criar "uma sociedade livre, de estudiosos e estudantes dedicados à formação superior dos homens e ao avanço do conhecimento", e convocou estudiosos de vários países. Nas diversas versões de seu ensaio, The usefulness of useless knowledge, Flexner articulou a crença de que os avanços nos conhecimentos de maior valor prático não provêm de pesquisas norteadas por objetivos, mas sim daquelas motivadas por curiosidade intelectual. Para exemplificar, descreveu o trabalho de James Clerk Maxwell na década de 1860, que unificou as teorias da eletricidade e do magnetismo, levou à identificação da luz como um fenômeno eletromagnético e previu a existência das ondas de rádio, observadas pela primeira vez por Heinrich Hertz mais de 20 anos depois e que acabaram tendo enorme aplicação prática quando Guglielmo Marconi inventou a telegrafia sem fio em 1897.

Flexner estabeleceu os mais elevados padrões para seu instituto e começou contratando o melhor dos melhores: Albert Einstein. Quando a nomeação de Einstein foi anunciada em 1932, o The New York Times disse que se esperava que o Instituto de Princeton servisse de exemplo para a criação de instituições similares.

 

 

 

O crescimento dos Institutos

O exemplo do Instituto de Estudos Avançados foi logo imitado. O Dublin Institute for Advanced Studies foi fundado por uma lei do Parlamento em 1940; o Center for the Advanced Study of the Behavioral Sciences foi criado na Universidade de Stanford em 1954; o Institut des Hautes Études Scientifiques (IHES), perto de Paris, em 1958; e muitos outros.

Numa carta ao governo francês em apoio ao IHES, Robert Oppenheimer, na época diretor do Instituto de Princeton, desenvolveu as ideias de Flexner 30 anos depois:

Com a crescente magnitude, complexidade e bulício do progresso científico em todos os campos, e com a expansão dos sistemas de ensino que correspondem a um novo patamar na história do mundo, as cátedras universitárias já não oferecem necessariamente oportunidades de reclusão e do mais árduo e intenso esforço intelectual que foram outrora sua marca distintiva. Por este motivo, lugares de retiro, que são na realidade lugares de avanço, foram criados. São muitas as suas funções, mas a base de todas elas é a possibilidade de concentração muito mais intensiva nos estudos e na pesquisa do que é exequível em outros lugares. […] Por estes motivos, […] os institutos de estudos avançados […] vão se multiplicar em todo o mundo ocidental.

Vários estudiosos e cientistas estrangeiros, que haviam sido membros do Instituto de Princeton, criaram Institutos em seus países de origem. Um exemplo é o Instituto de Estudos Avançados em Jerusalém, fundado por Aryeh Dvoretzky em 1975, depois de ter visitado o Instituto de Princeton alguns anos antes. Ele escreveu:

Um Instituto de Estudos Avançados em Israel atenderá a uma necessidade há muito reconhecida de um ambiente adequado que incentive a liderança científica e acadêmica, e promova o mais alto padrão de pesquisa. A proliferação de universidades em Israel, juntamente com a tendência geral de educação superior de massa, aumentou a premência de um instituto aqui em Israel. A inspiração e as realizações desses institutos são essenciais para fortalecer e promover a "paisagem científica e acadêmica" de Israel. As palavras de Robert Oppenheimer foram prescientes. O grande aumento no número de institutos de estudos avançados em todo o mundo, particularmente nas duas últimas décadas, é testemunho poderoso de seu valor percebido. Existem hoje literalmente centenas de instituições em todo o mundo que se autodenominam "Institutos de Estudo(s) Avançado(s)", realizando a profecia de Oppenheimer.

Há três anos, o London Times Higher Education Supplement perguntou se "os Institutos de Estudos Avançados sendo criados por todo o Reino Unido são meros hotéis de pesquisa onde os acadêmicos podem desfrutar precioso tempo pensando, ou se são sinal de uma mudança fundamental na pesquisa de ponta?".

Quais são os motivos desse fenômeno? Alguns foram mencionados nas observações que citei ao longo deste texto. Creio que os motivos essenciais foram articulados por Flexner, quando expôs sua visão presciente em 1930: a oportunidade de realizar pesquisas motivadas pela curiosidade, sem preocupação com objetivos de curto prazo, e isenção das pressões administrativas e docentes da Universidade moderna.

Os argumentos de Flexner tendem a ser favoráveis à separação entre a pesquisa fundamental e o que ele chamou de "encantos e desvios" do ensino de graduação, pelo menos no contexto de sua época e lugar, algo com que poucos de nós concordariam hoje como proposição geral. Mas a expansão do ensino superior de massa – a enorme ampliação do sistema universitário, boa e necessária em si mesma – levou-nos às voragens do imediato, tal como Flexner descreveu, uma sensação mais do que familiar na academia. Além disso, tal expansão inevitavelmente implica despesas muito maiores, amiúde de verbas públicas, e com isso vêm naturalmente demandas de prestação de contas da parte do governo e de outros. Seja como for, esse é o espírito da época.

O problema é a forma assumida por essa ânsia de prestar contas e essa mentalidade de auditoria constante. O ponto de vista usual é que, se você está dando dinheiro público, é melhor saber precisamente no que e como ele será usado; depois, você deve verificar se o dinheiro foi usado exatamente do modo especificado e se os objetivos definidos foram atingidos. O problema é que essas exigências são antagônicas à investigação de questões verdadeiramente fundamentais: se é preciso dizer, antes de começar, o que se vai fazer, como se vai fazê-lo e quando estará concluído, é improvável que se realizem estudos verdadeiramente originais.

O bulício da Universidade moderna aumentou dramaticamente desde que Robert Oppenheimer o mencionou 50 anos atrás. As Universidades hoje parecem viciadas em crescimento. Por exemplo, a julgar pelo número de alunos matriculados, a Universidade de Cambridge dobrou de população cada 40 anos, desde 1800. Sua taxa média de crescimento é de pouco menos de 2% ao ano. Não parece muito drástica, é verdade, mas significa que em certo sentido a Universidade de hoje é 32 vezes maior do que a de 200 anos atrás. "Crescer ou morrer" tornou-se a filosofia predominante nas Universidades. No entanto, a verdade biológica é que nós crescemos e morremos, e, como regra geral, quanto mais rápido crescermos, mais cedo morreremos.

Além da perda de continuidade institucional, que pode ter aspectos positivos e negativos, e da colegialidade, a ênfase ininterrupta no desenvolvimento institucional (ao qual, confesso, dediquei boa parte de meu tempo) significa que os departamentos da Universidade – as unidades organizacionais que resultaram da reforma universitária do século XIX e primeira metade do século XX – foram incorporados à Universidade como o arcabouço das estruturas de poder, financeiras ou não. Tornaram-se redutos para os barões professorais expandirem ou defenderem seus territórios, de tal modo que muitas vezes estão mais preocupados com a cooperação do que a colaboração, sobretudo entre disciplinas cognatas. Nas Universidades que não possuem estrutura colegiada, os acadêmicos das várias disciplinas podem nem ter contato entre si, exceto quando brigam por recursos nos comitês universitários.

Nesse contexto, o Instituto de Estudos Avançados, tal como antevisto por Flexner, oferece uma espécie de santuário do turbilhão, voragens e perturbações dos ruídos de um império sendo construído, onde o sucesso não é julgado precipitada ou opressivamente, e onde a pesquisa é movida pela curiosidade intelectual – ou seja, visa descobrir algo que sequer pode ser concebido de antemão, não avançar em direção a objetivos bem definidos e predeterminados. Por certo, sempre começamos um projeto de pesquisa com uma ideia interessante, mas sentiremos verdadeira decepção se não acabarmos fazendo algo mais emocionante do que o objetivo original.

 

A taxonomia dos Institutos de Estudos Avançados

Uma pesquisa recente mostra quais eram os objetivos dos estudiosos que passavam uma temporada no Instituto de Princeton (Gráfico 2). Trabalhar por certo período de tempo como membro do Instituto é muitas vezes uma experiência transformadora: jovens pós-doutorandos conhecem os contemporâneos que, como eles, serão figuras de destaque de seu campo no futuro; membros mais graduados, livres das obrigações administrativas e docentes, têm o tempo e a liberdade para iniciar novas linhas de pesquisa. Uma temporada no Instituto afeta profundamente não só o indivíduo, mas muitas vezes também seus alunos e colegas. Tudo é feito de modo a permitir que os membros do Instituto se concentrem na pesquisa, para que não haja desculpas.

 

 

O nome "Instituto de Estudos Avançados" é hoje amplamente usado. Quais são as características que tais instituições compartilham e como elas diferem? Na prática, parece que todas têm um programa de fellowship para membros visitantes, com foco na pesquisa, não no ensino, e todos cruzam as fronteiras disciplinares. Mas variam em outros aspectos importantes: gama de assuntos abordados; nível de independência constitucional (governança); nível de independência financeira, presença ou não de professores permanentes; grau em que a pesquisa é estruturada em torno de programas ou temas; liberdade dada aos membros ou fellows na escolha do tópico de pesquisa; concessão de alojamento residencial; demografia dos membros ou fellows (nacionalidade, idade etc.).

No caso do Instituto de Princeton, há quatro "Escolas": Matemática, Ciências Naturais, Estudos Históricos e Ciências Sociais. O Instituto é independente de qualquer Universidade ou instituição. Setenta a oitenta por cento das atividades essenciais são financiadas pela própria dotação do Instituto. Tem um corpo docente permanente forte e ilustre. Matemática e Ciências Sociais orientam em certa medida seu trabalho em torno de temas; as demais Escolas, não. Os membros têm completa liberdade na escolha da direção de pesquisa. Quase todos os membros vivem no campus em moradias do Instituto. Sessenta por cento vêm de fora dos Estados Unidos e sua distribuição etária varia de escola para escola.

A maioria dos Institutos possui não só fortes conexões internacionais (trazendo acadêmicos importantes de todo o mundo, seja como membros de longo prazo ou como visitantes), como também fortes ligações locais. Por esses motivos, muitas Universidades de renome criaram seus próprios Institutos de Estudos Avançados: são uma declaração de que elas aspiram aos mais elevados padrões de pesquisa e almejam status internacional, e são também um meio de proporcionar aos acadêmicos mais graduados alívio temporário das pressões da vida universitária.

Ironicamente, o processo de avaliação das Universidades no Reino Unido e a iniciativa de excelência na Alemanha levaram muitas Universidades a criar Institutos, tanto como autoavaliações de excelência como para oferecer um refúgio do processo de avaliação para os acadêmicos favorecidos. Em todo o mundo, houve grande crescimento dos Institutos de Estudos Avançados sediados em Universidades (Ubias, University-Based Institutes of Advanced Study). Houve recentemente uma conferência na Alemanha reunindo cerca de 32 deles, cujo número vem dobrando a cada oito anos, embora eu duvide que isso vá continuar. Seja como for, um Instituto de Estudos Avançados sediado em uma Universidade terá inevitavelmente de lutar para permanecer comprometido com sua missão de longo prazo, pois, em algum momento, os interesses da instituição-mãe tornar-se-ão imperiosos.

 

Conclusões

O atual crescimento no número de Institutos de Estudos Avançados não seria um fenômeno mundial se eles não fossem percebidos como bem-sucedidos no longo prazo, seja em termos das pesquisas que produzem, seja da influência que exercem sobre a vida e o desenvolvimento intelectual daqueles que lá trabalham. Testemunhos de muitos estudiosos que participaram do Instituto de Princeton frequentemente falam de uma experiência de vida transformadora.

Desse modo, resumindo os motivos para a proliferação de Institutos de Estudos Avançado, temos:

• Eles oferecem aos acadêmicos a oportunidade de desenvolverem seus próprios projetos de pesquisa;
• Proporcionam alívio das pressões da Universidade moderna;
• São internacionais em um mundo acadêmico cada vez mais internacional;
• São insígnias das aspirações ou do status de uma Universidade;
• Cruzam as fronteiras disciplinares.

Este último aspecto – a interdisciplinaridade – talvez seja o mais sutil e difícil de examinar. Foi certamente uma das motivações de Flexner: cada Escola do Instituto de Princeton abrange o território de vários departamentos de uma Universidade típica. Os Institutos oferecem um ambiente no qual há oportunidades para cada um discutir seu trabalho com estudiosos e cientistas de outros campos; e, eximidos de funções administrativas e docentes, têm tempo livre necessário para isso. Mas essas oportunidades podem ser arquitetadas só de forma limitada; os encontros e intercâmbios fortuitos são muitas vezes mais importantes do que os programas organizados.

As pesquisas realizadas nos vários departamentos de uma Universidade, definida pelas disciplinas e subdisciplinas delineadas nos séculos XIX e XX, têm cada vez mais se entrecruzado nas últimas décadas. Alguns chegam a falar de um terceiro estágio do desenvolvimento da Universidade. O primeiro partiria do formato medieval e iria até a ideia de Universidade de John Henry Newman, como uma instituição que preserva e difunde conhecimentos em vez de desenvolvê-los; o segundo, da formação da Universidade de pesquisa moderna a partir do século XIX, baseado em estruturas departamentais. O terceiro… Bem, qual seria o arcabouço que permite que fronteiras sejam cruzadas, mas preserve as estruturas valiosas e os pontos de referência fornecidos por cada disciplina?

A necessidade de tal arcabouço levou à formação de Institutos de pesquisa transdisciplinares dentro e fora das Universidades, abrangendo vários departamentos e disciplinas. Isso, porém, pode significar que o acadêmico agora terá três papéis dentro da Universidade: no ensino de graduação, em um departamento com função de pesquisa dentro de uma disciplina e em um Instituto interdisciplinar. Lembra um pouco a confusão de propósitos que Flexner percebeu um século atrás.

Institutos de Estudos Avançados não precisam ter a arrogância de achar que poderão resolver os problemas sistêmicos da Universidade contemporânea. É possível que ajudem em certa medida, mas o seu sucesso e a sua proliferação talvez sejam um sintoma de um mal-estar mais difuso ou mesmo de uma crise na Universidade moderna.

Que conselhos podem ser dados a um Instituto principiante? Entre outros, os seguintes:

• Uma missão pertinente aos desafios e às oportunidades (locais);
• Um indivíduo ou um grupo pequeno, com a visão, a dedicação, a tenacidade e o talento para obter recursos que permitam criar o Instituto;
• Excelentes condições de trabalho para os estudiosos;
• Um local físico atraente;
• Estruturas ou instalações institucionais para encorajar um senso de comunidade;
• Isenção de avaliações imediatistas e de metas predeterminadas.

 

 

Recebido em 9.8.2011 e aceito em 17.8.2011.

 

 

Peter Goddard é físico matemático, diretor do Instituto de Estudos Avançados de Princeton.  @ – pgoddard@ias.edu
Tradução de Carlos Malferrari. O original em inglês – "The Growth of Institutes for Advanced Study" – encontra-se à disposição do leitor no IEA-USP para eventual consulta.
Palestra originalmente apresentada no Simpósio Internacional de Estudos Avançados, organizado pelo Centro de Estudos Avançados (Ceav-Unicamp), em 23 de março de 2011.