SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.25 issue73Mapeando o mundo dos Institutos de Estudos Avançados sediados em UniversidadesCeam: 25 anos de quebra de paradigmas author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.25 no.73 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000300004 

IEAS: CIÊNCIA E SOCIEDADE

 

Fascinante diversidade de perspectivas

 

 

Carsten Dose

 

 

Carsten Dose, diretor administrativo do Insitute Freiburg de Estudos Avançados (Frias), conversou sobre a conferência "University-Based Institutes for Advanced Study (Ubias) in Global Perspective: Promises, Chal lenges, New Frontiers"* e o impacto dessa com César Ades, diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo; Dapeng Cai, professor associado e membro efetivo do Instituto de Pesquisas Avançadas da Universidade de Nagoya; Eliezer Rabinovici, diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade Hebraica de Jerusalém; e Judith Vichniac, vice-reitora do Programa de Fellowship do Instituto Radcliffe de Estudos Avançados da Universidade de Harvard.

* * *

Carsten Dose – Qual foi a ideia mais surpreendente com que vocês depararam durante a conferência?

César Ades – Fiquei fascinado com a diversidade de perspectivas, e também com a postura em relação à criatividade e ao conhecimento.

Eliezer Rabinovici – Os Institutos de Estudos Avançados são, sob alguns aspectos, um modo bastante conservador de fomentar a inovação. Foi muito bom ouvir todas as histórias de sucesso e todas as inovações que foram criadas por meio desse modelo bastante consistente. Mas foi novidade para mim que os Institutos sediados em Universidades têm clara vantagem sobre aqueles que não o são; eles naturalmente acomodam cientistas experimentais e esse é seu ponto forte.

Judith Vichniac – Mas essa não é a única vantagem clara. Os Institutos de Estudos Avançados em Universidades não só têm acesso a bibliotecas, como todo Instituto, mas também a outros recursos, como laboratórios e alunos.

César Ades – Outro ponto importante é a cooperação com outras faculdades. É evidente que os Institutos de Estudos Avançados devem ser integrados à Universidade, não apenas acrescentados a ela.

Judith Vichniac – Nós oferecemos um programa de orientação [mentorship], que reúne alunos e pesquisadores para que trabalhem juntos. Conseguimos remunerar os alunos que ajudam os pesquisadores em seu trabalho e, ao mesmo tempo, eles são treinados para fazer esse tipo de trabalho. Os pesquisadores, por sua vez, descobrem o que significa envolver-se com o ensino de graduação em Harvard.

Dapeng Cai – Durante a Conferência, dei-me conta de maneiras mais flexíveis de fazer coisas que eu sempre quisera fazer. Creio que temos às vezes pensado com excessiva rigidez e a Conferência nos tornou cientes de todos os recursos que estão disponíveis para nós.

Carsten Dose – Estamos já falando sobre a vantagem de ser parte da Universidade. Podem nos dar um pequeno exemplo em que o trabalho de seu Instituto realmente fez a diferença para a Universidade?

César Ades – Tivemos um grupo muitos anos atrás que discutia relações internacionais. Agora temos um Instituto de Relações Internacionais que foi proposto pelo grupo de pesquisa dentro de nosso Instituto.

Judith Vichniac – Houve uma iniciativa envolvendo engenharia de tecidos em nosso Instituto, na época um campo relativamente novo. Por ser pequeno e ágil, Radcliffe atuou como um congregador de especialistas da Universidade inteira, os quais não costumam colaborar. Radcliffe conseguiu iniciar uma discussão que fez avançar a agenda de pesquisas.

Dapeng Cai – Temos um programa tenure track,1 que nos permitiu contratar alguns dos melhores estudiosos do mundo, e eles estão contribuindo muito para a Universidade. Também organizamos a série de palestras Nagoya University Lectures para 1,2 mil participantes de cada vez. É uma excelente oportunidade para a Universidade voltar-se para a comunidade local, beneficiando-se a si própria também.

Eliezer Rabinovici – As escolas que temos são um recurso extraordinário tanto para os professores como para os estudantes de nossa Universidade, e também para outras Universidades de Israel. Elas ficam conhecendo os melhores pesquisadores do mundo (muitos dos quais são mais tarde convidados de volta como pós-doutores) e esses pesquisadores também passam a conhecer as Universidades. De vez em quando, temos grupos inovadores de pesquisa. Houve um há mais de vinte anos que se dedicou ao estudo das redes neurais, e isso mudou completamente o modo como tais redes são percebidas nas respectivas disciplinas.

Carsten Dose – Um dos temas importantes ao qual estamos sempre retornando é o estímulo à criatividade. O que é necessário para criar esse tipo de atmosfera em um Instituto de Estudos Avançados?

 

 

Judith Vichniac – Procuramos fazer de tudo para que os estudiosos aproveitem o tempo da melhor maneira possível. Isso muitas vezes significa colocá-los em contato com professores não só de Harvard, mas também do MIT ou de outras Universidades de pesquisa na região de Boston. Além disso, buscamos maximizar a interação entre os estudiosos. Projetos individuais às vezes dão uma guinada por causa dessas interações. E isso favorece a expansão do conhecimento.

Eliezer Rabinovici – Nosso foco são os grupos, não indivíduos. É por isso que começamos proporcionando-lhes um ambiente silencioso. Às vezes, o que os pesquisadores realmente precisam é simplesmente poderem se concentrar em suas pesquisas. Sabemos por experiência que, especialmente na área de Humanas, os cientistas trabalham por conta própria e a interação com seus pares é relativamente rara. Em nosso Instituto, nós os colocamos em um caldeirão, onde interagem diariamente com outras pessoas com pontos de vista diferentes. Esse é o tipo de atmosfera que, por vezes, leva a avanços importantíssimos. É muito difícil projetar a criatividade, mas talvez haja condições facilitadoras.

César Ades – Também investimos mais em grupos do que em indivíduos e cremos haver alguma virtude em aproximar as pessoas. Mas há algo mais. Quando alguém tem uma ideia ou um projeto, isso motiva o restante do grupo, o que é muito importante. O grupo cresce em torno de um problema central que é original e socialmente pertinente.

Judith Vichniac – Embora a maioria de nossos estudiosos seja de pesquisadores individuais, admitimos grupos também. Em algumas ocasiões, esses clusters se formam espontaneamente. Certo ano, tivemos um grupo de criptógrafos teóricos, cujos membros juntaram forças com um geógrafo, um especialista em lei islâmica, um professor de inglês e um artista para discutirem o conceito de espaço nessas várias disciplinas. Foi muito emocionante para todos nós.

César Ades – Valor para a sociedade sempre foi um elemento-chave do trabalho de nosso Instituto. Quando formamos grupos e realizamos pesquisas, nossa motivação inicial geralmente é um problema social. Por exemplo, temos um grupo trabalhando em nutrição e pobreza, um grande problema no Brasil. O grupo é multidisciplinar e possui muitos membros. Alguns números que eles têm apresentado divergem dos dados divulgados pelo governo. É por isso que organizamos workshops e convidamos formuladores de políticas públicas a participar. Talvez uma nova geração de políticos se torne mais consciente da importância de questões acadêmicas em suas decisões. É claro que, como acadêmicos, não temos poder de decidir. Não obstante, pensamos ser importante que Institutos de Estudos Avançados discutam problemas urgentes em nível acadêmico. A Universidade deve voltar-se para a sociedade.

Eliezer Rabinovici – Tivemos um grande debate sobre essa questão e o sentimento geral é que a melhor contribuição que os cientistas podem dar é fazer o que fazem melhor – os resultados acabarão chegando à sociedade. O GPS (Sistema de Posicionamento Global), por exemplo, só se tornou possível graças a fórmulas baseadas na teoria da relatividade de Einstein. Posso dizer que apenas uma porcentagem muito pequena de estudantes e professores de física sabe trabalhar com a relatividade geral, mas qualquer motorista de táxi sabe como conectar e obter os benefícios de um GPS. É dificílimo planejar como ter um impacto positivo na sociedade. É o mesmo com a internet, que foi inventada no Cern por motivos totalmente diferentes. Ninguém pensou que ela dominaria nossa vida no grau em que o faz agora. Eu definitivamente não incluiria nos formulários de nossos candidatos a pergunta: "Qual é a relevância disso para a sociedade?". É presunção demais pretender saber.

Judith Vichniac – Radcliffe é um Instituto em uma Universidade privada, com financiamento privado, o que nos coloca em situação diferente da dos Institutos financiados pelo Estado. Nossos doadores sempre levantam a questão da pertinência. Embora queiramos proteger a pesquisa pura, quando os pesquisadores tocam em questões sociais ou em pesquisas ligada a questões de saúde, por exemplo, fazemos questão que nossos doadores fiquem cientes.

Eliezer Rabinovici – Mas há riscos envolvidos. Claro que é ótimo se as pessoas fizerem pesquisas que sejam úteis, mas não devemos tentar fingir que somos algo que não somos.

Dapeng Cai – Certa vez, um de nossos professores ia dar uma palestra dirigida a professores de outras áreas. O tema era Adam Smith e o pensamento econômico do século XVIII. O professor estava acostumado a dar palestras para pessoas de seu próprio campo, mas, como dessa vez iria falar com professores de outras áreas, teve de esforçar-se para tornar sua apresentação compreensível. Graças a isso, chegou a novas reflexões sobre a importância das ideias de Adam Smith para os problemas econômicos atuais – o que mais tarde se tornou um novo projeto de pesquisa em nosso Instituto.

Eliezer Rabinovici – Temos também palestras de extensão universitária, em que os grupos explicam aos nossos funcionários o que é que eles fazem. Como nosso pessoal tem de trabalhar com eles durante um semestre ou um ano, eles estão muito interessados no que têm a dizer. Também fazemos palestras de divulgação abertas ao público, divulgadas por meios dos grandes jornais. Além disso, cada grupo é convidado a dar uma palestra de divulgação sobre seu trabalho para os demais grupos durante o almoço. É algo que incentivamos ardentemente.

Carsten Dose – Eu gostaria agora de falar sobre o diálogo global que temos praticado nos dois últimos dias. Qual é a sua impressão do trabalho realizado em nossos vários Institutos?

César Ades – Ajudou-me a situar meu Instituto em um contexto mais amplo. Um dos problemas de um Instituto de Estudos Avançados é o modo como ele se define. Um Instituto de Física não precisa se definir; idem um Instituto de Biologia. Mas as pessoas nos perguntam: "O que vocês fazem de relevante? Qual é sua contribuição?". Um dos resultados da Conferência é uma imagem mais completa das possibilidades dos Institutos de Estudos Avançados. Acho que toda Universidade moderna deveria ter um Instituto desses. Devemos convencer nossos colegas quando a isso.

Judith Vichniac – Achei absolutamente fascinante toda a discussão sobre essas iniciativas na Alemanha e as possibilidades e limitações envolvidas. Embora compartilhemos muitas características, há várias diferenças substanciais. Vocês visitaram Radcliffe há não muito tempo e fico maravilhada de ver o que realizaram em tempo tão curto. Isso jamais teria acontecido sem os recursos de que dispõem, que são bastante extraordinários. No entanto, vocês têm de prestar contas de seu desempenho de maneiras distintas das nossas. Cada um de nós enfrenta suas limitações específicas.

Eliezer Rabinovici – Identifiquei durante a Conferência certa homogeneidade nas apresentações. Se fôssemos visitar cada Instituto, encontraríamos grandes diferenças. Mas, é claro, uma apresentação pode não refletir isso adequadamente.

Dapeng Cai – Fiquei de certa forma aliviado ao ver que compartilhamos uma série de desafios, os quais até agora pareciam ser apenas problemas que o nosso Instituto enfrentava. Temos tentado encontrar soluções para eles e a conferência nos deu novas ideias sobre como resolver essas questões.

César Ades – Creio que há mais uma clara vantagem. Começaremos a nos visitar uns aos outros. Acho isso bastante concreto e real.

Carsten Dose – O que vocês acham que poderá vir a ser desenvolvido a partir deste encontro?

Judith Vichniac – Temos tido muito sucesso em recrutar pesquisadores de certas áreas do mundo. Mas agora conheço pessoas de lugares diferentes, como Brasil, Japão, China, e posso pedir-lhes que me ajudem nessa empreitada. Isso abrirá possibilidades para nós e é por isso que vim para cá. Estou ansiosa para colher os benefícios desses contatos.

Eliezer Rabinovici – Estou interessado em visitar outros Institutos para descobrir onde as pessoas fizeram experimentos que nós não pudemos realizar. É claro que ninguém pode fazer tudo, e dessa forma poderemos aprender uns com os outros. Claro que existem limitações orçamentárias…

César Ades – Talvez pudéssemos pensar em encontros menores, de apenas alguns centros que estejam interessados ​​em um tipo específico de colaboração. Isso seria fácil de organizar e não tão caro.

Dapeng Cai – As boas práticas devem definitivamente ser compartilhadas pelos Institutos. Isso seria muito bom.

Eliezer Rabinovici – Mas queremos preservar nossa diversidade. Não queremos que todos façam a mesma coisa.

Carsten Dose – Acho que esta discussão transmitiu algumas das ideias e da energia que saíram do nosso encontro ao longo dos dois últimos dias. Muito obrigado.

 

Nota

1 Sistema de contratação em aberto que acena com a possibilidade de o pesquisador tornar-se professor pleno.
* O IEA foi um dos Institutos de Estudos Avançados baseados em Universidades participantes de encontro ocorrido de 25 a 27 de outubro de 2011, no IEA da Universidade de Freiburg, Alemanha. A conferência internacional de IEAs teve a finalidade de discutir expectativas, desafios e novas fronteiras para esse tipo de instituição. O IEA foi representado por seu diretor, César Ades, que foi um dos expositores da sessão dedicada à discussão sobre fontes de financiamentos dos IEAs. O outro instituto da América Latina presente no encontro também é brasileiro: o recém-criado Centro de Estudos Avançados da Unicamp, que foi representado por seu coordenador, Pedro Paulo Abreu Funari.

 

 

Recebido em 25.7.2011 e aceito em 3.8.2011.

 

 

Carsten Dose foi diretor-gerente (Geschäftsführer) do Insitute Freiburg de Estudos Avançados (Frias), Alemanha, desde a sua fundação, em abril de 2008. @ – info@frias.uni-freiburg.de
Tradução de Carlos Malferrari. O original em inglês – "Fascinating diversity of outlooks"  – encontra-se à disposição do leitor no IEA-USP para eventual consulta.