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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.25 no.73 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000300007 

IEAS: CIÊNCIA E SOCIEDADE

 

O Centro de Estudos Avançados da Unicamp: objetivos e perspectivas

 

 

Pedro Paulo A. Funari; Renato Pedrosa

 

 

Introdução

Este artigo apresenta, de forma breve e sucinta, o Centro de Estudos Avançados da Unicamp, criado em 2010, o contexto histórico do seu surgimento, as atividades em curso e as perspectivas. Partimos do próprio

conceito de estudos avançados, para chegarmos, em seguida, às suas experiências no Brasil e, em particular, na Unicamp.

 

O conceito de estudos avançados, em suas origens históricas, sociais e políticas

O conceito de estudos avançados não pode ser desvencilhado de seu contexto histórico, político e social. A partir de uma óptica externalista da História da Ciência (Patterson, 2001; Funari, 2003, p.291-3), podem-se entender as transformações nos campos científicos na medida em que se contextualizem, nos embates das relações de poder, as tendências e ressonâncias científicas. Neste momento, quando comemoramos o quarto centenário de Galileu Galilei (1967), não podemos deixar de observar a relevância do contexto (Beller et al., 1993). O surgimento dos estudos avançados liga-se ao desenvolvimento científico das primeiras décadas do século XX, em particular na Alemanha1 e no Reino Unido,2 mas o nome só foi usado nos Estados Unidos, com a criação do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, New Jersey. O conceito foi apresentado por Abraham Flexner, grande reformador da educação, em geral, e do ensino da Medicina, em particular. Segundo o estudioso norte-americano:

Passei muitos anos lutando para que nossas escolas estivessem mais concretamente conscientes do mundo em que seus alunos e estudantes estavam destinados a viver. Agora, eu, às vezes, me pergunto se esta tendência não se tornou forte demais e se não deveria haver oportunidade adequada para uma vida plena, se o mundo fosse esvaziado de algumas das coisas inúteis que lhe dá significado espiritual; em outras palavras, se nosso conceito do que é útil não se tornou demais estreito para ser apropriado para as possibilidades errantes e caprichosas do espírito humano.3

O surgimento do conceito, assim, esteve ligado à busca de um conhecimento que pudesse ultrapassar as barreiras das disciplinas formais e da obtenção de títulos acadêmicos, como bacharelado, mestrado, doutorado ou cátedra.4 Nem por isso, contudo, o modelo surgido em Princeton e difundido por muitas instituições, nas décadas seguintes, deixou de contar com faculdades e com cátedras permanentes (permanent fellows). Esse sistema distanciava-se das instituições tradicionais pela ênfase na pesquisa, pelo descompromisso com os títulos acadêmicos e com a busca da excelência. Por esse motivo, foram atraídos grandes talentos, como estudiosos agraciados com os prêmios mais destacados, tal como o Nobel.

Com o tempo, outros modelos viriam a enfatizar aspectos diversos, com menor atenção em temas fixos ou pesquisadores permanentes, em estadas menos prolongadas dos estudiosos no retiro de um Instituto de Estudos Avançados. Da mesma forma, foi colocada em destaque a interação das ciências, na busca da superação das delimitações disciplinares. Em muitos casos, juntam-se os pesquisadores em um ambiente de convivência que favorece as trocas intelectuais e pessoais,5 em uma atmosfera caracterizada pelo lema da liberdade e da vida compartilhada.6 Os membros da confraria compreendem apenas doutores, estudiosos já formados, por meio de estadas financiadas (visiting fellowships), subsídios diferenciados, poucas obrigações formais e muitas oportunidades.7 Outro aspecto muito recorrente nas instituições de estudos avançados consiste na disponibilidade de estudiosos como critério para o estabelecimento de programas de pesquisa.8 Desde o início, com o Instituto de Princeton, conviviam estudiosos das Ciências Naturais e Humanas,9 fator importante, mas que não caracterizará todos os centros, pois surgiram, com o tempo, estudos avançados em áreas e campos específicos do conhecimento.10

 

As especificidades dos estudos avançados

A difusão dos Institutos de Estudos Avançados tardou. Apenas em 1971 surgiu o primeiro centro no continente europeu, 40 anos após a abertura do pioneiro núcleo em Princeton (1930), na Holanda (Netherlands Institute for Advanced Studies in the Humanities and Social Sciences) (Hugenholtz, 2001). A difusão foi lenta, e, fora dos países industrializados, a formação do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, em 1986, marcou época e representou, de certa forma, a concretização do movimento de democratização que se espalhava pelo mundo, com os anos finais da guerra fria (1947-1989) e com o declínio dos regimes ditatoriais na América Latina e no Brasil, em particular. Não se deve estranhar que a primeira Universidade brasileira digna do título tenha sido também a primeira a instituir um centro voltado à excelência acadêmica, externo às estruturas departamentais e às unidades de ensino.

A partir da década de 1990, com o crescimento exponencial da comunicação virtual, a valorização crescente da diversidade cultural e ambiental e a integração e internacionalização da pesquisa, os estudos avançados difundiram-se de forma mais acentuada, em particular a partir do início do século XXI. O crescimento dos Institutos de Estudos Avançados baseados em Universidades foi vertiginoso, pois havia apenas cinco em 1986, 13 em 2000, 20 em 2005 e 32 em 2010. Isso se explica, em grande parte, pelo papel estratégico e fundamental que os estudos avançados possuem no sentido de inserirem uma Universidade no âmbito mundial. Isso ocorre, em primeiro lugar, por suas características próprias, ao promoverem a pesquisa interdisciplinar, ao reunirem os melhores pesquisadores internacionais e ao criarem uma atmosfera inspiradora e estimulante. Embora predominem as instituições de países industrializados, como seria de esperar, a atenção dada pela China demonstra o reconhecimento do papel central dos estudos avançados na busca por uma inserção mundial. O mesmo pode ser dito das outras áreas do globo.

Mas, por que o interesse, crescente e expandido, nos estudos avançados? Algumas respostas foram dadas em eventos recentes que congregaram dirigentes de centros de estudos avançados, em particular em setembro de 2010 em Freiburg11 e em março de 2011 na Unicamp. Algumas delas são bem diretas e relevantes: as melhores Universidades do mundo possuem tais institutos e o que há de melhor na ciência mundial provém, em boa medida, dessas instituições. Por isso mesmo, países como a China e a Coreia têm investido nessas iniciativas, já com resultados importantes. A famosa prova do pudim dos ingleses ("a prova do pudim está em comê-lo") mostra, portanto, que os estudos avançados são um grande êxito.

Isso, contudo, não responde às causas, àquilo que explica esse resultado. O que explica esse sucesso tão retumbante? Para isso, conviria retornar, como propôs o físico Peter Goddard, diretor do IEA de Princeton, em sua intervenção em março de 2011, na Unicamp,12 aos primórdios da busca pelo conhecimento, entre os gregos, com sua especulação desembaraçada e descompromissada (aquilo que eles chamavam de skholé, de onde provém a nossa "escola" e o termo scholar em inglês, que vai além do "pesquisador" ou "especialista" do português, denotando o autêntico estudioso de uma área). Esse princípio foi também aquele que esteve presente, sob novas formas, no surgimento dessa instituição tão fundamental para a organização do conhecimento, a Universidade medieval, com seu objetivo de permitir tudo almejar estudar (daí o nome que está conosco até hoje, universitas studiorum, o conjunto dos estudos). Essa ambição foi retomada, sob novas formas, a partir da ciência experimental, racional e especializada na fundação da moderna Universidade, a partir do modelo germânico de Wilhelm Von Humboldt, para quem tudo se devia tentar saber e fazer (alles wissen, alles tun).

Com o passar das décadas, desde o início do século XIX, a ciência passou por um processo de crescente especialização e burocratização. Por um lado, cada vez se sabe mais sobre menos, e sem essa supersegmentação, muito do avanço da ciência moderna seria impossível. Como se diz apenas em parte de chacota, numa defesa de tese de doutoramento, o único verdadeiro interlocutor que domina as minúcias do minúsculo objeto de estudo é... o candidato! De outra parte, como estudou o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1984), a Universidade e a ciência não podem prescindir de uma estrutura administrativa e de poder. As cátedras e os departamentos são formas desse poder burocrático que, como toda forma de gestão, zela pela ordem, pela manutenção do status quo, pela corporação de ofício, tudo complicado por ambientes fechados que propiciam a proliferação de sentimentos humanos nem sempre propícios ao afeto e à colaboração.

O surgimento do primeiro IEA em Princeton, em 1930, procurou marcar uma ruptura com algumas das aporias e dificuldades da superespecialização, burocratização e sentimentos menores e daí o seu imenso sucesso, já nos seus primórdios, com a estada, logo de início, do físico Albert Einstein e de outros grandes gênios como o historiador da arte Erwin Panofski, ambos foragidos da sociedade e ciência alemãs sob o jugo nazista. Algumas das características de Princeton mantiveram-se como pedras angulares dos estudos avançados desde então, em primeiro lugar, como lembrou o Prof. Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, reitor (2002-2005) e professor da Unicamp (IFGW), no simpósio internacional na Unicamp, em março de 2011: a pesquisa desinteressada, sem cobrança administrativa, sem visar necessariamente a aplicações, sem a pressão do "publish or perish" vigente no mundo acadêmico usual. A ciência tornou-se, nas últimas décadas, cada vez mais preocupada com a contagem da produção acadêmica, com o número de artigos, citações e demais dados quantificáveis, o que tem sua justificativa, mas constitui um claro limitador à reflexão descompromissada que tanto pode resultar num livro de peso, numa equação genial, como numa mudança de ideia ou mesmo num fracasso. Os dois resultados mais importantes na história recente da Matemática, o Teorema de Fermat (Andrew Wiles, 1995) e a Conjectura de Poincaré (Grigori Perelman, 2002), por exemplo, foram demonstrados por pesquisadores que se afastaram, de alguma forma, das exigências da carreira acadêmica (Wiles se trancava no sótão de sua casa em Princeton, sem que mesmo sua esposa soubesse no que trabalhava, e seus colegas da Universidade o viam como estagnado em sua careira; Perelman vivia com a mãe e não estava associado a nenhuma instituição). O ambiente desinteressado dos IEA, como atestam seus membros mais bem-sucedidos, proporcionando a necessária liberdade para mudar de rumos ou mesmo fracassar num intento, foi fundamental para êxitos posteriores que não surgiriam em outra situação. A busca da excelência, portanto, nem sempre passa por uma medição que se possa quantificar. Avanços significativos na ciência não seriam possíveis em um ambiente outro, que não aquele propiciado pela busca desinteressada pelo conhecimento.

Os estudos avançados em Universidades possuem características próprias. Durante o encontro em Freiburg, dentre os temas recorrentes, encontra-se a preocupação com a integração e relevância dos estudos avançados para a Universidade e, como decorrência, para a sociedade como um todo. Enquanto Princeton baseia-se nos benefícios indiretos e no longo prazo, as Universidades mostram sua relevância de forma muito mais direta e imediata. Entre os muitos benefícios para a Universidade, está a incubação de pesquisa inovadora, de modo a injetar energia em atividades menos tradicionais e arriscadas, mas promissoras e prenhes de avanços substanciais. No dia a dia, a publicação de artigos em revistas especializadas constitui o cerne de cada disciplina acadêmica, leva ao acúmulo de pontos nas avaliações institucionais, nos diversos países. Isso tudo é muito positivo, em particular, para cada disciplina e para cada campo especializado de pesquisa, mas constitui, ao mesmo tempo, uma limitação à criatividade e à busca pelo desconhecido que pode levar a grandes avanços no conhecimento e no seu potencial de transformação da sociedade. Os estudos avançados nas Universidades cumprem essa função muito especial e que transcende os limites disciplinares tradicionais.

 

O CEAv/Unicamp

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) possui uma trajetória única no contexto brasileiro e que explica as motivações específicas, no campo dos estudos avançados. As instituições de ensino superior são tardias no Brasil, tendo surgido as duas primeiras escolas de direito apenas em 1827 em Olinda/Recife e São Paulo, e, por muitas décadas, apenas escolas isoladas de engenharia, medicina e algumas outras (Cunha, 2007), até a criação da primeira Universidade nos moldes internacionais, em 1934, a Universidade de São Paulo (USP), surgida quase quatro séculos após as primeiras Universidades da América de colonização espanhola (México e Peru, em 1551). Apesar desse surgimento tardio, a USP tornou-se uma das mais relevantes da América Latina, o que se relaciona ao empenho excepcional da ciência brasileira, da sua pós-graduação e, em particular, do Estado de São Paulo em fomentar a pesquisa e a educação superior. A criação da Unicamp (1966) e a consolidação de faculdades estaduais isoladas, que vinham se desenvolvendo ao longo das décadas de 1950-1960 no interior do Estado de São Paulo, na Unesp (1976), resultavam de um movimento no sentido de interiorizar o ensino superior e a pesquisa e de dotar o Estado de São Paulo de um sistema complexo, articulado e de qualidade, vislumbrado na Lei n.161 de 1948, que previa a expansão da USP para Campinas, Ribeirão Preto, São Carlos e Bauru.

A interveniência do golpe de Estado e o subsequente período ditatorial (1964-1985) viriam a tornar esse quadro mais complexo. A criação da Universidade Estadual de Campinas (Castilho & Soares, 2008) envolvia um plano de inovação na abordagem científica e social, com a ambição de permitir que a instituição pudesse se destacar pela dedicação à pesquisa e à especialização em algumas áreas, à diferença do modelo universalista cujo melhor exemplo era e continua sendo, no Brasil, a Universidade de São Paulo. Por isso, as turmas seriam menos numerosas, a pós-graduação seria, a partir da segunda década, foco de particular atenção, e a produtividade docente e discente figuraria entre os objetivos centrais da nova instituição. Enquanto a Universidade de São Paulo, assim como outras mais visadas pelo regime, como a UFRJ, tinham seus professores cassados ou constrangidos à aposentadoria, a Unicamp abria suas portas para estudiosos perseguidos e chegou, por isso mesmo, a receber os acervos de eminentes perseguidos, como nos casos notáveis de Paulo Duarte (Funari, 1994; Mendes, 1994), fundador da USP, e Sérgio Buarque de Holanda, historiador da USP e um dos grandes pensadores sobre o Brasil (cf. http://www.unicamp.br/siarq/sbh/produdos_pesquisa.html). 

Hoje, a Unicamp apresenta-se como a segunda Universidade brasileira, em números absolutos, na produção científica, e em primeiro lugar, se considerarmos a produção científica per capita por professor e por aluno, detendo, ainda, a maior nota média dos cursos de pós-graduação no país (Levy, 2011), em primeiro lugar em número absolutos e per capita no registro de patentes por Universidades (Cornachione, 2011, p. 61).13 Nesse contexto, a criação do Centro de Estudos Avançados da Unicamp (CEAv), em março de 2010, por iniciativa do atual reitor, professor Fernando Costa, demonstra o empenho institucional para dotar a Universidade de um órgão à altura dos desafios à frente, a começar pela escolha dos temas e da sua relevância acadêmica e, em especial, para o nosso país: Ensino Superior; Esporte; Relações China/Brasil; Humanidades. São questões importantes, tanto em termos epistemológicos como em sociais, em particular no momento em que o Brasil encontra pela frente desafios resultantes da sua crescente inserção internacional, crescimento econômico e diminuição das desigualdades. Além disso, estão em sintonia com as discussões em outros Institutos de Estudos Avançados, por sua abrangência, atualidade, impacto científico e social, e por tratarem de temas que, em geral, extrapolam estruturas departamentais e áreas tradicionais do saber acadêmico.

O CEAv publica a revista Estudos Avançados Unicamp online (http://www.gr.unicamp.br/ceav/revista/index.php; ISSN 21797552) e o quadrimestral Ensino Superior Unicamp (http://www.gr.unicamp.br/ceav/revistaensinosuperior/ed03_junho2011/index.php; ISSN), tanto em papel como em versão eletrônica. No primeiro caso, são publicados artigos resultantes de palestras ou de intervenções dos professores atuantes nos grupos de estudos, assim como pequenos artigos referentes a eventos e atividades do Centro. Trata-se, portanto, de um meio de divulgação rápido e dinâmico, voltado para o meio digital. Já Ensino Superior Unicamp é uma publicação especializada, com edição jornalística e profundidade acadêmica, com seções dedicadas a notas curtas, entrevistas, artigos de fundo, história, textos fundamentais e resenhas, todos voltados para a análise da educação superior, nacional e internacional. Publicada em papel em português, encontra-se disponível na internet tanto no vernáculo como, em breve, em inglês. O CEAv produz, ainda, pelo programa Temas de Estudos Avançados (http://www.rtv.unicamp.br/) produzido pela RTV Unicamp e disponível on demand na rede. O programa apresenta entrevistas com especialistas como John Douglass (Berkeley – EUA), Liz Reisberg (Boston College – EUA), Eric Dunning (Leicester – Reino Unido), Iris Litt (Stanford – EUA) e Colling Higgs (Memorial University – Terra Nova – Canadá). Esses programas estão disponíveis para serem baixados da internet tanto no site da RTV Unicamp como no YouTube.

O CEAv organiza-se por meio dos seus grupos de estudo, e convém tratar, agora, ainda que de forma breve, de cada um deles. O Grupo de Estudos em Educação Superior (GEES) (http://www.gr.unicamp.br/ceav/content/grupos_ensinosuperior.php) atua desde o primeiro semestre de 2010, tendo desenvolvido diversas atividades, incluindo dois seminários internacionais: o primeiro sobre General Education (http://www.gr.unicamp.br/ceav/content/eventos_educacaogeral.php) e o segundo sobre o Processo de Bolonha (http://www.gr.unicamp.br/ceav/content/eventos_processobolonha.php). Além disso, trouxe para períodos mais longos os professores John Douglass, do Center for Studies in Higher Education da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Liz Reisberg, do Boston College, associada ao Center for International Higher Education daquela instituição. Por convite do editor da publicação International Higher Education, Philip Altbach, membros do grupo publicaram três ensaios sobre diversos aspectos da educação superior brasileira (https://htmldbprod.bc.edu/pls/htmldb/CIHE.cihe_public_rpt2.download_issue?p_issue_id=114609).O grupo participou ativamente da elaboração e edição dos primeiros números da revista Ensino Superior Unicamp, na época ligada à reitoria da Unicamp, e, a partir do terceiro número, assumiu sua edição. Além dessas atividades, o GEES está trazendo dois projetos internacionais para a Unicamp e a Região Metropolitana de Campinas. O primeiro é a aplicação de uma pesquisa sobre a vida estudantil em uma Universidade voltada para a pesquisa, como a Unicamp, desenvolvida por um consórcio de Universidades públicas americanas, liderado pelo campus de Berkeley da Universidade da Califórnia, conhecido em inglês como "Student Experience in the Research University". O segundo será o desenvolvimento de um projeto sobre o impacto da educação superior na Região Metropolitana de Campinas, sob os auspícios das Secretarias Estaduais do Desenvolvimento Metropolitano e do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, que incluirá uma consultoria da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que congrega as principais economias do mundo e tem como objetivo desenvolver estudos sobre planejamento e desenvolvimento econômico. O projeto terá ainda o objetivo de apresentar ao governo do Estado subsídios para políticas para desenvolver a educação superior em nossa região, visando à sua competitividade econômica, científica e tecnológica. Outro projeto em elaboração inclui uma escola internacional sobre gestão da educação superior, prevista para ocorrer em meados de 2012, além de eventos internacionais sobre acesso à educação superior e sobre indicadores na área de ciência e tecnologia.

O Grupo de Estudo Avançado em Esporte (http://www.gr.unicamp.br/ceav/grupo_esportes.html) já está em atuação desde 2010. Nesse âmbito, foram realizados eventos e recebemos especialistas visitantes, cujos papers estão publicados na revista do CEAv, Estudos Avançados Unicamp online (http://www.gr.unicamp.br/ceav/revista/). Os temas abordados incluem a formação de jovens atletas, os modelos de esporte e os cenários pós-jogos olímpicos. Em maio de 2011, ocorreu a visita do Prof. Eric Dunning, da Universidade de Leicester, no Reino Unido, referência máxima da sociologia do esporte, da violência na prática esportiva e do holocausto. Como resultado da sua atuação no CEAv, serão publicados três livros, dois em português, no Brasil, e outro em inglês, no Reino Unido, sobre Hooliganismo e violência no esporte, Estudos sobre o processo civilizatório e Civilisation, sport and violence. A socióloga do esporte americana Kimberly Schimmel, da Universidade Estadual Kent, nos Estados Unidos, tem atuado com o Grupo de Estudos para tratar do efeito social dos grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e gesta um volume sobre esse tema, a ser publicado em 2012.

A partir de 2011, dois novos grupos de estudos passaram a atuar, um sobre as relações Brasil/China, coordenado pelo Prof. Carlos Pacheco (Instituto de Economia), e outro sobre os desafios das Humanidades, sob a coordenação do Prof. Alcir Pécora (Instituto de Estudos da Linguagem). A China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e a segunda economia mundial, e há um interesse crescente e mútuo dos dois países. O Grupo de Estudos Brasil/China está composto por estudiosos da Unicamp e por um conselho consultivo externo e iniciou suas atividades públicas com um ciclo de seminários no segundo semestre de 2011, com palestras de estudiosos como o embaixador Amaury Porto de Oliveira. Um livro com participação de estudiosos da Unicamp e de estrangeiros em torno de quatro grandes temas está em elaboração: aspectos econômicos, sociais, ambientais e científicos. Em paralelo à criação de um Instituto Confúcio na Unicamp, o Grupo visa à maior integração e cooperação cultural e acadêmica com a China.

As Humanidades representam outro tema da mais alta relevância para os rumos do país, a partir do anseio por uma formação dos cidadãos mais bem informada nos valores, nas tradições e críticas do amplo espectro que compreende o conhecimento do ser humano, da literatura, passando pela história, a filosofia e até as artes. À formação das pessoas, segue-se a preocupação com os limites do conhecimento humano, um dos grandes desafios das Humanidades nas últimas décadas, com os embates entre a certeza da transitoriedade do que sabemos e os anseios pela superação dessa relatividade inevitável. Isso leva a um terceiro aspecto: a relevância social das humanidades, ou seu potencial de fornecer elementos para a liberdade individual e o bem-estar coletivo. Como discutido no encontro de Freiburg, a relevância das Humanidades não pode ser ligada ao retorno financeiro, mas, ao contrário, a pesquisa humanística desinteressada e mesmo arriscada constitui elemento central para a criatividade que permeia toda atividade que busca o conhecimento, em qualquer ramo da ciência (Frick et al., 2011, p.21). A discussão desses e de outros temas está entre os objetivos do Grupo de Estudos sobre Humanidades.

 

Conclusão

O professor Fernando Costa, reitor da Unicamp e criador do CEAv, na abertura do Primeiro Simpósio Internacional sobre Estudos Avançados, ressaltou o empenho para que a Unicamp possa contar com os benefícios dos estudos avançados, tanto para a Universidade como para a sociedade brasileira em geral. Não há Universidade de primeira linha (world class) que não tenha nos estudos avançados um dos seus pilares. A experiência da Universidade de São Paulo – pioneira e líder na América Latina – demonstra como os estudos avançados podem exercer um papel capital na promoção tanto da ciência de ponta como da inserção social. O Prof. César Ades,  atual diretor do IEA-USP, tem ressaltado como avanços significativos para a Universidade advieram, no último quarto de século, da atuação inovadora dos estudos avançados.

O Prof. Fernando Costa aprovou a construção da sede do CEAv, um edifício de três andares e mil metros quadrados. Os estudos avançados na Unicamp marcam um empenho decisivo da Universidade, tanto acadêmico como social, cujos benefícios serão sentidos agora, mas ainda mais no médio e no longo prazos. O seminário sobre os desafios de um Instituto de Estudos Avançados na Universidade brasileira, na Unicamp, em 2010, demonstrou a efervescência dos debates e relevância dos Estudos Avançados como fator indutor de ações, no longo prazo, para a Universidade e para a sociedade. O evento em Freiburg indica a importância mundial dos estudos avançados, e a participação da Unicamp nesse processo revela o empenho da Universidade em atuar sempre na vanguarda científica, atenta às demandas da sociedade brasileira. Por iniciativa do Prof. César Ades (IEA-USP ), o CEAv tem participado da articulação de uma rede de instituições de estudos avançados brasileiros, em cooperação com o Instituto de Estudos Avançados Interdisciplinares da UFMG (http://www.gr.unicamp.br/ceav/revista/content/pdf/funari_reuniao_de_estudos_avancados_na_usp_01072011.pdf). O CEAv inicia, portanto, suas atividades em cooperação intensa no âmbito nacional e internacional. Os primeiros frutos indicam um caminho futuro prenhe de resultados para a Universidade Estadual de Campinas e para a ciência nacional.

 

Agradecimentos

Agradecemos ao Prof. Fernando Ferreira Costa, reitor da Unicamp, a oportunidade de atuar no campo dos estudos avançados, e aos colegas Ricardo Anido, Werner Frick, Mohamed Habib, Marcelo Knobel, Euclides de Mesquita Neto, Paulo César Montagner, Carlos Pacheco, Alcir Pécora, Ronaldo Pilli e Paulo Eduardo Moreira Rodrigues da Silva, assim como a Raoni Cordeiro, Cleide Filipini, Stefanie Klein, Marli Lima, Ricardo Muniz e Maria Angélica Pfister. Devemos mencionar, ainda, o apoio institucional do Gabinete do Reitor da Unicamp. A responsabilidade pelas ideias restringe-se aos autores.

 

Notas

1 Como o Kaiser Wilhelm Institut, criado em 1917, tendo Einstein entre seus pesquisadores.
2 Como o All Souls College, Oxford.
3 "I have myself spent many years pleading that our schools should become more acutely aware of the world in which their pupils and students are destined to pass their lives. Now I sometimes wonder whether that current has not become too strong and whether there would be sufficient opportunity for a full life if the world were emptied of some of the useless things that give it spiritual significance; in other words, whether our conception of what is useful may not have become too narrow to be adequate to the roaming and capricious possibilities of the human spirit" (originalmente publicado em 1937, disponível em: <http://library.ias.edu/hs/da/UsefulnessOfUselessKnowledge.pdf>).
4 Cf. Abraham Flexner, no mesmo artigo, intitulado "The usefulness of useless knowledge": "Institutions of learning should be devoted to the cultivation of curiosity and the less they are deflected by considerations of immediacy of application, the more likely they are to contribute not only to human welfare but to the equally important satisfaction of intellectual interest which may indeed be said to have become the ruling passion of intellectual life in modern times" (originalmente publicado em 1937, disponível em <http://library.ias.edu/hs/da/UsefulnessOfUselessKnowledge.pdf>.

5 Cf. <http://www.casbs.org/introduction/?PHPSESSID=ua75qcd3knqpuh297u8f5qedn7>, sobre o Center for Advanced Study in the Behavioral Sciences at Stanford University, Palo Alto.
6 Cf. Henk Wesseling (2002, p.21): "international and inderdisciplinary are thus the keywords for an Institute for Advanced Study. But to encapsulate the idea of an Institute for Advanced Study I would prefer to use two other notions: freedom and community" ["internacionalidade e interdisciplinaridade são, portanto, os conceitos-chave de um Instituto de Estudos Avançados. Mas, para resumir a ideia de um Instituto de Estudos Avançados, prefiro usar duas outras noções: liberdade e comunidade"].
7 Como sugerem os lemas de Flexner: "no duties, only opportunities; teach best by not teaching at all" ["nenhuma obrigação, apenas oportunidades; ensina-se melhor, ao não se ensinar"].
8 Cf. Steve Batterson (2006, p.174): "For years Flexner had subscribed to the Gilman Philosophy that availability of personnel drove the choice of programs" ["Por anos Flexner adotou a filosofia de Gilman de que a disponibilidade de pessoas dirigia a escolha de programas"].
9 Cf. Steve Batterson (2006, p.174): "it was art history and archaeology that were at the core of Flexner's plan" ["no centro do plano de Flexner estavam a História da Arte e a Arqueologia"].
10 Por exemplo, Instituto de Estudos Avançados, Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, Ministério da Defesa do Brasil <http://www.ieav.cta.br>; Institute for Advanced Studies in the Humanities, University of Edinburgh <http://www.iash.ed.ac.uk>.
11 Na reunião pioneira de Freiburg, pela primeira vez reuniram-se os Institutos de Estudos Avançados de Universidades, num total de 32, dos cinco continentes e de 19 países, quatro deles em desenvolvimento (África do Sul, Brasil, China e Índia). A América Latina esteve presente com o pioneiro Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, estabelecido em 1986 por iniciativa arrojada do então reitor José Goldemberg, e com o recém-criado Centro de Estudos Avançados da Unicamp, CEAv (www.gr.unicamp.br/ceav), projeto de fôlego do reitor da Universidade, professor Fernando Ferreira Costa.
12 No dia 23 de março de 2011, a Unicamp sediou o primeiro simpósio internacional sobre estudos avançados em solo brasileiro, com a participação dos diretores dos institutos de Princeton, Stanford, Jerusalém, além do IEA/USP e do Centro de Estudos Avançados – CEAv/Unicamp, com os comentários do diretor científico da Fapesp, Prof. Brito Cruz e do Prof. Marcelo Knobel (pró-reitor de graduação da Unicamp). Essa pioneira iniciativa em território brasileiro segue-se ao encontro de setembro de 2010, em Freiburg, Alemanha, no qual estiveram presentes, também pela primeira vez, os Institutos de Estudos Avançados sediados em Universidades de todos os continentes, quando o CEAv-Unicamp e o IEA/USP representaram a América Latina (Jornal da Unicamp, 15 março 2011, p.2).
13 No período entre 2000 e 2008, a Unicamp registrou 446 patentes; a USP, 312; a UFMG, 218; e a UFRJ, 177 (Cornachione, 2011, p.61).

 

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Recebido em 19.9. 2011 e aceito em 27.9.2011.

 

 

Pedro Paulo A. Funari é professor titular do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp.  @ – ppfunari@reitoria.unicamp.br
Renato Pedrosa é professor titular do Departamento de Matemática do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica e coordenador associado do Centro de Estudos Avançados da Unicamp.  @ – renato.pedrosa@reitoria.unicamp.br