SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.25 issue73Desafios e oportunidades para Institutos de Estudos Avançados: uma perspectiva a partir da Europa Central e OrientalInstituto Fudan de Estudos Avançados: ênfase em abordagens transdisciplinares author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.25 no.73 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000300010 

IEAS: CIÊNCIA E SOCIEDADE

 

O Collegium de Lyon (Instituto de Estudos Avançados)

 

 

Alain Peyraube

 

 

A história da ciência e das pesquisas empíricas nos diz que alguns lugares e instituições são melhores do que outros quanto a oferecer um ambiente que seja propício a promover avanços em pesquisa e estimular a criatividade

científica e acadêmica. Esses são, muitas vezes, lugares que permitem pequenos grupos de pesquisa a prosperar em um ambiente adequadamente privilegiado e intelectualmente rico, que também seja caracterizado por hierarquias planas, uma liderança esclarecida e um horizonte temporal suficientemente longo. Fazem-se necessários tempo e o tipo apropriado de local para o desenvolvimento de novas ideias que se afastem de investigações do mainstream, se caminhos para novas descobertas emocionantes hão de ser abertos.

Também é interessante observar que os avanços científicos frequentemente são acompanhados, ou mesmo precedidos, de inovações na maneira como a pesquisa é organizada. Inovação institucional cientificamente orientada, portanto, confere uma vantagem comparativa para as instituições de pesquisa que sejam capazes de antecipar e/ou se adaptar mais rapidamente, criando um "ajuste" ótimo entre os campos de pesquisa emergente e suas novas necessidades em termos de infraestrutura de pesquisa, mudanças nos padrões de colaboração e, mais geralmente, na formação do ambiente de pesquisa de modos sustentáveis para pesquisa de ponta.

Foi nessa base e também no uso do modelo de outros Institutos de Estudos Avançados (IEA) no mundo que têm demonstrado a sua eficácia que o Collegium de Lyon (CDL) foi criado em 2008, tendo em mente as duas características essenciais que definem um IEA: uma completa abertura de espírito no âmbito internacional e de pesquisa que seja ativamente interdisciplinar. Ao certificar-se de que a interdisciplinaridade foi colocada no centro dos programas de convite desde o início, o CDL considera que esse seja efetivamente um meio de favorecer o fortalecimento e a diversificação da pesquisa realizada em uma estrutura disciplinar, enfatizando a dinâmica de cada disciplina. Também permitiu uma visão atualizada de objetos familiares e, desse modo, a possibilidade de multiplicar os ângulos de abordagem, favorecendo o enriquecimento de inspiração científica.

 

Apresentação

Atualmente, o CDL é um dos quatro Institutos de Estudos Avançados franceses agrupados no Institut Français des Réseaux d'Etudes Avancées (RFIEA), que tem sede em Lyon. Trata-se de uma estrutura que é concebida como um centro de pesquisa independente que permite que uma comunidade de pesquisadores de alto nível e professores tenha a oportunidade, por um período limitado de seis meses a um ano, de liberar-se das restrições habituais associadas às suas atividades de ensino e/ou administração de pesquisa, a fim de se dedicar inteiramente ao trabalho de investigação.

Como consequência, não há restrições sobre disciplina, tema específico ou contexto cultural. Os residentes convidados têm total liberdade para seguir o trabalho de sua escolha, sem nenhum programa de pesquisa predefinida que restrinja a sua criatividade. O IEA não foi concebido para ser uma concentração de estudiosos convidados tendo como motivo o fato de todos trabalharem sobre o mesmo tema. Consequentemente, não existem realmente prioridades científicas. A abordagem é completamente "de baixo para cima", sendo somente os melhores estudiosos recrutados, independentemente do seu domínio de especialização ou do tema de sua pesquisa. A aposta foi desse modo feita para que novas oportunidades de pesquisa, as quais sejam verdadeiramente inovadoras e interdisciplinares, surjam dessa convivência sob condições ideais de trabalho, por acadêmicos do mais alto gabarito que estejam trabalhando em diferentes áreas e sobre diferentes temas.

Durante os últimos quatro anos, o CDL tem recebido, ou em breve terá recebido, 42 residentes, dos quais 24 são pesquisadores seniores e 18, jovens estudiosos (ou seja, têm menos de 40 anos de idade). Um total de 132 aplicações foi apresentado desde 2008, o que resulta em uma taxa de sucesso de 31%. Como os procedimentos de candidatura oferecem duas possibilidades – uma estada de cinco meses ou de 10 meses –, isso leva à seguinte análise: 38% dos candidatos escolheram um período de cinco meses, enquanto 62% escolheram permanecer 10 meses. Note-se que as permanências para pesquisa por menos do que cinco meses não são aceitas no CDL. Os candidatos também precisam indicar se estão se candidatando ao Programa Júnior (candidatos com menos de 40 anos) ou ao Programa Sênior.

Tendo evocado esses princípios e objetivos, agora estamos prontos a apresentar um primeiro balanço dos quatro anos iniciais do Collegium. Ainda é, sem dúvida, muito cedo para dar um panorama científico significativo, ainda mais se considerarmos que o número de residentes tem sido bastante limitado durantes os primeiros três anos de existência do IEA (dois em 2008, seis em 2009, nove em 2010, mas 19 em 2011 e 24 esperados em 2012). No entanto, pode-se verificar a predominância de dois setores de pesquisa nas aplicações concedidas: Linguística (com uma tendência cognitiva, mas tanto formal e generativa quanto funcional) e História (Antiga, Medieval e Contemporânea). As estadas de pesquisa dos primeiros linguistas já resultaram em publicações de importância em várias das grandes publicações internacionais. Em outros casos, nomeadamente em História Medieval, várias monografias estão próximas de ser finalizadas.

Interações com as instalações de pesquisa local também têm sido extremamente frutíferas. O acompanhamento dos residentes por mentores locais, um requisito obrigatório que foi definido na Carta do Collegium, sem dúvida explica a boa coordenação entre o trabalho dos acadêmicos e os programas de pesquisa sendo realizados em centros de pesquisa local. Esses mentores, selecionados pelo Comitê Científico do CDL, com base na lista elaborada pelo Comitê Executivo, têm desempenhado um papel decisivo em tudo relacionado à integração dos residentes dentro do contexto acadêmico e cultural da região.

É certo que vários outros pontos, menos positivos, precisam ser melhorados. Uma questão diz respeito à interdisciplinaridade. Os linguistas cognitivos têm trabalhado em colaboração com os psicólogos cognitivos ou especialistas em neurociências, em Lyon, independentes do Collegium, mas dentro dele; as discussões têm se mantido muito no nível das "Ciências Humanas e Sociais". Colocando ênfase no diálogo e no cruzamento de disciplinas, o Collegium de Lyon deve estar inteiramente aberto para outros campos científicos além de Ciências Sociais e Humanas, especialmente em matéria de pesquisa em sistemas complexos e ciências cognitivas, mas também em toda a gama de matérias, ciências naturais e ciências da vida.

É verdade, no entanto, que não constam candidatos selecionados exclusivamente nos domínios das Ciências Naturais ou Ciências da Vida. Essa lacuna representa uma situação que precisa ser sanada. Entre as aplicações em preparação – ainda não examinadas pelo Comitê Científico do Collegium –, algumas foram solicitadas na área da Genética e Física Teórica. No futuro, tais candidaturas no domínio do que geralmente é chamado de "Ciências Exatas" serão igualmente estimuladas, enquanto o CDL permanecerá vigilante em relação ao princípio de recrutar os melhores candidatos, independentemente do domínio da pesquisa.

O Comitê Científico e o Comitê Executivo do CDL poderiam também se beneficiar ao insistirem em traçar as prioridades diversas. Uma análise dos temas de pesquisa desenvolvidos desde 2008 no Collegium levou a um tema dominante emergente que poderia facilmente ser caracterizado como do domínio das ciências cognitivas e de complexidade, um domínio que se destaca como aquele em que as fronteiras disciplinares tornaram-se turvas por excelência. Essa orientação será mantida.

Também é definitivamente uma questão para nós hospedar mais pesquisadores que venham de países conhecidos como "emergentes" (como os países do Bric, ou seja, Brasil, Rússia, Índia e China), a fim de melhor diversificar nosso patrocínio que tem, até agora, favorecido candidatos da América do Norte ou da Europa.

 

Como se candidatar?

Existe um convite permanente para candidaturas. Um total de 20 posições de pesquisa está disponível a cada ano, e os pedidos podem ser apresentados a qualquer momento. A documentação para a candidatura inclui o currículo do candidato, as três ou quatro publicações que acredite serem as mais significativas e a proposta de pesquisa (entre cinco e 10 páginas). Os critérios de seleção são transparentes: a qualidade científica do projeto, os seus aspectos inovadores, os resultados e o impacto esperado sobre o perfil de pesquisa para a região.

O processo de seleção é de responsabilidade do Conselho Científico que se reúne duas vezes por ano. Para esse fim, utiliza-se de avaliações que têm sido solicitadas por especialistas externos. A lista de pré-seleção de candidatos é então submetida ao Conselho Administrativo para a sua aprovação. O processo de seleção dura cerca de cinco meses desde o momento de apresentação do pedido até a decisão final. O lapso médio de tempo entre a decisão final e a chegada de um novo residente no Colégio é da ordem de um mês e meio.

O website para baixar o formulário de candidatura é: www.collegiumlyon.fr.

 

Governo

O CDL é governado no momento por uma associação, que inclui:

• Um Conselho Administrativo (CA) de 16 membros fundadores (cerca de todas as instituições de ensino e de pesquisa nos limites urbanos de Lyon, a Universidade Jean Monnet de Saint-Etienne e da Delegação Regional de Rhône-Auvergne do CNRS) e dois membros parceiros (Escola Nacional Superior das Artes e Técnicas e Instituto Lumière).

O funcionamento desse CA, e portanto da Associação em si, é de responsabilidade de um secretariado composto de:

Olivier Faron, diretor-geral da École Normale Supérieure (ENS) de Lyon, presidente do CA e da Associação;

André Tiran, presidente da Universidade de Lyon-2, secretário do CA;

Gilles Pollet, diretor do Institut d'Études Politiques de Lyon, tesoureiro do CA.

• Um Conselho Científico, presidido por Yves Grafmeyer, constituído por 17 outros pesquisadores e professores, incluindo seis estrangeiros (dois alemães, um belga, um dinamarquês, um grego e um húngaro).

A direção do Collegium é de responsabilidade de Alain Peyraube, desde 1º de setembro de 2010, um pesquisador sênior do CNRS, que é auxiliado por um secretário executivo, Marie-Jeanne Barrier. Essa equipe executiva faz tudo ao seu alcance para aplicar as diretrizes que foram discutidas e as decisões tomadas por esses dois conselhos.

 

Instalações e equipamentos

Apoiado por autoridades regionais e locais, o Collegium de Lyon oferece acesso a todos os recursos e instalações em Lyon e em torno de Lyon, uma das metrópoles mais dinâmicas em pesquisa e desenvolvimento na Europa. Ele está localizado no coração de Lyon, próximo aos principais centros acadêmicos. Escritórios totalmente equipados, alugados no momento do ENS de Lyon, têm sido colocados à disposição dos residentes durante todo o período de suas permanências. Os residentes ficam hospedados em um hotel-residência próximo ao local de trabalho deles. A responsabilidade pela locação desses estúdios ou apartamentos, conforme o caso, foi inteiramente retomada pelo CDL.

No horizonte para 2013 haverá um novo prédio com cerca de 15 ou mais apartamentos para o IEA que será construído no campus do ENS, no âmbito do Acordo de 2007-2013 entre o governo francês e o da região. O planejamento e a construção se estenderão por um período de 18 a 24 meses, no máximo. Áreas de trabalho para os residentes (escritórios e infraestrutura) também estão planejadas para a área da universidade de Lyon-2 e Lyon-3, no bairro de Saint-Joseph em 2013. Nesse meio tempo, a ENS de Lyon continuará a disponibilizar ao IEA os escritórios necessários para seu funcionamento.

 

 

Recebido em 28.9.2011 e aceito em 5.10.2011.

 

 

Alain Peyraube é diretor do Collegium de Lyon e pesquisador sênior do CNRS. @ – collegium-lyon@ens-lyon.fr
Tradução de Valéria Wasserman. O original em inglês – "The Collegium de Lyon" (Institute of Advanced Studies)" – encontra-se à disposição do leitor no IEA-USP para eventual consulta.