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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.25 no.73 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142011000300013 

IEAS: CIÊNCIA E SOCIEDADE

 

O Instituto de Estudos Avançados: avançado em quê?

 

 

Carlos Guilherme Mota

 

 

"Avançado em que é este instituto?", perguntou ironicamente o professor Florestan Fernandes, cassado pela ditadura, ao retornar ao campus e entrar pela primeira vez na sala do Conselho Universitário

para proferir, a convite do recém-criado Instituto de Estudos Avançados (IEA), conferência sobre os descaminhos da democracia em nosso país. Respondi-lhe, sorrindo, que era para que mestres como ele pudessem ter um fórum aberto ao pensamento crítico, bem no cerne da USP...

Ora, a eleição do físico José Goldemberg para a reitoria da USP, em 1986, tornara-se, desde logo, acontecimento marcante na história da Universidade brasileira. Após anos de mediocridade e sedação do pensamento crítico na cúpula da instituição, desidratada à sombra do regime civil-militar de 1964, assistiu-se, por decisiva pressão da comunidade, a amplo debate entre candidatos e seus projetos para o futuro da Universidade, sobretudo os que se dedicassem aos graves problemas dessa sociedade.

 Uma certa ideia de IEA já vinha sendo aventada antes da gestão Goldemberg, animada por colegas da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) – Jeremias, Rocha Barros, Amelinha e Ernesto Hamburger, Pavan, entre outros – e por eminentes pesquisadores que frequentavam Institutos congêneres no exterior, como Erney Camargo. Vencedor, o novo reitor, que disputara a eleição com Dalmo Dallari, Jacques Marcovitch, Antônio Ferri e outros, logo deu a partida a uma série de projetos amplos. A criação de um IEA foi um dos primeiros a serem implementados. Habilmente, ele fez passar a proposta no Conselho Universitário, praticamente sem consultá-lo ("se eu levar à votação, podemos perder", disse-me), enquanto outros colegas legitimaram o projeto em assembleia da Adusp, com o saudoso físico e humanista Rocha Barros à frente.

Também lançado candidato à reitoria por iniciativa de membros da comunidade, sobretudo funcionários e alunos, eu defendera em meu programa a eleição direta para o mais alto posto universitário, uma reforma que abolisse os departamentos, a criação de um Centro de Estudos do Terceiro Mundo, de um  Instituto de Estudos Avançados e de uma abertura da USP para o mundo contemporâneo. Logo notei que minha chance era mínima, e passei a apoiar as candidaturas de Dalmo Dallari, Caio Dantas e Goldemberg. O físico, eleito, logo pinçou as três últimas propostas de meu programa, convidando-me para coordenar o processo que levaria à implantação desses dois novos centros e à recriação da Comissão de Cooperação Internacional (a CCInt, com ativa participação de Celso Lafer, Milton Santos, Ruy Leme, entre outros). O Centro de Estudos do Terceiro Mundo também teve boa partida e contou com nomes como os de Milton Santos, Antonio Candido, Amayo-Zevallos, William Saad Hossne (médico, ex-diretor científico da Fapesp e ex-reitor da Universidade Federal de São Carlos, eleito pela comunidade), Cremilda Medina, Darcy Ribeiro e outros; chegamos a organizar na sala do Conselho Universitário um impactante colóquio com três grupos distintos de africanistas da USP, envolvendo escritores e jornalistas africanos de peso, sobretudo dos países de língua oficial portuguesa. Fixamos nossas conclusões numa "Carta de São Paulo", publicada em cartaz com Amílcar Cabral ("Cultura, fator de libertação? Não. Libertação, fator de cultura"). Estabelecemos pontes com militantes "do lado de lá", porém, dado o escasso respaldo da comunidade, nosso projeto fracassou: a USP nunca se pensou terceiro-mundista.

Já a ideia de um IEA "pegou" logo. A reitoria nomeou uma comissão multidisciplinar, integrada pelo professor de literatura e escritor Alfredo Bosi, o médico Alberto Carvalho da Silva (um dos criadores da Fapesp), o economista Paul Singer, os físicos Moysés Nussensveig e Roberto Leal Lobo, o fisiologista Gehrard Malnic, e por mim, coordenador, atuando o jovem e intenso historiador Edgard Luís de Barros como secretário acadêmico. Perguntei ao reitor: "Mas por que eu para presidir tal comissão" (logo transformada em Conselho Diretor, com alguns acréscimos)?". O professor Goldemberg respondeu cum granum salis que, "no momento, o país e a Universidade andavam necessitando mais de historiadores do que de físicos"... Aceitei, com temor, mas entusiasmo, aquele que seria meu mais importante desafio intelectual, profissional-existencial e político. E aprendi muito.

Para chegarmos aos nomes do primeiro Conselho, foram consultadas dezenas de colegas, nas diversas áreas do conhecimento, em um processo em que aprofundávamos nossas discussões sobre a vocação e sentido do novo Instituto, sobre os convites iniciais a serem feitos a especialistas nacionais e estrangeiros, sobre nossa forma de organização acadêmico-administrativa, atividades, publicações, e assim por diante. Como vários departamentos da USP estavam fechados em si mesmos, burocratizados, "desidratados" de ideias, inúmeros colegas-pesquisadores, neles e por eles marginalizados, porém cheios de vontade criativa, acorreram ao novo Instituto, dado seu proclamado caráter desburocratizante e vocação transdisciplinar. Vieram eles e elas prontamente participar, sugerir caminhos, confrontar posições de espírito e linhas de pesquisa, sem preocupação com postos, pro labore ou benefícios imediatistas. A novidade é que tantos colegas tão competentes não se sentiram excluídos do "núcleo duro" do IEA, ou seja, de seu Conselho Diretor, pois ficara claro que todos teríamos voz nos seus rumos: chegamos a constituir, após reunião ampla com cerca de 50 professores na modesta sede do IEA, no prédio da Antiga Reitoria, uma espécie de "senado invisível", ou seja, um colegiado informal cujos membros teriam sempre suas opiniões debatidas, e em geral implementadas pelo Conselho Diretor.

Criamos, desse modo, um modelo novo, sem cátedras, departamentos, sem alunos, sem biblioteca, sem os requisitos da titulocracia, porém com muita consulta e conexões com alguns departamentos e algumas bibliotecas e laboratórios existentes na USP. Enfim, um projeto por assim dizer coletivo.  Por sugestão de Rocha Barros, que aliás não fazia parte do CD mas era muitíssimo presente e "influente", tivemos apenas uma Enciclopédia Britânica e dicionários em nossa sede, mesas e um pequeno armário, e os membros da diretoria, pesquisadores visitantes e associados eram convidados a prover de bebidas para memoráveis e densas sessões de discussão na happy-hour...

Para alcançarmos tal modelo, estudamos vários regimentos, estatutos e hábitos de outros centros de pesquisa, como o Institute for Advanced Study de Princeton, o Collège de France, a Casa de las Américas de Cuba, o Instituto de Estudos Avançados de Berlim, o Wilson Center (com o qual faríamos memorável congresso na USP, Resocialing Economics, em coordenação com o historiador Richard Morse), o Colegio de México, a École des Hautes Études de Paris. Ou seja, de cada uma dessas experiências retiramos algo para construir coletivamente a nossa, conseguindo desse modo cravar no coração da USP, na Praça Central do Relógio, um centro de reflexão e pesquisa de alto nível, à mercê de seus participantes, todos pesquisadores ou escritores com postura e experiência multidisciplinar. Única condição: que não trouxessem para nosso IEA as mazelas de seus departamentos e faculdades. Como advertiu o jurista-historiador Raymundo Faoro, ao ser o primeiro convidado para inaugurar com densa conferência ("Existe um pensamento político no Brasil?", publicada no n.1 da revista estudos avançados, nossas atividades na sala do Conselho Universitário, apresentado por Antonio Candido: "Para dar certo, o Instituto deve evitar os chatos. Mas cuidado, porque você convida alguém que não é chato para participar, mas ele sempre pode trazer alguém que o é, e estraga o clima...".

Com tais precauções, o projeto foi dando certo, encontrando seu caminho, contando com uma reitoria extremamente aberta, dinâmica, e com simpatizantes de todos os quadrantes que desejavam viver uma experiência franca e desintoxicadamente universitária, mas também com aliados internos como Erney Camargo, coordenador  generoso do BID para a USP, ou apoiadores externos, como o discreto José Mindlin, com a Fundação Vitae. Do nosso Conselho Diretor também participaram sempre, por estatuto, representantes da chamada sociedade civil, alguns extremamente operosos e críticos como Geraldo F. Forbes e Fernando Leça.

Além dos grupos de estudo interdisciplinar sobre temas ou áreas fundamentais do conhecimento, as Conferências do Mês (bem pagas então, vale dizer, gravadas e publicadas na revista) sinalizavam o padrão que desejávamos estabelecer no campus. Também colóquios e outras iniciativas deram vida ao Instituto. Algumas delas foram memoráveis, desde os primeiros meses, como a vinda do economista e diplomata John Kenneth Galbraith, para falar sobre a corrida armamentista; de Boaventura de Sousa Santos, sobre a ciência pós-moderna (produziu no IEA importante livro sobre o tema); dos saudosos historiadores Manuel Moreno Fraginals, cubano, quando ainda não tínhamos relações diplomáticas com Cuba e Warren Dean, abridor de veredas no campo da historiografia do meio ambiente. Mais concorridas, as conferências de Jürgen Habermas e de Paulo Autran mobilizaram a USP de então. Mencionem-se vários outros notáveis historiadores, como Marc Ferro, Michel  Vovelle, Warren Dean, Carlo Ginzburg, Eric Hobsbawm, Christopher Hill e Kenneth Maxwell. Richard Morse, agitador de ideias, atuou alguns meses como pesquisador visitante. No IEA, debateram conosco escritores como José Saramago (antes do Prêmio Nobel) e o angolano Luandino Vieira, indagando sobre a existência de uma cultura luso-afro-brasileira, além dos muitos professores, intelectuais de variados campos e cientistas críticos que deixaram seus traços, pensamentos e produção na instituição, desde Marlyse Meyer e Leyla Perrone-Moysés a Dalmo de Abreu Dallari, Alberto da Costa e Silva, Francisco Iglésias, Eduardo Portella, Anibal Quijano, Florestan Fernandes, Eunice Durham, Celso Lafer, Michel Debrun, Ecléa Bosi, Octávio Ianni, Miguel Reale Jr., Luiz Carlos Bresser-Pereira, Goldemberg (que não atuou apenas como reitor), Koellreuter e Olivier Toni, Leonor Alvim, Ana e António Pedro Vicente, Ruth Cardoso, Sábato Magaldi, Paulo Sérgio Pinheiro, Joaquim Falcão, Fernando Novais, Tundisi, Joseph Love, Thomas Skidmore, Nestor Goulart Reis. E dos (então) mais novos, como Gabriel Cohn, José Eduardo Faria, Renato Janine Ribeiro, Brasílio Sallum Júnior; e dos saudosos Eduardo Kugelmas e Bento Prado Júnior... Arrolamento quase impossível de ser completo, tantos os colaboradores prestigiosos que se alinharam nesse esforço deveras coletivo!

Impressionante foi, por exemplo, a qualidade do labor de um José Paulo Paes, trazido ao Instituto pelas mãos de Bosi, sobretudo de sua tradução do poeta norte-americano William Carlos Williams, publicada com êxito. Figuras da alta política nacional e internacional também atuaram aqui, como o então senador e intelectual Giorgio Napolitano, atual presidente da Itália (ciceroneado pelo jornalista Mino Carta), além do senador Severo Gomes, muito ativo na busca do seu "projeto nacional", e os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva.

Jornalistas e diplomatas – como Rubens Barbosa e Paulo Nogueira Batista, e eventualmente Ítalo Zappa – passaram a frequentar e atuar no IEA, ampliando o sentido de uma... Universidade. Vale registrar o fato de que alguns professores da própria USP, aposentados, escolheram o ambiente propício, o "clima" desta Casa para desenvolver atividade própria às suas competências e maturidade, como foi o caso dos professores Ruy Coelho e Alberto Carvalho da Silva, e é o caso do ativíssimo mestre Aziz Ab'Saber.

Algumas personalidades circularam ou atuaram decisivamente no Instituto, a exemplo do historiador Jacob Gorender, ou do jornalista Marco Antônio Rocha, que muito ajudou a dar impulso à nossa revista estudos avançados, superiormente dirigida por Alfredo Bosi. Para o sucesso da revista, uma das principais publicações universitárias nacionais e internacionais da atualidade, houve muitas colaborações, mas é principalmente ao cauto e vigiante professor Bosi e sua equipe que se deve o alto padrão alcançado.

Mencionem-se ainda a presença e o papel do IEA na criação de outros centros de cultura e pesquisa, como o Memorial da América Latina (por solicitação de Darcy Ribeiro e Antonio Candido), do Centro de Estudios Brasileños da Universidade de Salamanca (com decisiva participação do historiador José Manuel Santos Perez e do então reitor Ignacio Berdugo), da Cátedra Jaime Cortesão (após intensas atividades, transferida para a Faculdade de Filosofia da USP).

Enfim, é muito difícil enumerar tantas e tão variadas intervenções nas quais atuaram empenhadamente tantos professores, pesquisadores, escritores, cientistas, além do próprio reitor Goldemberg (bem como os dois reitores que o sucederam, Jacques Marcovitch e Roberto Leal Lobo) e de uma equipe excepcional de funcionários e colaboradores. Importa, entretanto, registrar, caso raro na Universidade brasileira, que quase tudo o que pretendíamos e sonhamos, nós que participamos da fundação, foi sendo muito bem cumprido pelos sucessivos diretores, conselhos diretores e por um staff crítico e atento. E, claro, pelos participantes dos grupos de pesquisa. Ou seja, criou-se, no coração da USP, uma unidade que cultiva, transdisciplinar e empenhadamente, os valores de uma instituição voltada para a construção de uma democracia moderna neste país. Uma verdadeira democracia, que ainda não é a atual, mas  que há de vir.

Atingida a maioridade, já se pode comemorar a promessa do atual magnífico reitor, professor João Grandino Rodas, da retomada, em breve, da construção da nova, mais adequada e definitiva sede do IEA, em edifício próprio no campus da nossa USP. Pois o Instituto, a USP e a sociedade brasileira bem o merecem!  

 

 

Recebido em 19.9.2011 e aceito em 20.11.2011.

 

 

Carlos Guilherme Mota é professor titular de História Contemporâneo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Foi diretor do IEA no período 1986-1988. @ – cgsmota@terra.com.br .