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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.26 no.75 São Paulo May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142012000200019 

SOCIOLOGIA E ESPERANÇA

 

O proletariado, a esperança e o sonho de uma vida boa

 

 

Suzanna Sochaczewski

Mestre e doutora em Sociologia pela USP. Socióloga e membro da equipe de educação do Dieese e membro do corpo docente da Escola Dieese de Ciências do Trabalho.  @ – suzanna@dieese.org.br

 

 


RESUMO

O texto discute o conteúdo da esperança da classe trabalhadora no Brasil de nossos dias, considerando as lutas do movimento sindical por melhores condições de trabalho e remuneração e o papel da produção de conhecimento próprio nesse processo. Essa discussão tem como ponto de referência principal o sonho proletário de uma vida boa e a responsabilidade da atual geração de dirigentes sindicais na formação de jovens trabalhadores no sentido da construção de uma utopia para a transformação da sociedade.

Palavras-chave: Esperança, Classe trabalhadora, Conhecimento, Sonho, Vida boa, Jovens.


ABSTRACT

This paper discusses the subject of the hope of the working class in Brazil in our time, considering the struggles of the union movement for better work conditions and payment, and the role of knowledge production specific to this process. The principal point of reference for this discussion is the proletarian dream of a good life and the responsibility of the present generation of union leaders in the education of young workers in the sense of building a utopia for the transformation of society.

Keywords: Hope, Worker class, Knowledge, Dream, Good Life, Youth.


 

 

Uma vida não basta apenas ser vivida,
Também precisa ser sonhada.
(Mário Quintana, 2005)

 

Com o que sonham os trabalhadores?

As sociedades capitalistas prometem uma vida boa a quem trabalha. E essa promessa, vivida como esperança, legitima, ao lado da necessidade vital de sobrevivência, o trabalho cotidiano no mais das vezes tedioso, mal remunerado, cansativo, de longas jornadas.

Apesar dessa promessa e de sua legitimação, a classe trabalhadora sabe que só a luta e um projeto societário próprio constroem uma sociedade em que o trabalho pode propiciar uma boa vida para todos.

Sabe também que para essa construção é preciso conhecimento, tanto aquele produzido socialmente como um conhecimento próprio, de seu ponto de vista. 

Essa questão é a razão de ser da existência e do trabalho do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), uma entidade talvez única no mundo em sua especificidade e modo de ser, criada por 18 sindicatos de São Paulo, de diferentes orientações políticas, e mantida pelo movimento sindical brasileiro desde 1955, ano de sua criação. O Dieese nasceu de um sonho de sindicalistas: construir, a partir dessa entidade de trabalhadores, o primeiro departamento de uma Universidade do Trabalhador.

Por isso e para isso, o Dieese, dirigido politicamente pelo movimento sindical brasileiro, constitui desde então uma entidade intersindical, de associação voluntária e solidária porque cada sindicato, federação ou central contribui para sua manutenção e crescimento de acordo com suas possibilidades. Solidária também porque uma grande parte do trabalho do Dieese tem como destinatário não só as entidades sócias, mas toda a classe trabalhadora. Pela qualidade e rigor científico de sua produção e atividades, é referência em questões de trabalho para a academia e para a sociedade brasileira em geral. Também é reconhecido em diversos fóruns no exterior. 

O Dieese produz conhecimento do ponto de vista e de interesse da classe trabalhadora. Fazer ciência de classe é um trocadilho que faz sentido.

Seu corpo técnico-científico conta nesse momento com 170 profissionais sociólogos, economistas, cientistas políticos, antropólogos, historiadores, educadores, pedagogos, psicólogos, filósofos, engenheiros de produção, geógrafos, matemáticos, gestores de políticas públicas e administradores, todos graduados nas boas universidades brasileiras, muitos deles mestres e doutores com trabalho científico em suas áreas de conhecimento.

Finalmente, desde 2006, o Dieese trabalha no sentido de realizar mais um pedaço do sonho que o criou: a instituição de uma escola de ensino superior, credenciada em outubro de 2011 pelo Conselho Nacional de Educação do Ministério da Educação. A Escola de Ciências do Trabalho, por meio de um curso de graduação, o Bacharelado Experimental e Interdisciplinar em Ciências do Trabalho, abre suas portas à sociedade em agosto de 2012, com uma proposta político-pedagógica que a distingue no universo do ensino superior pelo conhecimento que produz a partir do trabalho, não sobre trabalho, e pelo processo formativo que propõe.

Conhecimento é matéria fundamental para o sonho de trabalhadores. Tanto o saber para o trabalho adquirido na prática e em instituições de ensino como especialmente a produção e apropriação de um conhecimento próprio feito do ponto de vista de sua classe e com a intenção de transformar a realidade.

Também a Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag) forma quadros em sua Escola Nacional de Formação, que além de promover cursos nacionais, estaduais e regionais criou os Grupos de Estudos Sindicais (GES) para comunidades rurais. A Contag considera comunidade rural trabalhadores assalariados de uma determinada localidade, grupos de assentados, de acampados e de agricultores familiares. O principal objetivo dos GES é discutir, por meio de estudos, os problemas, as questões, propostas e sonhos dessas comunidades. A Contag, com uma base de 25 milhões de trabalhadores rurais, tem ainda muito trabalho pela frente; entretanto, só o Estado do Piauí tinha, ao final de 2011, oitenta GES em funcionamento. 

A produção e apropriação de conhecimento por meio de atividades educativas é também prioritária para o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) que elaborou conteúdos próprios e desenvolveu concepção e metodologia de ensino específicas para trabalhadores rurais e suas famílias como parte dos processos de ocupação de terra. 

Convém lembrar que no mundo de hoje o conhecimento é um campo em litígio, ou seja, disputa-se a hegemonia política e social por meio de projetos societários que se distinguem, entre outras dimensões, pelo conhecimento que os fundamentam.

Mesmo assim, a produção de conhecimento como instrumento de transformação, como o fazem o Dieese, sua Escola de Ciências do Trabalho, a Contag e os GES, o MST, e numerosas outras entidades sindicais, faz parte somente do cotidiano de uma pequena proporção de trabalhadores.

Por sua vez, estão presentes no dia a dia de toda a classe trabalhadora as formas, o tempo, as condições e o que se ganha com o trabalho. Essa atividade, humana por excelência, que constrói o mundo, nesse processo de criação humaniza e brutaliza, ao mesmo tempo, seu sujeito.

Até há pouco tempo, a alternância de trabalho cansativo, desinteressante, repetitivo, muitas vezes mal remunerado, e um tempo livre pobre alimentavam apenas o sonho de uma boa vida para o trabalhador. O trabalhador vivia e aceitava o mundo desse jeito porque essa maneira de ser era dada e a possibilidade e forma de sua transformação não parecia ser de sua alçada. No entanto, hoje, mudanças tecnológicas nos processos de trabalho e uma conjunção praticamente inédita em nosso país de uma real possibilidade de desenvolvimento num ambiente democrático fizeram que o movimento sindical construísse coletivamente uma agenda para intervir na qualidade e rumos desse processo.

O reconhecimento de que um bom trabalho, fundamental para uma boa vida, é mais do que aquilo que a grande maioria consegue contratar por si só foi o mote para que ao longo da primeira década do século XXI fossem realizadas seis Marchas da Classe Trabalhadora, com bandeiras de luta como a recuperação e a criação de uma política de valorização para o salário mínimo, a redução da jornada de trabalho para quarenta horas e a ratificação das Convenções 151 e 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), entre várias outras reivindicações. Nessa linha de manifestações está também a "Jornada pelo desenvolvimento com distribuição de renda e valorização do trabalho, realizada em 2007, em que foi tornada pública a Agenda dos Trabalhadores pelo Desenvolvimento com Distribuição de Renda, também uma construção conjunta do movimento sindical, que apresentou propostas de políticas públicas defendidas pela classe trabalhadora e encaminhadas ao governo brasileiro e às lideranças empresariais com o objetivo de abrir um grande debate nacional" (Dieese et al., 2010, p.5).

A Agenda para um Projeto Nacional de Desenvolvimento com Soberania, Democracia e Valorização do Trabalho é o mais recente resultado desse processo de construção conjunta das centrais sindicais brasileiras, ao longo dos anos 2000, e foi aprovada em 1º de junho de 2010 por mais de 20 mil líderes sindicais reunidos no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, por ocasião da Assembleia Nacional da Classe Trabalhadora. Seus seis eixos estratégicos: a) crescimento com distribuição de renda e fortalecimento do mercado interno; b) valorização do Trabalho Decente (OIT) com igualdade e inclusão social; c) o Estado como promotor do desenvolvimento socioeconômico e ambiental; d) democracia com efetiva participação popular; e) soberania e integração internacional; f) direitos sindicais e negociação coletiva indicam o propósito de uma interlocução dos trabalhadores organizados com Estado e sociedade.

Ainda como parte da atuação sindical conjunta, foi retomado em 2011 o Programa de Capacitação de Dirigentes e Assessores Sindicais (PCDA), como é conhecido pelo movimento sindical, coordenado pelas centrais e o Dieese. Trata-se de uma atividade formativa com trezentas horas de duração distribuídas em três módulos presenciais de duas semanas cada, e dois trabalhos de pesquisa nos intermódulos. "Trabalho e Desenvolvimento" foi o tema dessa formação, a partir da concepção de que o trabalho, ao  fazer parte de um processo de desenvolvimento, não deve ser consequência, mas parte orgânica de seu projeto e realização.

Ou seja, o movimento sindical se organiza, estuda e cobra do Estado e sociedade mudanças no trabalho que o atual patamar tecnológico permite. E com isso consegue alguns avanços importantes em nosso país que tem uma história difícil no âmbito das relações de trabalho. 

Quando a sociologia pergunta qual a esperança, qual o sonho do sujeito do trabalho, o se quer na verdade saber é o que deseja o trabalhador, qual o significado de ser humano para homens e mulheres contemporâneos. E para isso é interessante escutar  Léfèbvre (1958, p.15), que diz:

Outra dimensão da atualidade que conforma e é conformada pelos sonhos de trabalhadores hoje é a espantosa convivência de um desenvolvimento tecnológico presente no dia a dia, aliado a não menos espantosa degradação da vida cotidiana para uma grande parte da população.

E não se trata, nesse caso, de empobrecimento. Degradação e empobrecimento no sentido que lhes dá Léfèbvre são dois fenômenos diferentes, embora possam coexistir. Este último é a falta progressiva de recursos para necessidades cotidianas. A degradação a que ele se refere, no entanto, diz respeito à forma e ao conteúdo do tempo fora do trabalho. Esse tempo que tem regularidade e determinação tão estritas quanto aquelas do trabalho cotidiano exige, por sua vez, o caráter de divertimento sem obrigações, apenas liberação de tensões e necessidades. Qualquer outra possibilidade, como o que antigamente se chamava hobby ou visitas familiares, não faz parte da atual consideração do que seja lazer. O hobby, por sua semelhança com trabalho, e o tempo com a família, por seu caráter percebido como obrigatório, são recusados como atividades impróprias para o tempo de não trabalho. Pode-se pensar então que o tempo fora do trabalho se resume apenas a um descanso, não do, mas para o trabalho. 

Já minha pesquisa para doutorado em 1998, assim como aquelas que fazem parte hoje de meu trabalho cotidiano como educadora no Dieese mostram dimensões do lazer, no tempo livre cada vez mais curto, que contribuem para a ideia de degradação. É o tempo de não trabalho preenchido por atividades em que se é cada vez mais consumidor passivo e menos atuante. Por exemplo, o futebol é mais assistido, seja ao vivo ou pela TV, e cada vez menos jogado como diversão ou esporte. Também o sucesso estrondoso de reality shows sugere a substituição de emoções da vida por outras vividas por meio de um voyeurismo de poltrona.  

Os sonhos e as atividades verdadeiramente incentivados em nossa sociedade são as que se referem ao consumo e que terminam por classificar pessoas de acordo com sua performance como compradores, muitas vezes sem nenhuma relação com necessidades reais. O consumir em si se tornou uma necessidade e o compro logo existo explicita a degradação. 

Vê-se então que melhorias importantes nas condições e remuneração do trabalho parecem ter como contrapartida uma vida que se caracteriza pela substituição de sujeitos ativos por espectadores acomodados que se movimentam apenas em razão do comprar.

Henri Léfèbvre (1958, p.241) constata ainda que "temos debaixo de nossos olhos, a todo momento, um fato banal e por isso geralmente desapercebido – embora no futuro ele seja considerado como um traço característico de nossa época: o atraso da vida diante de suas possibilidades, sua volta atrás". Ou seja, a trajetória da humanidade permitiria hoje uma vida bem diferente daquela que se resume ao trabalho, ao descanso para o trabalho, a assistir atividades de outros e novamente ao trabalho.

Será então que aquilo que se conquista no âmbito do trabalho não tem relação com a forma da vida?  Ou em que consiste afinal uma vida boa?

Há um evidente descompasso entre os difíceis, porém concretos, avanços nos processos e relações de trabalho e a degradação da vida cotidiana especialmente no sentido da substituição da atuação pela passividade.

O que se oferece hoje como bom aos trabalhadores expressa as possibilidades de nosso tempo? Ou melhor, esse papel de voyeur é o que se considera bom? Ou será que se perdeu o conteúdo da esperança que animava as lutas, as revoltas, as revoluções proletárias que marcaram grande parte dos séculos XIX e XX?

Hobsbawm (1995), numa análise bastante pessimista na introdução de Era dos extremos: o breve século XX, traz uma explicação para esses fatos ao apontar três mudanças importantes entre o início do que chama breve século em 1918 e seu término nos primeiros anos da década de 1990.

A primeira delas é que a Europa perde a hegemonia mundial como centro de poder, de riqueza, intelligenzia e civilização. Com isso, o mundo do trabalho europeu, construído na história de lutas operárias e de revoltas camponesas, na reação contra governos totalitários, e tendo como pano de fundo duas grandes guerras, é visto como ultrapassado. E a discussão do que é bom e possível, de valores e modos de vida que tinham como referência, e que ao mesmo tempo referenciavam, uma ética do trabalho são considerados coisa do passado, são vistos como impedimento ao bom funcionamento do mercado, e por esse motivo em vias de extinção. Esse fato tira do homem comum, do trabalhador, da classe trabalhadora, a referência histórica do que é bom e do que é ruim, seja no trabalho, seja na vida que esse trabalho propicia.

Como segundo ponto de sua análise, Hobsbawm mostra o processo contraditório que tem como uma de suas dimensões o mundo globalizado e, em contrapartida, a crescente incapacidade de instituições públicas e instâncias de comportamento coletivo em se adaptar a essa forma de vida unitária. Entretanto, diz Hobsbawm (1995, p.24) "o comportamento humano privado teve menos dificuldade para se adaptar ao mundo da televisão por satélite, ao correio eletrônico, às férias nas ilhas Seychelles e ao emprego transoceânico". O homem comum, cada um por si, está mais à vontade no uso e na incorporação de mudanças no seu dia a dia do que as entidades públicas ou privadas que o representam. Ou seja, as transformações chegam a cada um diretamente, sem passar por mediações, sejam elas partidos, sindicatos, igrejas ou outras associações. Perdem-se assim fóruns de discussão. E essa relação direta e individualizada é contraditoriamente mais homogênea do que seria se mediada por entidades coletivas. Porque no limite, os fatos chegam às pessoas como verdades consumadas, sem volta. É o conhecido: se deu na internet, está dado. Mas o que se veicula na mídia e na internet não são apenas fatos. Embutidos neles estão valores, concepções de mundo e de ser humano, entregues como pratos prontos e por isso inquestionáveis.

Por fim, convivemos hoje com o que Hobsbawm (1995, p.24) chama de "desintegração de velhos padrões de relacionamento humano", talvez a mais perturbadora das mudanças, especialmente quando se trata da matéria dos sonhos do proletariado. Em toda a parte, segundo Hobsbawm, veem-se sinais de quebra entre o passado e o presente em termos de relacionamento humano, e dá como exemplo a perda de valores como a solidariedade que não fazem sentido numa sociedade em que cada um busca apenas a própria satisfação. Ao avançar um pouco mais nesse raciocínio de Hobsbawm, teme-se que a quebra entre passado e presente provoque também a perda da relação entre o presente e o futuro em termos de como ações de hoje constroem o amanhã.

Se é assim, para onde vai o sonho, por que sonhar?

Essa última mudança, potencializada pelas duas anteriores, dá ao presente uma dimensão de finalidade, de fato consumado que se expressa nas queixas cotidianas sobre a vida seguidas sempre por mas fazer o quê?

Uma grande parte dos atuais dirigentes sindicais viveu já como jovens adultos as penas de uma longa ditadura, alguns enfrentaram prisão, tortura, exílio, todos conhecem salários corroídos pela inflação, recessão, desemprego, organizações desmanteladas, censura de imprensa, censura em cinema e teatro, falta de liberdade nas escolas, grêmios.

A constituinte de 1988, que promulgou a atual Constituição, iniciou um processo de construção democrática ao discutir pública e abertamente os sonhos de uma geração, maltratada e calada por muito tempo, e teve como resultado uma Carta que é sem dúvida expressão de direitos humanos no final do século XX, embora ainda haja uma longa distância entre o que está previsto na Constituição e o que já faz parte do cotidiano proletário mais de vinte anos após sua promulgação.

Não terminou, no entanto, a tarefa dessa geração de trabalhadores que lutou contra a ditadura, que participou ativamente da discussão constituinte e que é responsável hoje por vitórias nas negociações coletivas, se a pergunta que se faz é com que sonha o jovem trabalhador brasileiro. 

Contardo Calligaris (2007), psicanalista e autor de uma coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo, perguntou a seus leitores há poucos anos por que os adolescentes de nosso tempo "sonham com um futuro acomodado e razoável que nem a nossa vida", e que se os compararmos aos jovens de vinte anos atrás, os de hoje "sonham pequeno". Em sua reflexão sobre os motivos desse sonhar pequeno, Calligaris afirma que os adolescentes sonham "com um dia a dia que, para nós, não é sonho algum, mas o resultado (mais ou menos resignado) de compromissos e frustrações" (ibidem).

"Se a vida nos obriga a um ajuste entre a utopia e a necessidade, talvez seja possível não abrir mão da utopia. Mas se o sonhado já é ajuste, então perdeu-se a utopia, perdeu-se a possibilidade transformadora da vida" (Sochaczewski, 2007, p.137).

Se a questão é uma vida boa e se isso precisa ser matéria dos sonhos de jovens trabalhadores, qual o papel de trabalhadores adultos na construção e na apresentação desse sonho a seus sucessores?

Se do ponto de vista do trabalho há sinais de mudanças, a vida cotidiana pouco interessante, repetitiva e passiva dos adultos à sua volta não enriquece e nem mesmo sugere motivos de esperança ou de luta para os mais jovens. Refazer o elo entre presente e futuro é tarefa da atual geração de trabalhadores para que os jovens possam sonhar. A esperança de uma sociedade depende disso. 

O caminho que um jovem percorre aprendendo e trabalhando para chegar à maturidade determina sua possibilidade de sonhar, molda o conteúdo e dá forma a seus sonhos. Mudar de vida ou mudar a vida será uma escolha que depende da esperança que povoa os sonhos proletários.

Se o aprendizado que adultos propiciam aos jovens por meio de sua forma de vida no trabalho e fora dele "não mostra a amplidão do mundo, não desvenda as possibilidades de sua transformação, e se o trabalho apenas permite a sobrevivência, o jovem sonha pequeno" (Sochaczewski, 2007, p.138).

E sem um grande sonho não se constroem utopias; e sem utopia não há transformação.

 

Referências

CALLIGARIS, C. O sonho dos adolescentes. Folha de S.Paulo. São Paulo, 11 jan. 2007. Ilustrada.         [ Links ]

DIEESE, CGTB, CUT, CTB, Força Sindical, NCST. Agenda para um projeto de desenvolvimento com soberania, democracia e valorização do trabalho. São Paulo, Dieese, 2010.         [ Links ]

HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.         [ Links ]

LÉFÈBVRE, H. Critique de la vie quotidienne – Livre 1. Paris: L'Arche, 1958.         [ Links ]

QUINTANA, M. Lili inventa o mundo. São Paulo: Global Editora, 2005.         [ Links ]

SOCHACZEWSKI, S. A produção da vida: estudo do papel e do lugar do trabalho na vida contemporânea. 1998. Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1998.         [ Links ]

_______. Educação, trabalho e vida. In: BERNARDO, P. C. (Org.) Juventudes em debate. São Paulo: CUT, 2007.         [ Links ]

 

 

Recebido em 16.4.2012 e aceito em 5.5.2012.