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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.26 no.76 São Paulo set./dez. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142012000300014 

DOSSIÊ TRADUÇÃO LITERÁRIA

 

George Bacóvia: uma agenda de tradução

 

 

Marco Lucchesi

Escritor, poeta e tradutor. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Brasileira de Letras. Dentre suas traduções, destacam-se A sombra do amado (Prêmio Jabuti) Poemas de Khliebnikov, Poemas à Noite, de Höldelin e Trakl (Prêmio Paulo Rónai) e Caligarfia silenciosa de George Popescu. @ – marco.lucchesi1@gmail.com

 

 


RESUMO

Notas para uma tradução do poeta romeno George Bacóvia. A palavra e o silêncio. O regime das cores e seus intervalos. A polifonia da leitura. A dissolução da orquestra simbolista e os desafios da tradução.

Palavras-chave: Tradução, Poesia, George Bacóvia.


 

 

Sintonizo a rádio Bacóvia e ouço uma sonata de Mozart, movida por conflitos e dissonâncias. Como se um DJ misturasse notas, ritmos, pulverizando um larghetto numa profusão de síncopes. A poesia de Bacóvia (1881-1957) cresce justamente no vazio em que se inscreve. Não posso perder na tradução a série de staccati, reticências, mudanças de registro.1

Largo

Muzica sonoriza orice atom...
dor de tine şi de altă lume,
dor...
plana:
durere fără nume
pe om...
toţi se gândea la viaţa lor,
la dispariţia lor,
muzica sentimentaliza
obositor, -
dor de tine, şi de altă lume,
dor...
muzica sonoriza atom.

Largo

A música sonoriza os átomos...
nostalgia de ti e do outro mundo,
nostalgia...
paira:
uma dor sem fundo
sobre o homem...
reflete sua vida,
e como se abrevia.
A música sentimentaliza
frágil via –
nostalgia de ti e do outro mundo,
nostalgia...
a música sonoriza os átomos.

*

A sintonia da rádio Bacóvia é delicada. Não se pode eliminar a estática. Os ruídos da tradução para o português serão bem recebidos em ondas curtas. Como as "meninas" de Khliébnikov. Como o "o sol negro" de Mandelstam. O encanto de um cisne, eminentemente branco. Alguém reuniu o sentimento-ideia da brancura e do cisne, num processo de fusão, ao dizer cisnencanto.

*

Ouço na livraria Humanitas, de frente para a igreja Creţulescu, o CD de Bacóvia. O gesto fundamental do poeta lendo seus versos, como "Amurg Violet" e "Nervi de Primăvară". Uma partitura admirável. Sem música. Sem ênfase. Sem colorido. Lembro-me de Sergiu Celibidache – seu contrário – ao reger a segunda rapsódia de Enescu.

*

Comparado ao ouvido absoluto de Verlaine, Bacóvia é praticamente surdo. Essa é a tese de Nicolae Manolescu, segundo a qual o poeta romeno desfez a orquestra simbolista. Reduziu-lhe os instrumentos.2 Desafinou com sabedoria. Nessa falha, a qualidade da obra. Longe dos preceitos do puro bel-canto, os valores negativos. Silêncio e incompletude. Assim, ao traduzi-lo, pas de la musique avant toute chose.

*

Para lidar com os fragmentos da poesia de Bacóvia, registro a leitura de Heidegger da palavra abismo – Abgrund. Suspenso numa condição, Ab-Grund.

Din Urmă

Poezie, poezie...
galben, plumb, violet...
Și strada goală...
ori aştetptări târzii,
şi parcuri îngheţate...
poet şi solitar...
galben, plumb, violet
odaia goală,
şi nopţi târzii...
îndoliat parfum
şi secular...
pe veşnicie...

No fim

Poesia, poesia...
amarelo, plúmbeo, violeta...
a rua deserta...
a espera tardia,
e os parques congelados...
poeta e solitário...
amarelo, plúmbeo, violeta,
a sala deserta,
e as noite tardias...
perfume doloroso
e secular...
por toda a eternidade

*

Os versos de Bacóvia crescem para dentro de si mesmos, segundo uma economia solidária entre os fonemas. Como por acréscimo. Tonalidades delicadas. Progressivas.

*

Sigo um registro quase sem variedade (Grigurcu, 1974, cap.1). Como nas litanias da igreja ortodoxa – as ectenie. E, contudo, nada em Bacóvia responde no plano da salvação. Uma perene orfandade rege seu mundo. Na dispersão do branco. Na contração do preto. E, finalmente, o cinza, que domina de modo constante, senão avassalador, aquela terra pluvial, ligada à cor de chumbo (Cimpoi, 2005, p.57).

La Ţărm

O, gând amar...
singuratăţi,
pribege seri de primăvară,
parfumuri ce se duc pe vânt
şi flaute din stânci de mare...
- A fost ca niciodată ...
şi valuri ce fosnec la ţărm,
îngrijitoare asteptări,
singurătăţi
şi flaute
din stânci de mare...

Na Praia

Ah! Pensamento amargo...
solidão,
as noites vagas de primavera,
perfumes que se espalham pelo vento
e flautas nos arrecifes do mar ...
- Era uma vez...
e as ondas junto à praia a murmurar,
esperanças inquietas,
solidão
e flautas
nos arrecifes do mar...

*

Os céus escuros de metal de Georg Trakl (schwarze Himmel von Metall) reaparecem aqui, mantendo a rima al, além do título exato do poema-origem, "Winterdämmerung":

Amurg de Iarnă

Amurg de iarnă, sumbru, de metal,
câmpia albă – un imens rotund –
vâslind, un corb încet vine din fund,
tăind orizontul, diametral.

Copacii rari, şi ninşi, par de cristal.
Chemări de disparitie mă sorb,
pe când, tăcut, se'ntoarce-acelaş corb,
tăind orizontul, diametral.

Crepúsculo de Inverno

Crepúsculo de inverno, frio, metal
um prado alvíssimo – vasto, rotundo –
já vem remando um corvo lá do fundo,
cortando o horizonte, em diagonal.

As árvores na neve são cristal.
Funestos pensamentos absorvo,
e volta o mesmo silencioso corvo,
cortando o horizonte, em diagonal.

*

Uma agenda em diagonal? Não há poema aqui definitivo. Ensaios. Tentativas. Como se o Desejado seguisse mais perdido. Ou, quem sabe, como se o mais Perdido seguisse desejado.

 

 

Notas

1 Os poemas originais foram extraídos de Bacovia (2006).

2 Para Manolescu (2003, p.7), "simbolismul urmărea să fie musical, sugestiv, evanescent. Arta poetică a lui Verlaine conţine întreg programul. Muzica lui Bacovia e dizarmonică, sincopată, ţipată la trompetă, histerică. Faţă de violinele lui Verlaine, el pare amuzical; sau procedează prin stenogramă de elemente disparate ca Trakl".

 

Referências

BACOVIA, G. Opere. Bucureşti: Semne, 2006.         [ Links ]

CIMPOI, M. Secolul Bacovia. București: Editura Fundației Culturale Idea Europeană, 2005.         [ Links ]

GRIGURCU, G. Bacovia, un antisentimental. București: Albatros, 1974.         [ Links ]

MANOLESCU, N. Poeţi moderni.Braşov: Aula, 2003.         [ Links ]

 

 

Recebido em 11.7.2012 e aceito em 20.7.2012.

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