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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.27 no.78 São Paulo  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142013000200018 

CRÍTICA E FILOSOFIA

 

Relendo Carpeaux

 

 

Alfredo Bosi

Titular de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo e pertence à Academia Brasileira de Letras. Publicou, entre outras obras, História concisa da literatura brasileiraO ser e o tempo da poesiaCéu, infernoDialética da colonizaçãoMachado de Assis: o enigma do olharLiteratura e resistênciaBrás Cubas em três versões e Ideologia e contraideologia. É editor da revista estudos avançados.  @ – abosi@usp.br

 


RESUMO

Este artigo é um convite à leitura da obra de Otto Maria Carpeaux. Exilado no Brasil após a anexação da Áustria pela Alemanha, Carpeaux colaborou intensamente no jornalismo cultural brasileiro dos anos 1940 aos 1960. Escreveu uma monumental História da literatura ocidental, obra única em seu gênero em língua portuguesa. Definiu o seu método crítico como socioestilístico. Seus ensaios sobre literatura e música revelam sempre o caráter contraditório dos estilos de época e das obras que ele interpreta do ponto de vista dialético. Escreveu ensaios importantes sobre autores brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos. Nos últimos anos de sua vida abandonou o ensaísmo literário e dedicou-se à luta contra a ditadura militar brasileira escrevendo artigos polêmicos em jornais clandestinos.

Palavras-chave: Otto Maria Carpeaux, História literária, Teoria literária, Método dialético.


ABSTRACT

This article is an invitation to read the works of Otto Maria Carpeaux. Exiled in Brazil after the annexation of Austria by Germany, Carpeaux was an intensely active contributor to Brazilian cultural journalism from the 1940s to the 1960s. He wrote a monumental History of Western Literature, a unique work of its kind in Portuguese. He defined his critical method as socio-stylistic. His essays on literature and music always reveal the contradictory character of period styles and of the works he interprets from a dialectical viewpoint. Carpeaux wrote important essays on Brazilian authors, such as Carlos Drummond de Andrade and Graciliano Ramos. In his later years, he abandoned literary essays and dedicated himself to the struggle against the Brazilian military dictatorship writing polemical articles for underground newspapers.

Keywords: Otto Maria Carpeaux, Literary history, Literary theory, Dialectical method.


 

 

Tenho consciência de quanto é difícil falar do legado que representa a obra de Otto Maria Carpeaux. Se lembrarmos que o seu primeiro livro brasileiro, A cinza do purgatório, saiu em 1942, e que ele faleceu em 1978, em plena forma intelectual, sentiremos desde o início o embaraço da escolha. Mas escolher é preciso.

Para tanto, deixo de lado, por desconhecimento dos textos, os escritos publicados nos seus anos de juventude, em Viena, começando pelo doutorado em Ciências Naturais, defendido em 1925, que versava sobre a hipouricemia, enfermidade que, salvo engano, tem a ver com a deficiência de ácido úrico no sangue (consta do título da tese: Ueber die hypoharnsaeure). Dos anos 1930 sabemos de sua atividade como jornalista na imprensa austríaca e da sua afinidade com o Partido Social Cristão, definido sempre como conservador e próximo do chanceler Dolfuss. Esse político nacionalista foi assassinado em 1934, tendo sido contrário ao avanço nazista que, quatro anos depois, procederia à anexação da Áustria pela Alemanha.

De pai judeu e mãe católica, Otto Karpfen, seu verdadeiro nome, converteu-se ao catolicismo em 1932. O que escreveu nos anos seguintes fazia apologia da nação austríaca que teria herdado uma vocação europeia dotada de tradições convergentes, a germânica, a latina (italiana, espanhola e francesa) e a eslava. A ligação com o barroco internacional e o classicismo musical teria cimentado essa cultura centro-europeia. Uma obra publicada em 1935 fala mesmo da "missão europeia da Áustria".

Lembro esses dados por dever historiográfico, mas sei, por testemunho de amigos de Carpeaux, que a sua fuga da Áustria poucos dias depois da Anexação (que se deu em 11 de março de 1938) e a chegada ao Brasil no ano seguinte cavaram um divisor de águas na sua trajetória ideológica. Ele nunca se referiu ao que escrevera antes da partida, e, instado a manifestar-se, resumiu drasticamente a sua resposta: fora "um tempo superado". Não por acaso, passou a assinar-se Otto Maria Carpeaux, abandonando o sobrenome Karpfen. De fato, como teria sido possível ao exilado acalentar sonhos de missão europeia em termos nacionais e conservadores quando o que via era a explosão da barbárie mais crua que assolava o continente e ameaçava o destino da chamada civilização ocidental em escala nunca antes atingida? O que era a sua Áustria anexada se não um atalho para ocupar a Checoslováquia, a Polônia, os países balcânicos...? Espero que um dia me seja dado ler o último texto que Carpeaux redigiu antes de sair da Europa, "Dos Habsburgos a Hitler", publicado em holandês quando de sua passagem por Antuérpia.

 

Os primeiros anos no Brasil: a reflexão sobre a História

Chegando ao Brasil graças a um esquema de apoio concertado entre o Vaticano e Alceu Amoroso Lima, Carpeaux encontrou a solidariedade de intelectuais de prestígio que viviam então no Rio de Janeiro. Entre eles, foi o crítico literário Álvaro Lins quem primeiro lhe estendeu a mão, apresentando-o a amigos influentes como Aurélio Buarque de Holanda, José Lins do Rego, Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira e Santiago Dantas.

Vale a pena ler o depoimento que Álvaro Lins escreveu sobre esse primeiro momento de integração do exilado no jornalismo brasileiro. Foi transcrito na coletânea O relógio e o quadrante, data de abril de 1941 e se intitula "Apresentação de um europeu em exílio". Carpeaux enviara ao crítico algumas cartas redigidas em francês narrando a sua experiência europeia e exprimindo as suas esperanças brasileiras. Álvaro Lins fez gestões para que o exilado pudesse colaborar regularmente no Correio da Manhã sob o pseudônimo, finalmente adotado, de Otto Maria Carpeaux. No ensaio há observações reveladoras sobre a pessoa e os valores daquele intelectual estrangeiro que ele tanto admirava. O crítico apontava as convergências e as divergências ideológicas de Carpeaux em relação a Dolfuss: convergências enquanto ambos eram cidadãos austríacos opostos à política de Hitler; divergências na medida em que o chanceler se valia da religião como instrumento de seu governo autoritário, afastando-se das propostas do chamado cristianismo social que se inclinava por uma terceira via entre capitalismo e socialismo.

Álvaro Lins realçava o caráter dramático do estilo de Carpeaux, uma linguagem áspera e enérgica que trazia ao primeiro plano da escrita os antagonismos vividos no interior de uma cultura, de um escritor ou de uma obra. A sensibilidade às tensões latente nos textos seria uma constante nos trabalhos de interpretação do historiador e ensaísta ao longo de toda a sua carreira. Mas não se tratava apenas de uma disposição subjetiva do autor. Naqueles escritos, que comporiam seus primeiros livros brasileiros, A cinza do purgatório e Origens e fins, o tema recorrente é a busca de um sentido para a história da Europa. São ensaios motivados pela catástrofe da guerra mundial refletida por uma inteligência que se formara na convicção idealista de que o Espírito (grafado com maiúscula) guiaria a Humanidade na luta pela consecução dos seus mais altos valores. Mas essa luz parecia ter-se apagado sob a pressão da força bruta. Hegel e o historicismo dialético, que animara um pensador liberal como Benedetto Croce, mestre de Carpeaux, pareciam desmentidos pela "realtà effettuale della cosa" concebida por Maquiavel e Hobbes.

Quem teria dito a palavra certa, a profecia sem ilusões, fora um grande historiador dos meados do século XIX, Burckhardt, cujo pensamento é objeto dos ensaios de abertura e de fecho de A cinza do purgatório, "Jacob Burckhardt: profeta da nossa época" e "Jakob Burckhardt e o futuro da inteligência". Todas as obras que estudamos, dizia Croce, são, de algum modo, contemporâneas da nossa época. Caso contrário, seria impossível compreendê-las. Burckhardt ministrava, em sua cátedra na Universidade de Basileia, cursos sobre a Grécia antiga, o Império Romano e o Renascimento italiano, reconhecendo não só a potência criadora desses períodos fecundos, como os germes de desagregação que os levaram, desde dentro, a cair de exaustão e, de fora, a sucumbir sob a violência de forças ditas "bárbaras". Vico também acreditava em ciclos históricos pelos quais o auge de uma civilização precede a sua erosão interna, que ele nomeia paradoxalmente "barbárie da reflexão". Falando de Burckhardt, Carpeaux dizia: "Para nós, no momento que atravessamos [era o período mais negro da hegemonia nazista], tornou-se o conselheiro íntimo da nossa angústia. Amanhã será um profeta, o último dos profetas talvez, já que o tempo não terá mais futuro". Certamente a História continuaria, Carpeaux não é apocalíptico, mas não seria mais a mesma história concebida pelo progressismo linear de tantos intelectuais formados no clima evolucionista do século XIX. E o que profetizava o historiador daquelas civilizações desaparecidas? A hegemonia dos complexos industriais-militares que pesaria sobre a humanidade ao longo do século XX.

Um pressentimento, hoje considerado louco, diz-me: O Estado militar será um grande industrial; as massas, nas cidades e nas usinas, não serão mais deixadas na miséria nem livres nos seus desejos; um certo grau de miséria, fixado e controlado pela Autoridade, iniciado e encerrado cada dia com o rufar dos tambores: é o que deverá advir de acordo com a lógica. (Carta de 26 de abril de 1872)

Pensaria ele na Prússia de Bismarck? E como não pensar hoje na massa proletária da Alemanha nazista, da União Soviética estalinista, do Japão quando entrou na competição industrial, dos Tigres Asiáticos e da China emergente entre as potências econômicas do planeta? E o que se poderia esperar da política internacional e seus tratados de solidariedade e paz? "Os povos transformaram-se em um velho muro, onde não se pode mais fixar um prego, pois não fica seguro. É esta razão por que, no agradável século XX, a Autoridade reerguerá sua cabeça, e será uma cabeça terrível".

Carpeaux mostra-se sensível à palavra dos profetas, não só os bíblicos, mas também os pensadores pessimistas dos séculos XIX e XX. No ensaio "Defesa dos profetas", lê-se esta frase significativa: "É a nossa angústia que produz os profetas". E o fecho de A cinza do purgatório ilumina a razão estoica do historiador profeta:

O que Burckhardt exige, de si mesmo e de nós outros, não é senão isto: no meio da crise que está sacudindo tudo, guardar o ponto firme do espírito livre e da continuidade histórica para, no turbilhão de uma época ilusionista, estar consigo mesmo sem ilusões e consciente.

A angústia fala pela voz dos profetas, mas também pela voz dos narradores. "Franz Kafka e o mundo invisível" terá sido, senão o primeiro, um dos primeiros textos de interpretação de Kafka entre nós. A ideia de uma "pseudomorfose" (um dos achados críticos caros a Carpeaux) reponta aqui de modo inequívoco. A linguagem de Kafka parece transparente, nítida representação do real; no entanto, remete a um universo ainda mais real do que a superfície lisa das palavras poderia dizer: "A linguagem" – diz Carpeaux –

é muito límpida, carregada de estranhas metáforas. Kafka descreve a vida cotidiana dos escritórios, dos cafés, das casas de família; mas esses lugares banais são cheios de potenciais demoníacos, contra os quais o homem luta desesperadamente. Esse misto de clareza e mistério revela a fragilidade do nosso mundo, espreitado pela catástrofe.

A frase latina diz lapidarmente essa relação do conhecido com o desconhecido, per realia ad realiora, pelas coisas reais chega-se às mais reais. É atravessando as coisas reais (realia) e tangíveis que podemos entrever as realidades maiores (rea- liora) que regem, às vezes enigmaticamente, o cotidiano, o real miúdo do aqui e agora. Mas o que são essas realiora que ora se escondem, ora se deixam entrever na banalidade do dia a dia? Dirá o imanentista que são as forças vitais ou, sociologicamente, que são as estruturas da sociedade. Dirá o psicanalista freudiano que são as forças do inconsciente. Dirá o homem religioso que são a transcendência, a vontade divina, ao mesmo tempo ubíqua e incognoscível. Não importa. Será sempre algo que foge ao alcance imediato do ser humano, o pobre K. ignorante do seu destino.

Mas os profetas ousam prever o futuro lendo sinais emitidos no presente. O que virá estaria em germe no que acontece aqui e agora. Carpeaux, enquanto historiador, escavou um momento recente do passado ao traçar o quadro das tendências da primeira metade do século XX. Refiro-me ao "Retrato de meio século", escrito em comemoração do cinquentenário do Correio da Manhã e publicado em 16 de junho de 1952. Pode-se ler em Retratos e leituras. É um balanço cujo teor lembra os acentos críticos e em geral amargos de Minima moralia de Adorno e da Dialética do iluminismo de Adorno e Horkheimer, obras compostas ao longo da década de 1940. O que estava em pauta era o exame da nova cultura de massas que se generalizou no segundo pós-guerra. Noto, de passagem, uma diferença de ênfase. Os pensadores da Teoria Crítica centravam suas baterias na padronização dos modos de vida e pensamento que o capitalismo estaria produzindo em escala planetária; o alvo é a indústria cultural. Carpea- ux, admitindo embora a intensa difusão do american way of life, detém-se na desagregação dos estilos tradicionais substituídos por modas efêmeras ditadas pela necessidade de variar as aparências em função do consumo.1

"Que aconteceu? Todos nós sabemos. Já é mais difícil compreender o sentido do que aconteceu." Na busca desse sentido, Carpeaux acredita que seria possível recorrermos a alguns grandes poetas do século. Mas, de um modo ou de outro, quase todos aspiravam à criação de um mundo de valores que estaria acima ou fora do ramerrão rasteiro do seu tempo. Desejavam criar uma linguagem cifrada, de alcance metafísico, cujo sentido seria uma verdade capaz de pairar sobre todas as pseudoverdades do século: Yeats, Rilke, Blok, Antonio Machado, Valéry, Stephan George... Poderíamos acrescentar os nomes de T. S. Eliot, Eugenio Montale e Jorge Guillén, "poeta das essências", bem como dos surrealistas avessos à mesmice burguesa, ou dos nossos Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles... Não seria o caso de ignorá-los, pois são expressões altas e puras de resistência espiritual, mas era preciso descer ao chão histórico de todo dia e percorrer os seus áridos caminhos. Ao fazê-lo, o intérprete do passado recente encontra a Técnica, "o fato mais poderoso de 1950". E, em lance ao mesmo tempo analítico e profético, empresta-lhe dois adjetivos contraditórios: a técnica é construtiva e destrutiva. Nós, leitores postados no observatório do Terceiro Milênio, temos condições de avaliar o acerto desse balanço enquanto projeção de um futuro que já conhecemos, pois é o presente que estamos vivendo. Os seus desdobramentos são o nosso cotidiano.

Que sabemos ao certo do universo se a nova astronomia nos fala de estrelas mortas cuja luz, no entanto, ainda brilha no céu noturno? A ciência dos especialistas, físicos e químicos, prodigiosamente renovada a cada década, nos é quase desconhecida. Nossa ignorância sobre a matéria de que é feita a natureza de que somos parte não cessa de crescer. O cérebro é ainda uma incógnita no meio de experiências e teorias divergentes. Manejamos instrumentos de última geração e extraordinária precisão sem conhecer nada do seu funcionamento e nada das ciências que os produziram. A barbárie ronda a nossa civilização. As armas de fogo saem prontas do computador das crianças. O uso dos instrumentos, a paixão pelos novos meios e a ânsia de desfrutar dos recursos técnicos mais rápidos convertem os meios em fins em si mesmos. No limite, não há outros fins além da posse dos meios. E já não se faz a pergunta pelos fins, pergunta considerada impertinente ou obsoleta. O puerilismo está em toda parte e vamos perdendo a consciência crítica do que vemos e ouvimos na mídia da qual somos cativos.

São observações que se tornaram correntes nestes sessenta anos que nos separam do balanço de Carpeaux. Descrevendo o miolo do século XX, o historiador desenhava a contragosto o perfil do futuro próximo. "Por que a senhora não tem vontade de conhecer o futuro?" – perguntava o moralista Chamfort a Madame de Rochefort. "Porque ele se assemelha demais ao passado".

Poderíamos subscrever a maior parte das reflexões feitas no ensaio. Mas nesse exercício involuntário de profecia, o que Carpeaux não poderia prever (apenas entrevê ao mencionar o relativismo moderno dos valores e das teorias), é o atual elogio incondicional do fragmentário, da instabilidade pela instabilidade, do efêmero pelo efêmero, do ruído pelo ruído, da velocidade pela velocidade, da transgressão pela transgressão, do desvio pelo desvio, da desordem pela desordem, do caos pelo caos. Trata-se de um modo de pensar que se aparenta com a recusa de ajuizar os fins de nossos atos e renuncia a enfrentar a questão crucial dos valores, atitude que resulta da fusão de tecnicismo e futilidade dispersiva. A impotência de entender o processo na sua complexidade é não só reconhecida (o que seria ato de louvável modéstia intelectual), mas preconizada com o respectivo horror ao ideal de unidade. "Em vez de estilo, temos modas" – e aqui o nosso autor dos anos 1950 prenuncia, sem ainda poder nomeá-lo, um traço corrente da pós-modernidade. E Carpeaux não esquece a palavra implacável de Leopardi, "Moda, irmã da morte".

 

História e crítica literária: balizas

A atenção reiterada de Carpeaux ao problema do sentido da História e às relações dialéticas entre passado e futuro não esgota, evidentemente, a riqueza extraordinária da sua obra.

Carpeaux foi, sobretudo, um historiador da literatura e da música, um intérprete das ideias e da cultura. A História da literatura ocidental e a coleção, aliás incompleta, dos seus artigos hoje reunidos em dois volumes (que totalizam quase duas mil páginas) resistem a qualquer tentativa de síntese e até mesmo de comentário abrangente. Não parece justo, porém, passar batido por alguns caminhos dessa enorme seara. Escolhi quatro eixos temáticos.

Primeiro, a questão do método crítico. A História da literatura ocidental abre-se com um inventário dos principais métodos da crítica e da historiografia literária. É uma recapitulação ponderada que sabe colher o principal de cada abordagem. Interessa-me aqui a conclusão: Carpeaux declara ter adotado um princípio socioestilístico. Na esteira dos culturalistas, que vai de Dilthey a Auerbach, de Huizinga a Spitzer, ele reconhece ao mesmo tempo a força modeladora dos estilos de época (neles incluindo a dinâmica das classes sociais) e a relevância das escolhas individuais, quer na composição, quer nos procedimentos expressivos. História, sociologia, psicanálise, estilística, nada lhe é estranho se favorece a compreensão da obra. Mas, na esteira de Croce, postula que, em última instância, toda grande obra literária ou musical é um evento sui generis, a rigor imprevisível. Querer defini-la e enquadrá-la dentro de um conceito fechado é tentar a quadratura do círculo.

Teríamos aqui uma derivação heterodoxa do historicismo que regeu por tantos anos a crítica universitária europeia? Seria dizer pouco, pois a sua História traz em numerosas passagens a afirmação do caráter dialético dos textos que realmente resistiram ao tempo. Ao lado do extenso capítulo sobre o barroco internacional, há um capítulo sobre obras antibarrocas que foram compostas no mesmo período, o século XVII. Com isso, o estilo de época recebe um tratamento de diferenciação interna que revela o movimento da cultura, os valores centrais e os marginais em tensão fecunda. O mesmo se dá com o estudo do romantismo, que conheceu um título plural, "Os romantismos"... Enfim, ao resenhar a excelente história social da arte de Arnold Hauser, Carpeaux aponta as exceções que o historiador acabou omitindo sempre que fugiam ao esquema de determinação da obra pelo estilo hegemônico do seu tempo. Assim, no bojo do método socioestilístico reconhecemos a importância da contradição e da pseudomorfose, e não apenas da reprodução.

Um segundo caminho a ser trilhado nessa selva selvagem é o da ironização da "fortuna crítica", bela expressão italiana que precedeu a "estética da recepção". Cito um só exemplo, o texto "Poesia e ideologia", que se lê em Origens e fins. Trata-se do comentário que Carpeaux faz de um experimento feito pelo crítico inglês I. A. Richards e relatado em Practical criticism. Richards submeteu sessenta leitores a um teste de apreciação de treze poemas. Eram professores de letras, estudantes, críticos de revistas conceituadas e profissionais liberais. Os poemas não traziam os nomes de seus autores. Provinham de várias fontes, desde grandes poetas ingleses de diferentes épocas até almanaques jocosos ou sentimentais.

Os resultados foram simplesmente um vexame. A maioria dos sujeitos declarou "incompreensíveis" os poemas em que prevaleciam metáforas e outras figuras intimamente ligadas à linguagem poética. Leitores céticos irritaram-se com a dimensão teológica do maior dos metafísicos ingleses, John Donne. O mesmo preconceito levou-os a rejeitar a poesia de Hopkins. Um crítico, ardente republicano, denunciou o monarquismo de um poeta simbolista que usou a palavra "rei" em sentido figurado... Leitores prosaicos reprovaram textos em que aflorava a expressão de um pathos mais veemente: D. H. Lawrence foi, por isso, condenado. Em compensação, receberam calorosos elogios versos banalíssimos extraídos de jornalecos suburbanos.

Os comentários de Carpeaux aclaram o processo inteiro: a boa poesia é, quase sempre, difícil. O trabalho da forma, a profundidade da reflexão, a transformação do sentimento em imagem, enfim, tudo o que torna poética a poesia é ignorado ou subestimado pelo leitor. Sendo anônimo o poema, o leitor se vê desprovido da pressão cultural e do prestígio acadêmico e deixa às soltas a sua opacidade e o prosaísmo ideológico que o leva a reagir com respostas preconceituosas, as stock responses de que fala Richards. Que lição exemplar para todos os que se consideram profissionais das letras e só reconhecem como bom e belo o que tem a chancela do cânon! Como remédio, Carpeaux recomenda seguir o conselho de Coleridge, a "supension of disbelief". Os críticos que desconfiam de tudo e de todos, das personagens e dos narradores, do eu lírico e da voz épica, deveriam começar generosamente desconfiando de si próprios. Mas generosidade era o que não faltava a Carpeaux. Pondo a nu as limitações daqueles leitores apoéticos, não deixa de sublinhar a difusão ampla das stock responses, traços ideo- lógicos recorrentes que cada um de nós deve reconhecer no cerne de nossos gostos e de nossas capengas racionalizações.

 

Dois momentos do Carpeaux brasileiro

Carpeaux não só se naturalizou cidadão brasileiro como se debruçou sobre escritores que conheceu já nos primeiros anos de convívio com a literatura de sua nova pátria. Se o banco de prova do crítico é a escolha que faz das obras cuja leitura prefere, não deixa de ser notável que, chegado de pouco ao Brasil, Carpeaux tenha escrito sobre os dois maiores poetas do século, Bandeira e Drummond, o maior narrador, Graciliano, e o melhor crítico dos anos 1940, Álvaro Lins.

O "Fragmento sobre Carlos Drummond de Andrade", que está em Origens e fins, impressiona pela riqueza de ideias concentrada em um artigo relativamente breve. O seu pensamento nos atrai pela força do aparente paradoxo que rege o texto inteiro: "A poesia de Carlos Drummond de Andrade, expressão duma alma muito pessoal, é poesia objetiva". Em ensaio anterior, sobre Manuel Bandeira, o crítico chamava Drummond de primeiro "poeta público" do Brasil e do "vasto mundo", que a sua palavra ao mesmo tempo invoca e recusa. Agora a interpretação procura dar conta da discordia concors de alma muito pessoal e poesia objetiva

A análise formal aponta como dado saliente a ausência de rima e a irregularidade da construção rítmica. Não se trata apenas de ousadia modernista, mas de um efeito de estranheza, resultado da tensão não resolvida entre a percepção do "vasto mundo" e a impotência de habitá-lo e compreendê-lo mediante o sinal convencional do acordo, a rima. Chamar-se Raimundo seria apenas rima, mas não a solução para quem está apartado do vasto mundo. A alma muito pessoal almeja penetrar o enigma das coisas, mas desconfia que o seu desejo não encontrará na palavra mais que a certeza de uma falta. O objeto não é negado, idealisticamente, mas mantém a sua opacidade impenetrável: é, rigorosamente, objeto, irredutível às harmonias do canto. Diz Carpeaux: "A poesia de Carlos Drummond de Andrade, poesia de precisão máxima, está sem música". Em compensação, vive do conceito e da interrogação. Daí a essencialidade da linguagem, desde sempre avessa ao ornato, ao decorativo, à melodia fácil, ao sentimentalismo de superfície. "Poesía desnuda", como diria Juan Ramón Jiménez, tão diferente embora de Drummond.

Descoberto o étimo dessa poesia – o sofrido e estoico reconhecimento da alteridade do mundo –, Carpeaux assinala os seus grandes núcleos temáticos: a cidade de cimento e vidro, os edifícios cada vez mais impessoais e a solidão do homem que neles mora. Como conviver com o coletivo, se este virou massa anônima? A poesia de Drummond enfrentou esse impasse na hora terrível da Guerra Mundial. Mas não abdicou do desejo de liberdade e aproximou-se dos que souberam resistir à alienação e ao desespero. Carpeaux sentiu como poucos a força solidária dessa palavra escrita quando o túnel parecia não ter saída. A sua adesão foi incondicional:

Quero dizê-lo com toda franqueza, que o encontro com a poesia de Carlos Drummond de Andrade me foi um conforto nas trevas, e eu, que conhecia todas as poesias do mundo e experimentava todas as desgraças do mundo, compreendo agora melhor o sentido de uma longa viagem. Muito pereceu, e muito mais perecerá. Mas "o presente é tão grande, não nos afastemos", acompanhados de certas palavras, certos versos que não se vão esquecer, como bons companheiros.

Convém lembrar que Drummond, nesse ano de 1943, mal havia chegado ao meio do caminho. Não nos dera ainda A rosa do povo nem sua obra-prima, Claro enigma. Dedicara a Carpeaux "Os rostos imóveis", que está em "José". Mas o exilado europeu, lendo Sentimento do mundo, já nos revelava o essencial de sua poesia brasileira e universal.

O ensaio "Visão de Graciliano" beneficiou-se do fato de Carpeaux ter lido toda a obra ficcional do seu escritor brasileiro predileto. Tinha sob os olhos Caetés, Angústia, Vidas secas, São Bernardo. Diante de matéria tão vária na representação de contextos e personagens, o crítico vai direto ao que é comum e relevante, o estilo. Mas não se detém na repetição do óbvio. Da evidência de que se trata de um estilo seco, despojado, castigado até o último detalhe, Carpeaux passa à verdade insuspeitada: o estilo de Graciliano é lírico, de um lirismo ácido e radical que, à força de cortes e descartes, fere sempre o essencial, o nu, o cerne das situações e das pessoas. O crítico ignora solenemente as partições retóricas dos gêneros literários e, como Croce, afirma a liricidade profunda latente em todas as obras de ficção. O lírico nada tem a ver com o eloquente, o sentimental, a projeção indiscreta do moi haissable. O lírico só se interessa pelos extremos incanceláveis, a vida e a morte, o bem e o mal, o amor e o ódio, a luz e a treva.

Esse ensaio sobre Graciliano é uma aventura hermenêutica. Admiro as suas ramificações que só um leitor apaixonado de muitas literaturas poderia ter demonstrado. Mas confesso a dificuldade de resumir a riqueza de suas aproximações do narrador brasileiro com Gontcharov, Thomas Hardy e Schopenhauer, que Carpeaux nega como influências, mas sugere como afinidades eletivas. O denominador comum seria a negatividade, ainda mais radical que a de Drummond, pois Graciliano não nos conforta com nenhuma esperança (a não ser, talvez, as ilusões de Sinha Vitória migrando para o Sul). Os narradores em primeira pessoa, Luís da Silva e Paulo Honório, desejariam suprimir o vasto mundo, insofrível e absurdo, e Carpeaux lembra a ascese do monge budista que espera o esvaziamento de todas as representações do objeto e do sujeito. Em suma, um desafio para repensar a Literatura Comparada.

 

Carpeaux, um intelectual de oposição à ditadura militar

A integração de Carpeaux na sua nova pátria começou pela literatura e acabou pela política. O golpe de 1964 pôs à prova as suas reiteradas esperanças na construção deste nosso Brasil, que ele chamava o seu novo mundo. Em 1939, o exilado reconhecia angustiado o fim daquela Europa de entreguerras embalada em ilusões de progresso infinito. Mas em 1964, a surpresa seria tão ou mais dolorosa: o Brasil do começo dos anos 1960 parecia caminhar para uma democracia não só formal, mas popular. Estava em processo uma aliança das forças de esquerda e de centro-esquerda, comunistas, socialistas, democratas cristãos, sob a hegemonia da política trabalhista, que alguns intelectuais puritanos timbravam em depreciar como populistas. Em 1963, a bandeira comum eram as reformas de base. O que aconteceu está prestes a fazer meio século e hoje é objeto de memória e estudo. Os artigos de Carpeaux, publicados no Correio da Manhã entre 5 de abril e 18 de outubro de 1964, foram reunidos em Brasil no espelho do mundo e dão testemunho da sua reação imediata ao arbítrio então desencadeado. Devem ser lidos junto aos de Carlos Heitor Cony, enfeixados em O ato e o fato.

A originalidade desses textos está indicada no título. Carpeaux lê o Brasil "no espelho do mundo", através da consulta aos principais periódicos da Europa e dos Estados Unidos. São trinta jornais onde lhe era possível colher informações ignoradas no Brasil. Por exemplo, ficamos sabendo, por uma reportagem saída no Le Monde, que, duas semanas antes do golpe, o subsecretário do Departamento de Estado, Thomas C. Mann, declarou que "o Governo de Washington desiste da sua oposição sistemática aos golpes militares na América Latina". E logo depois, explicando melhor o seu ponto de vista, diz que "a estabilidade era mais importante que a democracia". Em artigo de 19 de maio, Carpeaux analisa um estudo sobre governança na América Latina. O autor, Merle Kling, professor na Universidade de Washington, publicou no The Western Political Quarterly um ensaio sobre a instabilidade do poder nos países latino-americanos: foram quarenta golpes desde 1945. Por que o Departamento de Estado foi ficando cada vez mais tolerante com esse estado de coisas? A resposta está no próprio estudo, por vias indiretas. A quem serviram essas quarteladas? Aos detentores do poder nos latifúndios, opositores de qualquer tipo de reforma agrária; aos negociantes da exportação de produtos primários, não por acaso denominada, em inglês, agrobusiness; à fração da burguesia fanatizada pela guerra fria; à mídia conivente com as corporações multinacionais; aos altos escalões do Exército e da Marinha; em suma, a todos os que viviam inquietos diante de uma mudança na correlação de forças então pesadamente favorável ao imperialismo americano. Como se vê, o que Carpeaux fez foi simplesmente revelar, mediante a leitura da imprensa ocidental, o contexto de um golpe que a tantos parecia exclusivamente brasileiro. Daí, a oportunidade de seus comentários sobre o macartismo, lembrado em 1964 no décimo aniversário do seu apogeu nos Estados Unidos; mas, quando aí já declinava, reposto em circulação na América Latina e desafortunadamente no Brasil. Carpeaux traz do Portugal ainda salazarista notícias constrangedoras: pelo Tratado de Consulta e Amizade, de âmbito luso-brasileiro, os agentes da PIDE poderiam colaborar com a polícia do Estado da Guanabara na perseguição de refugiados políticos portugueses!

A partir de outubro de 1964 até junho de 1965 Carpeaux escreveu, no mesmo Correio da Manhã, uma série de artigos sobre política internacional centrando suas baterias no que estava acontecendo na América Latina. A reunião desses textos encontra-se em A batalha da América Latina. A introdução, cuja leitura recomendo vivamente, é um estudo minucioso e aguerrido sobre a Doutrina Monroe e as intervenções americanas na América Latina ao longo dos séculos XIX e XX. A rigor, foi o seu último livro, se excetuarmos o substancioso prefácio que escreveu para uma biografia de Hemingway em 1971 e o opúsculo em homenagem a Alceu Amoroso Lima, que saiu postumamente.

Afastado de seu trabalho no jornal, Carpeaux passou seus últimos anos redigindo verbetes para enciclopédias e artigos de oposição à ditadura na imprensa subterrânea do final dos anos 1960 e ao longo da década seguinte. Em 1967, foi chamado a depor perante a Polícia Federal sob a acusação de ter infringido o artigo 3° da Lei de Segurança Nacional em razão do seu artigo sobre o FMI, intitulado humoristicamente "FMI: fome e miséria internacionais". O inquérito durou até 10 de fevereiro de 1972, quando recebeu voto de isenção de culpa na 1ª auditoria da Marinha. Em 17 de janeiro de 1968 foi paraninfo dos formandos da Faculdade Nacional de Filosofia, o que lhe valeu detenção de algumas horas sob interrogatório.

Mas o que convém assinalar, para fecho destas linhas, é a firme decisão de Carpeaux de mudar a direção da sua vida passando da literatura para a oposição ao regime instalado em 1964. Foi o que ele escreveu e cumpriu até o fim. Leio o final da nota aos Vinte e cinco anos de Literatura, antologia de ensaios organizada por ele próprio e editada em 1968:

Fiz uma seleção rigorosa: só escolhi trabalhos que, por este ou aquele motivo, ainda hoje possam inspirar interesse ao círculo de amigos da literatura.

Mas já não me incluo nesse círculo. Considero encerrado o ciclo. Minha cabeça e meu coração estão em outra parte. O que me resta, de capacidade de trabalho, pertence ao Brasil e à luta pela libertação do povo brasileiro.

 

Nota

1 Adorno e Horkheimer (1966, p.147) afirmam, na Dialética do iluminismo: "Ela [a indústria cultural] consiste na repetição. Que as suas inovações típicas consistam sempre e somente nos melhoramentos da reprodução de massa, não é absolutamente extrínseco ao sistema. Com razão, o interesse dos inúmeros consumidores vai todo para a técnica, e não para os conteúdos rigidamente repetidos, intimamente esvaziados e já meio abandonados". Carpeaux, por sua vez, acentuava a substituição rápida dos conteúdos na indústria cultural, ao passo que Adorno e Horkheimer insistem no caráter sistêmico (no caso, capitalista) da reprodução por meio da técnica.

 

Referência

ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialettica dell'Illuminismo. Torino: Einaudi, 1966, p. 147        [ Links ]

 

 

Recebido em 30.5.2013 e aceito em 5.6.2013.

 

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