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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.28 no.80 São Paulo Jan./Apr. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142014000100014 

Linha do tempo da resistência à ditadura militar no Brasil (1960-1985)*

 

 

Parte 1 – 1960-1975

Da democracia à ditadura

No fim dos anos 1950, o Brasil vive um estado de quase euforia. Economia aquecida, industrialização, desenvolvimentismo. Cultura em alta em todas as frentes – artes visuais, música, teatro, cinema. Justiça social na pauta – eleições livres, lutas no campo e nas cidades. A inauguração de Brasília condensa as esperanças que estão no ar. O sonho de um país mais rico e mais justo parece estar ao alcance das mãos.

1960

Em Cuba, instala-se o governo revolucionário, que havia chegado ao poder em 1959, liderado por Fidel Castro e Che Guevara. A conquista inspiraria jovens revolucionários do mundo todo.

Na África, as lutas pela descolonização promoveram a formação de vários estados independentes.

• Argélia conquistaria a independência em 1962, após oito anos de luta contra a França.
• Senegal declara-se independente em 1960.
• Congo torna-se independente da Bélgica em 1960.

A pílula anticoncepcional é lançada, dando início à chamada "revolução sexual".

Brasília é inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek.

Nasce uma Estrela. Manchete da revista Mundo Ilustrado em reportagem sobre a inauguração de Brasília.

Jânio Quadros é eleito presidente da República, com 5,6 milhões de votos – 48% do total. João Goulart é seu vice. A posse presidencial ocorre no início do ano seguinte.

"De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção."

Versos do poema "O operário em construção", de Vinícius de Moraes.

1961

Fracassa a invasão de Cuba por forças paramilitares apoiadas pelos EUA na Baía dos Porcos.

Cuba é o primeiro país da América Latina declarado socialista.

Os cubanos celebram a vitória militar sobre os invasores

1961

O Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria, é erguido.

Gagarin, primeiro cosmonauta a viajar para o espaço, declara: "A Terra é azul".

Agosto

Jânio Quadros renuncia: os ministros vetam a posse de João Goulart, que está em visita à China. Leonel Brizola cria a Campanha da Legalidade em favor da posse de Goulart.

Setembro

O vice João Goulart assume a Presidência, após aceitar a imposição do parlamentarismo pelos militares: Tancredo Neves é o primeiro-ministro.

O Centro Popular de Cultura (CPC), vinculado à UNE, é criado.

A Universidade de Brasília (UnB) é criada.

1962

A crise dos mísseis em Cuba leva o mundo à beira de um conflito nuclear entre os Estados Unidos e União Soviética: uma das consequências do embate é a chegada da Guerra Fria à América Latina.

Os Beatles lançam seu primeiro disco, Love me Do.

Os Rolling Stones estreiam.

O Concílio Vaticano II começa, convocado pelo papa João XXIII.

O 13° salário é criado.

O Ministério do Planejamento é criado, tendo Celso Furtado como ministro.

A Ação Popular (AP), organização de esquerda católica, é fundada.

O Brasil é bicampeão mundial de futebol em torneio no Chile.

Garota de Ipanema é composta por Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

O pintor Portinari morre.

O pagador de promessas ganha a Palma de Ouro no Festival de cinema de Cannes.

1963

Começa a intervenção militar dos EUA no Vietnã.

John Kennedy é assassinado no Texas, EUA. Lyndon Johnson, o vice-presidente, assume.

O papa João XXIII morre.

Martin Luther King lidera a marcha contra a discriminação racial em Washington. Em discurso, afirma: "Eu tenho um sonho".

Um plebiscito restabelece o regime presidencial. O "Não" ao parlamentarismo vence com 80% dos votos.

Carlos Lacerda defende um golpe militar contra Jango.

O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) é criado.

Ieda Maria Vargas é eleita Miss Universo.

Ganga Zumba, rei dos Palmares, filme de Cacá Diegues, é lançado, baseado em livro de João Felício dos Santos, publicado no ano anterior.

Vidas secas, filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos e baseado no romance de Graciliano Ramos, é lançado.

1964

Mao Tsé-tung discursa contra o "social-imperialismo" russo; tornam-se tensas as relações entre China e a União Soviética.

Pesquisa realizada em oito capitais mostra que 72% dos brasileiros consideram necessária a reforma agrária.

Os fuzis, filme de Ruy Guerra, ganha o Urso de Prata em Berlim.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme de Glauber Rocha, é lançado e se torna um marco do cinema novo.

Pif-Paf, revista dirigida por Millor Fernandes, é lançada.

Cronologia do Golpe

13 de março. Comício por reformas de base na Estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

19 de março. Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o governo de João Goulart, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

27 de março. Cerca de dois mil marinheiros realizam assembleia no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro exigindo a destituição do ministro da Marinha. Enviada para reprimi-los, uma tropa de fuzileiros navais adere à rebelião.

30 de março. João Goulart discursa no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, numa assembleia de sargentos, em defesa das reformas de base.

31 de março. Tem início em Minas Gerais o golpe militar para destituir Goulart. O general Mourão Filho comanda as tropas rumo ao Rio de Janeiro.

de abril. A maioria dos comandos militares adere ao golpe.

É depredada e incendiada a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) no Rio de Janeiro.

É invadida a Universidade de Brasília (UnB).

2 de abril. Goulart sai de Brasília; dois dias depois, exila-se no Uruguai; por algum tempo, o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, ocupa a Presidência da República.

Uma junta militar assume o controle do país.

9 de abril. O primeiro Ato Institucional é decretado. A Constituição de 1946 e o Congresso são mantidos, mas são feitas várias modificações, entre as quais a suspensão das imunidades parlamentares. Ela estabelece a eleição indireta de presidente da República e o Comando Supremo da Revolução fica autorizado a cassar mandatos e a suspender direitos políticos por dez anos. Sai a primeira lista de cassados com 102 nomes.

11 de abril. O general Castelo Branco é eleito presidente em votação indireta no Congresso.

Maio. O Brasil rompe relações diplomáticas oficiais com Cuba.

Junho. O Congresso aprova a Lei Antigreve, tornando quase impossível para os trabalhadores realizarem paralisações.

Junho. São firmados vários acordos entre o Ministério da Educação (MEC) e a United Agency for International Development (Usaid) para prestar assistência técnica e financeira à educação brasileira.

Junho. O governo cria o Serviço Nacional de Informações (SNI), comandado pelo general Golbery do Couto e Silva.

Julho. São realizadas prisões em massa em sindicatos. Operários, funcionários públicos e militares são demitidos. A repressão atinge artistas, intelectuais e jornalistas. Generaliza-se a prática da tortura contra opositores da ditadura.

Julho. Castelo Branco suspende por dez anos os direitos públicos de 337 pessoas, inclusive dos ex-presidentes da República Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, seis governadores estaduais e mais de 50 deputados federais e senadores, além de líderes operários, intelectuais e funcionários públicos.

Outubro. Desde o início da vigência do primeiro ato institucional, 4.454 pessoas sofreram sanções, sendo que 2.757 delas eram militares.

Novembro. Golpe militar na Bolívia leva ao poder o general René Barrientos.

A Lei n.4464, conhecida como Lei Suplicy, coloca na ilegalidade a União Nacional dos Estudantes (UNE) e as Uniões Estaduais de Estudantes (UEE), que passam a atuar na clandestinidade: todos os órgãos de representação estudantil ficam submetidos ao MEC.

Dezembro. O show Opinião estreia no Rio de Janeiro, com Nara Leão, Zé Keti e João do Vale, uma das primeiras manifestações artísticas de denúncia da ditadura.

"Podem me prender,
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião.
Daqui do morro eu não saio não."

Versos de Opinião, samba de Zé Keli que deu nome ao show.

 

 

1965

Invadida a República Dominicana pelos EUA, com apoio de tropas do exército brasileiro.

Assassinado Malcolm X, defensor dos direitos civis dos negros americanos.

Bob Dylan grava a canção Like a Rolling Stone.

Janeiro. O Fundo Monetário Internacional (FMI) concede crédito de US$ 125 milhões ao Brasil.

Março. Intelectuais brasileiros lançam manifesto exigindo o restabelecimento das liberdades democráticas e dos direitos individuais.

Abril. Manifestações de protesto contra o envio de tropas brasileiras à República Dominicana ocorrem em diversas capitais.

Outubro. Fechada a UnB, depois de ser invadida pela polícia oito dias antes: professores e estudantes são presos.

Outubro. Castelo Branco decreta o Ato Institucional n° 2, que dissolve os partidos, torna indireta a eleição de seu sucessor e institui o bipartidarismo: Arena, partido de apoio ao governo, e MDB, de oposição consentida. Os crimes políticos passam a ser julgados pela justiça militar.

Arena conta Zumbi estreia, com direção de Augusto Boal.

Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, vence o 1° Festival da Canção da TV Excelsior.

A TV Globo vai ao ar.

O Parangolé é criado por Hélio Oiticica.

"É um tempo de guerra
É um tempo sem sol."

Versos da canção "Tempo de guerra", da peça Arena conta Zumbi, composta por Edu Lobo.

1966

Revolução Cultural na China.

O Livro Vermelho de Mao havia começado a circular pelo mundo em 1964 e tornou-se provavelmente a obra do século 20 que alcançou maior circulação, com tiragem de centenas de milhões de exemplares. Composto de uma série de máximas revolucionárias, uma das mais célebres é:

"Comunismo não é amor; comunismo é um martelo com o qual se golpeia o inimigo".

A minissaia é lançada por Mary Quant em Londres, causando impacto na moda e nos costumes.

As exposições Opinião 66, no Rio, e Propostas 66, em São Paulo, consolidam uma nova geração de artistas visuais.

No Festival de Música da TV Record, dividem o primeiro prêmio A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré.

No Rio de Janeiro, o Grupo Opinião monta espetáculo com texto de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar e título provocativo: "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come".

Morte e Vida Severina é encenada em São Paulo, baseada em um poema de João Cabral de Melo Neto, com música de Chico Buarque.

Fevereiro. O Ato Institucional n° 3 é decretado, são instituídas eleições indiretas para os governos de estados e das capitais.

Março. Manifestações de protestos são organizadas por estudantes no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte, espalhando-se por diversas cidades do país.

Junho. Golpe militar na Argentina coloca o general Juan Carlos Onganía no poder.

Julho. Bomba explode no Aeroporto de Recife, onde pousaria o avião em que viajava a comitiva de Costa e Silva, candidato à sucessão de Castello Branco: o atentado é realizado por militantes da Ação Popular (AP).

28 julho a 2 agosto

O 28° Congresso da UNE é realizado na clandestinidade, no porão da igreja São Francisco de Assis, em Belo Horizonte: o mineiro José Luis Moreira Guedes é eleito presidente da entidade; é aprovada posição contra os acordos MEC-Usaid.

Setembro. Invadida a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro; cerca de 600 estudantes são confinados no campo do Botafogo e espancados pela Polícia Militar, numa agressão que ficou conhecida como Massacre da Praia Vermelha.

Outubro. Costa e Silva é eleito presidente da República pelo Congresso; o marechal tomaria posse em março de 1967.

Novembro. A Frente Ampla contra a ditadura militar é organizada pelos políticos Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Dezembro. Um projeto de Constituição é divulgado pelo presidente Castelo Branco; sua tramitação pelo Congresso é regulamentada pelo Ato Institucional n° 4, promulgado por ele.

1967

Em Nova York, em manifestação no Central Park, meio milhão de americanos protestam contra a Guerra do Vietnã.

No Oriente Médio, a Guerra dos Seis Dias opõe Israel à Síria, Jordânia e Egito.

Na Nicarágua, a guerrilha sandinista começa a luta que derrubaria o ditador Somoza em 1979, depois de ficar 43 anos no poder.

Che Guevara é morto na Bolívia, pondo fim ao sonho do guerrilheiro de liderar uma nova revolução na América Latina, depois da vitória em Cuba.

A Navalha na carne, peça de Plínio Marcos, é encenada em São Paulo e, no ano seguinte, no Rio de Janeiro, quando seria proibida pela censura.

O rei da vela, de Oswald de Andrade, é encenada no Teatro Oficina, com direção de José Celso Martinez Correa.

Terra em transe, filme de Glauber Rocha, estreia.

O Festival de Música da TV Record faz grande sucesso mais uma vez e consolida uma geração de artistas que se tornariam referências da música popular brasileira das décadas seguintes, entre os quais se destacam Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Alegria, alegria, de Caetano Veloso, e Domingo no parque, de Gilberto Gil, duas das canções premiadas do Festival, lançam as bases do Movimento Tropicalista.

"A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá"

Versos de Roda viva, de Chico Buarque, uma das canções premiadas no Festival de Música da TV Record.

De janeiro a março. A ditadura promulga a nova Constituição, a nova Lei de Imprensa, que estabelece fortes restrições à liberdade de informação e expressão, e a nova Lei de Segurança Nacional.

Março. Costa e Silva e o deputado Pedro Aleixo são empossados na Presidência e Vice-Presidência da República.

Abril. O Exército desbarata a guerrilha de Caparaó, região de fronteira entre Minas Gerais e Espírito Santo.

Maio. É criado o Centro de Informações do Exército: ao lado do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), teria forte atuação na repressão aos opositores da ditadura.

 

 

Julho. O ex-presidente Castelo Branco morre em acidente aéreo.

Agosto. O 29° Congresso da UNE é realizado na clandestinidade, em Valinhos (SP), Luis Travassos é eleito presidente da entidade.

1968

Assassinado Martin Luther King, líder do movimento negro americanos.

Massacre de Tlatelolco: mais de 200 pessoas são mortas em manifestação estudantil na Cidade do México.

Reprimido o movimento pela democratização da Checoslováquia, conhecido como Primavera de Praga, por tropas do Pacto de Varsóvia.

Tropicália é lançado: o disco torna-se o principal manifesto do movimento tropicalista.

Euryclides de Jesus Zerbini e Luis Decourt realizam o primeiro transplante de coração no Brasil, a sexta cirurgia desse tipo no mundo.

Maio 1968

Em Paris, estudantes tomam a Sorbonne e enfrentam a polícia; operários em greve ocupam fábricas. Protestos de estudantes agitam diversos países.

"Sejamos realistas; exijamos o impossível."

Palavras de ordem pichadas nos muros de Paris.

Fevereiro. Manifestação de protesto contra a censura é realizada na Cinelândia, região central do Rio de Janeiro.

Março. O estudante Edson Luís é morto pela Polícia Militar durante invasão do Calabouço, restaurante estudantil/popular no Rio de Janeiro.

Abril. Determinada a apreensão de livros, jornais e outras publicações consideradas subversivas, e proibida a Frente Ampla por portaria de Costa e Silva.

Maio. Manifestantes dissolvem comemoração oficial do Dia do Trabalho na Praça da Sé, no centro de São Paulo.

26 de junho. A Passeata dos 100 Mil no Rio de Janeiro, é a maior manifestação de protesto ocorrida no país desde o golpe militar de 1964.

Greves de operários ocorrem nas cidades de Contagem (MG) e Osasco (SP); nessa última, a polícia desocupa as instalações da Cobrasma e prende 400 metalúrgicos.

Julho. Agressão aos atores da peça Roda viva, em São Paulo; em seguida, o teatro é depredado por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

29 de agosto. Invasão da UnB pela Polícia Militar, que espanca e prende alunos e professores da Universidade.

 




 

Setembro. Geraldo Vandré empolga o Maracanãzinho interpretando sua canção Pra não dizer que não falei das flores, também conhecida como Caminhando, no III Festival Internacional da Canção.

"Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer"

Versos da canção Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré.

2 de setembro. Diante das frequentes notícias de tortura, Márcio Moreira Alves, deputado pelo MDB, pergunta em discurso na Câmara: "Quando o Exército não será um valhacouto de torturadores?". Os militares reagem pedindo ao Congresso Nacional que o parlamentar seja processado.

Outubro. Conflito na rua Maria Antonia, opondo estudantes da Faculdade de Filosofia da USP e da Universidade Mackenzie, estes com apoio do Comando de Caça aos Comunistas (CCC); morre o secundarista José Guimarães e a polícia depreda o prédio da USP.

12 de outubro. São presos mais de 900 estudantes durante o 30° Congresso da UNE, em lbiúna (SP); entre eles estão as principais lideranças estudantis: Luis Travassos, presidente eleito da entidade, Vladimir Palmeira, José Dirceu, Franklin Martins e Jean Marc von der Weid.

Novembro. O Conselho Superior de Censura é criado pelo ministro da Justiça, Gama e Silva, estabelecendo novas regras de censura para peças teatrais e cinematográficas.

12 de dezembro. Negada licença pela Câmara dos Deputados para que o governo processe Márcio Moreira Alves.

Dezembro. Atentados a bomba são realizados contra os teatros Opinião e Gláucio Gil, no Rio de Janeiro.

13 de dezembro. Baixado o AI 5: o ato institucional suspende o habeas corpus e determina que o Congresso pode ser fechado pelo presidente da República; promulgado sem previsão de prazo de vigência, ele permite cassar mandatos de parlamentares e suspender direitos políticos, assim como demitir ou aposentar servidores públicos.

Aumenta a censura aos meios de comunicação.

São aposentados compulsoriamente vários professores da USP, entre os quais, Florestan Fernandes, Caio Prado Jr., Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso.

Ações de organizações de luta armada multiplicam-se pelo país. As forças da repressão dão início a uma caça sistemática dos líderes, entre os quais Marighela é um dos principais nomes.

1969

O Festival de Woodstock reúne 500 mil pessoas ao ar livre durante três dias em uma pequena cidade localizada nos arredores de Nova York.

A chegada do homem à Lua é o lance mais espetacular da corrida espacial entre os EUA e a URSS, uma das muitas manifestações da Guerra Fria; a caminhada dos astronautas americanos em solo lunar é transmitida ao vivo em rede mundial.

A atriz Leila Diniz concede entrevista irreverente ao semanário O Pasquim, que a publica mantendo o tom coloquial. A prática influenciaria a linguagem jornalística, tornando-a mais informal.

O Jornal Nacional, da TV Globo, vai ao ar pela primeira vez

"Todo o povo brasileiro – Aquele abraço!"

Verso final da canção Aquele abraço, de Gilberto Gil quando embarca para o exílio em Londres.

O capitão Carlos Lamarca abandona o quartel em Quitaúna (SP), levando consigo armas e munições, e abraça a luta armada.

Janeiro. Onda de cassações tem início com base no decreto de 30 de dezembro de 1968, atingindo parlamentares e ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal Militar.

Fevereiro. Eleições parciais são suspensas pelo Ato Institucional n° 7. É baixado o Decreto n° 477 que prevê punições, inclusive expulsão para professores, alunos e funcionários de escolas públicas envolvidos em atividades consideradas subversivas.

Julho. Criada a Oban, órgão patrocinado por empresários e vinculado ao II Exército de São Paulo, que se torna um dos mais violentos braços da repressão política. Em suas dependências, era corrente a prática da tortura, o assassinato e o desaparecimento de cidadãos que resistiam à ditadura.

Agosto. Costa e Silva deixa a Presidência, vítima de um acidente vascular cerebral. Em vez de vice-presidente civil, quem assume é uma junta militar composta dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Transmissores da Rádio Nacional são tomados por militantes da Aliança Libertadora Nacional, em São Paulo, que divulgam manifesto de Carlos Marighella.

Setembro. O governo decreta medidas que endurecem ainda mais o combate a seus opositores. O Ato Institucional n° 13 permite o banimento dos brasileiros considerados perigosos à segurança nacional – os primeiros atingidos são presos libertados em troca do embaixador americano; o Ato Institucional n° 14 prevê pena de morte ou prisão perpétua em casos de "guerra revolucionária e subversiva".

 


 

Sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick, numa operação conjunta da ALN e do MR8. O governo cede às exigências de publicar na imprensa um manifesto contra a ditadura e libertar 15 presos políticos. O fato ganha repercussão na imprensa internacional.

Novembro. Assassinado Carlos Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional, numa emboscada preparada pelo delegado Sérgio Fleury, do Dops, em São Paulo.

Para denunciar no exterior os crimes da ditadura, é criada a Frente Brasileira de Informações, uma iniciativa de Miguel Arraes e Márcio Moreira Alves.

1970

Salvador Allende é eleito presidente do Chile em votação livre e democrática.

O Brasil ganha o tricampeonato mundial de futebol no México. A conquista é usada pelo governo em campanhas ufanistas, como a do adesivo "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Chico Buarque compõe Apesar de você e a canção torna-se um símbolo da resistência à ditadura.

A Rodovia Transamazônica começa a ser construída, mais uma das grandes obras promovidas pelo governo. "Este é um país que vai pra frente" é o tema da propaganda ufanista da ditadura.

Janeiro. Para apoiar a repressão aos opositores da ditadura, o Exército cria os Destacamento de Operações e de Informações (DOI) e os Centros de Operações de Defesa Interna (Codi).

A censura prévia de livros e periódicos é oficializada pelo Decreto n° 1077.

Março. Sequestro do cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okishi, pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR); o governo cede à exigência de libertação de cinco presos políticos, que são enviados para o México e banidos.

Maio. O tripé de repressão política da ditadura se completa com a criação do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa); os outros dois órgãos integrantes do aparato repressivo são os já existentes Centro de Informações do Exército (CIE) e o Centro de Informações da Marinha (Cenimar).

Junho. Sequestro do embaixador da República Federal da Alemanha, Ehrenfried von Holleben, no Rio de Janeiro, pela ALN e pela VPR; o governo cede à exigência de libertação de 40 presos políticos.

Outubro. Assassinado Joaquim Câmara Ferreira, sucessor de Marighella no comando da Ação Libertadora Nacional, sob tortura, em São Paulo.

Dom Paulo Evaristo Arns é o novo arcebispo de São Paulo; nos anos seguintes, ele teria papel relevante na resistência às arbitrariedades da ditadura.

Novembro. Dilma Rousseff é interrogada em um tribunal militar no Rio de Janeiro. Ela permanecerá presa até 1973.

Dezembro. Sequestro do embaixador da Suíça, Giovanni Enrico Bucher, no Rio de Janeiro, pela ALN e pela VPR; o governo cede à exigência de libertação de 70 presos políticos.

"O sequestro é o habeas corpus que nos tiraram."

Sobral Pinto, jurista e advogado de presos políticos.

1971

Mais um golpe militar na América Latina: o general Hugo Banzer derruba, com o apoio da ditadura brasileira, o presidente boliviano Juan José Torres, militar nacionalista.

"Tudo certo como dois e dois são cinco."

Verso da canção Como dois e dois, de Caetano Veloso, composta durante o exílio em Londres.

Janeiro. Condenado à morte pela Justiça Militar, Teodomiro Romeiro, militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, tornando-se o primeiro sentenciado à pena capital no país durante o período republicano; posteriormente, o Superior Tribunal Militar transformaria sua pena para prisão perpétua.

O ex-deputado Rubens Paiva é preso em sua casa no Rio de Janeiro pelo Cisa e levado ao Comando da III Zona Aérea; transferido na mesma data para o quartel do DOI, é torturado e morto. Paiva integra a lista de 200 desaparecidos políticos durante a ditadura militar.

Fevereiro. Ulysses Guimarães assume a presidência do MDB, único partido de oposição aceito pelo governo.

Abril. Morto o industrial Henning Albert Boilesen, em São Paulo, por um comando do Movimento Revolucionário Tiradentes e da Ação Libertadora Nacional, acusado de financiar a repressão política e participar de sessões de tortura.

Setembro. Assassinado Carlos Lamarca, um dos líderes da luta armada contra a ditadura, durante operação do Exército no sertão da Bahia.

Novembro. Oficializada a prática de baixar decretos secretos pelo presidente da República. Médici lança o primeiro deles.

1972

Surge o Movimento Custo de Vida, articulação das Comunidades Eclesiais de Base, ligadas à Igreja Católica; mais tarde, ele se tornaria o Movimento Contra a Carestia.

As Forças Armadas iniciam combate à guerrilha do Araguaia, promovida pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), nos limites dos estados do Pará, do Maranhão e de Goiás.

"Subscrevo-me humilhado."

Ruy Mesquita, diretor do Jornal da Tarde e de O Estado de S. Paulo, em carta ao ministro da Justiça, protestando contra a situação política do país.

A canção Pátria Amada, Idolatrada, Salve-Salve, composta por Geraldo Vandré e cantada pelo músico exilado Manduka, vence o Festival Internacional da Canção de Agua Dulce, no Peru.

A Associação Interamericana de Imprensa condena a falta de liberdade de comunicação no Brasil, em declaração divulgada após reunião em Santiago, no Chile.

A ditadura torna indireta a eleição de governadores estaduais, a realizar-se em 1974.

A Anistia Internacional divulga nomes de 472 torturadores e 1.081 torturados, em relatório sobre a violação de direitos humanos no Brasil.

1973

Crise mundial do petróleo.

Golpe de Estado no Uruguai.

Golpe militar depõe Allende da presidência do Chile. Tem início a sangrenta ditadura do general Augusto Pinochet. O poeta Pablo Neruda morre; o músico Victor Jara é assassinado no Estádio Nacional, em Santiago, local usado como prisão de opositores da ditadura.

A censura à imprensa aumenta ainda mais:

O jornal Opinião, da imprensa alternativa, passa a ser submetido a censura prévia.

O São Paulo, jornal editado pela Arquidiocese de São Paulo, começa a ser censurado.

O Estado de S. Paulo passa a publicar trechos do poema Os Lusíadas nos espaços das matérias censuradas.

O Jornal da Tarde adota procedimento análogo, colocando receitas de comidas no lugar dos textos vetados pela censura.

Ulysses Guimarães é o "anticandidato" lançado pelo MDB nas eleições indiretas para presidente da República.

Calabar, peça de Chico Buarque e Ruy Guerra, é proibida pela censura.

"Eu sou a mosca que pousou em sua sopa."

Verso da canção Mosca na sopa, de Raul Seixas.

 

 

Terceira campanha do Exército contra a guerrilha do Araguaia, no fim do ano, a guerrilha deixa de existir como força organizada.

Assassinado Alexandre Vannunchi Leme, estudante da USP; a repressão monta uma farsa, alegando que a morte teria ocorrido após uma fuga seguida de atropelamento. A missa em sua memória, realizada em setembro na Catedral da Sé, em São Paulo, transforma-se em ato público contra a ditadura.

1974

Em Portugal, a Revolução dos Cravos põe fim à ditadura salazarista, que estava no poder havia mais de quatro décadas. As colônias portuguesas na África tornam-se independentes.

"Eleições. E agora?"

Manchete do jornal da imprensa alternativa Opinião, de 29 de novembro de 1974.

Para julgar os crimes da ditadura brasileira, instala-se em Roma, sob a coordenação de Lelia Basso, o Tribunal Russell 2, nome dado em homenagem ao filósofo Bertrand Russell, falecido quatro anos antes.

Janeiro. O general Ernesto Geisel é eleito presidente por um colégio eleitoral composto por membros do Congresso e delegados das Assembleias Legislativas dos estados. O general Golbery do Couto e Silva seria seu principal interlocutor nos cinco anos de mandato.

Março. Início de onda repressiva contra o Partido Comunista Brasileiro (PCB), em todo o país, centenas de militantes são levados à prisão e à tortura; mais de uma dezena de seus dirigentes desaparece.

Agosto. Uma abertura política "lenta, gradual e segura" é anunciada por Geisel.

Outubro. O Supremo Tribunal condena o deputado Francisco Pinto, do MDB, a seis meses de detenção por pronunciar um discurso contra o general Pinochet, presidente da Junta Militar que governava o Chile, e que se encontrava no Brasil para a posse do presidente Geisel.

Novembro. O MDB obtém expressiva vitória nas eleições parlamentares, com 335 deputados estaduais, 160 deputados federais e 16 senadores em 22 estados.

1975

Morre o ditador Francisco Franco, na Espanha, após permanecer 36 anos no poder.

Censura tira do ar a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, às vésperas de sua estreia na TV Globo, sob a alegação de imoralidade.

 



Fim da censura prévia aos jornais O Estado de S. Paulo e O Pasquim.

"A vida muda o morto em multidão."

Verso final do "Poema para Che Guevara", de Ferreira Gullar, incluído no livro Dentro da noite veloz, publicado em 1975.

Outubro. Vladimir Herzog é assassinado no DOI-Codi, em São Paulo, e a repressão monta a farsa do suicídio do jornalista. O culto ecumênico em sua memória, na Catedral da Sé, transforma-se em um grande ato público contra a ditadura.

O aparato atinge um grau tão elevado de violência que começa a perder apoio até mesmo dentro das Forças Armadas. O assassinato de Herzog e as mobilizações que se seguem marcam o início do processo de declínio da ditadura militar, que levaria ao fim do regime em 1985. Esse processo está narrado na segunda parte da Linha do Tempo, intitulada Da ditadura à democracia, dedicada ao período de 1976 a 1985.

Parte 2 – 1976-1985

Da ditadura à democracia. No começo da década de 1970, a brutalidade da repressão atinge o ápice. O assassinato de Vladimir Herzog, em 1975, torna-se um divisor de águas. Manifestações de estudantes voltam às ruas e greves paralisam as fábricas. A anistia de 1979 abre os cárceres e permite a volta dos exilados, mas impede a punição dos agentes do Estado que violaram os direitos humanos. A luta por eleições diretas para presidente, em 1984, toma as praças do país. A eleição de Tancredo Neves, em 1985, marca o retorno do Brasil à democracia.

1976

Golpe militar na Argentina liderado pelo general Videla depõe a presidente eleita Isabelita Perón. Tem início um período de violenta repressão que se estenderá até 1983, deixando um saldo de mais de 30 mil mortos e desaparecidos.

Morre o ex-presidente Juscelino Kubitschek em acidente automobilístico na Via Dutra.

Morre o ex-presidente João Goulart na Argentina: ele foi o único presidente brasileiro a falecer no exílio. Há suspeitas de que sua morte, assim como a de JK, esteja ligada à Operação Condor, articulação entre as ditaduras latino-americanas que perseguiu, torturou e matou opositores.

"O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças anda nas bocas"

Versos da canção O que será, de Chico Buarque.

Janeiro. Assassinado sob tortura o operário Manoel Fiel Filho no DOI-Codi, em São Paulo. Três dias depois, o general Eduardo d'Ávila Mello é afastado do comando do II Exército.

Agosto. Bomba explode no prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro. Horas mais tarde, outra bomba é encontrada na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas é desativada a tempo. A Aliança Anticomunista Brasileira (AAB) assume a autoria dos atentados, os primeiros de uma série que ocorreria ao longo do ano.

Setembro. Bomba explode no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo, em atentado também reivindicado pela AAB.

Novembro. Mais um atentado a bomba é atribuído à AAB, desta vez contra a redação do semanário Opinião.

Dezembro. Chacina da Lapa: agentes do II Exército invadem uma casa no bairro da Lapa, em São Paulo, e matam líderes do PCdoB.

1977

Aprovada a Lei do Divórcio.

Abril. Congresso é fechado; em seguida, Geisel baixa o Pacote de Abril para assegurar à ditadura a maioria dos votos no Parlamento.

Setembro. Invasão da PUC em São Paulo, durante a realização do III Encontro Nacional de Estudantes (ENE). Sob o comando do coronel Erasmo Dias; a polícia ocupa o campus, prende cerca de duas mil pessoas, e fere gravemente cinco delas.

Trabalhadores do ABC paulista iniciam movimento pela reposição salarial de 31%, índice que refletia a inflação oculta pela ditadura e o achatamento dos salários.

O movimento estudantil rearticula-se em todo o país.

"Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz."

Versos da canção Sonhos, de Peninha.

1978

Na Argentina, as Mães da Plaza de Mayo aproveitam a realização da Copa do Mundo no país e denunciam as mortes e os desaparecimentos aos jornalistas que cobrem o evento.

 

 

Fevereiro. O Comitê Brasileiro pela Anistia é criado.

Maio. Greves operárias no ABC Paulista. Surge o novo sindicalismo e emerge a liderança de Luis Inácio (Lula) da Silva.

Outubro. Revogado o AI-5, que continua em vigor até o fim do ano.

Outubro. O general João Batista Figueiredo é eleito presidente da República pelo colégio eleitoral, com 355 votos, contra 266 dados ao general Euler Bentes Monteiro. Figueiredo havia sido chefe do gabinete militar do governo Médici e chefe do SNI no governo Geisel.

Novembro. O I Congresso Nacional pela Anistia é realizado em São Paulo.

Liberadas pela censura as canções Apesar de você, de Chico Buarque, e Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil.

"Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue."

Versos da música Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, que havia sido composta em 1973 e impedida pela censura de ser veiculada.

O deputado Ulysses Guimarães enfrenta policiais e cães da PM da Bahia durante concentração do MDB na praça Castro Alves.

1979

Greves de trabalhadores: mais de três milhões param em todo o país.

Junho/julho. O Congresso Internacional pela Anistia no Brasil é realizado em Roma.

Julho/agosto. Greve de fome é feita por presos políticos em vários estados do país.

Agosto. A Lei da Anistia é sancionada pelo presidente Figueiredo nos termos em que foi aprovada pelo Congresso por 206 contra 201 votos.

"Meu Brasil!…
Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete"

Versos da canção O bêbado e a equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco, que faz referência aos exilados políticos; o cartunista Henfil sempre mencionava na imprensa seu irmão Betinho, que acabaria voltando ao Brasil em 1979.

Setembro/outubro. Voltam ao Brasil milhares de cidadãos que estavam no exílio havia anos. Entre eles, destacam-se os líderes Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul, Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco, e Luis Carlos Prestes, dirigente do PCB.

Feridas não cicatrizadas até hoje

A anistia de 1979 resultou de longa campanha da sociedade civil. Sem deixar de reconhecer o que nela se fez de justiça aos que resistiram corajosamente à ditadura que tomou o poder em 1964, nunca foi a anistia almejada, uma vez que o próprio regime fez que ela fosse parcial e restrita. Os militares protegeram a si mesmos e aqueles que os apoiaram nas violações de direitos humanos, nos assassinatos e nos desaparecimentos políticos. Ao anistiar torturados e torturadores, a Lei da Anistia deixou feridas até hoje não cicatrizadas.

1980

Fundação do sindicato polonês Solidariedade, numa atitude de desafio ao poder da União Soviética sobre os países integrantes da Cortina de Ferro.

Fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em São Paulo.

Aprovado o restabelecimento das eleições diretas para governador, com validade a partir de 1982.

Fim do bipartidarismo: a Arena, partido do governo, torna-se PDS, enquanto o oposicionista MDB torna-se PMDB. Leonel Brizola funda o PDT e lvete Vargas recria o PTB.

Juiz responsabiliza a União pela morte do operário Manoel Fiel Filho, assassinado dentro do DOI-Codi paulista; a sentença do magistrado da 5ª Vara Federal manda indenizar a família.

"Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar."

Verso da música Canção da América, de Milton Nascimento e Fernando Brant.

Bomba explode na OAB do Rio de Janeiro, colocada por terroristas de direita; morre a secretária da entidade, Lyda Monteiro da Silva.

Atentados promovidos por terroristas de direita queimam bancas que vendiam jornais da imprensa alternativa.

1981 | 1982 | 1983

Abril de 1981. Atentado fracassado da direita terrorista contra show comemorativo do 1° de maio no Riocentro, Rio de Janeiro; um sargento morre e um capitão fica ferido, ambos militares ligados aos órgãos de repressão da ditadura.

Outubro de 1981. Arquivamento do inquérito que investigava o atentado, em decisão do Superior Tribunal Militar, apesar de todas as evidências de culpa dos militares envolvidos.

"Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar."

Versos da canção Coração de estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso, trilha sonora do filme Jango, 1983. No ano seguinte, ela se tornaria uma espécie de hino da campanha das diretas.

 

 

1982

Na crise da dívida externa o governo reconhece que o país não tem condições de saldar os compromissos financeiros e pede ajuda ao Fundo Monetário Internacional.

Eleições legislativas e para governadores e prefeitos são realizadas. Vitória da oposição em vários dos estados mais populosos do país, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná.

1983

Julho. Greve geral convocada de forma unificada por todas as correntes sindicais paralisa o país por um dia e aumenta ainda mais a pressão sobre a ditadura.

Novembro. O primeiro comício pela eleição direta do sucessor do general Figueiredo acontece em São Paulo, defronte ao Estádio do Pacaembu; o evento, promovido pelo PT, reúne aproximadamente 10 mil pessoas.

1984

De janeiro a abril

Dezenas de comícios são realizados no país para reivindicar a aprovação da emenda que restabelece eleições diretas para presidente, no movimento que ficou conhecido como Diretas Já. As duas grandes manifestações ocorrem às vésperas da votação no Congresso Nacional: a primeira no Rio de Janeiro, junto à Igreja da Candelária, e a segunda em São Paulo, no vale do Anhangabaú. Cada uma delas reuniu mais de 1 milhão de pessoas.

"Vai passar
Nessa avenida um samba popular."

Letra da canção Vai passar, de Chico Buarque e Francis Hime.

18 de abril. É decretado estado de emergência no Distrito Federal, em Goiânia e em mais nove municípios de Goiás, como forma de pressão do governo militar diante da votação pelo Congresso da emenda Dante de Oliveira, que prevê eleições diretas para presidente e que ocorreria na semana seguinte.

25 de abril. As Diretas não são aprovadas pela Câmara, em votação apertada: 298 votos a favor, 65 contra e três abstenções, sendo que 112 deputados optaram por se ausentar da sessão. Faltaram 22 votos para atingir os dois terços que permitiriam a apreciação da emenda pelo Senado.

1985

15 de janeiro. Tancredo Neves é eleito presidente da República pelo colégio eleitoral. Em 1962, o mesmo Tancredo Neves havia sido primeiro-ministro no governo de João Goulart; três décadas depois, ele seria eleito com 480 votos, contra 180 dados a Paulo Maluf; 26 deputados que se absteriam: o vice seria José Sarney.

14 de março. Tancredo é internado no Hospital de Base, em Brasília, para se submeter a uma operação de emergência, apenas 12 horas antes de ser empossado como presidente da República.

21 de abril. Tancredo morre em São Paulo, após permanecer 38 dias internado e passar por sete cirurgias. No dia seguinte, cerca de dois milhões de pessoas saem às ruas da capital para acompanhar o corpo, que é levado para ser velado em Brasília e Belo Horizonte.

22 de abril. José Sarney é empossado presidente, cargo que já vinha exercendo interinamente durante a doença de Tancredo Neves.

"Não vamos nos dispersar."

Mensagem de união deixada por Tancredo; após sua morte, ele se torna uma palavra de ordem amplamente difundida no país.

 

 

* Texto da Catálogo da Exposição "Resistir é preciso", apresentada pelo Ministério da Cultura e Instituto Vladimir Herzog, e patrocinada e apresentada pelo Banco do Brasil de 12 de outubro de 2013 a 6 de janeiro de 2014, em São Paulo.

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