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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.28 no.82 São Paulo Oct./Dec. 2014

https://doi.org/10.1590/S0103-40142014000300018 

RESENHAS

 

Marxismo libertário e a imaginação revolucionária em Michael Löwy

 

 

Fabio Mascaro Querido

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas/SP, Brasil

 

 

BRASILEIRO de nascimento, filho de pais judeus vienenses exilados, francês por opção existencial; enfim, intelectual internacionalista, compromissado com o cosmopolitismo dos párias, dos subalternos e dos vencidos cujas resistências e sofrimentos podem (e devem) ser rememorados como prelúdio de uma redenção futura. Assim pode, em poucas palavras, ser definido Michael Löwy (1938), intelectual desde sempre orientado pela tentativa de dialogar, a partir de uma compreensão singular do marxismo, com as múltiplas vertentes (românticas, messiânicas, religiosas, profanas, libertárias) da grande recusa anticapitalista.

Após mais de cinco décadas de um itinerário intelectual tão extenso quanto brilhante, seja pela quantidade ou pela qualidade de seus trabalhos, a sólida obra de Michael Löwy vem conquistando nos últimos anos - mais do que o já consolidado reconhecimento intelectual - um espaço importante nos debates internacionais pela revitalização do pensamento crítico e de um marxismo destituído de todo dogmatismo. Uma pequena amostra dessa tendência pode ser conferida em dois recentes e importantes seminários realizados em sua homenagem, nos dois países que mais marcaram seu percurso existencial e intelectual: Brasil e França. Em ambos os colóquios, as contribuições e os comentários sobre sua obra, realizados por vários de seus interlocutores (sobretudo brasileiros e franceses, mas não só), transformaram-se em importantes livros coletivos, que certamente poderão servir como eixo de orientação para futuros trabalhos teóricos sobre o autor homenageado.

No Brasil, em 2005, em seminário realizado pela revista Margem Esquerda, diversos intelectuais debateram, em várias mesas-redondas, aspectos específicos da obra de Michael Löwy. Dois anos mais tarde, publicou-se pela editora Boitempo o livro - organizado por Ivana Jinkings e João Alexandre Peschanski - As utopias de Michael Löwy: reflexões sobre um marxista insubordinado, composto por importantes contribuições críticas sobre o pensamento de Löwy, com destaque especial para os ensaios de Roberto Schwarz e de Marcelo Ridenti (o deste último também reproduzido na edição francesa), cujos textos, além de destacarem traços particulares da trajetória do autor, esboçam prerrogativas de interpretação do conjunto da obra.

Os trabalhos apresentados no colóquio francês, realizado em Paris na Maison de l'Amérique Latine, em abril de 2009, foram, por sua vez, muito recentemente publicados em livro na França, com o título Cartographie de l'utopie. L'oeuvre indisciplinée de Michael Löwy. Igualmente elaborado através de breves (em sua maioria) artigos, recheados de testemunhos pessoais, o livro publicado na França, ao mesmo tempo que permite entrever as diferentes ênfases interpretativas, aqui e lá, destaca-se por uma maior densidade relativa no trato teórico com a obra de Michael Löwy.

Enquanto a obra brasileira está dividida em cinco "partes" que, internamente, não apresentam uma coerência temática rigorosa, o livro publicado na França concentra-se em três tópicos centrais, os quais manifestam com maior harmonia os principais momentos do itinerário teórico e político do autor - embora também reflitam, na mesma medida, as especificidades da leitura "francesa" da obra em questão. O primeiro tópico, "Images de l'homme et de l'oeuvre", apresenta ensaios sobre elementos relevantes das influências assimiladas e da trajetória de Michael Löwy; o segundo, "Le romantisme et le marxisme travaillés par l'utopie", é composto por abordagens em torno da ligação inequívoca em Löwy - sobretudo nos seus trabalhos das últimas três décadas - entre marxismo, utopia e romantismo, cujas afinidades eletivas redescobertas se oxigenam reciprocamente a fim de contribuir para a reformulação necessária da teoria e da práxis revolucionária. Já o terceiro tópico - "Judaïsme, christianisme, messianisme" - contém textos sobre a presença das utopias teológicas na obra desse incentivador de uma "religiosidade ateia".

Talvez por isso mesmo - quer dizer, em razão dessa construção interna mais coesa -, além das contribuições e testemunhos mais restritos, podem-se encontrar no livro francês ensaios que não hesitam em enveredar pelos caminhos de uma interpretação generosa, mas também crítica e problematizadora. Dentre esses, pode-se destacar, por exemplo, o excelente texto de Enzo Traverso, "Le marxisme libertaire de Michael Löwy" (p.27-38), que delineia hipóteses ousadas, por certo polêmicas, sobre a obra de Löwy, focalizando-a como um todo em movimento. Com muita perspicácia, Enzo Traverso sublinha - como característica fundamental do pensamento do autor - a singularidade de seu itinerário intelectual e político: "A trajetória de Michael se inscreve naquela de uma geração e de movimentos intelectuais e políticos aos quais ele pertenceu, mas possui algo de irredutivelmente singular" (p.28 - tradução livre do francês).

Desde quando ainda cursava Ciências Sociais, na USP (localizada, à época, na Maria Antônia), no final dos anos 1950 e começo dos anos 1960, Löwy foi recolhendo influências diversas, que eram filtradas pela perspectiva política do então militante de correntes trotskistas e/ou luxemburguistas, como a LSI e a Polop - das quais ele foi fundador. Foi por aqui, por exemplo, que Michael Löwy travou o primeiro contato com obras teóricas que estariam presentes - sendo constantemente atualizadas - em toda a sua trajetória, como História e consciência de classe, do jovem Lukács, e os trabalhos de Lucien Goldmann, cuja reelaboração das teses lukacsianas nos termos de uma sociologia da cultura (e da religião) funcional à pesquisa acadêmica contribuiu em muito para a decisão do então jovem sociólogo marxista de ir fazer o doutorado em Paris, em 1961 - sob orientação, é claro, do próprio Goldmann.

A tese, defendida já em 1964 (quando o autor tinha apenas 26 anos incompletos!), sobre a teoria da revolução no jovem Marx - a qual, diga-se de passagem, encontrou resistências "políticas" da parte do próprio orientador, a despeito de esse ser a inspiração teórico-metodológica central -, já demonstrava com bastante acuidade a leitura de Michael Löwy do marxismo como uma teoria da práxis, baseando-se na ideia (de fundo luxemburguista, como atesta o ótimo texto de Isabel Loureiro, "Rosa Luxemburg selon Michael Löwy" (p.81-90)) de que a emancipação social só pode ser uma autoemancipação das classes subalternas. Não é à toa que o trabalho, publicado em livro anos depois, é até hoje uma referência nos estudos teóricos sobre o pensamento e trajetória do jovem Marx.

 

 

Daí em diante, a França - país onde Löwy consolidou sua inserção acadêmica, intelectual e política e vive até os dias de hoje, após breves passagens por Israel e Inglaterra na década de 1960 - seria o lugar de cruzamento entre as diferentes "constelações" teóricas (segundo diz Erwan Dianteill em "Les trois constellations Löwy - contribution à une sociologie benjaminienne de la connaissance" (p.47-58)) que o autor foi incorporando ao longo dos anos, tais como o marxismo ocidental (de Lukács à Escola de Frankfurt), as sociologias históricas de Max Weber e Karl Mannheim e o messianismo judaico-libertário. Porém, mais do que uma leitura meramente exegética, tais influências foram sempre (re)interpretadas ativamente sob a óptica do "marxismo-libertário" que, desde sua precoce paixão pelo surrealismo e pelas "correntes-quentes" da esquerda antistalinista latino-americana (de Che Guevara e José Carlos Mariátegui à Teologia da Libertação), condicionou sua démarche intelectual. Não por acaso Löwy elaborou, na França, segundo diz Traverso (p.30), "uma sociologia da cultura estrangeira às correntes dominantes da sociologia francesa", de Émile Durkheim a Pierre Bourdieu.

Eis, portanto, uma obra que, vista em sua totalidade ainda inconclusa, se apresenta como uma unidade em movimento, composta por um "fio vermelho" subterrâneo permanentemente reelaborado conforme os desafios do "tempo-de-agora". Dentre esses momentos de redefinição, ou melhor, de atualização do pensamento crítico, o diálogo com aspectos da cultura romântica, sobretudo em suas vertentes revolucionárias - que ele iria defender inclusive contra seus detratores marxistas, como o "velho" Lukács -, teve um papel absolutamente central, vindo a ser, conforme sugere mais uma vez Enzo Traverso (p.32), "sua principal contribuição à sociologia da cultura e ao pensamento crítico contemporâneo".

Pois, como se vê no belo ensaio de Vincent Delacroix, "Le temps romantique de Michael Löwy" (p.117-27), a incorporação da temática da visão de mundo romântica em Löwy, de tão profunda, possibilitou uma rearticulação radical do tempo histórico. Os trabalhos sobre a crítica romântica da modernidade - realizados ao lado de Robert Sayre, que assina o ensaio "Romantisme et modernité. Parcours d'um concept et d'une collaboration" (p.61-72) - estimularam uma nova abordagem da história a partir da óptica dos vencidos e, por isso mesmo, na contramão das ideologias modernas do progresso que veem na triunfo dos dominantes do passado tão somente o prelúdio de um presente "historicamente necessário". O passado é "desontologizado", por assim dizer, razão pela qual o que parecia relegado à condição de resquício anacrônico ressurge como pano de fundo de um "romantismo revolucionário" que, agora sabemos, sempre esteve implícita ou explicitamente presente no que de melhor produziu a tradição marxista. Por meio da "eficácia retroativa do presente sobre o passado", Löwy restitui as energias revolucionárias daquilo que, envelhecido, parecia fadado a sucumbir em face do progresso violento da história dos vencedores. No pretérito, ele reencontra traços e alegorias do futuro.

 

 

Nesse processo de redescoberta das utopias românticas, desde meados dos anos 1980, a influência intelectual de Walter Benjamin foi, sem qualquer dúvida, e sob vários aspectos, decisiva. É a leitura de Benjamin que permite a Löwy a fundamentação de uma nova escrita da história, na qual, além do romantismo, o messianismo judaico e as "utopias concretas" (como diria Ernst Bloch) assumem um papel de suma relevância. Desde Redenção e utopia: o judaísmo libertário na Europa Central (trabalho publicado em 1988 e que, talvez em razão da maior presença dos judeus na Universidade, é muito mais lido na França do que no Brasil) até Revolta e melancolia: o romantismo na contramão da modernidade (1992), as utopias libertárias - incluindo as religiosas - servem para Löwy como artifício profícuo à potencialização e redefinição do marxismo no fim de século XX e início do seguinte.

No limite, tratava-se, a partir daí, de uma tentativa de se redescobrir "afinidades eletivas" até então "ocultas" pelo domínio das ortodoxias oficiais. E nada melhor que o marxismo idiossincrático de Walter Benjamin para orientar essa perspectiva, num momento marcado pelo colapso do progresso, seja em sua versão propriamente capitalista, seja em sua tonalidade pós-capitalista (autodenominada "socialista"). Por intermédio de Benjamin, cujas teses sobre o conceito de história foram objetivo de um dos seus mais recentes livros (Aviso de incêndio, 2005), Michael Löwy pôde recuperar uma crítica da Modernidade capaz de restituir os destroços, as ruínas da história, que são rememoradas no presente como testemunho da necessidade de interrupção revolucionária de um progresso que caminha em direção à catástrofe.

Essa radicalização da dimensão dialeticamente "negativa" da Modernidade intensifica-se ainda com a incorporação herética (apoiada nas indicações da teoria da reificação em HCC) do diagnóstico weberiano da Modernidade, "desviando-o" a fim de incorporá-lo no âmbito de uma perspectiva política anticapitalista. A crítica "marxista-weberiana" da modernidade capitalista é um dos núcleos a partir dos quais Michael Löwy interpreta desde a formalização estética kafkiana das "cadeias de papel" - que desenvolve o perigo da burocratização alertado por Weber -, passando pelo surrealismo, até o mais recente ecossocialismo, cujo êxito depende, entre outras coisas, da capacidade do marxismo de consolidar sua ruptura teórica e política com o paradigma civilizatório capitalista-moderno. No dizer do próprio Löwy, num ensaio/testemunho anexado ao livro, "À propos de Lucien Goldmann" (p.177-86): "A questão não é diluir o programa marxiano, mas radicalizar sua ruptura com o paradigma da civilização capitalista ocidental" (p.185).

A fidelidade à utopia e à imaginação revolucionária, que sintetiza o percurso intelectual de Michael Löwy (como afirma Régine Azria, em "Intellectuel et juif: fidelité, utopie. Parcours intellectuel, parcours existenciel" (p.19-26)), entrelaçam-se, assim, no embate comum contra a "gaiola de aço" e o "desencantamento do mundo" diagnosticados pelo sociólogo de Heidelberg. E é na investigação da possibilidade de constituição de laços entre as várias formas de críticas e resistências à modernidade capitalista que se funda a ética intelectual de Michael Löwy. Nesse contexto, a acusação de ecletismo, que volta e meia lhe é remetida, só faz sentido àqueles que concebem o marxismo como um sistema teórico-filosófico "fechado", como um edifício impecável cuja autossuficiência prescinde do diálogo com contribuições teóricas e políticas que lhe são "exteriores".

Para Löwy, ao contrário, o marxismo e o pensamento dialético atuam, antes, como horizonte teórico-político capaz de absorver e subsumir, transformando-se a si mesmo, análises que possam contribuir com a complexa tarefa de interpretar o mundo, quando a luta para transformá-lo parece imediatamente longínqua. Foram essas características, formadoras de uma obra original e inventiva, que garantiram a Michael Löwy - cujas dezenas de livros e artigos foram traduzidos em mais de 25 idiomas - um trânsito relativamente livre em diferentes vertentes da esquerda intelectual e política, tornando-o personagem indispensável do processo de renovação internacional do pensamento crítico contemporâneo, como demonstra, em certa medida, o livro aqui apresentado.

 

 

Fabio Mascaro Querido é doutorando em Sociologia, IFCH - Unicamp. Bolsista Fapesp. @ - fabiomascaro@yahoo.com.br

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