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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.29 no.85 São Paulo set./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142015008500021 

Crítica de poesia II

A lírica recente de Armando Freitas Filho

FÁBIO DE SOUZA ANDRADEI 

I Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo/São Paulo, Brasil.

resumo

Como se inscrevem, no longo percurso autoral de Armando Freitas Filho, os três volumes que se seguem à reunião revista dos treze livros que marcaram seus cinquenta anos de poesia (Raro mar, Lar, e Dever)? O artigo investiga como, ao redor e várias versões da cena da escrita, o poeta arma suas tensões características, entre a ordem e a desordem, o corpo e a palavra, o número e o nome.

palavras-chave: Armando Freitas Filho; Poesia brasileira contemporânea; Raro mar (2002-2006); Lar,: (2004-2009); Dever (2007-2013).

abstract

How should Armando Freitas Filho's most recent poetry volumes (Raro mar, Lar, and Dever) be read, when considered together with Máquina de escrever, his 2003 collection of fifty years of poems? Structured around diverse versions of primal scenes of the writing process, these books seem to reset the peculiar tensions of his work, between order and disorder, body and word, number and name.

keywords: Armando Freitas Filho; Brazilian contemporary poetry; Raro mar (2002-2006); Lar,: (2004-2009); Dever (2007-2013)

Vivo entre vírgulas

O carioca Armando Freitas Filho já traduziu sua poética na figura de um jogo de armar que não acaba, por ele ensaiado "num lugar sem mãos", em que as peças quase se encaixam, mas há sempre algo de excesso ou de falta. A imagem é feliz por contemplar o que de construção medida, expansão violenta e mobilidade irrequieta assumem, em série, a cada novo livro ou poema, as tensas armações provisórias, contemporâneas, que o poeta propõe para seu "microcosmo - o da relação entre dois signos (poesia/vida) interligados", na fórmula de Sebastião Uchoa Leite. Este texto tenta apreender as três configurações mais recentes assumidas por esse puzzle, leitura enfeixada de três investidas (as coletâneas de 2006, 2009 e 2013) em que se vislumbra essa continuidade feita de impasses. Coloca-se aqui, provisoriamente, portanto, entre vírgulas e para efeito analítico, um segmento ínfimo de sua trajetória autoral, que se pretende possa falar pelo todo.1

,a,1,

O volume Raro mar (2002-2006) (Freitas Filho, 2006) sucedeu a reunião revista de seus treze títulos de poesia em Máquina de escrever: poesia reunida e revista (Freitas Filho, 2003), livro que abarcava um extenso percurso compreendido entre Palavra (1963), sua estreia, e, o até então inédito, Numeral/Nominal. Na edição retrospectiva, o aspecto movediço que a herança modernista assume em sua obra (Cabral reverenciado a contrapelo, o Drummond retorcido, desdobrado) deixava-se ler didaticamente em suas inflexões e guinadas.

Se, num primeiro momento, a aproximação da forma experimental e das artes plásticas conduziu-o para uma poesia gráfica, espiralada, quase abstrata em sua música paronomástica, a eclosão do sujo e inacabado da vida (Armando, leitor de Gullar) desloca a linguagem rumo ao inacabado da prosa do mundo, repleto de sobras. Do encontro, choque, surge o poema como costura bruta "de pontos tortos", cicatriz prévia.

A urgência erótica do corpo, o rolo compressor dos dias, "estatísticos" e "adversos", o mundo urbano degradado dos nomes imolados em números, sob aspecto concreto e brasileiro do Rio de Janeiro, encontram correspondência nas imagens recorrentes do risco, do salto e do disparo ("Estado ainda não nomeável, alma vazia/ da culatra ao cano, da arma/ que não decidiu o destino do tiro"), vazadas num verso tateante, cheio de arestas, que "feito de ar e músculo/ tenta passar, na folga dos motores/ o que foi escrito, com o que se leu/ e com o que é ilegível, que ainda/ está lá, no lado oculto da lua".

Rareia o mar, faz-se escasso o riso: a ironia de outros tempos, trocadilhesca, onívora e alusiva ("Fazer um poema / à clef,/ Paul?", referência críptica, mas não tanto a Paul Klee, o pintor suíço) cede espaço ao aguilhão discreto de "Perfil", em que se demonstra que o corte de Machado, ao contrário do que sugere seu nome, não é o do instrumento que serve ao carrasco, mas o da "pena afiada", literária, do outro, o de Assis, oferecida "de surpresa/ no fio da folha papel fino".

Esse mar do título - figuração possível do sublime, vizinho, mas remoto, inaudível "desde o centro de cimento da cidade", em meio a um cotidiano em que "cada dia é uma bala de roleta-russa" - ameaça secar e expor "o rochedo absoluto", em que a vida é "desmanche de crianças, jardim travado, não verdeja, deu pau" ("2004").

Encerra Raro mar nova seção de "Numeral", poemas sem título, tentativas anônimas de nomear, retomadas de onde o livro anterior as abandonara. Entre a série e o impasse, o poeta seguia apostando em seus jogos de armar.

,b,2, b,

"ESCREVO DE costas para a família/ defronte do espelho/ que a reflete, e a mim, sua extensão/ e consequência": os versos do poema "Pelo Retrovisor" bem poderiam servir de epígrafe a Lar,: (2004-2009) (Freitas Filho, 2009), livro que sucedeu Raro mar (2002-2006).

Eles resumem e encenam, na imagem sintética da escrita solitária, os elementos essenciais que definem o estado atual e a história de seu "escritório poético", correção de rumo - pessoal, lúcida e retorcida - da geometria cabralina e da oficina irritada drummondiana, moldadas pela experiência contemporânea e pela preocupação persistente com o tempo.

Em suas três seções, "Primeira Série", "Formação" e "Numeral", a coletânea é antes de tudo "autobiografia de uma poética", como em breve, mas ótimo, prefácio o qualifica Vagner Camilo (2009), e não mera sucessão de instantâneos alumbrados que buscassem recompor, em conjunto, o pano de fundo exterior, perdido na memória, da experiência individual.

No jogo de cena à maneira de Velásquez do poema citado, aquilo que o gesto firme de dar as costas nega - as amarras da tradição, o pai, a origem -, o espelho devolve confundido à própria imagem do sujeito lírico, inscrito tanto na materialidade do corpo quanto nas vozes de seus fantasmas pessoais, dos quais busca escapar pela palavra inquieta, poeta reflexivo e dividido que é.

Nessa cena originária do autor, revela-se mais uma vez, indissolúvel, a unidade do tenso par central da obra de Armando Freitas Filho, poesia/vida, em grau de obsessão que ultrapassa em muito a marca geracional. Assim, "Primeira Série" e "Formação" aludem ao aprendizado primeiro, escolar e doméstico, do mundo, torcido pelo gozo e remordimento, na infância e na juventude, mas não deixam de anunciar a descoberta da escrita, de outra família em que Drummond, Cabral, Gullar, Bandeira figuram como os pais a matar.

Forma-se o indivíduo e forja-se o poeta, no mesmo movimento não pacificado: a mãe sobrevive na voz gravada, a tortura anônima do aluno insatisfeito no protesto verbal, escavado a estilete na indiferença da carteira.

São figurações concretas, portanto, de um embate em pleno vigor na maturidade do poeta, primeiros passos de uma série que não se encerra, moto contínuo. Fechando a coletânea, "Numeral", um conjunto de poemas sem título e encadeados unicamente pela ordem numérica crescente, na verdade o abre, para desdobramentos futuros e para sua origem passada, atenta à tarefa exigente de "escrever a partir da coreografia/ difícil imposta pelo pensamento/ do corpo", limite material inelutável à angústia do tempo.

...,c,3,c,...

Dever (2007-2013) (Freitas Filho, 2013), estruturalmente, lembra os dois livros que o precederam imediatamente. De Raro mar (2002-2006) guarda a coda semelhante, novamente a seção "Numeral". De Lar,: (2004-2009), além disso, preserva a mesma arquitetura ternária, nas seções "Suíte", "Anexo" e "Numeral 101 a 137", em que a novidade parece perigosamente espremida entre o que veio antes e o que ainda se anuncia, mas já se adivinha. Se a "Suíte" sempre desdobra, no tempo ou no espaço, algo anterior, um "Anexo", apenso, chega sempre depois, e dependente. Ao novo, portanto, resta a margem mínima, esvaziada, desconfortavelmente estreita, e é dessa dificuldade que ele precisa se fazer, resistente.

Uma das forças da poesia recente de Armando Freitas Filho talvez esteja no modo agudo com que revolve o conceito da autoria, aqui esquadrinhada entre os gestos de contenção e expressão, de controle e extravasamento característicos da sua personalidade literária. O "homem por trás dos óculos e do bigode", reconhecível no 3x4 severo que a orelha de seus livros costuma trazer, parece buscar o refúgio completo sob a pele dos poemas, entre a encadernação dos livros. São eles que o tornam reconhecível, como evidencia o poema 109, da seção "Numeral":

109

Identificado pelo jeito de andar

que trabalha todo o corpo, internamente

e não pelo gesto, muito epidérmico

fácil de ser imitado, nem pelo rosto

passível de mudança, cirúrgica ou temporal

que vem em dois andamentos: lento ou presto.

Tampouco pela marca da voz, da digital

da sombra de encontro à parede

adulteráveis, disfarçadas por natureza.

Escrever é como caminhar: se reconhece

o autor, não pela letra, que se falsifica

nem pelo tema tratado na face da superfície

mas pelo problema de fundo, o húmus original

que alimenta os passos subterrâneos do assunto.

8 IV 2008

Que significa datar um poema numerado, inscrito numa série aberta, sem fim previsto? Em um projeto duradouro como o de "Numeral", estamos distantes do álbum de confissão, dos poemas sob pretexto episódico; a vida, aqui, sempre é medida em linguagem, catapultada a um tempo próprio. Por que, então, singularizar o serial, se não para, nessa poética do resto, do desajuste, da explosão contida, do gatilho, do abismo indissolúvel entre corpo/mente, fazer/escrever, dar a reconhecer um autor singular, resistente, incomodado, preso entre o anonimato do número e de um nome e suas sequelas?2 A vida que os poemas comportam, por outro lado, se situa fora do sujeito, entre e nos objetos, corporificada nos cômodos da casa, encapsulada nos relógios parados (como o fantasma do avô, no Patek, de "Para dois avós desconhecidos" e do pai, em "Ômega).

Como muitos já apontaram, esse sujeito lírico fora de si, objetivado, traduzido e absorvido no ato da escrita maquinal, obsessiva, ofício e oficina irritada, é uma imagem recorrente, ideia fixa e lugar comum da sua obra.3 Mas, apesar de despersonalizados e, ao mesmo tempo, expressos em toda sua intimidade em palavras, nas coisas de palavras que são os poemas, o poeta e a vida excedem, não cabem, não se ajustam à perfeição à andadura do poema.

Alçado aos títulos - não é à toa que Máquina de escrever nomeia a reunião mais abrangente de sua poesia e 3x4 intitula outro de seus livros -, esse ethos parece responsável por certo ar de ordem opressiva, controladora que, mesmo em face da permanente disposição, mais que ela, da vontade ativa em acolher o imprevisto, a ruptura, o acaso do mundo, prevalece na forma de sua poesia.

Escrever é aqui, também, ao menos em parte, um transtorno obsessivo compulsivo, mal-estar dos mais produtivos e busca sem fim da forma que jamais será exata, não apenas dever incontornável, tarefa, portanto, que comporta certa dose de sujeição e desconforto, mas permanente contabilidade, dever e haver, recapitulando, sempre em dívida e em arranjos, provisórios e movediços por natureza, combinatórias, as mesmas velhas e inexauríveis questões. Entre o nome dado à experiência e seu número na série, ali, se instaura a tensão, o desajuste, e se funda o interesse dessa poesia.

A construção do ego scriptor, da persona de autor que se depreende da totalidade de percurso poético, deriva em grande parte desse desajuste, que não é novidade em sua obra, mas assume novo aspecto agora, no contexto da maturidade. Depois de uma obra reunida, cresce o peso da sedimentação pública de uma imagem (que alterna a discrição e a alusão direta à experiência, autoescrutínio e descrição de um eu), do poeta rigoroso na forma, mesmo que adepto de uma poética da explosão, do abismo. A contagem em ampulheta do tempo restante espicaça o sentimento de urgência e temas como a memória - pessoal, familiar, literária - cresce.

No caso, com tudo que ela comporta de pôr em relevo as marcas de expressão, cicatrizes e sequelas no corpo (o sorriso no retrato do poeta não disfarça os vincos na extremidade do nariz, acima das sapatas dos óculos, marcas da natureza reflexiva dos que têm o hábito de quase "massagear" o cérebro, com os dedos em pinça) e na obra, com todas as inflexões estilísticas que, em meio século de produção, ela acumula, as cristalizações que a longa duração costuma impor.

As contradições de base, levadas a sério, se impõem e retornam organizando tópicas que se entrecruzam numa forma tensa: em Dever, mais uma vez, por exemplo, a memória familiar se confunde com a intimidade das várias versões de uma cena primária dominante, a da iniciação à literatura. As marcas do pai são de lápis; "mãe", "pai", "filho" e "casa" são, antes de tudo mais, palavras estridentes, quase que inscritas, a giz no quadro negro, cercadas de violência disfarçada ("Aula"). O tempo cai de uma ampulheta escrevendo o "A" ("De um sonho") de Armando, e os espaços da casa são teatro para um se (re)fazer, permanente e instável, entre "Livros", uma "Biblioteca duvidosa", o "Escritório, pai", o "Primeiro livro", as "Leituras".

Ainda que na segunda seção de Dever, "Suíte", registre uma abertura para o poemas ancorados na experiência cotidiana urbana, datados portanto, dominam o livro os textos que encarnam o esforço de compor em palavras o eu, dualmente dividido entre a ordem e a desordem, entre o nome e o número, configurando a primeira e a última seção quase como polos. Exemplo notável é o longo poema estrategicamente escolhido para encerrar "Suíte", "Noturnos", que, entre o grito mudo de Munch e a noite de Goeldi, flagra o corpo inquieto, desacompanhado do sono/sonho, incapaz de desligar, sob a luz da folha em branco, no ritmo do "lento furo do pingo da gota/ sucessivo da bica sem conserto", empenhado em montar o puzzle de si mesmo. Nele, o poeta ganha a luta contra o tempo e a sombra de uma versão oficial de si mesmo, não se dobrando sob o peso oficial de cinquenta anos de poesia reunida.

Referências

BOSI, V. Objeto urgente. In: FREITAS FILHO, A . Máquina de escrever: poesia reunida e revistaRio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. p.5-25. [ Links ]

CAMILO, V. Lar, a autobiografia de uma poética. In: FREITAS FILHO, A. Lar,:(2004-2009) São Paulo: Cia. das Letras, 2009. p.9-15. [ Links ]

FREITAS FILHO, A. Máquina de escrever: poesia reunida e revista, Rio de Janeiro: Nova Fronteira 2003. 608p. [ Links ]

FREITAS FILHO, A.. Raro mar (2002-2006) São Paulo: Companhia das Letras, 2006, 94p. [ Links ]

FREITAS FILHO, A.. Lar,: (2004-2009)., São Paulo: Cia. das Letras 2009. 136p. [ Links ]

FREITAS FILHO, A.. Dever (2007-2013), São Paulo: Cia. das Letras 2013. 158p. [ Links ]

PENNA, J. C. Prefácio. In: FREITAS FILHO, A . Raro mar (2002-2006), São Paulo: Cia. das Letras 2006. p.9-15. [ Links ]

NURNBERGER, R . Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Ed. da Uerj, 2011.(Col. Ciranda da Poesia). [ Links ]

1 Este artigo retoma parcialmente duas resenhas que foram impressas, originalmente, na Folha de S.Paulo, na coluna "Rodapé", por ocasião do lançamento de Raro mar (2002-2006) e Lar,: (2004-2009)

2 Também assim o nome do poeta, transmutado em gerúndio, ou aludido em derivações, como "armar" e "armadilha", surge recorrentemente em seus versos como assinaturas dispersas.

3 Dela fala com propriedade, por exemplo, João Camillo Penna (2006), no prefácio a Raro mar (2002-2006). Para um excelente balanço de tensões e temas na obra de Armando Freitas Filho, ver o "Objeto urgente", prefácio de Viviana Bosi (2003) ao volume de 2006. Com o mesmo escopo panorâmico, vale consultar o breve livro da Coleção Ciranda de Poesia, Armando Freitas Filho, de Renan Nurnberger (2011).

Recebido: 16 de Junho de 2015; Aceito: 23 de Julho de 2015

Fábio de Souza Andrade é professor de Teoria Literária na FFLCH-USP. @ - fsouza@usp.br

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