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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.32 no.92 São Paulo jan./abr. 2018

http://dx.doi.org/10.5935/0103-4014.20180016 

Leitura de ficção

Na lavoura arcaica1

Belinda MandelbaumI  3

IInstituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil.

Resumo

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, é lavoura em diversos campos do arcaico. Neste artigo, a autora procura mostrar aspectos dessa lavoura no campo da língua portuguesa, na qual Raduan cava as palavras e deita o leito para o fluxo delas; no campo da terra, de uma natureza anterior ao labor humano, onde a personagem cava o espaço para o seu corpo; da personagem no interior de si, do próprio corpo e de suas memórias; no interior da intimidade familiar, do discurso paterno, do ventre materno, do amor fraterno; e no campo da literatura, no "texto dos mais velhos", em páginas ancestrais do Ocidente. Todas essas lavouras se cruzam para um acerto de contas do autor com sua própria história.

Palavras-chave: Lavoura arcaica; Raduan Nassar; História pessoal; Arcaicos

Abstract

Ancient tillage, by Raduan Nassar, is a tillage in several fields of the archaic. In this paper, the author shows aspects of this tillage in the field of the Portuguese language, in which Raduan digs for words and lays the bed for their flow; in the field of earth, of a nature prior to human labor, where the character digs the space for his body; of the character within himself, his own body and his memories; in the interior of family intimacy, of paternal discourse, of the mother's womb, of fraternal love; and in the field of Literature, in the "text of the elders", in the ancestral pages of the West. All these tillages intertwine to settle the author's accounts with his own history.

Keywords: Ancient tillage; Raduan Nassar; Personal history; Archaic

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, é a narrativa em primeira pessoa de André, jovem de uma família de origem árabe - o que se depreende dos nomes dos familiares e da única palavra dita pelo avô, Maktub ("está escrito") - radicada numa fazenda onde trabalham na lavoura da qual retiram o sustento e todo o alimento. A narrativa se inicia quando Pedro, o irmão mais velho de André, chega ao quarto de pensão para onde este fugira após uma relação incestuosa com a irmã, Ana. A primeira parte, "A partida", é feita do diálogo com o irmão, permeado do discurso interior e das rememorações de André. Na segunda parte, "O retorno", acompanhamos o diálogo de André com o pai, a alegria da família, a festa por sua volta e, nessa, o momento em que Ana, dançando na roda de amigos e parentes, é repentinamente morta pelo pai, após esse saber, por Pedro, do incesto cometido.

O livro de Raduan é lavoura a um só tempo em muitos campos do arcaico. É lavoura na língua portuguesa, cavando as palavras e deitando o leito para o fluxo delas, por onde é possível fazer brotar a vida - "toda palavra é uma semente" - e partilhá-la com o leitor, num jorro de sentenças e experiências. É nesse jorro da linguagem que se presentifica um dos arcaicos do texto - sua motivação, que é a pulsão constante e viçosa que busca nas palavras algum recipiente para sua colheita. A motivação do texto é o próprio labor com os campos do arcaico, num acerto de contas inevitável com a história pessoal - "eu também tinha coisas prá ver dentro de mim" - e familiar - "que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda?".

A obra é também lavoura no arcaico da terra, lá onde a natureza está antes do homem: no bosque para onde André corre desde a infância e na adolescência, para se cavar com o corpo todo na terra úmida e se cobrir com as folhas que caem sozinhas das árvores. Ali é o que cresce antes da cultura e da agricultura, que oferece a coleta dos primórdios do labor humano. É a terra do que brota com espontaneidade, faz sombra e leito, lugar do oculto em que André se abriga para escapar às ordens e aos homens: "era num sítio lá do bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família". O bosque é o arcaico da lavoura, lugar do labor da natureza e onde é possível distanciar-se da lida humana.

O texto é também lavoura no interior de si: André, no interior do mundo que é seu quarto individual, o da pensão para onde vai ao fugir da casa paterna, explora seu corpo e seus líquidos, e suas memórias, todas elas nos diferentes espaços da fazenda da família. Sua infância no bosque, o carinho das palavras e dos afagos da mãe, as frases solenes dos sermões do pai, a beleza das irmãs, a divisão da família nos lados direito e esquerdo das refeições à mesa. Também o avô de uma só palavra, Maktub, e "de uma só geografia". Lembra da casa velha, lugar do incesto com Ana. Essa lavoura no interior de si irrompe e se expressa na linguagem da volúpia, do desejo, do delírio e da identidade de epiléptico, tudo isso superposto e confundido no lirismo da prosa. André vê-se como um faminto a quem a soberania da família pede uma impossível paciência. A parábola do faminto, "aquela história oriental" que o pai contava à mesa em que não faltava o sal, a carne e o vinho, pedindo aos filhos paciência com a fome diante da comida, serve como metáfora expressiva das angústias que dilaceram o ávido adolescente André, que tem que dar conta de suas paixões dentro dos limites estritos definidos na ladainha cotidiana paterna. O pai pede paciência uma e outra vez na sucessão dos dias, enquanto o jovem sobrevive "à custa das próprias vísceras":

Eu também tenho uma história, pai, é também a história de um faminto, que mourejava de sol a sol sem nunca conseguir aplacar sua fome, e que de tanto se contorcer acabou por dobrar o corpo sobre si mesmo alcançando com os dentes as pontas dos próprios pés; [...] (Nassar, 1989, p.159-60)

André denuncia a antropofagia de si mesmo a que a fome diante da comida obriga, só lhe restando comer os próprios pés para poder permanecer dentro dos limites da palavra e da casa paterna. A fome integra diversas dimensões do arcaico: ela é experiência pessoal, visceral, frente a quê André se vê obrigado a se comer. É referência para a família, que tem todo o seu labor e sua lavoura voltada à própria subsistência. Os sermões do pai são a disciplina da fome. E em sua pedagogia doméstica, ele lança mão de uma história oriental, "A parábola do faminto", que Raduan extrai das Mil noites e uma noites.2 É fome, também, na ancestralidade da história cultural oriental, narrada em uma de suas obras-primas. A fome está na origem do relato pessoal (nas vísceras!), do familiar e do cultural, campos indissociavelmente ligados no qual a luta com ela é travada.

André uma e outra vez quer se libertar desse amálgama de fome e disciplina, quer ser o profeta de sua própria história e construí-la a partir da esperança de um quarto inviolável, individual, "quarto catedral" da pensão interiorana onde se distancia da casa da fazenda. Mas, se distraído se perguntasse "para onde estamos indo?", "não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas", com a rigidez de uma profecia desprovida "de qualquer dúvida", ouviria: "estamos indo sempre para casa". A lavoura em si mesmo é sua tentativa de acertar contas com o arcaico, superando-o, mas é também o confronto com o seu poder inexorável: "desde menino, eu não era mais que uma sombra feita à imagem do destino [...]; por que então esses caprichos, tantas cenas, empanturrar-nos de expectativas, se já estava decidida a minha sina?".

André se vê amarrado à família: ao discurso paterno, ao ventre materno e ao amor fraterno. É parte da lavoura no interior de sua história cavar a intimidade familiar, "suspender o tampo do cesto de roupas no banheiro" e trazer à luz, no campo da linguagem que é a própria obra, "a água dos parentes que ainda brota lá do fundo". Do cesto surgem, ao afundar as mãos, "a energia encaracolada e reprimida do mais meigo cabelo do púbis", "o soluço mudo que subia do escroto engomando o algodão branco e macio das cuecas", "as toalhas higiênicas cobertas de um pó vermelho como se fossem as toalhas de um assassino", "os humores todos da família mofando com cheiro avinagrado e podre de varizes". Ou seja, do cesto emergem as marcas do pulsional, do sexual, do violento, da repressão e do silêncio. Tudo aquilo a que o discurso do pai pede paciência mas que de algum modo ejacula: "a impaciência também tem os seus direitos!".

A lavoura no interior da família é também a rememoração, no sono de André, de objetos amassados, carcomidos, ulcerados "de tanto esforço em suas lidas". Objetos machucados, lamentosos, soturnos - um socador, uma gamela, um torrador de café, uma chaleira de ferro, uma fotografia nupcial "trazendo como fundo um cenário irreal". Dessas coisas de família André é guardião zeloso que sugere que em cada um desses fragmentos se depositam a história afetiva e a atmosfera modorrenta de um cotidiano onde, no entanto, sistematicamente não falta a água fervida, o café, a comida e o sal, tudo sob a imagem da Santa Ceia e do retrato nupcial.

Lavoura arcaica também é lavoura no campo literário - é consulta, no escuro, do "texto dos mais velhos, a página nobre e ancestral". Buscando as linhas que mapeiam a escuridão de si, dos corredores da casa e do interior do bosque, o narrador faz uso de fragmentos das fontes textuais arcaicas de sua própria história - a história de uma família de imigrantes libaneses no Brasil -, e também da trajetória de Raduan de leitura dos grandes textos do Ocidente. A segunda parte do livro, "O retorno", que narra a volta de André à casa da família após o tempo na pensão, inicia-se com uma epígrafe extraída do Alcorão (Surata IV, 23), o livro sagrado do islamismo e, portanto, parte da origem de sua própria família. Diz o fragmento:

"Vos são interditadas:

vossas mães, vossas filhas, vossas irmãs,

..................................................................................."

que expressa um interdito fundante da vida social - o tabu universal do incesto -, inscrito no ordenamento familiar. André e Ana transgridem o interdito com seu amor, mas André denuncia que as palavras paternas já continham a transgressão do escrito sagrado, que no ordenamento dos sermões engolidos pelos filhos já estava contida "a semente da desordem", que obedecê-los estritamente, buscando assim assegurar um lugar à mesa ("já disse e repito ainda uma vez: estou cansado, quero com urgência o meu lugar na mesa da família!"), é pecar. André ouve na "mesa dos sermões":

[...] humilde, o homem abandona sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza; só através da família é que cada um em casa há de aumentar sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um em casa há de fruir as mais sublimes recompensas; nossa lei não é retrair mas ir ao encontro, não é separar mas reunir, onde estiver um há de estar o irmão também... (Nassar, 1989, p.148)

Não é isso que André realiza junto a Ana, sossegando em família a sua fome, propondo a ela juntos aumentarem a existência, encontrando em casa mesmo as sublimes recompensas? Ele pede à irmã o que pede o pai à família: que não se separem, que preservem sua união, "onde estiver um há de estar o irmão também"! O mandato paterno, contrariando a sentença da epígrafe sem o saber, é endogâmico, "defendendo de adquirir fora o que pudesse ser feito por nossas próprias mãos, e uma lei ainda mais rígida, dispondo que era lá mesmo na fazenda que devia ser amassado o nosso pão: nunca tivemos outro em nossa mesa que não fosse o pão-de-casa, [...]" (ibidem, p.78). E há virtualidade incestuosa também na sedução materna, em seus afagos corporais, oferecendo além do alimento à mesa o seu ventre e o seu seio para o corpo do filho: "que culpa temos nós se fomos duramente atingidos pelo vírus fatal dos afagos desmedidos?" (ibidem, p.130).

Dentre os textos dos mais velhos de que são feitos os sermões do pai, podem-se ouvir também ressonâncias do Eclesiastes - Qohélet, "palavra-palimpsesto hebraico-árabe", "uma coleção de apontamentos" bíblicos sapienciais que Haroldo de Campos (1991, p.54) traduz poeticamente por O-que-sabe. O pai de André diz:

[...] onipotente, o tempo está em tudo; [...] existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; [...]

E diz o poema sapiencial, na tradução de Haroldo de Campos:

III

1. Para tudo seu momento

E tempo para todo evento sob o céu

2. Tempo de nascer e tempo de morrer

Tempo de plantar e tempo de arrancar a planta

[...]

9. Que proveito ao fazedor

no afã do que faz?

O sermão, tal como o poema, assenta-se na "concepção da sabedoria divina e do seu fazer determinante de todo acontecer humano" (Lohfink apud Campos, 1991). Há um tempo onipotente, maior do que o do fazedor humano, que determina o seu destino. É um tempo cíclico, que o afã humano pode perturbar:

A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo. (ibidem, p.183)

É cíclico também o tempo da narrativa de Lavoura arcaica, que se inicia com a rememoração da festa na fazenda, com a dança em roda entre as árvores, momento ritual em que a fazenda se abre para os parentes e vizinhos, e em que Ana dança e encanta André, deitado a certa distância no bosque, cavando com os pés ao vê-la a terra úmida. Na festa de seu retorno, a mesma dança se repete, com as mesmas palavras para descrevê-la, até que Ana irrompe no meio da roda, agora vestindo sua impetuosidade com as quinquilharias colecionadas por André entre as meretrizes que visitava na adolescência e que ele oferta às irmãs, pelas mãos de Pedro, seu irmão mais velho, em seu retorno. O afã impaciente de Ana "(que todos julgavam sempre na capela)" assalta e assombra a festa, mas também magnetiza a todos, tornando mais quente e forte a dança. Pedro, "alucinado", dispara até o pai e vocifera-lhe a revelação que o faz fender "o grupo com a rajada de sua ira" e atingir "com um só golpe a dançarina oriental" (Nassar, 1989, p. 192), após o que, tal qual na tragédia de Édipo-rei, sobrevém a peste:

[...] correntes corruptas instalaram-se comodamente entre vários pontos, enxugando de passagem a atmosfera, desfolhando as nossas árvores, estorricando mais rasteiras o verde das campinas, tingindo de ferrugem nossas pedras protuberantes, reservando espaços prematuros para logo erguer, em majestosa solidão, as torres de muitos cactus. (ibidem, p.192)

Ainda que rompendo o tempo cíclico que rege a vida da terra e da família, são os desígnios insondáveis do tempo que conduzem a história. No fecho do livro, está escrito:

(Em memória de meu pai, transcrevo suas palavras: "e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar bem um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionam nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos cascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço.") (ibidem, p.195-6)

Haroldo de Campos refere-se à interpretação do mundo grega que influenciou a escrita do Qohélet no século III a.C. Nas tragédias gregas, o destino das personagens está univocamente determinado pelos deuses, e elas, por mais que tentem escapar, por mais sinuosas que sejam suas trilhas, sucumbem ao que lhes foi predestinado. Cada coisa tem seu tempo, acima dos homens, insondável e inexorável. Não há, portanto, proveito algum no afã do fazedor. A palavra do avô, "Maktub", desdobra-se no discurso paterno nessa espécie de determinismo imutável das coisas. E André, tal qual uma personagem trágica, quanto mais busca satisfazer os seus desejos e a fome, mais se enreda na realização da palavra do pai. Porque a endogamia e o incesto estão contidos no sermão. É a palavra do pai a semente que planta o amor entre os irmãos.

Logo após consumarem o incesto, André reencontra Ana na capela da fazenda e, suplicando por permanecerem juntos, lhe diz:

[...] foi um milagre descobrirmos acima de tudo que nos bastamos dentro dos limites da nossa própria casa, confirmando a palavra do pai de que a felicidade só pode ser encontrada no seio da família; foi um milagre, querida irmã, e eu não vou permitir que este arranjo do destino se desencante, [...] (Nassar, 1989, p.120)

Mas Ana em silêncio reza e não atende aos apelos do irmão: "pela primeira vez eu me senti sozinho neste mundo". E é "prosternado à porta da capela" que André pensa em partir: "eu poderia simplesmente abandonar a casa, e partir, deixando as terras da fazenda para trás; eram também coisas do direito divino, coisas santas, os muros e as portas da cidade". Mas seu irmão Pedro o busca no quarto de pensão e André volta pra casa. A própria estrutura do livro, dividido em duas partes, "A partida" e "O retorno", materializa a busca da saída e a inexorabilidade da volta - "estamos indo sempre para casa".

Leyla Perrone-Moisés (1996) diz que "Lavoura arcaica é uma versão moderna da parábola do filho pródigo" (Lucas 15:11-32). Na parábola, o filho mais novo de um senhor pede ao pai a sua parte na herança e sai de casa, desperdiçando em prazeres em terras longínquas o que recebeu. Mais tarde, em situação de miséria e tendo experimentado as agruras de um trabalho degradante, resolve voltar para a casa paterna. Arrepende-se diante do pai, que o acolhe e volta a lhe dar do melhor. O filho mais velho, que sempre permanecera junto ao pai, ao ver os festejos pela volta do irmão, reclama com o pai, ele que sempre ficara e trabalhara nas terras paternas. Responde o pai: "Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado!".

Em Lavoura arcaica, a parábola se realiza na fala que o pai dirige ao filho, na sua volta:

- Meu coração está apertado de ver tantas marcas no teu rosto, meu filho; essa é a colheita de quem abandona a casa por uma vida pródiga.

Ao que André responde, subvertendo a narrativa paterna:

- A prodigalidade também existia em nossa casa.

O pai não entende e o filho não acredita na discussão de seus problemas: "estou convencido, pai, de que uma planta não enxerga a outra". Ainda assim, num diálogo amargo e colérico, ele diz: "Foi o senhor mesmo que disse há pouco que toda palavra é uma semente: traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga explosiva no seu bojo: corremos graves riscos quando falamos" (ibidem, p.167).

De tudo que foi plantado, das sementes na lavoura e das palavras nos sermões, qual é a colheita? Quê frutos essa lavoura arcaica produz? Diz o pai:

- É egoísmo, próprio de imaturos, pensar só nos frutos, quando se planta; a colheita não é a melhor recompensa para quem semeia; [...] já é um bem que transferimos, se transferimos a espera para gerações futuras, [...]. e pode haver tanta vida na semente, e tanta fé nas mãos do semeador, que é um milagre sublime que grãos espalhados há milênios, embora sem germinar, ainda não morreram. (ibidem)

E André responde:

- Ninguém vive só de semear, pai.

O filho denuncia que do ordenamento das sementes brota também a desordem, que há uma carga explosiva nas palavras, que a pulsão sexual e violenta é inerente à razão. Dessa lavoura arcaica brota a peste, a violência e a morte. Após a morte de Ana, a mãe passa a puxar "um lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo: tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do deserto".

Mas do labor de todos os arcaicos na história de Raduan Nassar brota também essa obra-prima que é Lavoura arcaica, onde a palavra volta a recuperar a sua potência de semente de vida e energia. Raduan faz da literatura lavoura onde encontra as palavras verdadeiras para um acerto de contas com sua história. Feito o acerto tanto quanto o acerto é possível, ele deixa a literatura e vai pra casa.

Notas

1Este artigo é fruto de ensaio apresentado na disciplina "Figurações da família: Psicanálise e Literatura Brasileira", oferecida no Departamento de Letras da FFLCH/USP em 2015. Sou imensamente grata a Yudith Rosembaum por essa parceria de tantos frutos, bem como aos alunos, pela companhia interessada que estimula a criação.

2Em Ritos da paixão em Lavoura Arcaica, André Luis Rodrigues (2006) menciona que, em nota final à primeira edição de Lavoura arcaica, Raduan escreve: "trata-se uma passagem (distorcida) de O Livro das mil e uma noites". Rodrigues encontra a passagem com o título de "História de Chakalik, o sexto irmão do barbeiro".

Referências

A BÍBLIA de Jerusalém. Lucas 15: 11-32. SP: Edições Paulinas, 1985. [ Links ]

CAMPOS, H. Qohélet/O-que-sabe Eclesiastes São Paulo: Perspectiva, 1991. [ Links ]

NASSAR, R. Lavoura arcaica 3.ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. [ Links ]

PERRONE-MOISÉS, L. Da cólera ao silêncio. Cadernos de Literatura Brasileira São Paulo: Instituto Moreira Salles. 1996. [ Links ]

RODRIGUES, A. L. Ritos da paixão em Lavoura Arcaica. São Paulo: Edusp, 2006. [ Links ]

Recebido: 08 de Fevereiro de 2017; Aceito: 25 de Abril de 2017

Belinda Mandelbaum é psicanalista e professora associada do Departamento de Psicologia Social do Instituto de Pscicologia da USP, onde coordena o Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade. Autora de Psicanálise da família (Casa do Psicólogo, 2010) e Trabalhos com famílias em Psicologia Social (Casa do Psicólogo, 2014), bolsista pesquisadora produtividade CNPq. @ - belmande@usp.br.

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