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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.33 no.96 São Paulo May/Aug. 2019  Epub Aug 12, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3396.0009 

Tinta negra, papel branco: escritas afrodescendentes e emancipação

Lima Barreto e a escrita de si1

LILIA MORITZ SCHWARCZI 
http://orcid.org/0000-0003-0498-3246

IFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.


resumo

O presente artigo pretende explorar de que maneira a escrita de Lima Barreto volta-se sempre sobre sua pessoa, assim como o escritor ficcionaliza sua própria vida. Lima está presente, de alguma maneira, em todos os seus personagens, assim como o Brasil que conheceu, e desgostou, acaba servindo de combustível para a narrativa do literato. Mas, mesmo assim, Lima não era bom etnógrafo de seu tempo. Sua literatura, ao mesmo tempo que espelha, também cria o contexto que o viu nascer.

palavras-chaves: Lima Barreto; Literatura; Escrita de si; Primeira República

abstract

This article intends to explore how the writings of Lima Barreto always revolve around his person and how the writer fictionalizes his own life. Lima Barreto is present, in some way, in all his characters - just as the Brazil he knew, and was chagrined by, ended up fueling his literary narratives. Yet, Lima was not a good ethnographer of his time. His literature at the same time mirrors and creates the context into which he was born.

keywords: Lima Barreto; Literature; Writing of one’s self; First Republic

Introdução: fantasmas reais

O professor Christopher Hager (2013), em seu livro Word by Word: eman- cipation and the act of writing, demonstra como um dos maiores abusos da escravidão na América foi ter proibido os cativos de ler e escrever. Como consequência, são muito raros os textos deixados por escravizados, libertandos, libertos, ex-escravizados e pessoas negras livres. O livro também explora as complexas relações desses literatos com as verdadeiras “repúblicas das Letras” que foram sendo criadas a partir de finais do século XIX e que, basicamente, excluíram ou negaram também esse ato de libertação feito a partir da voz narrativa.

No Brasil, embora escassos, sobretudo no período de desmontagem do sistema e do, assim chamado, período do pós-emancipação, já vão ficando conhecidos textos de mulheres e homens literatos, os quais, rompendo com os cânones de época, exprimiram-se por meio de uma literatura altamente atravessada pelo testemunho ou, como define Michel Foucault (1983, p.3-23), “por uma escrita de si”.

Usando do testemunho e da história pessoal, como parte fundamental de seus trabalhos, na obra desses autores, tudo surge pretensamente misturado, como se esses escritos cumprissem o papel de “etnografias de época”. Pois não são, a despeito de, muitas vezes, esses textos dialogarem com seus contextos.

Expressas sob a forma de trocas epistolares, diários ou novelas, com enredos e personagens ficcionais que mal escondem seus autores por detrás deles, essas obras literárias representam uma expressão individual, mas também coletiva, uma vez que pautadas por uma experiência de grupo, pela busca pela inclusão social, pela denúncia da exclusão e da discriminação, pela luta por promoção da igualdade e da efetiva liberdade.

Tais escritores guardam, assim, função primordial, pois, como explica o sociólogo Mario Medeiros (2013), escaparem à dupla morte que lhes espreitava: a física e aquela da memória. E dentre os vários nomes que se destacaram no momento do pós-abolição, um deles vai ganhando particular proeminência. Refiro-me a Lima Barreto (1881-1922) que foi uma voz aguda, e muitas vezes solitária, no Brasil da Primeira República e no território estendido do Rio de Janeiro, que seguia a linha do trem da Central do Brasil, unindo e separando o “Centro” dos subúrbios cariocas.

Por meio do conjunto de sua obra, expressa a partir de cartas, contos, romances, diários, peças de teatro, Barreto jamais deixou de tocar em alguns temas que o distinguiam dos demais literatos do cânone de época: o racismo vigente no Brasil, a crítica a nossos estrangeirismos (chamados por ele de bovarismos2) e a realidade da pobreza que migrava da capital para as periferias da cidade. O escritor também jamais negou que fazia “literatura de si”. E com tamanha intensidade, que a história de Lima Barreto acabava por “se confundir”. Confunde-se com sua história privada. Confunde-se com uma certa história do Brasil que prometeu inclusão, mas entregou muita exclusão social. Confunde-se, ainda, com sua obra sem ser um resumo dela. Lima poderia ser reconhecido em cada um de seus personagens, bem como passaria a viver como seus personagens. Ele era Isaías Caminha, Gonzaga de Sá, Clara dos Anjos, Vicente Mascarenhas, e vivia assombrado por todos eles. Na verdade, eles eram seus fantasmas, prediletos.

A escritora afro-americana Toni Morrison (2008), no romance Amada, conta a história da Casa 124, que era habitada por duas mulheres e seus fantasmas do passado: a memória da violência, dos estupros, dos filhos perdidos e das tantas mortes dos dias de escravidão. Paradoxalmente, os fantasmas que insistiam em retornar eram os que mais se pareciam com os elementos da vida cotidiana. Na verdade, vivos e mortos compartilhavam o mesmo plano de existência. Lima Barreto também andava perseguido por seu passado e ainda se dedicando à tarefa de expulsar fantasmas que, teimosos, continuavam a assombrá-lo.

Lima e seus fantasmas: a cada livro uma nova assombração

Escreve o filósofo Michel Foucault (19836, p.6) que “a escrita de si” não visa “perseguir o indizível ou revelar o que está oculto”. Busca antes “captar o já dito; reunir aquilo que se pode ouvir e ler, e isto com uma finalidade que não é nada menos que a constituição de si”.

Se o filósofo se refere, mais particularmente, ao universo europeu, seria possível fazer um paralelo com a obra e vida de Lima Barreto, que sempre estiveram de alguma maneira atravessadas. Se o escritor estava presente em seus personagens e no ambiente em que viviam, também o contrário era verdadeiro: sua obra de ficção acabava ganhando realidade nele mesmo. Não por coincidência, Isaías Caminha era jornalista como ele, funcionário público como Lima, e se desilude com o Rio de Janeiro de inícios do século. Vicente Mascarenhas, personagem central de Cemitério dos vivos, obra que Lima deixou inconclusa, bebia muito, foi internado em um hospício e o resto não sabemos mais, pois a narrativa se encerra por aí. Gonzaga de Sá era um personagem andarilho nas ruas da capital do país, irônico diante dos estrangeirismos, e que morre como Lima Barreto, ou com certeza será o oposto, pois o escritor não tinha como prever que criador e criatura fossem “enganados pela morte” e de forma tão semelhante.

Nesse universo feito de tantas coincidências consentidas, de tanta narrativa de si, não haveria como privilegiar um tipo de material. Afinal, O Diário do hospício escrito por ocasião da internação do escritor no Hospício Nacional é, a um só tempo, peça de não ficção, com Lima descrevendo seu dia a dia nessa instituição e junto com os demais pacientes, e obra de ficção, com o escritor trocando nomes e cenas: no Diário ele, por vezes, anota Vicente Mascarenhas, e no romance inclui “Lima Barreto”, para depois riscar e corrigir.

O certo é que Lima Barreto ficcionalizava sua própria vida, independentemente do gênero da obra. E tal hábito começou cedo. O pai de Lima, João Henriques, era filho de uma escravizada e de um madeireiro português e transformou-se em um tipógrafo bem-sucedido, apadrinhado do poderoso Visconde de Ouro Preto, chefe do último gabinete do Império. João Henriques traduziria o primeiro Manual de Tipografia do país e teria feito carreira sólida, se o destino e a República assim o quisessem. Depois de perder o emprego, por causa de seus vínculos com o Império, de se reinventar como administrador da Colônia de Alienados da Ilha do Governador, é tomado pela “loucura de si”, adoece, é aposentado e passa o resto de seus dias largado numa poltrona na casa da família, em Todos os Santos. Viraria personagem de Lima Barreto em várias obras, sobretudo em Triste fim de Policarpo Quaresma, quando faz um “double” de personagem principal da obra.

A mãe de Lima, d. Amália, formou-se professora e era diretora do Colégio Santa Rosa, uma escola de elite para moças, em Laranjeiras. Já a mãe de Amália Augusta era uma escravizada alforriada. Seu pai, não declarado, era Manuel Feliciano Pereira de Carvalho, médico bastante ilustre na corte, em cuja família ela foi adotada. O dr. Pereira Carvalho era o proprietário de sua avó e provavelmente seu avô.

Com efeito, a história da família de Lima narra, à sua maneira, a sina de famílias negras, afrodescendentes, que encontraram brechas no sistema escravista, formaram-se, profissionalizaram-se e provaram que a verdadeira abolição se dá pelo mérito e pela educação, e não apenas pela letra da lei. No entanto, nem sempre planos e projeções davam certo. É essa a grande disputa que Lima travará pela vida afora, presente em sua vida e obra.

Lima era, pois, neto de escravizados pelos dois lados. Liberdade e autonomia eram, porém, palavras fortes nesse contexto e no interior da família, com João Henriques e d. Amália parecendo não temer o futuro. Jovens, ela com apenas 16 anos, eles encaram as lentes e não se intimidam diante de tanta modernidade. Já o filho guardaria em seu acervo a lembrança dos dois: o pai com quem conviveria muito e que viraria personagem de um de seus livros e a mãe que morreu cedo, no final de 1887, mas foi sempre uma inspiração, com vários livros e contos do autor sendo dedicados a ela.

Já nosso futuro literato tomaria a data do seu nascimento, 13 de maio de 1881, como predestinação. No seu Diário íntimo, anotaria que havia de escrever uma história da escravidão, que seria, afirmava ele, o nosso “Germinal negro”. E se Lima não escreveu esse livro em específico, pode-se dizer que sua obra toda representava uma forma de revisão crítica do período em que existiam escravos no Brasil e do contexto do pós-emancipação.

Figura 1 Amália Augusta, aos 16 anos. Fotógrafo não identificado. Rio de Janeiro, gelatina/prata, s.d., c. 1877. 

Fotos Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Figura 2 João Henriques. Fotógrafo não identificado. Rio de Janeiro, gelatina/prata, carte de visite, s.d. 

Há uma pequena nota, teoricamente escrita em 1888, no momento em que Lima soube da “boa nova” na escola pública que estudava na Rua do Rezende. Ela dá conta de explicar que o sistema escravocrata fora abolido finalmente no país. Ela foi escrita muitas vezes, e com humores e finais diversos. Segue aqui a primeira delas, que mostra a projeção do autor adulto sobre o menino que já antecipava (assim o escritor de si quer ver) seu papel dissonante nessa que era uma “República das Letras”.

Era bom saber que a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição de 1888, foi geral pelo país. Havia de ser, por que já tinha entrado na convivência de todos a sua injustiça originária. Quando eu fui para o colégio, um colégio público, à rua do Rezende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado. A professora, D. Tereza Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de crianças, só uma coisa me ficou: livre! livre! Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos progressistas da nossa fantasia. Mas como estamos ainda longe disso! Como ainda nos enleiamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis! [...] São boas essas recordações; elas tem um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo. O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar.3

Num tom mais já desalentado, o escritor olha retrospectivamente o passado e impõe a ele o tom de nostalgia. De toda maneira, o pequeno texto serve para dar um bom exemplo dessa que é uma “literatura de si”, que vê e observa fatos a partir de ângulos, se não pessoais, ao menos circunscrito a um grupo de identificação. Esse é também o tom de outras pequenas notas, inseridas em seu Diário, ou incluídas nos papeis dispersos de Lima Barreto, que mostra como ele, de cima dos ombros de seu pai, assistiu à Missa em Ação de Graças celebrada pela princesa Isabel, a qual, distante do olhar do menino, a observava pequena e loura.

De toda maneira, era um novo Brasil que nascia no pós-abolição. “Liberdade”, estampou o Jornal do Commercio, “esse é seu dia”. Já a família Barreto, com um pai viúvo que tinha sob sua responsabilidade quatro filhos pequenos, passa por várias mudanças geográficas e na situação social. De um lado, são obrigados a mudar para a Ilha do Governador e de lá para vários bairros dos subúrbios cariocas. De outro, o próprio escritor passa de estudante em escolas da elite a calouro da Politécnica, e depois arrimo de família, tendo que custear a doença de seu pai e os estudos de seus irmãos.

Para tanto, Lima presta concurso e é contratado como amanuense na Secretaria da Guerra, profissão que representou seu ganha-pão, mas que ele sempre desdenhou. O funcionalismo público, e a falta de efetividade desses profissionais, sempre foi assunto e fermento para o escritor. Gonzaga de Sá, Isaías Caminhas e Vicente Mascarenhas, três de seus personagens prediletos, eram funcionários, como o escritor, e também emitiam duras críticas à atividade, que inflacionava os cofres públicos da capital carioca. Nas suas crônicas, o literato também definiu, de forma sarcástica, o emprego que o sustentava.

Logo no primeiro dia em que funcionei na secretaria, senti bem que todos nós nascemos para empregado público. Foi a reflexão que fiz, ao me julgar tão em mim, quando, após a posse e o compromisso ou juramento, sentei-me perfeitamente à vontade na mesa que me determinaram. Nada houve que fosse surpresa, nem tive o mínimo acanhamento. Eu tinha vinte e um para vinte e dois anos; e nela me abanquei como se de há muito já o fizesse. Tão depressa foi a minha adaptação que me julguei nascido para ofício de auxiliar o Estado, com a minha reduzida gramática e o meu péssimo cursivo, na sua missão de regular a marcha e a atividade da nação [...]. Puseram-me também a copiar ofícios e a minha letra tão má e o meu desleixo tão meu, muito papel fizeram-me gastar, sem que isso redundasse em grande perturbação no desenrolar das coisas governamentais. Mas, como dizia, todos nós nascemos para funcionário público. Aquela placidez do ofício, sem atritos, nem desconjuntamentos violentos; aquele deslizar macio durante cinco horas por dia; aquela mediania de posição e fortuna, garantindo inabalavelmente uma vida medíocre - tudo isso vai muito bem com as nossas vistas e os nossos temperamentos. Os dias no emprego do Estado nada têm de imprevisto, não pedem qualquer espécie de esforço a mais, para viver o dia seguinte. Tudo corre calma e suavemente, sem colisões, nem sobressaltos, escrevendo-se os mesmos papéis e avisos, os mesmos decretos e portarias, da mesma maneira, durante todo o ano, exceto os dias feriados, santificados e os de ponto facultativo, invenção das melhores da nossa República. De resto, tudo nele é sossego e quietude. O corpo fica em cômodo jeito; o espírito aquieta-se, não tem efervescências nem angústias; as praxes estão fixas e as fórmulas já sabidas. (Barreto, 2010a, p.472-3)

O espelhamento com a figura de Lima, que tampouco pretende se esconder, é evidente. Não só por conta da profissão, mas também por causa da referência à sua má letra, que virou tema de outra coluna que a usava como metáfora para definir a inserção gauche do escritor no circuito literário da época. Lima Barreto se sentia deslocado, a despeito de não desistir de se incluir.

Parte dessa exclusão se devia à crítica que Lima Barreto realizava à sociedade local, com suas manias de estrangeirismo e de adesão ao racismo vigente. Em seu diário, que começou a escrever na virada do século, em 1900, ele anotou (sem colocar data). “A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori” (Barreto, 2001, p.1233).4

Já no dia 12 de janeiro de 1905 registra mais um projeto literário em seu Diário íntimo: “Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda [...] com mais psicologia especial e maior sopro de epopeia…”. E no dia 17 do mesmo mês: “Hoje, à noite, recebi um cartão-postal. Há nele um macaco com uma alusão a mim e, embaixo, com falta de sintaxe, há o seguinte: ‘Néscios e burlescos serão aqueles que procuram acercar-se de prerrogativas que não têm. M’. […] Desgosto! Desgosto que me fará grande” (Barreto, 2001, p.1247-50).

Como se vê, Lima acusava a sua grande dor e também aquela coletiva, da população negra de uma forma geral, que depois do sonho de liberdade e da igualdade, percebia que a monarquia, com seu projeto de abolição breve, mas também a república, não entregavam a inclusão social que prometeram. A questão era tão urgente na obra do escritor, que no ano 1907, no interior da Revista Floreal, da qual o literato era editor e principal colaborador, Lima passa a publicar, sob a forma de folhetim, o seu primeiro romance: Recordações do escrivão Isaias Caminha. Na verdade, ele tinha dois deles prontos - esse e um outro sobre seu personagem Gonzaga de Sá. Mas optou pelo primeiro, justamente porque pretendia fazer barulho criticando a imprensa (seus colegas de redação) mas também atingir o racismo imperante no Brasil.

Na história, o garoto Isaías, que vivia nos subúrbios (como Lima), que tomava o trem (como Lima), era “filho ilegítimo” de uma negra e um padre, que só se falavam por intermédio do menino. Em uma cena forte do livro, Isaías que ia a caminho da capital para tentar a sorte, resolve descer do trem para pedir uma comida num bar, encomenda uma média e o dono do estabelecimento custa a responder-lhe e ainda o destrata devolvendo-lhe a sua cor.

E lá vai o desabafo sob a forma de ficção:

O trem parara e eu abstinha-me de saltar. Uma vez, porém, o fiz; não sei mesmo em que estação. Tive fome e dirigi-me ao pequeno balcão onde havia café e bolos. Encontravam-se lá muitos passageiros. Servi-me e dei uma pequena nota para pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco reclamei: “Oh! fez o caixeiro indignado e em tom desabrido. Que pressa tem você?! Aqui não se rouba, fique sabendo?” Ao mesmo tempo ao meu lado, um rapazola alourado, reclamava o dele, que lhe foi prazenteiramente entregue. O contraste feriu-me, e com os olhares que os presentes me lançaram, mais cresceu a minha indignação. Curti durante segundos, uma raiva muda, e por pouco ela não rebentou em pranto. Trôpego e tonto, embarquei e tentei decifrar a razão da diferença dos dois tratamentos. Não atinei; em vão passei em revista a minha roupa e a minha pessoa... Os meus dezenove anos eram sadios e poupados, e o meu corpo regularmente talhado. Tinha os ombros largos e os membros ágeis e elásticos. As minhas mãos fidalgas com dedos afilados e esguios, eram herança de minha mãe, que as tinha tão valentemente bonitas que se mantiveram assim, apesar do trabalho manual a que a sua condição a obrigava. Mesmo de rosto, se bem que os meus traços não fossem extraordinariamente regulares, eu não era hediondo nem repugnante. Tinha-o perfeitamente oval, e a tez de cor pronunciadamente azeitonada. Além de tudo, eu sentia que a minha fisionomia era animada pelos meus olhos castanhos, que brilhavam doces e ternos nas arcadas superciliares profundas, traço de sagacidade que herdei do meu pai. Demais, a emanação da minha pessoa, os desprendimentos da minha alma, deviam ser de mansuetude, de timidez e bondade... Por que seria então, meu Deus? (Barreto, 2010c, p.79-80)

Plasmada na experiência individual, mas dizendo respeito a uma sociabilidade de grupo, a passagem não deixa dúvidas sobre o calibre da crítica de Lima que, no mesmo livro, denuncia a discriminação no ambiente de trabalho e na polícia também, com o garoto sendo logo apontado de ser mandante de um crime, quando o único indício estava em sua cor.

O romance não deu certo, os jornais boicotaram a obra, mas Lima continuava em seu projeto de escrever uma “literatura militante”, para ficarmos com os termos dele, uma literatura que falava das dificuldades pelas quais passava a população negra, e que fazia da narrativa uma arma, também, de ativismo e de denúncia. Mas esse era sempre um projeto atravessado pela experiência pessoal. Tanto que no dia 24 de janeiro de 1908, o escritor que assistiu à partida da esquadra norte-americana de passagem pelo Rio, anota em seu Diário: “Fui a bordo ver a esquadra partir. Multidão. Contato pleno com meninas aristocráticas. Na prancha, ao embarcar, a ninguém pediam convite; mas a mim pediram. Aborreci-me. […] É triste não ser branco” (Barreto, 2001, p.1278).

Misturando, pois, gêneros; cruzando limites entre ficção e não ficção, Lima Barreto ia desenvolvendo uma obra híbrida, no sentido de não se filiar apenas à novela, mas explorar e cruzar suas novelas com suas colunas, com seus diários e reportagens. Ele também ia virando seus próprios personagens; assinava seus artigos e crônicas com vários pseudônimos, e, dentre eles, o mais frequente era Isaías Caminha.

Essa contaminação de esferas estaria igualmente presente em seu romance mais ambicioso - Triste fim de Policarpo Quaresma -, que também sairia primeiro como folhetim em um jornal de grande circulação: o Correio. Policarpo, o principal personagem de Lima Barreto, segundo o paralelo acertado de Oliveira Lima (2011, p.57), era uma espécie de “d. Quixote Nacional”. Um d. Quixote tropical, eivado de esperança, cheio de projetos, mas que nunca davam certo.

Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da padaria francesa. Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito. A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou.” E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado. Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo [...] O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima abaixo...

Policarpo, esse d. Quixote nacional, era, quem sabe, uma assombração de João Henriques, o pai de Lima, que sempre se reinventava na vida. Aliás, João Henriques e Policarpo, o personagem ficcional e aquele da realidade, moravam no mesmo sítio, combatiam formigas da mesma maneira, eram nacionalistas e a favor da batata nacional. João Henriques era favorável ao português bem lido e escrito; Policarpo à introdução do Tupi Guarani. Ambos eram criação e criatura de Lima Barreto.

Já Lima desfilava ambiguidade diante de um mundo da literatura que gostaria de entrar, mas também desprezava; dos subúrbios onde vivia, recolhia inspiração e a distância intelectual que guardava de seus moradores; da solidão em que se autorrecolhia. O escritor habitava uma espécie de “entrelugar”, na bela definição de Silviano Santiago (2000, p.9-26), que dá conta desse segredo de incompletude da própria experiência literária sul-americana.

Tal ambivalência também fez que Lima “roesse a corda” e passasse a beber imoderadamente. Ele já o fazia há tempo, mas nesse momento reconhecia começar a perder o controle. No seu Diário anotou: “Tenho sinistros pensamentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também um tédio da minha vida doméstica, do meu viver cotidiano, e bebo. Uma bebedeira puxa outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Despeço-me de um por um dos meus sonhos” (Barreto, 2001, p.1305).

Foi então, em agosto de 1914, durante uma nova crise alcoólica, que Lima foi enviado para um sítio de parentes em Mangaratiba; isso para não destruir a casa da família, acometido que estava por delírios persecutórios. Acreditava que a polícia iria prendê-lo por suas opiniões políticas; via também insetos e monstros nas paredes e definitivamente misturava ficção com não ficção.

Mas o surto se repete e seu irmão Carlindo, guarda-civil, providencia para que seja levado num carro-forte da polícia e internado no Hospital de Alienados, na praia da Saudade (Botafogo). O escritor dá entrada na Seção Pandemônio e é internado como branco: um funcionário público branco. No Brasil, a profissão embranquece, e naquele mar de pacientes sem nome e profissão pelo menos ele guardava sua diferença. Se era funcionário público “havia de ser branco”.

Lima recebe, então, tratamento à base de ópio, e numa longa anamnese médica, declara ser “alcoolista imoderado, não fazendo questão de qualidade”. Assume também ter “traços hereditários da raça”. Lima se referia às teorias do determinismo racial que conhecia tão bem quanto combatia e, por vezes, temia.

E Lima estaria de volta ao hospício em 1918, quando teve oportunidade de dar início às suas anotações, por conta do lápis e papel que recebeu de Juliano Moreira, diretor da instituição e negro como ele, que o animou a coletar suas informações. Essas resultariam em dois subprodutos: o Diário do hospício, que tem formato mais orgânico, uma vez que todas as notas foram realizadas enquanto o escritor se encontrava hospitalizado, e o romance incompleto, Cemitério dos vivos.

Se o escritor sempre misturou ficção com não ficção, fazendo de sua vida um exercício de ficção, dessa feita ele definitivamente parecia mesclar seus mundos. As anotações contidas no Diário apresentam trechos ficcionais (ou porque Lima ainda andava tomado pelos efeitos da bebida, ou porque deliberadamente ia elaborando seu romance conjuntamente) e os trechos do livro repetem parágrafos inteiros do bloco de notas.

Se o material é diverso e disperso, já o tema racial continua sendo fundamental para Lima. Tanto que no Diário ele explica que na instituição “o negro é a cor mais cortante”, e que por lá “todos são negros”. O fato é que mesmo nessas situações limites não suspende a crítica, e, ao contrário, encontra elementos para “ficcionalizar” sua própria vida.

Estou no Hospício ou, melhor, em várias dependências dele, desde o dia 25 do mês passado. Estive no pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia. Tiram-nos a roupa que trazemos e dão-nos uma outra, só capaz de cobrir a nudez, e nem chinelos ou tamancos nos dão. Da outra vez que lá estive me deram essa peça do vestuário que me é hoje indispensável. Desta vez, não. [...] Deram-me uma caneca de mate e, logo em seguida, ainda dia claro, atiraram-me sobre um colchão de capim com uma manta pobre, muito conhecida de toda a nossa pobreza e miséria. Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco, mas devido ao álcool, misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material há 6 anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro [...] Que coisa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Ele já me conhecia da outra vez [...] Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoiévski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoiévski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria. Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela. (Barreto, 2010b, p.43-6)

Vale a pena destacar como, mesmo sofrendo da sua dor e trauma - afirmava que “fora sequestrado” -, o escritor não esquece de ficcionalizar a própria vida e inclusive comparar sua situação àquela de Cervantes, e sobretudo Dostoiévski. Duvida que seja louco - “de mim para mim” -, questiona a instituição que não diferencia ou discrimina indivíduos viciados na bebida, e começa a rascunhar Cemitério dos vivos, esse que seria seu romance mais pretensioso, na esteira do realismo russo, que Lima tanto admirava.

Mas o tempo não permitiu. Na entrada dos anos 1920 Lima já se encontrava doente e sofrendo do excesso do álcool. Sem saber deixou uma espécie de manifesto testemunho na Revista Sousa Cruz de outubro e novembro de 1921, descrevendo o tipo de literatura que tanto o inspirava e advogava praticar. Chamou o opúsculo de “O destino da literatura”:

Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com que me casei; mais do que ela nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de contágio, teve, tem e terá um grande destino na nossa triste Humanidade [...] A arte, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, sob a forma de sentimentos, trabalha pela união da espécie; assim trabalhando, concorre, portanto, para o seu acréscimo de inteligência e de felicidade. Ela sempre fez baixar das altas regiões, das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé, para torná-las sensíveis a todos, as verdades que interessavam e interessam à perfeição da nossa sociedade; ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes, àqueles; ela faz compreender, umas às outras, as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos, das mais diversas épocas, das mais divergentes raças; ela se apieda tanto do criminoso, do vagabundo, quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina; ela, não cansada de ligar as nossas almas, umas às outras, ainda nos liga à árvore, à flor, ao cão, ao rio, ao mar e à estrela inacessível; ela nos faz compreender o Universo, a Terra, Deus e o Mistério que nos cerca e para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e de altos desejos. Fazendo-nos assim tudo compreender; entrando no segredo das vidas e das coisas, a Literatura reforça o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, explicando-lhes os defeitos, realçando-lhes as qualidades e zombando dos fúteis motivos que nos separam uns dos outros. Ela tende a obrigar a todos nós a nos tolerarmos e a nos compreendermos [...] Atualmente, nesta hora de tristes apreensões para o mundo inteiro, não devemos deixar de pregar, seja como for, o ideal de fraternidade, e de justiça entre os homens e um sincero entendimento entre eles. E o destino da Literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de poucos a todos, para que ela cumpra ainda uma vez a sua missão quase divina [...] Possam estas palavras de grande fé; possam elas na sua imensa beleza de força e de esperança atenuar o mau efeito que vos possa ter causado as minhas palavras desenxavidas. É que eu não soube dizer com clareza e brilho o que pretendi; mas uma coisa garanto-vos: pronunciei-as com toda a sinceridade e com toda a honestidade de pensar. Talvez isso faça que eu mereça perdão pelo aborrecimento que vos acabo de causar.

Emotivo, o escritor afirma ter se casado com a literatura; uma certa literatura que não se escondia, que trazia palavras “desenxavidas” que se propunham a afetar todas as raças, épocas e pessoas. Esse era Lima Barreto “sem tirar nem pôr”, emocionado com a beleza de uma literatura de si, sem se fechar em si; afinal, nesse caso o mais individual era também coletivo. E, de tão “casadas”, vida e obra têm encontro marcado no último livro que Lima publicou em vida. Gonzaga de Sá, o andarilho filósofo, ia se parecendo cada vez mais com seu criador, que foi visto pela última vez andando pelas ruas da cidade, por ocasião do centenário da independência, quando, segundo ele, o Rio de Janeiro foi “tomado pela loucura” da “patriotada”. Também se assemelhou a ele na descrição que fez da morte de seu personagem.

Lima Barreto, que temia tanto pela morte do pai, e achava não ter dinheiro para arcar com um enterro, deu ao protagonista desse romance um ritual digno, e semelhante ao que receberia. A casa se parecia, a rua também, e as pessoas que seguiam o cortejo lembravam os poucos amigos do escritor que acompanharam o literato negro nesse momento final de sua vida.

Da rua, avistei logo o caixão, o vulto confuso do cadáver. Na porta, curiosos da vizinhança. As crianças brincavam na rua inocentemente. Entramos. Uma velha senhora de cor veio nos receber. Gonzaga de Sá me falara nela. D. Gabriela tinha um vago parentesco com a mulher de seu compadre; era viúva e mãe de quatro filhos [...] Fui vendo a sala, não havia muita gente; mas que variedade de tipos e de cores; encontravam-se quase todos do espectro humano... Muito concentrados, os circunstantes, se falavam era baixinho, e, se lhes aflorava um sorriso aos lábios, logo o abafavam. Sentei-me também numa cadeira. E afinal pude olhar o cadáver, a cor faraônica do rosto, meio oculto no lenço ao queixo e pelas pétalas de flores espalhadas ao redor [...]

E assim Lima arremata a cena: “Para se compreender bem um homem não se procure saber como oficialmente viveu. É saber como ele morreu; como ele teve o doce prazer de abraçar a Morte e como Ela o abraçou”. Esse era, sem dúvida, o encontro derradeiro do criador com suas criaturas.

Conclusão: um escritor sem “seu” rosto

Lima Barreto é um literato de poucas imagens. São raros fotos, desenhos ou caricaturas que dele sobraram, e, ainda mais, aqueles documentos que o retratam de forma fidedigna. Por conta disso, convivemos com a representação que se tem e se tinha do escritor. Tudo muito distante e estranho ao que seria seu autorretrato.

A foto da Figura 3 é a mais conhecida do escritor. Ela foi tirada na época em que Lima começou a trabalhar, nos idos de 1903, como amanuense na Secretaria da Guerra. Nela, o escritor aparece muito arrumado: terno composto, nó da gravata bem feito, e o cabelo à moda com apenas uma mexa lhe caindo estrategicamente à testa. Tudo muito diferente das descrições que as testemunhas de época dele legaram. Desleixado, não poucas vezes o escritor vinha caminhando pelas ruas com um sapato de cada cor, a gravata sempre frouxa, o cabelo em desalinho, a camisa encardida.

Foto Acervo Fundação Biblioteca Nacional

Figura 3 Retrato de Lima Barreto. Fotógrafo não identificado. Rio de Janeiro, gelatina/prata, s.d., c.1903. In Revista A.B.C., ano IV, n.166, Rio de Janeiro, maio de 1918. 

Além do mais, na foto em questão, Lima parece branco! Esse era um procedimento comum à época, cujos fotógrafos, com o objetivo de “melhorar” a imagem do cliente, o faziam passar por um processo de “branqueamento”, numa verdadeira engenharia social das cores. Lima sempre se descreveu como “negro”, “descendente de africanos” e de “cor azeitona escura”. Portanto, é difícil casar a autorrepresentação com o resultado dessa fotografia.

Há ainda outro registro datado de 17 de setembro 1910 (Figura 4). Nessa época, Lima atuou como jurado e secretário do júri que acabou por condenar os militares que, durante o governo de Hermes da Fonseca, reprimiram uma manifestação de estudantes, e acabaram por assassinar um dos participantes, deixando vários outros feridos. Essa foi a “Primavera de Sangue” de 22 de setembro de 1909. Passados quase um ano do incidente, lá está Lima, muito bem vestido, com pose de janota, colete, camisa bem fechada e terno completo. Bem sentado, ele cruza as pernas e encara o fotógrafo.

Foto Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Figura 4 Lima Barreto, na época do julgamento do tenente Wanderley, com traje completo. Fotógrafo não identificado. Rio de Janeiro, gelatina/prata, s.d., setembro de 1910. 

Mas essa é e não é uma imagem representativa do autor de Policarpo Quaresma. Não restam dúvidas de que ele se arrumou para “sair bem” na foto. Também é evidente como o escritor devia estar concentrado na tarefa de “atuar bem”, já que ele trabalhava, a essas alturas, na Secretaria da Guerra, e seus patrões é que estavam sendo julgados. Sendo assim, a imagem parece reproduzir a intenção: aí está um funcionário público compenetrado e ciente de seu papel. No entanto, mesmo sendo correta, a imagem não tem nada de “típica”. Na verdade, é mais uma performance do que prova de realidade.

Existem também fotos em que Lima aparece em meio a outras personagens e sem maior protagonismo. Esse é o caso do comovente registro de turma da Politécnica (Figura 5). O garoto aparece rodeado por seus colegas de turma, em geral membros das elites do país, que vinham estudar na capital. Além do mais, ele é o único evidentemente negro na foto. Com um nó de gravata meio grande, uma roupa que não parece sua, o garoto da segunda fila à direita, olha para a frente como se mirasse ao longe, para o seu futuro, e não para o profissional que, com suas lentes, pretende imortalizar a turma de colegas do futuro escritor.

Foto Acervo Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Figura 5 Turma da Politécnica. Fotógrafo não identificado.Rio de Janeiro, gelatina/prata, s.d., c.1900. 

Comoventes e muito desalentadas são as fotos de Lima Barreto tiradas nas duas ocasiões em que ele foi internado no Manicômio Nacional: em 1914 e 1918 (Figuras 6 e 7). Com a diferença de apenas quatro anos, numa das fotografias das fichas da instituição ele foi descrito, pelo escrivão que anotou seus dados de entrada no hospital, como “branco”. Na outra, como “pardo”. Aí está, e mais uma vez, a maneira perversa como anotamos cores no Brasil, como se esse fossem dados variáveis. Na primeira vez Lima chegou como funcionário público. Na segunda, como indigente e como por passe de mágica “mudou de cor”.

Figura 6 Retrato de Lima Barreto, da ficha de internação no Hospício Nacional de Alienados. Fotógrafo não identificado. Rio de Janeiro, gelatina/prata, s.d., 1914. 

Acervo Núcleo de Memória Institucional do Instituto de Psiquiatria IPUB/UFRJ

Figura 7 Retrato de Lima Barreto, da ficha da 2ª internação no Hospício Nacional de Alienados. Fotógrafo não identificado. Rio de Janeiro, gelatina/prata, s.d., 1919. 

Não há como esquecer-se, também, das poucas caricaturas que Lima teve oportunidade de conferir em vida. Numa delas, feita por Hugo Pires para a revista A Cigarra de 1919, o autor mais se parece com um malandro carioca: chapéu de palha, sapato brilhante, sorriso largo (Figura 8).

Acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Figura 8 Caricatura de Lima Barreto, feita por Hugo Pires. Publicada em A Cigarra, 1919. 

Se Lima era um boêmio inveterado, se produzia sua literatura nos trens da Central e nos bares do centro do Rio, os amigos não o descreveriam dessa maneira: roupa à moda, sapato brilhante, cabelo assentado e barba feita. Ao contrário, sobretudo nesse contexto, o escritor suava muito, tinha as maçãs do rosto macilentas, os olhos inchados pela bebida e não se preocupava com o que trajava.

Escritos representam registros no tempo. Fotos pretendem ser “verdadeiras”, mas são sempre construções sociais muitas vezes amarradas a seus contextos, mas que também produzem o seu tempo e a memória que dele fica no imaginário, cada vez mais visual, do passado. Talvez por isso Guimarães Rosa (1969, p.115-23) tenha concluído que “o mar não tem desenho”, pois “o vento não deixa”. O que não parece coincidência é termos no decorrer da história tantas imagens das elites e das populações brancas e tão poucas referências das personalidades negras, afro descentes muitas vezes inexistentes ou branqueadas. A Kodak costumava explicar, em inícios do século XX, que não conseguia fazer fotos de negros por não ter condições técnicas. A questão, em minha opinião, era moral e não técnica (Roth, 2016). Se tivesse mais tempo, talvez Lima teria escrito um romance, um conto ou uma crônica a respeito da sua foto embranquecida, não pelo tempo, mas por efeito do racismo estrutural e institucional vigente no Brasil.5

Referências

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Notas

1Este ensaio não pretende trazer, de maneira exaustiva, nem a biografia de Lima Barreto, nem, muito menos, sua produção literária completa do escrito. Seu objetivo é, antes, explorar momentos em que vida e a obra do autor dialogam e se comportam como “escritas de si”, usando o famoso conceito de Michel Foucault. Escrevi um livro mais completo sobre o escritor chamado Lima Barreto triste visionário (Schwarcz, 2013).

2Lima Barreto era leitor de Gaultier (Barreto, 1961, p.56).

3Lima Barreto, escritor e jornalista. “O traidor”. [S.l.], [19__]. Orig. Ms. 10 f. FBN/Mss I-06,35,0964. Fundo/Coleção Lima Barreto (Schwarcz; Starling, 2015, p.13).

4O Diário Íntimo é, na verdade, o resultado do trabalho de Francisco de Assis Barbosa (1988), biógrafo e jornalista que publicou o conjunto da obra de Lima Barreto, e de Evangelina (irmã mais nova do escritor), que juntaram uma série de notas dispersas deixadas pelo escritor em pequenos cadernos.

5Para excelente apanhado teórico desses conceitos, ver Almeida (2019).

Received: May 15, 2019; Accepted: June 08, 2019

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Atuou como visiting professor em Oxford, Leiden, Brown, Columbia e Princeton, onde foi global e é professora visitante desde 2010. @ - lili.schwarcz@gmail.com

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