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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.33 no.96 São Paulo May/Aug. 2019  Epub Aug 12, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3396.0011 

Tinta negra, papel branco: escritas afrodescendentes e emancipação

Narrativas de mulheres escravizadas nos Estados Unidos do século XIX

MARIA CLARA CARNEIRO SAMPAIOI 
http://orcid.org/0000-0002-7882-4689

MARÍLIA B. A. ARIZAII 
http://orcid.org/0000-0002-6199-2344

IFaculdade de História da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Marabá, Pará, Brasil.

IIFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de Sâo Paulo, São Paulo, Brasil.


resumo

Nos Estados Unidos, bem como em outros países de língua inglesa, os relatos em primeira pessoa de ex-escravizados constituem um gênero literário de enorme importância histórica chamadoslave narrative, que abarca diferentes tipos de registros autobiográficos de sujeitos submetidos ao tráfico e/ou à escravidão atlântica. A partir da análise das trajetórias narradas por Harriet Jacobs e Harriet Tubman, duas ex-escravas fugidas na primeira metade do século XIX, buscou-se compreender como suas memórias convocaram autorrepresentações diferentes, mas igualmente potentes, em que trajetórias individuais de resistência e emancipação dialogam diretamente com o abolicionismo e as especificidades femininas da experiência da escravização.

palavras-chave: Narrativa escava; Abolicionismo; Gênero; Harriet Jacobs; Harriet Tubman

abstract

In the United States, and also in other English-speaking countries, personal accounts of former slaves are considered a literary genre called Slave Narratives. The genre includes different types of autobiographical accounts of Africans or African-Americans subject to slave labor in the Americas and/or to the Atlantic slave trade. Based on the slave narratives Harriet Jacobs and Harriet Tubman, two American runway slaves from the antebellum period, we strive to understand better how the paths taken by these women, although very different from each other, are representative of their agency, resistance and womanhood in the context of slavery.

keywords: Slave narrative; Abolitionism; Gender; Harriet Jacobs; Harriet Tubman

Narrativas escravas: história e literatura

Nos estados unidos e no Reino Unido, bem como em outros países de língua inglesa, os relatos em primeira pessoa de ex-escravizados constituem um gênero literário de enorme importância histórica chamado slave narrative - ou narrativa escrava -, que abarca diferentes tipos de registros autobiográficos de mulheres e homens africanos ou afrodescendentes submetidos ao tráfico e/ou à escravidão atlântica. Publicadas desde o fim do século XVIII - caso da célebre autobiografia de Equiano, The Interesting Narrative of the life Oulaudah Equiano, or Gustav Vassa, the African (Equiano, A Interessante Narrativa da Vida de Oulaudah Equiano, ou Gustav Vassa, o Africano), texto de enorme sucesso editorial lançado ao público no Reino Unido em 1789 -, as narrativas escravas tiveram grande importância política na construção e expansão dos movimentos abolicionistas no Reino Unido, no Caribe de colonização britânica e nos Estados Unidos (Carreta, 2007, p.240-1). Nos dois lados do Atlântico, os relatos em primeira pessoa que transmitiam os horrores do tráfico e da escravidão nas Américas foram, desde cedo, reconhecidos como ferramentas poderosas de sensibilização social para a causa abolicionista. Surgidas num momento de crescimento e popularização da imprensa abolicionista, essas narrativas caíram nas graças de um amplo público leitor do mundo atlântico de língua inglesa. O sucesso do gênero da narrativa escrava se deu, em larga medida, por combinar, a um só tempo, a militância política a certo tom de aventura e peripécias marítimas aos cenários exotizados dos relatos de viagem, e ao apelo de biografias espiritualizadas, tão caras ao gosto da época (Warren, 2014, p.189). O sucesso editorial dessas narrativas, ainda no século XVIII, estimulou o registro e a publicação de novos relatos e memórias de experiências de escravidão, alimentando o interesse de um crescente e diverso público que consumia cada vez mais escritos dessa natureza.1

A partir da década de 1830, a vocação política desses relatos vinculou-se insuperavelmente ao florescimento do abolicionismo atlântico, angariando, além de sensibilidades, fundos para a causa antiescravista; nesse cenário, as narrativas e seus testemunhos das realidades brutais da escravidão se tornaram, conforme argumenta Dickson D. Bruce Jr. (2007, p.28), “os textos mais essenciais do movimento”.2 De fato, em compêndio recentemente publicado acerca das slave narratives, William Andrews (2014, p.220-1) argumenta que, desde a famosa rebelião de Nat Turner, em 1831, as narrativas escravas haviam se tornado o mais popular gênero da literatura afro-americana, superando romances e autobiografias escritas por pessoas negras livres. Contudo, após a vitória do norte sobre o sul escravista na Guerra de Secessão dos Estados Unidos, em 1865, e a aprovação da 13ª emenda à constituição do país, proibindo a escravidão em todo o território nacional, as narrativas de ex-escravos perderam em parte a relevância política que antes tinham e passaram a atrair público muito mais modesto.3

Desse conjunto de obras tão significativas para a cultura literária e os estudos históricos estadunidenses fizeram parte diversas autoras escravizadas e libertas, que registraram em papel memórias de trajetórias acidentadas, porém vitoriosas, rumo à emancipação. O presente artigo tem por objetivo contribuir para a reflexão sobre algumas dimensões das intersecções entre narrativa escrava e gênero. Para isso, foram escolhidas duas obras que narram as experiências de escravidão e liberdade de mulheres afro-americanas do século XIX: Harriet Jacobs, que escreveu uma das mais clássicas obras do gênero, até hoje vastamente lida e pesquisada, e a célebre Harriet Tubman, recentemente cogitada para ter seu rosto estampado na nota de 20 dólares expedida pelo governo dos Estados Unidos.4

Publicada em 1861, pouco antes da eclosão da Guerra da Secessão - também referida como Guerra Civil dos Estados Unidos -, Linda: Incidents in the life of a slave girl seven years concealed in slavery, written by herself [Linda, Incidentes na Vida de Uma Garota Escrava Escondida por Sete Anos, Escrito por ela mesma] tornou-se o exemplo clássico de narrativa escrava feminina - e, de fato, foi a primeira delas publicada nos Estados Unidos (Jacobs, 2010; Ernest, 2007, p.229-30). Escrita sob o pseudônimo Linda Brent por Harriet Jacobs, que em 1842 fugira de sua Carolina do Norte natal com destino ao estado livre (free state) da Pensilvânia, a narrativa atingiu discreto sucesso após sua publicação, sendo incensada pela imprensa abolicionista britânica e americana, mas logo caindo em esquecimento em meio aos tumultos e atribulações trazidos pela guerra.

Jacobs iniciou seu empreendimento literário ainda na década de 1850, quando passou a escrever uma série de cartas anônimas publicadas no jornal New York Tribune, nas quais e referia, entre outros temas, à violência sexual que penalizava mulheres escravizadas - questão que seria a pedra fundamental de sua autobiografia, publicada anos depois. Estimulada pela afamada abolicionista Quaker Amy Post - cujo círculo passara a frequentar quando se mudou para Rochester (no estado de Nova York) com seu irmão John Jacobs, com quem estabeleceu um clube de leitura e uma livraria abolicionistas na sobreloja do escritório do North Star, jornal abolicionista editado por Frederick Douglass - Jacobs reuniu suas memórias da escravidão num relato autobiográfico. Por longo tempo, Incidentes in the life foi considerado um romance de ficção e sua autoria atribuída à igualmente ilustre Lydia Maria Child, a quem couberam a introdução e, ao menos oficialmente, a edição do livro. Foi somente com a pesquisa de Jean Fagan Yellin nos anos 1980, que localizou as cartas trocadas por Jacobs, sua biografada, e Post, que a autoria da autobiografia lhe foi restituída e o relato foi incorporado formalmente ao gênero literário narrativa escrava.5

Diferente da narrativa de Hariet Jacobs, mulher letrada, as memórias de Harriet Tubman, intituladas Scenes in the Life of Harriet Tubman [Cenas na Vida de Harriet Tubman] foram escritas com a intermediação da autora estadunidense Sarah Hopkins Bradford (2012).6 Publicado pela primeira vez em 1869, o livro refere-se ao fato de que, até aquele momento, Tubman não havia ainda passado pelo processo de alfabetização e, por essa razão, era Bradford quem assinava as memórias (ibidem, p.31). Registradas sempre entre aspas e em desacordo com a norma culta da língua inglesa, supostamente respeitando a forma como Tubman se expressa, numerosas passagens no corpo do texto pretendem reproduzir as exatas palavras da biografada - que, àquele momento, já conquistara notoriedade pela firme e contínua atuação como uma das principais “condutoras” do Underground Railroad, ampla rede de abolicionistas que auxiliava a fuga de escravos e escravas do sul (ibidem, p.32).

Por mais de uma década, até o início da Guerra de Secessão em 1861, Tubman dedicou sua vida a atravessar escravos e escravas do sul para o norte e através da fronteira do atual Canadá.7 Sua coragem e sua inteligência ao longo de sua primeira década de liberdade lhe renderam diversos apelidos e codinomes - um dos mais famosos é Moses (ou Black Moses), recebido em referência ao personagem bíblico que libertou o povo de Israel da escravidão no Egito. Durante a Guerra de Secessão, Tubman atuou como enfermeira nos fronts, como espiã do norte (União) e acompanhou (muitas vezes chefiou) tropas que penetravam fazendas escravistas nos estados do Sul (Bradford, 2012, p.53-9.8

As diferenças entre as narrativas de Jacobs e Tubman estendem-se a outros aspectos além da escrita mediada por Bradford. A heterogeneidade das escolhas narrativas adotadas nos dois livros expressa experiências de vida, circunstâncias e projetos políticos diversos, como se procura detalhar à frente. Contudo, a construção de protagonistas de “perfil heroico e fugitivo-rebelde”, como o denomina William Andrews, que se engajam em fugas e lutas pela liberdade e melhores condições de vida, espelha, em ambos os casos, o papel da agência feminina nos empreendimentos pessoais e também na construção de um movimento político abrangente em torno da emancipação (Andrews, 2014, p.222). Nesse sentido, os relatos de Tubman desviam-se do padrão de narrativas escravas pós-Guerra de Secessão, as quais forjam um novo tipo de biografado, algo apaziguado e desvinculado de manifestações mais abertas de enfrentamento à escravidão, como fugas e rebeldias violentas, aproximando-se do retrato de narradores como Frederick Douglass, Henry Bibb, William W. Brown e a própria Harriet Jacobs, cujos livros vieram a público ainda no chamado antebellum (Andrews, 2019, p,121; Reid-Pharr, 2007, p.142).

Nesse sentido, parte-se do princípio de que que tomar as narrativas femininas como documento histórico requer um esforço analítico de dupla natureza, que considere o papel que as elas desempenharam no contexto de acirramento do abolicionismo nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, contemple seu caráter literário alicerçado na construção de memórias atravessadas pelos imperativos de gênero - aqui entendido, como propõe Joan Scott (1997), como categoria analítica que permite ao historiador escrutinar símbolos culturais e conceito normativos que constituem as relações sociais. Desse modo, conquanto o olhar aqui proposto sobre as histórias de Harriet Jacobs e Harriet Tubman seja historiográfico, ele deve levar em conta dimensões essenciais de um gênero literário em que memória e autobiografia se fundem.9

A primeira delas refere-se à necessidade de desvencilhar tais narrativas da expectativa de que a memória seja dotada de propriedades especulares que permitam reproduzir identicamente os fatos vividos numa narrativa impermeável à reinvenção. Essa seria, segundo W. J. T. Mitchell, tarefa irrealizável para o gênero da narrativa escrava em termos objetivos, uma vez que o sujeito narrador é, por definição, alguém que observa a escravidão não mais de seu interior, mas como alguém dela apartado pelas seleções, esquecimentos, reescritas e interferências externas, como o crivo de editores abolicionistas. Longe de reforçar teses que acusam o falseamento das memórias escravas, contudo, Mitchell (1995, p.206) defende o interesse em sua condição de representação simbólica da escravidão, a qual se sobrepõe ao exercício mimético de reprodução exata e estável da escravidão “em si” ou “como foi”.10 Trata-se, segundo o autor, de compreender os textos em questão como um tipo de narrativa que combina dimensões pessoais e intersubjetivas de memórias que devem proporcionar a representação de individualidades socialmente compartilhadas, encerrando uma contradição fundamental entre os imperativos de esquecer e lembrar - isto é, entre a necessidade pessoal de superação e a necessidade coletiva de afirmação do trauma, ou a imposição de “contar uma história que não deveria ser transmitida” e “dizer o indizível”, como sugere Toni Morrison (2019).

Há de considerar, além disso, as narrativas escravas femininas como parte de um conjunto ampliado de escritas autobiográficas de mulheres afro-americanas, como há décadas propõem estudos que sublinham sua importância na reelaboração de noções da individualidade na literatura americana.11 Por um lado, tais estudos reconhecem que as escritas femininas em questão desafiam representações tradicionalmente assentadas em modelos masculinos de indivíduo, os quais se afirmam, inclusive, nas narrativas escravas - a expressão máxima dessa proposição e do próprio gênero literário em questão seriam as biografias de Douglass, que constroem um sujeito biográfico heroico, isolado em seu empreendimento autônomo de emancipação, reiterando o formato dominante da identidade masculina norte americana (Washingtom, 1988). Por outro lado, os mesmos estudos apontam que as memórias femininas da escravidão tensionam as representações da individualidade feminina branca forjadas no espírito do culto à domesticidade e à real womanhood característicos do século XIX, os quais consagravam o recolhimento, a devoção, a pureza e a submissão como as medidas exatas da mulher burguesa, coração da família (Carby, 1989; Fox-Genovese, 1999).

Passando à análise mais detida das memórias das duas Harriets, Jacobs e Tubman, buscamos compreender como essas narrativas convocaram autorrepresentações diferentes, mas igualmente potentes, em que trajetórias individuais de resistência e emancipação dialogam diretamente com o abolicionismo e as especificidades femininas da experiência da escravização (Fulton, 2014, p.253).

Gênero, escravidão, memória e identidade

Quando as memórias de Harriet Jacobs foram publicadas, completavam-se quase vinte anos da fuga que empreendera em 1842, aos 29 anos de idade, depois de sete longos anos escondida no sótão da casa de sua avó em Edenton, cidade costeira da Carolina do Norte. Auxiliada por membros do Philiadelphia Vigilant Committee, embarcou para a Pensilvânia deixando o filho mais velho, Joseph, aos cuidados da avó; estabelecendo-se Nova York em 1845, reencontrou a filha mais nova que lá vivia, Louisa. Na cidade, empregou-se como criada e babá da família do escritor e editor Nathaniel Parker Willis e suas duas esposas, Mary Stance e Cornelia Grinnel. Em companhia do irmão John, também fugitivo, tornou-se ativa abolicionista, residindo em Boston e Rochester, integrando a American Anti-Slavery Society e fazendo parte de círculos quaker e garrisonianos frequentados por Amy Post e Frederick Douglass. Mesmo diante do êxito limitado da publicação de sua autobiografia, Jacobs manteve-se intensamente vinculada à militância durante e após a guerra, ocupando-se, entre outras coisas, de denunciar a exploração de refugiados e libertos, engajando-se no trabalho assistencial aos libertos empobrecidos e promovendo a causa da educação de afro-americanos.12

Esse impressionante currículo de atuação pública e o profundo engajamento de Jacobs na causa abolicionista encontram expressões diversas em Incidents in the life. Lá estão denúncias da crueldade de senhores e senhoras escravistas e da devastação moral acarretada pela escravidão, bem como do racismo reinante nos estados do norte; comparações entre o escravismo e a pobreza dos trabalhadores fabris ingleses; acusações à falsa moral cristã de congregações escravistas; e vivas críticas ao Fugitive Salve Act, aprovado pelo Congresso em fins de 1850, que colocava sob risco a liberdade de Harriet, seu irmão e seus semelhantes nos free states. Não obstante essa vinculação explícita à agenda política do abolicionismo, que lhe conferiu entrada numa seara eminentemente pública de disputas, é do universo da domesticidade e do culto às virtudes femininas a ele associadas que a narrativa de Harriet Jacobs extrai sua força motriz: sua luta por liberdade é, essencialmente, uma luta pelo direito à maternidade, e sua autorrepresentação ao mesmo tempo desafia e incorpora os ideais da feminilidade oitocentista.

Valendo-se da linguagem dos romances sentimentais do século XIX, exemplarmente amalgamada ao abolicionismo no clássico de Harriet Beecher-Stowe, A cabana do Pai Tomás, a autora/narradora apresenta seus sofrimentos de mulher escrava. Jacobs rememora uma infância idílica e protegida das agruras habituais da escravidão, vivida ao lado dos pais - um carpinteiro e uma criada doméstica - e do irmão, e interrompida aos seis anos de idade, quando do falecimento da mãe. A partir de então, passaria a viver em companhia de Margaret Horniblow, senhora a quem descreve com tintas afetivas e predicados maternos, e que teria sido a responsável por ensinar-lhe a ler e escrever. Falecida também essa senhora, as provações de Harriet Jacobs, então com 12 anos, teriam início e carreira dramática - legada em testamento à sobrinha de Horniblow, passaria toda a adolescência e início da vida adulta sob perseguição sexual do marido de sua nova proprietária, o médico James Norcom. Na tentativa de escapar a tal violência, Jacobs manteve um relacionamento consensual com o advogado Samuel Tradwell Sawyer - que, em 1837, se tornaria representante do estado da Carolina do Norte no Congresso dos Estados Unidos - tendo com ele dois filhos, Joseph e Louisa. Uma vez que o vínculo com Sawyer não se mostrara impedimento suficiente para as investidas e represálias de Norcom, Jacobs fugiu de seu jugo e escondeu-se por anos no pequeno sótão de sua avó, Molly, mulher liberta, até o momento da fuga definitiva para o norte. Na casa, instalada nas cercanias da propriedade de Norcom e por ele era frequentada com alguma regularidade, viviam seus filhos, de quem Jacobs era obrigada a esconder sua presença.

Desde a atribuição da autoria do livro a Child, ainda na segunda metade do século XIX, a autenticidade de narrativa e narradora foi alvo de contestações. Conforme sugere Jennifer Fleischner, aspectos como o longo confinamento de Jacobs ao exíguo espaço de um sótão onde sequer poderia manter-se em pé, e que, ademais, a expunha à proximidade de Norcom e seus familiares, bem como o relato de uma renitente perseguição sexual que jamais se converteu efetivamente em estupro, despertaram desconfianças.13 De outra parte, o uso de pseudônimos para nomear a narradora e os demais sujeitos retratados nas memórias despertou debates sobre a viabilidade de estabelecer correspondências precisas entre Harriet Jacobs e Linda Brent, sendo a segunda entendida como personagem literária calcada nas convenções sociais dominantes da época, mais do que representação autobiográfica.14

É a própria narradora, não obstante, quem atesta, logo nas primeiras linhas do prefácio, a legitimidade de seu relato, prevenindo os leitores sobre eventuais imprecisões que poderiam, apenas, ter o efeito de minorar os danos trazidos pela escravidão:

Reprodução

Harriet Ann Jacobs (1813-1897). 

Caro Leitor, tenha certeza de que essa narrativa não é uma obra de ficção. Estou ciente de que algumas de minhas aventuras podem parecer incríveis, mas são, todavia, a verdade, I não exagerei sobre os males impostos pela escravidão; pelo contrário, minha descrição está muito aquém dos fatos. (Jacobs, 2010, p.25)

Tal advertência adquire ampliado sentido quando complementada, ao final do mesmo prefácio, pela declaração das razões que motivavam o registro do relato e pela explícita identificação do público a que o mesmo se destinava:

Não escrevi sobre minhas experiências para chamar atenção [...]. Nem quis causar grandes comiserações para com o meu sofrimento. Mas desejei provocar as mulheres do Norte para se sensibilizassem sobre a condições de dois milhões de mulheres no Sul, ainda escravizadas, sofrendo o que eu sofri ou, como é o caso da maioria, sofrendo coisa pior. (ibidem, p.26)

Reforça-se, assim, a ideia de uma autora/narradora cujas memórias pessoais são revestidas de significados socialmente partilhados, como sugere Mitchell, que registram completa aderência ao enfretamento público da escravidão. Muito embora a disputa minuciosa dos fatos possa interessar a determinadas análises acerca desse tipo de memórias, e conquanto analistas possam eventualmente contestar detalhes da biografia de Jacobs, sua narrativa está profundamente enraizada em realidades que certa historiografia, interessada nas intersecções entre gênero e escravidão, tem desvelado com nitidez cada vez maior: ela se move em torno da violência sexual e da vulnerabilidade da maternidade escrava, aspectos que caracterizaram, em dimensão atlântica, as experiências femininas sob o cativeiro.15 Desse modo, perguntar-se como Harriet Jacobs narrou sua história na pele de Linda Brent, qual voz escolheu para contá-la e qual público escolheu para ouvi-la, sobre quais aspectos lançou luz e quais manteve na penumbra, importa, aqui, mais do que asseverar a veracidade dos fatos narrados.

Na tarefa de narrar a si e fazer-se representante de outras mulheres escravizadas do sul, é às mulheres brancas do norte que a autora se dirige, e é à sua consciência que apela, buscando estabelecer um solo comum que as irmane e desperte a compaixão diante dos horrores especificamente femininos da escravidão, sintetizados na célebre passagem: “A escravidão é terrível para o homem, mas muito pior para as mulheres” (Jacobs, 2010, p.101). A construção de sua narrativa, assim, persegue representações e discursos de domesticidade, fazendo da intimidade um campo de disputas políticas - e, desse modo, um universo de dimensões públicas.

Contudo, não obstante o intuito de estabelecer identificações entre narradora e leitoras, o relato de Jacobs frequentemente perturba sentidos estáveis das representações e discursos em questão. A devoção religiosa salientada em diversas referências a temáticas ou passagens bíblicas e o registro frequentemente compassivo das perversões morais de homens e mulheres escravistas são ladeados por ácidas críticas à hipocrisia cristã e retratos impiedosos da crueldade de famílias senhoriais degeneradas, licenciosas e de caráter miserável, bem como a referências a insubordinações e protestos escravos, como a revolta de Nat Turner. Numa passagem particularmente explícita, Jacobs afirma:

Com certeza as pessoas de cor constituem a raça mais alegre e inclinada ao perdão na face da terra. Que seus senhores dormem tranquilos sabendo da pureza de seus corações; Ainda assim se comovem menos com o sofrimento dessa gente do que com o sofrimento de um cavalo ou de um cachorro. (ibidem, p.115)

O tensionamento dos predicados da feminilidade normativa oitocentista torna-se ainda mais evidente quando Jacobs refere-se à sexualidade e à maternidade, temas que deslocam a trama de suas memórias e detonam a radicalização da insubordinação da autora/narradora. Conquanto relate ter sido sexualmente perseguida desde os 12 anos de idade, e embora a vulnerabilidade sexual - a sua própria e a de ouras mulheres e meninas escravizadas - seja tema a que retorna com frequência, de forma mais ou menos direta, em nenhuma passagem de Incidents in the life... Jacobs se refere explicitamente a um estupro consumado. Os repetidos episódios em que relata resistir briosamente às intenções de Norcom são seguidos de rompantes de ameaças diversas e agressões verbais, mas não resultam em ataques físicos e de caráter sexual.16 De forma semelhante, também a relação com Sawyer, pai dos seus filhos, é descrita de forma austera, em passagens, como a seguinte, que evidenciam a dura, porém necessária e racional, escolha à que fora submetida após anos de exposição à degeneração de seu assediador:

Por anos, meu senhor fez de tudo para poluir minha mente com imagens sujas para destruir os princípios puros inculcados em mim [...] As influências da escravidão tiveram o mesmo efeito em mim que tiveram em outras jovens; despertaram prematuramente a consciência sobre o mal que paira sobre o mundo. Eu sabia o que eu havia feito e o fiz de forma calculada. (Jacobs, 2010, p.78)

Diversos elementos nesse trecho combinam-se para forjar uma imagem complexa da indefensa virtude das mulheres expostas à escravidão. Espelhando a omissão de relatos de violência sexual mais explícitos, a linguagem indireta que alude à corrupção sexual de mulheres como Jacobs atende à necessidade de retratar a imoralidade resultante da escravidão em termos conformes a uma literatura de propósitos políticos, destinada à ampla divulgação, e a um público para o qual pureza sexual, pudor e honestidade feminina encontravam-se inexoravelmente entrelaçados. Observe-se, contudo, que Jacobs é categórica ao afirmar a opção calculada pela união ilegítima com Sawyer. É fato que, como bem argumenta Walter Johnson (2003), a compreensão da agência escrava deve prevenir-se contra interpretações descuidadas que confundam atuação sobre circunstâncias historicamente determinadas a exercícios de voluntarismo. Em se tratando de um terreno de tantos deslizamentos quanto o que combina sexualidade e poder, as noções de consentimento e escolha devem ser ainda melhor calibradas - e, de fato, Jacobs se refere aos cortejos de Sawyer como aqueles dirigidos por um sujeito “educado e eloquente demais” a uma “pobre menina escrava de 15 anos de idade”.17 Interessante, assim, é encontrar noutra passagem o reconhecimento explícito das condições específicas sob as quais a moralidade sexual da autora/narradora - e, por extensão, das mulheres escravas - se estabeleciam:

[…] mulheres felizes são aquelas cuja pureza se protegeu desde a infância, que não se tornaram objetos de desejo, cujos lares têm a proteção da lei, não julgue severamante a pobre e desolada jovem escrava! Se a escravidão fosse demolida, eu também teria me casado com o homem de minha escolha.

[...] Ser o objeto de desejo de um homem que não é casado e que não é seu senhor é atrativo para o orgulho e os sentimentos de uma escrava, se é que sua escravidão ainda lhe permite ter qualquer orgulho ou sentimento. É menos degradante se permitir do que se submeter à força. Há algo de libertador em se ter um amante que não exerce poder sobre você, a não ser o que é decorrente da gentileza e do apego. (Jacobs, 2010, p.78-90)

Em interlocução direta com a leitora aburguesada no norte, sublinhando a agressão à prerrogativas que deveriam assistir às mulheres como um todo e reiterando o constrangimento moral ensejado na relação com Sawyer, Jacobs retrata uma busca virtuosa pela liberdade sobre si mesma e seus próprios afetos. A sexualidade, nesse caso, não está desligada de sentimentos românticos, e, mesmo que a referência a eles acene à possibilidade do controle afetivo masculino, a resistência à coação sexual e o estabelecimento de alguma autonomia sobre o próprio corpo afirmam, em chave diversa, a honra feminina que ela fora impedida pela escravidão de desfrutar.

Ato contínuo, a maternidade emerge como o tema definitivo da obra, deslocando-a da condição de jovem sexualmente assediada, cuja pureza é violada pela escravidão, à de mãe exemplar - a qual, segundo Káren Sanchez-Eppler (1993), substitui a própria castidade. Os traços da sexualização desmoralizante imposta pela escravidão são, a partir de então, suplantados pela construção de uma representação de maternidade imaculada, que movimenta a narrativa e sua autora/narradora em direção à emancipação e ao abolicionismo. Após recusar-se a aceder à proposta de Norcom de fazer dela sua amante, Jacobs é por ele enviada, sem Joseph ou Louisa, à plantation em que residia seu filho, Norcom Jr., onde a realidade da escravidão era ainda mais dura do que a que conhecera até então. A altivez com que expressa tal recusa é retratada numa frase que consolida de forma lapidar seu acesso às qualidades da elevação feminina pela via da maternidade: “Eu tinha orgulho feminino e amor de mãe para com os meus filhos” (Jacobs, 2010, p.108).

É somente diante da iminência de que os filhos, até então acolhidos no conforto do lar de sua avó, fossem também levados à plantation para castigá-la por seu “mau comportamento”, que Jacobs decide-se por fugir - tornando-se, depois de algum tempo, clandestina na casa que lhe era tão familiar. O limite do sofrimento suportável é estabelecido pelo amor materno: anos de assédio sexual solitário não se comparavam à ameaça do padecimento filial. As memórias narradas, a partir de então, são as de uma mãe que espreita silenciosamente o crescimento dos filhos e deles se separa para livrá-los dos males da escravidão, esperando que seu desaparecimento provoque o desinteresse de Norcom pelas crianças. Ao comentar as dificuldades de seu confinamento, ela escreve, expressando a devoção e servidão maternas: “A escravidão foi tão longa e penosa para mim que, não fosse a esperança de servir aos meus filhos, a morte teria sido um alívio. Mas para o bem deles, eu estava disposta a continuar enfrentando o cativeiro” (ibidem, p.127).

As referências aos predicados da maternidade sacralizada cumprem, por certo, a tarefa de restituir Jacobs ao conjunto das mulheres assistidas pelas mais nobres qualidades e direitos femininos, segundo eram entendidos pelo corolário da domesticidade oitocentista, contrariando tanto as representações sexualizadas das mulheres escravizadas quanto aquelas relativas às suas supostas incapacidades maternas.18 Contudo, essa identidade comum que unia autora a suas leitoras é tensionada por dimensões do sofrimento que, embora fossem entendidos como inerentes à maternidade, agigantava-se sob a escravidão. Diversas são as passagens em suas memórias em que ela contempla a morte como fim menos doloroso à vida de seus filhos e sublinha as preocupações permanentes que acompanhavam as mães escravas, irmanando-se a elas e com elas destacando-se do conjunto idealizado do feminino universal. A cena de reencontro com o filho, que, anos depois, finalmente conseguira alcançá-la e à irmã em Nova York, expressa decisivamente o lapso que nem mesmo o abolicionismo feminino de tons sentimentais poderia transpor: “Caro leitor, você consegue imaginar minha felicidade? Você não pode a não ser que tenha sido uma escrava mãe” (Jacobs, 2010, p.187).

Diferente de Jacobs, Harriet Tubman, ao que consta, não teve filhos biológicos. Nascida entre 1820 e 1822 no estado de Maryland, filha de pais escravos, afirma em sua narrativa que acreditava ter cerca de 25 anos de idade quando fugiu da escravidão e chegou até a cidade da Filadélfia, no estado da Pensilvânia, em algum momento impreciso do fim do mandato de James Polk, que governou os Estados Unidos entre os anos de 1845 e 1849 (Bradford, 2012, p.35).19 Embora tenha sido casada com um afro-americano livre, quase nada se sabe sobre John Tubman, seu marido. De fato, ele é pouquíssimo mencionado em Scenes in the Life; afora menções passageiras a sua saúde frágil, a mais destacada referência feita ao marido trata do momento em que, voltando para a ele reunir-se depois de sua fuga, Tubman encontra-o em companhia de outra mulher (Santamarina, 2007, p.237).

A saúde de Tubman era delicada. Quando menina, alugada por seu senhor aos serviços de terceiros - arranjo bastante frequente em sua vida como escrava -, Tubman sofreu um trauma sério no crânio. Encontrando-se em meio a uma altercação entre um senhor e um escravo, foi atingida na cabeça por um peso de balanças. A partir de então, além de dores intensas e episódios de extrema sonolência que lhe acompanharam por toda a vida, ela também passou a ter sonhos e visões terríveis, assim descritas por Bradford (2012, p.24):

[...] ela jamais fechava os olhos sem imaginar os homens a cavalo e os gritos das mulheres e crianças que eles arrastavam para uma escravidão pior que do que aquela que já conheciam. Harriet foi casada com um negro livre que não só não se importava com seus medos, como ainda a recapturava quando ela tentava escapar. Todas as noites ela gritava “eles estão vindo, estão vindo, tenho que fugir!.

Os dias e meses que se seguiram ao ocorrido foram repletos de tentativas de se vender Tubman, que relata que, em razão do trauma, teve seu valor de mercado bastante diminuído: “Disseram que eu valia nem seis centavos” (ibidem, p.21). Duas irmãs de Harriet já haviam sido vendidas e levadas “aos campos de algodão e arroz acorrentadas a outros escravos” (ibidem, p.22). Os pesadelos e visões em que mulheres e crianças eram arrastadas por cavalos para outra realidade de trabalho escravo, ainda mais terrível do que aquela em que já viviam, parecem ecoar, assim os próprios medos de Tubman de ser vendida e separada de sua família e comunidade - recorrentes, essas separações submetiam mulheres e homens escravizados a uma profunda solidão, expondo-os a novas relações de poder cujos significados era preciso decifrar e, com dificuldade, negociar (Humez, 2004, p.112).

A morte do proprietário de Tubman e sua família fez que os temores relacionados à venda deixassem, ao menos momentaneamente, de assolar seus irmãos e irmãs. Esse efeito, no entanto, não parece ter se estendido a ela: entre a metade e o fim da década de 1840, Tubman fugiu rumo à Filadélfia - o mesmo destino seguido por Harriet Jacobs e por diversos outros fugitivos que buscavam alcançar os free states (estados livres). As passagens que tratam de sua fuga não são longas, tampouco detalhadas; registradas com algum lirismo, sobre o qual é difícil precisar se emana das letras de Bradford ou da narração de Tubman, contam que essa, guiada pela Estrela do Norte (Ursa Menor), seguiu a pé pelas matas durante a noite em busca da “linha mágica” que separava “a terra da escravidão da terra da liberdade” (Bradford, 2012, p.28). Transpondo a linha que separava os slave states (estados escravistas) dos free states, Tubman chegou ao estado da Pensilvânia e, depois, à cidade da Filadélfia (Foner, 1995, p.97-8): “Quando descobri que eu havia cruzado aquela linha (...) olhei para as minhas mãos para ver se eu ainda era a mesma pessoa. Havia tanta glória em tudo, os raios dourados do sol penetravam a copa das árvores e nos campos, senti-me no paraíso” (Bradford, 2012, p.29). A sensação de felicidade, entretanto, logo foi substituída por angústia e desterro:

Ela se sentiu como um prisioneiro que havia cumprido uma pena de vinte e cinco anos na prisão. Ele passara todos os vinte e cinco anos ele pensando em sua casa e naqueles que um dia reencontraria. Quando o dia de sua soltura chega e ele deixa a prisão, ele volta para o lugar de onde tinha vindo, mas seu velho lar já não existe [...] seus amigos e família não estão lá, não a ninguém para recebe-lo. (ibidem, p.29-30)

Ainda que a metáfora do homem que deixa a prisão após cumprir 25 anos de pena e não encontra mais sua antiga casa - ou sua família - possa ser atribuída parcialmente à Bradford, em diversas passagens em que Tubman fala sobre si, seu insulamento físico e emocional e os sofrimentos por ele acarretados ganham tons vivos e explícitos:

Eu havia cruzado aquela linha. Eu era livre; mas não havia ninguém para me receber na terra da liberdade. Eu era uma estranha em uma terra estranha, afinal, meu lar era em Maryland, onde estava meu pai, minha mãe, meus irmãos e irmãs, e meus amigos. Mas eu era livre e eles também deveriam ser. Eu faria do Norte o meu lar para poder trazê-los. (ibidem, p.30)

Reprodução

Harriet Tubman. 

Embora ocupe poucas páginas, o tema do isolamento da fuga ajuda a iluminar a construção de diferentes registros femininos da busca por emancipação, estabelecendo um interessante paralelo entre as duas Harriets. Com graus de objetividade diversos, ambas as narrativas se reportam à difícil compatibilização dos vínculos afetivos às fugas de mulheres escravizadas. Se, no caso de Jacobs, esse dilema gira, essencialmente, em torno da maternidade e do afastamento dos filhos - que, paradoxalmente, constituem a principal razão de sua partida da plantation e retirada para o norte -, na narrativa de Tubman ele se refere à separação da família e, de forma mais velada, mas não menos importante, ao abandono do marido, com quem não compartilha o cativeiro e a quem precisa deixar para se libertar. As soluções narrativas encontradas em cada um dos casos para esse problema comum revelam, no entanto, a construção de diferentes representações de si nas memórias escravas dessas mulheres (Abdur-Rahman, 2014, p.242).

Em Scenes in the life, as digressões sobre a fuga e as referências breves à separação de parentes e marido combinam-se na descrição de uma personagem solitária, que não tematiza os vínculos amorosos ou a maternidade, cujos esforços em vida são dedicados a enfrentar e construir alternativas à escravidão, não apenas para si, mas, sobretudo, para outros. Depois do episódio da fuga, a narrativa envereda pelas muitas viagens organizadas por Tubman, que possibilitaram a dezenas de escravos e escravas escapar ao cativeiro - embora Tubman tenha lembrança de onze delas, as cartas recolhidas por Bradford apontam pelo menos 19 travessias entre o sul e a fronteira do Canadá. Nesse sentido, as distâncias entre suas memórias e aquelas narradas por Harriet Jacobs tornam-se bastante visíveis. No caso de Jacobs, é o universo dos afetos e da intimidade, tão esmaecido no relato de Tubman, que propele à luta política pela emancipação. Todo seu sofrimento é, no limite, confortado pelo apoio que recebe de sua extensa rede familiar e de solidariedade, de importância fulcral em sua narrativa, bem como pelos laços do amor materno em nome dos quais ela foge. Em sentido diverso, longe de recorrer ao ideal da domesticidade oitocentista como mote de seu manifesto pela abolição, Harriet Tubman afirma-se, sobretudo, como uma mulher do mundo público, que esposa a militância e encontra, nos muitos escravizados a quem acode, a comunidade antes perdida à escravidão.

Suas memórias esboçam assim, o retrato corajoso, audaz e abnegado de uma verdadeira asceta da abolição, que faz dessa causa e dos anônimos por ela tocados a sua vocação. Essa espécie de espiritualização política encontra interessante expressão no viés religioso de suas memórias - traço comum ao gênero das narrativas escravas, sobretudo as femininas, mas mais pronunciado no relato de Tubman do que no de Jacobs, cuja elevação se dá por meio das virtudes maternas.20 Sonhos e presságios são interpretados por Tubman, nas passagens em que seu testemunho é apresentado em primeira pessoa, como mensagens recebidas de Deus; as jornadas rumo ao Canadá são descritas como peregrinações “do Egito à terra de Canaã” (Bradford, 2012, p.32). O fato de que Tubman parecia ser a única a circular ilesa pelo sul escravista, onde agenciava fugas escravas, é explicado pela própria como ato de graça e proteção divinas:

Perguntava-se frequentemente como era possível que ela não tivesse medo de voltar, ainda mais com uma recompensa imensa para quem a apreendesse; Harriet sempre respondia: “Eu lhe digo, senhora, não era eu, era o Senhor! Eu sempre disse a Ele: “eu confio em Ti, não sei para onde ir ou o que fazer, mas conto com seu amparo, e ele sempre me amparou. (Jacobs, 2010, p.51)

Tal explicação contagiou não apenas a Bradford, como a muitos outros cujas cartas, transcritas e compiladas em Scenes in the life, estabelecem testemunhos da veracidade dos traços assombrosos da trajetória de Tubman.21 A intrepidez que impressionou a tantos é traduzida, na narrativa de sua vida, em termos que evocam certa transcendência; longe de esvaziarem sua agência, atribuindo-a a forças superiores, porém, elas constroem a representação de uma paladina da abolição cujas qualidades pouco se referem à imagem da mãe sagrada ou heroína do lar.

A título de conclusão

Incidents in the life e Scenes in the life se distanciam e aproximam em diferentes medidas. Embora compartilhem muitos dos elementos que caracterizam o gênero narrativa escrava, as diferentes opções narrativas que assumem - tanto formais, quanto simbólicas - redundam na construção de memórias da escravidão dotadas de personalidades distintas.

A oposição do registro autobiográfico de Jacobs à escrita mediada do relato de Tubman, que poderia ser definitiva para certa agenda de pesquisas, parece, do ponto de vista da análise aqui proposta, pouco importante. De fato, o letramento de Jacobs e a afirmação explícita de sua autoria não preveniram desconfianças sobre a autenticidade autobiográfica de sua narrativa, do mesmo jeito que a mediação de Bradford não resultou, de forma geral, no descrédito quanto à veracidade dos fatos incríveis da vida de Tubman, figura de proa do abolicionismo estadunidense. Mais do que questionar a legitimidade das memórias em questão, refletir sobre a qualidade das representações evocadas por esses relatos parece maneira mais apropriada de considerar o que eles revelam sobre as possibilidades de narrar a si, contar sua própria história, do ponto de vista de mulheres que viveram a escravização, a emancipação, e se tornaram agentes do enfrentamento à escravidão nos Estados Unidos do século XIX.

Mobilizando experiências femininas ora comuns, ora diversas entre si, as narrativas em questão expressam a construção de identidade que circundam, esgrimem e perturbam discursos e representações normativas da mulher e suas prerrogativas no século XIX. Se, por um lado, a narrativa de Jacobs vale-se de repertório mais convencional dos motivos femininos, seu retrato da mulher escrava e a caminho da emancipação é, muitas vezes, mais provocativo do que aquele apresentado por Tubman. Ao mesmo tempo em que atrai o interesse das leitoras brancas do norte e convoca sua humanidade ao escrutínio das agruras da escravidão, aponta o injusto privilégio que elas tinham sobre prerrogativas da real woomanhood que deveriam ser universais. O fascínio de sua narrativa resiste, em parte, na capacidade de conjugar os instrumentos da sensibilização sentimental e da identificação à afirmação permanente, muitas vezes ácida, das distâncias que separavam ilegitimamente mulheres escravas e libertas de mulheres livres e aburguesadas.

Harriet Tubman, de sua parte, não é personagem de uma narrativa que se vale do mesmo repertório simbólico de predicados femininos. Seu relato, e a escrita de Bradford, apresenta uma mulher rústica, de ação, que pouco divaga sobre os próprios sentimentos e constantemente se engaja no embate aberto e frontal contra a escravidão. Não obstante, sua história mobiliza a devoção religiosa, tão identificada às virtudes femininas, na construção de uma representação de ascetismo e doação de uma vida pública que se sobrepõe aos sofrimentos privados.

De ambas as narrativas emergem trajetórias fantásticas de mulheres que movimentam a própria história. Longe de redundarem numa essencialização da condição feminina sob a escravidão, elas desenham a construção de identidades insubmissas e politizadas de mulheres que confrontam as próprias circunstâncias ao construir a liberdade para si e para suas iguais.

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Notas

1O caso de Equiano é, novamente, exemplar: sua Interesting Narrative teve 13 edições diferentes nos cinco anos que se seguiram a primeira edição em Londres, em 1789. Foi também republicada em Nova York e traduzida para o holandês, o alemão e o russo. Por volta de 1850, a obra já tinha tido 36 edições (Gould, 2007, p.22).

2Tradução nossa.

3Ainda que outras narrativas tenham continuado sendo publicadas em forma de livros ou panfletos no pós-guerra, maior número de testemunhos sobre a escravidão foi produzido no âmbito do Federal Writer´s Project (FWP), desenvolvidos na década de 1930 sob a égide da Works Progress Administration (WPA). A pesquisa de doutorado de Marion Wilson Starling, finalizada em 1946, pela Universidade de Nova York, mapeou milhares de testemunhos majoritariamente desconhecidos de pessoas que haviam presenciado a escravidão no país. Para além da compilação de diferentes tipos de memória sobre a escravidão escritas e/ou recolhidas ao longo dos séculos XIX e XX, Starling também faz menção aos expressivos acervos fotográficos organizados durante os anos 1930 (ver cap.1 de Starling, 1988, p.351-5).

4A nota com o rosto de Tubman deveria começar a circular em 2020, mas a iniciativa parece ter sido suspensa pela atual administração do governo dos Estados Unidos (Salam, 2019).

5A acidentada história editorial de Incidents in the life... é abordada em maior profundida por Yellin. Registre-se aqui, no entanto, que a participação de Lydia Maria Child como editora do volume parece ter sido uma imposição da casa editorial (Yellin, 2003. ver também Smith, 2007, p.193).

6Sarah Hopkins Bradford era uma mulher branca, apoiadora da causa abolicionista e escritora. Até a narrativa de Harriet Tubman, em 1869, tinha publicado majoritariamente livros para crianças. Segundo Jean McMahon Humez (1993, p.164-5), Bradford e Tubman se conheceram através dos pais de Tubman, frequentavam a mesma congregação que Bradford em nova York e parecem ter intermediado o contato entre as duas.

7Em 1850 entrou em vigor o Fugitive Slave Act que, grosso modo, obrigava autoridades a devolver cativos e cativas fugidos a seus senhores. Naquele contexto, é possível dividir os Estados Unidos em pelo menos dois grupos: o grupo dos free states (estados livres), em geral nas regiões Norte e Nordeste do país, e o grupo dos slave states (estados escravistas) que formavam o Sul. Antes do Fugitive Slave Act, o movimento e o partido do Free Soil abriam brechas para a alforria de cativos e cativas que alcançassem os free states ou estados em que a escravidão já havia sido abolida. Depois de 1850, com a obrigatoriedade de devolução de escravos fugidos aos seus estados de origem, parte das ações abolicionistas passaram a levar os fugitivos e fugitivas para o Canadá (Horne, 2010, p.187).

8Faz-se importante mencionar que duas décadas depois de Scenes in the Life, em 1886, Bradford publicou outra obra sobre Tubman, chamada de Moses já no título (Bradford, 2004).

9Os debates e modelos analíticos de narrativas escravas são sobretudo propostos pelos estudos literários, que não apenas possuem tradição mais antiga, como também apresentam reflexões mais aprofundadas do que aquelas desenvolvidas por historiadores e historiadoras (Goddu, 2014, p.153).

10O diálogo de Mitchell (1995, p.183-207), nesse sentido, é sobretudo com o ensaio de Steve Olney (1985).

11Embora abarcando uma miríade de pesquisas e tendências interpretativas, os estudos literários têm, de modo geral, tratado as narrativas escravas como instâncias fundadoras da literatura afro-americana e, no limite, da literatura norte-americana como um todo. No que diz respeito de forma mais detida aos estudos das autobiografias de mulheres afro-americanas, ver, entre outros, Washington (1988); Carby (1989); Wienstein (2007, p.124-5).

12Por volta de 1862, Jacobs mudou-se para o estado da Virgínia. Mais tarde, retornou à Carolina do Norte e, finalmente, voltou à Washington, onde faleceu em 1897. Sua filha, Louisa Matilde, acompanhou-a na militância e esteve a seu lado na ocasião de sua morte (Yellin, 2003).

13Introdução de Jennifer Fleischner a Jacobs (2010).

14É o que sugere, por exemplo, Stephanie Li (2006)), que se refere ainda às incongruências entre autora e narradora apontadas por J. F. Yellin (2003).

15Ver, entre outros: Cowling et al. (2017; 2018).

16Um único ataque físico atinge a Joseph, filho de Harriet (Jacobs, 2010).

17A esse respeito, ver Hartman (1996).

18Para um perspectiva sobre o tema da maternidade escrava imprópria no Brasil, ver Ariza (2017).

19Ver capítulo 1 de Sernett (2007).

20Sobre os elementos que estruturam formalmente o gênero narrativa escrava, ver Olney (1985).

21Essa é também característica comum às narrativas escravas, e encontra-se em Incidents in the life (ver Olney, 1985).

Received: June 14, 2019; Accepted: July 21, 2019

Maria Clara Carneiro Sampaio é graduada em Direito e em História por, respectivamente, PUC-SP e USP, com mestrado e doutorado pelo Programa de História Social da USP, Professora adjunta da Faculdade de História da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). @ - mclarasampaio@unifesspa.edu.br

Marília B. A. Ariza é graduada em História, com mestrado e doutorado pelo Programa de História Social da USP. @ - mbaariza@gmail.com

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