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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.33 no.96 São Paulo May/Aug. 2019  Epub Aug 12, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3396.0013 

Goethe

“O humano que jamais nos abandona”: A obra epistolar de Goethe

MARCUS VINICIUS MAZZARII 
http://orcid.org/0000-0002-8335-954X

IFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.


resumo

Este ensaio empreende uma incursão pela correspondência de Goethe, estimada em aproximadamente vinte mil cartas escritas (a cerca de 1.700 destinatários) e 25 mil recebidas. Em primeiro plano estão cartas escritas na velhice, sobretudo as de condolências e as que expõem suas concepções estéticas ou detalhes de seu processo criativo. As duas últimas seções do ensaio enfocam a correspondência de Goethe com o “brasileiro” Martius (como o próprio poeta se referia ao botânico que percorreu onze mil quilômetros de território brasileiro) assim como a posição central que a obra epistolar de Goethe ocupa na antologiaDeutsche Menschen[Homens alemães], publicada por Walter Benjamin em 1936 com o intuito de adensar a resistência ao fascismo.

palavras-chaves: Obra epistolar de Goethe; Cartas de condolências; Elaboração epistolar de experiências; Homens alemães; de W. Benjamin; História do gênero “carta”.

abstract

This essay makes an incursion into Goethe’s correspondence. It is estimated he wrote approximately 20,000 letters (to about 1,700 recipients) and received 25,000. In the foreground are letters written in his old age, especially those of condolences and those that expound his aesthetic concepts or details of his creative process. The last two sections of the essay focus on Goethe’s correspondence with the “Brazilian” Martius (as the poet himself referred to the botanist who traveled eleven thousand kilometers in Brazil) and the central position that Goethe’s epistolary work occupies in the anthology Deutsche Menschen [German men and women], published by Walter Benjamin in 1936 with the aim of increasing resistance to fascism.

keywords: Goethe’s epistolary work; Letters of condolences; Epistolary development of experiences; German men and women (W. Benjamin); History of the “letters” genre.

Toda inovação tecnológica traz consigo uma espécie de “pacto fáustico”, postulou o teórico de comunicação norte-americano Neil Postman, toda nova tecnologia “sempre nos dá algo, mas também sempre nos tira algo importante”.1 As extraordinárias inovações que, num ritmo ainda em contínuo avanço, levaram às tecnologias de comunicação digital que dominam todo o planeta têm por corolário o declínio de um patrimônio da cultura humana: a tradição epistolar, cujas raízes remontam à Antiguidade clássica e judaico-cristã, compreendendo, entre outros grandes documentos, as cartas atribuídas a Platão, as epístolas de Cícero e Horácio, assim como as de Paulo e dos patriarcas da Igreja. Adensando-se ao longo da Idade Média e do Renascimento (lembrem-se as cartas, redigidas ainda em latim, de Dante, Petrarca e Erasmo de Roterdã), essa tradição, após ter passado pela célebre épistolière francesa Madame de Sévigné (1626-1696), alcançou seu apogeu no século de Voltaire (1694-1778), de cuja pena saíram, apenas entre os anos 1753 e 1778, mais de onze mil cartas, montante que representa tão somente as que se conservaram.

Posição de excepcional relevo na história do gênero epistolar ocupa igualmente a correspondência de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), estimada em mais de vinte mil cartas escritas, 15 mil das quais depositadas no Arquivo Goethe e Schiller de Weimar, e 25 mil recebidas.2 Abstraindo-se da mensagem em versos alexandrinos endereçada aos avós maternos no Ano Novo de 1757, a primeira carta goethiana transmitida à posteridade traz a data de 23 de maio de 1764 e foi endereçada a Ludwig Ysenburg von Buri que, apenas dois anos mais velho, presidia uma sociedade literária secreta (Arkadische Gesellschaft zu Phylandria) sediada na cidade de Offenbach sobre o Meno, no estado do Hesse. Nessa carta o adolescente da vizinha Frankfurt apresenta-se num estilo pomposo, com características do barroco tardio e do rococó, movido pelo intuito de conseguir admissão na sociedade arcádica presidida por Buri, a qual se converteria já no ano seguinte em loja maçônica. Se na primeira carta de Goethe, que deixa entrever um domínio soberano dos preceitos retóricos contemporâneos, já se pode reconhecer um prodigioso talento epistolográfico (que, no entanto, não foi suficiente para abrir ao jovem literato as portas dessa Arcádia do Hesse),3 seu último escrito, endereçado quase setenta anos mais tarde a Wilhelm von Humboldt (1767-1835), constitui-se sem dúvida num dos mais elevados exemplos do gênero “carta” que se podem encontrar em toda a literatura mundial.

Tendo cultivado, ao longo de sete decênios, intensa atividade epistolar (expressivo exemplo nos oferece o dia 15 de março de 1832, em que Goethe - exatamente a uma semana da morte - ditou cinco cartas!4), não surpreende que o poeta tenha atribuído a esse gênero a mais alta importância, conforme exprime a observação que abre seu prefácio ao volume Winckelmann und sein Jahrhundert [Winckelmann e seu século], que organizou e editou em 1805 após ter recebido 27 cartas inéditas de Johann Joachim Winckelmann (1717-1768) ao amigo Hieronymus Berendis:

Cartas estão entre os mais importantes monumentos que o indivíduo pode legar. Pessoas de grande vivacidade imaginam muitas vezes diante de si, em seus solilóquios, um amigo ausente, ao qual elas comunicam seus sentimentos mais íntimos, e assim também a carta é uma espécie de solilóquio. Pois com frequência um amigo a quem se escreve torna-se muito mais o ensejo para uma carta do que seu objeto.

A correspondência ativa de Goethe registra cerca de 1.700 destinatários, ao passo que a passiva abarca aproximadamente 3.500 nomes. Amplo e vário mostra-se consequentemente o espectro de assuntos tratados, pois suas cartas de modo algum se restringiam à comunicação de sentimentos íntimos aos “amigos ausentes” que motivaram os solilóquios - ou amigas, como a condessa Auguste von Stolberg (1753-1835), que ocupa proeminente lugar em sua correspondência e com quem ele jamais chegou a encontrar-se pessoalmente. Centenas dessas cartas se aprofundam em questões científicas, estéticas, filosóficas, religiosas, políticas e mesmo diplomáticas, como o longo escrito de 10 de fevereiro de 1779 ao duque de Saxe-Weimar-Eisenach Carl August (1757-1828), que analisa de vários ângulos os possíveis desdobramentos do conflito entre a Prússia de Frederico, o Grande, e a Áustria. E mesmo quando tratam de assuntos na aparência inteiramente privados, não se pode dizer que essas cartas estejam comunicando a intimidade do epistológrafo de maneira direta e límpida, enquanto fiel “imagem da alma”, na antiga expressão (eikôn psychês) atribuída a Demétrio. A mencionada carta a Ludwig Ysenburg von Buri já pode ilustrar esse fato, pois nela a ambição pessoal do jovem frankfurtiano se reveste com grande sofisticação das regras e convenções da tradição retórica pressuposta no destinatário.5 O que o adolescente afirma de sua própria pessoa ao apresentar-se ao presidente da sociedade arcádica, longe de constituir um eikôn psychês, não faz senão modular preceitos contidos em obras que gozavam de grande prestígio entre literatos em meados do século XVIII, como as Satiren (1755) de Gottlieb Wilhelm Rabener, que em um de seus capítulos trazia as preceptivas epistolográficas que foram “aplicadas” por Goethe.

Constelação algo semelhante se encontra na longa e tempestuosíssima missiva, escrita (de próprio punho) entre os dias 10 e 13 de novembro de 1767, na qual o então estudante de direito em Leipzig relata e desabafa ao amigo Ernst Wolfgang Behrisch (1738-1809) a paixão, inflamada por ciúmes avassaladores, pela moça Anna Katharina Schönkopf (1746-1810), filha do estalajadeiro que oferecia refeições e vinho aos universitários da “pequena Paris” (como Leipzig é mencionada no verso 2.172 do Fausto), entre os quais o rival de Goethe. Trata-se de uma carta extraordinariamente expressiva, mas que mescla de maneira talvez inextricável a eventual autenticidade dos sentimentos com o fingimento da elaboração literária, também deixando entrever a leitura da Nova Heloísa de J. J. Rousseau numa passagem em que descreve os tormentos que a simples visão da amada lhe causa: “Assim haverá de ser amanhã, depois de amanhã e sempre e sempre”.6

O movimento pré-romântico “Tempestade e Ímpeto” já se anunciava no horizonte e, assim, não haverá exagero em afirmar que o romance epistolar Os sofrimentos do jovem Werther germinava nessa arrebatada exposição, composta ao longo de quatro dias, das venturas e dos sofrimentos do jovem estudante de direito em Leipzig. O próprio epistológrafo, ao relatar o momento em que os ciúmes se apaziguam com uma declaração da amada, insere palavras sinalizadoras do distanciamento que conduz à transfiguração artística: “Minha carta tem uma bela predisposição para uma pequena obra, eu a li novamente e me assusto comigo mesmo”. Sete anos mais tarde viria então a lume a “pequena obra” que, conduzindo a um patamar superior a dialética entre “poesia e verdade” que já subjaz às duas cartas comentadas, converteu-se em sucesso mundial.7

Elaboração epistolar de experiências

Entre as inúmeras riquezas que um leitor pode encontrar na obra epistolar de Goethe está a possibilidade de extrair-lhe subsídios para aprofundar o entendimento e a fruição de suas criações literárias. Ao mesmo tempo muitas de suas cartas já podem ser consideradas, em si mesmas, extraordinárias “obras de arte”, constituindo um momento áureo da prosa goethiana. Esses dois aspectos estão presentes, em excepcional conjunção, na correspondência com Friedrich Schiller (1759-1805), que se estende de 13 de junho de 1794 a 26 de abril de 1805 e representa um capítulo de máxima grandeza na história da literatura alemã, confundindo-se grosso modo com a década de apogeu do classicismo. O nível literário de muitas dessas cartas - ao qual o próprio Bertolt Brecht, por vezes pouco receptivo aos clássicos de Weimar, rendeu tributo em seu Arbeitsjournal8 - repercute nas palavras que Goethe diz a Eckermann no dia 18 de janeiro de 1825: “Suas cartas são a mais bela recordação que possuo dele e pertencem ao que de mais primoroso ele escreveu”.

Pode-se afirmar assim que as 1.009 cartas trocadas por Goethe e Schiller compõem, paralelamente à qualidade literária que as distingue, uma teoria estética in nuce, que mapeia em detalhes os domínios dos gêneros épico e dramático (por exemplo, ao discutirem o princípio retardador das epopeias homéricas, enfocado por Erich Auerbach no primeiro ensaio de Mimesis) assim como ilumina com admirável percuciência procedimentos estéticos e a gênese de obras como Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, Hermann e Dorothea ou o Fausto I, assim como, por parte de Schiller, Wallenstein, trilogia dramática que Goethe acompanhou de perto desde os momentos iniciais até a montagem e encenação no Teatro de Weimar, e outras peças como Maria Stuart, A noiva de Messina, A donzela de Orleans ou Guilherme Tell (as duas primeiras traduzidas entre nós por, respectivamente, Manuel Bandeira e Gonçalves Dias).

Na vida e, por extensão, na epistolografia de Goethe o ano de 1805 avulta como um divisor de águas, pois o dia 9 de maio assinala o falecimento de Schiller, privando-o não apenas de seu interlocutor mais importante, como também da “metade de minha existência”, conforme escreve vinte dias depois ao compositor berlinense Carl Friedrich Zelter (1758-1832):

Desde o tempo em que não voltei a escrever-lhe tive poucos dias bons. Pensava que estava perdendo a mim mesmo e eis que perco um amigo e, nele, a metade de minha existência. No fundo, eu deveria começar uma nova etapa de vida; mas para isso não há mais nenhum caminho na idade em que estou. Vejo agora cada dia diante de mim de maneira imediata e vou fazendo o que estiver mais a mão, sem pensar numa sequência que aponte para diante.

Com esse amigo berlinense Goethe trocará, até 11 de março de 1832, mais de 850 cartas, publicadas dois anos após a morte de ambos.9 Se um leitor como Walter Benjamin atribui a essas cartas, conforme expresso no amplo verbete redigido para a Enciclopédia Soviética, um significado superior ao que enxerga naquelas trocadas com Schiller,10 não devemos supor que esse juízo do filósofo tenha por pressuposto a profundidade com que questões estéticas são debatidas, pois nesse aspecto o nível da correspondência Goethe-Schiller encontra poucos paralelos em toda a literatura mundial. As cartas direcionadas a Zelter impressionam, sobretudo, pela maneira com que a experiência de vida é elaborada, o que por vezes acontece precisamente em resposta a notícias de grandes perdas. Aflora então, como talvez possam demonstrar os trechos que vêm em sequência, uma “sabedoria” a que Thomas Stearns Eliot deu relevo em seu ensaio de 1954 “Goethe as the Sage”.

A carta de 3 de dezembro de 1812, escrita logo após Zelter lhe ter comunicado o suicídio de seu enteado, constitui expressivo exemplo. Evocando a fase juvenil em que ele próprio se inclinara perigosamente ao gesto cometido por Werther, Goethe reflete sobre a intensa luta que tivera de travar com otedium vitae, contra “todos os sintomas dessa doença esquisita, tão natural quanto inatural” e que teria então avassalado seu “íntimo”. Notável nessa carta é o oferecimento a Zelter do pronome de tratamento familiar, o Du que não fora empregado no trato com Schiller. O berlinense, todavia, não entende de pronto esse gesto, acreditando tratar-se de uma deferência momentânea, um gesto de solidariedade e simpatia; na carta subsequente, porém, Goethe volta a insistir na oferta, passando então os amigos a se tratar porDu (até certo ponto correspondente ao nosso “tu” ou “você”). Eis como se abre a primeira carta de condolências entre Weimar e Berlim:

Tua carta, meu caro amigo, comunicando-me a grande desgraça que atingiu tua casa, abateu-me, vergou-me muito, pois ela me encontrou em meio a graves reflexões sobre a vida, e eu me recompus apenas com teu apoio. Tu te provaste sobre a negra pedra de toque da morte como um genuíno, purificado ouro.11 Quão magnífico se revela um caráter que alma e espírito penetraram de tal modo, e quão belo um talento que repousa sobre semelhante fundamento!

Sobre o próprio feito, ou desditoso feito, não sei o que dizer. Quando o taedium vitae se apodera da pessoa, esta só pode ser lamentada e não repreendida. Que uma vez no passado todos os sintomas dessa doença excêntrica, tão natural quanto inatural, avassalaram meu íntimo, sobre isso o Werther não deixa dúvida a ninguém. Sei muito bem o que me custou, em matéria de decisões e esforços, para escapar das ondas da morte, do mesmo modo como me salvei e recuperei penosamente de mais de um naufrágio posterior. E assim são mesmo todas as histórias de marinheiros e pescadores. Depois da tempestade noturna a gente, encharcada e respingando, ganha novamente a praia, seca-se, e na manhã seguinte, quando o magnífico sol surge novamente sobre as vagas, o mar volta a ter apetite por figos.12

Quinze anos mais tarde outra tragédia se abate sobre a vida familiar de Zelter, pois seu primogênito sucumbe ao cólera com 38 anos de idade. Goethe se vê então compelido a formular nova carta de condolências (19 de março de 1827), na qual envereda por especulações a que o próprio epistológrafo, na sequência do trecho reproduzido adiante, chama “abstrusas” e para as quais pede a condescendência do amigo. Se uma “desgraça semelhante” estreitara os laços entre ambos, como formulam as palavras iniciais, pode-se dizer que tal estreitamento se refletiu gramaticalmente na adoção do pronome de tratamento mais íntimo:

O que o amigo deve responder ao amigo num caso como este! Uma desgraça semelhante estreitou-nos com toda força, de tal modo que a união não poderia ser mais íntima. A presente desgraça deixa-nos assim como estamos e somos, e isso já é muito. O velho conto maravilhoso das noites que descem milhares e milhares de vezes, e sempre e sempre de novo, as parcas o narram incansavelmente entre si. Viver muito significa sobreviver a muitos, assim soa o sofrível ritornelo de nossa desajeitada caminhada pela vida, à maneira de um vaudeville. Ele sempre está de volta, agasta-nos e, todavia, impulsiona-nos mais uma vez no rumo de uma séria, renovada aspiração.

O círculo de pessoas que me tocam mais de perto parece-me um convoluto de folhas sibilinas, das quais uma após outra, consumida pelas chamas da vida, desfaz-se no ar e assim, de momento a momento, confere aos que ficam um valor mais elevado. Continuemos a atuar até que, convocados mais cedo ou mais tarde pelo espírito do mundo, retornemos ao éter! E que então o Ser eternamente vivo não nos recuse novas atividades, análogas àquelas nas quais já nos experimentamos.

Dignas de integrar qualquer antologia epistolar da literatura mundial mostram-se ainda duas outras cartas goethianas que também elaboram a experiência da morte. A primeira traz a data de 10 de julho de 1828 e é enviada a Zelter da pequena cidade de Dornburg, onde Goethe se refugiara para subtrair-se às cerimônias fúnebres em homenagem ao grão-duque Carl August (1757-1828), a quem o ligava uma amizade de mais de meio século. “No mais doloroso estado íntimo, tive de preservar pelo menos meus sentidos exteriores, e rumei para Dornburg a fim de furtar-me àquelas sombrias cerimônias através das quais, como é adequado e justo, representa-se simbolicamente para a multidão aquilo que ela perdeu no momento e que, nesse caso, sem dúvida toca seus sentimentos em vários aspectos”: de maneira abrupta, sem saudação inicial ou qualquer tipo de introdução, começa essa carta que - elaborando o luto através de plásticas descrições de sombras e luzes, flores e toda a vegetação nos jardins de Dornburg (os matizes de verde nas vinhas, por exemplo) e, de maneira indireta e sutil, também por meio de observações ópticas assim como de metáforas e símbolos cromáticos inspirados pela sua Teoria das cores (Zur Farbenlehre, 1810) - oferece-nos, nas palavras de Albrecht Schöne, “uma das grandes respostas à condição mortal do ser humano”.13

“Atividade”, tal como aparecera nas especulações “abstrusas” anteriormente citadas (“Continuemos a atuar [...]”) e que também avulta no final do Fausto, conjugada com o motivo da “aspiração”, enquanto fundamento da redenção do herói (“Quem aspirar, lutando, ao alvo, / À redenção traremos”, dizem os anjos que escoltam a enteléquia de Fausto nos versos 11.936-937), desempenha nessa carta um papel “complementar” à experiência da morte, em secreta correspondência com o seguinte postulado da Teoria das cores: “Quando o olho avista a cor, ele é logo posto em atividade, sendo de sua natureza produzir neste exato momento, de maneira tão inconsciente quanto necessária, uma outra [a respectiva cor complementar], a qual contém, ao lado da que está dada, a totalidade do espectro cromático”.14

A última carta de pêsames escrita por Goethe foi enviada no dia três de janeiro de 1832 (a menos de três meses de sua morte) ao filho do renomado químico e físico Thomas Johann Seebeck (1770-1831), que em 20 de dezembro de 1831 lhe havia comunicado o falecimento do pai e, ao mesmo tempo, a veneração que este, mesmo após o esfriamento e ruptura da amizade, nunca deixara de dedicar-lhe, não só enquanto poeta, mas também como cientista:

Os escritos de Vossa Excelência, quaisquer que fossem seus conteúdos, não saíam de sua mesa, eram sempre a leitura predileta dele; com frequência ele exclamava: “Entre todos os naturalistas vivos, Goethe é o maior, o único que sabe o que realmente importa!”; com frequência ele se expressava da seguinte maneira: “De todos os nossos poetas, nenhum captou a essência do ser humano com tanta profundidade como Goethe!”; com frequência ele dizia: “Goethe compreende a Natureza porque ele conhece o ser humano, e ele compreende o ser humano porque ele conhece a Natureza!”. Estou repetindo essas palavras não para, em nome do falecido, fazer algo que ele, enquanto vivo, rejeitou fazer, mas porque reconheço o quanto essas palavras honram meu pai, e por acreditar que nesse sentido elas também possuem um valor especial para Vossa Excelência.

O contato com Seebeck, autoridade europeia e mundial nas investigações sobre as chamadas cores entópticas (para mencionar o campo que mais de perto interessava ao poeta-cientista), começou da maneira mais promissora para Goethe, que esperava daquele um apoio abalizado para as próprias concepções ópticas e sua controversa teoria cromática antinewtoniana, sobretudo após a nomeação de Seebeck para a Academia de Ciências de Berlim, lugar de grande visibilidade no mundo científico. As coisas, contudo, não transcorreram exatamente no rumo desejado pelo weimariano e a relação entre ambos, tão auspiciosa em seus primeiros anos, desemboca num afastamento ao qual Goethe parece conferir autonomia na medida em que o estilo da carta, preterindo o modo verbal, passa a priorizar construções nominais - ou seja, não são os amigos que se comportam ativamente no sentido de um crescente estranhamento, mas é este mesmo que, conquistando autonomia, teria se interposto entre ambos, Goethe e Seebeck. Também a essa carta Albrecht Schöne dispensa uma magistral análise estilística no capítulo VIII do mencionado livro Der Briefschreiber Goethe, enxergando nela a síntese de “vinte e oito anos de uma relação sumamente significativa para o estudioso da natureza Goethe, de cooperação e amizade, de uma profunda decepção, mágoa e, por fim, estranhamento”.15

Também Walter Benjamin comentou esse “grandioso documento” humano (em suas palavras) na antologia de cartas Deutsche Menschen [Homens alemães], tendo cunhado, à luz de seus traços estilísticos, a expressão “tabelião do próprio íntimo” (Kanzlist des eigenen Innern) para caracterizar a linguagem cerimoniosa e algo empolada do velho epistológrafo. Esse estilo “chanceleresco” talvez possa ser observado no segundo parágrafo da carta ao jovem Seebeck, que havia comunicado a Goethe a veneração que seu recém-falecido pai, a despeito do afastamento, nunca deixara de dedicar-lhe, não só enquanto poeta, mas também como cientista:

Quando, entre amigos distantes, insinua-se primeiramente um silêncio, sobrevém tão logo um emudecer e daí, sem qualquer razão ou necessidade, se produz um mal-estar; então temos de reconhecer nisso, infelizmente, uma espécie de desamparo, que pode avultar-se em temperamentos benevolentes, bem-intencionados, e que devemos tentar, como em relação a outros defeitos, superar e eliminar com consciência. [...] Uma coisa, porém, posso assegurar: que, em relação ao que desapareceu tão cedo, eu, como amigo, jamais deixei faltar afeto, e tampouco, como pesquisador, faltar admiração e envolvimento; sim, e que com frequência eu tencionava expor à sua consulta coisas que me eram importantes, através do que então todos os maus espíritos da desconfiança teriam sido afugentados.

Apesar, contudo, da expressão distanciada e protocolar que vigora nessas linhas, Benjamin vê despontar na parte final da carta - do mesmo modo como, na metáfora mobilizada pelo crítico, o musgo ou uma frágil planta irrompe por entre as muralhas de uma construção inexpugnável - o “sentimento” do velho humanista ao despedir-se do filho de Seebeck e, no fundo, também da própria “vida que passa rumorejante”:

Mas a vida que passa rumorejante tem, entre outras excentricidades, o fato de que nós, tão envolvidos em atividade, tão sequiosos de prazeres, raramente sabemos apreciar e prender a nós os detalhes do instante que nos são oferecidos. E assim resta-nos ainda, em idade tão avançada, o dever de, pelo menos em suas peculiaridades, reconhecer o humano que jamais nos abandona e, por meio de reflexão, tranquilizarmo-nos em relação às insuficiências, cuja imputação [a nós] não pode ser inteiramente afastada.

Como apontado antes, em duas oportunidades Goethe desincumbiu-se da difícil tarefa de exprimir suas condolências a Zelter; no dia 13 de novembro de 1830, contudo, é este que se vê compelido a enviar semelhante mensagem a Weimar, pois chega então a Berlim a notícia da morte em Roma de August von Goethe, filho único do poeta, aos 41 anos de idade: “O que acabo de ficar sabendo por terceiros, no momento em que meu último escrito a ti já está no correio, não te será mais, meu bom amigo, nenhum segredo. Essa notícia fez supurar em mim uma velha úlcera, que eu acreditava ter finalmente cicatrizado”. Em carta datada de 23 de fevereiro de 1831, Goethe narra a Zelter detalhes da viagem italiana do filho, a qual por fim o levou a “descansar junto à Pirâmide de Céstio, no lugar pelo qual o pai, antes de seu nascimento, acalentava anelos poéticos”.16 Contudo, já uma semana após ter recebido as condolências do amigo berlinense, Goethe responde-lhe com uma carta que entra igualmente na tradição epistolográfica como um de seus grandiosos documentos:

Nemo ante obitum beatus é uma palavra que figura na história mundial, mas que no fundo não quer dizer nada.17 Se tivesse de ser pronunciada com algum fundamento, deveria dizer: “espera por provações até o final”. A ti, meu caro, elas não faltaram, a mim também não,18 e é como se o destino tivesse a convicção de que a gente não é um feixe de nervos, veias, artérias e outros órgão daí derivados, mas de arame.

Obrigado pela tua simpática carta! eu também tive certa vez de transmitir-te uma tal mensagem de Jó como saudação de hospitalidade.19 E vamos deixar as coisas assim como estão.

O verdadeiramente curioso e significativo nessa provação é que, com a chegada do novo ano, eu acreditava poder desvencilhar-me de todos os fardos e passá-los a um vivente mais moço; e eis que daqui para a frente terei de arrastá-los eu mesmo, e tudo de maneira ainda mais pesada do que antes.

Aqui é tão somente o grande conceito do dever que pode nos manter em pé. Não tenho outra preocupação a não ser conservar-me fisicamente em equilíbrio; todo o restante virá na sequência. O corpo precisa, o espírito quer e quem vê o rumo mais necessário prescrito ao seu querer, este não precisa ficar refletindo muito. Não quero ir mais adiante, mas me reservo o direito de eventualmente poder prosseguir a partir desse ponto.20 Meus cumprimentos mais afetuosos e agradecidos a todos aqueles que tão fielmente se solidarizaram.

Mergulhar no trabalho sob a égide da “atividade” foi mais uma vez o caminho que Goethe encontrou para fazer frente a uma grande perda, agora provavelmente a maior de todas; ele retoma os esquemas e fragmentos, redigidos ao longo de dez anos, para o quarto volume de sua autobiografia Poesia e verdade e em apenas duas semanas consegue concluir a obra. Contudo, o sofrimento recalcado e o gigantesco esforço intelectual despendido pelo octogenário provocam, conforme se exprime no dia 30 de dezembro de 1830 ao mesmo Zelter, uma “explosão” em seu corpo: estoura um vaso do pulmão e a perda de sangue é de tal ordem que, “se socorro adequado não tivesse acudido de imediato, a ultima linea rerum21 teria sido certamente traçada”. De todo modo, o velho poeta se recupera e logo pode entregar-se de corpo e alma ao que viria a ser a “ocupação principal” (Hauptgeschäft) de seus derradeiros anos, como passou então a referir-se à segunda parte do Fausto.

Uma aesthetica in nuce em cartas

Cerca de dez meses após a morte do filho em Roma, Goethe se vê em condições de comunicar ao amigo Carl Friedrich Reinhard o encerramento de seu trabalho na tragédia, coroando-se um esforço de seis décadas:

Mas devo salientar confidencialmente que me foi possível concluir a segunda parte do Fausto. [...] Então que ela possa um dia aumentar o peso específico dos volumes vindouros de minhas obras, não importa como e quando isso aconteça. Meu desejo é que ela chegue às suas mãos numa hora propícia. Não espere elucidação; à semelhança da história do mundo e dos homens, o último problema solucionado sempre desvenda um novo problema a ser solucionado.

E no dia seguinte, a mesma boa-nova é enviada ao historiador e colecionador de arte Johann Sulpiz Boisserée, um amigo renano 34 anos mais jovem:

Aqui está ele [o Fausto] então, tal como me foi possível realizá-lo. E se ele ainda contém suficientes problemas, se de modo algum proporciona toda elucidação necessária, mesmo assim irá alegrar o leitor que sabe entender-se com gestos, acenos e leves alusões. Esse leitor encontrará até mesmo mais coisas do que eu pude oferecer.

Agradecemos ao Arquivo o envio da reprodução do original (GSA: 29/564, I,8, Bl. 84) e a permissão para publicá-la em Estudos Avançados.

Fotos Cortesia Klassik Stiftung Weimar

Carta de Goethe (21 de novembro de 1830) a Zelter, comentando o falecimento de seu filho August em Roma. O original do manuscrito encontra-se em Weimar, no Arquivo Goethe-Schiller: Klassik Stiftung Weimar / Goethe- und Schiller-Archiv. 

Cartas como as duas citadas, em que Goethe tece considerações sobre suas próprias criações e descortina ao destinatário detalhes de sua oficina literária, perfazem um conjunto altamente significativo em sua epistolografia, com textos que podem ser colocados ao lado do que há de mais representativo no gênero em toda a literatura mundial. É o que se observou acima em relação às cartas trocadas com Friedrich Schiller, certamente o seu interlocutor mais extraordinário. A morte precoce desse amigo impossibilitou um intercâmbio sobre o Fausto nos mesmos moldes em que se configurara a correspondência sobre Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, decisiva para a conclusão dessa obra que deu à literatura mundial o chamado “romance de formação” (Bildungsroman). Mesmo assim o ano de 1797, quando Goethe decide retomar a tragédia que por largo tempo estivera relegada a um plano secundário, registra importantes cartas, como a de 22 de junho, em que Goethe, aludindo ao profeta Daniel - o qual adivinha e interpreta o sonho do rei Nabucodonosor (Daniel, 2) -, comunica a Schiller essa intenção e lhe envia as cenas já redigidas: “Mas agora eu desejaria que o senhor tivesse a bondade de, numa noite de insônia, refletir sobre isso, apresentar-me suas exigências ao conjunto da obra e, desse modo, contar-me e interpretar-me meus próprios sonhos, como um verdadeiro profeta”.

No tocante ao Fausto, e mais especificamente à sua segunda parte, é Wilhelm von Humboldt, o irmão mais velho do grande naturalista, que avulta soberanamente entre os correspondentes de Goethe. Sua erudição, experiência cosmopolita e largueza de horizontes - Wilhelm von Humboldt desempenhou relevantes missões diplomáticas e foi um dos fundadores da Universidade de Berlim -, toda sua formação artística, científica, filológica e filosófica colocam sua correspondência com Goethe no mais alto patamar, próximo ao que foi alcançado com Schiller. Tendo vigorado por quase quarenta anos, esse contato epistolar se fecha com duas cartas excepcionais sobre o Fausto: em 1º de dezembro de 1831 o velho poeta elucida ao amigo, entre outras coisas, o papel que reservava a todos os futuros leitores da tragédia, em especial a tarefa de suprir as lacunas deixadas no enredo dramático e, desse modo, estabelecer as conexões e transições necessárias (an Übergängen zu supplieren). Além disso, Goethe comunica-lhe a decisão de destinar a obra para publicação póstuma, o que conduz Wilhelm von Humboldt, em nova carta de 6 de janeiro de 1832, à tentativa de demover o amigo de tal intenção, ao mesmo tempo que faz notáveis indagações sobre o papel desempenhado pelo consciente e o não consciente na gênese da tragédia. Na resposta de 17 de março, a tão somente cinco dias da morte, o poeta mostra-se irredutível quanto à publicação póstuma:

Sem dúvida alguma me daria alegria infinita comunicar e dedicar esses gracejos muito sérios aos meus queridos amigos, gratamente reconhecidos e dispersos pelo mundo, acolhendo também o seu retorno. Mas o dia presente é de fato tão absurdo e confuso que me convenço de que os meus esforços sinceros, despendidos por tão longo tempo em prol desta construção insólita, viriam a ser mal recompensados e por fim arrastados à praia, onde ficariam como destroços de naufrágio para logo serem soterrados pelas dunas das horas. Doutrina desorientadora aliada a ação desorientadora é o que reina no mundo, e eu não tenho nada de mais imperioso a fazer do que intensificar aquilo que existe e restou em mim e depurar as minhas particularidades.

Já no tocante ao processo genético do drama, a resposta goethiana retoma imagens provenientes da esfera do trabalho artesanal (empregadas por Humboldt em sua carta) para sugerir, de maneira plástica e concreta, a interação de estados conscientes e não conscientes na dinâmica da criação artística: esses dois estados sempre teriam se relacionado entre si como “urdidura e trama” (Zettel und Einschlag) sob as mãos do tecelão, pois se muitos trechos do Fausto brotaram da pura inspiração (de fontes inconscientes e inatas), para a conclusão do drama foi imperioso impor-se a mais rigorosa disciplina intelectual - e trabalhar, portanto, en toute lucidité, como diria mais tarde Paul Valéry:

Havia mais de sessenta anos que a concepção do Fausto estava clara, desde o início, em meu jovem espírito, mas a sequência completa pouco desenvolvida. Bem, fiz com que a intenção sempre caminhasse lentamente ao meu lado e só elaborava, de maneira isolada, as passagens que se me afiguravam como as mais interessantes, de tal modo que na segunda parte restaram lacunas, a serem relacionadas ao restante por meio de um interesse homogêneo. Mas aqui veio à tona a imensa dificuldade de alcançar, mediante propósito e caráter [isto é, o trabalho consciente], aquilo que no fundo deveria caber tão somente à Natureza ativa e espontânea [a inspiração não-consciente]. Contudo, não seria bom se isso não tivesse sido possível após uma vida tão longa, tão plena de reflexão ativa; e não me deixo dominar pelo temor de que se venha a distinguir o elemento mais antigo do elemento mais novo, o mais recente do mais remoto - coisa que entregamos aos futuros leitores para verificação propícia.

Pode-se dizer assim que Goethe coroa sua obra epistolográfica e, ao mesmo tempo, despede-se da vida com uma de suas mais grandiosas cartas.22 Entre as riquezas que ela nos descortina está a possibilidade de rastrear no Fausto as passagens mais associadas à inspiração não consciente (na metáfora tecelã, o movimento transversal da “trama”, Einschlag) e, sobretudo na segunda parte, as sequências dramáticas tributárias do esforço consciente, o corte longitudinal da “urdidura” (Zettel). Dessa carta podemos igualmente desentranhar a visão que o velho poeta tinha de sua opera della vita, em que trabalhou ao longo de seis décadas (“esses gracejos muitos sérios”: diese sehr ernsten Scherze; e ainda “essa construção insólita”: dieses seltsame Gebäu) e os motivos que lhe ditaram a decisão de não publicá-la em vida, ou seja, a “doutrina desorientadora” que, “aliada a ação desorientadora [...] reina no mundo” e sob cuja influência a obra logo se converteria em “destroços de naufrágio”. Além disso, não se poderia vislumbrar nessa última carta de Goethe a vigência da ideia de formação (Bildung)? Pois ao desalento com que via a história europeia por volta de 1830 (ações e doutrinas desorientadoras), o octogenário ainda contrapunha o impulso formativo, ou seja, o empenho contínuo em “depurar minhas particularidades”.

O caráter notável dessa carta-testamento transparece também nas palavras que seu destinatário, Wilhelm von Humboldt, envia ao chanceler Friedrich von Müller (1779-1849), amigo e colaborador de Goethe, no dia 18 de abril: “Recebi de Goethe uma carta infinitamente interessante e ainda agora mal acredito nos meus olhos ao ver que ela está datada de 17 de março, portanto cinco dias antes de sua morte”.

Nesse conjunto epistolar que trata de assuntos artísticos e literários e do qual se poderia extrair uma espécie de asthetica in nuce entrariam ainda inúmeras outras cartas, concernentes não apenas ao Fausto ou aos Anos de aprendizado, mas também ao poema épico Hermann e Dorothea, ao ciclo lírico Divã ocidental-oriental, aos romances Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister, As afinidades eletivas ou mesmo ao Werther, entre outras obras. Citem-se como exemplo essas linhas enviadas a Zelter, no dia 11 de maio de 1820, sobre o ciclo lírico inspirado, sobretudo, pelo poeta persa Hafiz (circa 1315-1390) e que, publicado em 1819, apareceria oito anos depois em versão ampliada:

Nesse meio-tempo voltaram a se acumular novos poemas para o Divã. Essa religião, mitologia e costumes maometanos abrem espaço a uma poesia tal como convém aos meus anos. Entrega incondicional à vontade inescrutável de Deus, serena e ampla visão da agitada dinâmica das coisas mundanas, retornando sempre em círculos e espirais; amor, empatia flutuando entre dois mundos, todo o real purificado, esvanecendo-se simbolicamente.

Em outros momentos de sua epistolografia, principalmente nos anos de velhice, Goethe desenvolve reflexões de caráter mais geral sobre seu processo de criação literária, como na carta de 27 de setembro de 1827 a Carl Jacob Ludwig Iken (1789-1841) em que exprime a importância que a dimensão da “experiência” sempre teve para suas produções e delineia um procedimento estético passível de ser concretizado à luz da segunda parte do Fausto assim como do Wilhelm Meister (ambos os romances) ou das Afinidades eletivas:

Como muita coisa em nossa ex­periên­cia não pode ser pronunciada de forma acabada e nem comunicada diretamente, há muito tempo elegi o procedimento de revelar o sentido mais profundo ao leitor atento por meio de configurações que se contrapõem umas às outras e ao mesmo tempo se espelham umas nas outras. Como tudo a que dei expressão se fundamenta em experiência de vida, posso certamente sugerir e esperar que as minhas criações poéticas sejam por sua vez efetivamente vi­venciadas.

Relevante nesse contexto mostra-se também uma carta de 3 de novembro de 1826 dirigida a Johann Sulpiz Boisserée. Após afirmar não querer privar-se de uma “consideração geral” (allgemeine Betrachtung) cuja exposição - supõe o poeta: “Não irei censurar se o senhor sorrir” - provocaria uma reação cética no jovem amigo, Goethe define-se como “matemático ético-estético”, o que parece sinalizar uma superação dos conceitos de símbolo e alegoria lançados em seu período classicista:23

Em todo assunto mundano, econômico, financeiro, mercantil pode-se com prudência estabelecer ligações com qualquer pessoa, o lucro se apresentará de maneira clara e, quanto ao prejuízo, a gente se consola no fim; mas em regiões mais elevadas uma ligação falsamente estabelecida no terreno estético, ético, religioso é repleta de perigos e todo fracasso traz tristes consequências. Não irei censurar se o senhor sorrir por incorrer eu novamente no geral. Como matemático ético-estético tenho de avançar sempre, em meus anos provectos, até àquelas últimas fórmulas, mediante as quais o mundo ainda se me torna apreensível e suportável.

Para fechar essas explanações, valeria assinalar que foi também por intermédio de cartas que Goethe lançou, em seus anos de velhice, a ideia de Weltliteratur (“literatura mundial”). Pois se ele a concebeu prioritariamente, como argumenta Dieter Lamping em seu texto “Was ist Weltliteratur? Ein Begriff und seine Bedeutungen” [O que é literatura mundial? Um conceito e seus significados], sob o aspecto “comunicativo”, isso se deve ao contato, inclusive epistolar, que estabeleceu com inúmeros literatos europeus, como Lord Byron, Walter Scott, Alessandro Manzoni etc.24 A primeira carta que menciona essa nova ideia (“Estou convencido de que uma literatura mundial está se formando”, já nas primeiras palavras) foi dirigida em 27 de janeiro de 1827 a Karl Streckfuß, tradutor, entre outras obras italianas, de epopeias de Dante, Ariosto e Torquato Tasso. Seis meses depois o mesmo anúncio é feito a Thomas Carlyle, que em 1824 publicara sua tradução (Wilhelm Meister’s Apprenticeship) do romance fundador do gênero Bildungsroman. Os nomes de Streckfuß e Carlyle não são fortuitos nesse complexo, uma vez que Goethe atribuía a tradutores papel do mais alto relevo na constituição da Weltliteratur. Com toda nitidez esse pensamento vem à tona numa outra carta enviada ao tradutor dos Anos de aprendizado em 1º de janeiro de 1828. Valendo-se de um vocabulário do comércio internacional, Goethe discorre sobre o ofício de promover o contato e o enriquecimento mútuo entre os mais diversos povos e culturas, acrescentando em seguida:

E assim deve ser visto o tradutor, já que se empenha enquanto mediador nesse amplo comércio espiritual e toma a si a incumbência de fomentar o intercâmbio. Pois não importa o que se possa dizer das insuficiências da tradução, esta é e permanecerá um dos negócios mais importantes e dignos na movimentação geral do mundo. O Alcorão diz: “Deus deu a todo povo um profeta em sua própria língua”. Assim todo tradutor é um profeta para seu povo. A tradução da Bíblia feita por Lutero produziu os maiores efeitos, ainda que a crítica continue, até os dias de hoje, a fazer ressalvas e encontrar defeitos.

Reprodução

Carta de Goethe (17 de junho de 1777) em que comunica a morte de sua irmã Cornelia (1750-1777) à condessa Auguste von Stolberg (1753-1835). Logo após a frase de abertura (três primeiras linhas), Goethe insere quatro versos que, conforme escreve em seguida, ocorreram-lhe numa magnífica noite enluarada, ao sair de um banho no rio Ilm: “Alles geben Götter die unendlichen / Ihren Lieblingen ganz / Alle Freuden die unendlichen / Alle Schmerzen die unendlichen ganz” (Tudo os deuses dão, os infindos, / A quem amam, por inteiro / Todas as alegrias, infindas / Todas as dores, infindas, por inteiro). (Extraída de: Goetheana. A Centenary Portfolio of Forty-three Facsimiles. William A. Speck Collection, Yale University Library. New Haven, 1932.) 

Não seria ocioso lembrar por fim que, tão somente uma década mais tarde, Marx e Engels iriam apoiar-se nas formulações goethianas sobre Weltliteratur para postularem no Manifesto comunista, deslocando a ênfase para o processo produtivo, que os “produtos intelectuais das nações isoladas” se convertiam em “patrimônio comum”: “E o que se dá com a produção material, dá-se também com a produção intelectual. [...] A unilateralidade e estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis, e das muitas literaturas nacionais e locais vai se formando uma literatura mundial”.25 Nessa passagem a incipiente percepção goethiana do processo de globalização - conforme sinalizam termos como “amplo comércio”, “intercâmbio” ou “um dos negócios mais importantes” - é elevada a um patamar superior. Enquanto, porém, Marx e Engels veem a literatura mundial sob um aspecto ligado à produção e distribuição (e que por isso Lamping, no mencionado texto, designa como “distributivo”), Goethe a concebe antes, como observado acima, de uma perspectiva “comunicativa” e “intertextual”.

O “brasileiro” Martius

Não foi, contudo, apenas por meio de cartas que o velho Goethe esboçou e difundiu sua concepção de Weltliteratur; ele também o fez através de ensaios, resenhas, conversas (como as registradas por Eckermann em 25 de janeiro de 1825 e 31 de janeiro de 1827) e textos de diversas ordens. Entre esses citemos, por exemplo, a saudação (Grußadresse) dirigida a um grande congresso de médicos e naturalistas alemães que teve lugar na cidade de Berlim em setembro de 1828. Nesse texto Goethe enaltece, mais ainda do que a comunicação epistolar, o contato pessoal, propiciado pelas novas facilidades de viagem, entre “Literatoren” (“literatos” ou escritores concebidos em sentido lato):

Se ousamos anunciar uma literatura europeia e, de maneira mais ampla, uma literatura mundial, isto não significa que as diferentes nações passem a tomar conhecimento de si e de seus produtos, pois nesse sentido ela existe há muito tempo, continua avançando e se renovando de um modo ou de outro. Não!, aqui se trata muito mais de que os literatos vivos e empenhados se conheçam uns aos outros e, por meio de simpatia e sentido comunitário, sintam-se ensejados a atuar socialmente.

Uma vez, porém, que a “saudação” se destinava a um evento de naturalistas e médicos, a sequência do texto enfatiza a necessidade de intensificar o contato entre os que atuavam no mundo das ciências, pois assim “desdobrar-se-á uma atividade como o mundo só a vivenciou no século subsequente a uma longa escuridão, após a invenção da imprensa, e com meios e recursos muito mais modestos”.

A despeito de tais palavras auspiciosas é importante salientar que, nessas alturas, Goethe via com crescente resignação a acolhida que suas pesquisas recebiam por parte de cientistas alemães, conforme se articulara na carta enviada a Zelter em 10 de julho de 1828. Ao mesmo tempo que - segunda consta naquele relato ao amigo berlinense - chegavam-lhe reações produtivas do estrangeiro (especialmente da França e da Suíça francesa, onde o interesse por sua Metamorfose das plantas estaria se intensificando), em relação à “querida” Alemanha a repercussão de sua obra científica lhe parecia, ao contrário, bastante desalentadora:

Prestei sincera atenção para ver se, dos encontros de ciências naturais que há três anos vêm se realizando, ao menos uma única coisa pudesse penetrar em meu íntimo, tocar-me, estimular-me - a mim, que há 50 anos venho me devotando apaixonadamente a considerações sobre a natureza; abstraindo-se, porém, de certas particularidades, as quais no fundo me transmitiram apenas conhecimento, não me coube absolutamente nada, nenhuma nova exigência chegou até mim, nenhuma dádiva me foi oferecida. Por isso, tive de somar os juros ao capital e quero ver como a Summa Summarum frutificará no estrangeiro.26 Peço-lhe encarecidamente que guarde silêncio sobre isso, pois me lembro neste instante que a ciência volta a reunir-se entre vocês em ampla escala.27

Essas últimas palavras aludem justamente à assembleia de médicos e naturalistas alemães “saudada” no escrito anunciador da nova ideia de Weltliteratur. Mas seria mesmo procedente o diagnóstico pessimista que se esboça na carta ao velho amigo berlinense? Talvez não inteiramente, considerando que, já na abertura do congresso, o trabalho científico de Goethe recebeu calorosa homenagem, como demonstra Rudolf Steiner num texto de 1895, por parte de ninguém menos do que o mais célebre dos naturalistas: Alexander von Humboldt, patrono da ecologia moderna.28 O outro proeminente cientista que lhe rendeu tributo durante o congresso foi “Martius, o brasileiro”, conforme o próprio Goethe costumava chamar o botânico bávaro (e idealizador da monumental Flora brasiliensis, concluída apenas em 1906) Carl Friedrich Philipp von Martius,29 que em sua conferência “Sobre a arquitetônica das flores”, também comentada por R. Steiner, deu grande destaque ao papel precursor do tratado sobre A metamorfose das plantas e dignificou o aperçu goethiano da “planta primordial” (Urpflanze).

Com o nome de Martius toca-se, porém, num dos mais fecundos intercâmbios científicos e culturais da velhice goethiana. Como sabido, entre os anos de 1817 e 1820 o jovem bávaro percorreu, ao lado do zoólogo Johann Baptist Spix, cerca de onze mil quilômetros de território brasileiro, realizando pesquisas em diversas áreas da ciência, sobretudo no estudo das arecáceas, o que lhe valeu a reverência do próprio Alexander von Humbodt: “Enquanto o ser humano conhecer palmeiras e falar de palmeiras, o nome de Martius será sempre mencionado com glória”.30 Em outubro de 1823, já estabelecido em Munique (de cujo Jardim Botânico se tornaria diretor), Martius dá início a uma correspondência com Goethe, descortinando-lhe vários aspectos do imenso país sul-americano que à época registrava apenas três milhões e meio de habitantes.31

Quanto ao aspecto literário, para mencionar esse único ponto, Martius tece acerbas críticas à epopeia Caramuru, de Santa Rita Durão, que numa comparação com Os Lusíadas se mostraria “no conjunto tão enregelada, pálida e pouco poética”. Sabedor, porém, do desagrado de Goethe com a inclinação de certos românticos franceses por temas fantasmagóricos e macabros, Martius também louva a literatura brasileira contemporânea por supostamente estar livre de tais tendências “ultrarromânticas”, num gesto retórico que parece ir ao encontro do aforismo de Georg Christoph Lichtenberg, segundo o qual “as cartas de um homem inteligente sempre contêm o caráter das pessoas a quem ele escreve”.32

Graças ainda a essa amizade tardia, Goethe retoma dois poemas com o subtítulo Brasilianisch, redigidos 43 anos antes sob a inspiração do ensaio de Montaigne sobre os canibais, e os integra a sua concepção da incipiente Weltliteratur. Trata-se de duas canções, originalmente em tupi, colocadas na boca de um selvagem, a primeira de morte, tematizando a antropofagia da perspectiva do próprio selvagem aprisionado, e a segunda de amor, estruturada em torno da imagem de uma cobra coral. Como Montaigne em seu ensaio, também Goethe dispensou extraordinária deferência a essas manifestações da cultura tupi na medida em que as coloca, num posterior poema sobre o advento da Weltliteratur, ao lado de salmos de Davi e de poemas persas: “Como Davi entoou a harpa e o canto principesco, / A canção da viticultora soou docemente junto ao trono, / O bulbul [rouxinol] do persa envolve o canteiro de rosas / E pele de serpente esplandece como cinto indígena, / De pólo a pólo, canções se renovam, / Uma dança das esferas, harmônica no tumulto; / Deixai que todos os povos sob o mesmo céu / Animados se regozijem nas mesmas dádivas”.33

Mas o enriquecimento que o contato com Martius trouxe ao poeta-cientista 45 anos mais velho se deu, sobretudo, no campo botânico, como se pode aferir dessa carta que Goethe envia a Munique em 28 de março de 1829:

A Carl Philipp v. Martius

Para ser sincero, meu caríssimo, eu diria que não aproveitamos de modo suficiente, condignamente suficiente, as poucas horas que nos foram dadas para passá-las em tão feliz convivência. É verdade que discussões irreverentes não devem ser censuradas nem reprovadas, pois através delas sempre afloram seriedade e propósito, e desse modo a gente talvez passe com mais facilidade por cima de certas diferenças; acontece que, após sua partida, passei a sentir com demasiada intensidade que o senhor não me familiarizou a contento com a tendência espiral no crescimento das plantas, a que o senhor deu um desdobramento tão rico em ideias. Orientando-me pelo conciso esquema que ficou aqui, avancei um tanto nesse meio-tempo e venho encontrando os mais notáveis testemunhos, as mais agradáveis analogias para essa visão; anotei muita coisa, uma ou outra deixei de lado, e ainda estabeleci relações entre algumas outras. Mas agora eu desejaria, para o avanço de minhas pesquisas, que o senhor me comunicasse a evolução de seus pensamentos, do mesmo modo como o fez em Berlim; que depois de mil noites vigore mais uma, e após ter alegrado trezentos naturalistas, proporcione o mesmo também a mim, como alguém que no amor e na paixão por esses assuntos eternamente vivos não quer ficar atrás de ninguém.

O senhor Soret, chamado de Genebra para educar o jovem príncipe herdeiro, está traduzindo minha Metamorfose, estimulado pelos seus conterrâneos que, como testemunham as obras mais recentes do senhor Candolle, vêm se unindo a nós no reconhecimento da identidade original de todas as partes das plantas, que no plano fenomênico se manifestam de maneira tão diversificada.34 Com isso fui empuxado novamente, durante minha última estada em Dornburg, pelo torvelinho dessas formações, de tal modo que temo, em meio a tantos e tantos ensaios, submergir de vez, quase como aquele mergulhador.35 Convicto de que o senhor não me privará de sua prestimosa mão, repito o pedido que acabo de pronunciar. E como nossa conversa também recaiu sobre um modelo, minha satisfação seria imensa se ele me fosse enviado, sem franquia, o mais cedo possível. Para mim isso se constituirá, meu muito valioso amigo, numa nova associação mental com o senhor, como já ocorreu em relação à viagem brasileira que me foi enviada.36 Lendo-a, vejo-me sempre ao seu lado e alegro-me sobremaneira com a perseverança e desenvoltura que o senhor põe em prática para alcançar suas metas. Sacrifícios não insignificantes, privação quase insuportável das necessidades mais elementares e das exigências inalienáveis da vida. Mas o prodigioso ganho que o senhor trouxe consigo, e que agora vai se desdobrando de maneira tão fecunda, não pode ser contemplado e acolhido senão com agradecida admiração.

Reprodução

Goethe em seu quarto de trabalho, ditando ao seu secretário e escrevente Johann August John (1794-1854). Quadro a óleo de Johann Joseph Schmeller (1796-1841). O original encontra-se na Biblioteca Anna Amalia, em Weimar. 

Se o contato entre Goethe e Martius se inicia em 23 de outubro de 1823 com um longo escrito do botânico a Weimar (acompanhado da introdução à monografia Genera et species Palmarum Brasiliensium), seu último capítulo pode ser visto na carta que o chanceler Friedrich von Müller endereça a Munique no dia 6 de abril de 1832 (duas semanas após a morte do poeta), junto com o “poema de ocasião” (Gelegenheitsgedicht) “An Frau von Martius bei Übersendung einer Artischocke” [À Senhora von Martius, enviando uma alcachofra]. Após reconstituir as circunstâncias da gênese do mencionado “poema de ocasião”, o qual remonta a um jantar do casal Martius na casa do poeta em Weimar, von Müller escreve:

A perda desse homem magnífico e único, tão espirituoso quanto amável - não, sobre isso não se pode dizer outra coisa senão que é absolutamente insubstituível. O senhor, caro amigo, sentiu-a certamente de maneira profunda e íntima. O nosso amigo que se eternizou tinha imenso afeto pelo senhor e por sua simpática esposa. Com frequência conversávamos sobre o senhor em horas agradáveis. Quanto à consulta que o senhor fez a respeito da continuação do grande poema que retrata a natureza [referência a um dos poemas de Martius sobre a natureza amazônica], cujo interessante fragmento o senhor havia me enviado, ele se pronunciou várias vezes a esse respeito: ‘Martius deve seguir sua voz interior; precisamos fazer sempre o que nos é imprescindível’. Uma quantidade imensa de afazeres ocupa-me na condição de executor testamentário; por isso não lhe escrevi antes e só o faço agora de maneira tão rápida.

Walter Benjamin e a epistolografia de Goethe: resistência ao fascismo

A cultura epistolar, cujo declínio se acelerou vertiginosamente com o advento das novas tecnologias digitais, encontrou em Goethe, conforme se procurou demonstrar neste ensaio, um de seus momentos áureos. Não surpreende, portanto, que sua epistolografia desempenhe papel estruturante na antologia de cartas Deutsche Menschen, publicada por Walter Benjamin, sob o pseudônimo Detlef Holz, em Lucerna no final de 1936. No centro do século compreendido por essa sequência de textos, que começa em 1783 e se fecha em 1883 com um escrito de Franz Overbeck a Nietzsche, encontra-se a carta, datada de 31 de março de 1832, em que Zelter expõe ao chanceler von Müller sua reação ao desaparecimento do amigo, a quem sobreviveria apenas sete semanas:

E, contudo, não devo enlutar-me; só posso assombrar-me com a riqueza que ele me trouxe. Tenho apenas de conservar tal tesouro e acrescentar os juros ao capital. Perdoe-me, nobre amigo! Eu não deveria lamentar-me e, contudo, os velhos olhos não querem obedecer e manter a compostura. Mas uma vez eu também o vi chorar, isso deveria justificar-me.

A despeito de sua posição central no período em questão, é precisamente essa carta que abre a antologia de Walter Benjamin, rompendo-se somente aqui o fio cronológico. Na argumentação do filósofo, o significado desse escrito reside no fato de descortinar uma vista tanto para o início da época em que a burguesia assumira suas grandes posições políticas - nos anos em que transcorreu a juventude de Goethe - como também para o fim dessa época (em que se inserem seus últimos anos de vida e a morte comentada por Zelter), quando a burguesia passa a tão somente preservar as posições, e não mais o espírito com que as conquistara. Para Benjamin, todavia, o próprio Goethe já captara esse desenvolvimento (e o ocaso da era em que se processou toda sua formação) num quadro esboçado a Zelter em 6 de junho de 1825, o qual é reproduzido no breve prefácio à antologia:

Riqueza e rapidez, eis o que o mundo admira e o que todos almejam. Ferrovias, correio expresso, navios a vapor e todas as possíveis facilidades de comunicação são as coisas que o mundo culto ambiciona a fim de sofisticar sua formação e, desse modo, persistir na mediocridade. [...] Na verdade, é o século apropriado para mentes capazes, para pessoas práticas e de raciocínio rápido que, munidas de certa desenvoltura, percebem sua superioridade sobre a multidão, ainda que elas mesmas não tenham talento para atingir o mais elevado. Atenhamo-nos tanto quanto possível à mentalidade da qual viemos: com talvez mais alguns poucos, seremos os últimos de uma época que tão cedo não retornará.

A época que Goethe via chegar ao fim, na esteira de um processo impulsionado pela busca (e conquista efetiva) de formas de comunicação e transporte cada vez mais rápidas, englobava igualmente a cultura epistolar, da qual sua própria obra constitui um momento culminante. Se desde então o declínio dessa cultura não fez senão acentuar-se, entende-se por que Theodor Adorno, no posfácio que redigiu para uma edição de 1962 da antologia Deutsche Menschen, se tenha lançado à ousada constatação de que a “carta enquanto forma” já teria sucumbido ao obsoletismo, dispondo de “competências arcaicas” toda pessoa que ainda se vale desse tipo de comunicação. Feitas muitos anos antes da ascensão de internet, correio eletrônico, smartphone etc., as reflexões adornianas pressupõem também a rarefação da “experiência” nas modernas sociedades industriais, fenômeno que por sua vez - conforme apontado por Walter Benjamin no antológico ensaio “O narrador” - desempenhou papel essencial no declínio da arte narrativa. É ainda esse atrofiamento da capacidade de fazer experiências, que fora de crucial importância para Goethe (“tudo a que dei expressão se fundamenta em experiência de vida”, na citada carta de 27 de setembro de 1827), que está por trás da afirmação adorniana de que “no fundo não é mais possível escrever cartas”. E à continuação:

O livro de Benjamin levanta-lhes o monumento. Aquelas que ainda são escritas trazem em si algo falso, porque mediante o gesto de comunicação imediata forjam de maneira espúria a ilusão de ingenuidade. O livro de Benjamin não instiga à imitação dos textos que apresenta, mas sim ensina a distância que nos separa deles. Sua irrevocabilidade [da forma “carta”] converte-se em crítica da marcha do mundo, a qual, na medida em que eliminou o elemento restritivo da humanidade sem a concretizar, volta-se contra a humanidade.

A insistência de Adorno na ideia de “humanidade” certamente ressoa o espírito de resistência que estimulou Benjamin a conceber essa antologia de cartas, que seria seu último trabalho publicado em vida. Pois dos 25 textos (ou 26, se incluirmos a carta de Zelter ao chanceler von Müller) enfeixados no volume “respira” (na metáfora benjaminiana) uma humanidade que por si só, sem necessidade de explicitação, adensaria a oposição à ideologia então reinante na Alemanha. E é precisamente a carta de Goethe acolhida na antologia que traz a ideia de “humanidade”, de “humano”, para o primeiro plano. Trata-se do mencionado escrito de 3 de janeiro de 1832 ao filho do físico Thomas Johann Seebeck, a última carta de pêsames escrita por Goethe. Imediatamente antes da fórmula de despedida, característica de suas cartas de velhice, leem-se as palavras: “E assim resta-nos ainda, em idade tão avançada, o dever de, pelo menos em suas peculiaridades, reconhecer o humano que jamais nos abandona e, por meio de reflexão, tranquilizarmo-nos em relação às insuficiências, cuja imputação [a nós] não pode ser inteiramente afastada”. Comentando a linguagem epistolar do velho “tabelião do próprio íntimo”, Benjamin vê nesse trecho, no “humano em suas peculiaridades”, uma espécie de “asilo” em que o “grande humanista” - tendo alcançado a fronteira não só da vida, mas também da linguagem - refugia-se: “as idiossincrasias que regem esse período de vida mais tardio, também elas são colocadas sob o patronato da própria humanidade. Do mesmo modo como frágeis plantas e musgos rompem por fim as muralhas de uma inexpugnável construção abandonada, aqui também irrompe o sentimento, arrebentando as juntas de uma postura inabalável”.

De maneira sub-reptícia, à força de sua mera formulação, as cartas enfeixadas na antologia, todas elas igualmente impregnadas desse “humano que jamais nos abandona”, deveriam, portanto, contrapor-se à desumanização que grassava sob o fascismo. Qualquer conteúdo político mais explícito teria acarretado a proibição sumária do livro, assim como a revelação do verdadeiro nome do autor. Mas se Benjamin não pôde, em nenhum de seus comentários às cartas selecionadas, explicitar a verdadeira intenção que o levou a conceber essa antologia, ele o fez na dedicatória ao exemplar com que presenteou seu amigo Gerhard [Gershom] Scholem em janeiro de 1937: “Queiras tu, Gerhard, / para as recordações de tua juventude / encontrar uma câmara nesta arca / que eu construí / quando o dilúvio fascista / começou a subir”.37

Destinada a portar aos leitores de sua “carga” o sentimento da “verdadeira humanidade” (wahre Humanität), como formula o comentário benjaminiano a uma carta dirigida a Immanuel Kant, essa “arca” encontrou na obra epistolográfica de Goethe a inspiração fundamental para sua construção. É o que também nos sugere o destaque que Benjamin dá tanto às palavras a Zelter citadas no prefácio à antologia (“com talvez mais alguns poucos, seremos os últimos de uma época que tão cedo não retornará”) como à carta que, comentando a morte do amigo em Weimar, abre a sequência de 25 textos com a ruptura da linha cronológica. E assim não seria despropositado acrescentar que o “humano que jamais nos abandona”, na formulação da derradeira carta de condolências goethiana, não apenas distingue cada um dos escritos que integram a coleção concebida pelo refugiado antifascista como também está presente em tantas outras cartas do velho “matemático ético-estético” em busca daquelas “últimas fórmulas” que deveriam tornar-lhe o mundo apreensível e suportável, na caracterização que o poeta se deu em novembro de 1826 perante o jovem amigo Johann Sulpiz Boisserée. Pois dessas cartas respira igualmente a profunda humanidade que Walter Benjamin invocou em sua luta contra o fascismo.

Referências

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ESCHER, A. J.; SPICKERMANN, H. C. (Org.) Perspektiven der Interkulturalität. Forschungsfelder eines umstrittenen Begriffs. Heidelberg, 2018. [ Links ]

GOETHE, J. W. v. Poesia e verdade. Trad. Maurício M. Cardozo. São Paulo: Editora Unesp, 2017. [ Links ]

MARTIUS, A. v. Goethe und Martius. Mittenwald (Bayern): Arthur Nemayer Verlag, 1932. [ Links ]

MARX, K.; ENGEL, F. Manifesto do Partido Comunista. Trad. Marcus V. Mazzari. Revista Estudos Avançados (IEA, USP), n.34, p.7-46, set.-dez. 1998 [ Links ]

MAZZARI, M. V. A confissão amorosa do jovem Goethe. In: Labirintos da aprendizagem. São Paulo: Editora 34, 2010. [ Links ]

_______. A dupla noite das tílias. São Paulo: Editora 34, 2019. [ Links ]

ROUSSEAU, J. J. Júlia ou A nova Heloísa. Trad. Fulvia M. L. Moretto. São Paulo: Hucitec, 1994. [ Links ]

SCHÖNE, A. Der Briefschreiber Goethe. Munch: C. H. Beck, 2015. [ Links ]

Notas

1I like to call it [toda inovação tecnológica] a Faustian bargain. Technology giveth and technology taketh away. This means that for every advantage a new technology offers, there is always a corresponding disadvantage”. Essa caracterização de novas tecnologias como espécie de pacto fáustico foi proposta na conferência, feita em 27 de março de 1998 (e acessível na rede), “The New Technologies and the Human Person: Communicating the Faith in the New Millennium” [As novas tecnologias e a pessoa humana: veiculando a fé no novo milênio].

2Uma edição histórico-crítica e comentada das cartas completas de Goethe vem sendo elaborada no Arquivo Goethe e Schiller de Weimar sob a coordenação de Elke Richter, Norbert Oellers e Georg Kurscheidt. Essa nova edição (38 volumes divididos em tomos de textos e comentários, com término previsto para 2040) substituirá a de Weimar, que nos 50 volumes de sua quarta seção (concluída em 1912) abriga a totalidade das cartas de Goethe então conhecidas.

3Sobre os conhecimentos retóricos do adolescente Goethe (e sua pouca afinidade com a gramática) podemos colher algumas informações na autobiografia Poesia e verdade: “Eu distinguia diferentes registros linguísticos e expressões idiomáticas facilmente, bem como os conceitos que definiam cada coisa. Ninguém me superava em questões retóricas, como nachria ou em outros esquemas semelhantes - ainda que, por fim, nunca me saísse de fato tão bem em virtude dos erros constantes de gramática. Mas eram essas as composições que deixavam meu pai mais contente e em razão das quais recompensava-me com quantias de dinheiro bastante significativas e incomuns para um menino” (Goethe, 2017, p.50). Aventuras noturnas em bairros de fama duvidosa assim como o envolvimento, que termina em escândalo judicial, com uma jovem de nome Gretchen e seus primos (tudo isso também relatado na autobiografia) vedaram-lhe o acesso a essa sociedade secreta que também pretendia zelar pelos bons costumes.

4Assuntos científicos (sobretudo geológicos e paleontológicos) afloram em quatro dessas cinco cartas, ocupando quase inteiramente a carta ao conde boêmio Kaspar Maria von Sternberg (1761-1836), considerado o fundador da paleobotânica. Goethe conclui a carta descrevendo uma intuição que o guiava então em suas pesquisas geológicas, exprimindo também a esperança de que a luz dessa intuição não se revelasse um fogo-fátuo. E acrescenta em seguida: “O mais admirável nisso é que a melhor parte de nossas convicções não se deixa revestir de palavras. A linguagem não está adaptada a tudo e com frequência não sabemos direito se finalmente estamos vendo, contemplando, pensando, recordando, fantasiando ou acreditando. É isso o que por vezes me consterna, sobretudo porque atualmente nenhum diálogo nesse campo vem em meu auxílio”.

5Cumpre assinalar que já esta primeira carta de Goethe não foi redigida de próprio punho, mas sim ditada, antecipando uma prática que atravessará toda sua longa atividade epistolar. Cite-se nesse contexto o seguinte trecho de uma carta que Goethe enviou de Jena, em 26 de setembro de 1821, ao conde von Sternberg: “Peço perdão a Vossa Excelência por minha loquacidade! Não é apenas a solidão jenense que me torna tão falante na direção do exterior, mas me beneficio do fato de que escrevendo (ou, antes, ditando), comporto-me como se estivesse em vossa presença. Por isso mesmo preciso pedir que se releve a mão estranha de que me valho, mais legível e rápida do que a minha e sem a qual eu dificilmente poderia ter uma atuação à distância”.

6O provável intertexto desse trecho da carta encontra-se na 5ª parte do romance epistolar de Rousseau, final da carta VII a Milord Edouard: “Em seguida, oferecem-se bebidas a todo o grupo, cada um bebe à saúde do vencedor e vai deitar-se satisfeito com um dia transcorrido no trabalho, na alegria, na inocência, e que se gostaria de recomeçar no dia seguinte, no outro dia e por toda a vida” [le lendemain, le surlendemain, et toute sa vie, no original] (Rousseau, 1994, p.526).

7Numa passagem em que comenta duas percepções inteiramente diferentes, isto é, uma prazerosa e outra aflitiva, de uma mesma coisa (no caso, uma peça de Lessing), o jovem epistológrafo escreve: “Ah! todo prazer está dentro de nós. Somos nossos próprios demônios, expulsamo-nos de nosso paraíso”. E no Werther (2ª parte, carta de 3 de novembro), poucos anos depois: “Ai de mim, sinto muito bem que toda culpa repousa apenas em mim [...]. Basta que a fonte de toda miséria se oculte em meu íntimo, como outrora se ocultava a fonte de toda bem-aventurança”. Abordei o substrato autobiográfico do romance de estreia de Goethe no ensaio “A confissão amorosa do jovem Goethe” (Mazzari, 2010, p.295-312).

8Em 2 de janeiro de 1948, Brecht anota em seu Arbeitsjournal: “Estou lendo a correspondência entre Goethe e Schiller. Que conspiração mais ‘magnânima’ contra o público; a burguesia recebe sua literatura imposta, como seu código civil. Uma coterie entre coteries, e a conspiração é pública”.

9Zelter sobreviveu a Goethe menos de dois meses, tendo falecido em 15 de maio. Embora ainda gozasse de boa saúde no início de 1832, a morte do amigo precipitou-lhe o fim. Poucos dias antes de falecer, Zelter pediu à filha que o levasse à Academia de Canto berlinense, da qual fora diretor e, diante do busto de Goethe, teria exclamado (segundo depoimento deixado pela filha): “Excelências sempre têm preferência; mas eu vou em seguida”.

10In: Ensaios reunidos: Escritos sobre Goethe (Benjamin, 2009, p.123-77).

11Goethe tem em mente aqui um silício negro que era usado pelo ourives como pedra de toque para se testar o grau de pureza do ouro ou da prata.

12Alusão a uma velha anedota grega, segunda a qual um siciliano que negociava com figos naufraga durante uma tempestade noturna. Conseguindo, porém, alcançar terra firme, ele vê na manhã seguinte o mar novamente calmo e exclama: “Eu sei o que ele quer, ele quer figos”.

13Der Briefschreiber Goethe [O escritor de cartas Goethe] (Schöne, 2015, p.299). A análise dessa carta é desenvolvida no sétimo capítulo, “Arco-íris sob fundo cinza-escuro”. Fruto de um trabalho de várias décadas com a epistolografia de Goethe, este extraordinário livro enfeixa nove estudos de cartas redigidas num arco temporal de 68 anos e três excursos dedicados ao sistema postal no ducado de Weimar, à prática goethiana de ditar cartas e, por fim, aos pronomes de tratamento empregados por Goethe, que de modo algum se limitavam aos que se aproximam dos nossos “Você” e “Senhor” (Du e Sie).

14Para Albrecht Schöne (2015, p.311), esse teorema encerra a chave para a compreensão da carta de 10 de julho de 1828: “O olho, cuja retina Goethe, ao descrever os ‘fenômenos fisiológicos’, concebeu como ‘agindo e contra-agindo ativamente’ exige e constitui, também perante o verde das vinhas, o vermelho complementar. Atividade lhe é atribuída, de modo expresso. E toda essa carta tem atividade por objetivo: ela constitui aqui o fenômeno complementar à experiência da morte.

15Cf. Der Briefschreiber Goethe (Schöne, 2015, p.331).

16Isto é, no Cimitero acattolico di Roma, onde o protestante August foi sepultado. Essa carta conclui com as palavras que conclamam a seguir em frente: “e assim, por cima de túmulos, avante!”

17“Ninguém [pode ser considerado ] feliz antes de sua morte”. Topos que aparece em Ovídio (terceiro livro das Metamorfoses, que Goethe conhecia desde a infância) e em muitos outros autores gregos e latinos. Segundo Heródoto, Sólon teria respondido com essas palavras a uma pergunta do rico e poderoso rei Creso, da Lídia.

18As “provações” que couberam a Zelter de fato não foram poucas: além de quatro filhos, perdeu a primeira esposa em 1795 e a segunda em 1806. No romance Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister (“Arquivo de Makarie”) lê-se a sentença: “Com os anos intensificam-se as provações”.

19“Mensagem de Jó” alude à morte de Clara Zelter, a filha mais nova do amigo, em setembro de 1816. Zelter se encontrava então de visita em Weimar e Goethe teve de transmitir-lhe a notícia.

20É provável que Goethe esteja se referindo aqui aos preparativos para a edição futura de sua correspondência com Zelter; esta era uma das tarefas que ele via então a sua frente, e em cuja resolução precisaria “prosseguir”.

21Goethe alude ao verso de Horácio (Epístolas, I, 16, 79): mors ultima linea rerum est (“a morte é a última meta das coisas”).

22Jochen Golz conclui um texto concebido como posfácio para uma antologia romena de cartas de Goethe com a seguinte observação: “O nível intelectual desse diálogo epistolar [com W. v. Humboldt] não é atingido em nenhuma outra correspondência da velhice de Goethe. É um acaso de elevado sentido que a última carta, escrita por Goethe em 17 de março de 1832, tenha sido dirigida a Wilhelm von Humboldt. Ela representa em certo sentido o testamento espiritual de Goethe para a posteridade”. (Agradeço a J. Golz a disponibilização desse texto ainda inédito.)

23Aprofundei-me nessa questão no segundo e terceiro capítulos do livro A dupla noite das tílias (Mazzari, 2019).

24In Escher e Spickermann (2018, p.127-41): Perspektiven der Interkulturalität. Forschungsfelder eines umstrittenen Begriffs [Perspectivas da interculturalidade. Campos de pesquisa de um conceito controverso].

25Manifesto do Partido Comunista, tradução de Marcus V. Mazzari (Marx e Engel, 1998, p.7-46).

26Summa Summarum alude à versão ampliada do tratado “A metamorfose das plantas”, que estava sendo traduzido para o francês por Frédéric Soret.

27Por ocasião do congresso subsequente de médicos e naturalistas alemães, que teve lugar na cidade de Heidelberg, Goethe volta a manifestar-se em carta a Zelter (1º de novembro de 1829) no mesmo diapasão resignado: “Dos trezentos naturalistas que se reuniram [em Heidelberg] não há nenhum que revele a menor proximidade à minha maneira de pensar, e é bom que seja assim. Proximidades geram equívocos”.

28“Goethes Beziehungen zur Versammlung deutscher Naturforscher und Ärzte in Berlin 1828” [As relações de Goethe com a assembleia de naturalistas e médicos alemães em Berlim em 1828]. In: Goethe-Jahrbuch 16, 1895. Esse ensaio traz trechos do discurso de Humboldt e da conferência de Martius.

29Em 29 de setembro de 1827, Goethe pediu a Zelter, que se encontrava então em Munique, que transmitisse “as mais afetuosas lembranças ao Sr. von Martius, o botânico e brasileiro; encontrarás nele a pessoa mais amável e excelente”.

30Apud Alexander von Martius: Goethe und Martius (1932, p.11).

31Foi primeiramente através do também botânico Nees von Esenbeck (1776-1858) que Goethe se inteirou das pesquisas de Martius. Como sabido, esses dois botânicos homenagearam o poeta ao batizar com seu nome uma malvácea endêmica do Brasil:Goethea caulifloraesemperflorens. Em 24 de abril de 1823 Goethe envia a Nees von Esenbeck uma comovida carta de agradecimento: “O fato de que o senhor me eleja como padrinho de uma planta tão magnificamente especial, designando assim ao meu nome posição tão bela nos assuntos científicos - isso representa no momento atual, como o senhor mesmo está percebendo e sentindo, algo duplamente comovente e aprazível”. Sobre o assunto publiquei o ensaio “Natureza ou Deus: afinidades panteístas entre Goethe e o ‘brasileiro’ Martius” (Revista Estudos Avançados, n.69, p.183-202, 2010).

32O desagrado de Goethe com certas tendências da literatura francesa contemporânea vem à tona numa carta de 28 de junho de 1831 em que comunica a Zelter suas impressões do recém-lançado romance Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo: ter-se-ia aqui mais uma manifestação daquela “literatura do desespero”, da qual tudo o que é verdadeiro e esteticamente belo “vai se exilando passo a passo”. Todos os personagens seriam títeres sem vida, manipulados (e torturados) pelo romancista da maneira mais terrível - “mas tudo isso”, acrescenta Goethe, “acontece com decidido talento histórico-retórico, ao qual não se pode negar uma vívida imaginação, sem a qual ele [V. Hugo] não teria podido criar essas abominações”. (E em 8 de setembro de 1831 a crítica goethiana a esse mesmo romance se articula, numa carta a Frédéric Soret, através de metáforas tomadas ao processo de fermentação do vinho.)

33Muito expressiva nesse contexto é a observação que Martius fez a Goethe em carta de 13 de janeiro de 1825, acompanhando a remessa de canções em tupi: “Também me deparei com algumas pequenas canções de origem indígena, em tupi ou língua geral, as quais eu me atrevo a revelar a Vossa Excelência antes que encontrem o seu lugar em minha ‘Descrição de Viagem’. A mim, que ao menos em parte posso sentir o idioma daqueles filhos da natureza em sua lacônica pobreza, essa expressão de aspereza nos sentimentos e mesmo nas relações sensoriais tem algo de tragicômico. Não é como se o gênero humano tivesse de acostumar-se apenas aos poucos a manejar mentalidade e costumes humanos, à semelhança de roupas ou de um instrumento?”.

34Trata-se do conceituado botânico suíço Augustin Pyrame de Candolle (1778-1841), que estimulara Soret a traduzir o tratado goethiano sobre a “Metamorfose das plantas”. Entre agosto e setembro de 1828, durante sua estada em Dornburg, o próprio Goethe traduziu o capítulo “De la Symétrie végétale”, do livro de Candolle Organographie végétale.

35Alusão à balada de Schiller “Der Taucher” [O mergulhador].

36Referência ao relato de viagem de Martius e Spix Reise in Brasilien in den Jahren 1817 - 1820 [Viagem pelo Brasil nos anos 1817 - 1820], publicado em três volumes entre 1823 e 1831. Ainda em março de 1831, Goethe retirou da biblioteca de Weimar o grande Atlas que acompanha a descrição de viagem de Martius e Spix.

37Albrecht Schöne copiou essa dedicatória por ocasião de sua última visita a Scholem, em Jerusalém, e a reproduz no final do ensaio “‘Diese nach jüdischem Vorbild erbaute Arche’ - Walter Benjamins ‘Deutsche Menschen’” [Esta arca construída segundo modelo judeu - Homens alemães de W. B.]. In Vom Betreten des Rasens [Entrando em campo], C. H. Beck Munique, 2005.

Received: April 09, 2019; Accepted: May 10, 2019

Marcus V. Mazzari é professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. Traduziu para o português, entre outros, textos de Walter Benjamin, Adelbert von Chamisso, Heinrich Heine, Karl Marx, Gottfried Keller e Jeremias Gotthelf. Entre suas publicações estão Labirintos da aprendizagem (Editora 34, 2010) e A dupla noite das tílias (no prelo, previsto para 2019). Coordena desde 2015 a coleção Thomas Mann, editada pela Companhia das Letras. @ - mazzari@usp.br

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