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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.33 no.96 São Paulo May/Aug. 2019  Epub Aug 12, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3396.0023 

Presenças

A extraordinária história de vida de Ana Maria Primavesi1

VIRGÍNIA MENDONÇA KNABBENI 
http://orcid.org/0000-0002-7305-0645

IFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.


resumo

Este artigo procura traçar os passos de Ana Maria Primavesi desde sua formação na Universidade de Ciências Rurais (Boku), em Viena, rumo ao entendimento (único) da complexidade da vida do solo, e como esse organismo vivo atua para o bom desenvolvimento agrícola. Percorre o caminho da sua infância e a sua formação acadêmica em meio à Segunda Guerra Mundial e às dificuldades que enfrentou para continuar seus estudos. Na Boku, fortuitamente, Ana conhece o trabalho de Johannes Görbing, farmacêutico de formação mas um entusiasta da química e da botânica, um de seus maiores mestres. No pós-guerra, Ana e seu marido Artur Primavesi emigram para o Brasil e aqui revolucionam a agricultura tropical ao defenderem o manejo ecológico do solo, considerando que o trato ecológico do solo deve obedecer às condições de cada lugar (eco = lugar). Ana Primavesi fincou os primeiros alicerces do que se chamou na agronomia de agroecologia, uma prática agrícola que mimetiza a natureza e que não explora o solo até o seu limite, mas sim lhe recompensa toda a abundância que proporciona.

palavras-chave: Agricultura; Biologia; Agroecologia; Solos; Guerra; Agronomia

abstract

This article seeks to trace the steps of Ana Maria Primavesi from her graduation at the University of Natural Resources and Life Sciences (BOKU) in Vienna, to her the (unique) understanding of the complexity of soil life, and how this living organism contributes to agricultural development. It follows the path of her childhood and academic formation in the midst of World War II, and the difficulties she faced to continue her studies. At BOKU, fortuitously, Ana gets to know the work of Johannes Görbing, a pharmacist and an enthusiast of chemistry and botany, who became one of her greatest mentors. After the war, Ana and her husband Artur Primavesi emigrated to Brazil, where they revolutionized tropical agriculture by advocating an ecological management of the soil and insisting that the ecological treatment of the soil must obey the conditions of each place (eco = place). Ana Primavesi laid the first foundations of what agronomy would call agroecology, an agricultural practice that mimics nature and does not exploit the soil to its limit, but rather rewards all the abundance it provides.

keywords: Agriculture; Biology; Agroecology; Soils; War; Agronomy

Introdução

Engenheira agrônoma

A faculdade era em Viena e o tempo, de guerra. Annemarie Conrad, estudante de engenharia agronômica na Universidade Rural para Agricultura e Ciências Florestais, a Boku, era uma das três mulheres dentre os quase trezentos alunos ingressantes. Os alunos remexiam-se nas cadeiras numa tentativa de se aquecerem- naquele inverno de 1940, porque não havia calefação, e circulavam rumores de que a guerra logo acabaria. Ledo engano.

A escolha por agronomia foi um caminho natural. Nascida na Áustria em 1920, Annemarie fora a primogênita de Sigmund, um dos melhores criadores de gado no Estado austríaco da Estíria. Ela tinha um amor profundo por esse pai, e, inspirada por ele, interessou-se pela lida das terras que circundavam o castelo em que moravam (chamado Pichlhofen), construído em 1600, herança de casamento da mãe, Clara. Cursar agronomia era dar continuidade ao que já vivia em casa, uma vida ligada ao trabalho do campo, conectada à natureza. Ela tinha pensado em estudar em Hohenhein, na Alemanha, na escola famosa pelo casal Curie,2 mas seu pai estava internato num lazareto (hospital de guerra)3 e ela tinha que ficar perto da mãe para ajudá-la.

Na Boku, Annemarie entrou em contato com uma agricultura que dava maior ênfase ao solo do que aos demais fatores. Ela tinha sorte: seus professores eram de uma safra genuinamente brilhante. Nomes como Franz Sekera, Walter Kubiena, Hermann Kaserer e Robert Stiegler fizeram parte, direta ou indiretamente, da sua formação, e ajudava o fato de que aquela jovem estava profundamente envolvida com o que estudava. Além disso, em casa, tinha recebido uma educação que a fazia sentir-se segura e autoconfiante. Seus pais a estimularam a brincar, criar e buscar, formando uma moça extremamente inteligente e disciplinada, e isso a acompanharia por toda a vida.

Para o ingresso na faculdade, entretanto, era exigido um ano de trabalho forçado no campo, com o objetivo de fazer que os estudantes desistissem da Universidade. Não seria aceito o período de experiência vivido nas terras de sua família em Pichlhofen. Annemarie foi então mandada para um acampamento de estudantes na Prússia Oriental e trabalhou com produtores familiares recolhendo esterco e executando todo e qualquer serviço no campo. A fome era constante: refeições à base de casca de batata cozida com água e sal uma vez ao dia, um pão duro pela manhã e um copo de chá à noite. Nove meses num trabalho extenuante, física e psicologicamente. Na volta, ela estava pronta a se matricular na Boku. Nada a impediria de estudar.

Mas, em tempos de guerra, toda a ordem se curva aos desígnios traçados pela política. Trabalhos “obrigatórios” eram exigidos numa tentativa de desestimular os estudantes a continuar suas atividades acadêmicas.

Em 1940, foi mandada para Lodz, na Polônia, num “serviço de férias”. A crueldade e a frieza que a guerra impõe ao ser humano foram-lhe apresentadas sem máscaras. Designada para auxiliar na transferência e assentamento dos alemães da Wholynia (uma parte da Polônia ocupada pelos russos que seriam transferidos para a Polônia ocupada pelos alemães), quando os trens chegaram, poucos restavam. Os trens que transportavam as pessoas eram utilizados, anteriormente, para a carga de animais. Não possuíam aquecimento e muito menos condições de higiene para comportar tantas pessoas por tanto tempo. O resultado disso foi que, ao chegarem em um ponto intermediário da viagem, o que se viam eram pessoas famintas e sujas, coçando-se freneticamente porque os vagões eram infestados de pulgas, piolhos e carrapatos. Com medo de que aquilo pudesse desencadear uma epidemia, os oficiais alemães resolvem “desinfetar” as pessoas em banhos de vapor quente. De volta ao trem, corpos úmidos e quentes são submetidos a temperaturas abaixo de zero. As crianças são as primeiras a morrer, e aquelas pobres mães não tinham outra saída a não ser arremessar os corpos de seus filhos pelas janelas. Ninguém sabia quanto tempo a viagem iria durar, e os mortos eram muitos.

Na plataforma de desembarque, Annemarie recebia os sobreviventes, literalmente. Ela começava a aprofundar sua vivência numa guerra, em sua frieza e estupidez, ao mesmo tempo em que não podia demonstrar seus sentimentos.

Após seis meses, de volta à Universidade, precisou novamente realizar um trabalho compulsório, dessa vez em Viena. O Reich odiava acadêmicos e tentava criar obstáculos para que desistissem dos estudos. Annemarie foi trabalhar numa fábrica onde engarrafava e rotulava vinhos. O mesmo processo que Chaplin brilhantemente descreveu em Tempos Modernos, um trabalho maçante, mecânico, alienante. O aprisionamento mental que passou ali foi intenso. Três meses de solidão, mas nada comparado às pessoas que ali encontrou e que faziam aquilo por aproximadamente quarenta anos.

Durante o período em que estudou, foi ainda para a Alsácia-Lorena trabalhar com amostragem de solos, e também viajou pela Europa Central fazendo pesquisa sobre geadas. “Foi nesse período que Annemarie adquiriu a habilidade de detectar o tipo de solo em que foi plantada a uva de cada vinho europeu. Ao degustá-lo, ela percebia no fundo em que tipo de solo fora cultivado” (Knabben, 2016, p.147).

De volta a Viena, uma colega a convida para que acompanhe uma excursão com um professor não muito bem visto pelos outros professores. Essa excursão mudaria completamente a vida de Annemarie.

O grande despertar

Johannes Görbing era farmacêutico de formação, mas o que o atraía mesmo era a botânica e a química, principalmente a química dos alimentos. Ele andava por todos os lados e observava o comportamento das plantas; umas tinham sido adubadas e várias doenças novas apareciam. Numa outra parte, as plantas tinham se deitado após a chuva, e questionava: por que só algumas? Desenterrava e analisava as raízes e tentava entender o porquê das coisas, num método pouco “ortodoxo”, daí as muitas críticas que recebia.

Annemarie seguia o grupo e prestava atenção naquele homem robusto, cheio de vitalidade, de um entusiasmo contagiante. Görbing não tinha as respostas para suas próprias perguntas e era essa atitude que mais encantava Annemarie. Ele conquistara o seu respeito por sua humildade e porque, em sua espontaneidade, ensinava àqueles estudantes a pensar e a questionar aspectos que nunca cogitaram.

O professor havia residido em Aleppo, no norte da Síria, e fora trabalhar como médico de um regimento, pois um confronto com os turcos seria iminente. Não ocorreu. Mas um episódio despertou sua curiosidade: os turcos, tendo roubado trigo para fazer pão, mostravam-se meio “loucos” com sua ingestão. Görbing questionou-os. Além da curiosidade, havia a responsabilidade de responder como médico de seu regimento: “O que há em seu cereal?”. E descobriu que um fungo e outra planta estavam misturados à farinha. E pensou: se o homem se alimenta das plantas, direta ou indiretamente, e o que sente está diretamente associado ao que come, então era o solo que deveria ser o bem mais precioso de todos, pois dele as plantas retiram os nutrientes e deles depende a saúde em toda a teia alimentar.

Annemarie sorria. Aquela lógica tão simples e tão verdadeira, sutil e arrebatadora a tomavam, e um entusiasmo cresceu em seu íntimo. Tudo era tão simples e lógico, e mesmo assim era um segredo para a maioria. Annemarie nunca mais se desvencilharia daquela experiência, daquele professor e daquela tarde. Arriscamos dizer que ali nascia a grande engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi.4 Foi a partir do contato com Johannes Görbing, “O Profeta”, como o chamavam - justamente porque não entendiam as relações que ele fazia entre solo-planta-animais -, que Ana passou a ressignificar seus aprendizados e a conectá-los, já exercendo o que hoje chamamos de agroecologia, mas que para ela ainda não tinha um nome, somente uma conduta.

Em 1944, Annemarie foi convidada pelo professor F. Sekera para trabalhar como uma de suas assistentes no Instituto de Ciência do Solo e Nutrição Vegetal da Universidade de Viena. Naquele ano concluiu seu doutorado e aprofundou seus conhecimentos sobre micronutrientes e deficiências minerais.

O solo não é um suporte para adubos, água de irrigação e culturas, mas um organismo vivo, cujo esqueleto é a parte mineral, os órgãos são os micróbios que ali vivem e o sangue é a solução aquosa que circula por ele. Respira como qualquer outro organismo vivo e possui temperatura própria. Necessita tanto das plantas como as plantas necessitam dele. (Knabben, 2016, p.161)

Além da disciplina nos estudos, do afinco com que se dedicava e da qualidade de seus mestres na Universidade, Annemarie contou com muita sorte. Certa vez, voluntariou-se para buscar um documento no Conselho Nacional de Pesquisa, em Berlim-Dahlem. O bombardeio na cidade não a atingiu, mas ninguém sai ileso da visão de corpos (ou pedaços de corpos) empilhados no passeio. Todos falam da atuação alemã durante a guerra, mas Annemarie sempre conta que os ingleses eram tão cruéis quanto, e que jogavam fósforo branco nos civis, causando queimaduras de terceiro grau que davam a impressão de que as pessoas encolhiam.

Nessa ocasião, quando chegou em Berlim, fora aconselhada pelo atendente do hotel a abrigar-se no bunker recém-construído, com capacidade para cinco mil pessoas. Recusou-se, muito mais porque estava preocupada em não encontrar o caminho após o bombardeio do que pelo receio de morrer. Ela dirigiu-se ao Centro de Pesquisa, pegou os documentos e na volta viu que o bunker tinha sido completamente destruído por bombas. Todos que lá tinham se abrigado morreram. O atendente do hotel, ao vê-la, desesperou-se. Ele acreditava que ela tinha seguido seu conselho, e agora sua “alma penada” voltava para cobrar-lhe por sua morte. Annemarie, ao perceber a situação, esclareceu: “o senhor pode sair detrás da mesa porque não sou um espírito, mas sim gente”.

Por causa dos bombardeios diários, o Instituto de Solos em que trabalhava foi transferido para fora da cidade e Annemarie aproveitou as férias para voltar para casa. Ali enfrentaria outras batalhas, e tudo que vivera e testemunhara até então a ajudariam a ser ainda mais forte. E corajosa.

Em casa, eram em seis irmãos. Annemarie (1920), Sigmund (1922), Wolfgang (1923), Brigitte (1929), Clara (1933) e Gerhard (1938). Wolfie e Sigi foram recrutados para lutar na guerra, e estavam mortos. A notícia chegou com o chefe local do partido que ia de casa em casa informar as famílias. Annemarie nunca conseguiu contar nada sobre este dia, ou sobre esse momento. Nosso único registro é este escrito dela, transcrito parcialmente a seguir:

Como tenente, no outono de 1943, (Sigi) foi para o sul da Rússia no front, e sabia que isso era um ‘comando de morte’ do qual ninguém voltava (Stalingrado estava perdida para os alemães, já naquela época). Morreu no domingo antes do Natal, no ataque dos russos na cabeceira da ponte do Nikopol, onde cobria a retirada de seus companheiros. Seu corpo foi achado três semanas mais tarde e enterrado. Nas últimas férias em que foi para casa, ele sabia que não voltaria mais. Tinha 21 anos. (Knabben, 2016, p.189)

Em março de 1942, Wolfie foi mandado ao front no Ilmensee, perto da fronteira com os países bálticos, que naquela época já era “um moinho de morte”. Num ataque precipitado, pois o seu ambicioso comandante queria ganhar a “Cruz de Cavalheiro” por sua coragem, Wolfgang morreu com uma rajada de tiros nas costas, disparados por aviões de caça russos. Era Domingo de Ramos, uma semana antes da Páscoa. (Knabben, 2016, p.190)

Há um profundo hiato na vida da família a partir dessas perdas. Os pais jamais se recuperaram do trauma e não puderam proporcionar aos outros três filhos toda dedicação e investimento, tanto de estímulos, brincadeiras e convívio, quanto de equilíbrio emocional. Mesmo assim, foram criados com amor e carinho, mas Britta, Clara e Gerhard tiveram a infância regrada pelas limitações da guerra e pela tristeza dos pais.

Chegando em casa, Annemarie assumiu a posição de chefe da família. O pai não estava; tinha sido recrutado para o Volsksturm, um exército dos que sobraram, literalmente. Mortos os jovens, sobravam os velhos, os doentes, mulheres e crianças, um exército de gente que deveria morrer sem porquê, para servir de corpo de frente para as batalhas dos jovens que restaram. Clara, sua mãe, estava devastada com a morte de seus filhos, com o enorme castelo para administrar, além das três crianças para criar. O pequeno Gerhard, com apenas seis anos de idade, escapara por pouco de ser alvejado por três vezes com rajadas de metralhadoras de aviões ingleses, que sobrevoavam a região atirando em tudo que se mexia. Assim, a filha mais velha conseguiu mandar a mãe e os dois irmãos menores para a casa de amigos de seus pais no alto dos Alpes. Foi uma decisão muito corajosa e, ao mesmo tempo, sacrificante. Ela e Britta permaneceram sós no castelo e tiveram que arcar sozinhas com todo o serviço, tanto da casa quanto do entorno, como cuidar dos animais e da plantação, principalmente de aveia, trigo, centeio e batatas.

Uma das passagens mais impressionantes desse período foi o dia em que dois homens adentraram o castelo à noite. Annemarie ouviu seus passos na escada e no breu da noite, segurou-os pela gola do colarinho junto à nuca, um em cada mão botando-os para fora. E explicou: “Quem entra assim numa casa não sabe quanta gente tem, o que vai aparecer e o que vai acontecer. A casa tinha ecos e eles ficaram com medo, lógico!” (Knabben, 2016, p.168).

Ao fim da Guerra, o pai voltou para casa, bem como a mãe e os irmãos, mas não era o fim dos problemas. Os vencedores dividiram a Alemanha e sua capital, Berlim, assim como a Áustria, em quatro zonas de ocupação, uma para cada aliado. A região de Pichlhofen ficou sob o jugo da Inglaterra e foi um desespero para aquela filha ver seu pai ser levado como refém dos ingleses. Demorou para entenderem a acusação, mas Sigmund representava perigo simplesmente por ser um homem de influência na região e potencialmente ser contra a ocupação. Ele estava sendo acusado de apoiar os partisans, como eram chamados todos que eram contra os invasores, fossem alemães, ingleses ou outros.

Ninguém quis ajudar Annemarie a salvar o pai. Cinco advogados foram consultados, alguns deles conhecidos da família. Nenhum teve a coragem de aceitar o caso. Talvez em nenhum outro momento vivido até ali, e já tendo vivido momentos muito tristes e difíceis, Annemarie tivesse se sentido tão só, tão triste, tão desesperançosa com a humanidade. Contou, por uma ironia do destino, com a ajuda de um oficial inglês, e com muita engenhosidade enredou os oficiais ingleses de forma a configurar crime de confraternização.5 Ela livrara o pai de uma execução sumária por traição.

Foto Cortesia da Autora

“Última vez que nós estivemos todos juntos, no final de agosto de 1940, porque em 28/03/1941 Wolfgang morreu e em 19/12/1943, Sigmund”, escreveu Ana Primavesi atrás da foto. Atrás: Sigmund filho e Ana Primavesi. À frente: Sigmund, Clara, Gerhard no colo, Wolfgang, Clarinha e Brita. (Sigmund e Wolfgang morreram, respectivamente, aos 21 e 19 anos, lutando na Segunda Guerra Mundial.) 

Logo ela também seria presa, pelos mesmos motivos pelos quais prenderam seu pai. Ela, o pai e a irmã Britta, que logo foi liberada. Da prisão foram transferidos para um campo de concentração em Wolfsberg, antigo campo de concentração de Hitler. Não era mais um campo em poder dos alemães, e sim dos ingleses, e agora ele se chamava POW CAMP (Prisioner Of War). Como era uma das poucas que sabia o idioma inglês, Annemarie “trabalhava” nos escritórios datilografando os “depoimentos”. Testemunhou torturas, surras e todo tipo de violência, bem como a morte daqueles que não tinham mais o que dizer, entregar ou confessar.

No Pow Camp ela conheceu pessoas com histórias de vida incríveis, que jamais esqueceu. Viveu lá por nove meses, perdeu vinte quilos, e aos 26 anos, acumulava uma experiência de vida que extrapolava e muito sua idade cronológica.

Ainda nesse ano, 1946, casou-se com Artur Primavesi, também engenheiro agrônomo, dois anos mais velho do que ela. Dois anos depois nascia Odo, o primeiro dos três filhos do casal.

Artur Primavesi descendia de uma família riquíssima do antigo Sudeto alemão, hoje República Tcheca. Os Primavesi perderam tudo com a invasão russa, que confiscou as terras, o castelo e todas as propriedades, que não eram poucas. Para se ter uma ideia da dimensão do que possuíam, Krotendorf, perto de Jägerndorf, era uma linda Villa que sua mãe, Margarethe Happack, herdara. Plantavam trigo e beterraba, pois possuíam uma usina de açúcar. O pai era coproprietário das tecelagens nas cidades de Lichtenwerden, Würbenthal, Messendorf e Freudenthal. Possuía também o restaurante “Zum Goldenen Stern”, em Jägerndorf. Grete, como era chamada sua mãe, adorava o parque de Krotendorf, que tinha uma montanha e dois grandes lagos artificiais, uma coleção de coníferas que vinha do mundo todo, muitas azaleias e flores das mais exóticas.

O parque era um dos mais lindos parques privados da Europa Central, e onde havia uma raridade: os faisões de Artur. Ao escutarem o chamado de seu dono, apareciam no meio do prado para receber a ração de uvas passas. Todos se admiravam que ele desse uvas passas aos faisões, mas ele tinha dinheiro suficiente para tal excentricidade. A família de Grete Happack era uma família abastada e influente, com propriedades rurais, e também possuíam o direito de serem juízes, pois a nobreza da época herdava esse direito. (Knabben, 2016, p.217)

Com a guerra, os pais de Artur tiveram que sair às pressas para não serem pegos pelos russos, e viveram de favor até o final de suas vidas no castelo da amiga condessa Mirbach-Geldern, na Alemanha: dois quartos e um banheiro no segundo andar; uma cozinha e um quarto de empregada no térreo.

Quando se casou com Annemarie, quase nada sobrara da herança de Artur. Morando no castelo Pichlhofen, poderia ajudar seu sogro, mas ali era a casa dele, não a sua. Artur e Annemarie decidem então emigrar para o Brasil. Pesava também na decisão o medo de que outra guerra ocorresse: a primeira tinha sido em 1914, e a segunda, em 1939. Quem poderia garantir que uma outra logo não estava por vir? Annemarie não queria ver seus filhos mortos em outra guerra vil e sem sentido. A decisão estava tomada e, com ela, mudava a vida não só daquele jovem casal recém-formado, mas principalmente o rumo da agricultura nos trópicos, principalmente no Brasil.

O Brasil, seus encantos e mistérios

O casal Primavesi chega ao Brasil em 1948 com poucos recursos financeiros. Annemarie tem seu nome aportuguesado e passa a ser Ana Maria Primavesi. Artur, é preciso que se diga, era um homem de educação esmerada. Um diplomata nato que fazia amizades facilmente, encantando a todos com sua extrema gentileza e fino trato. Conhecia muitas pessoas influentes na Europa, o que lhe ajudou em muitos trâmites em sua vida. Logo conseguiu um trabalho na Secretaria de Agricultura em São Paulo como superintendente para o plantio de trigo. Ana acompanhou o marido nos primeiros anos por onde havia trabalho. Moraram em Itapetininga (SP), Passos (MG), Itaberá (SP), São Paulo (SP) e Santa Maria (RS). Por todo esse tempo, Artur contou com a assessoria da esposa em todos os trabalhos que atuou. Carin, a segunda filha, nasceu em 1951 em Passos, e Arturzinho, em 1953, em Itaberá.

A vida do casal era simples, e Ana era incrivelmente versátil. Até os filhos se impressionavam com ela. Odo, o mais velho, conta:

Mamãe era cozinheira, doceira, farmacêutica, professora, costureira, promotora de atividades lúdicas. Sim, ela costurava, tricotava e bordava muito. Fazia muitos trabalhos manuais e tratou da saúde até de cachorros de um circo que esteve em Itaberá. Incentivava a prática de tocar instrumentos musicais, eu, violão, Carin o acordeão e Artur o violino. Lembro-me que uti- lizava soja para fazer leite, do bagaço fazia um tipo de pé de moleque e da soja inteira fazia bolinhos salgados fritos excelentes, que até um mendigo vinha pedir sempre que passava. Nos estudos, tomava a lição. E procurava evitar a repetência. Contava muitas histórias infantis, dos irmãos Grimm e outros. Depois, fazia a gente ler muitos livros, também em alemão. Nos ensinou a escrever com letra gótica. Isso ficou marcado, pois, mais tarde, me facilitou o convívio com pesquisadores de uma instituição de pesquisa em Viena, onde fui fazer especialização, e lá as anotações eram feitas em letra gótica, e eu sabia ler: derreteu o gelo inicial. O avô Artur só sabia ler e escrever em alfabeto gótico, e quando escrevíamos a ele nos aniversários, onomásticos (dia dos santos católicos cujos nomes nos apropriamos) e Natal, era sempre em letra gótica. E também conseguíamos ler as cartas dele. (Knabben, 2016, p.321)

Carin também relata o dinamismo da mãe:

Mãe e avó maravilhosa, colocava sempre a família em primeiro plano. Ocupava-se conosco amorosamente e crescemos seguros. Brincava com a gente, contava muitas histórias, íamos passear, muitas vezes para pegar o “mato” que seria nossa verdura no almoço. Ensinou-nos a refletir sobre as coisas e não seguir simplesmente o que os outros faziam.

Ela sabia muito. Qualquer pergunta ela explicava com pormenores. Muitas vezes eu me questionava como ela sabia tanta coisa. Era história, geografia, educação, curar com plantas, entendia do solo e das plantas, nutrição, sociologia, psicologia, biologia, veterinária, química, física, sobre a vida, administração, como construir uma casa ou mesmo um prédio, marcenaria, consertar máquinas... Quantas vezes pessoas de prédios vizinhos vinham buscá-la porque estavam sem luz, se ela podia ajudar. E ela o fazia.

Era muito criativa e habilidosa. Cozinhava divinamente, costurava super bem (muitas vezes, desmanchava vestidos que havia trazido da Áustria e costurava roupas para nós), bordava (eu sempre andava arrumadinha com bordados), tricotava nos casacos e pulôveres dos filhos motivos dos animais que cada um de nós gostávamos, consertava nossos sapatos melhor que qualquer sapateiro, desenhava e pintava muito bem, escrevia histórias gostosas de ler, tanto infantis como juvenis (durante a guerra ela escrevia histórias para seu irmãozinho quando era aniversário ou Natal, porque não se tinha acesso a nada). (Knabben, 2016, p.15)

Além da casa e dos filhos, ajudava o marido em tudo: no planejamento do preparo do solo, das plantações e adubações, compra e manutenção de maquinário, contratação de empregados, treinamentos, questões técnicas e burocráticas, revisões de trabalhos e redação de textos. Enquanto as crianças cresciam, permanecia mais nos bastidores, e Artur assumia financeiramente a casa. Mas nunca deixou de atuar como agrônoma. Artur a requisitava para tudo. Ela era seu porto seguro e sua referência.

O Brasil foi uma terra que acolheu os Primavesi de coração aberto e isso encantou aos dois. Numa passagem de suas vidas, ao mudarem-se para uma casa no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, a vizinha da frente observava atenta a movimentação. Dona Palmira era lavadeira e seu marido, jardineiro. Ana estava atarefada com tantas coisas a fazer, quando foi surpreendida pelo convite de D. Palmira para que almoçassem em sua casa. Esse tipo de gentileza encantava Ana, porque estava acostumada ao rigor e rigidez das pessoas na Europa, ainda mais traumatizadas pela guerra como vivenciou. Esse comportamento livre, informal e acolhedor era um dos aspectos que mais a encantavam no Brasil. Sempre gostou do povo brasileiro, que considera muito amoroso. Outra faceta que a intrigava era poder entrar em contato com “um mundo paralelo”, do qual duvidava no início, mas por ser testemunha ocular dos casos, rendeu-se.

Primeiro começou com a moça que fora trabalhar para ela em Passos, quando Carin nasceu.

Perciliana era filha de uma índia com um negro. Seus cabelos pretos, lisos e muito compridos viviam trançados e enrolados na cabeça. Seus três filhos já eram grandes e casados. Ana quis mostrar-lhe a casa: “Já sei, estou vendo...”. Perciliana dizia. Ana não entendeu, porque a moça tinha acabado de chegar. “Venha que vou lhe mostrar onde estão as coisas”, no que a moça novamente disse: “já sei, estou vendo...”.

Perciliana tinha o dom da vidência e aquilo não era papo furado. Um dia, disse a Ana: “Posso ir ao ponto de ônibus? Minha filha está chegando com meu neto. Ele está muito doente”. Ana não discutiu, simplesmente a acompanhou até o portão. Como Perciliana poderia saber? O ponto não era exatamente em frente à casa e havia um muro alto separando-a da rua. A filha descia do ônibus no momento em que Perciliana chegou. O neto acabou morrendo, o que Perciliana já sabia que aconteceria. Numa outra vez, Artur demorava muito para chegar. Ana preocupou-se. “Não fique assim, o jipe quebrou mas ele já chamou o mecânico e está vindo”. E Artur chegava contando exatamente o que ela tinha dito.

Foi nessa época que Artur pegou febre amarela. Levado ao hospital, o médico mostrou a Ana uma lista de remédios. “E isso cura?” - ela quis saber. A cara do médico dizia tudo. “Então pra que tanto remédio?” Por fim, resolveu voltar para casa. Se ele fosse morrer, que pelo menos estivesse entre os seus.

Foi para o mato, procurou os índios, e todos eram unânimes em dizer que febre amarela não tinha cura. “Mas e para o fígado e bílis, o que vocês usam?” Aí a coisa mudava de figura. As receitas brotavam: xarope de agrião. Chá de raiz de jurubeba e pariparoba. Quebra-pedra, raiz de mentrasto e erva-tostão. Raiz de picão-preto e frutinhas de jurubeba. Chá de cabelos de milho. Chá de folhas de alcachofra. Suco de limão e de laranja doce. Sementes de veludinho colocados em vinho do Porto. Levedura de cerveja. Perciliana a ajudou a encontrar no mato todas elas, e Artur tomou de tudo e sarou! Foi o único na região a sobreviver, e o feito se espalhou.

Ana não sabe explicar como, se foi uma das receitas, a combinação delas ou a ordem que as deu, mas isso precipitou a saída do casal de Passos. O barão austríaco Leitner e o príncipe Albrecht da Bavária, amigos de Artur, ao saberem do ocorrido, exigiram que ele voltasse de Minas para São Paulo. Eles tinham fundado a Companhia Paulista de Trigo, e o queriam trabalhando com eles. Ana e Artur aceitaram. Morariam em Itaberá.

Perciliana veio: “Eu e a nenê (Carin) não podemos nos separar. Se isso acontecer, uma de nós duas vai morrer”. Ana encarou sua ajudante e sabia que ela falava a verdade. Prometeu arrumar tudo em São Paulo para recebê-la, e assim fez. Ana escreveu: “podem vir, está tudo preparado”. E então, pouco tempo depois, chegou a carta do filho de Perciliana: “minha mãe morreu há duas semanas, sem um motivo aparente”.6

Em Itaberá (SP), foram morar provisoriamente num sítio que pertencia a um amigo de Artur. O problema era que o lugar estava infestado de cobras. Era cobra enrolada na perna das cadeiras, dentro das gavetas, no volante do carro, dentro dos armários... Como Ana poderia viver com três crianças assim? Artur não pareceu preocupado quando disse a ela que ia chamar um “pegador de cobras” que soubera viver ali na região.

Ana ficou muito brava. Onde já se viu, o homem ia pegar as que ele via, mas e as que estavam escondidas? Mas qual era a alternativa? Então lá veio o tal “pegador de cobras”.

O homem esfregou algumas ervas cheirosas nas caixas, ervas que eu não conhecia e que também não me interessavam, porque estava convencida de que esse pegador de cobras não ia resolver nada, um arrependimento que carrego até hoje. Depois de esfregar as ervas nas caixas, ele sentou-se na frente delas e começou a tocar numa flautinha de bambu, da qual não saiu som nenhum, ou eu é que não consegui ouvir. Mas tal como na história do Flautista de Hamelin, onde a cidade de mesmo nome foi vítima de uma praga de ratos e por meio de sua flauta um homem conseguiu que os bichos o seguissem e entrassem no rio, as cobras começaram a sair de todos os lugares; debaixo das tábuas, das moitas, do telhado, de todos os cantos e buracos. Todas saíam e iam direto para as caixas, obedientemente, e lá ficavam. O homem me assegurou que não tinha mais cobra nenhuma, fechou as caixas e as levou ao terreiro. Depois, pediu algumas galinhas para que servissem de alimento para as cobras. Quando os frangos estavam mortos e meio depenados, soltou toda a “cobraiada”. Me apavorei e gritei: pelo amor de Deus, vai soltar todas outra vez? Eu estava tão feliz que estavam todas presas e agora ele as soltou de novo! Mas as cobras não saíram do terreiro, somente comiam os frangos para depois retornarem calmamente às caixas, que foram então fechadas. O homem justificou-se dizendo que a viagem até o Butantan era longa, e era preciso que elas comessem antes para não morrer de fome no caminho. Quando meu marido voltou à noite e perguntou se o pegador de cobras tinha vindo, eu respondi que sim, que ele tinha vindo e as levado. Eu podia viver muito bem com a bicharada que tinha ali, mas as cobras, pelo menos, tinham acabado e me senti um pouco mais confortada. (Knabben, 2016, p.300)

Também nessa época outra situação misteriosa confrontou o olhar científico de Ana. Chegou um homem contando que seu canavial estava infestado de lagartas e que tinha pedido uma pulverização por avião, mas só conseguiria o serviço dali a dez dias. “Até lá elas já comeram tudo!” - desesperou-se. Veio então a ideia de chamar o benzedor.

Chegado o homem, eis que ele procurou pela redondeza umas ervas e as queimou numa fogueira na beirada do campo. Também começou a dançar “... e de vez em quando dava um pulinho e um grito e depois de uns vinte minutos disse: “agora os lagartos vão morrer”. Eu e Artur achamos aquilo ridículo. O administrador sugeriu pagar a benzedura mas isso não se podia fazer, e o homem despediu-se calmo e satisfeito enquanto os três ainda falavam e palpitavam sobre o ocorrido. Ainda dava para ver o homem na estrada ao longe quando uma ou outra lagartinha caiu. “Podia ser que eram as lagartas mais velhas”, Ana pensou. Mas depois caíram mais e de repente parecia como uma chuva de lagartinhas que caíam: grandes, pequenas, todas. Era inacreditável. O administrador da fazenda achava aquilo tudo normal: “benzedura sempre causa este efeito”, e foi para casa. Para completar a história, um administrador de outra fazenda que veio ver a benzedura, pediu a Artur para chamar o benzedor outra vez para curar o gado de bicho berne porque naquele ano tinha demais e os remédios não estavam fazendo efeito. Lá veio o homem benzer de novo. Passou uns raminhos de ervas nativas sobre as costas de cada vaca, deu um gritinho e depois um tapa nas costas delas. “Ficamos todos esperando”, Ana conta, “parecia que não ia acontecer nada”. Mas de repente por toda parte caíram as larvas dos bichos de berne. Era impressionante. O gado ficou cheio de furinhos mas sem bolotas e o chão estava cheio de larvas de berne.

Era ridículo, mas funcionava. (Knabben, 2016, p.303)

Arturzinho

O caçula de Ana, Arturzinho nascera com o cordão umbilical enrolado no pescoço e demandava cuidados. Ana encarava as questões do filho (ser um pouco lento nas atividades, puxar um pouco a perna direita e ser estrábico) “simplesmente” com amor. Ele demorou a falar e a “vingar”, mas Ana sabia que seu filho poderia se fortalecer e seguir em frente. Artur pai não era muito paciente com o menino, que naturalmente voltou-se ao amor e apoio da mãe.

O envolvimento dos dois foi profundo e tocante. Ana tratava-o igual aos outros e não fazia-lhe diferença. Nunca mostrou sua preocupação com ele, nem aos irmãos nem ao marido. Era igual, igual aos outros e ele tinha que fazer também o que os outros faziam. Hati, como o chamavam, nunca devia sentir que tinha defeitos, e ela nunca dizia: “Você não sabe ou não pode fazer isso”. Ele falava pouco, aprendeu de fato somente os nomes dos números, pois por palavras pouco se interessava. “Ele não sabia? Não conseguia pronunciar? Alguma parte de seu cérebro fora destruída por falta de oxigênio. Mas em crianças, quando ensaiam bastante, a outra parte do cérebro poderia se encarregar de substituí-la” (Knabben, 2016, p.307).

Logo Hati completou sete anos e deveria ir para a escola. Ana o segurou mais um pouco. Sabia que ele sofreria na escola, “iria começar o seu calvário”, nos contou. Ana foi criticada mas manteve sua decisão, e quando faltava um mês para os oito anos, ele entrou no primeiro ano.

Dito e feito. Hati não formava frases, mancava e era vesgo. Além disso, era mais velho que as outras crianças, que caçoavam, brincavam e aprontavam com ele. Eles se torciam de rir, esperando o choro de Artur, mas ele não se incomodava. Não chorou, não bateu, não revidou e também nunca contou nada em casa. Sempre quis ir à escola e nunca se queixou. Até que a própria professora achou que as maldades passavam do limite, e perguntou a ele: “Você quer que eu fale com os meninos para que te deixem em paz?”. Hati balançou a cabeça: “Não, obrigado. Tenho pena deles”. A professora o encarava, surpresa. Ele continuou: “Minha mãe é muito mais inteligente que eles e ela me ama”, disse calmamente para a professora incrédula.

Com o passar do tempo, as brincadeiras de mau gosto sumiram e as amizades surgiram. Arturzinho era o líder da classe, o mais popular e querido de todos. Esse rapaz cresceu amparado pelo amor de sua mãe e estimulado a superar suas dificuldades. Conseguiu. Tornou-se médico, casou-se e mantinha o carisma herdado do pai. Por onde quer que fosse, todos o amavam. A morte prematura desse filho, aos 32 anos num acidente automobilístico deixou uma cicatriz profunda em todos que o conheceram. Ana agora passava pela maior dor que se pode ter, a de perder um filho. A ela somavam-se outras, vividas no período da Guerra. Mas Ana, assim como o filho, nunca se queixou, remoeu ou viveu de tristezas. Arturzinho encerrava sua passagem pela vida de forma plena e Ana sabia que tinha feito tudo por ele. O tempo a ajudou, e a dor amainou.

Universidade de Santa Maria

Em 1961, mudam-se para Santa Maria (RS), depois do sucesso que tiveram com o trabalho de recuperação de solos em Sorocaba (SP). É principalmente a partir desse momento que a estrela dessa grande mulher mostra o seu brilho.

Ana dava aulas sobre produtividade de solos, deficiências minerais, agrostologia, fazia pesquisas e dirigia o laboratório de biologia e de análise de solos. Artur Primavesi fundou o Instituto de Solos e Culturas, sediado no prédio da Reitoria, do qual era diretor e que em poucos anos tornou-se mundialmente conhecido, e também iniciou o primeiro curso de pós-graduação em agronomia: “Biodinâmica e Produtividade do Solo”. O casal Primavesi trazia à Universidade de Santa Maria pesquisadores e cientistas de renome, e passaram a escrever e publicar trabalhos importantíssimos.

A fama dessa doutora, em sentido amplo, extrapolava os muros da Universidade. Ela passou a auxiliar pessoas que a procuravam pedindo ajuda para diversas doenças. Não adiantava dizer que ela não era médica e que o “Doutora” devia-se a um título acadêmico. “Doutora é Doutora”, respondiam, e assim ela indicava ervas, chás e todo tipo de plantas que poderiam pelo menos amenizar os problemas. Mal não fariam, porque eram naturais, assim como utilizamos os alimentos para nossa nutrição. Acontece que ela sempre acertava, a fama crescia e mais e mais pessoas a esperavam na porta de sua casa quando voltava da Universidade. Foi o caso de uma mãe que trouxe o filho policial, que não conseguia mais trabalhar porque tinha convulsões. No começo era uma por dia, depois eram mais, até que eram tantas que ele teve que se afastar do trabalho definitivamente. Ana receitou um remédio contra vermes, mesmo sabendo que o moço já tinha tomado vermífugo. Ela tinha ganhado essa receita de uma índia, e continha nove plantas e substâncias muito difíceis de achar. A mãe do rapaz foi atrás de todas e as encontrou, inclusive carvão de chifre de carneiro. O filho tomou e, dois dias depois, a mulher procurou Ana para contar que de seu filho tinham saído duas bacias repletas de vermes. E que ele nunca mais tinha tido convulsões.

Contracapa de sua biografia, Ana Maria Primavesi: histórias de vida e agroecologia, de Virgínia M. Knabben. Um recorte do que essa grande cientista sempre defendeu.

Ana e Artur Primavesi no laboratório da Universidade de Santa Maria, 1962. O casal Primavesi revolucionou a agricultura tropical ao diferenciá-la da prática de clima temperado. Ana Primavesi fincou os alicerces do que ficou conhecido como Agroecologia, ciência agronômica que considera o solo um organismo vivo. 

Contracapa de sua biografia, Ana Maria Primavesi: histórias de vida e agroecologia, de Virgínia M. Knabben. Um recorte do que essa grande cientista sempre defendeu. 

Ao mesmo tempo em que brilhavam por sua extrema capacidade e formação acadêmica, os Primavesi geravam desconforto e inveja em alguns colegas. Além disso, defendiam um enfoque muito diferente do que aqui se fazia. Grande parte da prática agrícola se espelhava no que se fazia na América do Norte e Europa, e os Primavesis deixavam claro que em clima tropical as condições eram outras. Para cada clima, um tipo de solo, e um tipo de trato. Esse confronto ideológico não se restringiu somente à Universidade. Ana Primavesi teria que defender suas ideias sempre, sem trégua.

Manejo Ecológico do Solo - o livro, o conceito, o pilar da Agroecologia

Em 1976, Artur foi diagnosticado com câncer na próstata. Morreu no ano seguinte, deixando Ana arrasada. Ela decidiu comprar uma fazenda em Itaí, a 400 km de São Paulo, e recomeçar sua vida. Os filhos estavam formados e casados e ela precisava de isolamento naquele momento. “A fazenda era a metáfora de si mesma; terra machucada mas com enorme potencial de regeneração” (Knabben, 2016, p.349).

Escolhera uma terra dura, cheia de cupins (sinal de terra compactada, ela ensina) e de sulcos de erosão, mas desafiava-a a possibilidade de regenerá-la, o que ela fez. Durante os 32 anos em que viveu lá, trouxe de volta as nascentes, a mata, os bichos do entorno. Morando em Itaí, Ana dedicou-se exclusivamente à agricultura e pecuária, tanto em sua fazenda como nas palestras, encontros, congressos e eventos dos quais participava. Viajou por todo o mundo, atendendo a convites e encantava as pessoas com a simplicidade de suas explicações, numa linguagem que todos pudessem compreender.

Suas palestras eram disputadas e logo ela era requisitada muito mais do que daria conta de comparecer. Ana continuava a fazer tudo de tudo. Cuidava da casa, das plantações, dos animais, escrevia para periódicos, respondia cartas, lia todas as publicações que lhe caíam nas mãos, elaborava palestras e cursos, fazia experimentos e cuidava das compras, vendas, estocagens e manuseios. Todos os dias acordava bem cedo e preservou o hábito de dormir uns quinze minutos depois do almoço, no mínimo, hábito herdado de seus pais. Recebia estagiários, que queriam aprender com ela sobre agricultura orgânica, sobre ecologia. E escrevia.

Ana vinha escrevendo seu livro Manejo ecológico do solo desde que morara em Santa Maria. Nele, condensava tudo que sabia, de forma que todos os conceitos se integrassem, numa visão sistêmica e ecológica. A primeira dificuldade que encontrou foi encontrar uma editora. Era um livro de conteúdo “revolucionário”, diziam. Mais uma vez, sua estrela brilhou. A editora Nobel queria um livro agrícola com o qual pudesse iniciar suas publicações nessa área, e Ana se adiantou: “O livro é bastante polêmico”. Era tudo o que eles queriam. E assim, em 1980, o livro foi lançado, e tem sido vendido com sucesso até então.

Muito criticada e combatida por suas ideias ecológicas, que dispensam uso de agrotóxicos e questionam o uso da adubação química, Ana segue resoluta: “Tenho certeza do que estou falando”. E cada vez mais pessoas se voltam aos seus livros e ensinamentos, frustradas com a baixa produtividade de suas terras, buscando na agroecologia o retorno às suas próprias essências, na ação recíproca do plantar e colher, sem explorar os solos, mas sim manejando-o como um organismo vivo. A agroecologia trabalha com sistemas e ciclos de maneira holística-sistêmica. Procura eliminar as causas dos problemas e não apenas combater os sintomas que voltam enquanto as causas perduram. Nenhum processo pode ser isolado do outro, tudo é dependente e interdependente, e o homem se vê como parte de um sistema, não acima dele. Assim, deve prover a terra de tudo que ela precisa, e no caso das terras dos trópicos, de muita matéria orgânica para alimentar os micróbios, estes sim os grandes responsáveis pela fertilidade dos solos.

Se hoje a agroecologia condensa todo o conhecimento para se chegar a uma prática agrícola que garanta não só alimentos a todos os seres deste planeta, como também a manutenção de sua vida, é sobre os estudos de Ana Primavesi que ela se fundamenta. Mas, se perguntarmos a ela o que ela acha disso tudo, ela responderá: “Eu não fiz nada sozinha”.

Referência

KNABBEN, V. M. Ana Maria Primavesi: histórias de vida e agroecologia. São Paulo: Expressão Popular, 2016. [ Links ]

Notas

1Relato baseado na biografia de Ana Maria Primavesi.

2O Casal Marie e Pierre Currie é famoso por terem sido ganhadores do Prêmio Nobel de Física em 1903. Dedicaram-se, entre outros, ao estudo da radioatividade. Marie ganhou ainda outro Nobel, em Química.

3Sigmund fora atingido no tornozelo por um tiro de dum-dum, um projétil de ponta oca que se expande e estilhaça dentro do corpo. Ele quase perdeu o pé e ficou três anos internado.

4Até aqui adotamos o nome Annemarie porque ela só viria a se casar com Artur Primavesi em 1945, ano final da Guerra.

5Ana Primavesi conseguiu que os oficiais ingleses que deporiam contra seu pai fossem conversar com ela e sua irmã no castelo. Lá, ela serviu-lhes um lanche, o que configuraria crime de confraternização.

6Em uma de suas anotações contando a história de Perciliana, Ana escreveu: “Será que me pode desculpar, querida Perciliana?”.

Received: April 29, 2019; Accepted: May 15, 2019

Virgínia Mendonça Knabben é geógrafa e escritora. @ - viknabben@gmail.com

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