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Caderno CRH

Print version ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.20 no.50 Salvador May/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792007000200012 

RESENHA

 

Telles, Vera da Silva; Cabanes, Robert (Org.). Nas Tramas da Cidade - trajetórias urbanas e seus territórios. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006.

 

 

Cibele Saliba Rizek

 

 

Fazer a resenha de Nas Tramas da Cidade não é tarefa fácil, porque esse livro não é mais um entre muitos dos relatos e análises provenientes de pesquisa empírica sobre um ou dois estudos de caso que iluminam pedaços e recortes da realidade, dialogando com categorias de análise provenientes de um (e freqüentemente só de um) campo delimitado. Seus procedimentos, suas inquietações e seus achados atravessam e cruzam campos de práticas e fronteiras pré-estabelecidas e, desse ponto de vista, não se encaixam perfeitamente em uma única circunscrição. Entre suas virtudes, pode-se encontrar uma impressionante densidade descritiva de elementos que vão se dispondo em tramas, em conexões de circuitos, em articulações que desenham perguntas e respostas sobre a cidade de São Paulo e seus territórios. Mais do que isso, talvez pulse por todo o livro uma questão que parcialmente se responde e parcialmente se repõe a cada capítulo: que mundo social é possível entrever a partir do prisma dessas reposições, redefinições e inovações de forma e conteúdo das práticas que ganham corpo nos territórios pobres e em seus circuitos de relações com o conjunto da cidade de São Paulo?

Um leque de questões derivadas dessa pulsação ilumina cada capítulo e sua tessitura, ou sua trama, como preferem os autores: práticas e dimensões da experiência descrita nas novas formas de uso do trabalho, nos circuitos dos campos de futebol de várzea, nas ocupações irregulares e reintegrações de posse, nas articulações entre trajetórias familiares urdidas em espaços privados e destinos sociais, nas formas de sociabilidade que se constituem entre associações populares e organizações não governamentais já instituídas e em instituição. Todas essas dimensões compõem circuitos que se localizam e se deslocalizam em territórios da cidade, deixando entrever desafios, proximidades e distâncias, novas configurações que repõem e desfazem os marcadores, as referências, as leituras e as categorias clássicas que organizavam e, em boa medida, se constituíam como operadores da percepção da cidade, do trabalho, da moradia, dos movimentos sociais, de horizontes de expectativas que foram classicamente as chaves de leitura de práticas sociais e urbanas.

Por isso, a leitura desse livro é tão instigante, não apenas para quem se dedica a entender as cidades e suas novas tramas _ entre as quais, a Cidade de São Paulo e suas clássicas concentrações de população, de riqueza, de formas de circulação, de desigualdades _, mas também para quem se coloca todo um novo panorama de questões tanto de ordem social quanto política, tanto sobre novas formas de trabalho (diga-se de passagem, não mais possíveis de serem apreendidas a partir das fábricas e da viração de cada dia como seu avesso), quanto de moradia popular (o que é hoje, no que se transformou, que rastros ainda permanecem da clássica vinculação entre trabalho e inserção fabril e o auto empreendimento da casa própria), ou das práticas do lazer popular como o futebol de várzea, ou das supostamente virtuosas e "saudáveis" formas de associação, em que certa "verdade" e "virtude" da "sociedade civil" poderia ser entrevista como realidade, como categoria analítica e como aposta política.

O livro introduz seu leitor em uma trama urbana que, embora localizada em duas regiões da cidade, deixa ver relações e fluxos no espaço e no tempo, o que se torna possível na medida em que se trata da conclusão de um trabalho de pesquisa em equipe, desenvolvida a partir de Convênio de Cooperação CNPq-Institut de Recherche pour le Développement (IRD) entre 2001 e 2004. Esse trabalho de investigação foi extraordinariamente bem sucedido porque não recorreu às soluções fáceis de interpretação a partir de um conjunto de categorias, nem se deixou enredar nas tramas do universo de especificidades e singularidades do grau máximo de localização espaço-temporal. Nessas singularidades, encontrou circuitos mais amplos. Nesses circuitos, reencontrou as práticas e relações situadas e localizadas.

Nesse conjunto de disposições e composições de pesquisa e análise, Vera da S. Telles, Robert Cabanes e equipe apontaram para um conjunto de procedimentos de descrição e de análise que tematizam, por todo o texto, diferenças e transversalidades, formas de percepção e interrogação das práticas específicas de cada imersão em campo e aquilo que parece atravessá-las, dotando-as de algumas dinâmicas que perguntam que mundo social e político é esse, que cidade é essa para além das formas clássicas de organização e conformação social, como as aporias da questão social brasileira se desenham e se redesenham, quais são seus novos elementos, como apreendê-los em suas transformações, não apenas pelo que se desmancha ou se perde, mas também pelo conjunto de elementos e novas relações que lhes dão forma e substância. Desse ponto de vista, há uma questão teórica e metodológica da maior importância, que perpassa cada uma das contribuições: como apreender processos de transformação em curso sem correr o risco de reduzi-los ao que já está dado, sem cair nas armadilhas de uma leitura cifrada pelo binarismo entre uma ordem social e seu avesso.

Trata-se, ainda, de um trabalho e de um esforço de pesquisa bem sucedidos, porque seguem um conjunto de questões comuns, em territórios urbanos diversos entre si (a Zona Sul da cidade de São Paulo _ que se emaranha no vetor sudoeste de expansão da cidade, o novo water front que resulta de investimentos viários e imobiliários, desenhando o que poderia ser identificado como centralidade do capital e da riqueza; e a Zona Leste _ região marcada historicamente pela presença das "classes populares", resultante da expansão industrial da cidade, que agrega novos territórios de precariedade e pobreza por meio do que alguns autores denominam como "hiperperiferia"). Essas questões nascem ainda da busca pela apreensão de uma diferença que se desenha no tempo, no tempo social especialmente, nos termos que se enunciam do modo que se segue:

É essa diferença dos tempos que lança a interrogação quanto ao plano de referência a partir do qual descrever e colocar em perspectiva e sob perspectiva crítica a nossa complicação atual. [...] Este é o duplo desafio: a construção de parâmetros críticos (e a reativação da tradição crítica das ciências sociais) implica ao mesmo tempo a construção de parâmetros descritivos para colocar em perspectiva realidades urbanas em mutação (p.14).

Ainda do ponto de vista teórico-metodológico, Vera da Silva Telles, Robert Cabanes e sua equipe colocam um desafio dos mais produtivos: trata-se de interrogar outra trama _ não apenas do urbano e de seus territórios _, dessa vez proveniente dos modos de operação que dizem respeito a alguns dos mais clássicos problemas das ciências sociais. Como interrogar e fazer falar cada singularidade, apreendida nas trajetórias individuais e familiares, possíveis de serem acompanhadas por uma imersão empírica de uma densidade poucas vezes observável, e seus contextos e circuitos relativos ao trabalho, à moradia, às liminaridades e errâncias, à fluidez e à permanência? Em longas entrevistas com vários membros de cada família, apreendendo narrativas que reencenam o passado e deixam entrever sentidos a ele atribuídos, essas longas imersões em campo permitiram a captura do desenrolar de destinos diversos (por exemplo, das ocupações, reintegrações de posse e re-ocupações, ou dos times de futebol de várzea, seu fim em uma das regiões e suas modulações atuais em outra, ou de formas de sociabilidade conformadas por associações e, por vezes, transformadas em ONG's e suas "redes" que vão se desenhando nos âmbitos locais e em circuitos que o extrapolam, em "mercados" e fluxos mais ou menos permeados pela institucionalização da "solidariedade", ou ainda em permeabilidades entre práticas legais e ilegais que atravessam e dão nexo tanto a formas irregulares de moradia como às relações entre moradia, serviços urbanos e ação do Estado). Nas singularidades de cada família ou de cada tema que se articulam na pesquisa e nas dimensões de análise, ganham contornos procedimentos que perguntam sobre as cifras e mapas da pobreza e da "exclusão", encontrando transversalidades que apreendem experiências, negociações, deslocamentos, articulações. Nas palavras da autora:

... optamos por um percurso exploratório. À distância de explicações gerais sobre a ` cidade e sua crise', e também de categorias prévias ou tipificações por pobres urbanos e excluídos do mercado de trabalho, tentamos ler essas mudanças com base nas trajetórias urbanas de indivíduos e suas famílias. É por esse prisma que tentamos conhecer algo das tramas sociais que configuram espaços urbanos. (...) Mas nem por isso essas trajetórias podem ser tomadas como ilustração ou demonstração de algo já sabido e dito como exclusão social ou segregação urbana. No curso de suas vidas, indivíduos e suas famílias atravessam espaços sociais diversos, transitam entre códigos diferentes, seus percursos passam através de diversas fronteiras e são esses traçados que podem nos informar sobre a tessitura do mundo urbano, seus bloqueios e seus pontos de tensão, mas também os campos de gravitação da experiência urbana nesse cenário tão modificado. [...] Essas trajetórias são pontuadas por situações que podem ser vistas como pontos de condensação de práticas, mediações e mediadores, nos quais estão cifrados os processos em curso. (p. 51-52)

A combinação, os nexos, as articulações de processos interrogados e descritos se interceptam a partir do que se encontrou nos destinos individuais, familiares e sociais, linhas de força, pontos de inflexão, "campos de gravitação", bloqueios e passagens, portas e pontes da experiência social que vão se desdobrando em questões empíricas, teóricas e políticas.

Apesar da modéstia das caracterizações iniciais dos autores, que apontam como um estudo exploratório uma vastíssima pesquisa de campo pelos territórios da pobreza da cidade de São Paulo, percebe-se ainda um conjunto importante de diálogos com autores franceses (Bernard Lepetit, M. Roncaylo, Y. Grafmayer. A . Tarrius) e uma interlocução _ aliás de longa data _ com o pensamento sociológico brasileiro, em especial com as referências, contribuições e questões propostas por Francisco de Oliveira sobre esse início de século, e pela produção de autores como A . Zaluar e Lúcio Kowarick sobre as questões relativas aos estudos urbanos. Percebe-se também a presença de algumas noções que ganham cor e contorno cada vez mais nítidos ao longo dos capítulos _ as noções de zona de indiferenciação e zonas de turbulência, que reconfiguram a questão urbana e a questão social, bem como seus sentidos, para que se possa pensar nas novas conformações teóricas, críticas e políticas dos tempos que correm.

Entre os muitos desafios da leitura, nos seus desdobramentos, é possível entrever a enormidade dos desafios da descrição nas e das tramas da cidade, mas também nas e das tramas da produção de conhecimento, que impõem articulações e prismas inéditos, outro modo de conhecer e ler o que está para ser decifrado (outros modos de trabalho, outra cidade, outro futuro), outros arranjos cognitivos que permitam perceber as mutações, modulações, articulações que já reconfiguraram uma experiência social impossível de ser lida como exclusão, ilegalidade, vitimização e criminalização.

 

 

(Recebido para publicação em junho de 2007)
(Aceito em agosto de 2007)

 

 

Cibele Saliba Rizek Livre docente em Estudos Sociais e Econômicos da Urbanização, Docente do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos e pesquisadora do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É professora colaboradora do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Autora de vários artigos e co-organizadora dos livros: Francisco de Oliveira - A Tarefa da Crítica. UFMG: Belo Horizonte, 2006; e A Era da Indeterminação, em conjunto do Francisco de Oliveira, Boitempo Editorial, São Paulo, 2007, E-mail: cibelesr@uol.com.br