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Caderno CRH

Print version ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.20 no.50 Salvador May/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792007000200013 

RESENHA

 

FREITAG, Bárbara. Teorias da cidade. Campinas-SP: Papirus Editora, 2006. 190p.

 

Denise Maria de Oliveira Lima. Doutoranda em Ciências Sociais/ UFBA, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas/ UFBA/ 2003, Tem experiência na área de psicanálise, atuando principalmente nos seguintes temas: psicanálise e sociologia, sujeito e indivíduo. E-mail: deniselima05@uol.com.br

 

 

O lançamento do último livro de Bárbara Freitag, Teorias da cidade, pela Papirus Editora, é um dos frutos de seu projeto integrado de pesquisa, financiado pelo CNPq, Itinerâncias urbanas: capitais migrantes, poderes peregrinos e representações nômades (www.unb.br/ics/sol/itinerancias), que possui como foco histórico-cultural a transferência das capitais brasileiras, Salvador, Rio de Janeiro e, finalmente, Brasília. Outro fruto foi a formulação de um curso de pós-graduação, homônimo do livro, que "peregrinou" por várias universidades e que nós, alunos da UFBA, tivemos o prazer e a oportunidade de participar no segundo semestre de 2005, no auditório do CRH. Agora, temos o prazer de ver o curso concretizado em livro, tanto um quanto outro caracterizados pela análise crítica e pelo entusiasmo da autora, transmitidos aos alunos e, agora, aos leitores.

Teorias da cidade é resultado do esforço de Bárbara na construção de uma teoria das cidades _ por meio do "exame de todas as teorias formuladas através dos tempos que têm condições de explicar e compreender o fenômeno urbano hoje, ontem e no futuro" _ que possa colaborar para a solução dos problemas que as cidades apresentam atualmente, através de uma leitura interdisciplinar e intertextual da questão urbana. Das várias perspectivas disciplinares _ antropológica, econômica, política, cultural, arquitetônica, urbanística _ a autora privilegia a sociológica.

Na sistematização das teorias da cidade, Bárbara Freitag usa o critério de "escolas", no sentido do "conjunto de teóricos que pensa a questão urbana no contexto de sua cultura, de seu tempo, de suas tradições filosóficas e sociológicas", que tem afinidades de pensamento, expresso em uma teoria mais ou menos coerente e convergente, que possa ser entendida por pensadores de outras escolas. "Escola" ainda pressupõe que haja um corpo de docentes e discentes, um grupo de discípulos que procura se orientar nos trabalhos de seus mestres, aprofundando-os ou reformulando-os, e, finalmente, que tenha seus trabalhos publicados.

Bárbara deixa claro que as diferentes escolas se desenvolveram paralelamente, no tempo e no espaço, como também "se relacionaram entre si, influenciando-se num belo exercício de intertextualidade e pesquisa interdisciplinar".

Aceitando o convite da autora para acompanhá-la pelas diferentes escolas, "como se flanássemos juntos pelos meandros da produção intelectual e multidisciplinar das teorias da cidade", iniciamos pela Escola Alemã, que tem, em sua origem, pioneiros como Marx e Engels, Simmel, Weber e Sombart _ os quais influenciaram gerações de sociólogos, filósofos, economistas e antropólogos a tematizar sobre as cidades. E mais, Walter Benjamin (o qual consagrou o conceito de flâneur, cunhado por Baudelaire, que inspirou vários pensadores brasileiros, inclusive Sérgio Paulo Rouanet) e Ronald Daus, um capítulo à parte.

Ao selecionar os teóricos a partir da excelência de seus trabalhos, na antecipação de fenômenos e no distanciamento crítico em relação à modernidade, Bárbara nos dá oportunidade de flanar prazerosamente por esses autores e de nos deter em um ou outro com o qual mais nos identificamos. E mais: oferece-nos a bibliografia deles, comentada.

Seguimos rumo à Escola Francesa: a autora adverte-nos que não é a nacionalidade dos autores o fator determinante de suas contribuições teóricas, mas a maneira como se aproximaram do seu objeto de análise _ ela defende a tese de que os franceses enfatizaram mais a dimensão da racionalidade e da utopia, enquanto os alemães privilegiaram a história e a cultura. Aqui temos os enciclopedistas (Diderot, d´Alembert, Voltaire e outros) com seus verbetes sobre a cidade, concepção focada durante a Ilustração; o socialista utópico Charles Fourier, idealizador do "falanstério"; o urbanista "técnico-reformador" barão de Haussmann, com suas radicais reformas no centro histórico de Paris, de onde foi prefeito; e Jean Baptiste André Godin, que transformou em realidade social a utopia de Fourier, construindo o "familistério" de Guise, na França, que funcionou por 110 anos! Em seguida, estudamos Corbusier, fundador do moderno urbanismo, Levi-Strauss (incluído por um capricho de Bárbara, plenamente justificado), Alain Touraine, Henri Lefebvre e Manuel Castells, que teve forte influência sobre urbanistas da América Latina.

Vamos chegando agora na Escola Anglo-saxônica do Reino Unido. "Se os teóricos alemães se destacam por seu interesse pela história e cultura, privilegiando a dimensão do tempo, e os franceses pela racionalidade e utopia, privilegiando a dimensão do espaço, os autores reunidos na escola inglesa se destacam por seu pragmatismo e utilitarismo". Estudam-se, aqui: o renascentista Thomas Morus (inclusão justificada porque sua utopia da cidade de Amaurorum antecipou idéias que somente anos depois viriam a vingar); Ebenezer Howard, inventor da cidade-jardim; Patrick Geddes e Raymond Unwin, que desenvolveram a idéia da cidade-jardim como forma adequada para resolver boa parte dos problemas urbanos, antecipando uma preocupação ecológica e social; e, Peter Hall, a quem Bárbara dedica um tópico mais amplo, pois, em seu vasto estudo, ele mostra a contribuição cultural das cidades históricas, que tornaram a humanidade mais rica, refinada e cintilante.

A Escola Anglo-saxônica americana é estudada em seguida. Os americanos, que pensaram a questão urbana, a partir dos séculos XIX e XX, foram influenciados por teóricos ingleses como Robert Owen, com seu socialismo utópico, e E. Howard e Peter Hall, que foi lecionar urbanismo e planejamento urbano na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Tiveram também influência dos sociólogos G. Simmel, Max Weber e de outros pensadores da tradição alemã.

Vemos, então, às reflexões e estudos da Escola de Chicago _ que tratam, a partir de uma base empírica, do multiculturalismo que caracteriza a cidade moderna, com as várias etnias que a compõem, com suas tradições, línguas, hábitos e conflitos _ de Lewis Mumford (a história da cultura urbana), Richard Sennett (a visão pós-moderna da cidade) e Saskia Sassen (a volta ao realismo urbano). Robert Park, nome célebre da Escola de Chicago, defende a tese de que o fenômeno urbano precisa ser abordado com base em uma ecologia social. Das inúmeras publicações americanas na área de sociologia urbana, Bárbara indica uma seleção de leituras para quem quer se aprofundar nessa escola.

Aqui terminamos a flânerie sobre os teóricos da cidade, e entramos num tema inédito: a recepção, no Brasil, das teorias da cidade dos pensadores apresentados. Ou seja, Barbara verifica e analisa as escolas que exerceram maior influência sobre os teóricos da cidade, urbanistas e arquitetos brasileiros, e como essa influência se transformou em práticas educacionais, em projetos de intervenção urbana, em planejamento e realização de cidades novas no Brasil.

Se a Escola Alemã, do pensamento histórico e culturalista, não fez escola no Brasil, isso não aconteceu com relação à influência exercida pela Escola Francesa. O grande reformador de Paris, Haussmannm, teve seus procedimentos de modernização e saneamento imitados em três cidades brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo e Santos. No entanto, quem exerceu a maior influência sobre uma geração de urbanistas e arquitetos formados na década de 1930 foi Le Corbusier, especialmente no caso de Lúcio Costa. Peter Hall disse que Brasília pode ser considerada um "quase-projeto" corbusieriano, pois concretiza boa parte dos princípios consolidados na Carta de Atenas. Touraine, teórico dos movimentos sociais urbanos na América Latina e no Brasil, destaca-se como influência marcante tanto sobre a teoria quanto sobre a prática de planejamento e intervenção urbana no Brasil.

E, last but not least, a autora fala da megalopolização de quatro cidades, como um novo padrão de urbanização, caracterizado pela "cidade partida": Buenos Aires, Cidade do México, São Paulo e Rio de Janeiro. Bárbara teoriza sobre as causas e conseqüências da megalopolização e o futuro das megalópoles na América Latina.

Enfim, a autora nos presenteia com um texto encantador, recomendado não somente aos especialistas da questão urbana, mas também a todos os interessados em se envolver na compreensão da cidade onde vivem e daquelas que visitam.

 

 

(Recebido para publicação em março de 2007)
(Aceito em agosto de 2007)