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Caderno CRH

Print version ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.23 no.58 Salvador Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792010000100004 

DOSSIÊ

 

Ressituando a gentrificação: a classe popular, a ciência e o estado na pesquisa urbana recente1

 

Loïc Wacquant*

 

 


Este artigo amplia o diagnóstico de Tom Slater sobre as causas da gentrificação da pesquisa recente sobre gentrificação.2 Ele argumenta que o deslocamento de denúncia para celebração da gentrificação, a elisão do deslocamento dos residentes estabelecidos e o foco eufemístico em "mesclagem social" participam de um padrão de invisibilidade da classe operária na esfera pública e na investigação social. Essa obliteração do proletariado na cidade é reforçada pela heteronomia crescente da pesquisa urbana, na medida em que ela se torna mais ligada estreitamente aos interesses dos governantes da cidade. Ambas as tendências revelam e incitam a transformação do papel do Estado, de provedor de assistência social para populações de renda mais baixa para o de fornecedor de serviços e amenidades empresariais para urbanitas de classe média e alta , entre os quais a limpeza, no ambiente construído e nas ruas, dos detritos físicos e humanos engendrados pela desregulação econômica e o corte de gastos de previdência social. Para construir melhores modelos do nexo em transformação entre classe e espaço na cidade neoliberal, precisamos ressituar a gentrificação numa perspectiva mais ampla, revisando a análise de classe para capturar a (de)formação do proletariado pós-industrial, resistindo às seduções das problemáticas pré-fabricadas das ações políticas e dando destaque ao Estado como produtor da desigualdade socioespacial.

Palavras-chave: gentrificação, espaço urbano, classes, política, sociologia urbana.


This article amplifies Tom Slater's diagnosis of the causes of the gentrification of recent gentrification research. It argues that the shift from the denunciation to the celebration of gentrification, the elision of the displacement of the established residents, and the euphemistic focus on `social mixing' partake of a broader pattern of invisibility of the working class in the public sphere and social inquiry. This effacing of the proletariat in the city is reinforced by the growing heteronomy of urban research, as the latter becomes more tightly tethered to the concerns of city rulers. Both tendencies, in turn, reveal and abet the shifting role of the state from provider of social support for lower-income populations to supplier of business services and amenities for middle and upper-class urbanites among them the cleansing of the built environment and the streets from the physical and human detritus wrought by economic deregulation and welfare retrenchment. To build better models of the changing nexus of class and space in the neoliberal city, we need to relocate gentrification in a broader and sturdier analytic framework by revising class analysis to capture the (de)formation of the postindustrial proletariat, resisting the seductions of the prefabricated problematics of policy, and giving pride of place to the state as producer of sociospatial inequality.

Keywords: gentrication, urban space, class, politics, urban sociology.


Cet article amplifie le diagnostic de Tom Slater sur les causes de l´anoblissement dans la recherche actuelle sur l´anoblissement. L´argument est que passer de l´accusation à la célébration de l´anoblissement, faire l'élision du déplacement des résidents établis et mettre l'accent sur la "fusion sociale", véritable euphémisme, tout cela contribue à un modèle d'invisibilité de la classe ouvrière dans le domaine public et dans la recherche sociale. Cette occultation du prolétariat dans la ville est renforcée par l'hétéronomie croissante de la recherche urbaine, dans la mesure où elle est chaque fois plus étroitement liée aux intérêts des dirigeants de la ville. Ces deux tendances démontrent et incitent l´État à passer de son rôle de prestataire de services sociaux en faveur des populations à faibles revenus à celui de fournisseur de services et d´avantages pour les citadins de la classe moyenne et haute comme le nettoyage des rues, le retrait des détritus physiques et humains engendrés par le déséquilibre économique et la réduction des dépenses de protection sociale. Afin de construire de meilleurs modèles de ce lien, en transformation, entre classe et espace dans la ville néolibérale, il faut resituer l´anoblissement dans une perspective plus large. Faire une révision de l'analyse de classe s´impose, pour saisir la (dé)formation du prolétariat postindustriel, tout en résistant aux séductions des problématiques préfabriquées des actions politiques et en mettant en évidence l'État en tant que producteur d'inégalités socio-spatiales.

Mots-clés: anoblissement, espace urbain, classes, politique, sociologie urbaine.


 

 

O artigo provocador de Tom Slater sobre The Eviction of Critical Perspectives from Gentrification Research [A evicção de perspectivas críticas na pesquisa em gentrificação] é uma advertência oportuna para os estudiosos de classe, espaço e ação política na cidade. Ele aponta para uma guinada surpreendente e uma tendência perturbadora nos estudos recentes sobre gentrificação, nos termos dos quais a encampação de áreas operárias por residentes e atividades de classe média e alta é crescentemente apresentada como um bem coletivo, senão como um boom. Ao focalizar as práticas e aspirações dos gentrificadores de maneira estreita e com lentes conceituais cor-de-rosa, para a quase completa desconsideração dos ocupantes postos de lado e expulsos pelo redesenvolvimento urbano, esse conhecimento papagueia a retórica empresarial e governamental reinante, que equipara a reforma da metrópole neoliberal com o advento de um paraíso social de diversidade, energia e oportunidade. Mas o diagnóstico de Slater das facetas e causas do que pode ser formulado como a gentrificação da pesquisa em gentrificação após o fim da era fordista-keynesiana não aprofunda o bastante e, como resultado, seu apelo para "resgatarmos o termo daqueles que edulcoraram o que há nem tanto tempo era `um mundo sórdido'" (Slater, 2006, p. 737) corre o risco de não ser suficiente para seus objetivos tanto na frente científica como na política.3

O trânsito da denúncia ácida para a celebração superficial da gentrificação, a elisão do deslocamento dos residentes estabelecidos dos guetos de status socioeconômico mais baixo, o foco insípido em "mesclagem social" e a evocação eufemística da "residencialização" não são desenvolvimentos isolados peculiares ao estudo de melhoramento de bairros. Eles participam e compartilham um modelo mais amplo de invisibilidade da classe operária na esfera pública e na investigação social ao longo das últimas duas décadas. Essa obliteração literal e figurada do proletariado na cidade é reforçada pela heteronomia crescente da pesquisa urbana, na medida em que ela se torna mais estreitamente ligada aos interesses e perspectivas dos governantes da cidade, e correspondentemente desligada das agendas teóricas autodefinidas e autopropelidas. E, por sua vez, ambas as tendências revelam, confirmam e incitam o papel em transformação do Estado, de provedor de assistência social para populações de renda mais baixa a fornecedor de serviços e amenidades empresariais para urbanitas de classe média e alta principalmente, entre eles, a limpeza, no ambiente construído e nas ruas, dos detritos físicos e humanos engendrados pela desregulação econômica e o corte de gastos de bem-estar social, de modo a renovar a cidade como local aprazível de e para o consumo burguês (Wacquant, 2009). Eu tomo cada uma dessas questões em sequência, com vistas a aguçar e ampliar a exortação de Slater sobre a reflexão crítica na pesquisa em gentrificação.

 

A CLASSE OPERÁRIA DESVANECENTE NA ESFERA PÚBLICA E NA PESQUISA URBANA

Qualquer estudo rigoroso de gentrificação pareceria, ex definitionis, agrupar as trajetórias dos membros estabelecidos das classes mais baixas e dos recém chegados de classes mais altas, disputando o destino da área reformada, pois esse nexo de classe forma o próprio coração do fenômeno (Glass, 1964; Lees et al., 2007). Não obstante, Slater relata que os deslocamentos sociais e espaciais causados pelo melhoramento de bairros virtualmente desapareceram da pesquisa recente, e ele argumenta que "a razão por que o deslocamento foi deslocado `é essencialmente metodológica'" (Slater, 2006, p. 748). Mas a ausência física daqueles desalojados do bairro não chega a explicar por que os pesquisadores não alargam o escopo de sua observação a fim de capturar sua peregrinação pelo espaço urbano, ou não recorrem a metodologias diferentes (como rastrear um painel de ex-moradores ou levantar histórias de vida estendidas) para documentar a turbulência habitacional que fermenta a base da estrutura urbana. Certamente, esses obstáculos "metodológicos" não embaraçaram a geração fundadora dos estudiosos da gentrificação! A evaporação empírica dos exilados da classe operária da literatura sobre áreas renovadas não resulta de técnicas inadequadas de pesquisa: ela espelha a fragmentação objetiva da classe operária industrial, na encarnação histórica na qual nós a conhecemos durante o longo século (1870-1970) do industrialismo, culminando com a maturação conjunta do regime de produção fordista e do Estado keynesiano, e a sua marginalização correlata nos campos político e intelectual.

Com a desindustrialização e o deslocamento para empregos de serviço desregulados, a expansão do desemprego em massa e da instabilidade do trabalho, e a universalização da escolaridade como meio de acesso até para empregos desqualificados, a classe operária unificada e compacta, que ocupava a boca de cena da história até a década de 1970, se contraiu, fragmentou e dispersou. Juntamente com empregados de baixo nível do setor de serviços, os trabalhadores continuam a compor a maioria da população ativa da maioria dos países (Marchand e Thélot, 1997; Wright, 1997), mas sua morfologia foi refeita mediante o aprofundamento das divisões de qualificações, status do emprego e estratégia de reprodução, bem como pela dispersão espacial. Muitas famílias operárias deixaram habitações públicas, ingressaram em condomínios tract housing ou migraram para fora da cidade em busca de alojamento mais barato. Mais crucialmente, essas mudanças morfológicas foram acompanhadas por uma desmoralização e desvalorização simbólica coletivas no debate cívico e científico, enquanto os sindicatos declinavam e os partidos de esquerda se moviam para a direita. As classes médias educadas e os paladinos dos setores financeiro, cultural e tecnológico que conduzem o capitalismo neoliberal agora ocupam o centro cultural e eleitoral; seus pontos de vista e aspirações dominam a discussão pública e orientam igualmente as ações de políticos e governos. Existem operários, com certeza, mas a classe operária como tal é antiquada, inescrutável e despercebida, senão invisível.4

Em vez de rastrear os mecanismos e modalidades de decomposição de classe e seus correlatos espaciais com o mesmo interesse com que lidaram com consolidação e conflito de classe numa era anterior e em vez de sondar como a desproletarização e a informalização do emprego estão moldando o proletariado urbano emergente da virada do século, os pesquisadores deram as costas a isso, ao tempo em que os estudos clássicos sobre "bairros tradicionais de classe operária" dissecados por Topalov (2003) desapareceram, sendo substituídos por investigações sobre etnicidade e segregação, por um lado, e pobreza urbana e criminalidade de rua, por outro. Para cada livro sobre áreas de classe mais baixa, focalizando a estrutura social e a vida cotidiana entre trabalhadores (como Schwartz, 1990, e Kefalas, 2003), há dúzias centrados sobre isolamento racial, tensão étnica e sucessão cultural (e.g., Hartigan, 1999; Small, 2004; Sharman, 2006; Wilson e Taub, 2006), e mais uma dúzia sobre imigração, violência e economia informal (Bourgois, 1995; Lepoutre, 2005; Smith, 2005; Venkatesh, 2006).

À base da ordem metropolitana, a linguagem de classe foi suplantada pelos tropos da "subclasse", nos Estados Unidos, e da "exclusão", na Europa Ocidental, onde quer que bairros de classe operária tenham sido submetidos à involução, e pelo tema da "regeneração" e "renascimento" naquelas áreas assumidas por classes mais altas que migram de retorno à cidade dual. Quando pesquisadores da gentrificação ignoram as tribulações de residentes de classe operária deslocados por aluguéis cada vez mais caros, opções residenciais minguantes e políticas de Estado que apoiam o desenvolvimento empresarial e o assentamento da classe média, eles estão seguindo o modelo geral de cegueira de classe dos pesquisadores urbanos, exatamente quando as desigualdades de classe se agudizam diante dos seus olhos.5

A crescente heteronomia da investigação urbana

O colapso da classe operária industrial não é a única causa para o seu virtual desaparecimento da investigação social e para a reencarnação de seus territórios estabelecidos nas figuras do "gueto étnico" e da região infame de vício e violência (Wacquant, 2008). Outro fator maior aqui em jogo é a subserviência crescente da pesquisa urbana aos interesses, categorias e disposições dos fazedores de políticas e de opinião.

Há vinte anos, as investigações sobre classe e cultura na cidade eram marcadas por batalhas das escolas teóricas que disputavam o domínio intelectual: ecologia humana, marxismo, política econômica weberiana e uma corrente culturalista insurgente, alimentada por teorias de identidade, feminismo e pós-modernismo (Logan, Molotch, 1987; Hayden, 1986; Walton, 1990). Mas, no novo clima de desencanto político e de retirada do Estado, engendrado pelo colapso concorrente da União Soviética e pela hegemonia ascendente do neoliberalismo, o radicalismo intelectual retrocedeu e depois se separou da realidade. As "falsas promessas do marxismo" e a "miragem da mudança cultural" para pegar emprestadas as palavras de Michael Storper (2001) deixaram um vazio teórico escancarado, o qual logo foi preenchido pelas atrações prosaicas de conduzir pesquisas sobre questões tópicas e pela urgência de encontrar financiamentos.6 Hoje em dia, a pesquisa urbana é orientada principalmente pelas prioridades dos gestores do Estado e pelas preocupações da mídia dominante. O panorama das investigações sociológicas recentes sobre The Texture of Hardship [A textura da privação] na metrópole norte-americana abre com essa nota:

A década que se estende de 1995 a 2005 viu muitas novas vias de pesquisa se desenvolverem entre sociólogos qualitativos interessados em pobreza. A reforma da Previdência Social, aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos em 1996, chamou a atenção para o mundo do trabalho de baixa renda conforme jornalistas e pesquisadores igualmente começaram a perceber que a pobreza era tanto, senão mais, uma questão de salários inadequados quanto uma consequência da dependência da Previdência Social. Os empregadores emergiram como atores cujas expectativas, orientações normativas e distância cultural do mundo da baixa renda desempenham um papel poderoso na classificação dos que procuram emprego como histórias de sucesso e fracassos excluídos. Os pesquisadores deram uma atenção renovada a modelos de formação familiar entre os pobres (Newman, Massengill, 2006, p. 423).

"A reforma da Previdência Social chamou a atenção": esse trecho é eloquente sobre como os desenvolvimentos políticos e as carreatas de financiamento que eles criam conduzem a agenda intelectual. Na década de 1980, a "subclasse" chegou a monopolizar a atenção dos pesquisadores norte-americanos, seduzindo inicialmente fundações filantrópicas e depois jornalistas e formuladores de políticas, com suas conotações morais e raciais repugnantes (Katz, 1989). Depois de 1996, da noite para o dia, a noção foi descartada sem protestos do palco intelectual, dando lugar a estudos sobre a brava gente de baixa renda que fazia a sua transição da "previdência para o trabalho", sobre as famílias que as sustentavam, os empregadores que se apressavam ou se recusavam a contratá-los, e os burocratas que supervisionavam as suas carreiras (compare, por exemplo, Jencks, Peterson, 1991, com Hays, 2003). Na União Europeia, o Programa de Metas Socioeconômicas sobre Exclusão e Integração desviou semelhantemente os pesquisadores do estudo do desemprego em massa e seu impacto espacial para a nova problemática burocrática de "exclusão" e "integração". Na França, Holanda, Alemanha e Bélgica, as tensões políticas em torno da imigração pós-colonial e da deterioração da habitação pública alimentaram uma onda de estudos e de programas de avaliação de políticas de "mesclagem de bairros", "construção comunitária" e combate à criminalidade, todos centrados em bairros operários, mas evitando escrupulosamente as fundações socioeconômicas da degradação urbana, ficando em bons termos com o intento de políticos de desdobrar território, etnicidade e insegurança como cortina de fumaça para obscurecer a dessocialização do trabalho assalariado e seu impacto nas estratégias de vida e nos espaços do proletariado emergente (Wacquant, 2006).

Assim, quando pesquisadores da gentrificação apresentam relatos cor-de-rosa sobre a "renovação" do bairro como uma "solução urbana" para os males da decadência socioespacial, em fileira cerrada com as opiniões das elites governantes e empresariais, eles estão em boa companhia: o seu é apenas um caso agudo da doença comum da heteronomia que aflige, com virulência crescente, amplos setores da pesquisa social em geral e da pesquisa urbana em particular.7

O Estado como dono de casa e agência de purificação das ruas

É revelador que os 26 volumes da International Encyclopedia of the Social and Behavioral Science [Enciclopédia Internacional da Ciência Social e Comportamental], organizada por Neil Smelser e Paul Baltes (2004), não contenha uma entrada sobre gentrificação. O termo aparece como subtema sob as entradas "revitalização do bairro" e "desenvolvimento comunitário" e "bairro", onde se lê:

No interior do grupo de parcerias público-individuais, o fenômeno mais proeminente é a gentrificação, a entrada de residentes de classe média em bairros de baixa renda, usualmente na vizinhança de áreas empresariais centrais pulsantes de cidades. A despeito da frequentemente percebida e amiúde denunciada consequência de deslocamento de residentes veteranos pobres, os processos de gentrificação têm sido encorajados pelas câmaras municipais na Europa e na América, especialmente através de regulamentações capacitantes e de isenção de impostos. Outro processo nesse grupo é o de habitação e melhoramento do bairro por residentes beneficiados. A gente local investe recursos próprios na melhoria do habitat, e frequentemente consegue receber pelo menos alguma assistência de órgãos voluntários e públicos. E, por último, mas não de somenos importância, está o melhoramento de bairros por imigrantes... O que é comum a esses três processos é que geralmente eles começam como investimentos privados espontâneos, os quais posteriormente recebem apoio de agências públicas locais. Juntos, eles estão mudando partes de nossas velhas cidades e bairros (Carmon, 2004, p. 10493).

Eu cito esse artigo não só porque confirma a tese principal de Slater, mas porque, embora mencione o papel das agências públicas, ele subestima vastamente o seu ritmo, o seu alcance e os seus efeitos. É mais que tempo de os estudiosos da gentrificação reconhecerem que o principal motor por trás da (re)alocação de pessoas, recursos e instituições na cidade é o Estado.

Slater (2006, p. 746-7) arrola, entre as causas da evicção de perspectivas críticas sobre gentrificação, "a resiliência das disputas teóricas" que paralisaram e esterilizaram o debate. Mas a oposição ritualizada entre a explicação econômica de Neil Smith e a tomada culturalista de David Ley que Slater recapitula, como o tropo teórico dominante da pesquisa em gentrificação, é problemática pelo que deixa de fora: política, programas de ação e o Estado. A tese do "diferencial de renda", favorecida pelos analistas neomarxistas, a abordagem da "distinção cultural", adotada pelos neoweberianos ou estudiosos pós-modernistas (que evocam a fraseologia de Bourdieu tão prontamente quanto desconsideram os seus princípios teóricos), e a tese da globalização inspirada por Saskia Sassen, todas deixam de fora o papel crucial do Estado na produção não só do espaço, mas do espaço de consumidores e produtores de habitação. Logan e Molotoch (1987) estavam certos em insistir que lugar não é uma mercadoria comum, mas um campo de batalha entre valor de uso e valor de troca. Mas eles não vão longe o bastante em sua especificação dos parâmetros dessa batalha e, ficando em bons termos com o senso comum estadunidense, subestimam grosseiramente o peso de Leviatã nela existente. Pierre Bourdieu ([2000] 2005, p. 30-1) mostrou, em As estruturas sociais da economia, que a habitação é "o produto de uma dupla construção social, para a qual o Estado contribui crucialmente", modelando o universo de construtores e vendedores mediante políticas fiscais, bancárias e regulatórias, no lado econômico, e moldando as disposições e capacidades dos compradores de casa (inclusive a propensão para alugar ou comprar), no lado social.

Essa dupla estruturação estatal do "mercado" da habitação é então triplicada pela gestão política do planejamento urbano e regional, por mais que suas agências possam ser fracas. Pois, como nos lembraram Tedd Gurr e Desmond King (1987, p. 4) duas décadas atrás, "aqueles que detêm e usam o poder do Estado podem permitir que o destino de cidades seja determinado principalmente pela economia privada, mas isto é mais uma questão de escolha pública do que uma necessidade férrea." O peso do Estado central e local é ainda mais decisivo nos bairros de classe mais baixa, na medida em que os trabalhadores e os pobres são mais dependentes de provisão pública para ter acesso à habitação alugada (Harloe, 1995). Mas o papel do Estado na gentrificação certamente não para na construção e distribuição de habitações ou na conformação do conjunto de compradores de casas: ele se estende à gama de políticas que impactam a vida urbana, desde a manutenção de infraestrutura de escola e transporte até a provisão de amenidades culturais e policiamento. Sem as campanhas de policiamento agressivo das ruas, fomentadas pela implementação do Estado penal no interior e em torno de bairros de relegação ao longo da década passada (Herbert, 2006; Wacquant, 2009), as classes médias não poderiam ter se mudado para o gueto e a gentrificação não teria se desenvolvido além da aspersão de "ilhas de revitalização dentro de mares de decadência" (Carmon, 2004, p. 10493). De um modo mais geral, o deslocamento histórico do Estado keynesiano dos anos 1950 para o Estado neodarwinista do fin de siècle, praticando o liberalismo econômico no topo e o paternalismo punitivo na base, envolve uma mudança oceânica na estruturação do melhoramento de bairros. Aqui, a literatura sobre gentrificação examinada por Slater reproduz para essas áreas a tendência geral da política pública de invisibilizar o pobre urbano, seja dispersando-os (como com a demolição e a desconcentração da habitação pública), ou contendo-os em espaços reservados (áreas de perdição e estigmatizadas e o sistema prisional expandido ao qual eles são preferencialmente vinculados).

 

CONCLUSÃO

Para construir modelos melhores do nexo em transformação entre classe e espaço na cidade, nós precisamos fazer mais do que renovar o espírito crítico que animou os pioneiros da pesquisa em gentrificação em razão de um sentimento de lealdade intelectual e reverência ao seu engajamento político: nós precisamos ressituar a gentrificação numa perspectiva analítica mais ampla e mais resoluta. Em primeiro lugar, nós temos de restabelecer e revisar a análise de classe para capturar a (de)formação do proletariado pós-industrial e inscrever a evolução das "áreas revitalizadas" no seio das estruturas totais do espaço social e urbano e suas renovações. Em segundo, nós devemos resistir melhor às seduções das problemáticas pré-fabricadas de agendas de planos de ação e de pesquisa avançada, ostentando uma separação maior dos imperativos dos governantes das cidades e trazendo conosco uma carga teórica mais elevada. E, em terceiro, nós devemos dar lugar de destaque ao Estado como gerador de desigualdade socioespacial na metrópole dual. Pois, assim como o destino dos bairros de relegação que supuram ao fundo do sistema de lugares que compõe a metrópole (Wacquant, 2008, p. 283-4), a trajetória das áreas gentrificadas no século XXI é economicamente subdeterminada e politicamente sobredeterminada. Cabe a nós, portanto, restaurar a primazia do político em nossos esforços para dissecar analiticamente e praticamente redirecionar a transformação social da cidade neoliberal.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação em janeiro de 2010
Aceito em março de 2010

 

 

Loïc Wacquant - PhD em Sociologia pela Universidade de Chicago. Professor de Sociologia da University of Califórnia-Berkeley e pesquisador do Centre de Sociologie Européenne, Paris. Autor de vários livros sobre teoria sociológica, desigualdades e segmentação urbana, dominação racial, violência e corpo, onde se destacam, no Brasil: Os condenados da cidade (Revan, 2001); Corpo e alma (Relume Dumará, 2002); Punir os pobres (Revan, 2004); O mistério do ministério (Revan, 2005) e As duas faces do gueto ... (Boitempo, 2007). O seu livro An invitation to reflexive sociology com Pierre Bourdieu (1992) foi traduzido para dezenove idiomas. É co-fundador e co-editor da revista Ethnography.

* PhD em Sociologia pela Universidade de Chicago. Professor de Sociologia da University of Califórnia-Berkeley e pesquisador do Centre de Sociologie Européenne, Paris. Department of Sociology, 410 Barrow Hall - University of California, Berkeley, CA 94720, USA. loic@berkeley.edu
1 Tradução: Renato Aguiar.
2 N. Editor: o autor usa "gentrificação da pesquisa" para, num jogo metafórico, indicar que a análise do processo de gentrificação resulta também de um deslocamento da perspectiva analítica dos estudos urbanos e da ação política sobre as cidades no contexto contemporâneo, que desconsidera as relações de classe na esfera pública e na investigação social.
3 Um argumento mais elaborado do que pode ser apresentado aqui, devido a limitações de espaço, discutiria os momentos analítico e político separadamente, procedendo, em seguida, à sua vinculação. O raciocínio seria o mesmo com gentrificação, conforme é desdobrado para extrair as implicações de "polarização urbana a partir de baixo" para a teoria social e as políticas públicas (Wacquant, 2008, p. 247-56).
4 Para um contraste brutal com a centralidade da classe operária numa era anterior da pesquisa inspirada pelo marxismo, leia o relato analítico de Katznelson (1992: 203-56) sobre como "Working Classes Map the City [Classes operárias desenham a cidade]".
5 Desde 2000, esse periódico publicou tão somente um artigo que apresentava as palavras "classe operária" em seu título (Watt, 2006), de um volumoso total de nove com a palavra "classe" (mais amiúde qualificada por "média" e seus equivalentes). É interessante observar que, entre os termos mais frequentes nos títulos, estão: global/ização, governança, exclusão, escala, movimento social, rede, empresa e etnicidade, isto é, ingredientes principais da "neolíngua neoliberal" (Bourdieu; Wacquant, 2001).
6 A análise de Milicevic (2001) da "desradicalização" da Nova Sociologia Urbana dos anos 1960 e 1970 poderia ser estendida, com qualificações adequadas (deslocando-se do nível das interações pessoais para aquele das estruturas de posições no campo intelectual), da Grã-Bretanha à França e aos Estados Unidos.
7 É claro, o cabo de guerra entre autonomia e heteronomia é atravessado de tensões e contradições que precisariam ser mapeadas. Porém o pêndulo moveu-se definitivamente em favor daquela última. Na França, por exemplo, os sociólogos da cidade mudaram-se do "polo crítico" para o "polo técnico" e de orientações acadêmicas para profissionais (Lassave, 1997, p. 23-9); enquanto a geração estruturalista negou a si mesma subvertendo sistematicamente demandas do Estado, a tropa corrente as acompanhou amplamente e até antecipou. A mutação do trabalho de Jacques Donzelot, de crítico foulcaultiano da disciplina do Estado a advogado do Estado como "animador da sociabilidade do bairro" é emblemática dessa deriva coletiva.