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Caderno CRH

Print version ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.24 no.62 Salvador May/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792011000200014 

RESENHA

 

Um click nos movimentos sociais no Brasil contemporâneo: mobilizações, redes e intersecções

 

 

Deni Ireneu Alfaro Rubbo

 

 

GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais e redes de mobilizações civis no Brasil contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 2010. 190 p.

Especialmente na última década, as discussões em torno dos movimentos sociais ficaram restritas, através da maior parte da comunidade científica brasileira e latino-americana, a temas relacionados à "institucionalização" das práticas coletivas civis. Na contramão dessa literatura, o novo livro de Maria da Glória Gohn (2010) é um convite instigante para a compreensão da heterogeneidade dos movimentos contemporâneos, pois mapeia as formas mais gerais de demanda e de lutas, suas práticas articulatórias e, desse modo, cria pontos de diálogo, intersecções. O objetivo do livro, como enuncia a socióloga, não é a tarefa de catalogar os movimentos sociais da atualidade, mas apresentar uma "foto" recente do universo social das ações coletivas condensadas em movimentos sociais e em redes de mobilizações para, com isso, mostrar ao leitor que é preciso "atravessar o rio para conhecer o outro, o diferente", como fez o rebelde Che Guevara.

Para tanto, coube à autora, em um primeiro momento, recuperar a conjuntura social através das categorias analíticas que se destacam no debate da sociologia dos movimentos sociais no Brasil e na América Latina. O desdobramento está assentado a partir das experiências históricas recentes dos movimentos sociais (campesino-indígenas, étnicos, insurgentes): eles não são, segundo as palavras da autora, "apenas reativos", mobilizados tão somente por necessidades, mas igualmente exercem uma "reflexão sobre sua própria existência", incorporando, em medidas crescentes, um campo de temáticas amplas que perpassa a totalidade das instâncias reguladores da vida social. As ações coletivas atuais, para a autora, seriam expressões concretas de ressiginificação do ideário iluminista, ancorado nos pilares da igualdade, fraternidade e liberdade: "a igualdade é ressignificada com a tematização da justiça social; a fraternidade se retraduz em solidariedade; e a liberdade associa-se ao princípio da autonomia – da constituição do sujeito, não individual, mas coletivo." (Gohn, 2010, p.16). Tais convulsões sociais contemporâneas estariam associadas a uma mesma conjuntura de internacionalização dos processos econômicos e culturais, reconfigurando, igualmente, uma nova morfologia na geopolítica contemporânea, na medida em que o "alargamento das fronteiras dos conflitos e tensões sociais" impõe-se de maneira mais nítida.

As metamorfoses conjunturais foram acompanhadas, também, por recriações no campo conceitual. Observando a emergência dessas novas categorias, a autora traça um breve mapa da produção teórica atual sobre os movimentos sociais, apontando as principais mudanças ocorridas em, pelo menos, quatro categorias, a saber: o território, que, em um primeiro momento, seria associado a um espaço físico, passando doravante a se articular "à questão do direito e a disputas pelos bens econômicos", ao passo que também assume pontos de contato com as chamadas redes, transpondo as fronteiras nacionais e formando novos espaços de luta; a categoria identidade, por outro lado, não mais estaria "definida de acordo com o posicionamento dos membros de um grupo social" (p.31), ou seja, pré-construída, mas seria agora uma identidade em construção, modelada para a inclusão de determinados sujeitos, concatenados no processo de luta, no campo do possível; a rede social aparece como outra categoria, quiçá até mais importante que o movimento social. Todavia, a larga utilização do conceito de rede social provocaria, constata a autora, uma polissemia da categoria – além de recorrente modismo e ecletismo vulgar –, dificultando, em certo sentido, sua compreensão. Diante disso, destaca as principais matrizes teórico-analíticas sobre as chamadas redes e – apoiando-se nas ponderações de Ilse Sherer-Warren – as considera como "uma possibilidade de retratar a sociedade civil, captando uma integração de diversidades." (p.33). De todas elas, a categoria política talvez seja a que mais sofreu alterações no escopo teórico: o perigo de seu total esquecimento, como já preconizava Hannah Arendt há décadas, parece não ter sido perturbado pelas modas teóricas que decretaram seu colapso. A política tornou-se, então, sinônimo de pertencimento ao círculo vicioso constitucional, na sonolenta rotina da gestão e da regularidade institucional. A "privatização" do mundo proporcionou um estreitamento do serviço público e do bem comum. No entanto, os segmentos subalternos da sociedade civil passariam a reabilitar a política como ponto estratégico, transformando-a na "arte de negociação", não deixando de ser a "reivindicação da parte dos que não tem parte", conforme assinalou Jacques Ranciére.

A partir dessas considerações conjunturais e analíticas, a autora procura mapear os protagonistas que emergem nesse novo cenário brasileiro, focalizando áreas temáticas e seus eixos de manifestação. Esse mapeamento explicita um novo quadro de associativismo brasileiro, dividido em três blocos: 1) a luta por direitos sociais, políticos, econômicos e culturais, protagonizada majoritariamente pelos "de baixo": mulheres, afrodescendentes, índios, grupos de imigrantes, camponeses etc.; 2) a luta por melhores condições de vida e trabalho, de acesso e condições para terra, moradia, saúde, emprego, salário etc.; e 3) os movimentos transnacionais cuja maior expressão é o Fórum Social Mundial, que atuam em fóruns, plenárias, colegiados e articulam-se, dessa forma, com outros movimentos e são, na avaliação da autora, "a grande novidade deste milênio". Seja como for, os movimentos sociais e as mobilizações civis, não raras vezes, penetram e interagem nesses três blocos, como, por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Via Campesina, expressões dessa prática articulatória múltipla, desenhando, nesse quadro, um emergente internacionalismo das forças sociais camponesas.

A autora examina, portanto, dez eixos temáticos: (1) movimentos sociais em torno da questão urbana e que atuam especialmente na questão da moradia (articulados no plano institucional ou em redes de movimentos populares), contra a violência urbana (nas assim chamadas áreas periféricas e em zonas de favelas) e na prestação de serviços públicos (educação, saúde e transporte público); (2) movimentos em torno do meio ambiente, com destaque dos movimentos ambientalistas, articulados em escalas locais, regionais, nacionais e internacionais, cujo principal tema é a defesa de recursos naturais como a água; (3) movimentos identitários e culturais: gênero (mulheres e homossexuais), étnico-raciais (afrodescendentes e indígenas) e gerações (jovens e idosos); (4) movimentos de demandas na área do direito, especialmente em Direitos Humanos (nos presídios, presos políticos e situações de guerra); (5) movimentos ao redor da questão da fome; (6) mobilizações e movimentos na esfera do trabalho (sindicais, contra o desemprego e na produção alternativa da economia solidária); (7) movimentos decorrentes de questões religiosas; (8) mobilizações e movimentos rurais; (9) movimentos sociais de comunicações; (10) movimentos sociais globais (aglutinando boa parte dos anteriores).

Pois bem: o grande mérito da obra é dar uma visão ampla de um conjunto altamente complexo e multifacetado das formações contemporâneas relacionadas às práticas dos movimentos sociais, em diversos territórios, servindo como um instrumento precioso para todos os estudiosos do assunto. A fotografia está batida e o rio está sendo atravessado.

 

 

Recebido para publicação em 09 de setembro de 2010
Aceito em 15 de dezembro de 2010

 

 

Deni Ireneu Alfaro Rubbo - Mestrando em Sociologia pela FFLCH-USP e bolsista CAPES. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em teoria marxista. Atua principalmente nos seguintes temas: marxismo, pensamento social, José Carlos Mariátegui, camponeses, internacionalismo, América Latina e MST. Integra o Laboratório de Estudos Marxistas (LEMARX) da USP. É autor de artigos e resenhas publicado nas revistas Antítese, Plural (USP), dentre outras. deni_out27@uol.com.br