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Caderno CRH
versão impressa ISSN 0103-4979
Cad. CRH vol.25 no.65 Salvador maio/ago. 2012
http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792012000200012
RESENHAS
Transformar a metrópole, igreja católica, territórios e mobilizações sociais em São Paulo, 1970-2000
Maria da Glória Gohn
IFFLY, Catherine. Transformar a metrópole, igreja católica, territórios e mobilizações sociais em São Paulo, 1970-2000. Ed UNESP, 2010, 360p
O livro de Catherine Iffly, Transformar a Metrópole, é fruto de uma tese de doutoramento apresentada na área de Ciência Política da Université Pantheéon-Assas (Paris II), ao final dos anos de 1990, e foi publicado na França em 2004 com o apoio do Ministério de Relações Exteriores, sob o título Eglise catholique, territoires et mobilizations au Brésil. A versão em português, editada pela UNESP, traz uma importante contribuição para a memória histórica das lutas e movimentos sociais em São Paulo, entre os anos de 1970-2000. Tomando como foco central de investigação as ações da Igreja Católica naquele período, a autora faz a reconstrução dessas ações focalizando atores relevantes na época, nos diferentes lugares da hierarquia eclesial. Suas fontes de dados incluem um rico acervo de documentos - destacam-se o material produzido por diferentes agentes sociais, jornais, e os documentos oficiais de encontros eclesiais -, assim como um rol exemplar de entrevistas com personagens da época. As ações são analisadas segundo a interação dos membros do clero com outros atores do cenário sociopolítico no período, tais como lideranças populares, membros do poder público e de outras entidades da sociedade civil, instâncias da Igreja, como a CNBB-Confederação Nacional dos Bispos, e a ação ou o diálogo, em certos momentos históricos, com segmentos de outras igrejas ou crenças cristãs. Destaca-se, nessa trajetória o papel de Dom Paulo Evaristo Arns e de alguns bispos que atuaram na capital, a exemplo de Dom Bernardino Sândalo, especialmente na Zona Leste - lócus da investigação empírica da autora.
O livro tem quatro extensos capítulos. O primeiro aborda a "Territorialização religiosa na Arquidiocese de São Paulo". O segundo apresenta a temática dos direitos no período, com o título o "Espaço religioso e a formação de um espaço político". O terceiro focaliza as ações da igreja e dos movimentos sociais em uma região de São Paulo: "Recomposições religiosas e políticas: o caso de São Miguel Paulista". O último capítulo retoma o geral e avança no tempo histórico, apresentando "A ação da Igreja em São Paulo nos anos de 1990".
Destaca-se inicialmente, no livro, o registro e a análise das inovações e mudanças que a Igreja Católica realizou em sua forma de atuar em São Paulo, nos anos de 1970, criando Centros Comunitários (CC) - estruturas arquitetônicas simples, diferentes do modelo predominante até então, de construção de capelas ou templos religiosos nos novos bairros da periferia. Os CCs eram construídos via mutirões populares, nos terrenos adquiridos pela Igreja com verbas advindas da cooperação internacional. Inúmeros Centros Comunitários abrigaram outra inovação na estrutura do modo de agir da Igreja nos anos de 1970 - os Centros de Defesa de Direitos Humanos (CDDH). Com os CC e os CDDH, a Igreja modelou a territorialidade de sua ação de forma descentralizada, incentivando a participação de leigos, em uma cidade dividida entre centro versus periferia, com regiões pobres e sem infraestrutura urbana de transportes, saúde, creches etc., em um momento difícil da vida nacional. Com o regime militar e o forte controle social reinante, esses centros, dotados de infraestrutura e logística, foram espaços para o diálogo, a reflexão e a organização da ação; transformaram-se em espaços de construção da resistência, em espaços de organização e conscientização dos grupos que lá se instalavam. Havia, especialmente nos anos 70 e primeiros anos de 1980, uma fusão entre espaço religioso e espaço de formação sociopolítico.
Orientações advindas dos anos de 1960 do Concílio Vaticano da Igreja e de Conferências na América Latina, como a de Medellín, deram suporte e incentivo para a a ala que desenvolveu a Teologia da Libertação criar Comunidades Eclesiais de Base nos novos espaços comunitários (CCs). O livro apresenta as tensões que permearam essa construção. Os CCs e CDDHs foram estruturas de suporte para as Pastorais, forma por excelência de ação da Igreja junto a camadas e segmentos excluídos. As Pastorais desenvolviam-se via planos estratégicos, tais como a Operação Periferia, lançada em 1972, em São Paulo, por D. Paulo E. Arns. As ações eram descentralizadas, mas a coordenação era centralizada na Arquidiocese de São Paulo.
Do ponto de vista do estudo e da análise dos movimentos sociais, o livro nos apresenta alguns pontos para a atualização dos debates naquele período, tais como a questão do basismo. O texto deixa claro que o basismo dizia respeito à estrutura da ação da Igreja, a forma de participação do povo nas novas ações da Igreja, e não algo que fosse fruto de um projeto ou concepção política de ser contra o Estado, como foi interpretado por vários analistas, críticos das posturas isolacionistas ou de organização da população fora das estruturas convencionais, como partidos e sindicatos. A base de recrutamento e agregação das pessoas era o território, a comunidade de pessoas que vivia em um dado território, e não o social ou a seleção dos vulneráveis na escala socioeconômica, como na atualidade.
Foi essa divisão territorial religiosa que possibilitou também a articulação de forças sociopolíticas, no local de moradia, entre o "povo" e os religiosos. Nessa articulação, profissionais a exemplo de médicos, jornalistas, sanitaristas e assistentes sociais, como também funcionários públicos, desempenharam o papel de mediadores, e (ou) assessores das nascentes organizações populares locais.
Uma representação usual criada sobre os movimentos sociais da chamada "era movimentalista"- nos anos de 1970-1988 - atribuía às dificuldades dos movimentos as limitações de suas reivindicações, tidas como muito localizadas, ligadas a suas necessidades mais imediatas. A própria Catherine incorre nesse erro de interpretação, mas os fatos apresentados no livro nos demonstram, cabalmente, que havia uma articulação entre a luta por direitos civis e a luta pelos direitos socioeconômicos. Os primeiros revelavam-se nas ações em busca de retorno à democracia, contra o regime militar, em ações em que os movimentos se uniam a outras entidades da sociedade civil para protestar contra a violação de direitos humanos e demandar o retorno das eleições no país; a luta pelos direitos socioeconômicos aparecia nas reivindicações por condições mínimas de sobrevivência na grande cidade, tais como moradia, creches, saúde e transportes urbanos. Havia uma pedagogia que apostava no caráter didático da aprendizagem via pequenas ações. Essa ação configurou os territórios da metrópole e justifica o título do livro. A respeito desse último, creio que o título original em francês é mais elucidativo que o título da versão em português, embora fosse pretensioso: Eglise catholique, territoires et mobilizations au Brésil. O subtítulo da versão em português manteve a tríade: igreja, territórios e mobilizações, registrando agora que se trata de São Paulo, datando também os acontecimentos (1970-2000). Registre-se ainda que a categoria território não era muito usual na literatura sociológica até os anos de 1990: era mais restrita à área da geografia. Atualmente, é uma categoria de uso corrente não só nas Ciências Sociais como até nos projetos sociais das ONGs para pedirem verbas ou se apresentarem para concursos e prêmios. Portanto, o livro inovou também nesse aspecto.
Outro ponto relevante no livro e muito atual ainda para os movimentos sociais é a questão da comunicação. Ela foi vital nos anos de 1970-1980, tratada como estratégica pela Igreja ao criar jornais da e na periferia, como o "Grita Povo", e mesmo o Semanário "O São Paulo". Criou-se o CEMI - Centro de Comunicação e Educação de São Miguel Paulista, por exemplo, que desempenhou o papel de um centro de educação popular. Panfletos, faixas, cartazes, cartilhas populares (tendo em vista o grande número de analfabetos), rádios comunitárias e outras formas de comunicação desempenharam o papel de ativar a participação.
Destaca-se também o relato e a análise das consequências na mudança de rumos na orientação da Igreja Católica, a partir do final dos anos de 1980, e seus reflexos na organização e mobilização popular. Ações eclesiais na cidade de São Paulo foram descentralizadas: bispos foram deslocados de suas regiões, Centros Comunitários e Centros de Direitos foram fechados ou redefinidos em suas funções, a cooperação internacional deixou de apoiar trabalhos da linha da Teologia da Libertação etc. A mobilização popular passou a ocorrer em torno de outras causas. Ocorreu o surgimento de novas orientações religiosas dentro da própria Igreja Católica - que já se ressentia da concorrência e da perda de fiéis para outras matrizes religiosas, tais como para a Assembleia de Deus, do bispo Edir Macedo. São criados, no interior da Igreja Católica, os grupos de oração e as novas práticas de espiritualidade individualizantes, presentes na corrente da Renovação Carismática. A autora afirma que o tempo das mobilizações e reivindicações se encerrou nessa nova etapa, mas que a Igreja continuou envolvida politicamente, passando da ação sociopolítica para a ação de ajuda assistencial aos indivíduos. Atualmente, os indivíduos participantes de projetos sociais são tratados como cidadãos no papel, mas, na prática, são usuários e consumidores de políticas sociais de distribuição de renda (bolsa família, renda mínima etc.), ou participantes de cooperativas de produção artesanal e geração de renda. Solidariedade substitui a categoria mobilização, solidariedade estrategicamente articulada via mobilização de recursos e oportunidades dadas pela conjuntura política, e não construídos via processos de participação, reflexão e ação, geradas pela comunidade. Tal comunidade é agora executora de projetos predefinidos, controlados por ONGs e associações, religiosas ou não, mediadoras de processos que atenuam a pobreza, mas não mexem em estruturas e causas.
É interessante também observar que, do ponto de vista teórico, a autora não recorreu às teorias que embasaram a grande maioria dos estudos sobre os movimentos sociais nos anos de 19701990, no Brasil, de matriz marxista, ou estruturalmarxista, ou pós-estruturalista, ou pós-moderna. Dentre os poucos autores citados, com exceção de Bourdieu, a maioria é da corrente norte-americana da teoria da Mobilização Política de Recursos, a exemplo de Charles Tilly e Anthony Oberschall. Aliás, essa corrente, via Sidney Tarrow, tem encontrado, na atualidade, inúmeros adeptos no Brasil, na análise dos movimentos sociais. O curioso é que os atuais adeptos dessa abordagem dizem que ela é "renovada", e que outras, de um passado ainda recente, dos anos 80 etc. seriam páginas viradas. O livro de Catherine é um exemplo de que a abordagem está sendo recuperada, revisitada, mas ela já existia desde os anos de 1990 e, portanto, não é nova, nem elimina as demais. Outro ponto que falta no livro é uma análise mais completa da literatura brasileira do período da pesquisa, sobre os movimentos sociais. Certamente que o foco da autora é a ação da Igreja, e os movimentos são coadjuvantes que entram e saem de cena.
O livro de Catherine é um importante registro histórico de um tempo que passou, mas deixou inúmeros frutos. É um tipo de depoimento-memória. Fruto de um estudo acadêmico, não é um livro de leitura fácil, porque a publicação manteve o formato de tese, com centenas de extensas notas de pé de página, muitas fundamentais para explicar os fatos em tela, que poderiam ser incorporadas ao texto, mas muitas poderiam ser excluídas.
(Recebido para publicação em 27 de setembro de 2011)
(Aceito em 03 de janeiro de 2012)
Maria da Glória Gohn -Doutora em Ciência Política. Bolsista I do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Professora titular da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e da Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Tem experiência na área de Sociologia, Educação e Políticas Sociais atuando principalmente nos seguintes temas: movimentos sociais, participação social, educação não-formal, associativismo e cidadania. Dentre seus livros destacam-se: Novas teorias dos movimentos sociais (Loyola, 2012, 4a ed.); Teorias dos movimentos sociais (Loyola, 2012, 10a ed); Historia dos movimentos e lutas sociais (Loyola, 2011, 6a ed.); Movimentos sociais e redes de mobilizações civis no Brasil contemporâneo (Vozes, 2012, 3a ed); Movimentos sociais e educação (Cortez, 2012, 8a ed). mgohn@uol.com.br
Exclusão social e ruptura dos laços sociais: análise crítica do debate contemporâneo
Claudete Gomes Soares
LEAL, Giuliana Franco. Exclusão social e ruptura dos laços sociais: análise crítica do debate contemporâneo. Santa Catarina: Editora UFSC: Florianópolis, 2011. 233p.
Quais os significados da pobreza, da marginalização, privação material e dos processos de precarização do trabalho na sociedade contemporânea? Quais desafios os novos rearranjos dessa sociedade, ora denominada pós-industrial, da informação, sociedade em redes impõem as ciências sociais e aos analistas sociais? Com quais categorias de análise daremos conta de explicar as novidades que nos cercam? Em que medida essas novidades representam rupturas ou continuidades com um tipo de organização social que convencionamos chamar de sociedade industrial, capitalista, moderna?
Essas são questões que permeiam a problemática em debate no livro de Giuliana Franco Leal. Motivada pela popularização que a noção de exclusão ganhou na sociedade contemporânea, a partir da década de 1990, Leal se debruça sobre uma parte da literatura das ciências humanas (e não apenas sociais): sociologia, ciência política, psicologia social, educação, etc. com o objetivo de recuperar os usos e significados do termo exclusão social evidenciando seus limites enquanto categoria de análise para as explicações dos fenômenos sociais geralmente a ele associado.
É em razão da fragilidade do termo enquanto instrumento de análise que ela se refere a ele como noção e não como conceito. Embora um levantamento bibliográfico possa revelar a popularização do termo nas ciências humanas, evidente no número de títulos e de situações sociais a ele associado, a verdade é que na maioria das vezes ele carece de definição, precisão, rigor. O que leva Leal a classificá-lo como "apoio superficial que não se configura como instrumento analítico que traga algo de verdadeiramente novo para a compreensão da realidade social" (p.12).
A questão que a autora se coloca é se existiria na proliferação dos usos do termo exclusão social algum movimento no sentido de tornar a noção de exclusão mais rigorosa, alçando-a a instrumento de análise social. É na busca por esse movimento que se desenvolve o livro. A autora toma como ponto de partida algo que sugere uma definição, uma regularidade: exclusão como vulnerabilidade, como não acesso aos recursos materiais e imateriais. Para então se lançar sobre as várias perspectivas e olhares sobre o tema da exclusão social e suas implicações teórico-metodológicas. No entanto, diante de um tema tão vasto, ainda era necessário mais um recorte. Entre as várias abordagens da exclusão, o livro se dedica à que trata a exclusão social como fragilização e quebra dos laços sociais.
É no primeiro capítulo que a autora mais se dedica à questão da fragilização e da quebra dos laços sociais: "tecidos pelo trabalho, pelo consumo e pelas relações de sociabilidade primária" (p.25). A presença da bibliografia francesa, predominante neste capítulo, justifica-se pelo pioneirismo dos franceses no emprego do termo exclusão e pela dimensão de sua influencia no debate brasileiro. Neste capítulo, o leitor é apresentado a outras noções associadas à exclusão social: desfiliação, desqualificação, desinserção, vulnerabilidade etc. Esses termos aparecem na bibliografia em análise ora como sinônimo de exclusão ora como sua negação crítica. Outro tema derivado da perspectiva da exclusão como fragilização e quebra dos laços sociais, abordado pela autora, é o da integração/desintegração social, no que concerne a relação indivíduo e sociedade e a da sociedade enquanto conjunto.
Leal ao fazer a análise crítica da bibliografia não deixa de mencionar os eventos que corroboraram para a intensificação do uso da noção de exclusão pelas ciências humanas: a crise do Estado de bem-estar e o seu impacto para os direitos; as transformações no mundo do trabalho e os processos de precarização do trabalho e de desemprego delas decorrentes; o declínio de instituições que se constituíram enquanto pilares da modernidade. No entanto, é pouco, o leitor se ressentirá da ausência de uma contextualização histórica que lhe permita relacionar esses processos ao tema da exclusão.
No capítulo dois, a autora procura evidenciar como se constituiu o debate da exclusão como fragilização e quebra dos laços sociais na sociedade brasileira por meio da influência dos franceses e as ênfases dos autores brasileiros em consideração à realidade histórico-social em que desenvolvem suas pesquisas e análises. Uma das particularidades do debate brasileiro é a associação entre desumanização, violência e processos de exclusão social. "A sujeição potencial à eliminação física é um quesito da condição da exclusão repetido por vários autores que, em sua maioria, se citam e se referenciam mutuamente" (p.91). Se na análise francesa a noção de exclusão tem sido utilizada para pensar, entre outros problemas, o processo de migração em uma situação de declínio do Estado de bem-estar e aumento do desemprego, no Brasil a condição dos moradores de rua é por excelência um problema típico-ideal para as análises que operam com a noção de exclusão.
No último capítulo, Leal expõe as críticas à noção de exclusão a partir da perspectiva da contradição. O leitor sentirá a quebra do padrão adotado pela autora nos capítulos anteriores. Naqueles a abordagem é feita por meio da apresentação das ideias de vários autores. Aqui ela deixa claro que a crítica será reconstruída por meio dos argumentos de dois autores brasileiros: Pedro Demo e José de Souza Martins.
A essência da crítica desses autores à noção de exclusão advém de suas filiações a uma perspectiva de análise da realidade social construída no campo do marxismo, que se desenvolve por meio da lógica da unidade dos contrários, das relações antagônicas e contraditórias. Elementos, para essa perspectiva, constitutivos do capitalismo enquanto sistema. Neste sentido, não haveria grandes novidades na noção de exclusão e nos fenômenos aos quais ela se aplica. Esses seriam processos inerentes ao capitalismo e/ou aprofundamentos de suas contradições. Essa visão de exclusão leva a autora a recuperar parte do debate sobre marginalidade social da década de 1960 e 1970, com o objetivo de identificar as afinidades entre a abordagem da exclusão como contradição e a da marginalidade social.
Pode-se dizer que a autora nos leva a concluir que embora a noção de exclusão tenha caído no gosto de uma vasta gama de analistas sociais, além de aparecer em programas de governos, partidos e orientação de políticas, a sua consolidação enquanto categoria de análise não se opera ou se opera de modo muito frágil. Entre as referências analisadas pela autora, não é raro que a opção pelo uso da noção seja acompanhada de reticências, justificativas e mesmo de ressalvas quanto ao seu alcance. No entanto, a recorrência dos usos, advém do fato de a noção se referir a um leque bastante variado de situações que se não são propriamente novas ganharam uma nova roupagem em razão das transformações que atingiram a sociedade contemporânea a partir da década de 1970 do século passado.
Giuliana Franco Leal ao se propor fazer uma análise crítica da noção de exclusão o que faz, além disso, é nos levar a pensar sobre os limites das ciências sociais em particular e das ciências humanas em geral em refazer seus paradigmas explicativos em um mundo marcado pelo signo do novo e do incerto. Talvez, ao final, o leitor espere que ela opere a passagem da noção para o conceito de exclusão; que ela forneça um conceito de exclusão válido, preciso, não polissêmico ou que invalide a noção. Ela não chega a invalidá-la, porém o que fica para o leitor é a pergunta: deveríamos continuar usando a noção de exclusão?
(Recebido para publicação em 31 de janeiro de 2012)
(Aceito em 29 de março de 2012)
Claudete Gomes Soares -Doutora em sociologia. Professora Adjunta I da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapecó- SC, da área de conhecimento Sociologia e Política. Principais publicações: A radicalização da democracia e a questão racial no projeto político do PT da década de 1990. Perseu: História, Memória e Política, 2011; A politização da questão racial. Teoria e Debate, 2009; Romantismo e política na teologia da libertação. Idéias. Rev. do IFCH-UNICAMP, 2005. claudetesoares@gmail.com
Institucionalização da sociologia no Brasil: primeiros manuais e cursos
Amurabi Oliveira
MEUCCI, Simone. Institucionalização da sociologia no Brasil: primeiros manuais e cursos. São Paulo: Hucitec: Fapesp, 2011. 169 p.
O livro de Simone Meucci é lançado num momento demasiadamente oportuno, quando consideramos o próprio processo de reintrodução da Sociologia no Ensino Médio, mas não só. Pois, muito além de uma pesquisa voltada para a Sociologia da Educação, a presente obra constitui uma Sociologia dos Intelectuais, a partir de uma construção teórica que vai para além de uma revisita aos primeiros manuais de sociologia produzidos no Brasil. Ela analisa o próprio movimento de institucionalização da Sociologia, entre as décadas de 20 a 40, do século XX.
O olhar lançado traz um traço eminentemente original, por caminhar na contramão da maior parte dos estudos que se debruçam sobre a institucionalização da Sociologia no Brasil, e se referenciam a esse processo, quase que exclusivamente, a partir da Universidade, com início nos anos 30. Meucci traz uma análise acerca do processo de institucionalização e rotinização do conhecimento sociológico ao longo das décadas de 20, 30 e 40, incluindo, aí, autores menos consagrados que atuaram nessa seara.
A autora destaca que, a partir dos anos 30, houve uma explosão de manuais de Sociologia. Entre os anos de 1931 e 1945, ela levanta 35 títulos, incluindo tanto autores "desconhecidos", como outros mais ilustres, como Fernando de Azevedo, Delgado de Carvalho, Amaral Fontoura e Gilberto Freyre. São apontadas como razões que viabilizaram tal profusão tanto a consolidação da Sociologia no sistema de ensino, nesse período, quanto um mercado editorial favorável ao investimento na área pedagógica. No ímpeto de ir para além de um olhar sobre os manuais, Meucci investiga quem eram os sujeitos envolvidos na tarefa de sistematizar esse conhecimento sociológico, os quais apresentam algumas características distintivas, como o fato de gravitarem em torno do Estado, bem como de estarem envolvidos no debate educacional. Em meio a esse cenário, é levantada a hipótese de que: "[...] a Sociologia passou a se constituir como uma linguagem importante, por meio da qual se traduziram os embates fundamentais do período. [...] O discurso sociológico era então a força atuante e decisiva nos debates da época." (Ibidem, p. 42). Devido a esse fato, teria conseguido mobilizar tantos intelectuais brasileiros do período.
Também há uma preocupação em desvendar que significado a sociologia passou a ter quando introduzida no país, apontando que, nesses ambientes intelectuais, em especial a partir das Faculdades de Direito, a Sociologia passou a ser apontada como a ciência capaz de esclarecer certas relações sociais, bem como foi compreendida como a disciplina capaz de renovar a formação intelectual das Faculdades de Direito no país, chegando, em última instância, de acordo com intelectuais como Pontes de Miranda, a beneficiar a instituição de uma "política positiva".
Ao contrário do ensaísmo jurídico e literário, a Sociologia seria capaz de renovar a vida intelectual, através do seu realismo científico, o que seria propiciado, de acordo com o que era proposto pelos manuais, através de um papel ativo do professor, substituindo a longa e abstrata preleção por atividades que despertassem, nos alunos, o interesse pelas questões sociais, através de seminários, debates, pesquisas etc. A Sociologia parecia, nesse momento, opor-se ao próprio modelo bacharelesco presente na formação intelectual ofertada nas Faculdades de Direito, responsável pela principal causa da inoperância política: o divorcio entre o modelo político e a realidade social do país.
Esse cenário de mudança no ambiente intelectual brasileiro é marcado pela própria guinada na percepção do lugar dos intelectuais na sociedade brasileira. É um momento em que as reformas na educação passaram a ser percebidas como uma reforma da própria sociedade, e os intelectuais envolvidos passaram a se reconhecer como elementos ativos na obra de formação da nação. É nesse bojo de transformações, que a Sociologia, nos cursos de formação de professores (então denominados cursos normais), juntamente com outras disciplinas, como metodologia do ensino, psicologia etc., visavam a dar mais cientificidade e pragmatismo ao âmbito da formação docente. A introdução da Sociologia como disciplina indispensável para a formação de educadores se vincula ao próprio movimento da Escola Nova, que tinha então, na década de 20 e 30, grande repercussão no meio intelectual brasileiro.
A autora levanta uma interessante hipótese acerca das expectativas depositadas na Sociologia e na própria tarefa dos educadores, que teriam sua origem na noção de que o Brasil seria um país inconcluso. "Ou seja, tratava-se de um país em que a unidade entre sociedade e nação não tinha sido efetivamente completada." (Ibidem, p. 68).
Nesse momento, a Sociologia, em especial através de seus manuais, torna-se palco de uma intensa batalha entre aqueles vinculados à Escola Nova, representados principalmente por Fernando de Azevedo, e a pedagogia católica, representada por Amoroso Lima, para quem a Sociologia seria, acima de tudo, uma disciplina moral. Para Meucci, os livros de Sociologia Cristã que emergem nesse período podem ser compreendidos como resultado de uma reação às transformações da sociedade, as quais, supostamente, pareciam pôr em risco o ideário católico. Os livros de Sociologia tornam-se, portanto, veículos de expressão de um debate político sobre a natureza da sociedade e da educação.
Outro aspecto trazido pela autora é a centralidade que a perspectiva teórica de Durkheim vai tomar nesse período, encontrando eco, principalmente, através de Fernando de Azevedo. Tal intelectual trata, ainda, de apresentar a figura do sociólogo, ao contrário da Sociologia, bastante conhecida através do sistema de ensino. A Sociologia e o sociólogo são apresentados como agentes e como produtos do progresso, e, portanto, o processo de institucionalização dessa ciência no Brasil mostrava-se favorável ao desenvolvimento do país. Outro ponto interessante destacado nessa obra é a singularidade da sistematização de Freyre da Sociologia, realizada através de manuais, que se origina no próprio caráter sui generis da sua formação intelectual. Ele era o único do período, dentre os autores analisados, com uma formação acadêmica em ciências sociais, bem como aquele que faz referências a autores para além do mundo anglo-francófono. Para Freyre, da mesma forma que não havia uma única Sociologia, não havia um único modelo de modernidade possível. Nesse período, na interpretação da autora, os livros de Sociologia expressariam as forças atuantes que disputavam o monopólio da explicação da sociedade.
Por fim, a autora aponta para conceitos-chave para a compreensão do debate retratado através dos livros didáticos: progresso, e organização social. Dentro da noção de progresso, destaca-se a perspectiva teórica apregoada por Spencer, aquela que encontrou mais receptividade entre os primeiros sistematizadores e "rotinizadores" do conhecimento sociológico, o que ocorreu, principalmente, durante o período do Estado Novo. Nesse ponto, a autora nos chama a atenção para o fato de essa formulação estar em consonância com o pacto nacional que era então alinhavado. No que tange ao conceito de organização social, ela chama a atenção para o fato que se buscava impor, por meio do ensino de Sociologia, um padrão de organização social, propondo, assim, um homem novo para um Estado novo.
Meucci destaca, ao longo de sua obra, como a sociologia foi encarada com otimismo por parte dos mais diversos segmentos intelectuais brasileiros, apontada como a disciplina que seria capaz de renovar intelectual e socialmente o país, pois teria as ferramentas científicas para tanto. Sua obra tem como grande contribuição a investigação do debate intelectual envolto no processo de institucionalização da Sociologia no Brasil, observado a partir de um ângulo pouco explorado, ou seja, a partir dos primeiros manuais, abrindo outras possibilidades de análise e, mesmo, de indagação em torno da institucionalidade da Sociologia no cenário atual.
(Recebido para publicação em 17 de outubro de 2011)
(Aceito em 03 de janeiro de 2012)
Amurabi Oliveira - Doutor em Sociologia. Professor da Universidade Federal de Alagoas. Editor da REALIS -Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PosColoniais. Possui experiência na área de sociologia, de antropologia e de educação, com ênfase em: prática de pesquisa no ensino de sociologia no ensino médio e na área de sociologia e antropologia da religião. Atua principalmente nos seguintes temas: Religiosidades, Nova Era, Novos Movimentos Religiosos, Vale do Amanhecer, Educação, Sociologia e Antropologia da Educação, Ensino de Sociologia, Dádiva, Estudos Pós-Coloniais. amurabi_cs@hotmail.com










