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Caderno CRH

versão impressa ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.26 no.67 Salvador jan./abr. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792013000100006 

DOSSIÊ

 

Crise ecologica, crise capitalista, crise de civilização: a alternativa ecossocialista

 

Ecological crisis, capitalist crisis, crisis of civilization: the ecosocialist alternative

 

Crise écologique, crise capitaliste,crise de civilisation: l'alternative éco-socialiste

 

 

Michael Löwy

Doutor em Ciências Sociais. Professor emérito da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique. CEIFR, 10 rue M. Le Prince, 75006. Paris - França. michael.lowy@orange.fr

 

 


RESUMO

Neste artigo defende-se a tese que a crise do capitalismo e a crise ecológica resultam da dinâmica do sistema capitalista que transforma seres humanos e recursos naturais em mercadorias necessárias à expansão dos negócios e a acumulação de lucros. Na sua feição atual a crise reflete as dificuldades da civilização capitalista industrial e do seu modo de vida caracterizado pelo american way of life, em manter-se sem rupturas. A questão ecológica, do meio ambiente, é central no capitalismo. As tentativas de soluções, a exemplo da Tratado de Kioto e as medidas pactuadas em Copenhagen em 2008, estão muito aquém das providências necessárias à resolução do problema . O ecosocialismo, em sua utopia, mas sem ser uma abstração, apresenta-se como um paradigma de civilização alternativo.

Palavras-chave: Crise ecológica. Crise do capitalista. Meio ambiente. Modo de vida. Ecosocialimo.


ABSTRACT

This article defends the thesis that the capitalist crisis and the ecological crisis are both the result of the dynamics of the capitalist system which transforms human beings and natural resources into goods which are necessary for the expansion of business and the accumulation of profits. The current crisis reflects the difficulties of industrial capitalist civilization and its lifestyle, known as the American way of life, to keep from falling apart. The ecological issue, the environment, is central to capitalism. Attempted solutions, such as the Kyoto Protocol and the environmental agreements made in Copenhagen in 2008, fall far short of the steps needed to solve the problem. Eco-socialism, with its utopian nature, unless it becomes an abstraction, offers itself as a paradigm of alternative civilization.

Key Words: Ecological crisis. Capitalist crisis. Environment. Way of life. eco- socialism.


RÉSUMÉ

Nous soutenons, dans cet article, la thèse selon laquelle la crise du capitalisme et la crise écologique sont fruits des dynamiques du système capitaliste qui transforment les êtres humains et les ressources naturelles en marchandises dont on a besoin pour l'expansion du commerce et l'accumulation des bénéfices. Actuellement la crise reflète les difficultés de la civilisation capitaliste industrielle et de son mode de vie caractérisé par le modèle américain "american way of life" qui se maintient sans interruption. La question écologique, de l'environnement, est fondamentale pour le capitalisme. Les tentatives de solutions, tels que par exemple le traité de Kyoto et les accords de Copenhague en 2008, sont bien au-deçà des mesures exigées pour résoudre le problème. L'éco-socialisme, dans son utopie, tout en n'étant pas quelque chose d'abstrait, représente un paradigme pour une civilisation alternative.

Mots-clés: Crise écologique. Crise du capitalisme. Environnement. Mode de vie. Éco-socialisme.


 

 

A crise econômica atual é, sem dúvida, a mais grave na história do capitalismo desde 1929. Provocando desemprego massivo, recessão econômica, quebra de bancos, endividamento insuportável dos Estados, gera sofrimento, miséria, desespero, levando muitas de suas vítimas ao suicídio. Ela ilustra a total irracionalidade de um sistema econômico baseado na mercantilização de tudo, na especulação desenfreada, no totalitarismo dos mercados financeiros e na globalização neoliberal a serviço exclusivo do lucro capitalista. Os governos - seja de direita, seja de "centro-esquerda" - se revelam incapazes de propor uma saída, e insistem, com uma extraordinária obstinação, na aplicação das tradicionais receitas neoliberais - privatizaçôes, corte de recursos para a educação e a saúde, redução dos salários e das pensões, demissão de funcionários públicos, - que têm como único resultado: agravar a crise, intensificar a recessão e aumentar o peso da dívida.

Por outro lado, seria uma ilusão acreditar - como pensam muitos marxistas - que se trata da "crise final do capitalismo" e que o sistema está condenado a desaparecer, vítima de suas contradições internas. Como ja dizia Walter Benjamin, nos anos 1930, "o capitalismo nunca vai morrer de morte natural". Em outros termos: se não houver uma ação social e política anticapitalista, um movimento de insurgência dos explorados e oprimidos, o sistema poderá continuar ainda por muito tempo. Acabará, como no passado, por encontrar alguma saída para a crise, seja por medidas keynesianas - hipótese mais favorável - seja pelo fascismo e pela guerra.

O mesmo vale para a crise ecológica. Por si mesma, ela não leva ao "fim do capitalismo"; por mais que acabe o petróleo, ou que se esgotem outras fontes essenciais da riqueza, o sistema continuará a explorar o planeta, até que a própria vida humana se encontre ameaçada.

A crise econômica e a crise ecológica resultam do mesmo fenômeno: um sistema que transforma tudo - a terra, a água, o ar que respiramos, os seres humanos - em mercadoria, e que não conhece outro critério que não seja a expansão dos negócios e a acumulação de lucros. As duas crises são aspectos interligados de uma crise mais geral, a crise da civilização capitalista industrial moderna. Isto é, a crise de um modo de vida - cuja forma caricatural é o famoso american way of life, que, obviamente, só pode existir enquanto for privilégio de uma minoria - de um sistema de produção, consumo, transporte e habitação que é, literalmente, insustentável. Atualmente, a crise financeira - "como salvar os bancos e pagar a dívida" - é a única que preocupa os vários governos representativos do sistema, com a crise ecológica praticamente desaparecendo dos seus horizontes, como o demonstra o recentre fracasso da Conferência Rio+20. Mas, do ponto de vista da humanidade, o maior perigo, a ameaça mais preocupante, é a crise ecológica, que, contrariamente à crise financeira, não tem solução nos marcos do sistema.

Há alguns anos, quando se falava dos perigos de catástrofes ecológicas, os autores se referiam ao futuro dos nossos netos ou bisnetos, a algo que estaria num futuro longínquo, dentro de cem anos. Agora, porém, o processo de devastação da natureza, de deterioração do meio ambiente e de mudança climática se acelerou a tal ponto que não estamos mais discutindo um futuro a longo prazo. Estamos discutindo processos que já estão em curso - a catástrofe já começa, esta é a realidade. E, realmente, estamos numa corrida contra o tempo para tentar impedir, brecar, tentar conter esse processo desastroso.

Quais são os sinais que mostram o caráter cada vez mais destrutivo do processo de acumulação capitalista em escala global? Eles são multiplos e convergentes: crescimento exponencial da poluição do ar nas grandes cidades, da água potável e do meio-ambiente em geral; início da destruição da camada de ozônio; destruição, numa velocidade cada vez maior, das florestas tropicais e rápida redução da biodiversidade pela extinção de milhares de espécies; esgotamento dos solos, desertificação; acumulação de resíduos, notadamente nucleares (alguns com duração de milhares de anos), impossíveis de controlar; multiplicação dos acidentes nucleares - Fukushima! - e ameaça de um novo Chernobyl; poluição alimentar, manipulações genéticas, "vaca louca"; secas em escala planetária, escassez de grãos, encarecimento dos alimentos. Todos os faróis estão no vermelho: é evidente que a corrida louca atrás do lucro, a lógica produtivista e mercantil da civilização capitalista e industrial nos leva a um desastre ecológico de proporções incalculáveis. Não se trata de ceder ao "catastrofismo", mas, simplesmente, de constatar que a dinâmica do crescimento infinito, induzido pela expansão capitalista, ameaça destruir os fundamentos naturais da vida humana no Planeta.1

De todos estes processos destrutivos, o mais óbvio, e perigoso, é o processo de mudança climática, um processo que resulta dos gases a efeito de estufa emitidos pela indústria, pelo agro-negócio e pelo sistema de transporte existentes nas sociedades capitalistas modernas. Esta mudança, que já começou, terá como resultado, não só o aumento da temperatura em todo o planeta, mas a desertificação de setores inteiros de vários continentes, a elevação do nível do mar, com o desaparecimento de cidades marítimas - Veneza, Asmterdam, Hong-Kong, Rio de Janeiro - debaixo dos oceanos. Uma série de catástrofes que se colocam no horizonte dentro de - não se sabe - vinte, trinta, quarenta anos, isto é, num futuro próximo.

Tudo isso não resulta do excesso de população, como dizem alguns, nem da tecnologia em si, abstratamente, ou tampouco da má vontade do gênero humano. Trata-se de algo muito concreto: das consequências do processo de acumulação do capital, em particular na sua forma atual, da globalização neoliberal sob a hegemonia do império norte-americano. Este é o elemento essencial, motor desse processo e dessa lógica destrutiva, que corresponde à necessidade de expansão ilimitada aquilo que Hegel chamava de "má infinitude" -, um processo infinito de acumulação de mercadorias, acumulação do capital, acumulação do lucro, que é inerente à lógica do capital.

Não se trata da "má vontade" de tal ou qual multinacional, ou governo, mas da lógica intrinsecamente perversa do sistema capitalista, baseado na concorrência impiedosa, nas exigências de rentabilidade, na corrida atrás do lucro rápido; uma lógica que é, necessariamente, destruidora do meio ambiente e responsável pela catastrófica mudança do clima.

A questão da ecologia, do meio ambiente, é a questão central do capitalismo; para parafrasear uma observação do filósofo da Escola de Frankfurt Max Horkheimer - "se você não quiser falar do capitalismo, não adianta falar do fascismo" - eu diria, também: se você não quer falar do capitalismo, não adianta falar do meio ambiente, porque a questão da destruição, da devastação, do envenenamento ambiental é produto do processo de acumulação do capital. Logo, a questão que se coloca é a de uma alternativa, mas de uma alternativa que seja radical. As tentativas de soluções moderadas se revelam completamente incapazes de enfrentar esse processo catastrófico. O chamado Tratado de Kioto está muito aquém, quase infinitamente aquém, do que seria o necessário, e, ainda assim, o governo norte-americano, que dirige o principal país poluidor, campeão da poluição planetária, recusa-se a assinar. O Tratado de Kioto, na realidade, propõe resolver o problema das emissões de gases que causam o efeito estufa por meio do assim chamado "mercado dos direitos de poluir". As empresas que emitem mais CO2 vão comprar de outras, que poluem menos, direitos de emissão. Isto seria "a solução" do problema para o efeito estufa! Obviamente, as soluções que aceitam as regras do jogo capitalista, que se adaptam às regras do mercado, que aceitam a lógica de expansão infinita do capital, não são soluções, e são incapazes de enfrentar a crise ambiental - uma crise que se transforma, devido à mudança climática, numa crise de sobrevivência da espécie humana.

A conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, realizada em Copenhagen, em dezembro de 2009, foi mais um exemplo clamoroso da incapacidade - ou da falta de interesse - das potências capitalistas em/para enfrentar o dramático desafio do aquecimento global. A montanha de Copenhagen pariu um rato, uma miserável declaração política, sem nenhum compromisso concreto e cifrado de redução das emissões com efeito estufa. O mesmo se aplica à Conferência Internacional das Nações Unidas - Rio+20, que tentou impor a pretensa "economia verde" - isto é, o capitalismo pintado com outra cor - e terminou com vagas declarações, sem nenhum compromisso efetivo de combate à mudança climática. A atitude das classes dominantes, e em particular dos governos das principais potências responsáveis pela poluição e pela acumulação de CO2, é muito parecida com a dos Reis da França: "depois de mim, o dilúvio!", teria dito Luís XV, o penúltimo dos Bourbons. No século 21, o dilúvio poderia tomar a forma de uma subida irreversível do nível do mar.

Precisamos pensar, portanto, em alternativas radicais, alternativas que coloquem outro horizonte histórico, mais além do capitalismo, mais além das regras de acumulação capitalista e da lógica do lucro e da mercadoria. Como uma alternativa radical é aquela que vai à raiz do problema, que é o capitalismo, essa alternativa é o ecossocialismo, uma proposta estratégica, que resulta da convergência entre a reflexão ecológica e a reflexão socialista, a reflexão marxista. Existe hoje, em escala mundial, uma corrente ecossocialista: há um movimento eco-socialista internacional, que, recentemente, por ocasião do Fórum Social Mundial de Belém (janeiro de 2009), publicou uma declaração sobre a mudança climática e, em âmbito do Brasil, uma rede eco-socialista que publicou, também, um manifesto, há alguns anos. Ao mesmo tempo, o ecossocialismo é uma reflexão crítica. Em primeiro lugar, crítica à ecologia não socialista, à ecologia capitalista ou reformista, que considera possível reformar o capitalismo, atingir um capitalismo mais verde, mais respeitoso ao meio ambiente. Trata-se da crítica e da busca de superação dessa ecologia reformista, limitada, que não aceita a perspectiva socialista, que não se relaciona com o processo da luta de classes, que não coloca a questão da propriedade dos meios de produção. Mas o eco-socialismo é, também, uma crítica ao socialismo não ecológico, por exemplo, da União Soviética, onde a perspectiva socialista se perdeu rapidamente com o processo de burocratização, e o resultado foi um processo de industrialização tremendamente destruidor do meio ambiente. Há outras experiências socialistas, mais interessantes do ponto de vista ecológico, como é a experiência cubana, por exemplo.

Deste modo, o ecossocialismo implica uma crítica profunda, uma crítica radical das experiências e das concepções tecnocráticas, burocráticas e não ecológicas de construção do socialismo. Isso nos exige, também, uma reflexão crítica sobre a herança marxista, o pensamento e a tradição marxista, sobre a questão do meio ambiente. Muitos ecologistas criticam Marx, por considerá-lo um produtivista tanto quanto os capitalistas. Tal crítica me parece completamente equivocada: ao fazer a crítica do fetichismo da mercadoria, é justamente Marx quem coloca a crítica mais radical à lógica produtivista do capitalismo, à ideia de que a produção de mais e mais mercadorias é o objetivo fundamental da economia e da sociedade capitalistas. O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim, reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, jogar, amar. Portanto, Marx fornece as armas para uma crítica radical do produtivismo e, notadamente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota, não só as energias do trabalhador, mas, também, as próprias forças da Terra, esgotando as riquezas naturais, destruindo o próprio planeta. Assim, essa perspectiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx, embora não tenha sido suficientemente desenvolvida.

O problema é que a afirmação de Marx - e, mais ainda, de Engels - de que o socialismo é a solução da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção, foi interpretada por muitos marxistas de forma mecânica: o crescimento das forças produtivas do capitalismo se choca com os limites que são as relações de produção burguesas - a propriedade privada dos meios de produção - e, portanto, a tarefa da revolução socialista seria, simplesmente, destruir as relações de produção existentes, a propriedade privada, e permitir, assim, o livre desenvolvimento das forças produtivas. Parece-me que essa interpretação de Marx e de Engels deva ser criticada, porque pressupõe que as forças produtivas sejam algo neutro; o capitalismo as teria desenvolvido até certo ponto e não pôde ir além, porque foi impedido por aquela barreira, aquele obstáculo que deve ser afastado para permitir uma expansão ilimitada. Essa visão deixa de lado o fato de que as forças produtivas existentes não são neutras; elas são capitalistas em sua dinâmica e no seu funcionamento e, portanto, são destruidoras da saúde do trabalhador, bem como do meio ambiente. A própria estrutura do processo produtivo, da tecnologia e da reflexão científica a serviço dessa tecnologia e desse aparelho produtivo é inteiramente impregnada pela lógica do capitalismo e leva, inevitavelmente, à destruição dos equilibrios ecológicos do planeta.

O que se necessita, por conseguinte, é de uma visão muito mais radical e profunda do que seja uma revolução socialista. Trata-se de transformar, não só as relações de produção, as relações de propriedade, mas a própria estrutura das forças produtivas, a estrutura do aparelho produtivo. Isto é, na minha concepção, uma das ideias fundamentais do ecossocialismo. Há que se aplicar ao aparelho produtivo a mesma lógica que Marx aplicava ao aparelho de Estado, a partir da experiência da Comuna de Paris, quando ele diz o seguinte: os trabalhadores não podem se apropriar do aparelho de Estado burguês e usá-lo a serviço do proletariado; não é possível, porque o aparelho do Estado burguês nunca vai estar a serviço dos trabalhadores. Então, trata-se de destruir esse aparelho de Estado e criar um outro tipo de poder. Essa lógica tem que ser aplicada, também, ao aparelho produtivo: ele tem que ser, se não destruído, ao menos radicalmente transformado. Ele não pode ser, simplesmente, apropriado pelos trabalhadores, pelo proletariado, e posto a trabalhar a seu serviço, mas precisa ser estruturalmente transformado. A título de exemplo, o sistema produtivo capitalista funciona com base em fontes de energia fósseis - o carvão e o petróleo -, responsáveis pelo aquecimento global, de modo que um processo de transição ao socialismo só é possível quando houver a substituição dessas formas de energia pelas energias renováveis, que são a água, o vento e, sobretudo, a energia solar. Por isso, o ecossocialismo implica uma revolução do processo de produção das fontes energéticas. É impossível separar a ideia de socialismo, de uma nova sociedade, da ideia de novas fontes de energia, em particular do sol - alguns ecossocialistas falam do comunismo solar, pois entre o calor, a energia do Sol e o socialismo e o comunismo haveria uma espécie de afinidade eletiva.

Mas não basta, tampouco, transformar o aparelho produtivo; é necessário transformar, também, o estilo, o padrão de consumo, todo o modo de vida em torno do consumo, que é o padrão do capitalismo baseado na produção massiva de objetos artificiais, inúteis, e mesmo perigosos. A lista de produtos, mercadorias e atividades empresariais que são inúteis e nocivas aos indivíduos é imensa. Tomemos um exemplo evidente: a publicidade. A publicidade é um desperdício monumental de energia humana, trabalho, papel, árvores destruídas para gasto de papel, eletricidade etc., e tudo isso para convencer o consumidor de que o sabonete X é melhor que o sabonete Y - eis um exemplo evidente do desperdício capitalista. Logo, trata-se de criar um novo modo de consumo e um novo modo de vida, baseado na satisfação das verdadeiras necessidades sociais, que é algo completamente diferente das pretensas e falsas necessidades produzidas artificialmente pela publicidade capitalista.

Uma reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo é necessária, baseada em critérios exteriores ao mercado capitalista: as necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isto significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria população - e não as "leis do mercado" ou um Comitê Politico autoritário - decide, num processo de planificação democrática, as prioridades e os investimentos. Esta transição conduziria, não só a um novo modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais democrática, mas, também, a um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecossocialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade e da produção ao infinito de mercadorias inúteis.

Se ficarmos só nisso, porém, seremos criticados como utópicos. Os utópicos são aqueles que apresentam uma bela perspectiva de futuro, e a imagem de outra sociedade, o que é obviamente necessário, mas não é suficiente. O eco-socialismo não é só a perspectiva de uma nova civilização, uma civilização da solidariedade - no sentido profundo da palavra, solidariedade entre os humanos, mas, também, com a natureza -, como, também, uma estratégia de luta, desde já, aqui e agora. Não vamos esperar até o dia em que o mundo se transforme, não, nós vamos começar desde já, agora, a lutar por esses objetivos. Assim, o ecossocialismo é uma estratégia de convergência das lutas sociais e ambientais, das lutas de classe e das lutas ecológicas contra o inimigo comum que são as políticas neoliberais, a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o imperialismo americano, o capitalismo global. Este é o inimigo comum dos dois movimentos, o movimento ambiental e o movimento social. Não se trata de uma abstração, há muitos exemplos; aqui mesmo, no Brasil, como um belo exemplo do que seja uma luta ecossocialista, tivemos o combate heróico de Chico Mendes, que pagou com sua vida o compromisso de luta com os oprimidos.

Como essa, há muitas outras lutas. Seja no Brasil, em outros países da América Latina e no mundo inteiro, cada vez mais se dá essa convergência. Mas ela não ocorre espontaneamente, tem que ser organizada conscientemente pelos militantes, pelas organizações, é preciso construir uma estratégia ecossocialista, uma estratégia de luta em que vão convergindo as lutas sociais e as lutas ecológicas. Esta me parece ser a resposta ao desafio, a perspectiva radical de uma transformação revolucionária da sociedade para mais além do capitalismo. Precisamos de uma perspectiva de luta contra o capitalismo, de um paradigma de civilização alternativo e de uma estratégia de convergência das lutas sociais e ambientais, desde agora plantando as sementes dessa nova sociedade, desse futuro, plantando sementes do ecossocialismo.

A alternativa ecossocialista implica, em última análise, uma transformação revolucionária da sociedade. Mas, que significa revolução? Em uma interessante passagem de suas notas para as Teses sobre o conceito de história Walter Benjamin (1940), propõe uma nova definição de revolução, que me parece muito atual: "Marx disse que as revoluções são a lacomotiva da história mundial. Mas talvez as coisas se apresentem de maneira distinta. Pode ser que as revoluções sejam o ato pelo qual a humanidade que viaja no trem puxa os freios de emergência".2 De manera implícita, a imagen sugere que, se a humanidade permite ao trem seguir seu caminho - já traçado pela estrutura de ferro dos trilhos - e nada detenha a sua corrida vertiginosa, vamos diretamente a um desastre. Ban-Ki-Moon, o secretário geral das Nações Unidas - um personagem que nada tem de revolucionário - propunha, há alguns anos, o seguinte diagnóstico sobre a questão ambiental: "Nós" - sem dúvida referindo-se aos governos do planeta - "estamos com o pé colado no acelerador e nos precipitamos no abismo" (Le Monde 5.9.2009).

Walter Benjamin definia, em suas Teses de 1940, como uma tempestade o progresso destrutivo que acumula as catástrofes. A mesma palavra, tempestade, aparece no título, que parece inspirado por Benjamin, do último livro de James Hansen, o célebre climatólogo da NASA (Estados Unidos) e um dos maiores especialistas em mudança climática no mundo. O livro se chama Storms of my Grandchildren.The truth about the coming climate catastrophe and our last chance to save humanity: "As tempestades de meus netos. A verdade sobre a catastrófe climática que se aproxima é a nossa última chance para salvar a humanidade". Hansen tampouco é um revolucionário, mas sua análise da tempestade3 - que é, para ele, como para Benjamin, uma alegoria de algo muito mais ameaçador - ou dilúvio que se aproxima - o aquecimento global é de uma impressionante lucidez.

Asistimos, no começo do século 21, a um "progresso" cada vez mais rápido do trem da civilização industrial e capitalista em direção ao abismo, um abismo que se chama catastrófe ecológica. É importante levar em conta a aceleração crescente do trem, a vertiginosa velocidade com a qual se aproxima do desatre. Precisamos puxar os freios de urgência da revolução, antes que seja tarde demais.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação em 05 de novembro de 2012
Aceito em 10 de fevereiro de 2013

 

 

Michael Löwy - Doutor em Ciências Sociais. Professor emérito da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique. Publicações recentes: A teoria da revolução no jovem Marx ganhou nova edição em 2012; Romantismo e messianismo: ensaios sobre Lucáks e Walter Benjamin. Tradução: Myriam Vera Baptista e Magdalena Pizante Baptista, 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 2012, 213p.; Marx, os marxistas e a questão nacional: a Revolução de Outubro e o sonho naufragado. In: Incontornável Marx. 2007.
1 Ver, a esse respeito, a excelente obra de Kovel, J. The Ennemy of Nature. The end of capitalism or the end of the world? Nova Iorque: Zed Books, 2002.
2 W.Benjamin, GS, I, 3, p. 1232. El pasaje de Marx a que se refiere Benjamin figura en La lucha de clases en Francia: Die Revolutionen sind die Lokomotiven der Geschichte (la palabra "mundial" no figura en el texto de Marx).
3 James Hansen. Storms of My Grandchildren: the Truth about the Coming Climate Catastrophe and Our Last Chance to Save Humanity. New York, Bloomsbury Publishing, 2009.

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