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Caderno CRH

Print version ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.26 no.68 Salvador May/Aug. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792013000200015 

MEMÓRIA

 

Retrato de uma figura exemplar: para lembrar o passamento do professor Edmundo Fernandes Dias

 

 

Leonardo Mello e Silva

Doutor em Sociologia. Professor do Departamento de Sociologia da USP. Foi aluno do Professor Edmundo Fernandes Dias no IFCH da Unicamp, e estudante de pós-graduação na mesma instituição, entre 1985 e 1989. Av. Luciano Gualberto, 315 - sala 212. Cidade Universitária. Cep: 05508-900 – São Paulo, SP – Brasil. leogmsilva@hotmail.com

 

 

No dia 3 de maio de 2013, faleceu, na cidade de Campinas, São Paulo, o Prof. Dr. Edmundo Fernandes Dias, professor aposentado do curso de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, onde ministrou aulas tanto na graduação quanto na pós-graduação. Vinculado ao Departamento de Sociologia, o Professor Edmundo lecionava Teoria Sociológica e era um profundo conhecedor do pensamento do marxista italiano Antonio Gramsci.

Se fosse o caso de se traçar um perfil do Professor Edmundo, pode-se afirmar que esse se desdobrava em várias facetas: o intelectual, o professor, o militante sindical, o militante político. Em todas essas facetas, um traço comum: o senso de companheirismo inquebrantável, acompanhado de uma profunda aversão às soluções "geniais", que mal escondem o afã do holofote. A discrição nessa matéria era inversamente proporcional à busca de rigor teórico e à opção visceral pelas soluções coletivas. Nisso ele era profundamente marcado pela experiência da esquerda radical (no que essa se opunha à postura do PCB nos anos 1970), tendo sido o produto de uma geração. Edmundo era um homem de esquerda, com uma cultura de esquerda e socialista.

De sua faceta de intelectual, pode falar muito bem o cultivo de uma biblioteca notável, particularmente rica no tocante aos títulos dedicados às Ciências Sociais e ao marxismo, sendo, por isso, um saboroso convite às pessoas sensíveis a esses dois temas. De sua faceta de professor dedicado e preocupado com os seus alunos, pode falar a lembrança carinhosa de todos aqueles que assistiram às suas aulas ou foram seus orientandos. De sua faceta como militante sindical, basta recordar a atuação marcante e quase contínua, ocupando diversos cargos nas diretorias da Adunicamp (do qual foi um dos fundadores) e da Andes. E, mesmo quando de cargos não se tratava, estava sempre lá, ajudando, discutindo e polemizando de maneira consequente nas instituições representativas dos professores universitários, durante longos anos, sem nenhuma cerimônia ou desconforto por exercer esse papel. Como militante político, é suficiente mencionar o ativo engajamento na construção do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores, no início dos anos 1980, dos quais mais tarde se afastou, por razões – exatamente – políticas.

Seu papel de intelectual público e sua atuação pedagógica junto aos movimentos sociais e ao universo sindical foram muito justamente evocados nas notas que vieram à tona, na imprensa militante, após o seu desaparecimento. Gostaria, contudo, de explorar um outro aspecto de sua personalidade, mais ligado aos assuntos que mobilizam esta revista e a instituição que a anima, isto é, a instituição universitária.

Trata-se da profunda fenda que se alargou – e vem se alargando cada vez mais – entre, por um lado, uma personalidade que via a universidade e a sociabilidade companheira que anima a crítica da divisão do trabalho intelectual como um elemento integral da prática acadêmica e, por outro lado, a universidade realmente existente e o modo de convívio entre seus pares. Edmundo acompanhou como que a transição entre esses dois modos de viver a universidade: a universidade em que ele se formou como estudante de ciências sociais, e a universidade em que ele estava trabalhando como professor de ciências sociais. Durante o período de sua prática profissional (que vai dos anos 1970 até meados dos anos 2000), a universidade mudou muito, tornando quase irreconhecível aquele élan que ela carregava em seu tempo, o de pensar o Brasil e mudar o mundo, e onde a integralidade entre ensino, pesquisa e extensão não era ainda um jargão burocrático, mas um projeto político. Essa integralidade foi-se quebrando, pouco a pouco, até opor, de um lado, a "excelência" produtivista feroz e eticamente neutra e, por outro lado, a "visão política", desvalorizada na mesma medida de sua "confusão" (segundo os porta-vozes dessa visão) entre fins e meios.

Edmundo era de uma geração que tinha levado a sério a crítica da divisão do trabalho como um legado para ser aplicado à vida, e não apenas como um tópico para ensinar na sala de aula. Isso ficava evidente em sua prática, e era o que o tornava, de certo modo, incômodo para as personalidades intelectuais avessas a essa mistura de cenários - para usar um termo goffmaniano. Não havia, por exemplo, para ele um momento black-tie, porque ele acreditava piamente que não era o hábito que faz o monge, mas sim, o contrário (com a ressalva de que, ao invés de "monge", por favor leia-se "homem", no sentido genérico do "gênero humano"). Na radicalidade do exemplo de Edmundo, não havia essa de cenários diferentes, pois a permanência de valores morais deveria se impor quaisquer que fossem as circunstâncias. Era uma postura, no fundo, republicana-radical que, para ser consequente, desorganizava os papéis, ainda bastante estamentais, que fornecem o imaginário de classe média de nossa universidade, em termos de práticas e hábitos inveterados, de gosto e de preconceito. Havia uma clara opção preferencial pela plebe, não como plataforma abstrata, mas como prática de trabalho intelectual. O Prof. Edmundo aplicava o exemplo do movimento operário em sua própria vida, de maneira análoga ao modo como os homens verdadeiramente vocacionados fazem com a sua fé. Edmundo era, pois, um ser profundamente imbuído de vocação política. E ele via a Universidade como devendo funcionar desse jeito, como uma instituição verdadeiramente pública, daí o seu paulatino afastamento do ambiente e das instâncias de consagração do chamado "campo intelectual", e sua resoluta opção pelo trabalho de difusão educativa outsider.

Dessa forma, espontânea mesmo, e como que natural, o Prof. Edmundo acabou cantando a bola do que iria acontecer nos anos 2000, em termos da consolidação de um padrão de universidade elitizada, presa da expansão dos critérios neoliberais de gestão, avaliação e orientação valorativa. Hoje se vê com nitidez aonde foi conduzida a universidade: ao modelo gestionárioempresarial, que consagra a respeitabilidade como antagônica aos movimentos sociais e às suas demandas "políticas".

A cisão entre política e saber foi o produto da ciosa tendência de "proteger" a universidade da influência dita "partidária", temática essa que calhava perfeitamente, como contraponto, no tipo de elaboração que o pesquisador Edmundo recolhia dos ensinamentos da democracia operária conselhista do bienio rosso de Turim, objeto de seus estudos doutorais: os de que a democracia (o "para todos") vem, primeiramente, da evocação da parte sobre o todo - o que pode parecer paradoxal, mas expressa bem a percepção marxista de que a classe que tende ao universal (proletariado) está em seu direito de evocar a sua particularidade que acaba, por fim, negando toda a particularidade (sociedade dividida em classes). Assim, pode-se perceber como uma pesquisa, aparentemente apenas teórica, ou específica de uma época histórica determinada (lutas sociais na Itália, final da primeira década do século vinte), pode iluminar contextos bem diversos, guardando, contudo, em certo plano, uma problemática similar.

 

OS INTELECTUAIS E A POLÍTICA E OS INTELECTUAIS NA POLÍTICA

Dois casos bem conhecidos pela crônica da vida política brasileira são elucidativos do papel nada desprezível do intelectual de esquerda na condução da direção moral da sociedade – que é a expressão gramsciana, famosa, para referir-se à luta simbólica, conhecida como "guerra de posições".

Na primeira eleição de FHC, em 1994, um intelectual respeitável da universidade – em especial da área de ciências sociais – chegava ao topo da cena política nacional. Muitas pessoas comuns, letradas e progressistas, guardavam, ainda, a imagem do brilhante professor universitário e teórico da dependência, escritor de livros influentes entre estudantes e interessados pela "realidade brasileira". Movidas por uma certa dívida para com os de sua geração, deram um crédito de confiança ao personagem, embora já estivesse clara, àquela altura, para os mais entranhados no debate público, a profundidade da virada em direção a um liberalismo consequente e pertinaz. É interessante ter em conta esse efeito de inércia que faz perdurar uma ilusão no seio de uma opinião pública informada, típica das metrópoles e dos centros de difusão da cultura. Ao mesmo tempo, é interessante observar, também, o uso estratégico (para os fins práticos da vitória eleitoral), bem pensado e sopesado pelos profissionais de marketing, da preservação de tal patrimônio como um ativo poderoso a ser oportunamente empregado. Até que a ficha caia, são milhares de professores, artistas, espectadores de teatro, de cinema e de artes, jornalistas, publicitários (os famosos "analistas simbólicos", noção de circulação fácil desde o início dos anos 1990), entre outros, espalhados profissionalmente por entre o ambiente da circulação das ideias, que votam.

Cálculo idêntico pode ser percebido décadas depois, quando, nas eleições de 2012 para as prefeituras das capitais, o ex-presidente Lula ungiu dois intelectuais de seu partido para prefeituras de cidades importantes: São Paulo e Campinas. Também ali eram figuras respeitáveis e com capacidade de liderança intelectual sobre um público leitor e crítico. A percepção de um recurso simbólico eficaz na batalha pela opinião pública (e que quase deu certo em ambos os casos) é típica de quem conhece bem o terreno em que está pisando, e é sensível ao clamor difuso das ruas. Sair, como os dois saíram, de um base incólume à pretensa "sujeira" do mundo da política partidária strictu sensu, onde estão abrigados tanto o assessor parlamentar quanto o militante enraivecido, tanto o político profissional quanto o ativista arrivista - eis a mágica tirada de uma boa cabeça estratégica, que vê no neófito o passaporte para "zerar" tudo o que o passado (recente) condena – especialmente quando o ambiente do qual é pinçado, sendo valorizado e cultuado, é inversamente proporcional àquele que apascenta o político tradicional, feito de jogo sujo, mentira e corrupção. Os intelectuais são, sim, importantes no cenário político. Gramsci foi um dos que cedo alertou sobre essa importância simbólica na luta cultural e argumentativa.

O Prof. Edmundo, por seu turno, leitor apaixonado e intérprete visceral daquele autor, percebia muito bem o alcance profundo das reflexões do revolucionário sardo quanto a este ponto: o de que, longe de deter-se nesse papel de influência e de preservação de sua própria autonomia enquanto intelectual, este último pode agir de forma mais efetiva e certeira, indo como que "direto ao ponto", isto é, tomando um lado. Intelectual "orgânico". A sociologia dos intelectuais, hoje praticada nos centros dominantes de pesquisa, limita-se a diagnosticar a autonomia do campo, raramente considerando a hipótese da consciência dessa impossibilidade teórica e da investida resoluta, por parte do intelectual, em um dos lados da luta, em detrimento do outro. O que era mais ou menos plausível no contexto das ideias, nos anos 1980, foi deixando de sê-lo, paulatinamente, na medida em que a Universidade foi se profissionalizando e, ao mesmo tempo, expulsando certos temas de sua pauta, tais como o engajamento e a crítica tanto da "excelência" quanto da "competência"; crítica essa que tinha como pano de fundo o ideal de-mocrático-radical de que "todos os homens são intelectuais", uma divisa gramsciana hoje esquecida. Isso explica, por parte do Prof. Edmundo, um certo pudor – muitas vezes percebido, quase nunca explicitado – com a afirmação da insígnia universitária como marca de distinção (que ele de resto merecia indiscutivelmente), simultaneamente a um certo anonimato deliberado, profundamente coerente com sua maneira de encarar o mundo.

Tanto o engajamento quanto a crítica acabaram migrando do centro do debate acadêmico para fora dele, indo aninhar-se nos movimentos sociais, deixando o cenário "interno" (isto é, da própria Universidade com seus departamentos, faculdades e congregações) entregue ao discurso da eficiência, da produtividade et pour cause, da competitividade. Parece que o Prof. Edmundo percebeu o movimento de fechamento de horizontes e, o que antes era uma tensão dentro da Universidade entre o papel do intelectual na luta no front interno (institucional) e na luta no front externo (público) acabou se resolvendo, na biografia do nosso personagem, em um deslocamento cada vez mais pronunciado em direção ao front externo (o que incluía, como já se fez referência, a participação nas entidades sindicais do professorado, principalmente a Andes e a Adunicamp).

Sua tese de doutorado, defendida na Pós-Graduação em História Social da USP, em 1984 e, depois, editada em publicação da Unicamp dedicada às teses de seus docentes, no ano de 1987, em dois volumes, com o título de "Democracia Operária", é um estudo minucioso sobre a formação do pensamento de Antonio Gramsci. Lá estão tematizadas questões fulcrais e da maior relevância, tais como o círculo intelectual em uma sociedade atrasada do ponto de vista europeu, seus deslocamentos e instabilidades; a relação desse círculo com os meios de difusão das ideias, como as revistas; o transformismo como padrão político e ideal na sociedade italiana (podendo ser generalizado como um padrão recorrente toda a vez que os de baixo irrompem na cena política); a decapitação das lideranças que se destacavam nos movimentos sociais como uma estratégia política das elites (assunto a que ele sempre voltava como algo rotineiro na realidade muito concreta das lutas sociais do presente e, também, um índice da fraqueza dos intelectuais em contextos subdesenvolvidos); a descrição encarnada - porque histórica – da luta pela hegemonia e o papel da moderna classe dos trabalhadores nela – a lista de tópicos poderia se estender. De fato, muito do que Edmundo lia, a propósito da Itália do início do novecento, com Gramsci, na verdade mirava o Brasil do período da redemocratização e do surgimento do PT e da CUT, então as grandes esperanças (mencionadas, inclusive, na Introdução de seu doutoramento!).

Pode-se ver, assim, a meu juízo, certo tipo de escolha do Professor – escolha ao mesmo tempo profissional e política – que orientou a sua vida nos anos de Unicamp. Escolha profissional porque, sabendo das limitações da manutenção de um papel respeitável (e jamais porque não estivesse à altura dele, muito ao contrário - como todos os seus alunos, colegas e aqueles que com ele conviveram sabem muito bem), optou por ir fundo na experiência da transformação por meio de uma atividade pedagógica direcionada aos que mais sensíveis estão à necessidade de mudanças: aqueles que demandam por elas. Escolha política porque, diferente da política institucional e profissional, esta era uma opção de vida, de quem não consegue, intimamente falando, separar a percepção das urgências da intervenção sobre elas. O relato rememorativo dos próximos, amigos e companheiros de lutas nos fronts onde o Professor atuava – front associativo e dos movimentos sociais, sobretudo, – são unânimes em marcar o entusiasmo com que costumava falar dos assuntos que os atava, sendo que o entusiasmo, longe de se manifestar apenas em vivacidade de espírito, podia deslizar, também, para uma mordacidade ferina ou um desprezo bem calculado. Indiferença e dissimulação, que ninguém esperasse isso dele. Também evitava o entusiasmo que descambasse em um script por sinal bastante frequente e fácil: o do militante chato. Aliás, não havia nada de pedante ou afetado na figura do Professor, muito menos de cálculo racional, no sentido egoísta do termo. Havia, isso sim, uma enorme coerência entre o pensar e o agir, o que era perceptível para todos aqueles que o rodeavam, e que chegava mesmo a ser, para esses, desconcertante, na medida em que, partilhando, como partilhávamos (porém não com a mesma intensidade), de suas convicções, víamo-nos como que incapazes de levar tão a fundo o seu compromisso e, por isso, injetando uma auto-sensação de permanente déficit, um certo sentimento de pequenez, como que a dizer que concordávamos com ele, mas que éramos incapazes de manter o mesmo grau de exigência; um sentimento de que deveríamos estar ali, onde ele estava, fazendo o que ele fazia, e que qualquer decisão diferente seria como que abandonar o barco. Mas isso implicava, por suposto, uma certa dureza (vê-se depois, mas apenas muito depois, que essa dureza é a condição daquela coerência).

É nesse sentido que o Prof. Edmundo era um exemplo. Não um exemplo pelo convencimento professoral, mas pela prática, como que a dizer, por atos e compromissos, a todos aqueles que lutavam a sua luta, o que, afinal, tinham de fazer e, sobretudo, onde tinham de estar. A prova da vida, por meio de atos exemplares, embora simples, sem nenhuma pompa ou anúncio solene. A ação política estava completamente incorporada na prática de sua vida. Especialmente – e esse é o lado triste, que explica a situação do Professor, sua relativa marginalidade diante dos colegas de profissão, à medida que o tempo ia passando – na Universidade e, dentro dessa última, nos cursos de Ciências Sociais. Relembrar o Prof. Edmundo e seu legado como professor e como intelectual de esquerda significaria tentar erigir um tipo de relação diferente da que é hoje praticada entre o saber e o agir.

 

 

Leonardo Mello e Silva – Doutor em Sociologia. Professor da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia do Trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: sindicalismo, reestruturação produtiva e qualificação do trabalho. Publicações recentes: Qualidade de vida, opinião pública e ação de bairro. A trajetória do movimento antiverticalização em São Paulo. Revista Crítica de Ciências Sociais, v. 92, p. 99-123, 2011; Prática de pesquisa e "sociologia pública": uma discussão em torno de cruzamentos possíveis e outros nem tanto. Sociologias (UFRGS), v. 11, p. 76-99, 2009.

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