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Caderno CRH

versão impressa ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.27 no.72 Salvador set./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792014000300014 

RESENHA

 

Escritos históricos e novas perspectivas urbanas

 

 

Dirceu Piccinato Junior

 

 

FRIDMAN, Fania (Org.). Cidades do novo mundo: ensaios de urbanização e história. 1. ed. Rio de Janeiro: Garamond, 2013. 180 p.

Cidades do Novo Mundo: Ensaios de urbanização e história é o título do livro organizado por Fania Fridman. A obra é resultado de uma coletânea de trabalhos reunidos que foram apresentados no "III Encontro Cidades Latino-Americanas do século XVI ao XIX", ocorrido em agosto de 2012. O encontro tinha como intuito promover discussões em torno da história e da geografia. Fania Fridman é economista e professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Grupo de Estudos do Território e de História Urbana. Coube a ela organizar esse livro, fomentando a interdisciplinaridade com diversas áreas do conhecimento como forma de discussão de novas perspectivas e novos subsídios para futuras pesquisas sobre o urbano.

A pesquisa, seja ela qual for, depende das delimitações das fronteiras de cada área do conhecimento, mas, especialmente, das proximidades que podem ser escolhidas ou impostas pelo próprio saber, o que significa que a construção das ciências sociais está num processo de redefinição constante, ou seja, uma pesquisa depende também dos conteúdos particulares de cada uma das outras ciências humanas. Sob esse aspecto, as discussões apresentadas pelos seis trabalhos que compõem o livro procuram, na escala multidisciplinar, fundamentar uma reflexão teórico-metodológica da história da urbanização latino-americana.

O primeiro trabalho, intitulado "Cidades e povoados de índios (séculos XVI-XVII)", do Historiador Thomas Calvo, professor da Universidade de Paris Ouest (Paris) e do Colégio de Michoacán (México), discute a mudança transcendental pela qual os índios da Nova Espanha ou Peru passaram quando deixaram de viver em um universo autônomo para viverem no urbano ocidentalizado, meticulosamente ordenado, planejado. O autor toma como fonte documental para esse trabalho as crônicas, relatos e gravuras da época, após os primeiros contatos do homem branco com os nativos. O mérito desse texto está em apresentar como os espanhóis estruturaram as cidades, a urbanidade, integrando os índios no sistema de governo municipal (república) e indicando certa dificuldade em estabelecer uma tipologia de cidades e povoados, possivelmente em razão da miscigenação que acabou acontecendo. Todavia, ele deixa alguns "fios soltos", ou seja, indica contextos ainda não esclarecidos, como o fato de cada república (cidade ou povoação de índios) dar respostas diferentes ao processo de urbanização, o papel da Igreja Católica nas cidades e povoações indígenas e o fluxo do tempo histórico na constituição de uma tipologia urbana, por exemplo.

"Segregação residencial na cidade latino-americana no passado: resgate e discussão" de autoria do geógrafo e professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Lobato Corrêa, revela que as cidades latino-americanas caracterizam-se por apresentar uma complexa organização espacial, fruto do passado, com formas e arranjos espaciais que foram somatizados por diversas temporalidades, ou seja, trata-se do espaço urbano com um relevante acúmulo de interinidades e espacialidades, revelando um processo de mudança e resistência ao mesmo tempo, o que ocasionou a segregação dos espaços de moradia nas cidades. Essencialmente teórico, o texto de Lobato Corrêa procura estabelecer uma interlocução entre os estudos do sociólogo argentino Oscar Yujnovky e os do geógrafo alemão J. G. Kohl. O primeiro contribui com a discussão através da ideia de periodização do estudo sobre a cidade latino-americana; a contribuição do segundo se dá através do método de análise acerca do padrão de segregação residencial da Europa continental. Além desses, outros teóricos são citados no decorrer do trabalho, como Gideon Sjoberg, Dan Stanislawiski e Theodore Caplow. Todavia, o autor nos apresenta a ideia de que a organização do espaço urbano contém diversas temporalidades, trazendo à tona heranças e tensões sobre a arquitetura e o urbanismo. Aponta possíveis estudos sobre a regularidade dos agentes sociais, a etnicidade e o escravismo no delineamento do tecido urbano, conjuntura ainda pouco esclarecida, segundo o autor.

O terceiro trabalho é "Reflexões em torno da experiência francesa de criação de cidades no Novo Mundo (séculos XVI - XVIII), cujo autor é o Historiador francês Laurent Vidal, professor da Universidade de La Rochelle e diretor do Centre de Recherche em Histoire Internationale et Atlantique (França). Trata-se de um texto extremamente interessante, pois a história urbana latino-americana, de uma maneira geral, está sempre discutindo a formação de cidades organizadas pelos portugueses e espanhóis e Laurent Vidal inova ao propor a discussão da formação de cidades pelos franceses nas Américas. O texto busca, em fontes documentais primárias, como cartografias, relatos e ofícios, explorar as 41 cidades que os franceses fundaram no Novo Mundo entre os séculos XVII e XVIII. Esse trabalho revela a ideia de "inventar cidades" no papel para impor uma certa existência da França-América, como é exemplar a primeira cidade na América, Henryville, idealizada na baía de Guanabara, Rio de Janeiro, mas que nunca saiu do papel. Sua discussão perpassa a construção de fortes, os fortes urbanizados, a importância dos engenheiros do rei, além de apontar cidades fundadas nos EUA, como Nova Orleans, e no Canadá, como a cidade de Quebéc. Interessante, nesse trabalho, é observar que o autor discute as cidades como espaços de espera de um povo, já que elas, no Novo Mundo, eram uma aposta de um futuro provável. Laurent deixa em aberto o estudo dessas cidades francesas e o contexto social, intrínseco, de cada uma delas.

Renata Malcher de Araujo, arquiteta e professora da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade de Algarve (Portugal), no seu texto "Geografias descritas: cidades, vilas e povoações nos relatos, roteiros e corografias do final do século XVIII e início do XIX", busca espacializar as palavras das obras: Corografia brasílica ou relação histórico-geográfica do Reino do Brasil (1817), do Padre Manuel Aires de Casal, os relatórios de Baltazar da Silva Lisboa apresentados a D. João VI (1808, aproximadamente) e o livro de Luiz D'Alicourt, Memória sobre a viagem do Porto de Santos a Cidade de Cuiabá (1818). A pesquisadora, por meio desses relatos de viagens, procura reconstituir uma rede urbana e explorar verticalmente o processo fundacional de uma capela, freguesia, vila e cidade. O presente texto é apenas um "sobrevoo" numa conjuntura muito ampla, pois possui como objeto de estudo, conforme a obra de Aires de Casal, quase todo o Brasil Colonial. Merecidamente, é um trabalho a ser desenvolvido não por uma única pessoa, como a própria autora relata, mas por um conjunto de Universidades, formando um grande e importante projeto temático. Portanto, propor uma pesquisa interdisciplinar envolvendo universidades nacionais e internacionais pode ser considerada a valorosa contribuição desse texto.

O penúltimo texto, "Percursos topográficos e afetivos pela cidade de São Paulo. Memorialistas, viajantes, moradores, literatos e poetas", é da historiadora e professora titular da UNICAMP, Maria Stella Bresciani. Assim como Malcher de Araujo, a pesquisadora Maria S. Bresciani procura reconstituir a São Paulo do século XIX por meio da memória; de depoimentos, textos de memorialistas, relatos de viajantes, o que, juntamente com iconografias e cartografias de época, possibilitou que a pesquisadora esboçasse uma parte da "cultura urbana" da cidade. Uma perspectiva de pesquisa científica relativamente nova e interessante, cujo propósito é historicizar a urbanização da capital paulista, segundo documentos até então pouco explorados. A autora busca nas obras de Walter Benjamin, Infância em Berlim por volta de 1900, e de Anne Cauquelin, Ensaio de filosofia urbana, o desenvolvimento de um método para analisar as formas de apropriação do espaço urbano. A memória é um elemento arquitetônico e estruturante do espaço urbano, o que significa que as recordações nos permitem assinalar no mapa, neste estudo da cidade de São Paulo, o "efeito constitutivo do tempo". O mérito desse estudo reside no fato de se recontar a cidade pelo ângulo das memórias que nela ainda habitam; uma cidade expressa do ponto de vista afetivo.

No último texto, "Reflexões sobre o urbanismo do século XIX", Ramon Gutierrez, arquiteto e professor em diversas universidades latino-americanas, relata a imposição geométrica do parcelamento da terra urbana e do território conquistado como único requisito "científico" de dominação e racionalização do espaço. Os saberes eruditos de topógrafos, agrônomos, agrimensores, entre outros, e a nova conjuntura imposta pelas ferrovias condicionaram a valorização da terra, desencadeando crises, como as epidêmicas, e promovendo a difusão de novos pensamentos urbanos. Segundo Ramon, tal conjuntura foi também responsável pela renovação arquitetônica, fruto dos imigrantes europeus que transformaram significativamente o cenário urbano das cidades no século XIX. As constantes e dinâmicas renovações no modo de gerir a urbe transformaram significativamente o cenário urbano de cidades de grande, médio e pequeno porte no final do século XIX e início do século XX. Em determinados casos, se arrasariam totalmente os elementos mais característicos da arquitetura colonial para atender à crescente rentabilidade do solo urbano nas áreas centrais. Entretanto, ficam perguntas sem respostas: Como se articularam as cidades de grande, médio e pequeno porte diante do processo de construção da cidade burguesa? Quais as similaridades e quais as diferenças entre elas quanto à valorização da terra urbana? Quem são elas e qual o papel dos agentes sociais dentro desse processo?

O que se observa, nos seis textos é o espaço urbano sendo analisado pelo acúmulo de temporalidades e espacialidades, revelando, em graus variados, processos de mudanças e de resistências. Sob essa perspectiva, como nos apresenta Corrêa em seu texto, que tomamos como referência, a paisagem urbana resultante que podemos identificar em cada estudo é, portanto, poligenética, o que significa ser "criada em diferentes tempos por diferentes agentes sociais e com diversos propósitos" (2013, p. 48). O livro finaliza com dois curtos textos, "Homenagem a Maurício de Almeida Abreu", da socióloga Maria Laís Pereira da Silva, e "Em nome da amizade" do geógrafo Rogério Haesbaert. Ambos prestam uma merecida homenagem ao geógrafo Maurício, falecido em junho de 2011, que muito trabalhou por uma geografia histórica.

 

 

Dirceu Piccinato Junior - Arquiteto e Urbanista. Doutorando em Urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC Campinas. Membro do grupo de pesquisa Cultura Urbanística na Tradição Clássica da PUC-Campinas, estudando o tema Aforamento da Terra Urbana e o processo de Urbanização. piccinato.jr@gmail.com

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