SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.17 issue8Hydrous non-crystalline phosphates: structure, function and a new white pigment author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Journal of the Brazilian Chemical Society

Print version ISSN 0103-5053

J. Braz. Chem. Soc. vol.17 no.8 São Paulo Nov./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-50532006000800001 

EDITORIAL

 

Informação, conhecimento e sabedoria

 

 

O XIII Brazilian Meeting on Inorganic Chemistry (BMIC) que teve lugar em Fortaleza, em setembro passado, repetiu o enorme sucesso dos anos anteriores, expondo o crescente desafio de lidar com temáticas cada vez mais complexas e variadas, que vão desde a química de coordenação, compostos macrocíclicos, sistemas biomiméticos, catálise, metalofármacos, compostos de valência mista, imãs-moleculares, modelagem, espectroscopia, eletroquímica e fotoquímica, até chegar às nanopartículas, filmes e dispositivos da nanotecnologia molecular. Este número especial do Journal of the Brazilian Chemical Society é um espelho dessa riqueza que, com certeza, também está se repetindo em outras áreas. Mas se tal diversidade é sinônimo de desenvolvimento, ela também esconde um desafio crítico contido na progressão: informação ® conhecimento ® sabedoria. Essa progressão é melhor representada por uma pirâmide, tendo na base a informação e, no topo, a sabedoria. Numa época marcada pela complexidade do conhecimento, essa pirâmide expressa uma preocupação importante a ser trabalhada pela comunidade científica. Cada vez mais, o crescimento exponencial da informação está ficando difícil de ser assimilado, principalmente pelos jovens que almejam ingressar no mercado de trabalho. O reflexo disso já é notório no ensino, em todos os níveis, incluindo a graduação e a pós-graduação. Por isso, a questão tornou-se um dos assuntos dominantes nas discussões que aconteceram no VI Workshop Nacional da Pós-Graduação em Química, em Maceió, no final do mês de novembro. Vários participantes relataram casos em que candidatos a concursos de ingresso à docência, com excelentes currículos, principalmente em termos de publicações científicas, não conseguiram lograr aprovação nos exames básicos de conhecimento. Certamente, essa é uma questão complexa, e tem muito a ser discutido. Entretanto, se hoje é fato que a informação está muito mais acessível, é igualmente verdade que tal facilidade de disseminação, principalmente através da mídia, pode fechar um círculo em si próprio, moldando uma sociedade de informação. Assim, muitos acabam se esquecendo da importância de galgar as etapas seguintes, em que a informação precisará ser trabalhada através da razão ou raciocínio científico, para gerar conhecimento e, progressivamente, em níveis mais altos e de forma criativa, para chegar à sabedoria. No contexto empresarial, essa progressão é a força propulsora da inovação. A informação, como base do conhecimento, tem importância inegável; contudo, sua utilidade depende da ferramenta principal que está em nosso intelecto e provém da nossa formação, da mesma forma que um banco de dados precisa de um "software" adequado para ser interpretado. Gerar um profissional sem essa habilidade, isto é, com pouca formação ou capacidade de raciocínio, equivale a tirar pouco proveito da informação disponível. Por outro lado, estamos vivenciando uma hipervalorização da informação, que tem justificado o crescimento de uma sociedade onde a informação é colocada em permanente destaque, refletindo, por exemplo, no crescimento da oferta de cursos não presenciais, como os de ensino à distância. Nesse contexto, o papel do professor, como formador e educador, está correndo o risco de ser colocado em segundo plano, mascarado pelos mitos e valores da sociedade da informação. Assim, muitos alunos já estão restringindo sua atividade à mera busca da informação, valendo-se de apostilas, anotações de colegas, principalmente de cursos passados, como pretexto para fugir das salas de aula. Esse convidativo acesso à informação, se mal explorado, concorrerá para afastá-lo do contacto com o professor e da cadeia de aprendizagem proporcionada pela estrutura de ensino. Isso será particularmente trágico nas áreas científicas que envolvem atividades de laboratório, como a Química, onde a experimentação tem sido um recurso indispensável no processo de formação do aluno. Sem a devida formação, as informações não acabam provocando suficiente entusiasmo nos alunos e, em ritmo crescente, a falta de motivação pode tomar conta do ambiente em sala de aula. Nessa conjuntura, ausências, baixos rendimentos e evasão surgem como indicativos de problemas sérios que precisam ser tratados. Precisamos, com urgência, resgatar o esforço da razão, valorizando os conceitos, os princípios e os fundamentos da ciência. Precisamos, pois, transpor a sociedade da informação para chegar à sociedade do conhecimento e, oxalá, à sociedade da sabedoria.

 

Henrique E. Toma
(IQ-USP)