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Journal of the Brazilian Chemical Society

Print version ISSN 0103-5053

J. Braz. Chem. Soc. vol.20 no.5 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-50532009000500001 

EDITORIAL

 

Brasil, uma potência emergida

 

 

Químicos para uma potência emergente. Com esse tema a Sociedade Brasileira de Química discutirá durante a 32ª RASBQ a importância da pesquisa e da inovação como pilares de sustentação de uma nação desenvolvida e soberana. Nos países centrais, a inovação tecnológica é fruto de um conjunto de fatores tendo como base um sistema de educação sólida em todos os níveis, a geração de ciência de fronteira e um setor industrial apto a absorver esse conhecimento e transformá-lo em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Esse modelo, embora consolidado desde o século XX, exige uma ação constante do estado, das organizações empresariais, sociais e dos cidadãos (professores, técnicos, cientistas, gestores, empresários, políticos) garantindo uma integração permanente entre o avanço científico e tecnológico essenciais para a geração de tecnologia de ponta e riqueza econômica.

Nos últimos anos, a ciência e tecnologia (C&T) de países emergentes como Brasil, China e Índia vem ocupando mais espaços nas discussões internacionais, destacando-se de maneira competitiva entre as economias mais promissoras num mundo globalizado. Não obstante os avanços substanciais que o Brasil alcançou nestes últimos 20 anos, ainda não existe um ambiente de pesquisa e desenvolvimento tecnológico equilibrado. Se por um lado os indicadores de produção acadêmica acusam crescimento exponencial (em 2008, 2,12% de toda a publicação mundial), as patentes solicitadas e depositadas nos colocam muito longe dos emergentes China e Índia. Apesar da World Intellectual Property Organization - WIPO (2008) contabilizar um crescimento de três posições em relação ao último relatório, continuamos em 24º lugar demonstrando que o sistema de C&T ainda tem muitos desafios a serem vencidos. Ainda assim, esses dados refletem um avanço marcante na capacidade brasileira de gerar conhecimento, o que pode ser vislumbrado pelo grande número de mestres e doutores formados em todo país, especialmente em áreas vitais, como a química. Essa mão de obra altamente especializada vem sendo absorvida, em sua maioria absoluta, pelas universidades públicas e privadas, institutos de pesquisa e outros órgão estatais. Parece natural que, em um primeiro momento, tenha sido necessária a consolidação de uma estrutura de ensino e pesquisa concentrada principalmente nas universidades, justificando essa valiosa capacitação profissional. Porém, sob a ótica do desenvolvimento tecnológico nacional este arranjo foi prejudicial para o setor empresarial brasileiro, que se ressente de uma pesquisa de vanguarda dentro das empresas. A fragilidade tecnológica brasileira não tem uma causa única. Ela é fruto da falta de uma política de estado para a C&T e da marcante transnacionalização da economia brasileira em função do processo de importação. Esta desconexão entre a ciência e o desenvolvimento tecnológico local fez com que a maioria das empresas optasse pela importação ou transferência de tecnologia do exterior prescindindo da absorção de profissionais qualificados dentro das empresas. Assim, a pesquisa acadêmica em todas as áreas da química avançou de maneira fantástica, mas distanciada dos inúmeros problemas tecnológicos vivenciados pelo grande contingente de empresas nacionais. O maior desafio das empresas brasileiras em uma potência emergente é criar um cenário para a assimilação de profissionais altamente qualificados para atuar em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), num mundo globalizado e competitivo. Segundo uma pesquisa realizada pela revista the Economist Intelligence intitulada "People for Growth" temos falta de profissionais qualificados para atuar no setor empresarial. Esta pesquisa, patrocinada pela empresa SAP, reuniu depoimentos de 944 executivos de diferentes setores da economia em todo o mundo, sendo 357 deles representantes de companhias em mercados emergentes, incluindo o Brasil. Levantamento realizado pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), pesquisou a distribuição dos doutores titulados no país, de 1996 a 2003. Do conjunto de profissionais, com emprego formal em 2004, 66% estão na rubrica educação, ou seja, fortemente concentrados nas instituições de ensino do estado. Enquanto aqueles incluídos nas categorias PD&I da indústria, somam apenas 3,75%.

Dados dessa natureza nos levam a refletir sobre o momento político e social brasileiros: se temos (i) massa crítica qualificada, (ii) ambiente favorável para competição aos níveis tecnológicos de algumas economias desenvolvidas, (iii) capacidade instalada para superar o atraso relativo a estes mesmos países e (iv) uma riqueza natural privilegiada, o salto qualitativo em PD&I que o país necessita é pequeno e animador. A fim de atingirmos os índices tão sonhados das nações desenvolvidas é fundamental um investimento maciço em uma política de formação educacional para todos os níveis (ensino fundamental, médio, graduação e pós-graduação). O equilíbrio da absorção de jovens cientistas na universidade e no setor empresarial certamente elevará o País à categoria de potência emergida. A SBQ como uma das maiores sociedades científicas da América Latina, com forte representação de químicos atuantes do Oiapoque, AP, ao Chuí, RS, e responsável pela edição de três periódicos de excelência, está firmemente empenhada na missão que deve ser compartilhada com todos os cientistas, empresários e políticos brasileiros: ver os recursos humanos qualificados sendo absorvidos pelo setor empresarial para atuar em projetos de PD&I genuinamente nacionais.

 

Luiz Henrique Catalani
Secretário Geral SBQ (IQ-USP, São Paulo, SP)
Vanderlan da Silva Bolzani
Presidente SBQ (IQ-UNESP, Araraquara, SP)