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Revista Brasileira de Terapia Intensiva

Print version ISSN 0103-507XOn-line version ISSN 1982-4335

Rev. bras. ter. intensiva vol.19 no.3 São Paulo July/Sept. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-507X2007000300020 

III CONSENSO BRASILEIRO DE VENTILAÇÃO MECÂNICA

 

Ventilação mecânica na lesão pulmonar aguda / síndrome do desconforto respiratório agudo

 

Mechanical ventilation in the acute lung injury/acute respiratory distress syndrome

 

 

Marcelo B. P. AmatoI; Carlos R. R. CarvalhoII; Sílvia VieiraIII; Alexandre IsolaIV; Vivian RotmanV; Marcelo MoockVI; Anderson JoséVII; Suelene Aires FrancaVIII

IUTI-Respiratória do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (SP)
IIUTI-Respiratória do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (SP)
IIIHospital de Clínicas de Porto Alegre da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (RS)
IVServiço de Terapia Intensiva do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (SP)
VUnidade de Terapia Intensiva do Hospital Copa D'Or (RJ)
VIUTI do Hospital Estadual Prof. Liberato Di Dio do Grajaú (SP)
VIIUTI da Santa Casa de São Paulo, Professor do Curso de Fisioterapia da UNINOVE (SP)
VIIIUTI do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (GO)

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Em 2000, foi publicado o II Consenso Brasileiro de Ventilação Mecânica. Desde então, o conhecimento na área da ventilação mecânica avançou rapidamente, com a publicação de inúmeros estudos clínicos que acrescentaram informações importantes para o manuseio de pacientes críticos em ventilação artificial. Além disso, a expansão do conceito de Medicina Baseada em Evidências determinou a hierarquização das recomendações clínicas, segundo o rigor metodológico dos estudos que as embasaram. Essa abordagem explícita vem ampliando a compreensão e a aplicação das recomendações clínicas. Por esses motivos, a AMIB – Associação de Medicina Intensiva Brasileira – e a SBPT – Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia – julgaram conveniente a atualização das recomendações descritas no Consenso anterior. Dentre os tópicos selecionados a Ventilação Mecânica na Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) foi um dos temas propostos. O objetivo foi descrever os pontos mais importantes relacionados à ventilação mecânica na Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo e discutir o papel das estratégias protetoras aplicada a esses pacientes.
MÉTODO: Objetivou-se chegar a um documento suficientemente sintético, que refletisse a melhor evidência disponível na literatura. A revisão bibliográfica baseou-se na busca de estudos através de palavras-chave e em sua gradação conforme níveis de evidência. As palavras-chave utilizadas para a busca foram: mechanical ventilation e acute respiratory distress syndrome.
RESULTADOS: São apresentadas recomendações quanto à utilização das estratégias protetoras (uso de baixos volumes-correntes e limitação da pressão de platô inspiratório), assim como, o estado atual da aplicação da PEEP e o papel das manobras de recrutamento.
CONCLUSÕES: A ventilação mecânica na SDRA apresentou muitas mudanças nesses últimos anos e o uso de estratégias ventilatórias que preservem a micro-arquitetura pulmonar é a forma mais indicada no momento.

Unitermos: Estratégias Protetoras, PEEP, Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo, Ventilação Mecânica


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES: The II Brazilian Consensus Conference on Mechanical Ventilation was published in 2000. Knowledge on the field of mechanical ventilation evolved rapidly since then, with the publication of numerous clinical studies with potential impact on the ventilatory management of critically ill patients. Moreover, the evolving concept of evidence - based medicine determined the grading of clinical recommendations according to the methodological value of the studies on which they are based. This explicit approach has broadened the understanding and adoption of clinical recommendations. For these reasons, AMIB – Associação de Medicina Intensiva Brasileira and SBPT – Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia – decided to update the recommendations of the II Brazilian Consensus. Acute Respiratory Distress Syndrome (ARDS) has been one of the updated topics. This objective was described the most important topics related to mechanical ventilation in patients with acute respiratory distress syndrome.
METHODS: Systematic review of the published literature and gradation of the studies in levels of evidence, using the key words mechanical ventilation and acute respiratory distress syndrome.
RESULTS: Recommendations on the use of lung protective strategies during mechanical ventilation based on reduced tidal volumes and limitation of plateau pressure. The state of the art of recruitment maneuvers and PEEP titration is also discussed.
CONCLUSIONS: The mechanical ventilation of patients with ADRS changed in the last few years. We presented the role of lung protective strategies that could be applied to these patients.

Key Words: Acute Respiratory Discomfort Syndrome, Lung Protective Strategies, Mechanical Ventilation, PEEP.


 

 

INTRODUÇÃO

Em 2000, foi publicado o II Consenso Brasileiro de Ventilação Mecânica. Desde então, o conhecimento na área da ventilação mecânica avançou rapidamente, com a publicação de numerosos estudos clínicos que acrescentaram informações importantes para o mauseio de pacientes críticos em ventilação artificial. Além disso, a expansão do conceito de Medicina Baseada em Evidências determinou a hierarquização das recomendações clínicas, segundo o rigor metodológico dos estudos que as embasaram. Essa abordagem explícita vem ampliando a compreensão e a aplicação das recomendações clínicas. Por esses motivos, a AMIB – Associação de Medicina Intensiva Brasileira – e a SBPT – Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia – julgaram conveniente a atualização das recomendações descritas no Consenso anterior. Dentre os tópicos selecionados a ventilação mecânica na síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) foi um dos temas propostos.

 

DEFINIÇÃO

A síndrome da angústia respiratória aguda (SARA) ou síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) é definida, de acordo com a Conferência de Consenso Européia-Americana1, como uma síndrome de insuficiência respiratória de instalação aguda, caracterizada por infiltrado pulmonar bilateral à radiografia de tórax, compatível com edema pulmonar; hipoxemia grave, definida como relação PaO2/FIO2 < 200; pressão de oclusão da artéria pulmonar < 18 mmHg ou ausência de sinais clínicos ou ecocardiográficos de hipertensão atrial esquerda; presença de um fator de risco para lesão pulmonar. Durante essa mesma Conferência de Consenso, foi criado o termo lesão pulmonar aguda (LPA), cuja definição é idêntica à da SDRA, exceto pelo grau menos acentuado de hipoxemia presente na LPA (PaO2/FIO2 < 300), com a finalidade de se identificar os pacientes mais precocemente durante a evolução de seu quadro clínico. Assim, todo paciente com SARA/SDRA apresenta LPA, porém nem todo paciente com LPA evolui para SARA/SDRA.

É sugestão desse Consenso o uso dos termos SARA ou SDRA de forma indistinta, uma vez que essa tem sido a realidade no cotidiano das nossas especialidades.

 

 

EPIDEMIOLOGIA

A LPA/SDRA é freqüente; sua incidência foi estimada em 79 casos por 100 mil habitantes ao ano, com variações sazonais nítidas, sendo mais freqüente no inverno. Também se observou que a incidência é crescente com a idade, sendo que chega a 306 casos por 100 mil habitantes/ano, na faixa dos 75 aos 84 anos2. A mortalidade da SDRA é alta, estimada entre 34% e 60%3. Os pacientes que sobrevivem têm permanência prolongada na unidade de terapia intensiva (UTI) e apresentam significativas limitações funcionais, afetando principalmente a atividade muscular, reduzindo a qualidade de vida e persistem por, pelo menos, um ano após a alta hospitalar4.

 

FISIOPATOLOGIA

A SDRA é caracterizada por inflamação difusa da membrana alvéolo-capilar, em resposta a vários fatores de risco pulmonares ou extrapulmonares. Esses fatores de risco causam lesão pulmonar através de mecanismos diretos (p. ex.: aspiração de conteúdo gástrico, pneumonia, lesão inalatória, contusão pulmonar) ou indiretos (p. ex.: sepse, traumatismo, pancreatite, politransfusão). Ocorre lesão na membrana alvéolo-capilar, independente da causa desencadeante da lesão pulmonar, com extravasamento de fluido rico em proteínas para o espaço alveolar. A lesão epitelial alveolar envolve a membrana basal e os pneumócitos tipos I e II, levando à redução da quantidade e à alteração da funcionalidade do surfactante, com o conseqüente aumento da tensão superficial alveolar, ocorrência de atelectasias e redução da complacência pulmonar. Lesão no endotélio capilar é associada com inúmeros eventos inflamatórios, como recrutamento, seqüestro e ativação de neutrófilos; formação de radicais de oxigênio; ativação do sistema de coagulação, levando à trombose microvascular; e recrutamento de células mesenquimais, com a produção de procolágeno. No espaço alveolar, o balanço entre mediadores pró-inflamatórios (TNF–a, IL–1, IL–6 e IL–8) e antiinflamatórios (IL–10, antagonistas do receptor de IL–1 e do receptor do TNF solúvel) favorece a manutenção da inflamação. A lesão pulmonar inicial é seguida por reparação, remodelamento e alveolite fibrosante5,6.

 

OBJETIVOS DA VENTILAÇÃO MECÂNICA

Promover adequada troca gasosa, ao mesmo tempo em que se evitam a lesão pulmonar associada à ventilação mecânica e o comprometimento hemodinâmico decorrente do aumento das pressões intratorácicas.

 

MODO VENTILATÓRIO

Recomendação: Não existem dados suficientes para determinar se a ventilação com volume-controlado ou com pressão-controlada diferem em seus efeitos sobre a morbidade ou mortalidade de pacientes com SDRA. Quando da utilização do volume controlado, deve-se preferir a utilização de onda de fluxo decrescente, pois ela propicia melhor distribuição do ar inspirado, gerando menor pressão na via aérea. O Consenso recomenda, sempre que possível, a utilização de modos ventilatórios limitados em pressão. Na fase inicial, a ventilação com pressão controlada, em paciente adequadamente sedado, promove conforto e trabalho respiratório mínimo. Deve-se estar atento para o controle do volume-corrente quando da utilização dessa modalidade, uma vez que ele não é garantido e, à medida que a mecânica respiratória se altera com o tratamento, o volume-corrente sofre alterações na mesma proporção7.

Grau de Recomendação: D

Comentário: Apesar da ventilação com volume controlado ser considerada a modalidade convencional de VM na SDRA, a utilização da ventilação com pressão controlada, tem sido usada o suficiente para ser também considerada "convencional". Entusiasticamente utilizada no passado, a inversão da relação I:E não é mais recomendada atualmente. Quando comparada à ventilação em pressão controlada convencional (com relações I:E < 1:1) associada a altos valores de PEEP externo, a inversão da relação I:E não se mostrou vantajosa. Para um mesmo platô de pressão e PEEP total, a inversão da relação I:E normalmente resulta em maior pressão média das vias aéreas (com maior prejuízo hemodinâmico), sem benefício claro em termos de oxigenação ou proteção pulmonar7. Além disto, a utilização de PEEP intrínseca, normalmente presente durante a inversão da relação I:E, continua cercada de incertezas em termos de estabilidade alveolar7. Ensaios clínicos sugerindo vantagem do uso da pressão controlada são poucos e controversos. Ensaio clínico aleatório com 27 pacientes com insuficiência respiratória aguda hipoxêmica grave (PaO2/FIO2 < 150) sugeriu que pacientes ventilados com pressão controlada tiveram menor tempo de VM comparado com pacientes de mesma gravidade ventilados com volume controlado8. Outro ensaio clínico aleatório multicêntrico de 79 pacientes com SDRA, definida de acordo com a Conferência de Consenso Européia-Americana, mostrou que a mortalidade hospitalar (78% versus 51%), o número de órgãos em insuficiência (além do pulmão) (mediana de 4 versus 2) e a incidência de insuficiência renal (64% versus 32%) foram maiores em pacientes ventilados com volume controlado em comparação com aqueles ventilados com pressão controlada, porém após análise multivariada o modo ventilatório não influenciou na mortalidade9. Do ponto de vista fisiológico, existem poucas razões para acreditar que a simples mudança de modo ventilatório – sem mudanças associadas de volume-corrente, freqüência, platô de pressão alveolar e PEEP – possam ter impacto no prognóstico dos pacientes7. Na verdade, os autores deste Consenso recomendam o uso da pressão controlada apenas em virtude da lógica de seu funcionamento, que é muito mais afinada com os conceitos de proteção pulmonar: prioriza-se o controle das pressões inspiratórias, em detrimento da manutenção do volume-minuto.

 

VOLUMES-CORRENTES E PRESSÕES NAS VIAS AÉREAS

Recomendação: Altos volumes-correntes, associados a altas pressões de platô (representando a pressão alveolar), devem ser evitados em pacientes com SDRA. Volume-corrente baixo (< 6 mL/kg de peso corporal predito) e manutenção da pressão de platô < 30 cmH2O são recomendados.

Grau de Recomendação: A

Comentário: Nos últimos anos, foram realizados vários ensaios clínicos aleatórios multicêntricos, avaliando os efeitos da limitação da pressão inspiratória, através da redução do volume-corrente e da manutenção da pressão de platô < 30 cmH2O, visando à proteção contra a lesão pulmonar associada à hiperdistensão alveolar10-15. Três desses estudos10,14,16 mostraram redução da mortalidade em pacientes ventilados com volume-corrente de 6 mL/kg (comparado a 12 mL/kg) enquanto se mantinha a pressão de platô < 30 cmH2O. Em metanálise incluindo cinco desses estudos, envolvendo 1.202 pacientes, concluiu-se que a mortalidade no 28º dia foi significativamente reduzida pela "ventilação protetora pulmonar" (risco relativo de 0,74; IC95% de 0,61 a 0,88), enquanto que o efeito sobre a mortalidade de longo prazo foi incerto (risco relativo de 0,84; IC95% de 0,68 a 1,05), apesar da possibilidade de um benefício clinicamente relevante não pode ser excluída. A comparação entre a utilização de baixo volume-corrente ou convencional não foi significativamente diferente se uma pressão de platô < 31 cmH2O era usada no grupo controle (risco relativo de 1,13; IC95% de 0,88 a 1,45), o que pode indicar que, se a pressão de platô for < 31 cmH2O, maiores reduções no volume-corrente podem não oferecer benefício adicional ao resultado do tratamento17.

 

HIPERCAPNIA PERMISSIVA

Recomendação: Hipercapnia (permitir que o PaCO2 se eleve acima do normal, denominada "hipercapnia permissiva") pode ser tolerada em pacientes com LPA, se necessário para diminuir a pressão de platô e o volume corrente.

Grau de Recomendação: A

Comentário: Pacientes tratados em estudos que objetivam limitar o volume-corrente e a pressão nas vias aéreas têm apresentado melhores taxas de sobrevida, apesar de a hipercapnia não ser um objetivo primário e sim uma conseqüência da estratégia utilizada10,14. Em estudo aleatório de 48 pacientes, dos quais 25 desenvolveram hipercapnia em conseqüência da limitação de volume-corrente e pressões de vias aéreas, não se observaram alterações hemodinâmicas significativas até o sétimo dia de VM, sugerindo que a hipercapnia é bem tolerada18. Não se tem estabelecido limite superior para a PaCO2, existindo algumas recomendações não-validadas de se manter o pH > 7,20-7,25. Infusão de bicarbonato de sódio pode ser considerada em pacientes selecionados, para facilitar a aplicação da hipercapnia permissiva, apesar de faltarem estudos sobre o assunto. Quando utilizado, deve ser administrado em infusão lenta. O uso da hipercapnia é limitado em pacientes com acidose metabólica preexistente e é contra-indicado naqueles com hipertensão intracraniana. Da mesma forma, são contra-indicações para a hipercapnia: insuficiência coronariana e disritmias agudas.

 

PRESSÃO POSITIVA AO FINAL DA EXPIRAÇÃO

Recomendação: Pressão positiva ao final da expiração (PEEP) deve ser sempre utilizada em pacientes com LPA/SDRA, para diminuir o potencial de lesão pulmonar associada ao uso de concentrações tóxicas de oxigênio inspirado e para evitar o colapso pulmonar ao final da expiração. Ainda é contraditório na literatura que valores de PEEP devem ser utilizados nesses pacientes (PEEP "elevada" versus PEEP "baixa"). No anexo 1, encontra-se a recomendação deste Consenso.

Grau de Recomendação: A

Comentário: Elevar a pressão expiratória final na LPA/SDRA mantém as unidades alveolares abertas para participarem das trocas gasosas, resultando no aumento da PaO2 e na proteção contra a lesão pulmonar associada à abertura e fechamento cíclicos de unidades alveolares recrutáveis. Um ensaio clínico com 53 pacientes, 29 dos quais ventilados com volume-corrente de 6 mL/kg e PEEP selecionada individualmente para cada paciente (2 cmH2O acima do ponto de inflexão inferior – Pflex – da curva pressão-volume do sistema respiratório, com média de PEEP = 16 cmH2O), observou-se uma taxa de mortalidade aos 28 dias quase duas vezes menor nesse grupo em comparação com os 24 pacientes ventilados com volume-corrente de 12 mL/kg e PEEP ajustada para se manter a FIO2 < 60% (média de PEEP = 8 cmH2O)10. Em estudo semelhante com 37 pacientes, a mesma estratégia protetora, com PEEP baseada na curva pressão-volume (média = 14,8 cmH2O), resultou em grande redução de citocinas no lavado broncoalveolar e no plasma19. Um ensaio clínico espanhol prospectivo e aleatório utilizando o mesmo delineamento (50 pacientes com ventilação convencional versus 53 pacientes com estratégia protetora –PEEP pelo Pflex), demonstrou redução significativa na mortalidade hospitalar (25% de 45% [55,5%] versus 17% de 50% [34%], p = .041)15. Entretanto, em outro ensaio clínico multicêntrico com 549 pacientes ventilados com baixo volume-corrente (6 mL/kg) e pressão de platô limitada (< 30 cmH2O), aleatorizados para receber PEEP "elevada" (média de 13 cmH2O) versus "baixa" (média de 8 cmH2O), selecionadas através de tabelas com combinações de FIO2-PEEP predeterminadas, não se observou diferença na mortalidade e no tempo de VM entre os dois grupos20. Apesar de sugerir que o valor de PEEP seja indiferente, esse estudo apresentou alguns problemas no método, que foram discutidos e reconhecidos pelos próprios autores: os pacientes aleatorizados para o grupo de PEEP elevada eram significativamente mais velhos e tinham menores relações PaO2/FIO2 que pacientes do grupo PEEP baixa, além de serem pacientes mais graves à entrada, como refletido pelos mais elevados escores de gravidade (APACHE II). Houve também mudança do protocolo ao longo do estudo, através da modificação das tabelas de FIO2-PEEP, durante o estudo. Porém, sua maior limitação pode ter sido titular a PEEP visando apenas à manutenção da oxigenação, e não com vistas à prevenção da lesão pulmonar associada à ventilação mecânica21. Assim, o papel da PEEP em melhorar a mortalidade de pacientes com LPA/SDRA ainda é uma questão aberta e alvo de intenso debate. Pelo menos dois estudos multicêntricos desenhados para responder estas questões estão em curso.

 

MANOBRAS DE RECRUTAMENTO ALVEOLAR

Recomendação: A evidência para a aplicação de manobras de recrutamento a pacientes com LPA/SDRA é ainda exígua: breves períodos de elevado CPAP parecem ineficazes em produzir melhora sustentada na oxigenação. Por outro lado, breves períodos de CPAP (» 40 cmH2O) ou pressões inspiratórias elevadas (até 50-60 cmH2O) seguidas de elevação da PEEP, ou uso de posição prona, podem ser eficazes em sustentar a oxigenação arterial. Não há evidências disponíveis de que este benefício nas trocas gasosas se traduza num benefício em termos de desfecho clínico. No anexo 1, encontra-se a recomendação deste Consenso.

Grau de Recomendação: B

Comentário: Quase toda a evidência clínica sobre a eficácia das manobras de recrutamento vem de estudos fisiológicos, a maioria dos quais reportando somente melhora momentânea (de 20 min a 6 horas) na oxigenação e mecânica pulmonar, com exceção de um estudo mais recente22. A realização de manobras de recrutamento em pacientes ventilados com baixos volumes-correntes e elevado nível de PEEP permanece um tema em debate. Em ensaio clínico aleatório do tipo crossover, 72 pacientes com LPA/SDRA ventilados com baixo volume-corrente e PEEP elevada (média de 14 cmH2O) foram submetidos à manobra de recrutamento (CPAP de 35 a 40 cmH2O por 30 segundos), com respostas variáveis, sugerindo que a melhora na troca gasosa em respondedores parece ser de curta duração23. Em um ensaio clínico aleatório de 30 pacientes com LPA/SDRA ventilados com baixo VT e PEEP elevada (» 15 cmH2O), a realização de uma manobra de recrutamento (insuflação sustentada de 50 cmH2O mantida por 30 segundos) resultou em melhora da oxigenação (PaO2/FIO2) e do shunt (Qs'/Qt') aos três minutos após a manobra, porém com retorno aos valores basais após 30 minutos24. Por outro lado, em outros dois estudos em que se utilizaram recursos para aumentar a estabilidade alveolar após a manobra de recrutamento (uso de posição prona ou elevação da PEEP de acordo com titulação em manobra decremental (Anexo 1), os efeitos da manobra de recrutamento puderam ser mantidos22,25. As evidências indicam que a manobra de recrutamento per se, mesmo que tenha sucesso em abrir o pulmão, não mantém seu efeito se não for seguida de manobras para melhorar a estabilidade alveolar, como por exemplo o uso de uma PEEP mais elevada, suficiente para estabilizar as regiões pulmonares recém-recrutadas21,22,26.

 

FRAÇÃO INSPIRADA DE OXIGÊNIO (FIO2)

Recomendação: Os objetivos da oxigenoterapia incluem manter a PaO2 > 60 mmHg e/ou a SaO2 > 90%. Na obtenção desses objetivos, a FIO2 deve ser mantida abaixo de 60%, sempre que possível.

Grau de Recomendação: D

Comentário: Apesar de não estar bem definido o limite superior de FIO2 aceitável, valores elevados acarreta o risco de atelectasia de absorção e de toxicidade por oxigênio.

 

VENTILAÇÃO DE ALTA FREQÜÊNCIA

Recomendação: Não há, no momento, justificativa para o uso rotineiro de ventilação de alta freqüência (oscilatória) em pacientes adultos com LPA/SDRA.

Grau de Recomendação: A

Comentário: A aplicação da ventilação de alta freqüência pode permitir a mesma troca gasosa (oxigenação), promovendo menos lesão à microestrutura pulmonar. Essa proteção seria obtida graças às menores pressões observadas nas vias aéreas secundárias aos baixos volumes-correntes utilizados. A recomendação de sua não utilização de rotina no tratamento de pacientes adultos com LPA/SDRA é baseada em um ensaio clínico em que 148 pacientes foram aleatorizados para receber ventilação mecânica convencional ou ventilação oscilatória de alta freqüência (HFOV)27. Apesar da melhora inicial na oxigenação no grupo da HFOV, essa diferença não se manteve após 24 horas, assim como não houve diferença estatisticamente significativa da mortalidade aos 30 dias e nem aos seis meses. Uma análise crítica desse ensaio clínico realçou uma tendência à menor mortalidade aos 30 dias nos pacientes tratados com HFOV (risco relativo de 0,72; IC95% de 0,50 a 1,03), sem diferença em relação à duração da ventilação mecânica28. Um ensaio controlado e aleatório, com 61 pacientes, não demonstrou diferença significativa de mortalidade comparando ventilação convencional com HFOV (38% e 32%, respectivamente). Porém, uma análise posterior sugeriu que os pacientes mais hipoxêmicos apresentaram uma tendência a se beneficiar com a HFOV29.

 

POSIÇÃO PRONA

Recomendação: Posição prona deve ser considerada em pacientes necessitando de elevados valores de PEEP e FIO2 para manter adequada SaO2 (p. ex.: necessidade de PEEP > 10 cmH2O a uma FIO2 > 60% para manter SaO2 > 90%) ou pacientes com LPA/SDRA grave (complacência estática do sistema respiratório < 40 mL/cmH2O), a menos que o paciente seja de alto risco para conseqüências adversas da mudança postural ou esteja melhorando rapidamente.

Grau de Recomendação: A

Comentário: A maioria dos pacientes com LPA/SDRA responde à posição prona com melhora da oxigenação, que pode persistir após o retorno à posição supina30. Um ensaio clínico multicêntrico com 304 pacientes, dos quais 152 foram aleatorizados para utilizarem posição prona por, no mínimo, seis horas por dia, durante 10 dias, confirmou uma melhora da oxigenação nesse grupo, porém a mesma mortalidade (aos 10 dias, no momento da saída da UTI e aos seis meses), comparado ao grupo convencional31. Nesse mesmo estudo, uma análise post hoc sugeriu melhor resposta, com reduzida mortalidade aos 10 dias e na alta da UTI, no subgrupo de pacientes com hipoxemia mais grave31. Três potenciais limitações desse estudo podem ter contribuído para a ausência de impacto na mortalidade: a duração da posição prona pode ter sido insuficiente; a estratégia de ventilação mecânica não foi padronizada entre os centros participantes e houve 27% de não-complacência com o protocolo de posição prona32. Em um estudo multicêntrico europeu prospectivo e aleatório em que foram estudados 136 pacientes sendo 60 mantidos na posição supina e 76 colocados na posição prona por 10 dias (17h/dia), não se observou diferença de mortalidade entre os grupos. No entanto, os autores sugerem que uma redução possa ser obtida quando a posição for aplicada precocemente e nos pacientes mais graves33.

 

VENTILAÇÃO PARCIAL LÍQUIDA

Recomendação: Não há, no momento, justificativa para o uso rotineiro de ventilação parcial líquida em pacientes adultos com LPA/SDRA.

Grau de Recomendação: B

Comentário: Durante a ventilação parcial líquida os pulmões são preenchidos até a capacidade residual funcional com perfluorocarbono, um líquido que é duas vezes mais denso que a água e que permite a livre difusão de oxigênio e gás carbônico. Em ensaio clínico aleatório com 16 pacientes vítimas de traumatismo, nem a oxigenação nem a mortalidade hospitalar foi diferente entre pacientes recebendo ventilação parcial líquida (VPL) e aqueles recebendo ventilação mecânica convencional, porém a resposta inflamatória foi menor entre os pacientes recebendo VPL34. Em outro estudo, com 90 pacientes, aqueles aleatorizados para receber VPL, apresentaram menor progressão da lesão pulmonar (definida como progressão de LPA para SDRA); entretanto, a mortalidade e o número de dias livres da ventilação mecânica não foram diferentes daqueles pacientes que receberam ventilação mecânica convencional35. Em análise crítica deste estudo, realçou-se, além de problemas com a descrição dos resultados, o risco relativo de mortalidade aos 28 dias no grupo VPL semelhante ao grupo controle (risco relativo de 1,15; [IC95% de 0,64 a 2,10])36.

 

SURFACTANTE

Recomendação: Não há, no momento, justificativa para o uso rotineiro de surfactante em pacientes adultos com LPA/SDRA.

Grau de Recomendação: A

Comentário: Surfactante, um complexo lipoprotéico produzido pelos pneumócitos tipo II, diminui a tensão superficial dos alvéolos e, assim, aumenta a complacência pulmonar. A recomendação de sua não-utilização é baseada em metanálise de nove ensaios clínicos aleatórios avaliando os efeitos do surfactante em pacientes adultos com LPA/SDRA, perfazendo um total de 1.441 pacientes, mostrando que não houve diferença na mortalidade dos pacientes entre os grupos intervenção e controle (risco relativo de 0,93; [intervalo de confiança de 95% de 0,77 a 1,12]). Existe piora inicial imediata, seguida de melhora transitória das trocas gasosas, que costuma durar apenas de 12 a 24 horas. Não houve benefícios de mortalidade ou nos dias livres de ventilação mecânica37. Entretanto, é possível que novas preparações de surfactante venham a mudar esse cenário em breve, como recentemente demonstrado em estudo de pacientes pediátricos e adolescentes38.

 

ÓXIDO NÍTRICO INALATÓRIO

Recomendação: O óxido nítrico (NO) inalatório pode ser útil como um tratamento de resgate em casos de hipoxemia grave não responsiva às medidas convencionais.

Grau de Recomendação: A

Comentário: Essa recomendação é baseada em cinco estudos prospectivos e aleatórios39-43 e em metanálise44 desses trabalhos, que demonstraram que o uso de óxido nítrico (NO) inalatório para pacientes adultos com LPA/SDRA ocasionou melhora transitória (primeiras 72h) da hipoxemia, porém sem qualquer benefício na redução da mortalidade ou nos dias livres de ventilação mecânica. A melhora da oxigenação é, provavelmente, devida à melhora da relação ventilação/perfusão secundária à correção da hipertensão arterial pulmonar observada na LPA/SDRA. Não foram observados efeitos colaterais clinicamente significativos, exceção de relatos isolados de metahemoglobinemia quando utilizadas concentrações mais elevadas (> 40 ppm). Não há definição quanto à dose ideal a ser aplicada.

 

OXIGENAÇÃO POR MEMBRANA EXTRACORPÓREA E REMOÇÃO EXTRACORPÓREA DE CO2

Recomendação: Não há, no momento, justificativa para o uso rotineiro de oxigenação por membrana extracorpórea ou de remoção extracorpórea de CO2 em pacientes adultos com LPA/SDRA.

Grau de Recomendação: B

Comentário: No início dos anos 1970, pacientes com hipoxemia refratária eram freqüentemente tratados com oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), na tentativa de manter a oferta de oxigênio sistêmico e permitir a redução das pressões nas vias aéreas e da fração inspirada de oxigênio. No único ensaio clínico aleatório de ECMO45, 90 pacientes com hipoxemia grave receberam ventilação mecânica isolada ou associada com ECMO, sendo a mortalidade em ambos os grupos, superior a 90%. A relevância desse estudo é, atualmente, limitada, visto que o foco principal da ventilação mecânica no início dos anos 1970 era a redução da FIO2, em detrimento da redução das pressões nas vias aéreas e do volume-corrente32. Outra técnica de suporte extracorpóreo objetivando "proteção pulmonar", a ventilação com pressão positiva em baixa freqüência associada à remoção extracorpórea de CO2 (LFPPV-ECCO2R), foi comparada à ventilação mecânica convencional em ensaio clínico46, sem diferença na mortalidade dos pacientes entre os dois grupos.

 

REFERÊNCIAS

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Anexo 1

TITULAÇÃO DA PEEP PELA CURVA PEEP VERSUS COMPLACÊNCIA (PEEP DECRESCENTE), APÓS MANOBRA DE RECRUTAMENTO ALVEOLAR

Antes de iniciar a descrição da proposta da manobra de recrutamento alveolar, deve-se relembrar que se trata da opinião de especialistas (grau de recomendação D), ou seja, não existe hoje na literatura qualquer estudo que demonstre que a utilização de PEEP mais elevada após manobras de recrutamento alveolar tenha influência isolada no aumento da sobrevida nessa síndrome. Porém, essa técnica vem sendo utilizada em nosso meio, muitas vezes de forma não padronizada. Assim, os autores dessas diretrizes apresentam uma proposta baseada em dados da literatura e na experiência particular de pesquisadores brasileiros47,48.

Por outro lado, deve-se estar ciente de que existe uma série de evidências experimentais e clínicas, porém de desfecho fisiológico, e o estudo realizado em dois centros de nosso país10, que dão suporte a essa proposta e ao desenvolvimento de ensaios clínicos prospectivos e aleatórios (em curso no momento) para verificar essa hipótese.

A proposta de uma manobra de recrutamento que possa ser aplicada indistintamente a qualquer paciente com LPA/SDRA, obviamente pode levar a resultados não ideais. Em pacientes com pulmões mais heterogêneos, muito obesos, ou com altas pressões abdominais, por exemplo, pressões de 40 cmH2O podem ser insuficientes para se obter um recrutamento máximo ou quase-máximo49. Talvez em situações especiais, dependendo da experiência da equipe assistente e da condição do paciente, pressões de platô mais elevadas (45, 50, 55 ou mesmo 60 cmH2O) possam ser necessárias. Em relação a pressões de até 40 cmH2O, existem dados que demonstram a possibilidade de sua aplicação com segurança, guardadas as premissas que serão expostas a seguir:

Paciente Hemodinamicamente Estável

• Cuidados gerais: sedação e curarização, posição supina e aspiração de secreções, verificar a presença de vazamentos no circuito, considerar a complacência do circuito, quando o volume-corrente é medido na expiração;

• Monitorização mínima durante o procedimento: SaO2, pressão arterial preferencialmente invasiva, freqüência e ritmo cardíacos. Se possível, garantir que a variação da pressão de pulso arterial durante o ciclo respiratório (DPP) não esteja acima de 13%50. Este procedimento ajuda a garantir uma volemia mais efetiva, evitando comprometimentos hemodinâmicos maiores durante a manobra. Caso se constate um valor elevado de DPP, recomenda-se a rápida infusão de colóides antes da manobra. Notar que a avaliação da DPP está validada para pacientes ventilados com volumes-correntes > 8 mL/kg e sob PEEP baixa;

• Desabilitar a ventilação de backup ou de apnéia presente em quase todos os ventiladores mecânicos. Se não for possível desabilitar, reduzir o seu critério de ativação a um mínimo;

• Homogeneização do pulmão com a utilização de manobra de recrutamento alveolar (p. ex.: aplicação por um a dois minutos de ventilação com pressão controlada, relação I:E = 1:1, PEEP = 25 cmH2O, pressão inspiratória total = 40-45 cmH2O, ou seja, 15-20 cmH2O acima da PEEP, FIO2 = 1 e freqüência de 10 /min);

• Logo a seguir, sem desconectar o paciente e sem alterar a PEEP, simplesmente mudar a ventilação para modo volume controlado, tomando a precaução de ajustar previamente um volume-corrente baixo;

• Ajustar volume-corrente para 5 mL/kg;

• Fluxo = 60 L/min, onda de fluxo quadrada;

• Ajustar pausa inspiratória entre 0,5 e 1s;

• Manter freqüência respiratória = 12-14/min e FiO2 = 1;

• Iniciar com PEEP = 25 cmH2O, com decrementos de 2 cmH2O, mantendo por aproximadamente 10 ciclos;

• Calcular o valor da complacência estática do sistema respiratório (CSTAT-SR = VT / [pressão de platô – PEEP]) para cada valor de PEEP;

• Diminuir progressivamente a PEEP até um valor em que a complacência comece a diminuir de forma evidente;

• Identificar a PEEP em que a complacência alcançou o seu valor máximo;

• A PEEP considerada "ideal" será encontrada somando-se 2-3 cmH2O ao valor da PEEP que determinou a complacência máxima;

• Realizar novamente o recrutamento e retornar ao valor de PEEP considerada ótima (observar exemplo a seguir);

• Aguardar de 20 a 30 min e coletar sangue arterial para avaliar os gases sangüíneos. Se a relação PaO2/FIO2 > 350, manter o paciente nesses ajustes do ventilador; se a relação PaO2/FIO2 < 250, o paciente deve ser novamente recrutado e a PEEP ajustada num valor mais elevado (considerar a estabilidade hemodinâmica); se a relação estiver nesse intervalo, considerar (de acordo com a condição clínica/gravidade) a realização de novo recrutamento com elevação da PEEP ou aguardar um período de 6 a 8h para observar se o paciente não conseguiu recrutar áreas de pulmão com o passar do tempo e manutenção das pressões das vias aéreas.

EXEMPLO DE TITULAÇÃO DA PEEP EM PACIENTE COM SDRA:

PEEP = 25 CSTAT-SR = 18,5 mL/cmH2O (PPLAT = 42,3; VT = 320 mL)

PEEP = 23 CSTAT-SR = 19,8 mL/cmH2O (PPLAT = 39,2; VT = 320 mL)

PEEP = 21 CSTAT-SR = 20,5 mL/cmH2O (PPLAT = 36,6; VT = 320 mL)

PEEP = 19 CSTAT-SR = 21,2 mL/cmH2O (PPLAT = 34,1; VT = 320 mL)

PEEP = 17 CSTAT-SR = 22,0 mL/cmH2O (PPLAT = 31,5; VT = 320 mL)

PEEP = 15 CSTAT-SR = 21,8 mL/cmH2O (PPLAT = 29,7; VT = 320 mL)

PEEP = 13 CSTAT-SR = 19,0 mL/cmH2O (PPLAT = 29,8; VT = 320 mL)

PEEP = 11 CSTAT-SR = 17,1 mL/cmH2O (PPLAT = 29,7; VT = 320 mL)

PEEP = 09 CSTAT-SR = 15,5 mL/cmH2O (PPLAT = 29,6; VT = 320 mL)

Com estes dados, concluiu-se que a máxima complacência foi alcançada com PEEP de 17 cmH2O, escolhendo-se uma PEEP ótima de 19-20 cmH2O para este paciente.

O raciocínio por trás desta escolha é simples: a diminuição da complacência observada para valores de PEEP de 15 ou 13 cmH2O foi considerada como um sinal claro de perda de unidades alveolares funcionantes. Por outro lado, a complacência também diminuída, associada a níveis de PEEP acima de 19 cmH2O, foi considerada como um sinal claro de hiperdistensão alveolar, devendo ser evitada.

Em certas situações não tão raras, a complacência começa a subir nos primeiros passos de decremento de PEEP, alcançando um certo platô (valores praticamente iguais durante 2 ou mais passos da manobra). Nestes casos, deve-se escolher o primeiro valor do platô (PEEP mais alto dentro da faixa do platô) como o valor de máxima complacência. Mais uma vez, o raciocínio é claro: num pulmão normal, a complacência deveria subir a cada passo decremental de PEEP, até alcançar zero PEEP, devido ao progressivo alívio da hiperdistensão. A manutenção da mesma complacência durante dois níveis consecutivos de PEEP é um sinal de que o colapso já teve início.

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