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Revista Brasileira de Terapia Intensiva

Print version ISSN 0103-507X

Rev. bras. ter. intensiva vol.25 no.3 São Paulo July/Sept. 2013

https://doi.org/10.5935/0103-507X.20130033 

EDITORIAIS

Implementando protocolos de sedação: aproximando a diferença entre evidência e prática

Cássia Righy Shinotsuka1  2 

1Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

2Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer - Rio de Janeiro (RJ), Brasil


Sedação e analgesia são frequentemente usadas na unidade de terapia intensiva (UTI). A dor já foi descrita como o "quinto sinal vital" e a maioria dos pacientes descreve a experiência dolorosa como grande fonte de estresse durante a permanência na UTI.( 1 , 2 ) A sedação é também utilizada para amenizar o desconforto, facilitar a adaptação à ventilação mecânica e prevenir lesões autoinfligidas.( 3 ) Contudo, apesar de seu uso humanitário, a sedação excessiva se associa a prolongamento do tempo de ventilação mecânica, aumento das taxas de delirium, maior tempo de permanência na UTI e aumento da mortalidade.( 4 , 5 )

Nas últimas décadas, diversos estudos trataram dos riscos da sedação excessiva.( 6 ) Kress et al. foram os primeiros a demonstrarem que o protocolo de despertar diário leva a uma redução da duração da ventilação mecânica e do tempo de permanência na UTI.( 7 ) Subsequentemente, Girard et al. conduziram um estudo que comparou despertar diário mais tentativa diária de respiração espontânea com prática de sedação padrão mais tentativa diária de respiração espontânea, concluindo que o grupo de intervenção teve melhora da mortalidade em 1 ano com um impressionante NNT de 7.( 8 ) Recentemente, um estudo de "não sedação baseado em analgesia" também demonstrou mais dias livres de ventilação e reduziu o tempo de permanência na UTI e no hospital.( 9 )

Apesar do impressionante corpo de evidência disponível, existe uma ampla variação nos levantamentos mundiais sobre sedação. O relato de adesão à interrupção diária da sedação varia de 14%, na Malásia,( 10 ) a 78%, no Reino Unido.( 11 ) Na América do Norte, Patel et al. mostraram que apenas 44% dos que responderam ao questionário realizavam interrupção da sedação em mais do que metade dos dias de UTI, e 29% não tinham um protocolo de sedação por escrito.( 12 ) O uso de um protocolo de sedação também varia entre os países, variando de 33%, na Dinamarca,( 13 ) a 80%, no Reino Unido.( 14 ) No Brasil, um levantamento recente demonstrou que apenas 52,7% dos que responderam ao questionário utilizavam um protocolo de sedação, e 68,3% dos médicos não praticavam qualquer interrupção da sedação.( 15 )

Qual a razão para que exista uma diferença tão grande entre a evidência e a prática? Há muitas explicações possíveis, como a falta de pessoas e equipamentos, preocupações referentes ao risco de remoção de dispositivos iniciada pelo paciente, medo de causar desconforto ao paciente e aumento da carga de trabalho.( 16 ) Nesse contexto, o estudo apresentado nesta edição por Bugedo et al. é muito elucidativo.( 17 ) Os autores realizaram um estudo nacional multicêntrico em 13 UTIs avaliando um protocolo de sedação baseado em analgesia, guiado por objetivos e cuidado por enfermeiros. Os autores demonstraram que, após um esforço educacional, a proporção de pacientes em sedação profunda ou coma pôde ser reduzida de 55,2 para 44%, sem aumento nos eventos de agitação. Este artigo nos mostra que a implementação de protocolos de sedação é factível, embora exija um esforço educacional persistente e a participação de toda a equipe de trabalho da UTI.

REFERÊNCIAS

1. Ballard KS. Identification of environmental stressors for patients in a surgical intensive care unit. Issues Ment Health Nurs. 1981;3(1-2):89-108. [ Links ]

2. Rotondi AJ, Chelluri L, Sirio C, Mendelsohn A, Schulz R, Belle S, et al. Patients' recollections of stressful experiences while receiving prolonged mechanical ventilation in an intensive care unit. Crit Care Med. 2002;30(4):746-52. [ Links ]

3. Mehta S, McCullagh I, Burry L. Current sedation practices: lessons learned from international surveys. Anesthesiol Clin. 2011;29(4):607-24. [ Links ]

4. Kollef MH, Levy NT, Ahrens TS, Schaiff R, Prentice D, Sherman G. The use of continuous i.v. sedation is associated with prolongation of mechanical ventilation. Chest. 1998;114(2):541-8. [ Links ]

5. Salluh JI, Soares M, Teles JM, Ceraso D, Raimondi N, Nava VS, Blasquez P, Ugarte S, Ibanez-Guzman C, Centeno JV, Laca M, Grecco G, Jimenez E, Árias-Rivera S, Duenas C, Rocha MG; Delirium Epidemiology in Critical Care Study Group. Delirium epidemiology in critical care (DECCA): an international study. Crit Care. 2010;14(6):R210. [ Links ]

6. Shinotsuka CR, Salluh JI. Percepções e práticas sobre delirium, sedação e analgesia em pacientes críticos: uma revisão narrativa. Rev Bras Ter Intensiva. 2013;25(2):155-61. [ Links ]

7. Kress JP, Pohlman AS, O'Connor MF, Hall JB. Daily interruption of sedative infusions in critically ill patients undergoing mechanical ventilation. N Engl J Med. 2000;342(20):1471-7. [ Links ]

8. Girard TD, Kress JP, Fuchs BD, Thomason JW, Schweickert WD, Pun BT, et al. Efficacy and safety of a paired sedation and ventilator weaning protocol for mechanically ventilated patients in intensive care (Awakening and Breathing Controlled trial): a randomised controlled trial. Lancet. 2008;371(9607):126-34. [ Links ]

9. Strøm T, Martinussen T, Toft P. A protocol of no sedation for critically ill patients receiving mechanical ventilation: a randomised trial. Lancet. 2010;375(9713):475-80. [ Links ]

10. Ahmad N, Tan CC, Balan S. The current practice of sedation and analgesia in intensive care units in Malaysian public hospitals. Med J Malaysia. 2007;62(2):122-6. [ Links ]

11. Reschreiter H, Maiden M, Kapila A. Sedation practice in the intensive care unit: a UK national survey. Crit Care. 2008;12(6):R152. [ Links ]

12. Patel RP, Gambrell M, Speroff T, Scott TA, Pun BT, Okahashi J, et al. Delirium and sedation in the intensive care unit: survey of behaviors and attitudes of 1384 healthcare professionals. Crit Care Med. 2009;37(3):825-32. [ Links ]

13. Egerod I, Christensen BV, Johansen L. Trends in sedation practices in Danish intensive care units in 2003: a national survey. Intensive Care [ Links ]

14. Murdoch S, Cohen A. Intensive care sedation: a review of current British practice. Intensive Care Med. 2000;26(7):922-8. [ Links ]

15. Salluh JI, Dal-Pizzol F, Mello PV, Friedman G, Silva E, Teles JM, Lobo SM, Bozza FA, Soares M; Brazilian Research in Intensive Care Network. Delirium recognition and sedation practices in critically ill patients: a survey on the attitudes of 1015 Brazilian critical care physicians. J Crit Care. 2009;24(4):556-62. [ Links ]

16. Tanios MA, de Wit M, Epstein SK, Devlin JW. Perceived barriers to the use of sedation protocols and daily sedation interruption: a multidisciplinary survey. J Crit Care. 2009;24(1):66-73. [ Links ]

17. Bugedo G, Tobar E, Aguirre M, Gonzalez H, Godoy J, Lira MT, et al. Implantação de um protocolo de redução de sedação profunda baseado em analgesia comprovadamente seguro e factível em pacientes submetidos a ventilação mecânica. Rev Bras Ter Intensiva. 2013;25(3):188-196. [ Links ]

Autor correspondente: Cássia Righy Shinotsuka Rua Diniz Cordeiro, 30 - Botafogo CEP: 22281-100 - Rio de Janeiro (RJ), Brasil E-mail: cassiarighy@gmail.com

Conflitos de interesse: A autora declara ter recebido previamente honorários como palestrante da Hospira.

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