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Psicologia Clínica

Print version ISSN 0103-5665On-line version ISSN 1980-5438

Psicol. clin. vol.17 no.2 Rio de Janeiro  2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-56652005000200002 

SEÇÃO TEMÁTICA
CONJUGALIDADE, PARENTALIDADE E GÊNERO

 

Casais que trabalham e são felizes: mito ou realidade?

 

Couples that work full time and are happily married: myth or reality?

 

 

Giovana PerlinI; Gláucia DinizII

IProfessora da Faculdade Ruy Barbosa, Salvador, Bahia; Mestra e Doutoranda em Psicologia pela UnB - Universidade de Brasília
IIProfessora Adjunta, Departamento de Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia, UnB - Universidade de Brasília; Ph.D., United States International University, San Diego, CA, EUA, 1993

 

 


RESUMO

Este trabalho apresenta parte de uma pesquisa quantitativa cujo principal objetivo foi avaliar a satisfação no casamento de homens e mulheres que optaram por relacionamentos de duplo trabalho. Participaram do estudo 222 homens e 222 mulheres casados/as, funcionários/as em diversas instituições públicas de Brasília - DF. A maior concentração de respondentes de ambos os sexos está na faixa etária entre 31 a 40 anos. Os participantes responderam a um questionário demográfico e à Escala de Ajustamento Diádico - DAS. Os resultados mostraram que a maioria dos participantes está satisfeita com seus relacionamentos, sendo que as mulheres apresentaram média de satisfação inferior à dos homens. Quanto à percepção do futuro do relacionamento, ficou evidente o comprometimento de homens e mulheres em investirem na manutenção do casamento. Os resultados questionam a idéia vigente de falência do casamento e da família e apontam para uma transformação das relações.

Palavras-chave: casamento, contemporâneo, duplo trabalho, satisfação conjugal, gênero


ABSTRACT

This paper presents part of a quantitative research regarding marriages in which men and women are engaged in full time work. The main objective was to evaluate marital satisfaction in dual worker couples. Subjects were 222 married men and 222 married women that work in several public institutions in Brasilia - DF. The majority of the participants were between 31 to 40 years old. They answered a demographic questionnaire and the Dyadic Adjustment Scale - DAS. Results showed that the majority of participants were satisfied with their relationships although women presented lower satisfaction scores then men. Regarding the perception of the future of the relationship, the results showed that subjects were committed to preserve their marriage. These data question current ideas that marriages and families are outmoded and point in the direction of a transformation in interpersonal relationships.

Keywords: contemporariness, marriage, dual workers, marital satisfaction, gender


 

 

INTRODUÇÃO

As mudanças aceleradas nos contextos sócio-econômico e cultural têm gerado transformações importantes nas estruturas relacionais e familiares. Castells (1999) mostra que a família patriarcal, base do patriarcalismo subjacente a todas as culturas contemporâneas, está sendo questionada. Segundo o autor, tal questionamento é produto direto da conscientização feminina e da inserção da mulher no mercado de trabalho. Em decorrência desses processos, o casamento contemporâneo configura um estilo relacional muito diferente daquele existente no início do século passado.

A literatura nos mostra (Ariès, 1978; Giddens, 1992; Munhoz, 1996) que, em sua origem, as principais funções do casamento estavam relacionadas a interesses políticos e econômicos. Hoje as pessoas se casam principalmente por razões afetivas e sexuais. As transformações sociais levaram ao questionamento do contrato matrimonial clássico e geraram profundas mudanças na experiência conjugal, colocando as relações em um âmbito muito diferente do já visto anteriormente na história social do casamento.

O estilo de vida contemporâneo apresenta um conjunto de características contraditórias quando confrontadas com os ideais dos relacionamentos estáveis e do contrato matrimonial clássico (Walsh, 2002). De um lado, os casais sofrem pressão para manterem valores e padrões morais tradicionais, como a efetivação do contrato matrimonial e o exercício da parentalidade. O meio familiar é valorizado como o lócus de realização de todas as expectativas emocionais e pessoais. Homens e mulheres são estimulados a adotarem modelos tradicionais de sexualidade e uma divisão rígida de papéis e funções na família de acordo com o sexo. Por outro lado, são forçados a adequarem-se às transformações sociais, tais como as exigências do mercado de trabalho, a valorização do crescimento individual, da independência financeira e da flexibilidade no exercício dos papéis de gênero.

Os casais acabam sentindo no cotidiano o peso da multiplicidade e da sobrecarga dos papéis impostos por um estilo de vida que tenta conciliar vida pessoal, conjugal, familiar e as demandas do mundo do trabalho (Walsh, 2002; Jablonski, 2001; Perlin, 2001). Rocha-Coutinho (2000: 81) adverte que, nesse contexto, "homens e mulheres acabam exigindo de si próprios que sejam múltiplos, verdadeiros super-heróis".

A literatura tem denominado o casamento onde ambos os cônjuges trabalham fora em tempo integral de casamento de duplo trabalho ou de dupla carreira. A opção pelo estilo de vida de duplo trabalho pode ser muito estressante devido à grande necessidade de mudanças e/ou adaptações em papéis que antes eram bem definidos.

O estilo de vida imposto pela situação de duplo trabalho torna-se um desafio para os casais e para a sociedade. Na literatura encontramos referências a respeito do ônus desigual pago pelas mulheres nos casais que optam por este estilo conjugal e familiar. Tal ônus está relacionado, principalmente, com o acúmulo de jornadas de trabalho, o desempenho de múltiplos papéis e funções e o alto nível de exigência pessoal, do cônjuge e da sociedade (Diniz, 1993; Oliveira, 1995; Dios, 1997; Ammann, 1997; Jablonski, 2001).

A falta de igualdade na divisão de tarefas domésticas, na administração da casa e na educação e cuidado dos filhos são fatores geradores de estresse na esfera familiar. Características que marcam o trabalho feminino tais como a desigualdade de salários com os homens, diferenças de acesso à promoção, à realização e ao investimento profissionais são fatores geradores de estresse na esfera profissional (Diniz, 1999).

Esses diversos fatores, somados a percepções diferentes entre os parceiros acerca de seus papéis no casamento e na família, transformam-se em dilemas e desafios que precisam ser enfrentados pelos casais. Para Rocha-Coutinho (2000: 81), "parece que homens e mulheres hoje multiplicaram funções, mas ainda não dividiram responsabilidades".

Na maioria das vezes, é a mulher quem tem que abdicar de seus interesses pessoais em favor dos planos do cônjuge ou das necessidades do grupo familiar. Essas diferenças na forma de conciliar família e trabalho, vividas por homens e mulheres, podem afetar a satisfação no casamento, a satisfação no trabalho - ou mesmo o desempenho em diferentes áreas da vida.

Os dados de registro civil do Censo de 2000 (IBGE, 2003) mostram uma importante diminuição do número de casamentos e um aumento significativo do número de divórcios. Jablonski (2001) observa que o aumento significativo no número de divórcios pode denunciar uma insatisfação com o casamento, ou, ao menos, denuncia que o mesmo vem passando por momentos desafiadores; entretanto, chama a atenção para o fato intrigante de que, mesmo diante desse quadro, as pessoas, em sua maioria, pretendem ou desejam se casar ao menos uma vez. Rocha-Coutinho (2000) encontrou os mesmos resultados em sua pesquisa acerca das identidades masculinas e femininas na contemporaneidade. A maioria dos homens e mulheres de seu estudo afirmou o desejo de encontrar, em algum momento da vida, uma parceria para constituir uma família. Os dados e as pesquisas nos levam a crer que estamos diante de um quadro paradoxal: as pessoas querem construir relacionamentos duradouros ao mesmo tempo que não querem - ou não conseguem.

A complexidade das mudanças nos papéis e funções sociais de homens e mulheres coloca pesquisadores das relações humanas diante da necessidade de ampliar o foco de análise das relações interpessoais para compreender os novos modelos de casamento que estão surgindo. É assim que, neste artigo, apresentamos dados de uma pesquisa sobre satisfação no casamento e aspectos da vida pessoal, conjugal e profissional de homens e mulheres que optaram por relacionamentos de duplo trabalho.

 

CARACTERÍSTICAS DA AMOSTRA

Participaram do estudo 222 homens e 222 mulheres, casados/as, funcionários/as em diversas instituições públicas de Brasília - DF. Em nossa amostra, intencional não-probabilística - ou oportunista -, utilizamos a conveniência de aplicar os questionários em repartições publicas onde, após contato e consentimento prévio da direção, contávamos com um numero maior de pessoas concentradas para a aplicação do instrumento. Tal tipo de amostragem, de acordo com Chein, é valida "não apenas para estimar algum valor da população, mas para conseguir idéias acerca da variedade de elementos disponíveis nesta população" (citado por Jablonski, 2003: 143-144). Os critérios de inclusão na amostra foram ter mais de dois anos de relacionamento marital e viver um casamento de duplo trabalho.

A maior concentração de respondentes de ambos os sexos está na faixa etária entre os 31 e 40 anos. A média de idade da amostra feminina foi 37,15 anos e a da masculina foi de 37,91 anos. Os participantes responderam a um questionário contendo dados demográficos, além de perguntas abertas e fechadas sobre a situação de duplo trabalho. Responderam também à Escala de Ajustamento Diádico - DAS.

A maioria das mulheres (91,9%) e dos homens (89,8%) nunca esteve casada antes do relacionamento atual. Sessenta e sete por cento das pessoas estão casadas há mais de 10 anos. A média de convivência com o cônjuge é de 13,7 anos. 81% das mulheres e 79,2% dos homens têm filhos da relação atual. Apenas 11% da amostra masculina e 9,5% da feminina possuem filhos de casamentos anteriores. Tais dados refletem a estabilidade conjugal dos/as participantes da pesquisa.

A média de horas trabalhadas na semana para os homens - 44,48 horas semanais - mostrou-se maior do que a das mulheres - 38,56 horas semanais -, ocorrendo o mesmo em relação à participação na renda familiar. As mulheres responderam que seus salários representam em média 57% da renda familiar, enquanto os homens responderam que seus salários equivalem em média a 64% da renda familiar. Cabe ressaltar que 22,6% das mulheres e 27,3% dos homens disseram que seus salários representam entre 75% a 100% do orçamento familiar. Essa grande semelhança na contribuição dos salários de um subgrupo de homens e mulheres para a renda familiar é um dado importante, principalmente se levarmos em conta que até bem pouco tempo o salário da mulher era visto como uma renda complementar ao orçamento doméstico. Hoje, o salário da mulher é imprescindível para a sobrevivência da família ou para a manutenção de seu padrão de vida.

Quando o assunto é participação nas atividades domésticas, 49,8% das mulheres indicaram participação na "maioria das tarefas", enquanto a concentração de respostas masculinas (31,9%) voltou-se para participação na "minoria das tarefas". Tais dados indicam que as mulheres ainda são as maiores responsáveis pela organização e administração da vida doméstica. Estudos de Féres-Carneiro (2001), Jablonski (1996; 2001), Carter e McGoldrick (1988/1995), Rocha-Coutinho (2000), entre outros, apontam resultados semelhantes.

Esses dados revelam que a realidade brasileira se assemelha à de outros países quando a questão é a divisão do trabalho doméstico. O fato de sermos um país onde a figura da empregada doméstica ainda está muito presente na vida familiar minimiza pouco esta questão. Além de reiterar que cabe ao contingente feminino a responsabilidade pelo trabalho doméstico, é geralmente a mulher quem administra o serviço da empregada. Por outro lado, a contratação de ajuda extra possivelmente faz com que os homens se sintam desobrigados a dar uma contribuição mais efetiva na organização da vida doméstica.

Todos os aspectos aqui apresentados - idade, tempo de relacionamento, presença ou não de filhos, número de horas trabalhadas, divisão do trabalho do doméstico, etc podem afetar o grau de satisfação no casamento. Diante da complexidade da experiência conjugal em geral, e das uniões de duplo trabalho em especial, entendemos ser de fundamental importância investigar a satisfação conjugal de homens e mulheres que estão buscando conciliar vida conjugal, familiar e trabalho.

 

AVALIANDO A SATISFAÇÃO NO CASAMENTO

A satisfação é um elemento fundamental num relacionamento interpessoal. Entretanto, cabe perguntar: o que é satisfação? A resposta para tal questão é complexa. Revisão da literatura sobre o tema revelou que existe uma diversidade de definições do que seja a satisfação no casamento (Diniz, 1993, 1996; Falcke, Diehl e Wagner, 2002). Dela Coleta (1989) destaca algumas delas: a satisfação é uma reação subjetivamente experienciada no casamento; é uma atitude a respeito do próprio relacionamento conjugal; é o resultado da diferença entre a percepção da realidade do casamento e as aspirações que os cônjuges têm para a relação.

Falcke e cols. (2002) afirmam que a satisfação conjugal é afetada por fatores conscientes e inconscientes, ou seja, aspectos internos da psique. Ela é afetada também por fatores de meio ambiente, tais como: o sexo; o grau de escolaridade; o número de filhos e a presença, ou não, deles dentro de casa; o nível socioeconômico; e o tempo de casamento. Definições à parte, a distinção entre um casamento feliz e outro infeliz constitui um dos problemas mais antigos e polêmicos na área da pesquisa sobre os relacionamentos (Gottman e Krokoff, 1989; Diniz, 1993, 1999).

A satisfação no casamento tem gerado controvérsias quando o grupo pesquisado é o de casais de duplo trabalho e dupla carreira. Alguns pesquisadores da área defendem a posição de que esse estilo de vida levaria a uma maior satisfação, já que os cônjuges têm compreensão dos desafios que cada um enfrenta para lidar com a interação entre o mundo do trabalho e o da família. Assim, podem ser fonte de apoio um para o outro. Outros pesquisadores alegam o contrário, principalmente porque tendem a ver o trabalho feminino como elemento negativo para a vida familiar. Existem ainda aqueles que dizem que tanto o aumento quanto a diminuição da satisfação são possíveis e que a variação desse fator está associada a uma série de outros elementos que compõem a vida conjugal (Diniz, 1993, 1996).

Identificar o grau de satisfação no casamento de homens e mulheres que vivem relacionamentos de duplo-trabalho foi um dos objetivos fundamentais dessa pesquisa. Nosso primeiro desafio foi verificar as semelhanças e diferenças entre os homens e mulheres da amostra em termos da satisfação conjugal. Para tanto, utilizamos a Escala de Ajustamento Diádico - DAS (Dyadic Adjustment Scale) desenvolvida por Graham Spanier em 1976. A escala foi traduzida e adaptada para a população brasileira. A DAS é considerada uma das medidas mais sólidas e globais da qualidade das relações interpessoais pela coerência dos itens agrupados em quatro subescalas que abarcam áreas fundamentais dos relacionamentos: satisfação, coesão, consenso e expressão de afeto. Ressaltamos que compartilhamos o pensamento de Spanier (1976) de que a qualidade de um casamento é produto de um processo e que a escala acessa um momento desse processo.

Para comparar a média de satisfação no casamento obtida na amostra masculina com a média obtida na amostra feminina, utilizamos o teste t para amostras independentes, comparando assim os resultados entre os sexos. Os resultados são apresentados na tabela 1 do anexo.

Os resultados mostraram que tanto os homens quanto as mulheres estavam satisfeitos com o casamento. Entretanto, encontramos um grau maior de satisfação por parte dos homens. Esse resultado indica que as mulheres estavam menos satisfeitas em seus casamentos quando responderam ao questionário.

A análise do escore global permite uma visão geral da situação do relacionamento. Entretanto, a literatura aponta que as dimensões subjetivas têm um papel importante na percepção da satisfação no casamento (Dela Coleta, 1989; Falcke e cols., 2002). Pesquisadores pioneiros na área de pesquisa de duplo trabalho, como é o caso de Lotte Bailyn (1970), argumentam que o grau de satisfação global no casamento pode ser avaliado com uma única questão. Assim, decidimos fazer uma análise detalhada da questão 31 da DAS, que se refere diretamente à percepção subjetiva sobre a satisfação global no casamento. As respostas dos homens e mulheres estão indicadas na tabela 2 do Anexo.

A análise da questão novamente reitera os resultados anteriores: a maioria dos homens e mulheres percebe seu casamento como feliz. Entretanto, encontramos um percentual de pessoas insatisfeitas - e as mulheres apareceram novamente em maior número nessa categoria. Esse resultado nos fez incluir também uma análise detalhada da questão 32, que diz respeito à percepção do grau de disponibilidade que a pessoa tem para investir no futuro do relacionamento. A porcentagem de escolha dos itens da questão 32 da DAS aparece na tabela 3 do Anexo.

A tabela mostra que a maior parte dos(as) participantes está bastante empenhada em investir no relacionamento. Chama a atenção o fato de que nenhum dos homens da amostra achou que "não havia mais nada a fazer" para que o relacionamento desse certo. Esse resultado mostra que homens e mulheres consideram o relacionamento conjugal como uma dimensão importante de suas vidas e estão interessados(as) em fazer tudo o que puderem para permanecerem em uma união estável e de qualidade.

Estes resultados reiteram aqueles encontrados por Falcke e cols. (2002) num estudo com 45 casais de nível socioeconômico médio da cidade de Porto Alegre. Embora usando instrumento diferente, os autores encontraram que 87,9 % dos participantes estão satisfeitos com o relacionamento e não acham que seja chata a idéia de passar o resto da vida com o(a) companheiro(a). A pesquisa revelou também que a maioria dos participantes estaria disposta a deixar de lado os amigos, se isto significasse a salvação do casamento. Na interpretação dos autores, tal dado evidencia "que o relacionamento conjugal tem prioridade na vida dos sujeitos investigados" (Falcke e cols., 2002: 181). Além do mais, embora a separação seja vista como uma solução possível no caso de insatisfação, poucos participantes da amostra (11,1%) pensam na possibilidade de separação.

Podemos afirmar que os dados da pesquisa apresentam um panorama do casamento contemporâneo que merece ser analisado. A maioria dos participantes mostrou-se feliz com seus casamentos. Quando questionados a respeito do futuro do relacionamento, vimos uma grande concentração de respostas na opção "farei tudo o que puder" para que o relacionamento seja bem-sucedido. Fica evidente o comprometimento dos cônjuges em investirem na manutenção do casamento. Entretanto, ficou uma questão a ser esclarecida: o que levaria as mulheres a apresentarem um grau de satisfação inferior ao dos homens? Levantamos a seguir algumas explicações possíveis para essa questão.

Apontamos no texto, primeiro através da literatura e depois com resultados da pesquisa, que as mulheres enfrentam ônus desigual no desempenho de múltiplos papéis. A maioria das mulheres sente-se ainda cobrada a ser boa esposa, mãe, dona de casa e, além disso tudo, boa profissional, etc. Essa sobrecarga pode ter efeito deletério na satisfação conjugal (Diniz, 1993; Oliveira, 1995; Ammann, 1997).

Além de fatores como a multiplicidade de papéis e funções, Féres-Carneiro (2001) encontrou em sua pesquisa indicadores de que as mulheres estão constantemente em busca de mudanças qualitativas em seus relacionamentos, enquanto os homens mostram-se mais acomodados e satisfeitos com a situação tal como ela se apresenta. Os dados da autora revelam que os homens, ao engajarem-se em um relacionamento conjugal, tendem a adotar uma postura de acomodação caracterizada por padrões comportamentais baseados em modelos mais tradicionais de casamento. Em nosso estudo, levantamos a hipótese de que talvez este indicador - necessidade ou anseio por mudanças qualitativas - tenha sido detectado como "insatisfação" pelo instrumento DAS.

As mulheres têm se mostrado exigentes, não só em seus critérios de satisfação conjugal, mas também em relação à satisfação com o comportamento masculino de forma geral, ou seja, nas áreas sexual, afetiva e profissional, entre outras. Tudo isso indica que as mulheres estão questionando mais os homens. Elas tendem a não aceitar comportamentos de desleixo; ressentem-se com demonstrações de negligência na administração da vida doméstica - incluindo cuidado com os filhos, compras, etc; estão atentas à sua performance sexual, exigindo fidelidade, companheirismo, amizade, ou seja, investimento na relação. Tudo isso leva a crer que os critérios envolvidos na avaliação do casamento e o nível de exigência em torno do relacionamento conjugal sejam diferentes entre homens e mulheres.

Cabe mencionar ainda que a mulher, além de exercer os papéis tradicionais na união conjugal, passou a compartilhar ou assumir capacidades e habilidades que antes eram vistas como sendo tipicamente ou exclusivamente masculinas. Dentre os fatores que sobrecarregavam o homem, merecem destaque: ser o principal responsável pelo sustento da família; tomar a iniciativa nas situações de conquista sexual e ser o responsável pelo prazer sexual feminino; e tomar todas as iniciativas quanto ao crescimento profissional. Parece que a mulher hoje divide com o homem muitas dessas responsabilidades, mas a recíproca está longe de ser verdadeira, como mostram nossos resultados e os resultados de outras pesquisas já mencionadas anteriormente.

 

CONCLUSÕES E REFLEXÕES

Tanto a mídia quanto o meio científico têm discutido e feito alarde sobre a crise do casamento ou a falência da instituição familiar. Esse estudo, entretanto, encontrou indicadores que apontam para uma transformação, não para a extinção do modelo relacional conjugal. Em primeiro lugar, os resultados indicam que o casamento de duplo trabalho pode ser um modelo bem-sucedido de relacionamento. Em segundo lugar, mostram que tanto homens quanto mulheres estão dispostos a investir na relação. O fato de ambos os cônjuges trabalharem fora pode resultar numa vivência mais equilibrada e funcional da individualidade e da conjugalidade, duas dimensões importantes na manutenção do casamento.

A estabilidade relacional presente na amostra, o grau de satisfação de homens e mulheres e a motivação para investir no futuro do relacionamento são indicadores de que as pessoas estão engajadas em seus relacionamentos não apenas de forma acomodada, mas de maneira participante e responsável. Esses resultados colocam em questão, ou no mínimo problematizam a efemeridade e a descartabilidade apontadas na literatura como características da conjugalidade contemporânea. Jablonski (2001), em seus estudos sobre casamento, argumenta que as pessoas querem se casar, mesmo que mais tarde venham a se separar. Falcke e cols. (2002) levantam uma hipótese interessante: a possibilidade real de optar por um divórcio pode levar os casais a investir mais na qualidade de seus relacionamentos.

Constatamos, nesse estudo, que está ocorrendo uma maior participação dos maridos nas tarefas de casa e no cuidado com as crianças quando a esposa trabalha fora de casa. Contudo, esta participação ainda é inferior quando consideramos a carga que a mulher geralmente assume (Almeida e colaboradores, 1993). Segundo Vandenheuvel e Wooden (1995), isso ocorre devido à pressão social, que não permite que as mulheres e os homens rompam completamente com os papéis tradicionais de gênero a eles atribuídos.

Assim, vimos que nem tudo são flores. Encontramos na literatura referências a respeito do ônus desigual pago pelas mulheres que optam pelo estilo relacional e familiar de duplo trabalho (Diniz, 1993, 1996, 1999; Oliveira, 1995; Ammann, 1997). Nossos resultados confirmam essa tendência. Além de enfrentar "múltiplas e penosas discriminações de gênero" (Ammann, 1997: 92), a mulher ainda enfrenta múltiplas jornadas de trabalho. Trabalha para receber o pagamento e ainda é responsável pela maioria das tarefas de casa e pelo cuidado dos filhos. Ammann (1997) denuncia a seriedade dessa situação ao dizer que, não liberada das funções anteriores, a mulher transforma-se em dupla mercadoria: na esfera doméstica, pertencendo ao marido; no âmbito do emprego, pertencendo ao capitalista. Um dos dilemas gerados por esse descompasso é o da alta insatisfação feminina com relação à divisão do trabalho doméstico (Ray, 1988; Dios, 1996).

Podemos observar uma certa incoerência/discordância entre a prática e o discurso tanto masculino quanto feminino. Ao mesmo tempo que ambos concordam com a necessidade de uma atitude igualitária, no dia-a-dia tendem a adotar uma postura tradicional. Jablonski (1991) usa o depoimento de uma mulher que participou de sua pesquisa para exemplificar essa questão: a participante disse que seu marido podia lavar a louça suja sem reclamar, mas, quando o fazia, sempre achava que estava fazendo um favor.

Barnes (1994) abre uma perspectiva interessante quando argumenta que o discurso igualitário masculino tende a não se refletir em atitudes concretas no cotidiano da vida do casal. Por outro lado, as mulheres tendem a colocar empecilhos na atuação doméstica dos homens. Talvez isso ocorra pela manutenção do mito social de "rainha do lar", ou mesmo por receio ou culpa de perder o domínio de uma área da qual, durante muito tempo, foi a principal especialista. Vale ressaltar que esse processo de adaptação a novos papéis tem sido dificultado pela ausência de um sistema social que apóie e sustente os novos modelos conjugais e familiares que estão surgindo. Rocha-Coutinho (2000) observou resultados similares em seu estudo sobre homens e mulheres e a reconfiguração identitária contemporânea.

Os resultados do estudo sugerem que os casais de duplo trabalho podem estar conscientes das limitações e dificuldades desse modelo de casamento. Entretanto, tal conscientização não os impede de perceber os aspectos positivos da relação. A família e o casamento parecem representar um lado reconfortante, um contraponto para enfrentar as demandas e exigências do mundo do trabalho. Ao serem percebidos como locais de apoio e como lugares para aliviar o estresse e as pressões cotidianas, casamento e família podem contribuir para a satisfação em nível pessoal e relacional.

Nossa pesquisa aponta, por fim, para a necessidade de uma nova leitura acerca dos desafios e dilemas presentes nos relacionamentos onde homens e mulheres trabalham fora em tempo integral. A literatura chama atenção para o fato de que as características do casamento de duplo trabalho são potencialmente desencadeadoras de dificuldades. Isto poderia implicar a existência de maior número de casamentos insatisfeitos nesse grupo, o que não foi o caso neste estudo. Nossos resultados revelaram um quadro que pode significar não uma contradição, mas uma mudança. As pessoas parecem estar desenvolvendo estratégias para adaptarem-se às situações estressantes da vida atual de modo a manter a qualidade em seus relacionamentos.

O estilo de vida de duplo trabalho implica geralmente: uma redução do tempo para a intimidade do casal e para a expressão de afeto; a redução do tempo que cada cônjuge dispõe para a família e para si próprio; uma pressão social para investimento na profissão/carreira; pressão socioeconômica para aumento de renda. Tudo isso pode ser fato, mas os resultados dessa pesquisa indicam que os casais parecem desenvolver estratégias e recursos próprios para lidarem com esses e outros dilemas contemporâneos.

O questionamento que originou esse estudo foi: "Casais que trabalham e são felizes: mito ou realidade?". Podemos dizer que a satisfação conjugal em casais que têm que conciliar os mundos do trabalho e da família parece ser uma realidade, e mais: uma realidade que está sendo ansiada e buscada por estes casais. Talvez devamos descartar a idéia de falência da relação conjugal, muito discutida na atualidade, e substituí-la por uma idéia de processo de transformação da função e do significado do casamento.

Há séculos que grande parte das pessoas procura alguém para compartilhar a vida (e ter filhos). Apesar das profundas transformações funcionais que tal fase do ciclo de vida passa na historia da humanidade - ênfase na procriação, ênfase econômica e ênfase afetiva -, a discussão sobre o efeito deletério das mudanças sociais nas uniões estáveis pode começar a ser questionada.

Casamentos informais - união estável -, casamentos em casas separadas, casamentos homoeróticos, tríades relacionais consensuais, entre outros, configuram estruturas e arranjos relacionais bem diferentes do que se estudava há 50 anos atrás. A organização social contemporânea tem apresentado às pessoas o desafio de integrar ou equilibrar, de forma saudável e prazerosa, a "necessidade de criar laços significativos e alcançar a autonomia" (Féres-Carneiro, 2001: 70). O casamento não configura mais ferramenta necessária para a procriação, nem para a sobrevivência econômica em sociedade. Qual é sua função contemporânea? Estaríamos caminhando para uma das melhores fases históricas do casamento? Fica o desafio para que essas e outras questões sejam colocadas e pesquisadas.

 

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Recebido em 29 de abril de 2005
Aceito para publicação em 22 de agosto de 2005

 

 

ANEXO

 

 

 

 

 

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