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Psicologia Clínica

Print version ISSN 0103-5665

Psicol. clin. vol.18 no.1 Rio de Janeiro  2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-56652006000100017 

EDITORIAL

 

Com este número da Revista Psicologia Clínica, a linha de pesquisa em Clínica e Neurociência da Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio celebra seu 1º aniversário. Criada em 2005, a linha de pesquisa reflete o interesse crescente na articulação entre os saberes desenvolvidos por diferentes abordagens da psicologia clínica e da neurociência. Dentre seus campos específicos de produção de conhecimento, são investigados desde os circuitos neurais subjacentes aos processos emocionais e cognitivos e à experiência consciente ou não até as determinações socioculturais implicadas na constituição do sujeito e suas relações com o desenvolvimento, estrutura e funcionamento do sistema nervoso. Nesta perspectiva, temas teóricos e empíricos, envolvendo dados clínicos, correlacionais e experimentais, vêm sendo desenvolvidos. Dentre os temas de interesse, destacam-se as possíveis interfaces de conceitos psicanalíticos e neurobiológicos; sistemas neurais envolvidos na regulação da memória e da emoção; modulações de respostas imunológicas e hormonais pelo sistema nervosos central; origem e expressão de diferentes transtornos de ansiedade; o sentido do sintoma na doença; o desenvolvimento infantil e o estabelecimento de vínculos afetivos.

Os artigos que integram a seção temática da Revista apresentam de modos distintos discussões atualíssimas e fundamentais a respeito do tema geral clínica e neurociência, convidando o leitor a avançar no desdobramento dos tópicos listados acima. Dentre eles, destacam-se a importância da consideração dos aspectos emocionais envolvidos nos processos cognitivos, os desafios da clínica com pacientes neurológicos e os impasses epistemológicos do diálogo entre neurociência, psicologia experimental, psiquiatria e psicanálise.

Considerando a interveniência do estresse na memória, Frank & Landeira abordam o sistema de memória autobiográfica, enfatizando o processo subjetivo de rememoração e relacionando-o à ativação de um substrato neural próprio: as vias corticais extensas cujo ponto de convergência encontra-se na região frontal e em suas interconexões, culminando na área orbitofrontal. Trata-se de um processamento neural complexo que integra diferentes aspectos da evocação, tais como auto-identidade, controle, seletividade e emoção. No artigo Rememoração, subjetividade e as bases neurais da memória autobiográfica, os autores analisam a noção de amnésia orgânica e amnésia funcional com base em achados recentes sobre os efeitos do estresse no cérebro, com destaque para as alterações morfológicas e neuroquímicas resultantes tanto do estresse, quanto da psicoterapia.

Também preocupados com os aspectos não-racionais envolvidos na cognição, Vasconcellos & Machado discutem, no artigo Construtivismo, psicologia experimental e neurociência, a abordagem construtivista e suas relações com algumas descobertas relacionadas à psicologia experimental e à neurociência. Baseando-se na produção científica recente em psicologia, bem como em obras de autores como Gerald Edelman, os autores argumentam que a eficácia dos diferentes modelos de terapia cognitiva pode ser ampliada por intermédio de um trabalho mais voltado para os aspectos emocionais envolvidos na cognição. Criticando a concepção computacional da mente, sua proposta é transformar o construtivismo na metáfora mais apropriada para a terapia cognitiva.

Com uma perspectiva psicanalítica, a Dra. Oppenheim-Gluckman faz o caminho inverso, tendo a clínica ao mesmo tempo como fonte e como horizonte das idéias que apresenta em Dano ao pensamento e identidade subjetiva. Para a autora, apesar das especificidades epistemológicas da psicanálise e do cognitivismo, a questão da cognição concerne à psicopatologia psicanalítica e deve ser considerada pertinente. A partir da experiência clínica e do ponto de vista da economia psíquica, trata-se de tentar compreender a que tipo de experiência subjetiva os sujeitos se confrontam quando categorias de pensamento são atingidas por lesões orgânicas. O artigo tenta esboçar uma formulação sobre qual seria o lugar da cognição na economia psíquica, abrindo pistas para um trabalho psicoterapêutico com pacientes neurológicos.

Por sua vez, Soussumi critica a falta de uma visão integrativa do ser humano resultante do fundamento da cultura contemporânea sobre o paradigma da fragmentação. Tal visão fragmentada tem levado à desconsideração da unidade sobre a qual se desdobraram os fatos e os fenômenos subseqüentes no processo de desenvolvimento e evolução dos seres vivos. Propondo ser o instinto de sobrevivência a base de todos os fenômenos orgânicos e mentais, o autor investiga as suas expressões neurobiológicas e psicológicas indissociáveis. Referido à psicanálise freudiana, o artigo Tentativa de integração entre algumas concepções básicas da psicanálise e da neurociência apresenta ainda a noção de auto-regulação com a qual Freud trabalhava.

Também envolvido na busca de pontes entre clínica e neurociência, Graeff destaca, na história da psiquiatria, a oscilação entre uma perspectiva biológica e outra mentalista. A perspectiva biológica enfatiza explicações calcadas no sistema nervoso central e intervenções psicofarmacológicas. Por outro lado, a perspectiva mentalista prioriza a experiência subjetiva e as intervenções através da psicoterapia. Embora o embate entre estas duas perspectivas esteja longe de ser resolvido, seu artigo Neurociência e psiquiatria defende uma posição intermediária, privilegiando um equilíbrio entre estas duas perspectivas. Para desdobrar seu argumento, Graeff apresenta o pensamento de autores dualistas, que propõem uma interação entre mente e cérebro, assim como de autores monistas, que consideram o cérebro gerador dos processos mentais. Também discute a crítica que o conhecimento de natureza subjetiva, produzido pela psicanálise, vem sofrendo por parte de alguns neurocientistas. Finalmente, Graeff expõe o conceito de "complementaridade" utilizado pela física (Heisenberg e Bohr) como fonte de inspiração para superar o impasse epistemológico entre psicanálise e neurociência.

São justamente os problemas, dos quais tal impasse é sintoma, a temática abordada por Faveret em Neurociência e psicanálise: há possibilidade de articulação? Nele, a autora investiga a proposta contemporânea de interdisciplinaridade entre os campos da psicanálise e da neurociência, examinando os pressupostos epistemológicos dos saberes envolvidos. Enfatizando as dificuldades engendradas pela concepção objetivista de ciência, dominante na neurociência atual, a autora destaca o instrumental teórico oferecido pela visão pragmática da ciência como uma possibilidade de superação do impasse.

A seção livre traz discussões interessantes sobre diversos assuntos, dentre os quais destacam-se: a problemática do lugar do corpo nos modelos psicanalíticos; a relação entre angústia e criação; as relações entre ideologia, poder, autoridade e responsabilidade parental do Estado; o problema do sacrifício a partir do objeto a; a questão da transmissão familiar; os temas freudianos da "afirmação" (Bejahung) e da "negação"; a clínica psicanalítica das psicoses em instituições de saúde mental; as patologias narcísicas e as doenças auto-imunes e, por fim, a anorexia.

Finalmente, a resenha de Sisson & Winograd sobre o livro de Mark Solms & Karen Kaplan-Solms, O que é a neuropsicanálise?, e a resenha de Edler sobre o livro de Jacques Alain-Miller, Silet, Os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan oferecem análises críticas que auxiliam a compreensão de debates atuais da psicologia clínica.

 

Monah Winograd