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Origem familiar e origem de si mesmo: arranjos possíveis

Family origin and self origin: possible arrangements

RESENHAS

Origem familiar e origem de si mesmo: arranjos possíveis

Family origin and self origin: possible arrangements

Carolina de Campos Borges* * Rua Fernando Osório, 02 / 12 - Flamengo - Rio de Janeiro - RJ - CEP 22230-040. E-mail: carolinacambor@gmail.com

Psicóloga; Doutoranda em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

RESENHA DE:

Ramos, E. (2006). L'invention des origines: sociologie de l'ancrage identitaire. Paris: Armand Colin, 220 páginas.

Na chamada segunda modernidade, é cada vez maior uma necessidade de mobilidades, físicas ou virtuais, dos indivíduos. Nelas edificam-se as sociedades comumente qualificadas de "líquidas". Neste contexto, vem se questionando muito a respeito de como são os vínculos estabelecidos entre as pessoas. Erroneamente, tem sido considerado que elas sonham com um mundo sem consistência e detestam tudo o que é sólido e durável; e que a busca de autonomia pelos indivíduos se traduz no desejo de se desfazer de todos os laços. Contudo, o mais correto seria o entendimento de que o que as pessoas querem hoje é poder decidir por si mesmas, escolher o que desejam ter como permanente em suas vidas. Assim, o principal na questão dos laços sociais contemporâneos não está no desejo dos indivíduos de romper com a sua história, com o seu passado, mas sim na busca de uma maior margem de manobra a respeito de sua própria identidade e de seu destino.

Diante disso, que importância a noção de "origem" tem para a estabilidade da identidade individual? Até que ponto a história familiar, que muitas vezes coincide com o que é narrado pelos indivíduos como sendo sua origem, impulsiona e/ou restringe a mobilidade social dos indivíduos?

Em L'invention des origines: sociologie de l'ancrage identitaire, Elsa Ramos (2006) discute a crise do laço social, a crise da perda de referência e a crise da transmissão cultural intergeracional a partir de um estudo realizado pelo referencial da sociologia compreensiva. Nele foi observado o jogo operado na história de pessoas que optaram por se distanciar dos lugares de origem, a fim de compreender como são construídas as referências e a ideia de origem desses indivíduos. Foram entrevistadas 40 pessoas (dentre eles, homens e mulheres com idades entre 30 e 50 anos, sendo metade pertencentes às classes sociais mais favorecidas e metade às menos favorecidas) que decidiram partir de suas cidades de origem para viverem em Paris (França) e periferia.

Referindo-se à "invenção" das origens, a autora ressalta o caráter inventivo da ideia de origem, destacando que o indivíduo realiza um trabalho de construção daquilo que é identificado como sendo sua origem. Ele cria suas referências, suas formas de ancoragem, articulando as normas sociais que definem um "nós" e as aspirações à autonomia que definem um "eu". Esse ponto de vista permite compreender as origens como algo diferente de raízes. Entendida como raízes, a origem enfatizaria a proveniência única do indivíduo. Mas, como ancoragem, a origem tem uma dimensão inventiva: o indivíduo tem uma margem de autonomia, formula e reformula sua trajetória biográfica. Nessa perspectiva, a invenção das origens não nasce do puro imaginário ou de uma história sem ancoragem no social, mas entre determinação social e busca de si mesmo.

Assim, falar em invenção das origens é se posicionar de imediato num contexto de individualismo. A construção das origens se dá pela reinterpretação que o indivíduo faz de sua história e da herança familial no amplo sentido. A questão é, então, a de compreender como essa interpretação intervém na construção de si, já que, na construção da história individual, as ancoragens têm uma função não somente de articulação entre os lugares, mas também entre os tempos, entre passado, presente e futuro.

As origens têm, portanto, sentidos pessoais. A partir do que é vivido individual ou familiarmente, os indivíduos se vêem vinculados a certos lugares que são associados a pessoas e a lembranças de outros tempos. Vai se desenhando, assim, uma "geografia individualizada" composta pelos lugares de reconhecida importância para o indivíduo. Mas a identidade não aparece necessariamente ligada a territórios geográficos, podendo estar ligada a espaços definidos de maneira mais ampla: objetos, sensações, gostos, ou seja, a mundos materiais individualizados.

Assim, a mudança de seu local de origem consiste no afastamento de referências importantes para o reconhecimento de si mesmo. A circulação entre os espaços, muitas vezes indo e vindo, é vivida como um passeio por lugares onde há uma parte de sua vida.

A grande contribuição trazida por Elsa Ramos é que as ancoragens, territorializadas ou não, dão sustentação à coerência identitária dos indivíduos. Deste modo, tanto podem impulsionar o indivíduo à mudança, permitindo que experienciem alguma continuidade de si nos momentos de separação, sejam elas de ordem geográfica, afetiva ou temporal, quanto podem conter este impulso à mudança, restringindo sua mobilidade, sendo referências às quais os indivíduos se encontram presos.

A autora distingue nas ancoragens três dimensões maiores: 1) São mecanismos de gestão do distanciamento geográfico. Quando o indivíduo se muda para outra região, desenvolve estratégias de ligação com os lugares significativos a fim de tornar a distância entre eles suportável. 2) São mecanismos de gestão de separações ligadas a períodos biográficos, a lugares e pessoas da infância e juventude que não existem mais. Esse tipo de separação é intrínseco à evolução da vida humana. Para gerar essas mudanças, o indivíduo vai desenvolver estratégias que têm por objetivo estabilizar a realidade em transformação. 3) São mecanismos de separação - ou seja, de destacamento, de diferenciação - dos espaços de família e/ou do passado. As ancoragens vão permitir ao indivíduo integrar as separações dentro de uma visão da realidade, dando a ela uma coerência. Ter ancoragem impede, então, a deriva, permite a ele "juntar os pedaços". Ela aparece como um reparo que faz com que o indivíduo se sinta dentro de uma rota, uma via.

As ancoragens dos indivíduos podem ser as referências que se guarda à distância - que não fazem parte do cotidiano presente do indivíduo: os lugares, as casas, as pessoas significativas do passado - e também as referências que se encontram à sua disposição na sua vida presente, no seu cotidiano. A autora ressalta que, dependendo da ênfase que o indivíduo dá a essas duas possibilidades de ancoragem, referidas ao passado ou ao presente, os indivíduos se apropriarão diferentemente do espaço onde vivem, o que repercutirá diretamente no tipo de experiência que têm no presente.

A autora destaca duas possibilidades: os indivíduos podem não ser contemporâneos do espaço que habitam; ou os indivíduos podem ser contemporâneos do espaço que habitam. Os primeiros tendem a viver nesta outra cidade uma vida tida como provisória. Ora, ocupar um solo não é suficiente para se sentir "de lá" e a enunciação "eu não sou de Paris" muitas vezes dita pelos entrevistados evidencia a existência de um outro espaço significativo para eles. Esse "outro lugar significativo" diferente do "lugar onde se vive" pode existir dentro dos projetos, dos desejos e também dentro das dimensões da definição de si mesmo dos indivíduos. Querer se definir como "provinciana" revela os jogos identitários operados entre a necessidade de reconhecimento como pertencente a um grupo (seu local de origem) e a "escolha" de se distanciar e destacar dele. Assim, reivindicar uma origem é uma maneira de afirmar sua fidelidade à sua identidade de origem e invalidar a distância geográfica que separa o indivíduo do lugar identificado por ele como chez-soi.

Nesses casos, a vida em Paris e nas regiões parisienses é vivida como uma vida provisória. É muitas vezes invocada na ideia de voltar ao lugar de origem, seja para lá morrer, seja para se fazer enterrar. O lugar do enterro é uma questão chave na compreensão de como se constrói a ideia de origem. Muitas pessoas entrevistadas, apesar de não expressarem o desejo de voltar a viver em suas cidades de origem, relatam que gostariam de ser enterradas lá, junto com seus ancestrais e seus parentes de sangue. Isso evidencia que, mais do que um forte vínculo com o passado, a ligação com o local de origem é uma referência que orienta o indivíduo sobre seu futuro, sobre a direção que ele vai escolher tomar em sua vida.

Da mesma forma, manter intactas no seu local de origem as referências do tempo que se viveu lá, preservando a casa de família, o quarto pessoal na casa dos pais, etc, é uma forma de se manter ligado às suas origens, como se fosse possível guardar o seu lugar lá onde estão suas raízes e, assim, não se desvincular daquele espaço e, consequentemente, daquele tempo passado.

Ter raízes em outro lugar do passado leva necessariamente o indivíduo a se definir como desenraizado no local onde está (no presente) e a viver como alguém incompleto. A distância pode ser interpretada como afastamento do que era próximo e familiar, permanecendo uma sensação de estrangeiridade, que se traduz na proximidade com o que ficou distante.

Lembrando que são as ancoragens o que dá sustentação à coerência identitária, observa-se que, no caso dos não-contemporâneos dos lugares onde vivem, elas promovem uma inversão na ordem de importância do mundo da vida cotidiana e do mundo que ficou distante, de maneira que este último seja visto pelos indivíduos como o centro de suas vidas.

Já no caso dos indivíduos que podem ser contemporâneos dos espaços que habitam, constatou-se que há uma articulação diferente entre a ideia de origem e suas vidas presentes. Eles não concebem a existência de um outro lugar significativo, como os primeiros. É como se cada uma de suas mudanças geográficas fosse acompanhada de um trabalho de reatualização de suas referências. Não há aí referência a raízes, mas a âncoras, que podem ser tiradas e lançadas a outros lugares, dependendo de onde se está. A distância não é interpretada como o rompimento com seu passado e, por isso, não é conflitiva. Esses indivíduos sabem de onde vieram, mas se definem pelos laços que estabeleceram nos diferentes momentos a partir de seus próprios gostos e aspirações. Eles se definem pela continuidade que constroem de si ao longo de seu percurso no tempo e no espaço.

Vemos, assim, que as ancoragens móveis propiciam o sentimento de continuidade de si mesmo, apesar dos deslocamentos geográficos vividos. Elas são o mecanismo de coerência identitária que possui a função de marcador e permite uma forma de estabilização provisória nas mudanças que se desencadeiam ao longo da vida. Essa estabilização é sempre renegociada para permitir a atualização em uma vida cotidiana, na qual o passado não permanece petrificado.

Portanto, ancoragens são necessárias aos indivíduos para que possam se estruturar longe da sua família e cidade de origem. Mudar-se para outra cidade não implica rompimento com seu passado, mas pressupõe, necessariamente, a reformulação dos laços com lugares e pessoas significativos do passado.

Ser destacado das referências do seu passado e do seu local de origem propicia ao indivíduo a construção da sua autonomia. Mas isso só acontece realmente se o indivíduo tiver dentro de si este recurso que lhe possibilita manejar a separação das referências do passado sem que isso seja vivido como a perda de si mesmo. No sentimento de identidade pessoal, o sentimento de autonomia é, assim, a outra face do sentimento de pertencimento. Então, a questão aí é a de se saber como realizar esse distanciamento do passado, entendendo que o "bom descolamento" está compreendido entre pertencimento e autonomia: o indivíduo não deve ser totalmente destacado, mas deve ser suficientemente destacado para se tornar ele mesmo.

L'invention des origines apresenta uma análise muito interessante e apropriada a respeito de como é a experiência de partir do local de origem para viver em outra cidade. Ao final da leitura, fica o leitor com a impressão de que, além da discussão oportunamente aprofundada, sensível e relevante, o livro registra também um primoroso trabalho de pesquisa.

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    Rua Fernando Osório, 02 / 12 - Flamengo - Rio de Janeiro - RJ - CEP 22230-040. E-mail:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      30 Jul 2009
    • Data do Fascículo
      2009
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