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Psicologia Clínica

Print version ISSN 0103-5665

Psicol. clin. vol.23 no.1 Rio de Janeiro  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-56652011000100001 

EDITORIAL

 

 

A presente edição da revista Psicologia Clínica se inicia com a publicação de alguns dos artigos apresentados no evento Afinal, o que querem as mulheres?, levado a cabo numa parceria entre o Departamento de Psicologia da PUC-Rio e a Globo Universidade, em outubro de 2010. Assim, quatro artigos contemplam, à luz de suas orientações temáticas, a questão proposta naquele Seminário. No primeiro deles, "As mulheres desejam o poder?", Joel Birman (UERJ) tece considerações acerca das relações entre a mulher e o poder, no Ocidente, num viés psicanalítico, a partir de um comentário inicial sobre a última eleição no Brasil.

Em seguida, em seu trabalho "Afinal, o que querem as mulheres?", Livia Barbosa (ESPM-SP) questiona tanto o ritmo das mudanças em direção à igualdade entre gêneros (ainda por demais lento), quanto a própria indagação em si. Considerando a autonomia dos quereres, "nascidos de dinâmicas internas ao gênero ao qual pertencemos e condicionados pela sociedade e pelas mudanças que nela ocorrem, talvez a indagação mais adequada seja – Afinal o que nós, homens e mulheres, queremos hoje?".

O terceiro artigo desta seção é de Mirian Goldenberg (IFICS-UFRJ), "Afinal, o que quer a mulher brasileira?", no qual a autora se propõe discutir o papel do corpo como uma importante forma de capital (físico, simbólico e social) na cultura brasileira. Para M. Goldenberg, no Brasil o corpo é um capital, talvez o mais desejado por indivíduos das camadas médias urbanas e das camadas mais baixas, que avaliam a possibilidade de seu uso como um veículo fundamental para a ascensão social e também no mercado de casamento e no mercado erótico.

Encerra a seção temática o artigo "Mulheres empreendedoras: o desafio da escolha do empreendedorismo e o exercício do poder", levado a cabo pela Prof. Eva G. Jonathan (PUC-Rio), que se propõe a fazer uma reflexão sobre a relação das mulheres com o poder, com base em uma síntese das observações feitas em diferentes pesquisas sobre o empreendedorismo feminino. São analisadas as motivações das mulheres para empreender, as consequências dessa opção, bem como as dificuldades enfrentadas e as estratégias utilizadas por elas para lidar com diferentes demandas vinculadas à multiplicidade dos papéis femininos.

A seção livre é aberta com o artigo "Pânico, personalidade fóbica, desamparo e masoquismo: articulações psicanalíticas", de Eloisa Serpa Zanetti (UFSCar) e Rodrigo Sanches Peres (UFU). Nele é apresentada uma leitura psicanalítica do pânico fundamentada em três operadores conceituais propostos por autores nacionais: personalidade fóbica, desamparo e masoquismo. À luz desse material, são discutidos aspectos psicopatológicos centrais dessa modalidade de sofrimento psíquico, salientando a sua natureza multifacetada.

Em seguida, no artigo "Relacionamento conjugal na construção da relação de coparentalidade: implicações clínicas na abordagem da psicologia positiva", Laíssa Eschiletti Prati e Sílvia Helena Koller (UFRGS) abordam a transição do sistema conjugal para a coparentalidade e suas implicações clínicas segundo a Psicologia Positiva — a coparentalidade estendendo-se além do âmbito biológico e englobando funções de cada membro do casal. É enfatizada a transição de papéis, considerada como um processo de crise situacional pelo ajustamento às novas condições, que pode trazer repercussões no relacionamento conjugal. O acompanhamento terapêutico é sugerido como fator auxiliar para uma melhor vivência nesta fase de reorganização.

O terceiro artigo desta seção versa sobre a posição de Freud quanto ao lugar dos afetos do analista na clínica psicanalítica. A partir do exame dos escritos técnicos, Ana Bárbara de Toledo Andrade (UFRJ) e Regina Herzog (UFRJ) salientam a distinção entre a atuação a partir da contratransferência e a sua elaboração – dois destinos possíveis para o afeto do analista. É apresentada também uma análise hermenêutica do termo alemão bewältigen, empregado por Freud para se referir à atividade do analista diante da contratransferência. Com base nessas considerações, as autoras defendem a hipótese de que o texto freudiano daria margem a uma perspectiva positiva quanto à afetividade do analista na experiência psicanalítica.

Em seguida, Giana Bitencourt Frizzo (UFRGS), Luiz Carlos Prado (INFAPA), Juan Luiz Linares (Univ. Autónoma de Barcelona) e Cesar Augusto Piccinini (UFRGS) assinam o artigo intitulado "Aspectos relacionais da depressão: o conceito de 'honorável fachada' em dois casos clínicos", no qual procuram investigar os aspectos relacionais da depressão a partir do conceito de "honorável fachada". Através do estudo de duas famílias com mães com diagnóstico de depressão pós-parto, atendidas em Psicoterapia Breve, os autores identificam evidências empíricas do conceito da "honorável fachada" a partir dos eixos parentalidade e conjugalidade. As evidências encontradas são então avaliadas, examinando-se as vantagens e limitações do uso do conceito de "honorável fachada" em diferentes transtornos depressivos.

Sob a ótica psicanalítica, Alexandre Dutra Gomes da Cruz (PUC-BETIM) e Ilka Franco Ferrari (PUC-MINAS), no artigo "A psicanálise aplicada ao sintoma: uma resposta ética aos impasses enfrentados pelos psicanalistas na atualidade", analisam o impacto de fatores contemporâneos, como o avanço do discurso capitalista e da crescente especialização do conhecimento, no meio clínico, levando a uma fragmentação das grandes categorias diagnósticas. O resultado disso, segundo os autores, é a predominância de instituições cada vez mais especializadas e segregativas, o que poderia ser minimizado por uma psicanálise aplicada que viabilizasse a sua inserção em instituições de saúde sem dissolvê-la no variado campo das psicoterapias. Considerada a partir da teoria lacaniana, a formação do analista e o sintoma são pensados como eixos articuladores das dimensões epistemológica, ética e política da psicanálise aplicada.

"Laços mal-atados como efeito de funcionamento falso-self em tempos de desconfiança": sob este curioso título, Sandra Aparecida Serra Zanetti (USP) e Isabel Cristina Gomes (USP) se apoiam na conceituação de Winnicott para debruçarem-se sobre a contemporaneidade e suas formas de estruturação da subjetividade, atravessadas por condições socioculturais e econômicas que têm promovido laços intersubjetivos frágeis, cujo funcionamento psíquico pode ter uma organização de base falso-self. O artigo também lança mão da contribuição de autores contemporâneos (Bauman, Figueiredo e Giddens) para analisar as condições desorganizadoras do funcionamento psíquico que promovem o isolamento, a desconfiança no ambiente, ou ainda laços mal-atados e funcionamentos de base falso-self.

Dois artigos encerram esta seção. No primeiro deles, "Participação de famílias no Grupo Multifamiliar de Adolescentes Ofensores Sexuais: vergonha e confiança", de Liana Fortunato Costa (UnB), a espinhosa questão relacionada a adolescentes ofensores sexuais é abordada a partir de uma pesquisa qualitativa com a participação de sete famílias em um Grupo Multifamiliar (GM). A autora observou a ocorrência de mudanças nas relações familiares, apesar da dificuldade e do sofrimento em discutirem sobre esta temática. Para ela, a intervenção em grupo ajudou a contemplar a dimensão do sofrimento de todos ao favorecer a aproximação afetiva e amenizar o contexto de punição ao adolescente, a vergonha e o isolamento da família e do adolescente em relação à comunidade e à família extensa.

Em seguida, Marina de Andrade Vahle (USP), no artigo "Matrizes clínicas e ética em Freud", procura distinguir as diferentes matrizes clínicas que Freud encontrava em sua prática. Matrizes estas que direcionaram olhares distintos sobre a cultura e fizeram-no privilegiar alguns elementos éticos em detrimento de outros. Assim, por exemplo, a histeria teria sido responsável por fazer Freud levantar a questão do conflito entre sexualidade e moral na civilização; a neurose obsessiva possibilitaria a entrada dos temas da agressividade e do ódio como entraves contra os quais a cultura se esforça por lutar, assim como a presença no psiquismo da consciência moral e do sentimento de culpa, entre outras.

A presente edição conta ainda com uma seção especial, na qual a antropóloga Mirian Goldenberg (UFRJ) entrevista Claude Fischler (Sociólogo, Diretor de Pesquisas do Centre National de La Recherche Scientifiques – CNRS), que opina com rara sensibilidade e inteligência sobre questões diversas relacionadas à contemporaneidade, tais como a alimentação humana, a obesidade, as relações do homem com seu corpo, papéis de gênero e sexualidade.

Como de hábito, encerramos a revista com informações sobre dissertações e teses defendidas na PUC-Rio ao longo do semestre passado, além de notas sobre os autores e também sobre o conselho editorial.

 

Monah Winograd e Bernardo Jablonski