SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.23 número2Bernardo Jablonski: entre a arte e a psicologia, uma escolha apaixonada por ambas índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Articulo

Indicadores

Links relacionados

  • No hay articulos similaresSimilares en SciELO

Compartir


Psicologia Clínica

versión impresa ISSN 0103-5665

Psicol. clin. vol.23 no.2 Rio de Janeiro  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-56652011000200002 

SEÇÃO ESPECIAL

 

O gênero da risada

 

The gender of laughter

 

 

Mirian GoldenbergI; Bernardo JablonskiII

IDoutora em Antropologia Social PPGAS/MN/UFRJ, Professora da UFRJ
IIDoutor em Psicologia FGV-Rio, Professor da PUC-Rio

 

 


RESUMO

Neste trabalho, pretendemos levantar algumas questões relacionadas à risada como comportamento culturalmente determinado, além de pensar em determinados espaços que valorizam ou estigmatizam a manifestação do humor. Pretendemos refletir sobre possíveis especificidades culturais da risada no Brasil. Existe algo de distintivo na risada brasileira? Na risada de homens e mulheres? Dos mais pobres e dos mais ricos? Mais do que encontrar respostas, pretendemos trazer levantar algumas questões e pensar livremente sobre o significado da risada em nossa cultura.

Palavras-chave: gênero; risada; cultura brasileira.


ABSTRACT

In this paper, we try to raise some issues related to laughter as culturally determined behavior. We try to think in certain spaces that value or stigmatize the manifestation of humor. We intend to reflect on cultural differences of laughter in Brazil. More than finding answers, we try to bring up some questions about the meaning of laughter in Brazilian culture.

Keywords: gender; laughter; Brazilian culture.


 

 

A risada é um fenômeno social. Em geral, os indivíduos riem junto com outros indivíduos e são contagiados pelas risadas dos outros. Não à-toa, os programas de humor de televisão fazem uso de uma claque para que o espectador em casa não se "sinta sozinho". Raramente rimos sozinhos, a não ser que recordemos um fato engraçado ou sejamos estimulados por algum programa (de televisão, rádio, internet ou show). A risada exige uma forma especial de conexão entre os indivíduos. Ela pode ser resultado de alguma provocação jocosa ou de algo inusitado, uma surpresa.

Muitas pesquisas mencionam (Jablonski e Rangé, 1984), dentre os principais fatores envolvidos na produção do humor, a incongruência, a surpresa, a superioridade e o alívio da tensão. Para Berger (1987), são quatro as perspectivas psicológicas que se debruçam sobre o tema: teorias psicanalíticas, da superioridade, da incongruência e as de base cognitiva. As duas primeiras enfatizam aspectos antagônicos das relações sociais entre o emissor e o alvo do humor (grupos ou objetos em um dado contexto), enquanto as duas últimas enfatizam a ironia e o fator surpresa intrínsecos ao conteúdo.

Vista sob outra perspectiva, a risada também pode ser compreendida como uma forma de interação ou de troca, que envolve três termos: dar, receber e retribuir. Os indivíduos reforçam sua solidariedade pelo riso e podem manifestar sua rejeição ao elemento estranho ao grupo também pelo riso. Ele pode reforçar a união do grupo e expulsar os indesejáveis. Pode reforçar a ordem ou subverter essa mesma ordem.

 Norbert Elias (1990) mostra que o processo civilizador pode ser compreendido como um gradual treinamento visando o autocontrole das funções fisiológicas tidas como involuntárias, como os gases corporais, as necessidades excretoras e, também, a risada. A tolerância para com estas reações corporais espontâneas e incontroláveis tornou-se, ao longo dos séculos, cada vez menor. Com a introjeção dos valores "civilizados", os comportamentos de arrotar, urinar em público, comer com as mãos e gargalhar tornaram-se indesejados. Até mesmo a simples menção destas atitudes tornou-se desagradável e ofensiva. A risada passou a ser entendida como um descontrole sobre o próprio corpo e também como um signo de não "civilidade" ou falta de educação.

Nesta mesma linha de raciocínio, Jeudy (1993) aponta que o riso coletivo é muitas vezes julgado como primitivo por significar um retorno a expressões imediatas do organismo, aquém da linguagem verbal. O racionalismo contemporâneo veria no riso a expressão do insensato, do regressivo e do primitivo.

No caso específico do humor, muitas das suas manifestações são, notadamente, vinculadas aos aspectos culturais. Segundo Mintz (1976), para além de questões de conteúdo, o humor é influenciado por elementos ligados à forma, ao estilo e à estrutura, que revelam valores, crenças e preocupações vigentes em uma determinada cultura.

 Segundo os estudos já realizados, parece não existir nenhuma cultura conhecida onde o senso de humor esteja ausente por completo. Diferentes culturas, é claro, riem de coisas distintas: os chineses têm no relacionamento social o alvo maior de suas piadas. No Ocidente, conforme Freud (1980 [1905]) já apontara, sexo e agressão permeiam a maior parte das piadas. Em grupamentos africanos tribais – como os Nyanja, Makus, Amuzgo, entre outros – o ambiente físico imediato é a grande fonte do humor (Shultz, 1976).

Neste trabalho, pretendemos levantar algumas questões relacionadas à risada como comportamento culturalmente determinado, além de pensar em determinados espaços que valorizam ou estigmatizam a manifestação do humor. Pretendemos refletir sobre possíveis especificidades culturais da risada no Brasil. Existe algo de distintivo na risada brasileira? Na risada de homens e mulheres? Dos mais pobres e dos mais ricos?

Mais do que encontrar respostas, pretendemos levantar algumas questões e pensar livremente sobre o significado da risada em nossa cultura e, mais particularmente, na cidade do Rio de Janeiro. Acreditamos que a cidade do Rio de Janeiro é um cenário privilegiado para analisar os corpos, valores e comportamentos das mulheres e dos homens. Aqui há, como diria Malinowski (Goldenberg, 1997), uma verdadeira explosão de significados em uma simples observação nas ruas ou nas praias, tornando possível analisar fatos corriqueiros e aparentemente sem nenhum significado, mas que revelam muito sobre a cultura brasileira, como, por exemplo, a risada.

A partir das respostas que surgiram em uma pesquisa quantitativa realizada na cidade do Rio de Janeiro (Goldenberg, 2002, 2004, 2008), optamos por realizar entrevistas em profundidade com homens e mulheres, também das classes médias do Rio de Janeiro, para compreender o significado e a importância da risada na cultura brasileira.

Estão sendo realizadas entrevistas com homens e mulheres de diferentes gerações: estudantes de segundo grau, universitários de graduação e pós-graduação, antropólogos, historiadores, administradores de empresa, economistas, engenheiros, advogados, médicos, jornalistas, psicólogos, aeromoças, humoristas, diretores de teatro, roteiristas, atores, cantores, músicos, artistas plásticos, fotógrafos, entre outros, para verificar em que momentos e por que motivos eles riem. Até o momento foram realizadas 50 entrevistas, com roteiro semiestruturado e baseado em revisão da literatura. Para avaliação do material obtido através das entrevistas, foi procedida a análise do conteúdo, como proposto por Bardin (2009). As considerações que se seguem são fruto, em grande parte, das respostas por nós obtidas deste material.

 

O valor da risada

O depoimento de uma professora aposentada de 65 anos nos fez pensar sobre os lugares em que a risada é valorizada e outros, onde ela é desvalorizada ou até estigmatizada. Ela disse que apenas após se aposentar descobriu o valor da risada em sua vida, pois o meio acadêmico censurava qualquer tipo de manifestação de alegria ou felicidade, especialmente a risada. Ela afirmou que hoje se sente livre para escolher quem entra e quem sai de sua vida e que o seu principal critério de julgamento é a capacidade de rir junto com a pessoa.

Percebi, depois de velha, que as pessoas que não sabem rir sugam a minha energia, me fazem muito mal. O mundo acadêmico é um mundo de gente que não sabe rir. Eu chegava para dar aulas e tinha que fingir que estava triste pois chegar feliz pegava mal, era um verdadeiro estigma. Eu sempre fingia que estava com um problema gravíssimo, fazia a cara mais infeliz do mundo. Quando me aposentei foi a minha verdadeira libertação. Não quero mais estas pessoas na minha vida.

Um outro depoimento, de um aluno de doutorado em ciências sociais, reforça esta ideia, acrescentando um outro elemento para a discussão: a diferença entre aquele que faz rir e o que ri.

Todos os meus professores são extremamente sérios. Na graduação eu ainda podia rir um pouco, com os colegas. No mestrado, meu riso diminuiu e agora ele desapareceu. Parece que aquele que ri, no mundo acadêmico, é um idiota. Na graduação, tive um ou dois professores excelentes, extremamente dedicados e inteligentes, que usavam o humor para prender a nossa atenção. E funcionava muito bem. Agora sou obrigado a participar de aulas muito chatas, ler textos chatos e também me comportar como um chato. Ser acadêmico é viver de cara fechada e falar um monte de frases que ninguém entende. Só assim nos levam a sério.

É interessante a associação que é feita entre seriedade, respeito e falta de humor, de um lado, e atenção, inteligência e humor de outro.

Aquele que faz rir é considerado mais inteligente do que os outros indivíduos. Para fazer o outro rir, existe um tipo de superioridade, principalmente nesse universo de pessoas intelectualizadas. No entanto, o riso parece que está proibido no meio acadêmico. Aquele que ri muito é visto como tolo, estúpido, superficial, inferior. Se, de um lado, parece existir o reconhecimento da superioridade daquele que produz o riso, aquele que dá uma risada ou, ainda pior, uma gargalhada pode ser considerado inferior.

Há um aspecto instigante nesse processo: o produtor do riso é reconhecido como superior por fazer algo considerado elaborado por meio da inteligência (mas ele próprio não ri). Aquele que ri muito do que este produziu pode ser visto como inferior e até estigmatizado como tolo, idiota, simplório. O mecanismo de distinção (Bourdieu, 2007) funciona para aquele que produz o riso, não para aquele que ri. Do lado de quem produz, existe algo de intelectual, cultural, superior. Do lado de quem recebe, algo visto como espontâneo, instintivo, natural. Percebe-se, assim, uma espécie de oposição entre cultura e natureza. Quanto mais sofisticado é o humor daquele que produz, mais superioridade lhe é atribuída. Quanto mais espontânea é a risada ou gargalhada, mais inferioridade em seu comportamento. Ou, ainda, poderíamos ver algo como "mais civilizado" e "menos civilizado", se recorrermos às ideias de Norbert Elias (1990).

Esta mesma ideia de mais ou menos civilizado, relacionada à risada, surgiu em outro depoimento. Neste caso, a associação foi feita entre o grau de civilização e a classe social.

As mulheres pobres estão sempre gargalhando, e suas risadas são livres e gostosas. As ricas acham que não podem rir porque têm medo de criarem rugas nos olhos e nas bocas. Já reparou como elas dão aqueles risinhos forçados com a boca fechada enquanto as pobres mostram todos os dentes, até as obturações?

Com relação às distinções de classe social, há que se reconhecer que as pesquisas sobre o tema não têm recebido atenção por parte dos estudiosos. Especula-se que, pelo fato de sujeitos de classes mais carentes abordarem mais livremente assuntos tabus, é possível que isto tenha afastado do tópico os pesquisadores de classe média.

Para Attardo (2010), o humor das classes trabalhadoras, por exemplo, representa os valores da classe e são antagônicos aos de classe média. Este tipo de humor raramente se apresenta nos grandes veículos de comunicação de massa, pois colidiria com os padrões de decoro, atitudes e ideologia desposados pela classe média e, esta sim, bem representada em tais veículos. Para este autor, o humor (negativamente) agressivo, homofóbico, escatológico e por vezes abertamente sexual e obsceno, típico das classes menos abastadas, iria frontalmente de encontro aos cânones dos ideais da classe média e alta. Não se trata, evidentemente, de um humor melhor ou pior, mas de um riso simplesmente diferente. Os distintos processos de socialização de indivíduos da classe trabalhadora é que os levariam a este tipo de humor, mais eivado de temas obscenos, escatológicos, agressivos e muito pouco politicamente corretos.

Se, de um lado, o riso pode ser associado à inferioridade, superficialidade, falta de civilidade e de juízo, por outro o riso pode ser associado a aspectos culturalmente bastante valorizados, como leveza, saúde, felicidade, simpatia, comunicação. Nesse sentido o riso é uma forma privilegiada de comunicação, de aproximação, que simbolicamente representa leveza. Em oposição às pessoas pesadas, sérias, que se levam demasiadamente a sério, mal-humoradas etc., aquele que provoca o riso, aquele que ri, é considerado leve. Como pode ser visto no depoimento de uma pesquisada, ser pesada, séria, difícil são categorias de acusação, em oposição ao que é considerado leve, agradável, prazeroso, sedutor.

Não aguento mais ouvir meu marido dar exemplos de mulheres que são leves. Mulheres que gostam de rir e que sabem fazer os outros rirem. Mulheres que brincam de si mesmas, que não se levam tão a sério. Que têm prazer com a vida. Que sabem se divertir. Que são alegres, brincalhonas, agradáveis. Ele sempre diz que sou muito preocupada, tensa, estressada, intensa. Por que esta obrigação das mulheres de serem leves? Leves de quê? De corpo? De comportamento? De personalidade? Ele vive me acusando de ser difícil, complicada, controladora, exigente, e elogiando as mulheres leves, alegres, divertidas, agradáveis. O que isto quer dizer exatamente? Alguém precisa escrever sobre a cultura da leveza.

Um outro lócus de desvalorização do riso está na religião. Embora o humor não esteja ausente há uma inegável desconfiança por parte das religiões acerca do riso e do humor. Para Saroglou (2002), por exemplo, em uma perspectiva psicológica, há uma relação negativa entre as religiões e traços de personalidade, estruturas cognitivas e consequências sociais tipicamente associadas ao riso: incongruência, ambiguidade, nonsense, baixos níveis de dogmatismo e de autoritarismo, desejo de brincar, espontaneidade, atração pelo novo, distanciamento emocional e desejo de transgredir. Todos estes itens, inerentes ao humor, correlacionam-se negativamente com a adesão religiosa.

 

Diferenças de gênero na risada     

Uma das possíveis interpretações da valorização de quem provoca a risada e da desvalorização de quem ri é a associação com a atividade e passividade. Provocar a risada é um comportamento ativo, que exige elaboração de uma piada, interpretação de um ato ou outras atitudes que exigem, em muitos casos, inteligência, raciocínio, sofisticação, rapidez etc. Já rir de uma piada ou de um comportamento é uma reação, em muitos casos passiva, uma mera resposta ao comportamento do outro. Aquele que é ativo é o que domina a relação, o polo valorizado. O passivo, o que recebe, é o dominado, desvalorizado.

No entanto, no caso, a atitude passiva é a daquele que pode ter prazer e não tem de se esforçar para isso, pode apenas esperar pelo prazer provocado pelo outro. Inserida nesse contexto, pode-se ressignificar a expressão tão popular "relaxa e goza", mostrando que o segredo do prazer estaria em apenas receber o que o outro está oferecendo. No caso da risada, a produção do humor estaria do lado ativo. O passivo deveria apenas relaxar e rir.

Outro elemento que poderia estar dentro da mesma lógica de dominação (Bourdieu, 1999) é que aquele que provoca a risada é o que "chama a atenção", "prende a atenção", "domina o ambiente". O outro, o que ri, é capturado pela graça do outro, concentra sua atenção no outro, esquece os demais e até mesmo os próprios problemas, absorvido e "totalmente dominado" pelo comportamento de quem provoca a risada. O que ri "se deixa levar".

Muitos pesquisadores (McGhee, 1976; Leventhal & Cupchik, 1976; Castell & Goldstein, 1976) têm observado que contar piadas é basicamente uma atividade masculina. Já as mulheres suplantam os homens quando o que se objetiva criar é um ambiente afetivo socialmente positivo com relações mais harmoniosas entre seus integrantes.

A ideia de que esta situação reflita tão somente uma situação socioestrutural de iniquidade, em termos de status e poder, pode ser comprovada pelo fato de que a partir dos anos 70, pari passu com o movimento de emancipação feminina, o número de comediantes do sexo feminino tenha aumentado significativamente (Goldstein, 1980).

Com relação ao riso e à intimidade, alguns dos homens por nós pesquisados disseram que, quando estão com problemas no trabalho ou com a mulher, desabafam com amigos que dizem: "vamos beber". Consideram que assim conseguem esquecer o problema que, efetivamente, passa. Eles querem passar momentos agradáveis com os amigos, rir de bobagens, brincar uns com os outros. A risada, para eles, é uma forma de intimidade.

Já para as mulheres a intimidade parece estar relacionada a um jeito de falar sobre si e de ser escutada pelo outro. É um tipo de entrega singular, em que existe aceitação, respeito, troca, apoio, confiança e a capacidade de rir de si mesmo e do outro.

Em um depoimento, uma viúva de 68 anos disse que está muito feliz, pois namora um homem comprometido e bem mais jovem do que ela. Ele tem 40 anos e é casado com uma mulher de 32. Ela contou que eles se encontram quase todos os dias da semana, sempre na hora do almoço.

Ele diz que está comigo porque sou carinhosa, compreensiva, alegre, brincalhona. Ele me chama de sweetheart. Eu adoro! Reclama que a mulher dele é muito mandona, briga muito, exige demais. Ele morre de medo dela. Sabe como ele chama a mulher? Madame Min, bruxa, megera. Ele sente falta de carinho, quer alguém que cuide dele, que o admire, que o faça rir, que ria das brincadeiras bobas que ele gosta de fazer. Nós dois rimos muito quando estamos juntos. Coisa que ele não consegue fazer com a mulher, que está sempre reclamando de tudo.

A intimidade parece estar associada a uma forma mais profunda de comunicação, de conversa, de diálogo, de escuta; e também a um tipo especial de entrega emocional e amorosa que permite que um ria com o outro, ria do outro e de si mesmo. A risada é, também, uma forma de comunicação íntima (Goldenberg, 2010).

Uma das mulheres entrevistadas, casada, relaciona-se, há quase um ano, com um homem que conheceu na internet. Falam-se todos os dias, algumas vezes chegam a conversar mais de seis horas, durante a madrugada. Ela disse que o amante a faz rir muito, coisa que não existe no seu casamento.

Meu marido não sabe rir. Vamos ao cinema e ele não dá uma só risada. Ele está sempre me criticando, não consegue relaxar. Com meu amante posso falar bobagens sem medo, posso ser eu mesma. E algumas vezes ficamos horas e horas só brincando um com o outro, só pelo prazer de rir juntos. Não é o sexo o mais importante para mim. São as nossas risadas.

Para essa mulher, a internet se tornou um espaço privilegiado para encontrar aquilo que deseja e que ela não encontra no mundo "real": risadas gostosas e intimidade. A "realidade" da internet permite, para ela, uma experiência importante que ela não encontra no mundo "real".

Outro depoimento, de um engenheiro, mostra mais uma vez a relação entre risada e intimidade.

Minha mulher tem um amigo de muitos anos. Eu tenho muito ciúmes deles dois, pois o tempo todo eles riem muito. Ela chora de rir com ele. Comigo isso nunca acontece. Tento fazer graça, contar piadas, e ela não acha a menor graça de mim. Com ele, basta eles se encontrarem, ela fica diferente, ri o tempo todo. É como se eles tivessem uma relação muito mais íntima do que eu tenho com ela, como se compartilhassem algo que é só deles e de mais ninguém. Fico pê da vida e acabo brigando com ela, pois é como se ela estivesse me traindo cada vez que dá uma gargalhada com ele.

A risada, nos depoimentos, aparece como uma chave para a intimidade, proximidade, contato físico e emocional. Ela é um meio de comunicação, uma linguagem íntima, um verdadeiro prazer físico e mental.

Os entrevistados falam da importância de "rir com o outro" muito mais do que "rir do outro". Ao falar da importância de "rir com o outro", os pesquisados também falam que a risada é contagiosa. Ouvir ou ver uma pessoa rir faz com que o outro também ria, sem mesmo ter algum motivo. O contágio da risada é percebido como muito positivo, porque se ri também da risada e não apenas de alguma piada ou comportamento. "Rir da risada" é um dos prazeres mais citados pelos pesquisados. Existiria ainda uma hierarquia das risadas: "rir com" seria mais valorizado do que o "rir de". E o "rir de si mesmo" seria mais importante do que o "rir do outro".

Todos os entrevistados afirmaram que gostam de rir e muitos gostariam de rir muito mais. Reclamam daqueles que não sabem rir e dos que não permitem que eles riam mais. Sentem-se perdendo algo importante da vida por não conseguirem rir facilmente e dizem sentir inveja daqueles que riem espontaneamente, sem motivo. A risada é fonte de prazer e, portanto, desejada tanto por aqueles que riem muito quanto por aqueles que não conseguem rir tanto.

A pessoa não precisa ser engraçada para provocar o riso. A situação é que deve ser relaxada, íntima, segura, prazerosa para que um e outro riam juntos. No amor e na amizade, a risada íntima, a risada compartilhada, é um comportamento valorizado e extremamente desejado.

Ainda com relação às diferenças de gênero, o humor bem como determinados comportamentos e ideias associados à alegria e à simpatia também foram abordados em uma pesquisa coordenada por Goldenberg a partir de questionários aplicados em 835 mulheres e 444 homens das classes médias do Rio de Janeiro entre 1998 e 2008 (Goldenberg, 2002, 2004, 2008).

Neste estudo o bom humor foi muito valorizado, tanto por homens como mulheres, constituindo-se como o segundo fator mais importante entre as qualidades que uma mulher deve possuir (simpatia foi o item mais indicado). Quando referido aos homens, o bom humor foi avaliado em primeiro lugar pelas mulheres como a principal qualidade que eles deveriam possuir. Para os homens este item só perdeu – e por muito pouco – para a simpatia. O inverso dessa questão, com o foco nos maiores defeitos de um homem, o mau humor foi a característica mais citada pelos entrevistados de ambos os sexos.

Da mesma forma, a atração sexual teve no sorriso, bom humor e na alegria uma valorização significativa, tanto por homens quanto pelas mulheres. A admiração – item importante na manutenção dos vínculos afetivos – também incluiu o bom humor entre seus ingredientes capitais. Nas demais avaliações, relativas à inveja de traços de personalidade, qualidades de parceiro amoroso, qualidades que gostaria de possuir, entre outras, o sorriso e o bom humor mostraram-se muito importantes para os pesquisados.

Tais avaliações encontram eco em outro estudo levado a cabo por Goldenberg (2008), acerca do tema "Corpo, envelhecimento e felicidade", no qual "ficar ranzinza", e "perder a alegria" associaram-se ao lado negativo do envelhecimento. Inversamente, o envelhecer bem estaria ligado à manutenção da alegria e do bom humor acima de tudo. Uma das entrevistadas de mais de 60 anos foi bem explícita quanto ao valor da risada ao ser indagada sobre os cuidados para não se envelhecer: "Para não envelhecer eu sou feliz, dou risada".

Em suma, estes estudos revelaram uma forte associação, tanto entre os mais jovens quanto os mais velhos, entre a risada, a felicidade e o bem-estar.

 

Considerações finais

Ao analisar o material coletado até o momento, é possível ressaltar algumas respostas interessantes. Assim, todos os pesquisados consideraram a risada um comportamento desejável, prazeroso, espontâneo, saudável, positivo e comunicativo. A maior parte dos pesquisados reportou que gostaria de rir mais em suas vidas. Quanto ao aspecto social, a risada compartilhada foi considerada a risada mais valorizada e o rir de si mesmo foi avaliado como mais prazeroso do que o rir dos outros.

No âmbito das relações afetivas, uma situação íntima e relaxada foi avaliada como mais importante do que o conteúdo para provocar a risada. A risada foi considerada também como muito importante na sedução – apesar de na hora do sexo ela poder atrapalhar: para muitos pesquisados o ato sexual é sério e exige concentração.

"Fazer rir" e "rir com" são uma forma de reconhecimento individual e social, embora existam lugares em que a risada é proibida ou pelo menos não desejável. Segundo alguns, existiria uma linha muito tênue que separa aquilo que faz rir daquilo que ofende. Não é o conteúdo do que é dito que pode ser ofensivo e sim o tipo de relação que existe entre aquele que diz e aquele que é o alvo da piada. O mesmo conteúdo pode provocar uma gargalhada ou ser ofensivo, desrespeitoso, dependendo da relação que existe entre o produtor e o receptor.

Além disso, a risada foi considerada um tipo de prevenção contra o envelhecimento físico e mental. Outras características detectadas disseram respeito à avaliação da risada como algo "leve". Quem ri e quem faz ri foram considerados indivíduos "leves", em oposição aos indivíduos mal-humorados, negativos, pesados e sérios. Observamos também a opinião bastante compartilhada de que fazer rir é uma demonstração de inteligência, sendo o "contágio" da risada algo visto como muito positivo e desejado.

Na pesquisa realizada na cidade do Rio de Janeiro, 84% dos homens afirmaram que riem muito, enquanto 60% das mulheres disseram que gostariam de rir mais.
Os homens riem mais em momentos descontraídos com os amigos. Dizem que os amigos criam situações relaxadas, permitindo que sejam espontâneos e brincalhões.
Dizem também que as mulheres reprimem esses comportamentos. Elas se sentem facilmente ofendidas e os acusam de serem infantis, irresponsáveis ou bobos.
Com os amigos, eles podem falar bobagens sem medo de censura. Com as mulheres, dizem, isso é impossível. Já as mulheres dizem que suas risadas são provocadas por namorado, marido, amigos muito mais do que por outras mulheres.
Para elas, o mais atraente em um homem é o bom humor, a simpatia, a alegria e a capacidade de fazê-las rir. Quando riem, sentem-se mais bonitas, sedutoras, livres e leves.

 Uma comissária de bordo de 45 anos disse que cada vez que ri rejuvenesce, libera endorfina e faz uma verdadeira ginástica no rosto, no corpo e na mente. "Botox não deixa rir. É uma estupidez. Rir é uma terapia psicológica e física".

É óbvio que muitas mulheres riem com as amigas. Mas os dados mostram que gostariam de rir mais. Reclamam que estão sempre ocupadas e preocupadas com filhos, marido, casa, trabalho, aparência etc. Dizem que não sobra tempo, disposição ou oportunidade para se divertirem como gostariam.

As mulheres não riem tanto quanto desejam também pela necessidade de provar que são sérias, responsáveis e competentes. Querem passar uma imagem pessoal e profissional de equilíbrio, confiança e maturidade. No entanto, muitas invejam a liberdade que os homens têm de brincar sem se preocupar tanto com a opinião alheia.

Um fotógrafo de 54 anos disse que o que mais o atrai em uma mulher é a risada.

Dá para fazer a leitura da vida da mulher pelas rugas. Se ela foi amargurada, a boca fica caída. Não importa a quantidade, mas a qualidade das rugas. Uma mulher é linda quando esculpe suas rugas com risadas. Como uma mulher me agrada? Rindo muito e me fazendo rir. Não tem sensação melhor do que dar uma gargalhada. É melhor até do que sexo.

Para homens e mulheres, a risada é uma arma poderosa e irresistível na sedução. Pode-se dizer que a risada é um importante capital no mercado das relações amorosas. E o melhor: é de graça.

 

Referências

Attardo, S. (2010). Working class humor. Humor, 23(2), 121-126.         [ Links ]

Bardin, L. (2009). Análise do conteúdo (ed. revista). Lisboa: Edições 70.         [ Links ]

Berger, A. A. (1987). Humor: an introduction. American Behavioral Scientist, 30, 6-15.         [ Links ]

Bourdieu, P. (1999). A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.         [ Links ]

Bourdieu, P.  (2007). A distinção. São Paulo: Edusp.         [ Links ]

Castell, P. J., & Goldstein, J. H. Social occasions for joking: a cross-cultural study. In: Chapman, A. J., & Foot, H. C. (Eds.). (1977). It’s a funny thing, humour. Oxford: Pergamon.         [ Links ]

Elias, N. (1990). O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar.         [ Links ]

Freud, S. (1905/1980). Os chistes e sua relação com o inconsciente. Obras completas, ESB, v. VIII. Rio de janeiro: Imago.         [ Links ]

Goldenberg, M. (1997). A arte de pesquisar. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]

Goldenberg, M. (1980). Social psychology. N.Y.: Academic Press.         [ Links ]

Goldenberg, M. (2002). Nu e vestido. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]

Goldenberg, M. (2004). De perto ninguém é normal. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]

Goldenberg, M. (2008). Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]

Goldenberg, M.(2010). Por que homens e mulheres traem? Rio de Janeiro: BestBolso.         [ Links ] Goldstein, J. H. (1976). Theoretical notes on humor. Journal of Communication, 26, 102-112.         [ Links ]

Jablonski, B., & Rangé, B. (1984). O humor é só-riso? Algumas considerações sobre os estudos em humor. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 36(3), 133-140.         [ Links ]

Jeudy, H. P. (1993). O riso como prática social. Psicologia e Prática Social, 1(2), 51-58.         [ Links ]

Leventhal, H., & Cupchik, G. C. (1976). A process model of humor judgment. Journal of Communication, 26(3), 190-204.         [ Links ]

Mcghee, P. E. Sex (1976). Differences in children’s humor. Journal of Communication, 26(3), 176-189.         [ Links ]

Mintz, L. E. (1976). American humor and the spirit of the times. In: Chapman, A. J., & Foot, H. C. (Eds.). It’s a funny thing, humor (pp. 17-21). Oxford: Pergamon Press.         [ Links ]

Saroglou, V. (2002). Religion and sense of humor: an a priori incompatibility? Theoretical considerations from a psychological perspective. Humor,15(2), 191-214.         [ Links ]

Shultz, T. R. (1976). A cross-cultural study of the structure of humor. In: Chapman, A. J. & H. C. Foot, H. C. (Eds.). It’s a funny thing, humor (pp. 175-179). Oxford: Pergamon Press.         [ Links ]