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Psicologia Clínica

versão impressa ISSN 0103-5665

Psicol. clin. vol.25 no.1 Rio de Janeiro jan./jun. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-56652013000100007 

SEÇÃO TEMÁTICA

 

Centro de Avaliação Psicológica – CAP: uma clínica-escola especializada em avaliação e diagnóstico psicológico

 

Psychological Assessment Center-CAP: a clinic-school specialized in psychological assessment and psychological diagnosis

 

Centro de Evaluación Psicológica – CAP: una clínica-escuela especializada en la evaluación psicológica y diagnóstico

 

 

Juliane Callegaro BorsaI; Sérgio Eduardo Silva de OliveiraII; Denise Balem YatesIII; Denise Ruschel BandeiraIV

IPrograma de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: juliborsa@gmail.com
IIPrograma de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: sergioeduardos.oliveira@gmail.com
IIIInstituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: yatesbr@gmail.com
IVInstituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: deniserbandeira@gmail.com

 

 


RESUMO

A demanda por uma formação profissional com qualidade fomentou o desenvolvimento do Centro de Avaliação Psicológica (CAP) do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O CAP é uma clínica-escola especializada em avaliação e diagnóstico psicológicos. O presente relato de experiência tem como objetivo apresentar os trabalhos desenvolvidos no CAP, bem como os métodos e práticas empregados no serviço. Com isso, espera-se colaborar com o desenvolvimento da Avaliação Psicológica no Brasil por meio do incentivo de estratégias que qualifiquem a formação de psicólogos na prática da avaliação e diagnóstico psicológico.

Palavras-chave: avaliação psicológica; clínica-escola; formação profissional.


ABSTRACT

The demand for a qualified professional training encouraged the development of the Psychological Assessment Center (CAP) of the Institute of Psychology at the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS). The CAP is a school clinic specialized in psychological assessment and psychological diagnosis. This experiential report aims to present the work developed at CAP as well as the methods and practices employed in the service. It is expected to contribute to the development of Psychological Assessment in Brazil by promoting strategies that will qualify the training of psychologists in the practice of psychological assessment and psychological diagnosis.

Keywords: psychological assessment; school clinic; professional training.


RESUMEN

La demanda de una formación de calidad fomentó el desarrollo del Centro de Evaluación Psicológica (CAP) del Instituto de Psicología de la Universidad Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS). El CAP es una clínica-escuela especializada en la evaluación psicológica y diagnóstico. Este informe tiene como objetivo presentar la experiencia del trabajo en la PAC, así como los métodos y prácticas utilizados en el servicio. Con esto, esperamos poder colaborar con el desarrollo de la evaluación psicológica en Brasil mediante el fomento de estrategias que califican la formación de los psicólogos en la práctica de la evaluación y diagnóstico psicológico.

Palabras clave: evaluación psicológica; clínica de la escuela; la formación.


 

 

Introdução

As clínicas-escola de Psicologia são serviços obrigatórios segundo a Lei nº 4.119 (Brasil, 1964), que dispõe sobre os cursos de formação e regulamenta a profissão de psicólogo no Brasil. O objetivo primordial das clínicas-escola é possibilitar um espaço adequado à formação profissionalizante, assim como consolidar e articular as competências centrais desenvolvidas nas graduações em Psicologia. As clínicas-escola devem oferecer atendimento gratuito ou a baixo custo para a comunidade, constituindo-se em um local onde o estudante recebe treinamento e orientação na forma de supervisões dos atendimentos clínicos, com o objetivo de capacitá-lo para a prática e a reflexão do exercício profissional. As clínicas-escola cumprem, assim, o complexo objetivo de atender de forma mais eficaz possível à comunidade e, ao mesmo tempo, capacitar o aluno de forma ética, técnica e conceitual (Brasil, 1964; Campezatto & Nunes, 2007; Romaro & Capitão, 2003).

Segundo a Resolução 007/2003 do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2003b), a avaliação psicológica é entendida como o processo técnico-científico de coleta de dados, estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos psicológicos através de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos. A denominação "avaliação psicológica" é ampla e envolve o modo de conhecer fenômenos e processos psicológicos por meio de procedimentos de diagnóstico e prognóstico para criar as condições de aferição de dados e dimensionar esse conhecimento (Alchieri & Cruz, 2003). Tavares (2004) ressalta que a avaliação deve manter um compromisso ético e humanitário, que leva a compreender as técnicas utilizadas, suas funções, vantagens e limitações. O seu objetivo não é rotular, mas, sim, descrever, por meio de técnicas reconhecidas e de uma linguagem apropriada, a melhor compreensão de alguns aspectos da vida de uma pessoa ou de um grupo.

O Centro de Avaliação Psicológica (CAP) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é uma clínica-escola especializada em avaliações e diagnósticos psicológicos para a comunidade em geral. Tem como finalidade abrigar as atividades práticas de alunos da graduação, da especialização, de extensão universitária e de mestrado e doutorado do Instituto de Psicologia da UFRGS. Foi criado em 2001 pelos professores do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade e desde a sua criação tem prestado serviços contínuos à comunidade porto-alegrense e da região metropolitana.

O objetivo geral do CAP é apoiar e promover atividades de ensino, pesquisa e extensão nas diferentes áreas concernentes à Avaliação Psicológica, quais sejam, avaliação cognitiva, afetiva e neuropsicológica, entre outras, de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Os objetivos específicos do serviço são: a) oferecer estágios curriculares e extracurriculares, especialmente para alunos dos cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia da UFRGS; b) fomentar a pesquisa nas suas áreas de abrangência; c) atender as demandas de Avaliação Psicológica da comunidade de Porto Alegre e região metropolitana; e d) responder às necessidades específicas de avaliação, especialmente aquelas demandadas por órgãos e agências municipais, estaduais e federais.

O CAP é coordenado pela Dra. Denise Ruschel Bandeira, professora do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade e coordenadora do Grupo de Estudo, Aplicação e Pesquisa em Avaliação Psicológica (GEAPAP). No seu corpo clínico, o CAP conta com uma psicóloga, a qual presta auxílio técnico e especializado aos estagiários e pacientes. O CAP conta, também, com uma equipe administrativa, uma equipe de supervisores e com uma equipe de estagiários. A equipe administrativa é responsável pela organização da agenda e do espaço físico e pela providência dos materiais e recursos necessários para o funcionamento do CAP. A equipe supervisora, formada por alunos de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, é responsável pelo suporte técnico e teórico aos alunos que realizam as avaliações, orientando a condução dos casos e oferecendo supervisões semanais. Por fim, a equipe de estagiários é composta pelo grupo de alunos de graduação e especialização que realizam os processos avaliativos.

Considerando que o objetivo deste relato de experiência é apresentar os trabalhos desenvolvidos no CAP, serão expostos, a seguir, os métodos e procedimentos realizados, bem como as práticas e rotinas de funcionamento estabelecidas no serviço. Finalmente, serão apresentados alguns dados preliminares de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas com o objetivo de caracterizar as queixas e a clientela deste serviço.

 

Os serviços oferecidos

Atualmente, são oferecidos pelo CAP os serviços de acolhimento e triagem, avaliações psicológicas forenses, psicodiagnósticos, avaliações neuropsicológicas e avaliação de funções mentais específicas. Todos os serviços prestados pelo CAP são realizados mediante supervisões semanais. Nas supervisões são discutidos os casos em avaliação, tendo como objetivo fornecer todos os subsídios técnicos e teóricos necessários para o aprendizado do aluno e para a boa condução do caso.

Acolhimento e entrevista de triagem

Tem por objetivo realizar uma compreensão inicial das queixas e do motivo pelo qual o paciente buscou o serviço. A triagem é realizada pelos estagiários do CAP, que preenchem uma ficha padronizada com os dados pessoais do paciente, o motivo da consulta, a fonte de encaminhamento, entre outras informações. Também é nesse momento que os pacientes leem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, caso concordem que o material de seus atendimentos seja utilizado em pesquisas que não os identificarão, assinam o mesmo. Ademais, desde 2009 foi implantado como procedimento padrão o preenchimento do Child Behavior Checklist (CBCL) nos casos de atendimento infantil e adolescente, com pacientes de seis a 18 anos. O CBCL é respondido pelos responsáveis da criança que demanda ingressar no serviço. Através do CBCL, tem sido possível obter uma primeira impressão sobre os principais problemas de comportamento e de competência social apresentados pelo paciente. O CBCL é um instrumento composto de 138 itens, destinado aos pais, mães ou cuidadores para que forneçam respostas referentes aos aspectos sociais e comportamentais de crianças e adolescentes. Os itens do CBCL de interesse para caracterização das queixas da clientela do CAP estão distribuídos em oito escalas individuais que correspondem a diferentes problemas de comportamento da criança, quais sejam, "Ansiedade/Depressão", "Isolamento/Depressão", "Queixas Somáticas", "Problemas Sociais", "Problemas de Pensamento", "Problemas de Atenção", "Comportamento de Quebrar Regras/Delinquente" e "Comportamento Agressivo". Em todas as escalas do CBCL, a criança é classificada como "Clínica", "Limítrofe" ou "Não-Clínica", de acordo com a amostra normativa de pares de Achenbach (2001, adaptada por Bordin, Mari & Caeiro, 1995). Após a entrevista de triagem é determinado o tipo de avaliação adequado para o paciente.

Psicodiagnóstico

Os estagiários realizam o diagnóstico dos mais variados transtornos mentais, de comportamento e de desenvolvimento. O psicodiagnóstico é entendido como um processo com duração de tempo limitada, no qual são utilizados técnicas e testes psicológicos para entender problemas à luz de pressupostos teóricos, assim como para identificar e avaliar aspectos específicos (Cunha, 2003). No CAP, o psicodiagnóstico é realizado no período de entre seis e 10 atendimentos, variando de acordo com o objetivo da avaliação e das técnicas utilizadas. O processo inicia-se com entrevistas. No caso de crianças e adolescentes menores de 18 anos, as entrevistas são realizadas inicialmente com os pais ou responsáveis legais. No caso dos adultos, geralmente as entrevistas são com o próprio paciente e, havendo necessidade, são realizadas entrevistas com outros familiares e/ou outras pessoas significativas. As entrevistas iniciais permitem compreender as queixas principais, os dados da história do paciente, assim como a contextualização do quadro. Após este momento, são aplicadas as técnicas e testagens pertinentes a cada caso (por exemplo, hora do jogo, tarefas, desenhos, observação, administração de testes psicológicos, etc.). Nessas avaliações, o estagiário identifica e analisa aspectos específicos dos casos, estabelece o diagnóstico e prevê o curso possível (prognóstico) do caso. O processo é concluído com a comunicação ao paciente dos resultados através de uma entrevista de devolução da avaliação, nas quais são indicados novos encaminhamentos e sugeridas propostas de solução. O processo de psicodiagnóstico segue, de modo geral, as orientações de Cunha (2003), sendo os passos adaptados às demandas e especificidades de cada caso.

Avaliação neuropsicológica

É o método para investigação do funcionamento cerebral através do estudo comportamental (Mader, 1996). É realizada para verificar o impacto das disfunções neurológicas no comportamento, cognição ou personalidade de um indivíduo. Ela é útil para descrever as possibilidades e as dificuldades cognitivas de pacientes portadores de disfunções, tais como traumatismo crânio encefálico (TCE), acidente vascular encefálico (AVEC), distúrbios da memória, déficits de atenção, distúrbios psiquiátricos ou neuropsiquiátricos, distúrbios do desenvolvimento e da aprendizagem, efeitos do uso crônico de drogas e substâncias tóxicas, entre outras. Nessa avaliação, são investigadas funções cognitivas, emocionais e comportamentais através do uso de testes e procedimentos padronizados, com o objetivo de diagnóstico, pesquisa ou auxílio no planejamento de reabilitação, de programas de recuperação ou de apoio de aprendizagem. As funções avaliadas incluem as áreas: orientação; atenção, memória e aprendizagem; linguagem e funções verbais; habilidades acadêmicas; organização e planejamento; percepção e funções motoras; humor, comportamento e personalidade. A relação entre disfunções neurológicas e dificuldades nessas áreas é realizada através de discussões interdisciplinares de profissionais da área da saúde (neurologistas, psiquiatras, psicólogos e fonoaudiólogos) e de contato com o profissional responsável pelo paciente. No final do processo são feitas orientações para tratamento, sempre que estas se fizerem necessárias. Segundo Corrêa (2009, p. 53), "a importância da avaliação neuropsicológica não se limita à apresentação de diagnóstico e prognóstico, mas também está em direcionar o processo de reabilitação cognitiva".

Avaliação Psicológica Forense

Nesta categoria estão incluídas as avaliações cujos casos estão envolvidos em questões judiciais. Dentre os casos mais frequentes no CAP, citam-se as avaliações de crianças e adolescentes institucionalizados, as avaliações de crianças em processos de disputa de guarda, entre outros. Destaca-se nas práticas da Psicologia Jurídica ou Forense o exercício da avaliação psicológica (França, 2004). As avaliações realizadas nesta área auxiliam na tomada de decisões em diferentes contextos e processos.

Avaliação de funções específicas

Esse serviço busca investigar as funções específicas, as quais são delimitadas na solicitação do profissional que encaminhou o paciente, como, por exemplo, capacidade de atenção ou avaliação cognitiva. Este trabalho transcorre com duração de tempo mais curto se comparado ao Psicodiagnóstico. O diferencial deste serviço é sua característica focal. Aqui se procura responder apenas a pergunta do solicitante (Cunha, 2003).

 

Critérios de seleção

Para ser atendido no CAP, o paciente e/ou familiares precisam demonstrar interesse explícito pela demanda de uma avaliação ou diagnóstico psicológico. Ademais, é importante que estes demonstrem não ter condições financeiras para custear os serviços de um profissional atuante no mercado de trabalho. Este critério visa à valorização da proposta social do CAP, qual seja, oferecer serviços de qualidade para a população de baixa renda. Os casos que não preenchem estes critérios são tão logo encaminhados para os serviços capazes de suprir as necessidades apresentadas.

 

Etapas do processo de avaliação

Os pacientes inscritos para avaliação no CAP realizam uma série de procedimentos que vão desde o agendamento da triagem até a devolução dos resultados da avaliação. A Figura 1 apresenta, esquematicamente, o percurso dos pacientes no serviço.

 

 

Entrada no serviço: a busca pelo serviço pode ser espontânea (por demanda do próprio paciente) ou por encaminhamento (por profissionais e/ou instituições). A inscrição no CAP pode ser presencial, por telefone ou por Internet. Neste caso, o paciente, ou responsável, entra em contato com o CAP solicitando uma avaliação via e-mail (centroap@ufrgs.br) ou site (http://www6.ufrgs.br/capsop/). Este primeiro contato é recebido pelos secretários do CAP que efetuarão o preenchimento de uma ficha de inscrição. Neste momento são coletadas informações de identificação e contato, bem como o registro do motivo da consulta. Em determinados casos, neste primeiro contato já ocorre o encaminhamento, antes mesmo da triagem, quando se observa que a demanda não é para avaliação psicológica, mas para tratamento psicológico ou para a avaliação que competem a outras áreas, como a neurologia, a fonoaudiologia, a psiquiatria, etc. Feito o registro inicial do caso, esse entra para a lista de triagem.

Entrevista de triagem: os pacientes são convocados para uma entrevista de triagem, ocasião em que é realizado o levantamento de dados referentes à condição geral do paciente, uma breve anamnese e a delimitação da demanda. No caso de o paciente ser criança ou adolescente, a entrevista de triagem é realizada com os pais ou os responsáveis. Neste momento, conforme já referido, é realizada a administração do Child Behavior Checklist (CBCL). Em seguida, o caso é relacionado em outra lista intitulada "Lista para Atendimento", onde ficam anexadas a Ficha de Inscrição e a Ficha de Triagem (e nos casos de crianças e adolescentes, é anexado também o CBCL).

Avaliação: na medida em que são disponibilizadas novas vagas na agenda, os casos da Lista de Atendimento vão sendo chamados. Os estagiários recebem os casos por ordem de entrada no serviço e por área de avaliação (Psicodiagnóstico, Avaliação Neuropsicológica, Avaliação Psicológica Forense, Avaliação de Funções Específicas). Assim, os pacientes são atendidos nas diferentes especialidades, de acordo com a expertise de cada avaliador. Ao iniciar o processo, são realizados o contrato de trabalho, a administração de testes e técnicas psicológicas e, nos casos que demandem atendimentos especializados, os avaliadores podem solicitar exames, avaliações e pareceres de outros profissionais e especialidades para a compreensão do caso.

Conclusão do processo de avaliação e encaminhamentos: ao término do processo avaliativo são realizadas as entrevistas devolutivas e os devidos encaminhamentos. No momento da entrevista devolutiva, os avaliadores relatam ao paciente e/ou responsáveis os resultados obtidos. A devolução também pode ser realizada com os solicitantes da avaliação, quando houver. Os avaliadores aproveitam para, neste momento, confirmar os achados do processo avaliativo, bem como levantar novas informações pertinentes. Após a entrevista devolutiva é realizada a redação do documento psicológico com os resultados decorrentes da avaliação, o qual é encaminhado para os solicitantes e responsáveis pelo processo. Para cada destinatário, é elaborado um modelo de documento específico, seguindo as recomendações do Conselho Federal de Psicologia, propostas na Resolução 007/2003, que institui o Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo psicólogo, decorrentes de avaliação psicológica (CFP, 2003b). Uma cópia de todos os documentos produzidos é arquivada juntamente com todo o material da avaliação (relatos de entrevista, instrumentos, etc) em um prontuário que fica no serviço e pode ser consultado posteriormente pelo paciente ou responsável e pela equipe do CAP. Para os casos que apresentarem a necessidade de acompanhamento psicológico, ou de alguma outra especialidade, os estagiários fazem a sugestão de encaminhamento. O CAP possui uma lista de instituições e profissionais conveniados que realizam intervenções terapêuticas, alguns gratuitamente e outros a um preço aquém do de mercado.

 

Perfil dos pacientes atendidos no CAP

Desde 2003, o CAP realizou avaliação psicológica para 246 indivíduos (Figura 2) de diferentes faixas etárias (Figura 3).

 

 

 

Conforme pode ser observado na Figura 2, desde o início do registro e arquivamento dos casos atendidos no CAP (no ano de 2003), o ano de 2004 foi aquele em que ocorreu o maior número de atendimentos, havendo um decréscimo em 2005 e mantendo-se um padrão relativamente estável entre os anos de 2006 e 2009. É possível identificar ainda a tendência de um acréscimo nos atendimentos em 2010. A Figura 2 mostra ainda a predominância de atendimentos para sujeitos do sexo masculino, como em alguns estudos que mapeiam o público de clínicas-escola em Psicologia (Cunha & Benetti, 2009; Reppold & Hutz, 2008). Para identificar o perfil etário dos pacientes atendidos no CAP são apresentadas na Figura 3 a frequência da ocorrência de atendimentos para as faixas etárias de 0 a 12 anos (Crianças), 13 a 18 anos (Adolescentes), 19 a 60 anos (Adultos) e de 61 anos ou mais (Idosos).

Observa-se na Figura 3, portanto, a predominância de atendimentos infantis, sobretudo de crianças em idade escolar, conforme a análise dos casos registrados. Em segundo lugar, os casos mais frequentes são de adolescentes. As revisões encontradas na literatura também referem uma alta demanda de atendimentos na faixa infanto-juvenil (Campezatto & Nunes, 2007; Melo & Perfeito, 2006). Em relação às queixas, a maior parte dos pacientes recorre ao serviço devido a problemas de aprendizagem e de comportamento, (também citados por Melo & Perfeito, 2006; Louzada, 2003; Cunha & Benetti, 2009; Romaro & Capitão, 2003; Campezatto & Nunes, 2007) como as queixas mais comuns. Também são frequentes os problemas de atenção e/ou de hiperatividade, os quais são comumente percebidos no contexto escolar. Também são frequentes casos de suspeita de retardo mental e problemas afetivos. Quanto à fonte de encaminhamento, predominam os realizados pelos neurologistas, psiquiatras e psicólogos.

Em um levantamento realizado através do CBCL, com 52 crianças e adolescentes (75% meninos e 25% meninas, M = 11,5±3,0 anos) atendidos entre os anos de 2009 e 2010, prevaleceram os problemas de atenção, seguido pelos problemas de interação social e de ansiedade e depressão (Tabela 1).

 

 

Observa-se que há um percentual elevado de problemas de comportamento na amostra. Os comportamentos do tipo internalizantes (preocupação em excesso, retraimento, tristeza, timidez, insegurança e medos) prevalecem sobre os externalizantes (impulsividade, agressão física ou verbal, agitação e provocações) (Achenbach, 2001). Este resultado também foi relatado por Reppold e Hutz (2008) na população atendida por duas clínicas-escola no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. No CAP, O CBCL vem mostrando-se um instrumento útil para triagem (screening) dos casos em avaliação. Assim, a intenção é ampliar a utilização dos instrumentos do tipo checklist para problemas de comportamento para as demais faixas etárias, permitindo, assim, novos estudos de caracterização da clientela e da demanda que recorre ao serviço do CAP.

 

Considerações finais

A avaliação psicológica no Brasil está em crescimento. Estudos recentes têm indicado que uma das principais práticas do psicólogo, nas diferentes áreas de atuação, tem sido o diagnóstico psicológico e a administração de testes (Bastos & Gondim, 2010). O Conselho Federal de Psicologia (CFP), preocupado em auxiliar no desenvolvimento deste campo de conhecimento, estipulou o ano corrente (2011) como o ano da Avaliação Psicológica no Brasil (CFP, 2011). Com a Resolução 002/2003 (CPF, 2003a, que define teste psicológico como método de avaliação privativo do psicólogo e regulamenta seu uso, elaboração e comercialização) e a Resolução CFP n° 007/2003 (CPF, 2003b, que institui o manual de elaboração de documentos escritos produzidos pelo psicólogo, decorrentes de avaliação psicológica), o CFP iniciou de modo mais efetivo uma intervenção na área da avaliação, por meio do controle da qualidade dos testes psicológicos. Todavia, a formação dos profissionais nesta área ainda é um tema que precisa ser discutido e regulamentado (Noronha & Reppold, 2010).

Além do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI), organizações e entidades como o Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP), os grupos de trabalho (GTs) de Avaliação Psicológica da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), a Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos (ASBRo) e, mais recentemente, a Associação Brasileira de Testagem Psicológica e Psicometria (ATEPP) vêm desempenhando um papel ativo na discussão acerca da formação e regulamentação da Avaliação Psicológica no Brasil. Todos os esforços visam à construção de uma ciência e de uma prática profissional com maior qualidade.

O serviço prestado pelo CAP vem cumprindo o propósito de atender à demanda da comunidade, que possui dificuldade de encontrar um serviço qualificado. Além disso, o CAP proporciona aos alunos a possibilidade de aprendizado técnico, prático e contínuo. O CAP é um serviço de clínica-escola que, por ser especializado em avaliação psicológica, pode ser considerado pioneiro, uma vez que não se tem notícia de serviços específicos em avaliação nas universidades. Entende-se que o CAP cumpre seu papel de formação, ao mesmo tempo que atende com êxito à demanda da comunidade. Novas medidas vêm sendo implementadas a fim de se buscar melhorias contínuas para o serviço. Dentre elas está prevista a criação de fichas de entrevista padronizadas, informatização dos prontuários e utilização de outros checklists para avaliação de problemas de comportamentos, destinados a adultos e idosos. Recentemente, foi implementado o sistema de agendamento virtual de consultas, eliminando a agenda de papel e facilitando o contato entre as agendas dos profissionais que atuam no CAP.

Ademais, o CAP tem servido ao propósito de fomentar o desenvolvimento científico e profissional da área da Avaliação Psicológica. O material psicológico produzido pelos atendimentos no CAP fica à disposição do Grupo de Estudo, Aplicação e Pesquisa em Avaliação Psicológica (GEAPAP) da UFRGS para a realização de pesquisas. O aprimoramento da prática profissional fica a cargo dos profissionais qualificados que supervisionam e formam aqueles que iniciam suas práticas na área da avaliação psicológica. Este relato de experiência busca contribuir com o desenvolvimento da área da Avaliação Psicológica no Brasil, estimulando outras instituições a criar clínicas-escola especializadas para aprimorar o ensino desta prática.

 

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Recebido em 25 de abril de 2012
Aceitos para publicação em 30 de agosto de 2012

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